Lacan: psicanálise, ontologia e política Aula 3



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Lacan: psicanálise, ontologia e política

Aula 3

Na aula de hoje gostaria de aprofundar nossa discussão a respeito do destino dos processos identificatórios no interior da reflexão lacaniana sobre vínculos sociais. Nós vimos na aula passada como deveríamos partir do diagnóstico social do chamado “declínio da imago paterna” a fim de melhor compreender o quadro de problemas e alternativas que Lacan tinha em vista. Vimos, por exemplo, como a aposta em uma transcendência negativa necessária da Lei era a forma lacaniana de insistir nas possibilidades, abertas pelo advento da família conjugal, de socializações capazes de abrir espaço a “subversões criadoras”. Tal possibilidade de socialização através de transgressões possível das figuras empíricas de autoridade devido a pressão de transcendência da Lei estaria em declínio, o que nos explica como o “declínio” ao qual Lacan se refere não é um declínio em relação a uma situação que teria estado anteriormente em operação, mas um declínio em relação ao campo de possíveis que ainda não se atualizou. Tal modo de socialização nunca existiu de fato, mas poderia aparecer como uma possibilidade imanente ao funcionamento da família conjugal. Daí porque não faz sentido se perguntar sobre o momento no qual a imago paterna não teria entrado em declínio.

Por outro lado, o diagnóstico lacaniano de colapso das possibilidades de transcendência negativa da Lei lhe leva a uma configuração de problemas sociais que servirão de ponto de partida para sua reflexão sobre a possibilidade do impacto da psicanálise enquanto experiência crítica das sociedades contemporâneas. Lacan falará então da redução dos processos identificatórios do Eu à dimensão imaginária e da consolidação de determinações de relações (sejam relações a si, sejam relações ao mundo) baseadas no narcisismo. Este tópico da generalização do narcisismo será a forma lacaniana de afirmar que a referência do processo analítico à realidade socialmente partilhada não pode fazer outra coisa que referendar formas de reificação generalizada. Não é em nome do princípio de realidade que o analista pode orientar a conduta do Eu do analisando. A realidade é apenas uma esfera de projeções e internalizações egomórficas que precisa de uma contínua expulsão de toda alteridade real para sustentar sua homeostase. Daí a fragilidade das relações narcísicas e sua necessidade contínua de sustentar-se através de identificações com figuras superegóicas que são apenas a projeção narcísica dos próprios sujeitos aos quais a elas se submetem.

Desta forma, Lacan procurava fornecer uma reflexão psicanalítica sobre os processos de regressão social fascista que assombravam a Europa na década de trinta. Vimos ainda como sua resposta a tais regressões passava pela possibilidade de mostrar como a política nos emancipa quando ela nos leva a nos identificarmos com um lugar vazio. O comentário ao texto lacaniano “A psiquiatria inglesa e a guerra” visou mostrar como o operador de constituição de grupos a partir da identificação ao lugar simbólico vazio do poder permitiria a possibilidade de processos de “tomada de consciência” da ausência de fundamentação natural do laço social baseada na assunção de alguma forma de identidade coletiva, na possibilidade da consolidação de relações igualitárias baseadas na falta de aderência entre os ocupantes do lugar do poder e o próprio lugar, com a possibilidade de uma circulação de posições no interior do grupo e uma poliformidade das próprias relações de poder. Este modelo lacaniano pressupõe um esvaziamento das identificações imaginárias com as figuras do poder e uma emergência da força das identificações com o lugar simbólico não-saturado, o que pressupõe um problema importante que será de difícil resolução, a saber, que as coordenadas que constroem e definem o lugar, que a espacialidade do poder em suas determinações tópicas de relações seja sustentada.

Por fim, eu lembrara como tais discussões estão relacionadas ao dispositivo clínico do desejo do analista como um desejo puro, que estará presente em Lacan até o final dos anos cinquenta. Esta aposta clínica no desejo puro deve ser lida como a consequência de uma leitura política. Ela explicita a função imanente ao desejo como pura negatividade, que Lacan traz de suas leituras de Kojève. Longe de ser uma espécie de idealização religiosa da falta, de uma socialização feita através do aprendizado da quebra das ilusões de onipotência do desejo, aprendizado da realidade madura de nossa finitude, do impossível do gozo etc., o que temos em Lacan é uma operação que visa lembrar que o desejo só pode estar em falta em relação às determinações sociais atualmente disponíveis. Um desejo como falta não é necessariamente um desejo que expressa a finitude dos sujeitos. Ele pode também ser pensado como modo de experiência do excesso da potencialidade do desejo em relação às determinações fenomenais imanentes à situação atual.



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