Juventude e Identidade



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JUVENTUDE E IDENTIDADE

Nildo Viana


Resumo: O presente artigo aborda o tema da constituição da identidade da juventude. Para tanto, define brevemente os conceitos de identidade e juventude e, posteriormente, apresenta a hipótese de que tanto a juventude quanto sua identidade são constituídas socialmente e que ambas são produtos do “mundo adulto” e de suas várias formas de ação sobre os jovens, através das ciências modernas, meios de comunicação, representações cotidianas, etc. A juventude, porém, esta é a conclusão final do artigo, produz sua identidade de forma ambígua, revelando aceitação e negação das imposições do mundo adulto, incluindo a reinterpretação de sua própria contestação deste mundo.

Palavras-Chave: Juventude, Identidade, Adulto-Padrão, Socialização, Ressocialização.


Abstract: The present article approaches the theme of the constitution of the youth's identity. For so much, it defines the identity concepts and youth shortly and, later, it presents the hypothesis that so much the youth as your identity is constituted socially and that both are products of the " adult " world and in your several action ways on the youths, through the modern sciences, communication means, daily representations, etc. the youth, however, this is the final conclusion of the article, it produces your identity in an ambiguous way, revealing acceptance and denial of the impositions of the adult world, including the reinterpretation of your own reply of this world.

Word-key: Youth, Identity, Adult-Pattern, Socialization, Resocialization.


A juventude é um grupo etário que vem recebendo inúmeras pesquisas e análises sob os mais variados aspectos. O presente trabalho pretende apresentar uma contribuição a um destes aspectos, a saber: a questão da identidade da juventude. A problemática aqui abordada é a da formação da identidade da juventude, buscando descobrir o seu processo de constituição.

A primeira questão a ser respondida é o que significa “identidade”. Não cabe aqui discutir as diversas concepções de identidade e sim apresentar uma definição que permita analisar o processo de constituição da identidade da juventude. A maioria dos autores define identidade como “conceito de si” ou “representação de si” (Jacques, 1998). Assim, a identidade é a auto-imagem desenvolvida pelos indivíduos e/ou grupos sociais.

A formação da identidade é um fenômeno social marcado por um “processo de reflexão e observação simultâneas” que atinge a totalidade do universo psíquico e no qual o indivíduo julga a si próprio a partir do julgamento dos outros (Erikson, 1987, p. 21). A identidade é formada tendo por base “quadros de referência” (Guattari & Rolnik, 1996), isto é, o indivíduo cria sua identidade num contexto social delimitado. A identidade do indivíduo vai sendo formada através de sua experiência, observação e reflexão e todos estes fenômenos constituem um processo que também é social.

A experiência e a observação são referentes às relações sociais, bem como a reflexão se realiza, também, sobre um material social. O próprio processo de experiência, reflexão e observação é social, pois um indivíduo não observa tudo que lhe cerca ou acontece mas somente o que ele seleciona de acordo com seus valores, que são constituídos socialmente. Se a formação da identidade é um processo social, então se torna necessário entender o papel do Outro e sua importância neste contexto. A identidade é a auto-imagem do indivíduo produzida por ele e para ele mas também pelos outros e para os outros. O indivíduo, enquanto ser social, forma sua identidade através do seu processo de socialização (Berger & Berger, 1978) e a auto-imagem que faz de si é, também, um produto social.

Isto também é válido para os grupos sociais, inclusive a juventude. Vários pesquisadores já colocaram que a juventude é uma “construção social” ou da “modernidade” (Groppo, 2000; Muuss, 1974; Avanzini, 1980) ou, então, que é “apenas uma palavra” (Bourdieu, 1983) e notaram a inexistência da juventude em sociedades pré-capitalistas (Áries, 1986) e a partir dos dados etnográficos (Mead, 1978) é possível questionar sua existência nas sociedades pré-classistas e indígenas. Para compreender a formação da identidade da juventude, isto é, de sua auto-imagem, é necessário, anteriormente, definir este grupo social, revelando o que lhe caracteriza enquanto grupo.

Entre as diversas definições de juventude, há poucas que destacam o seu caráter social. O que predomina na esfera das representações cotidianas, dos meios de comunicação e das ciências naturais é a concepção biologicista ou psicologista. No entanto, já há muito tempo historiadores, antropólogos, sociólogos, entre outros cientistas sociais vem apresentando um amplo material informativo e diversas reflexões e análises que desmentem as concepções biologicistas e psicologistas. Apesar de não haver unanimidade neste grupo sobre a questão da juventude, pelo menos houve um avanço comum na superação dos obstáculos ideológicos e na compreensão de que a juventude é um fenômeno social.

