Jung e a individuaçÃO1



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Considerações Finais

Tendo em vista o que foi colocado no decorrer do presente texto, a psicologia analítica de Jung aparece como um importante capítulo na história da psicanálise. Outras vertentes diferenciadas tentaram adaptar o legado de Freud ao desenvolvimento de novas tendências ideológicas, como o estruturalismo [LAC92] e o existencialismo [MAY74], além das anteriormente citadas. Esse processo aponta para o reconhecimento de que, entre todas as abordagens psicanalíticas, a de Jung ocupa um lugar fundamental, ao lado de Freud, Adler, Fromm e outros.

Uma das principais contribuições de Jung é o processo de individuação, foco de nossa análise. O processo de individuação é explicitado na perspectiva do indivíduo em seu processo de formação, o que teria, como processo determinante, o processo de socialização, pensado na perspectiva social. Foi por esse motivo que apresentamos a concepção junguiana e depois a comparamos com outras concepções, oriundas da sociologia e outras áreas do saber, para recompor a totalidade que é o desenvolvimento da personalidade.

A nossa conclusão é a de que grande parte das análises de Jung é útil para um desenvolvimento da psicanálise, retirando o seu “invólucro místico”, tal como colocou Marx em relação a Hegel [MAR88]. Assim, a contribuição de Jung deve ser reconhecida, mas criticamente. Somente dessa forma é possível haver um discernimento sobre o que contribui com a compreensão do universo psíquico dos seres humanos e o que é descartável. A abordagem crítica é fundamental, mas também o cuidado para não jogar a criança fora da bacia junto com a água suja. O que fizemos aqui foi a retenção da criança e o descarte da água suja.

E uma das grandes contribuições de Jung, a nosso ver, é o seu foco analítico na psique humana e sua dinâmica própria. O problema ocorre em sua autonomização do psiquismo, o que pode ser corrigido com sua inserção numa totalidade mais ampla que é a sociedade. Alguns termos junguianos precisam se integrados ao processo analítico da mente humana, como persona, sombra, entre outros. Para isso se tornar mais sólido é fundamental a releitura de Jung e de seu significado no interior da história da psicanálise. Essa é a nossa conclusão e que promove um amplo programa de pesquisa a ser realizado no futuro.

JUNG AND THE INDIVIDUATION



Abstract: this article presents an analysis of the Jungian conception about the development of personality and a brief consideration about this process and the social formation of the individual as understood by other authors. Thus, after a synthesis of the conception of Carl Gustav Jung, which refers to the problem of individuation, we compare it with the conception coming from sociology and other approaches that deal with the phenomenon of socialization. This results in a critical perspective of the Jungian analysis, without discarding the set of its contributions. The major problem of Jung's analysis is, at the same time, his great merit: the analysis of the mind as a psychic totality. This conception has as its problem the autonomization of the human psyche, which disconnects it from the social, which is the determinant of the human mind. The merit was to have focused the psychic universe of the human being, provided we understand not how he did it, as autonomization, but as focus. In this way, understanding as focus and not autonomy, we can use the Jungian conception to understand the psychic phenomenon.
Keywords: Jung; Individuation; Socialization; Mind; Personality

1 Recebido em: 21.06.2017. Aceito em: ...............

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1 A psicanálise adleriana, bastante citada por Jung, pois seu rompimento e estruturação de uma interpretação psicanalítica distinta da de Freud, ganhou um espaço que acabou se perdendo com o passar dos anos. Apesar da psicanálise de Adler ter trazido conceitos fundamentais para a psicanálise, como a de “complexo de inferioridade”, a historiografia da psicanálise não lhe faz a devida justiça, pois apesar de aparecer em capítulos de livros sobre história da psicanálise, a profundidade e importância de sua contribuição não é levada em devida conta. Embora Adler e Jung tenham sido os primeiros e mais importantes dissidentes de Freud, esses “desviacionistas de 1912” [THO76] logo foram seguidos por outros: “nos inícios de 1920, quatro outros discípulos de Freud ou se afastaram ou de qualquer modo discordaram em vários aspectos com o movimento principal, nomeadamente Otto Rank, Wilhelm Stekel, Sandor Ferenczi (que, no entanto, nunca rompeu completamente com Freud) e Wilhelm Reich” [BRO63].

2 A individuação não é “sinônimo de perfeição” e também não significa individualismo ou egoísmo, tendo mais o sentido de “completar-se”, aceitando o fardo de conviver com tendências opostas oriundas de sua natureza sob forma consciente[SIL83]. “a acusação de individualismo é um insulto banal, quando é dirigida ao desenvolvimento natural da personalidade” [JUN911].

3 “A sombra coincide com o inconsciente freudiano e com o inconsciente pessoal junguiano”[SIL83].

4 Apesar de algumas interpretações diferentes, como a de Maroni (1998), é esse o processo que caracteriza o desenvolvimento da personalidade em sua forma ideal, na perspectiva junguiana. Assim, o self pode ser compreendido como núcleo e como totalidade da personalidade: “o self (Selbst) tem dupla definição: a) como totalidade da personalidade; b) como arquétipo do centro da personalidade, arquétipo da orientação e do sentido”[MAR98].

