Laputa Janer Cristaldo



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Laputa


Laputa - Janer Cristaldo

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Laputa (1887)
Janer Cristaldo (1947–    )


Edição
eBooksBrasil.com
www.eBooksBrasil.com


Copyright
©2000 Janer Cristaldo
cristal@altavista.net



Podemos confrontar nossa
perspectiva de forasteiros
com a dos nativos e semear
assim um inquietante mal-estar
mental que com freqüência resulta
produtivo e benéfico para ambos.
Leszek Kolakowski

 

     Cansado. Não da vida. Mas de cidades. Da agitação, ruído, competição. Da violência dos grandes centros. Das metrópoles onde a luta pelo dinheiro e fama transformava os seres humanos em máquinas de louvar e obedecer. Era uma fuga, não podia negar. Tivera um dia veleidades de literato, fora buscar luzes nos grandes centros e, se luzes encontrara, não suportara seu fulgor. A luta por um lugar sob os holofotes era tão cruenta e a paga, se paga houvesse, tendia a apresentar-se apenas na velhice, quando certamente já estaria corroído pelo desgosto de viver. Não, decididamente não. Suas carnes feneciam a olhos vistos, mais pela falta de sol, talvez, do que por falta de exercício. Ou mudava agora de vida, ou nunca mais.


     Marília, mar, amor...
     São curiosas as circunstâncias que nos levam a certos lugares – pensou com seus botões – a tal ponto que às vêzes parecemos andar sempre atrás de palavras, não de paragens. A opção pela ilha, talvez a devesse em parte à palestra de um professor argentino sobre a literatura local. O conferencista – de cujos dentes salientes uma ouvinte, segredando à sua vizinha, gostaria de fazer um colar – analisava "Singradura", conto de um escritor ilhéu, e começara suas considerações com aquela aliteração que evocava paz, bucolismo, princípio dos tempos. Navegar sempre num mesmo rumo. Mesmo que rumo à morte? Sentada sobre um rochedo, olhando o mar, Marília esperava o amor. "Mar e tempo: pedra e nada; e também Marília, no curso de milênios, pela só integração nas poucas horas de afogada fará sua parte poderosa no seio das marés. Nela sobreviverá seu cheiro virgem e sua espera calada. Pois Marília é mar amantíssimo, de nascença, por decreto imperioso de loucura... Vocação precoce de princesa!"
     Não menos evocativa era a réplica do candidato a amante: "Marília, por minha honra e bandeira, atracarei meu barco nesta Ponta da Galheta muito mais depressa do que é humano, e meus tesouros te cairão aos pés numa tarde nunca tão luminosa em teu país". Não que esperasse encontrar na ilha rendeira tão romântica nem pescador tão camoniano, mas se escritores são os homens que sonham pela comunidade, lá certamente encontraria – esperava encontrar – aspirações outras que não aquela busca febril de dinheiro e status, enfermidade que roía a alma das cidades. Depois de Paris, nada lhe faria tão bem ao espírito do que uma ilha vagarosa, povoada de pescadores e rendeiras. Chegara até mesmo a criar uma frasezinha enquanto fazia suas malas para voltar ao Sul, que não ficaria mal em um romance: onde tem rede tem renda. Só que a frase parava ali, dela nada se concluía. Não ficaria mal em um cartaz promocional da ilha. Mas e daí?
     Ponta da Galheta. A praia existia no mapa. Lá atracaria seu barco.
     O sonho estava morto, pensou. O ônibus descia quase surfando a última das sete curvas. Não que as tivesse contado. Um passageiro informava ao vizinho, certamente forasteiro como ele, que os nativos chamavam aquela elevação de Morro das Sete Curvas, enquanto a gente de fora – ouvia a expressão pela primeira vez e sentiu-se incluído, à revelia, entre estes – preferia chamá-la de Morro do Ó. Ninguém conseguia conter a exclamação ao vencer o cume e deparar-se bruscamente com o festival de verde e azul oferecido pela lagoa, mar e montanha. Sim, o sonho estava morto. Aquele morro, fosse do Ó ou das Sete Curvas, parecia separá-lo física e definitivamente de seus projetos passados, morto e bem sepultado estava o escritor. Iria tratar de cultivar seu jardim. "O mundo é para quem nasce para o conquistar e não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão." Tinha acuidade, o Pessoa. Uma incapacidade atroz de concluir qualquer trabalho o fazia escorregar rumo ao fundo de um poço de álcool e desespero, sem muita esperança de volta à superfície. Tinha nas gavetas centenas de páginas escritas, dezenas de projetos de conto ou romance, mas em nenhum conseguia colocar um ponto final. Deveria existir, certamente existia, na área da psiquiatria, uma definição para aquela doença, e por certo não seria ele o único a portá-la. Melhor então desistir de escrever e parar de morrer. Viva a vida, ou o que resta dela, e foda-se a literatura. Quem não sabe ensina: seria professor. De literatura.
     O ônibus margeava a Lagoa da Conceição, janelas sempre fechadas, o que o transportou a uma antiga angústia, tão antiga que talvez fosse a primeira, pelo menos a primeira posta no papel. Aquele conto, se é que era conto, por azar merecera um prêmio, o que o levara a pensar que sabia escrever. Qual futebolista acariciando as botinas aposentadas, evocou seus primeiros rabiscos.

