Lógicas do reconhecimento Aula 7



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Lógicas do reconhecimento

Aula 7

Nesta aula, iremos terminar o comentário sobre a Dialética do Senhor e do Escravo, tal como ela aparece na Fenomenologia do Espírito. Na aula passada, terminamos na descrição dos impasses existenciais próprios à posição do Senhor. Eu havia insistido com vocês que uma forma privilegiada de compreender a luta por reconhecimento apresentada por Hegel passa pela compreensão de como estamos aqui diante de um problema referente à estrutura da liberdade. O processo fundamental que anima a Dialética do Senhor e do Escravo é a afirmação da liberdade. Ou seja, Hegel age como quem lembra: seres humanos não entram em conflito apenas para garantir a realização de suas necessidades, a defesa de seus bens, a afirmação de seus interesses. Eles entram em conflito para realizarem o conceito de liberdade que se coloca de maneira normativa no horizonte de suas ações. Seres humanos não lutam por sua sobrevivência, eles lutam inicialmente para serem vistos como seres livres, mesmo que no interior destas lutas eles verão o conceito inicial de liberdade entre em movimento e transformação.

Nese sentido, todo o movimento começa com a consciência procurando afirmar sua completa independência em relação a toda determinidade exterior, como se a liberdade fosse vinculada à capacidade de se por como ser para-si, o que é uma versão singular da ideia de liberdade negativa. Mas esta liberdade como puro ser para-si é, na verdade, dirá Hegel, uma forma de alienação. Pois ser puro ser para-si só é possível à condição de não trabalhar, de não ter que me confrontar com a exteriorização de si que o trabalho implica no seu contato com o objeto. Daí a transformação da consciência-de-si na figura de uma consciência que não trabalha, a saber, o Senhor. Na verdade, se quisermos ser mais precisos, diremos que o Senhor é uma consciência que ignora como a estrutura do trabalho social a determina.

Mas poderíamos mesmo dizer que, em seu sentido mais profundo, só posso ser puro ser para-si à condição não apenas de não trabalhar, mas principalmente de não desejar, pois a dinâmica do desejo que me leva necessariamente a descobrir que o objeto que desejo não é apenas algo que se submete a mim como minha posse, como mera propriedade. O objeto que desejo é outro desejo. Preciso que o outro que desejo não seja algo que desprezo e desejar o que se submete à condição de mera propriedade é desejar o que não pode me reconhecer como sujeito. Mesmo quando eu submeto o outro à condição de propriedade, eu o faço tendo em vista um terceiro outro que poderia efetivamente me reconhecer, e que se colocaria sob a posição do verdadeiro Senhor. Por isto, o desejo necessariamente leva o Senhor a se despossuir de sua ilusão de independência, a sua liberdade como puro para-si.

Mas sendo a afirmação do puro ser para-si um impasse que só se realizaria à condição de não trabalhar e não desejar (ou seja, que só se realizaria na morte), é a definição da liberdade como independência, como puro pertencer a si mesmo que está em questão. Por isto que terminei a última aula afirmando que, através da figura do Senhor, Hegel está a criticar uma noção de liberdade vinculada à ideia de propriedade de si. O senhor é aquele cuja independência e liberdade está baseado na ilusão do pertencimento de si mesmo, esta é a ilusão fundamental da crença de ser puramente para-si. Mas este pertencimento de si só pode se realizar em uma situação na qual eu me vejo como consciência que goza um gozo que é a afirmação de meu poder sobre mim mesmo e sobre os objetos de meu desejo. Esse poder sobre os objetos do meu desejo equivale a compreender tais objetos como minha propriedade, um pouco como o escravo não é nada mais do que minha propriedade.

Mas ninguém melhor que Hegel em sua dialética do senhor e do escravo demonstrou como havia uma reversibilidade contínua na relação aparentemente dissimétrica entre propriedade e proprietário. Pois Hegel lembrará que o uso da propriedade implica, necessariamente, transformação do próprio proprietário, dependência do próprio proprietário (senhor) em relação à propriedade (escravo), em relação ao modo de existência da propriedade. Como o gozo do sujeito proprietário depende da propriedade e de seu modo de existência, é impossível que esse modo de existência não passe necessariamente no sujeito.

Hegel pode lembrar desta reversibilidade porque, ao menos em sua Fenomenologia do Espírito, as relações de propriedade não aparecem apenas como relações de uso, mas como relações de desejo. Eu não apenas uso propriedades, eu desejo o que se reduz à condição de propriedade e esta é a base do processo de alienação inerente a toda noção de propriedade de si. Meu desejo se submete à forma da propriedade, meu ser se determina no interior de um campo de propriedades. Eu me determino a partir daquilo que se conforma à condição de propriedade. Desta forma, desejar como um senhor de escravo é definir o escravo como o modo de existência do meu desejo, é vincular minha expressão ao que se dispõe integralmente, ao que se define de forma unidimensional, ao que não pode escapar de minha possessão, mas que apenas confirma meu domínio, minha narrativa sobre mim mesmo. Por isto, tal posição só pode ser um impasse existencial.




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