Jung, porém, não concebia o recém nascido como Freud que dizia que a criança nascia uma tabula rasa



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  1. INTRODUÇÃO

O presente trabalho relata a delicada relação mãe/bebê diante da prematuridade, situação esta que exige grande elaboração psíquica por parte da mãe, que estará diante de um bebê real e não diante do bebê imaginário que foi construído ao longo da vida desta mãe, através dos seus sonhos, fantasias e desejos.

Para desenvolver o tema foi realizada pesquisa bibliográfica, através de uma leitura dos autores psicanalistas Donald Winnicott, René Spitz e Daniel Stern, já a leitura junguiana foi realizada a partir da teoria de Michael Fordham, que preencheu uma lacuna do desenvolvimento infantil existente na teoria de Carl Gustav Jung, que se dedicou pouco ao desenvolvimento psíquico da criança, voltando mais sua teoria para a segunda metade da vida do indivíduo.

Jung, porém, não concebia o recém – nascido como Freud que dizia que a criança nascia uma tabula rasa. Jung falou do inconsciente pessoal e coletivo sendo que o segundo surge a priori antes do nascimento da criança, sendo herdado de forma psicológica e biológica, já o inconsciente pessoal nasce posterior ao nascimento como resultado das experiências de vida do indivíduo.

Para Fordham o Self é visto como a totalidade da psique que contém o ego e os arquétipos. Sendo que o ego representa o Self na construção da consciência para que a criança possa lidar com seus medos, frustrações, fantasias, desejos, etc. Já os arquétipos são imagens primordiais que explicam a existência de fantasias organizadas e modos primitivos de comportamento.

Spitz fala de organizadores no mesmo sentido que Fordham utiliza os arquétipos para explicar os comportamentos no início da vida do bebê.

E Stern formulou uma idéia de Self muito semelhante à idéia de Self de Fordham. Onde as representações do Self se desenvolvem a partir do Self primordial. O resultado dessas representações é a emergência de diferentes sensos de eu. Pois na medida em que surgem novos comportamentos eles são reorganizados para formarem perspectivas subjetivas organizadoras em relação ao eu e ao outro.

A importância da relação mãe/bebê também será abordada através da teoria de Winnicott que fala da preocupação materna primaria que é um estado em que a mãe através do seu instinto será capaz de identificar as necessidades do bebê, é uma condição psicológica muito especial de sensibilidade aumentada. E também sobre o holding que tem como função fornecer apoio egóico, durante a fase de dependência antes do aparecimento da integração do ego.

Abordaremos também a capacidade do Self do bebê se adaptar as mudanças externas produzindo formas maciças de ansiedade que atacam o ambiente que Fordham chamou de deintegração, e o par afetuoso que ocorre quando a mãe corresponde às necessidades do bebê e este interage com ela, ou seja, um relacionamento onde mãe e bebê, contribuem com sua parte.

A classificação de prematuridade é feita com relação à idade gestacional: limite, moderada e extrema; e quanto ao peso do recém-nascido ao nascer: com baixo peso, com muito baixo peso e com extremo baixo peso.

As características físicas do bebê prematuro, assim como as principais doenças que podem ocorrer serão apresentadas para que se possa ter um olhar amplo da gama de intercorrências e dificuldades a que este bebê e sua família estarão sujeitos.

O ambiente da UTIN é composto por equipamentos de alta tecnologia, indispensáveis para a manutenção da vida destes bebês, pois para sobreviver estes bebês podem ser entubados, ventilados, drenados, alimentados através de sondas, etc., por um tempo relativamente longo. Tanto para o bebê como para os pais estas experiências serão marcadas pela dor, sofrimento, desconforto e stress.

O RN prematuro na UTIN vive uma realidade marcada por variações térmicas, sons ambientes, como por exemplo, o barulho das portas da incubadora, dos aparelhos, tudo isso é vivido de maneira brusca pelo bebê, pois antes ele estava no aconchego do útero materno.