* * *

     Com as mulheres aprendi a ser homem. Supreendeu-me, de início, a descoberta. Mas, pensando bem, esta é a única aprendizagem possível. Não são as mulheres e seus caprichos os critérios últimos de nossas opções, angústias e atitudes éticas? Não é com a mulher que aprendemos a ser ternos e amantes, impiedosos e cruéis Quando o filósofo disse ser o homem a medida de todas as coisas, generalizava, é claro. Fosse mais específico, estaria mais perto da verdade.


     Viajar (o ato físico, o locomover-se) torna-me mais lúcido, as idéias resvalam ágeis é únicas. Por mais que me inquira, não encontro razões precisas. Aventuro hipóteses: talvez por estar acompanhado e, em verdade, só. Ou quem sabe por sentir-me rasgando a noite (nunca viajo quando dia), afastando-me a cada minuto dos lugares que habito, numa espécie de desmama, de corte umbelical. E sei que qualquer dia não mais voltarei.
     A cidade, amarelecida pelo sol que morre, vai se tornando cada vez menos densa, menos populosa, mais subúrbio. Os passageiros escondem-se em suas golas, afundam seus corpos tensos nas poltronas, como se isto os aquecesse nesta melancólica tarde de julho. O dia faz-se penumbra, a penumbra faz-se noite e na noite os homens calam. Amo este silêncio ruidoso do viajar.
     O vento gelado nas faces, cabelos querendo fugir do couro que os prende, outra possibilidade para explicar meu estado de espírito. Sinto nitidamente os contornos de meu rosto, o vento desenha no espaço as linhas além das quais não existo. Sempre compro um lugar à janela. Por frio que esteja, conservo-a aberta.
     — O senhor não se importaria de fechar a janela?
     Pois não, cavalheiro, vosso pedido fazia-se esperar. Desde há muito ouço esta pergunta, quase já sei exatamente a temperatura suportável por vossas peles. Isto depende também de temperamento. Uma pessoa tímida, por exemplo, suporta mais frio que um passageiro de índole agressiva. O cavalheiro estará no rol dos últimos, pois não? Mas não vou cerrá-la de todo, preciso mais de brisa que você de calor. A janela fechada sufoca. O frio, no máximo, enregela. De modo que...
     Luzes sonolentas surgem na noite. Multiplicam-se, diferenciam-se, passam e somem na distância. Uma cidade sem nome dorme tranqüila. Quadrúpedes semicalvos e barrigudos abrigam-se dessajeitadamente sob Alvos Lençóis, no Recesso do Lar, o Esteio, após cumprirem as obrigações de estado com a Rainha. Milhares de seres sonham pesadelos mais sinceros que suas ilusões de despertos. Jamais saberão da passagem deste proscrito, tampouco dos juízos que faço. Já vos vi em outros lugares, em circunstâncias por vezes irônicas. Ides às praias substituir vossa flácida e incolor epiderme, e código algum legisla sobre esta criminosa proximidade entre mar e mortos.
     E mais me contraem o sorriso suas ambições antropocêntricas. Três bilhões de centros do universo. "Nossa meta é o homem." Já ouvi isto de louvados e ilustres humanistas e também de vendedores de enciclopédias. Ama a teu próximo como a ti mesmo, e seja anátema não aceitar este slogan fóssil, síntese de vinte séculos de mórbida cultura.
     Mas... Será vida o vagido destes vermes, cujo engatinhar um incomensurável universo ignora? Como, cavalheiro? Ah, sim, a janela. Mas como sois mesquinho, interrompendo minhas íntimas reflexões!