Dentro de uma perspectiva que compreende a juventude como um fenômeno social é preciso encontrar uma definição que permita avançar no processo de análise da identidade da juventude. A definição que servirá de base para a presente análise é a que considera a juventude um “grupo etário composto pelos ‘jovens’, isto é, indivíduos inseridos no processo de ressocialização” (Viana, 2004). Desta forma, a ressocialização é o que caracteriza a juventude. A ressocialização, ou “socialização secundária”, é um momento na vida dos indivíduos da sociedade moderna na qual eles são preparados para realizarem uma integração completa na sociedade, tanto na esfera do trabalho quanto na esfera das responsabilidades sociais.

A criança é socializada no seio da família, da escola e da comunidade para o convívio social, o civismo, etc., enquanto que o jovem recebe uma ressocialização mais específica, que o prepara para o mercado de trabalho, tendo, pois, um caráter profissionalizante, ensino técnico, superior, etc., o que traz uma das características apontadas como sendo típicas da juventude: a escolha profissional ou vocacional (Muuss, 1974; Spranger, 1970) e para as responsabilidades sociais (casamento, família, vida política). Embora haja diferenças neste processo dependendo da classe social, cultura, etc., esta é a base social e unificadora deste grupo etário (Viana, 2004).

Sendo assim, este grupo etário é constituído em uma sociedade na qual a passagem da infância para a idade adulta é mediada por um período de formação, mais ou menos longo, no qual algumas instituições serão fundamentais, especialmente a escola (Avanzini, 1980). Para os jovens das classes trabalhadoras, a passagem pela escola pode ser mais breve e no caso dos setores mais empobrecidos pode ser até mesmo inexistente, e neste caso o processo de ressocialização se dá via trabalho precoce e possui um período mais curto, tal como se vê nos casamentos realizados numa faixa etária menor do que em outros segmentos sociais (Singer, 1976).

A questão fundamental deste trabalho, que será desenvolvida a partir de agora, é como este grupo etário produz sua identidade. Na verdade, o processo de formação da identidade da juventude é um processo social e, por conseguinte, sua formação é determinada, num primeiro momento, pelo adulto, pelo “Outro”, e não pelos próprios jovens. Somente num segundo momento é que este grupo etário participa ativamente do processo de constituição de sua auto-imagem.

A compreensão disto pode ser facilitada a partir da recordação da passagem da obra de Simone de Beauvoir em que ela aborda a mulher enquanto “o Outro do Outro”. Ela recorda o filósofo Hegel e a sua dialética do senhor e do escravo:

“O senhor e o escravo estão unidos por uma necessidade econômica recíproca que não liberta o escravo. É que, na relação do senhor com o escravo, o primeiro não põe a necessidade que tem do outro; ele detém o poder de satisfazer essa necessidade e não a mediatiza; ao contrário, o escravo, na dependência, esperança ou medo, interioriza a necessidade que tem do senhor; a urgência da necessidade, ainda que igual em ambos, sempre favorece o opressor contra o oprimido: é o que explica que a libertação da classe proletária, por exemplo, tenha sido tão lenta” (Beauvoir, 1988, p.18).

É neste sentido que podemos dizer que a juventude tem sua identidade produzida pelo Outro, que é o adulto. É o Outro que cria o Um:

“Nenhum sujeito se coloca imediata e espontaneamente como inessencial; não é o Outro que definindo-se como Outro define o Um; ele é posto como Outro pelo Um definindo-se como Um. Mas para que o Outro não se transforme no Um é preciso que se sujeite a esse ponto de vista alheio” (Beauvoir, 1988, p. 16).

Assim, a relação entre opressor e oprimido é a relação do Um com o Outro e por isso o oprimido se torna o Outro do Outro, isto é, cria sua identidade a partir do Outro. No caso específico da juventude, ela é constituída num conjunto de relações sociais instituídas pelos adultos e ganham sua posição social específica devido à ação destes últimos. Para ter esta posição específica e para assumir o papel de adulto posteriormente, o jovem é oprimido e controlado em várias instituições (família, escola, etc.). No entanto, além destas relações sociais concretas existe a esfera da consciência, onde se coloca a questão da identidade, da auto-imagem, e de seu processo de formação. O mundo adulto não só impõe um processo de ressocialização, que é a base unificadora e social da juventude, como também uma imagem da juventude, que será o ponto de partida para a criação da auto-imagem por parte desta.

A imagem da juventude produzida pelo mundo adulto é aquela produzida pelas diversas ciências, pelos meios oligopolistas de comunicação, pelas representações cotidianas, etc. As ciências modernas assumem uma importância crucial para se compreender a imagem da juventude formada pelo mundo adulto.

