Limites e possibilidades nas situaçÕes de crise



Baixar 0,64 Mb.
Página1/6
Encontro11.03.2018
Tamanho0,64 Mb.
  1   2   3   4   5   6

LIMITES E POSSIBILIDADES NAS SITUAÇÕES DE CRISE

Raquel Neto Alves

Queira a transformação [...] através da criação serena, que amiúde com o início termina e com o fim começa (RILKE apud AUGRAS, 1986, p.161).
O conceito de crise tem sido trabalhado na Psicologia em todas as suas abordagens. Pode ser definida como um corte, uma ruptura, uma segmentação, uma descontinuidade em um modo de existir. Esta ruptura promove um caos, uma desconfiguração na existência de quem a vivencia. A pessoa na situação de crise é lançada no inesperado, no inusitado, no desconhecido. Toda crise traz consigo a presença de perigos e possibilidades simultaneamente. Já diziam os antigos chineses no Tao Te Ching, através de Lao Tsé, que se trata do casamento entre perigos e oportunidades. Há nas crises o perigo da paralisação em um tempo e em um espaço já vividos e também a oportunidade de se lançar numa construção nova, no que ainda não é através do trabalho do luto do que se foi. É uma encruzilhada onde a pessoa terá que se posicionar e fazer escolhas diante da situação nova. A possibilidade de se reorganizar de uma forma mais ampla existe ao lado do perigo de fazer o mesmo de uma forma ainda mais limitada e estreita. As situações de crise podem ser vividas face às perdas, mortes concretas e simbólicas, separações, mudanças radicais na existência da pessoa tais como: o adoecimento, o envelhecimento, a aposentadoria, enfim, nas mais variadas experiências limites da história de vida de cada um.

A existência humana é marcada por várias situações de crise que constituem momentos delicados que afetam o devir conforme a pessoa as conduz. A crise pode gerar abertura ou restrição de sentidos. Daí a importância do tema na clínica da Psicologia. A solução elaborada por uma pessoa ao enfrentar uma crise pode ampliar ou restringir suas possibilidades. Uma situação de crise representa, ao mesmo tempo, limites e possibilidades. Tudo dependerá do modo como será elaborada.

De acordo com a Fenomenologia Existencial, a situação do homem é essencialmente ambígua. É tensão e conflito. O conflito não deve ser entendido como algo indesejável e nocivo. Expressa a luta necessária entre polaridades e paradoxos que compõe o próprio processo da vida. A estranheza, sentimento desta situação, deve ser compreendida como o fenômeno mais original no plano existencial e ontológico. O homem é necessidade e possibilidade, permanência e transitoriedade, poder e impotência, vida e morte. A partir daí, é possível afirmar que a existência humana se faz na elaboração permanente de crises, tensões, conflitos e paradoxos inerentes à sua própria condição. Caos e ordem fazem parte do mesmo processo, são faces da mesma moeda. Torna-se impossível falar em harmonia e equilíbrio, mas sim em luta, construção e criação.

A epígrafe de Ranier Maria Rilke apud Augras, 1986, p.161 se refere à morte que traz o nascimento do novo, que principia outro modo de ser e da vida gerada a partir do que se foi. Encontra-se aí uma concepção de morte ligada à transcendência. A finitude como abertura de novas possibilidades. Há também outra possibilidade, que é a morte vivida enquanto imanência. Esta vai dizer da paralisação, do congelamento num tempo, num espaço e em determinada relação. Trata-se de uma experiência que revela a perda do movimento, da permanente impermanência própria da existência. Assim, a morte que gera movimento diz respeito à transcendência e a morte que gera a paralisação se refere à imanência.

Cabe afirmar que a psicoterapia seria um lugar de construção da confiança na transcendência. A saúde encontra-se nesse jogo de interações. Cada estado alcançado destrói o estado anterior. Ordem e desordem são momentos constantes na criação do homem e do mundo.




Compartilhe com seus amigos:
  1   2   3   4   5   6


©psicod.org 2017
enviar mensagem

    Página principal