O sistema neurológico do bebê prematuro ainda não amadureceu o suficiente, portanto eles são vulneráveis aos estímulos táteis, auditivos e visuais. Este bebê chega a ser estimulado cerca de 130 vezes num período de 24 horas, sendo que a maioria é dolorosa e desagradável. Toda essa estimulação faz com que o bebê se apresente estressado e hiperexcitável, reagindo a cada toque, a cada barulho. Como conseqüência, esta experiência poderá causar distúrbios no relacionamento entre pais e bebê.


Ao descrever a prematuridade verificamos que ela é caracterizada pelo tempo: o bebê nasce antes do tempo, a visitas foram adiadas por tempo indeterminado, a mãe sente sua maternidade adiada, os horários de visita, o tempo de interação, os minutos de contato, a rotina das inúmeras intervenções, etc.

E através da mitologia encontramos Cronos que significa tempo cronológico e Kairós que significa um tempo em que algo especial acontece. A mitologia ilustra como as imagens podem abrir a consciência para o acesso ao inconsciente coletivo. Cronos representa o tempo de natureza quantitativa, o “tempo dos homens”, e Kairós é usado para descrever o tempo de forma qualitativa, o “tempo de Deus”.

No estudo de caso será apresentada a história de dois bebês prematuros com histórias clínicas semelhantes, porém histórias de vida completamente diferentes.

No caso Anne, sua mãe apesar de descobrir no dia que comunica sua gravidez ao namorado, que ele era casado e tinha família, não faz um aborto como ele sugere, pois para a sua família as crianças eram sagradas. Apesar de todas as ocorrências, dúvidas sobre a sobrevivência da filha, não ter o apoio do pai de Anne, momentos de agressividade, sua confiança foi sendo restabelecida através das intervenções da equipe de saúde.

Já no caso Anna, sua mãe Lise deu entrada na maternidade com hemorragia devido à tentativa de aborto. Ela tinha outras duas filhas, não imaginava que poderia estar grávida, pois ainda amamentava a filha mais nova, então ela e o marido optaram pelo aborto. Ela pouco visitava Anna, dizia que não tinha tempo, que precisava cuidar das suas duas filhas. A tentativa de realizar um trabalho terapêutico com essa mãe não teve êxito como no caso de Anne.

Um dos objetivos do psicólogo no contexto da UTIN é minimizar os efeitos da vivência traumática causada pela hospitalização precoce nestes bebês tão imaturos e promover o estabelecimento do vínculo pais-bebê quando este se apresentar com dificuldades.

A medicina com todos seus avanços e tecnologias de última geração, não é capaz de manter vivo, não só um recém-nascido prematuro como qualquer ser humano, ela consegue na maioria das vezes vencer as barreiras do corpo, porém não da mente, que com toda sua engenhosidade, ainda é cercada de por perguntas sem respostas. A importância desse trabalho justifica-se por ampliar as possibilidades de compreensão do contexto da prematuridade.

No século passado Pierre Budin, o primeiro perinatologista, considera bem vindas as mães ao berçário de prematuros. Budin defendia a idéia de que as mães que se mantinham separadas dos filhos ainda pequenos perdiam o interesse por estes, já que não podiam cuidar ou afagá-los.

As teorias psicológicas abarcam a importância da relação mãe/bebê como um dos fatores prioritários para a explicação do tipo de desenvolvimento e problemática associados às idades mais avançadas. Sendo que uma das fases de prevenção de psicopatologias infantis está no primeiro estágio da relação mãe/bebê.

Aspectos como a sensibilidade da mulher na relação com o bebê, o desenvolvimento de vínculo entre mães e bebês prematuros, a termo ou pós-termo, além da qualidade dos vínculos e a sua relação com a capacidade do bebê em desenvolver habilidades sociais, são temas de grande importância para a psicologia, já que programas de intervenção entre mães e bebês prematuros são de grande relevância como trabalho preventivo das relações familiares e de saúde mental.

As pesquisas voltadas para a importância da relação mãe/bebê podem introduzir dados fundamentais para o desenvolvimento de estratégias e programas na prevenção de problemas cognitivos, escolares, relacionais, etc., futuros nas crianças, e principalmente em bebês prematuros, onde há uma maior necessidade de cuidados.





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