     Um troglodita em plena urbe, assim me sinto. Parece-me existirem algumas diferenças psicológicas entre um ser cujo leito foi na infância a grama, e teve por lençóis o orvalho e luar gelados, e outros que nasceram no asfalto, em escuros e sufocantes cubículos. Para estes, a claustrofobia é doença. Cães uivando sem razões que eu saiba, ruídos surdos de dentes triturando a grama, que só ouço se colado ao chão, grilos bordando o silêncio, estrelas cuja visão destrói quaisquer ambições mais altas, eis meu universo mais primeiro, mais bem guardado, e agora, o mais distante. Existirá algum significado nestes milênios de cultura que tiraram um animal da barbárie e de seu ambiente de magia, para torná-lo um ser frágil, cultural e doente? Claustrofobia, cavalheiro, é saúde.
     Outra cidade. De novo, seres tranqüilos, porque inconscientes. Mesmo despertos não têm angústias e lhes são absurdas e doentias as torturas que me impinjo. Sempre tranqüilos, é incrível, e eu os invejo. Mas não consigo sê-lo. Já saindo, nos subúrbios, uma luzinha vermelha pisca na porta de uma casa onde ainda existem sons. É possível que lá dentro um farrapo de mulher, exausta de sua absurda faina diária, sabiamente olhe o vácuo. Se o faz, é minha irmã. Não saberá, mesmo ouvindo os ruídos que me acompanham, que passei a poucos metros de sua morada e confraternizei com seu desespero silente.
     Embaça-se o vidro do arfar das bestas. Também dormem, o próprio motorista talvez esteja dormindo. Discretamente, abro um bocado a janela. E respiro a terra, a noite e os pastos que ela cobre.
     Não tenho tempo para amar-vos. Minha carne débil e branca (vossas cidades destruíram sua antiga cor e rijeza e sua docilidade a meus ímpetos) atesta a marcha sem volta de retorno ao húmus. Dêem-me a vida eterna e amar-vos-ei nas horas vagas. Talvez assim, até mesmo teça um poema otimista à espécie. Esta ternura irônica que ainda em mim resta não se origina de vossos compêndios ou ideais, mas dos lamentos frágeis que ouvi de vossas fêmeas insaciadas. No burilamento de minha rudeza e asperidade, a mulher ocupa um lugar cuja importância me intriga.
     Aos quinze, eu as temia e amava: medo e fascínio do desconhecido. Aos vinte, amei-as: acabou-se o mistério. Entreguei-me, mostrei-me como era, fiz-me vulnerável. Ao perdê-las, sofri por tal ingenuidade. Hoje, elas só conhecem meus gestos exteriores. Apresento-lhes mil faces, deixo-as confusas, conservo meu ego perfeitamente camuflado, faço-as chorar e seu apego à dor me comove. Desta comoção brota minha simpatia por certos seres humanos. Que se extingue quando reflito, por exemplo, sobre a nebulosa de Andrômeda.
     O próprio ato amoroso se me tornou algo dorido. Ao fazer amor, preciso sair de mim mesmo, estabeleço uma ponte até outrem. Esta concessão machuca-me quase fisicamente.
     — A janela, por favor, meu filho está gripado.
     Perdão, senhor, ignorava que esse apêndice vivo que sempre carregais em vossas viagens fora atacado por este inquietante vírus. Já fecho a janela, não serei descortês com meus companheiros de viagem. O único motivo que me impede a paternidade é ver-vos carregados com vossas crias, quais membros aleijados de vossos corpos, que não conseguis comandar.
     Fecho a janela. No vidro, os contornos difusos de meus traços. Mergulho o rosto no calor ambiente. Nem assim adormeço. Os termos de vosso contrato não me satisfazem. Claro que renuncio às vantagens que me seriam outorgadas. Por algumas, lamento. No cômputo total, que falta de perspicácia tendes!
     Luz já quase dilucular. Vontade de noite, desejos de não chegar.