“A modernidade traz consigo um processo de cerceamento político, policial, moral, empírico e científico do indivíduo. As ciências médicas e a psicologia buscam uma definição exaustiva, detalhada e objetiva das fases de maturação desse indivíduo, bem como propõem métodos de acompanhamento apropriados a cada fase dessa evolução do indivíduo à maturidade ou idade adulta. Trata-se do fenômeno de ‘naturalização’ e objetivação das faixas de idade pelas técnicas sociais e pelas ciências médicas e humanas, que enfatizou principalmente a infância e a juventude” (Groppo, 2000, p. 59).

Este autor acrescenta que foi crucial a criação pela psicologia do construto de “adolescência”, realizada nos séculos 19 e 20 (Groppo, 2000). A adolescência passa a ser vista, inicialmente, como um período de transição da infância para a idade adulta, como se fosse um processo linear e harmonioso, concepção que é substituída pela idéia de que conflitos, desajustes, ambigüidades, são comuns nesta fase da vida. De qualquer forma, a adolescência, no discurso psicológico e médico, bem como no discurso posteriormente desenvolvido por outras ciências (psicanálise, sociologia, etc.), passa a ser vista como uma etapa de transição entre a infância e maturidade, concebida de forma evolucionista-cumulativa. A adolescência, segundo estas concepções, é um período de evolução natural do indivíduo, no qual ele se prepara para ser integrado na sociedade capitalista (Groppo, 2000).

Não só as ciências modernas contribuíram com este processo de constituição de uma imagem social da juventude, pois o direito e a legislação, entre outras formas de ação estatal, vêm para reforçar isto, criando especificidades no que se refere ao mercado de trabalho, ao processo de educação escolar, ao processo político e também produzindo um conjunto de responsabilidades sociais. Os meios oligopolistas de comunicação também vão ter um papel cada vez mais importante na formação desta imagem, pois não só passa a vulgarizar a produção científica acima descrita como também passa a ser um mecanismo da publicidade no sentido de construir um mercado consumidor específico, a juventude, que passa a consumir produtos específicos (Viana, 2004). O processo de vulgarização do saber científico através dos meios oligopolistas de comunicação, das escolas, dos profissionais que atuam junto à população (médicos, psicólogos, pedagogos, etc.) vai difundir pela sociedade esta imagem da juventude, que se tornará hegemônica com o passar do tempo, passando a ser reproduzida pelas representações cotidianas, sendo mais um elemento de reforço e constituição desta imagem.

Após esta descrição dos mecanismos de constituição da imagem da juventude feita pelas ciências modernas, pela legislação, pelos meios oligopolistas de comunicação, pelas representações cotidianas, é necessário realizar uma análise crítica dela. Tal como já foi colocado anteriormente, a imagem da juventude produzida pelo mundo adulto é evolucionista-cumulativa (Groppo, 2000). Ela tem como base uma concepção evolucionista que culmina com o “mito do adulto-padrão” (Lapassade, 1975). Lapassade cita o trabalho de E. Pichon que realiza a crítica da criação de modelo normativo de adulto, tomando como exemplo Jean Piaget, autor que postula uma concepção evolucionista-cumulativa que culmina com um “adulto ideal”, caracterizado, entre outras coisas, por ser convencional e rígido, mecanicista, determinista, materialista e cientificista, bem como não tendo direito de ser finalista (Lapassade, 1975). Mas o adulto-padrão de Piaget não se limita a isso:

“É concebido, por outro lado, como tendo uma fixidez de crença, o que, aliás, M. Pierre Janet mostrou bem que ninguém jamais possuiu. Do mesmo modo, sabe definir tudo, capacidade puramente quimérica, porque incompatível com o funcionamento das disciplinas de observação e com a própria estrutura da linguagem... Em matéria de linguagem, o adulto-padrão fabricado por Piaget tem também um dogma que não pode afastar-se: a doutrina saussuriana de ‘o arbitrário do sinal’... Neste terreno especial, apanhamos Piaget no flagrante delito de tomar por definitivo e de integrar ao seu tipo de adulto ideal uma doutrina que a um certo momento reinava numa ciência particular” (Pichon, apud. Lapassade, 1975, p. 264-265).

Esta concepção do adulto-padrão toma o jovem como um ser incompleto, um ser transitório que deve chegar ao modelo ideal, sem questionar se tal modelo corresponde à realidade, se é adequado, se é socialmente constituído e, por conseguinte, não sendo universal e nem meta desejável. Assim, a concepção evolucionista-cumulativa do adulto-padrão reproduz o processo das relações sociais tomando o indivíduo adulto e integrado na sociedade moderna, que é uma sociedade repressiva, segundo Freud (1978) e fundada na exploração, segundo Marx (1988), como modelo ideal a ser seguido e concebe aquele que não realiza este caminho de desenvolvimento como sendo “problemático”, “infantil”, etc.