5 Isso é comum na psicanálise, que é absolutamente compreensível, pois não é o campo perceptivo de análise dos psicanalistas. Por outro lado, isso faz parte do próprio problema identificado por Jung, ou seja, a persona e o apego à profissão, que, enquanto forma de especialização (inclusive intelectual, o que é legitimado pela divisão de “objetos de estudo” das diversas ciências particulares), não só limita o indivíduo no desenvolvimento da sua personalidade, mas também no desenvolvimento de sua consciência. Assim, a psicanálise, por possuir uma compreensão limitada da sociedade, o que pode ser visto em Freud, Adler, Jung e até mesmo na chamada “escola culturalista” (Horney e outros) e “freudomarxista” (Reich, Fromm, etc.), que oferecem uma especial atenção aos problemas sociais e ao contexto social e cultural. Freud, o fundador da psicanálise, nunca desenvolveu estudos mais profundos sobre a sociedade, sendo que quando tratava dessa, suas referências eram psicólogos e não sociólogos e outros pesquisadores que tratam mais diretamente dessa questão, e isso pode ser visto em sua abordagem da origem de determinados fenômenos sociais na qual parte de mitos e lendas ao invés do processo histórico real, tal como sua análise da origem do incesto [FRE74].

6 É justamente essa especificidade histórica que permite alguns autores julgar que a individuação (também traduzida como “individualização”) é produto da sociedade capitalista: “O processo de ‘individualização’ tem, pois, as suas raízes nas relações de produção do modo de produção capitalista”[CAR87]. No entanto, consideramos que o mais correto é considerar que a individuação assume uma característica específica na sociedade capitalista, que é tanto real (autonomia relativa do indivíduo) quanto meramente discursiva (individualismo).

7 Não nos referimos aqui à questão da sexualidade, muito mais complexa, e que remeteria a diversas pesquisas, com suas divergências analíticas, e sim ao modo de ser de homens e mulheres, ou “ethos sexuais”, que também é um fenômeno biossociopsíquico.

8 No interior da psicanálise essa necessidade de abordar a socialização já foi sentida e uma primeira tentativa de abordá-la mais sistematicamente já foi realizada [LOR01].

9 Segundo Jung: “tenho plena consciência dos méritos de Freud, e não tenho intenção alguma de diminuí-los. Sei, inclusive, que o que ele diz se adapta a um grande número de pessoas, e é possível afirmar que tais pessoas têm exatamente o tipo de psicologia que ele descreve. Adler, cujo ponto de vista era completamente diverso, também tem um grande número de seguidores, e estou convencido de que muitos têm uma psicologia adleriana. Também tenho os meus – não são tão numerosos quanto os de Freud – pessoas que, presumivelmente, têm a minha psicologia. Chego a considerar minha contribuição como minha própria confissão subjetiva. É a minha psicologia que está nisso, meu preconceito que me leva a ver os fatos da minha própria maneira. Mas espero que Freud e Adler façam o mesmo, e confessem que suas ideias representam pontos de vista subjetivos. Desde que admitamos nosso preconceito estaremos realmente contribuindo para uma psicologia objetiva” (apud. MARONI, 1998, p. 18-19). No entanto, não é possível concordar com essa autora, pois a afirmação da existência de “psicologias múltiplas” em Jung e que isso estaria em acordo com uma posição nietzschiana de crítica de noção da verdade, entra em contradição com a realidade. As críticas de Jung, especialmente em relação a Freud, deixa isso relativamente claro: “não consigo ver onde Freud consegue ir além de sua própria psicologia e como poderá aliviar o doente de um sofrimento do qual o próprio médico padece” [JUN89]. Da mesma forma, a multiplicidade de “psicologias” (que, no caso, quer dizer “tipos psicológicos”) podem gerar diferentes pontos de vista subjetivos, mas somente reconhecendo isso, como a psicologia junguiana, é que se pode chegar a uma psicologia objetiva, como faz Jung. Por conseguinte, a abordagem junguiana está distante do relativismo. Esse é um procedimento psíquico comum nos seres humanos e, tal como Jung, Freud fez o mesmo: “da mesma forma que a investigação de Adler trouxe algo de novo à psicanálise – uma contribuição à psicologia do ego – e cobrou por esse presente um preço demasiado alto jogando fora todas as teorias fundamentais da análise, assim também Jung e seus seguidores prepararam o caminho para a sua uta contra a psicanálise, presenteando-a com uma nova aquisição” [FRE78].

10 A “autonomia do inconsciente”, ou da psique humana[JUN87], é uma das teses de Jung e que ele utiliza para entender o fenômeno religioso, sob forma distinta de Freud e daqueles que ele denomina “materialistas”.
Referências

THO76: , (THOMPSON, 1976),

BRO63: , (BROWN, 1963, p. 49),

JUN78: , (JUNG, 1978, p. 49),

SIL83: , (SILVEIRA, 1983),

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JUN911: , (JUNG, 1991, p. 179),

STA95: , (STAUDE, 1995, p. 106),

JUN87: , (JUNG, 1987),

JUN87: , (JUNG, 1987, p. 81),

SIL83: , (SILVEIRA, 1983, p. 92),

JUN78: , (JUNG, 1978, p. 11),

JUN78: , (JUNG, 1978),

SIL83: , (SILVEIRA, 1983, pp. 99-100),

MAR98: , (MARONI, 1998, p. 109),

FRO81: , (FROMM, 1981),

STA95: , (STAUDE, 1995, p. 107),

FRE74: , (FREUD, 1974),

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VIA11: , (VIANA, 2011),

JUN86: , (JUNG, 1986),

CAR87: , (CARDOSO e CUNHA, 1987),

VIA02: , (VIANA, 2002),

JUN88: , (JUNG, 1988),

MEA88: , (MEAD, 1988),

LOR01: , (LORENZER, 2001),

FRO78: , (FROMM, 1978),

JUN89: , (JUNG, 1989, p. 325),

FRE78: , (FREUD, 1978, p. 80),

LAC92: , (LACAN, 1992),

MAY74: , (MAY, 1974),



MAR88: , (MARX, 1988),






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