* * *

     Olhava-se naquele texto como no espelho, não no espelho que refletisse apenas a imagem presente, mas em um outro que mantivera fixos e nítidos os traços de um homem nele refletido há vinte anos. Se superpusesse as duas imagens, a passada e a presente, os traços coincidiriam quase que totalmente. Descontada aquela difusa arrogância de jovem que aos vinte pensa já ter exaurido a vida e suas possibilidades, aquele quarentão que fugia das grandes cidades em um ônibus caindo aos pedaços continuava assinando embaixo aqueles impropérios. Ao lê-los, alguém comentara: "em teu texto se nota uma alergia visceral à família". Pois continuava visceralmente alérgico à santa instituição. Só que não mais chamava de quadrúpedes os que a ela aderiam. Os anos lhe haviam ensinado que nem todos os homens tinham estofo para lançar-se a aventuras incertas como a literatura – ele próprio não perdera a aposta? – e afinal de contas, quadrúpedes ou bípedes, todos tinham direito a um lugar ao sol. Quanto às mulheres, continuava a alimentar a mesma ambivalência dos anos passados, até agora não entendia muito bem o que queriam as moças. E continuava a abominar janelas fechadas.


     Duas décadas. O que mudara parecia ter sido o universo, já marchava inexoravelmente aos cinco bilhões de consciências.
     Pensou morar na Barra, seis quilômetros adiante da Lagoa da Conceição, nalguma cabana frente ao mar. Um incidente fortuito o fez mudar de planos. Quase ao final da Avenida das Rendeiras, curva lenta e preguiçosa que margeava a lagoa, à direita, abria-se um campo aberto, povoado por vacas e cavalos. Para um homem saudoso da infância – e quem não o é quando a velhice se aproxima?– aquela visão paradisíaca o convidava a ficar. Espécie de jardim particular, ali poderia afagar os animais, cavalgar, pelo menos enquanto a fúria imobiliária não o invadisse. Reforçando o convite, uma revoada de queroqueros aterrissou com gritos de guerra naquele simulacro de pampa. Não resistiu. Antes que o ônibus abandonasse a avenida, pediu para descer. O motorista estacionou junto a um remanso, três barcos se aproximavam trincando o espelho das águas. Desceu, espreguiçou-se, olhou em torno auscultando sua nova geografia. Se instalaria ali, naquele ponto preciso. À frente, a lagoa. À direita, a montanha. Logo adiante, o mar. Como supremo requinte, com o qual sequer sonhava, uma reprodução em miniatura dos pagos onde nascera: vacas, cavalos e – ó saudades! – um bando de queroqueros. Que mais podia almejar um gaúcho?
     Foi quando atracou o primeiro dos três barcos no trapiche que avançava remanso adentro. Um estremeção lhe percorreu a espinha ao ler ser nome na proa: Fantástico Show da Vida.
     Como se tudo estivesse ocorrendo da melhor maneira possível no melhor dos mundos, encontrou logo adiante uma casa ampla para alugar, já mobiliada, frente à lagoa e tendo aos fundos sua miniatura de pampa. A biblioteca e outras parcas posses chegaram na semana seguinte. Encantou-o a ingenuidade sem nome da proprietária, rendeira, mulher de pescador, tudo parecia fechar, quando ela perguntou: "o senhor escreveu todos estes livros?" Não, Dona Zeferina, não escrevi nenhum. Pela resposta, a Zefa jamais imaginaria que naquele não ter escrito sequer um livro residia todo seu drama e fracasso, as razões de seu exílio. Mas se aquela deliciosa manifestação de desconhecimento do mundo da cultura o encantara, outra observação o colocou em alerta.
     — O senhor não tem televisão?
     Não. Não tinha. Para que televisão em ilha tão linda?
     Zeferina tenta disfarçar sua perplexidade:
     — Nem rádio?
     Muito menos. Não pretendia poluir o silêncio daquele oásis com ruídos e angústias urbanas. A rendeira esgaçou ainda mais a boca. Ao fechá-la, balbuciou que uma vez por semana sua filha viria limpar a casa.
     — O professor vai gostar. Ela foi eleita Princesa da Lagoa no verão passado.
     Oh, não, tudo era sonho! Mar, Marília, princesa...
