Jung e a individuaçÃO1


Jung, Personalidade e Sociedade



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Jung, Personalidade e Sociedade

A breve descrição da concepção junguiana do desenvolvimento da personalidade é fundamental para realizarmos um confronto entre sua abordagem e a de outros psicanalistas, focalizando a questão da sociedade. O campo perceptivo de Jung é a mente humana enquanto que a sociologia tem a sociedade como domínio temático, assim como a antropologia se dedica à cultura e outras ciências humanas outros aspectos da sociedade (ciência política, historiografia, economia, etc.).

O que Jung denomina “individuação” é um processo psíquico no qual a sociedade pouco aparece. Erich Fromm também discute o processo de individuação, mas o faz mostrando não apenas o desenvolvimento do universo psíquico individual, pois apresenta também que se trata de um processo social [FRO81]. É esse processo que possibilitou algumas críticas ao pensamento junguiano:

Jung considerava a ‘individuação’ e a ‘coletividade’ como um par de opostos. Críticos de Jung objetaram quanto ao fato de que ele não tinha um senso de sociedade, de que a individuação só é possível quando o indivíduo obtém sua individuação às custas de um trabalho equivalente em benefício do coletivo, da sociedade. Só os que pagaram seu preço à sociedade por iniciativa própria podem atingir os níveis mais elevados da individuação [STA95].

Aqui temos a sociedade (ou “coletividade”) aparecendo e um questionamento realizado por alguns ao pensamento de Jung. A sociedade, segundo Staude, é um par oposto ao processo de individuação. Como observamos anteriormente, a individuação é conquistada superando a persona, ou seja, o que alguns sociólogos e psicólogos chamariam de “papeis sociais”. Essa oposição requer uma compreensão crítica da sociedade. Contudo, Jung não demonstra possuir uma análise mais profunda da sociedade5 e nem do impacto dessa sobre os indivíduos. O impacto do social sobre o individual é um dos principais temas da sociologia e em alguns autores aparece com o nome de socialização. O processo de socialização, abordado por vários sociólogos, é inverso ao de individuação, no sentido junguiano.

No processo de socialização observamos como o indivíduo se torna um ser social. Esse fenômeno pode ser visto sob formas distintas. Ele pode ser percebido através de uma concepção dualista da natureza humana, que seria, por um lado, egoísta, e, por outro, social, e por isso a socialização visa tornar o indivíduo um ser social e adaptá-lo à sociedade [DUR74]. Também pode ser considerado um processo que tem a incumbência de formar o ser social, mas, simultaneamente, para determinado lugar na sociedade (dependendo da classe social, entre outras divisões sociais), para determinada forma histórica de sociedade (a sociedade escravista ou feudal geram indivíduos diferentes adaptados a elas). Assim, a incumbência universal da socialização é formar o ser social, é um processo de humanização. A incumbência histórico-particular é para ele se preparar para viver em determinada sociedade e determinada posição no seu interior [VIA11].

Aqui nos deparamos com a posição junguiana. A oposição entre indivíduo e sociedade é relativa, depende de cada sociedade histórica particular, e por isso a sua tese universalista é problemática, pois, retirando as diferenças que atribui ao oriente e ocidente, que fica no nível mental [JUN86], não apresenta uma percepção da evolução histórica da humanidade, as formas de sociedade, as características fundamentais da sociedade moderna. Estas ficam ausentes em sua análise[VIA02]. O único processo social mais relevante que Jung reconhece na sociedade moderna é a especialização e profissionalização, que gera a persona, e a racionalização, que gera o sufocamento do inconsciente[JUN88]6.

