Lógicas do reconhecimento Aula 3



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Lógicas do reconhecimento

Aula 3

Na aula passada, vimos a emergência de uma teoria dos laços sociais fundada na irredutibilidade da noção de conflito, mas que não dava espaço ao aparecimento de uma dinâmica de desdobramentos de tais conflitos no interior de processos de reconhecimento. Tratava-se da teoria política de Thomas Hobbes. Insisti com vocês que Hobbes partia da defesa de uma violência imanente à relação entre indivíduos no estado de natureza. Violência esta responsável pelo horizonte de uma guerra de todos contra todos que nos levaria tendencialmente à despossessão generalizada, à morte violenta e a relações sempre concorrenciais. Vimos como Hobbes mobilizava uma verdadeira psicologia do desejo e dos afetos como fundamento de suas reflexões políticas. Diante desta violência imanente, o estado e o poder soberano apareciam como garantes de uma relação de termos (os indivíduos) sem-relação entre si. Sua legitimidade estaria fundada em um pacto social de proteção e de amparo que, ao mesmo tempo, era uma forma de gestão e incitação do medo como afeto político central. No interior deste pacto, a natureza humana deveria ser reprimida, sua agressividade e violência ontológicas deveriam ser excluída do horizonte de reconhecimento social. Assim, consolidava-se uma clivagem entre minha persona como cidadã e cidadão do estado e minha psicologia, sempre prestes a fazer reemergir as condições próprias ao estado de natureza.

Como havia dito na aula passada, Hobbes nos era importante por fornecer o quadro de problemas que uma teoria do reconhecimento deverá lidar. Pois ela deverá, inicialmente, quebrar o vínculo entre antropologia da violência e legitimação do Estado. Isto implica operar duas saídas possível. A primeira seria fornecer uma outra imagem antropológica, uma outra psicologia, insistindo, por exemplo, na imanência de relações de empatia a fundar campos intersubjetivos cuja primeira expressão é não-conflitual. Retira-se assim o conflito da posição de fundamento da existência social, deslocando-o para o que pode ser regulado devido à presença de um horizonte normativo de experiências de empatia. Esta empatia pode estar presente na vida social, sendo necessária apenas reconstruir as bases normativas de nossa sociedade a partir do que está presente em vários campos da vida social, como fará Axel Honneth. Ou ela pode estar soterrada pelos processos de modernização social, sendo necessário, de alguma forma, recuperar a força de coesão do que foi reprimido em sua origem. Esta é, por exemplo, a estratégia de Rousseau e de sua outra imagem do estado de natureza baseado na compaixão e na expressão.

Haverá, no entanto, ainda outro caminho. Ele consistirá em conservar a compreensão da centralidade do conflito como dado instaurador dos laços sociais, mas procurando constituir um conceito mais amplo de conflito cuja expressão não se reduza à despossessão dos bens e à morte violenta. Para tanto será necessário, por exemplo, recusar o ponto de partida individualista que vemos em Hobbes, insistindo na anterioridade das relações a desapeito de seus termos e, ao mesmo tempo, retomando a teoria do desejo que serve de base a Hobbes a fim de inseri-la no interior de uma noção mais ampla de “negatividade” cuja satisfação e reconhecimento poderá se dar de formas variadas, como tentará fazer Hegel. Ou seja, a estratégia aqui consiste também em modificar a base antropológica da política, mas sem recusar a centralidade ontológica da noção de conflito. Dentro desta dinâmica, poderemos ainda reinserir o conflito no interior de uma lógica na qual a célula elementar não são as auto-afirmações individuais, mas a experiência de pertencimento a uma classe, como faz Marx ao redescrever a noção da sociedade como guerra civil diferida a partir da concepção reguladora de luta de classes, e não mais a partir da noção de guerra de todos contra todos.

Ao final de nossa última aula eu dissera que vamos analisar cada uma dessas alternativas. Neste sentido, gostaria de utilizar a aula de hoje para falar da ausência de uma lógica do reconhecimento em Jean-Jacques Rousseau. Mesmo sendo o teórico que primeiro descreverá a natureza do sofrimento social que mobiliza sujeitos em direção ao reconhecimento, a saber, a alienação, a teoria política de Rousseau não será uma teoria configurada a partir de problemas ligados às lutas por reconhecimento. Mesmo intervendo a imagem antropológica fornecida por Hobbes no estado de natureza, insistindo na importância da compaixão e da empatia, seu contratualismo, assim como a centralidade de sua noção de “vontade geral”, exigirão um certo esquecimento da natureza humana que encontrará expressão apenas, de forma compensatória, no campo das artes (em especial na música), e não no campo da política. Por isto, não haverá dinâmicas de reconhecimento no campo social. Gostaria de expor de maneira sistemática alguns pontos centrais da teoria de Rousseau importantes para nosso debate.




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