     Zefa desejou-lhe boa estada e saiu balançando os quartos, falando com seus botões e girando o indicador em torno ao ouvido. Morava na casa ao lado, com a filha e um pequinês, sempre à espera do marido, habitante mais do mar do que da terra. No pátio, improvisara um viveiro de pássaros, uma tela fina cercando um quadrilátero irregular formado pela parede de fundos da casa e dois eucaliptos próximos. Juliano não resistiu. Pediu para olhar o viveiro. Queria aproximar-se dos eucaliptos, arrancar-lhes algumas folhas, triturá-las nas mãos e respirar, palmas em concha, um cheiro verde de infância.
     A mulher o introduziu pela cozinha, imersa em um particularíssimo matraquear, xingando "esses tais de ecologistas, se descobrem meu aviário entram aqui com polícia e fiscais, prendem minha bicharada e largam tudo na ilha do Campeche".
     Mal Juliano entrou no viveiro, uma inquietação percorreu a passarada, parecia pairar no ar um temor qualquer ante o visitante desconhecido. Esparramo de canários e curiós, sabiás e ticoticos voando baixinho e buscando galhos, chilridos assustadiços de pássaros que jamais vira ou ouvira. Foi quando um martelaço estridente feriu-lhe os tímpanos e teve de ranger os dentes para não chorar. Uma araponga. Há séculos não ouvia aquele som de bigorna, cujo eco se diluía em ondas nos campos de Ponche Verde. Arapongas e queroqueros. Junto com o gaúcho estaria também migrando a fauna do Rio Grande? Na imprensa insular lera qualquer coisa sobre a "invasão gaúcha". O que lhe soava estranho, não deixava de sentir-se dentro de seu próprio país ao atravessar a ponte Hercílio Luz. Mas não conseguia imaginar o gaúcho trazendo flora e fauna na garupa. Aproximou-se de um dos cantos do viveiro e roubou algumas folhas do eucalipto. "É para um chá", explicou.
     Organizada sua biblioteca – já descobrira uma forma de transportá-la sem desorganizar livros – tratou de cumprir a visita há tanto tempo planejada. Iria até a Barra. Lá estaria, cansado e doente, o eterno copo em punho, Taba, o responsável por boa parte de suas errâncias. Não havia insistido em publicar no finado Diário de Notícias aquele conto – ou o que fosse – mais tarde premiado em um concurso? Os prêmios literários deveriam ser proibidos para menores de quarenta, pensava agora, assim muito jovem entusiasta não perderia tempo e energias em função de um falso estímulo
     Dez anos depois do fatídico conto, ou crônica, como quisessem, quando já nem sabia por onde andaria Taba, passara em turismo pela Barra. Da praia avistou num dos botequins uma silhueta conhecida. Talvez nem fosse a silhueta o que reconheceu, mas aquele gesto distante de quem olha a vida como se estivesse olhando o mar ao longe. Postura eterna. Podia estar a meio metro de seu interlocutor. Mas olhava um ponto cego acima do ombro do companheiro de mesa, o rosto estático, olhos parados, boca sempre contando coisas, uma boca de lábios finos e róseos, aparentemente deslocados em uma cabeça solenemente encanecida. Quanto mais perto do botequim, menos dúvidas. Só podia ser o Taba, rosto e lábios serenos eram os mesmos, apenas os cabelos mais embranquecidos. Sentou-se à sua frente sem dizer palavra. Contente por dentro, mais pra cachorro que há muito não via o dono. Nos dias de jornalista, vira em Taba um dos raros secretários de jornal a escapar ao epíteto de filho-da-puta e por ele nutria uma afeição quase filial. Sem mover o rosto, Taba o saudou como se o tivesse visto no dia anterior:
     — Meu querido Bagual!
     Bagual! Nem mais lembrava do apelido que lhe fora colado à pele em seus dias de foca, por sua impetuosidade e santa ira em relação ao sistema, sua mania talvez já perdida na curvas do tempo, de reformar o mundo. Bagual! Abraçou-o comovido:
     — Velho Taba de guerra!
     Raro encontrar no mundo pessoas limpas. Gostaria de cultivá-las à medida que ocorriam em sua vida. Notícias sobre os anos em que não se haviam visto. Taba fora ejetado de Porto Alegre após a morte do Diário de Notícias. Abandonara o jornalismo e chafurdava em uma assessoria de imprensa.
     — Sabes como é, Bagual, ou talvez não saibas ainda. Jornalista só adquire algum patrimônio se se deixa corromper. Se insiste em bancar o Quixote, morre fodido e mal pago. Fodido e mal pago já sou, agora só me falta morrer.
