LiçÕes do passado que ressignificam o presente



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LIÇÕES DO PASSADO QUE RESSIGNIFICAM O PRESENTE. OU PELA REAFIRMAÇÃO DE UMA DIDÁTICA DO ENSINO SUPERIOR
Silvia Alícia Martínez (UENF)
Na Argentina, entre os anos de 1968 e 1976, momento de ampla mobilização política em muitos setores da população, operaram-se profundas modificações no interior da maioria das universidades públicas devido, entre outros motivos, ao “boom universitário” vivenciado nos anos 60, quando grandes contingentes de estudantes se aglutinavam em superpopulosas salas de aula.1

Neste texto focalizaremos, num primeiro momento, três experiências didático-pedagógicas resultantes desse processo de transformação da universidade Argentina: a Oficina Total da Universidade Nacional de Córdoba, o Sistema de Áreas Curriculares da Universidade Nacional de Mendoza e a Dinâmica de Grupos, da Universidade Nacional de Rosário, que se constituíram no objeto de Tese de Doutoramento defendida em 2000.2

Posteriormente, partindo dos questionamentos levantados na investigação e considerando o contexto político, social, cultural e econômico atual, profunda e significativamente diferenciado daquele, o presente estudo se propõe indicar caminhos que possam contribuir para a reafirmação da didática do ensino superior hoje, visando desvendar e/ou modificar as práticas pedagógicas que se operam no interior das salas de aula universitárias.


Vozes do passado à luz do presente
As experiências universitárias argentinas analisadas, que começaram a se elaborar ainda sob a ditadura do General Onganía no final de 1968, tiveram um momento de apogeu com o breve período de democracia camporista, para iniciar o declive a partir de 1974, pelo agir de grupos militares e paramilitares, e ficar completamente desarticuladas em 1976, com o golpe de Estado. Além disso, posteriormente, com o retorno da democracia, não foram retomadas como propostas nem delas foi realizada uma leitura histórica, permanecendo apenas na memória de alguns dos seus mentores e implementadores, que denominamos “guardiões da memória”, já que assumiram como missão, embora não intencionalmente, a preservação dessa memória.

A época que nos ocupa se caracterizou pela profunda mobilização política, não só na Argentina como no resto dos países de América Latina. Entretanto, e contradizendo algumas análises recentes3, partimos da premissa de que não existia, à época, uma relação de subordinação do campo educacional ao campo político. Acreditamos que a variedade de experiências que se desenvolveram no interior das universidades, por aqueles anos, respondia mais a necessidades pedagógicas internas, a reflexões teóricas do campo educacional em particular e ao movimento estudantil universitário, do que a reflexos da mobilização e militância política da sociedade, em geral.

Em relação às fontes utilizadas na pesquisa, verificamos uma grande escassez de materiais escritos disponíveis, cujas causas respondem a problemas de diferente índole. Por um lado, porque não houve preocupação, entre os envolvidos, de realizar o registro das experiências. Como afirmou um entrevistado, tratava-se de uma geração “ágrafa”, unicamente preocupada com o “fazer”, idéia resumida nos grafites dos muros das cidades: mobilização permanente. Por outro lado, essa falta de documentos foi conseqüência do plano orquestrado de apagamento sistemático de memória coletiva desenvolvido pelos militares argentinos, responsáveis pelo golpe de 1976 e pelo desaparecimento de 30.000 pessoas, dentre os quais muitos dos professores e alunos envolvidos nas experiências que nos ocupam.

Esse é o motivo pelo qual recorremos à elaboração de documentos orais, a partir de dezessete depoimentos de professores universitários relacionados com diferentes propostas de mudança pedagógica nas universidades em questão naquele período. Os depoimentos foram analisados à luz de teóricos como Nora (1993), Halbwachs (1990), Pollak (1989, 1992), Portelli (1997); dentre outros.4

O uso de fontes orais, entretanto, não impossibilitou a análise de fontes primárias escritas, quando recuperadas das bibliotecas particulares dos docentes.






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