Assim, a imagem da juventude é aquela do indivíduo incompleto que se completa quando se integra totalmente na sociedade (mercado de trabalho, instituições sociais, responsabilidades sociais) e daí a concepção de juventude como mera transição, um período que deve ser ultrapassado e substituído pela maturidade da idade adulta. Este modelo encontra correspondência com o desenvolvimento cronológico e biológico dos indivíduos, e assim se vê confirmado e naturalizado.

A juventude, neste caso, é jogada em determinadas relações sociais, voltadas para sua ressocialização, através de determinadas instituições (escola, associações, etc.) e recebe do mundo adulto uma imagem determinada. É neste contexto que a juventude cria sua auto-imagem, sua identidade.

“É neste contexto que ocorre a formação da identidade e dos valores dos jovens, bem como sua luta pela independência. Como os jovens não constituem uma massa amorfa, há a recusa, a crítica e a contestação sob as mais variadas formas. O processo de ressocialização, sendo repressivo e uma antecâmara do modo de vida adulto, é negado, bem como a dependência é negada, mas de forma ambígua, pois sua superação significará a inserção no trabalho alienado e no mundo das obrigações sociais também realizadas sob o signo da alienação, em instituições burocráticas e mediadas pela competição e mercantilização de tudo” (Viana, 2004, p. 48).

Assim, a auto-imagem da juventude é marcada pela ambigüidade derivada de sua posição social e projeto de vida. A juventude cria sua auto-imagem através da influência das pressões sociais (ciências modernas, meios de comunicação, Estado, família, representações cotidianas, etc.) mas parte da juventude recusa esta produção externa de identidade e assim se lança à contestação, criando uma identidade diferenciada fundada na rebeldia, na irreverência. No entanto, a juventude carrega, em ambos os casos, com maior ou menor grau, esta ambigüidade na sua própria identidade, em sua auto-imagem.

A identidade da juventude, assim, não é exatamente a imagem produzida pelo mundo adulto. No entanto, este também trabalha sobre tal identidade, reinterpretando-a. Esta reinterpretação da identidade da juventude pelo mundo adulto, especialmente pelas ciências modernas, abarca a rebeldia e ambigüidade da juventude, fornecendo-lhe uma naturalização, isto é, coloca nos seus quadros de referência aquilo que tal quadro não consegue explicar e por isso naturaliza os elementos que fogem de sua explicação, através da naturalização da “desnaturalização” contida na rebeldia e ambigüidade dos jovens. A rebeldia e ambigüidade são reinterpretadas como sendo um produto natural da idade, do desenvolvimento biológico, etc.

Mas o que nos interessa aqui é a identidade da juventude e não sua reinterpretação pelo mundo ideológico dos adultos. A auto-imagem do jovem se constrói a partir de suas relações sociais concretas e da ação cotidiana sobre ele dos adultos, das instituições, etc., e do sentimento de pertencimento a um grupo que possui, segundo a ideologia dominante e as representações cotidianas, uma mesma “natureza”. O elemento mais forte para a formação da identidade da juventude é a experiência social dos jovens, que encontram milhares de exemplos que seguem o modelo proposto pelo mundo adulto, e isto produz um sentimento de pertencimento ou uma necessidade de pertencimento por parte dos jovens, pois escapar disso seria “anormalidade” e provocaria um afastamento daqueles indivíduos da mesma faixa etária com os quais se convive e possui relações sociais semelhantes. Assim, a auto-imagem da juventude é constituída socialmente, e acaba englobando parcialmente a rebeldia e a contestação, exemplos de “vitalidade” jovem, mas na maioria das vezes interpretadas de acordo com a ótica do mundo ideológico dos adultos, isto é, como um processo de origem biológica, cronológica, etc., ou seja, natural.



Assim, a identidade da juventude é produzida no jogo das relações sociais, mas que pode apresentar rupturas em determinados momentos históricos, no caso das grandes transformações sociais. Além disso, as diferenças no interior da juventude (de classe, cultura, etc.) promovem diferenças neste processo embora não sejam tão significativas para negar o sentimento de pertencimento à juventude, a não ser em casos individuais raros, derivados de uma constituição psíquica particular oriunda de relações sociais também singulares. A identidade da juventude é uma tradução de sua situação social real, interpretada e reinterpretada pelas ideologias, representações cotidianas, meios de comunicação, instituições, etc.



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