     Ignorou aquela desesperança toda, há muito conhecia seu humor.
     — Mas vais morrer na mais linda das ilhas.
     Lábios finos e rosados. Espichou-os alguns milímetros, em prenúncio de ironia.
     — É o que diz todo gaúcho quando chega aqui. Mal tira as botas, fica exposto a três males: bicho do pé, bicho geográfico e encatarinamento. Para os dois primeiros, em qualquer farmácia se compra uma pomada que elimina o bichinho. O problema é o encatarinamento. Aí a cura custa mais caro.
     Iria negar a evidência, que a ilha era linda?
     — Ainda vou gravar – dizia Taba olhando o mar – os depoimentos desses gaúchos de água doce que mal chegam aqui e já se encantam. Vai por mim, meu querido. Três meses e vais juntar alternativas a teu discurso. A ilha é linda, mas... Mais tarde, este mas vai se transformar em repulsa. Com o tempo, vais acabar falando sozinho, chiando pelas ruas: esses catarinas!" Leste Juvenal?
     Não esperou para continuar:
     — Acho que não. Em tua adolescência não havia mais latim no ginásio. Bueno, em Juvenal se vê o despeito dos romanos ante os gregos. Nesta ilha, me sinto grego entre romanos: superior e desprezado. Vai e volta. Quem aporta nestas praias é acometido de uma maldição, acaba se fixando por aqui. Mas ainda vou te ver com saudades das ruas quentes e poluídas de Porto Alegre. Certa vez perguntaram a um catarina o que escolheria, se tivesse de escolher entre a beleza e a estupidez. Sabes o que o ilhéu respondeu?
     Como iria saber?
     — "Ora, a beleza é passageira..."
     Estaria exagerando. A opção não era específica dos ilhéus, tinha de convir. Tentou atalhá-lo:
     — No mundo todo...
     — É – cortou Taba – no mundo inteiro é igual, eu sei. Mas aqui é pior.
     Por que vivia ali?
     — Não saberia te responder. Ou talvez soubesse. Mas não entenderias. Um profissional competente, quando não é valorizado entre os seus, só tem duas saídas: ou decola, contra ventos e marés, ou se suicida. Decolar, não consegui. Me faltou empuxo. Para morrer, qualquer lugar é bom.
     Irritante, aquele fatalismo. A verdade é que Taba fenescia. Mudou de assunto. Estava ali só de passeio, não pretendia estabelecer-se na ilha.
     — Santa ilusão, meu querido. Vais ficar com este verde e este azul grudados nas retinas, as curvas dos morros e os traçados das gaivotas vão invadir teus sonhos. Gaúchos, somos ibéricos, em alguma de nossas células há a nostalgia de mar e deserto, de praia e areia. Um belo dia, daqui a cinco ou dez anos, cansado da cidade grande, vais te perguntar: e por que não a ilha? Eu também vim a passeio...
     Um visionário, Taba. Ou talvez apenas um bom observador. Mais dez anos haviam passado – "horror, pensou, como passam rápido as décadas" – e lá estava ele, cumprindo os vaticínios do companheiro dos dias de jornalismo. Mas recusava-se a endossar seu pessimismo. Há muito desistira de encontrar o paraíso na terra. A ilha teria seus senões, mas seria suficientemente hábil para contorná-los.
     Era domingo e tinha certeza de encontrar Taba no mesmo boteco e certamente na mesma mesa. Se bem o conhecia, era homem de trocar de mulher ou mesmo de mulheres. Mas uma vez adaptado à ambiência de um bar, era fiel como um cão. Vestiu bermudas, calçou guides, tirou das gavetas uma camisa velha e puída da qual temia ter de um dia separar-se e se dispôs a enfrentar os seis quilômetros que o separavam de Taba. Adeus vida sedentária! Quando repechava o primeiro morro, ouviu de uma casa ao lado a voz esganiçada da Zefa:
     — Professor! A parada do ônibus é lá embaixo, no Recanto.
     Não pretendia tomar ônibus. Ia até a Barra. A pé.
     — O professor não tem carro?
     Fez sinal que não. Zefa girou novamente o indicador em torno ao ouvido.
     Domingo de inverno. Mas o inverno parecia ter sido abolido na ilha, por decreto dos deuses ou de alguma autoridade turística. Do alto daquela privilegiada espécie de istmo, divisava à esquerda os veleiros e pranchas de windsurf na lagoa. À direita, os surfistas da Praia Mole. Logo adiante a Galheta, a praia mítica onde o poeta situara sua Marília, sereia sentada olhando o mar à espera do amor. Os poetas, pensou, não se deveriam deixar tentar tanto pelas aliterações. Enquanto vencia o morro, surpreso pela facilidade com que o fazia, lembrava Asdrúbal. Ficção do Taba? De qualquer forma, Asdrúbal pertencia à sua biografia, talvez mítica, quem sabe até mesmo veríssima, sabe-se lá o que se passa na cabeça de um pingüim. Taba o recolhera exangue na praia, não havia na Barra quem não o conhecesse, ficção pura não seria.