Assim, a crítica a Jung pelo fato dele desconsiderar a responsabilidade social do indivíduo, é equivocada e Staude está correto nesse aspecto. Contudo, a crítica mais profunda segundo a qual a sociedade e o processo de constituição social do indivíduo está ausente, bem como a concreticidade desse processo, não é respondida. Um exemplo pode esclarecer isso. A discussão sobre anima e animus, em Jung, é problemática por universalizar algo que, mesmo tendo um elemento universal, não é totalmente universal. A ideia de existência de gens femininos e que isso explicaria o pendor sentimental do homem e a existência de gens masculinos que explicaria o pendor racional das mulheres é algo que as informações produzidas por antropólogos e sociólogos demonstram ser equivocado. A antropóloga Margareth Mead, mostra, ao analisar três tribos indígenas, três formas de manifestação de temperamento de homens e mulheres, sendo que uma é igual à nossa sociedade (e, portanto, de acordo com o esquema junguiano), outra é o contrário (as características consideradas, em nossa sociedade, femininas são desenvolvidas pelos homens e as masculinas pelas mulheres), e uma terceira na qual ambos os sexos revelam um equilíbrio entre ambas [MEA88]7.

Isso significa que existe uma socialização diferencial entre os sexos e dentre os aspectos diferenciais estão o “temperamento” ou os “ethos sexuais”. A constituição de ethos sexuais rígidos é um elemento que pode gerar desequilíbrios psíquicos e Jung está correto em colocar a necessidade de “confrontação” do homem com a anima e da mulher com o animus, pois são potencialidades humanas que a socialização diferencial tolhe em cada um deles, pois ambos possuem capacidades intelectuais e racionais, bem como sentimentais. Esse mesmo processo também existiu em outras sociedades, sob formas diferentes, devido ao processo histórico e se reproduz na sociedade moderna. Logo, nada tem a ver com “gens masculinos” ou “gens femininos”, não é uma questão genética ou orgânica e sim sociocultural, bem como não é algo universal.

O que a análise histórica e social deve levar em conta, e assim contribuir com essa discussão, é o grau em que cada um desses processos (racionalização, no sentido junguiano da palavra, e sentimentalizacão) são introjetados pelos indivíduos e são um obstáculo para o desenvolvimento de sua personalidade (no sentido junguiano, ou seja, sob forma integral). É, nesse sentido, Jung está novamente correto ao observar o excessivo racionalismo da sociedade que ele chama de “ocidental”. O sufocamento dos sentimentos é algo muito intenso na sociedade moderna e as explosões sentimentais são a resposta, muitas vezes violenta, e que explica aspectos da modernidade.

Sem dúvida, uma compreensão mais profunda da sociedade e uma percepção mais ampla da formação social do indivíduo seria fundamental para reconhecer que muitas características humanas consideradas “universais” são, na verdade, produtos sociais e históricos8. Elementos universais existem, mas mesmo estes podem ser reprimidos (o que é problemático e fonte de desequilíbrios psíquicos) e assumirem distintas formas dependendo da sociedade e da época. A sombra, que Jung considera parte da psique humana, pode ser concebida não como algo universal e natural, sendo mais histórico e tendo a ver com as relações sociais e a vida individual no interior dessas[VIA02], sem descartar a ação das “dicotomias existenciais” [FRO78].

Da mesma forma, os elementos biológicos existem e são atuantes sobre o universo psíquico individual, bem como os sociais, tal como apontados por Freud e Adler, respectivamente. O próprio Jung reconhece9, embora não seja nosso objeto aqui. Essa ressalva é importante para que não se confunda nossa posição, pois o ser humano é um biossociopsíquico, o que constitui sua complexidade. Freud enfatizou alguns aspectos, Adler outros, bem como Rank, Fromm, Horney, entre outros, enfatizaram aspectos diferentes do ser humano, especialmente seu constituição social e cultural.

Nesse contexto, a psicanálise, no seu conjunto, permite a constituição de uma percepção integral do ser humano, a partir da assimilação crítica das principais contribuições psicanalíticas existentes. Uma concepção totalizante de ser humano é fundamental e a contribuição de Jung, que aponta para a percepção de fenômenos psíquicos relativamente autônomos10, segundo ele, traz importantes reflexões que podem ajudar o projeto de uma reconstituição do ser humano como totalidade.




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