     Fiz como me aconselhou o Che" – falava de Guevara, um de seus entrevistados – "hay que darles um purgativo", caso contrário a fauna interna do turista polar era ativada pelo calor tropical, urgia purgá-los de toda possibilidade de infecção. Até ali a história era viável, mas permanecia no ar aquele elemento insólito, o guerrilheiro que se pretendia libertador das Américas aconselhando o jornalista sobre como tratar um pingüim. Mais difícil ainda era engolir a despedida de Asdrúbal. Após alguns meses de Barra, ouviu guinchos familiares certa manhã, além da arrebentação. Jogou-se ao mar e das ondas surgiram três outros conterrâneos, com os quais travou acalorada discussão.
     Taba já dizia mentalmente adeus a Asdrúbal, quando este abandonou os seus e mergulhou de volta rumo à praia. Aproximou-se de Taba e, em seu melhor fraque, inclinou-se três vezes, emitindo comovidos guinchos. Voltou então ao mar, enturmou com os três colegas e jamais foi visto no mar da Barra. Se alguém insinuava estar fazendo concessões aos dados de uma ficção ao ouvir tais relatos, Taba indignava-se e, sabe-se lá, podia até mesmo acontecer que nem tudo fosse ficção. Era difícil distinguir, no jornalista desesperançado, qualquer linha divisória entre a realidade e sua recomposição dos dados da realidade. Assim sendo, Bagual não se preocupava muito com sua amarga visão da ilha, certamente acidez psíquica de homem descontente consigo mesmo. A ilha era linda, e ponto final!
     Seriam onze horas quando chegou à praia. Seis quilômetros em uma hora era boa marca para quem há muito só fazia o trajeto entre a redação de um jornal e o bar mais próximo. Suas referências mais constantes, lembrava agora, eram sempre mesas de bar. Mania de quem abomina lar, o que mais uma vez o transportava ao conto dos vinte anos. Teve alguma dificuldade em situar o botequim do Taba. A Barra havia mudado e para pior, cabanas amontoavam-se lado a lado, transformando uma espécie de favela o que antes fora uma aldeia de pescadores, caixas de som ameaçando abafar o rumor do mar. Lembrou que o bar se chamava Três Irmãos e finalmente o encontrou, era agora restaurante com ares de fino. Deserto. Sentou-se na mesa de Taba, na janela frente ao mar. Se bem o conhecia, jamais teria molhado os pés naquelas águas, gostava de manter "uma distância respeitosa" entre ele e o mar. Uma caipira, por favor. Não precisou esperar muito. Mal havia mergulhado em si mesmo quando um braço amistoso afagou-lhe os ombros:
     — Não disse, Bagual?
     Como se tivessem conversado ontem, continuou o diálogo interrompido há uma década.
     — E quem disse, o que te faz supor, que vim para ficar?
     Sorriu vitorioso:
     — Quem disse fui eu, há coisa de dez anos, nesta mesma mesa – e bateu com a palma da mão na toalha–. Já estava estranhando tua demora. Só há uma cura para encatarinamento, é viver na Santa e Bela Catarina.
     Sempre o mesmo. Talvez mais gordo. Olhos mais tristes. Abraçou-o com uma vaga vontade de chorar. Mas era gaúcho, tinha por obrigação quase profissional não chorar.
     Como se todos aqueles anos fossem uma pausa para ir ao banheiro, retomou sua tese. Que todas as colonizações tinham um sentido econômico, os homens não se mexiam a troco de nada. Os espanhóis haviam colonizado o México porque lá havia ouro. O Peru, em busca de prata. Haviam fundado Buenos Aires à beira de um rio pelo qual podiam chegar a Potosi. Não por acaso, el Rio de la Plata. Fernão de Magalhães tivera sua expedição financiada não para descobrir um estreito, mas para melhor prover os pálatos europeus de especiarias.
     — Lembras daquela tua croniqueta ingênua de adolescente, onde colocavas a mulher como centro do universo e os homens agindo e lutando sempre em função do sexo?
     Claro que lembrava. Como também do sorrisinho demolidor de Taba, ao mandar baixá-la para impressão.
     — Aquele texto me deixou contente, era sinal de que não estavas passando fome. Achar que os homens se movem em função de sexo, é ótica de quem tem a barriga cheia. Voltando à ilha – e fez uma pausa para molhar a garganta – que tinha esta ilha para oferecer ao colonizador? Economicamente, nada. Fora alguns limões para combater o escorbuto, nada mesmo.
     Onde pretendia chegar?
     — A ilha não tem sentido. Não existe desde quando começou a existir.
     No entanto, ali estavam, degustando os camarões da lagoa, sentados sobre seu chão sólido, palpável, e do outro lado da janela meninas em biquini jogavam vôlei sobre suas areias. Imperturbável ante a evidência, Taba prosseguia. Que a ilha fora povoada pela Coroa portuguesa para dar apôio logístico às tropas que defendiam a Colônia do Sacramento.
     — Ao voltarem a Portugal, os lusos esqueceram aqui os pobres diabos açorianos que os abasteciam. Tudo é ficção, desde o começo a ilha é ficção. Que pode dar uma ilha colada ao continente, cheia de sol e de praias, sem riqueza natural alguma?
     Pergunta meramente retórica. Quando entusiasmado Taba não admitia respostas.
     — Sede de governo e paraíso de funcionários públicos. Trocando em miúdos: curral eleitoral, voto a cabresto, corrupção e covardia. Uma pulga chupando o dorso do continente.
     Tinha fama de escrever não com tinta, mas com vitríolo. Não por acaso, jamais esquentara banco nos grandes jornais.
     — Que produz um barnabé? Se amanhã, num desafio ao poder, os bravos ilhéus cruzarem os braços reivindicando algo, o que acontece? Nada. Absolutamente nada. No continente, quem trabalha vai ficar contente. Vão receber menos papéis cobrando impostos.
     Taba exagerava. Que mais não fosse, na ilha não existiam apenas os parasitas de Estado, fauna típica das capitais. Havia o elemento nativo, o pescador, o agricultor, a rendeira.
     — Esses – atalhou – deviam permanecer a semana toda no hospício. Seriam soltos aos fins-de-semana, para contemplação dos turistas em busca de cor local. Estás chegando, meu guri. Deves estar intoxicado de Rousseau, Thoreau e outros utópicos. Deves andar em busca do bon sauvage, quem sabe do paraíso perdido. Estás mortalmente encatarinado.
     Soava-lhe familiar, muito gaúcho e ao mesmo tempo estranho, aquele "meu guri", afinal já não era exatamente o que no Rio Grande se entendia por guri. Os anos haviam passado, para ambos, com a mesma lentidão ou pressa, Taba já entrara nos sessenta e continuava a chamá-lo de guri. Podia não endossar suas hipérboles, mas suas intuições eram fulminantes. Não iria negar que, no fundo mesmo, vivera sempre em busca de um mundo utópico. Havia perambulado por toda a Europa, não poucos livros e viajantes diziam situar-se lá o mundo ideal. Vivera algum tempo no mítico país da liberdade, igualdade, fraternidade, em vão tentara encontrá-las, pelo menos ao alcance da mão de qualquer um. Ou tinha-se souche, argent, ou nada feito. De fato, havia lido Rousseau, Thoreau também. Não que pretendesse viver da pesca ou do cultivo da terra, afinal tinha outras habilitações. Mas invejava quem assim conseguia viver, sem maiores angústias metafísicas.
     — Enfim, bem-vindo sejas – suspirou Taba – . Espero que esta robinsonada não te custe caro.
     Passou a tamborilar na mesa um sambinha:

Trabalha, colono, trabalha.
Lavra, planta e capina.
Pelo preço de tua mortalha
pagas a prancha do menino,
do menino da Joaquina.

Eu dou leite, dou pão, eu dou água,


tiro a comida da terra e do monte.
Com meu suor alimento minha mágoa,
minha mágoa e os vagabundos
do outro lado da ponte.

Cantas tua lagoa formosa,


de águas que não são de cheirar.
Minha vida não é feira de rosas
para que pelo azul de suas águas
possas navegar.

     — Que tal, Bagual? Podia intitular-se, acho, Rancho de Amor ao Continente. Se eles soubessem do que é capaz um jornalista desocupado, criavam uma assessoria para me inventar trabalho. Ouve só o final:






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