Julian Ochorowicz a sugestão Mental



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Segunda experiência – O sujeito volta as costas para o magnetizador, que se encontra numa outra sala a uma distância de oito metros. O Dr. Baréty fica perto do sujeito e eu observo o magnetizador. O sujeito diz cifras em voz alta. A um sinal dado por mim, o magnetizador “projeta o fluido” de toda sua força. O sujeito para de contar. Ele está paralisado.

Esta experiência deu certo três vezes. Só que acreditei ter observado que os punhos engomados de sua camisa faziam muito ruído.

Agora sou eu que fico na sala. Passei-o pela sala para impedir que o sujeito ouça os gestos do magnetizador. A experiência gorou, isto é, houve um atraso de muitas cifras.

Como o magnetizador agia com absoluta boa fé, pedi-lhe que retirasse os punhos. Recomeça-se e, desta vez, embora o magnetizador tenha feito menos barulho com seus gestos, houve êxito.

Conclusão: A ação direta não foi provada, mas ao contrário, houve motivo para se pensar que as impressões auditivas ajudaram a produção do fenômeno.

Terceira experiência – Desta vez tratava-se de alguma coisa verdadeiramente nova. Eis como foi a nossa maneira de agir:

Foram tomadas todas as precauções para evitar ilusões.

Escolhe-se um objeto qualquer (nesta experiência a escolha do objeto não tem importância), um livro, por exemplo, que está pousado sobre a mesa.

Transporto esse livro (ausentes o sujeito e o magnetizador) numa direção escolhida por mim e escondo-o num canto da sala, difícil de adivinhar. O Dr. Baréty e eu sabemos onde está o livro, mas nós nos colocamos de maneira a não poder influenciar o sujeito por um sinal involuntário qualquer.

O sujeito é introduzido, os olhos vendados. Indica-se para ele o lugar exato onde se encontrava o objeto escondido, sem nomeá-lo. O sujeito não adormece, mas fica evidente que no curso da experiência a concentração da atenção provoca nele um estado de superexcitação quase hipnótica. Ele começa por tatear o lugar indicado. Ele não conhece o objeto, ele não adivinha, mas, coisa estranha, seus dedos, tateando, desenham o contorno de um livro. Dir-se-ia que o espectro do livro apresenta uma resistência a seus dedos. Estando seguro de sua forma e do lugar ocupado anteriormente pelo objeto, ele ensaia duas ou três direções, sempre tateando o ar, e escolhe o verdadeiro. Lentamente desvia-se duas vezes, volta, continua com mais segurança e, ao cabo de três minutos, encontra o livro. Não dizemos nada, mas ele nos afirma que aquele era o objeto que escondemos.

Eis outra coisa extraordinária: escolhi, como objeto para esconder, um ímã forte (o hipnoscópio) sem prevenir o sujeito. Ele chega, tateia o local antes ocupado pelo ímã e fica imóvel.

– Não posso continuar – diz ele –, pois meus dedos estão duros.

Fiquei bastante surpreso, mas, sem dizer palavra, suprimi a rigidez com a ajuda de massagens e animei-o para que continuasse.

Chegando junto à chaminé, onde o ímã estava escondido num vaso, o mesmo fenômeno:

– É por aqui – disse ele –, mas meus braços estão duros...

Manifestava grande fadiga depois de cada experiência.

Eis o que posso dizer sobre o enigma:

1º) Todas as experiências tiveram êxito ou quase;

2º) Não houve sugestão mental ou, em todo o caso, ela desempenou um papel secundário.

3º) O papel principal pertencia às sensações táteis, de uma finura extrema.

4º) O objeto escolhido poderia ser magnetizado ou não, transportado por uma pessoa desconhecida; em consequência, nem o “fluido” individual nem certas emanações entram aqui em jogo, ou pelo menos não são necessários.

5º) A menos que se admita a sugestão mental ou a realidade de um espectro dinâmico, deixado no lugar que antes fora ocupado pelo ímã, é preciso confessar, nesse caso, a impossibilidade de uma explicação científica qualquer.

6º) Foi preciso que entre o transporte do objeto e a execução da experiência não demorasse mais do que alguns minutos, pois do contrários os “traços” do objeto no ar se esvaeciam.

Eis ainda algumas indicações interessantes:

Interrogado sobre as próprias sensações ou opiniões, o sujeito me declarou que ele considera o fenômeno como o efeito de uma sensibilidade tátil particular, adquirida por exercício.

“Quando você está no banho – me disse ele –, você sente perfeitamente a diferença de densidade destes dois meios: ar e a água. Muito bem: eu quase sinto a mesma sensação no ar que foi atravessado por um objeto. Ele fica mais rarefeito para mim, ele me opõe uma resistência menor e é esta resistência menor que me guia. Eu não me sinto senhor de mim mesmo nesses momentos. Sinto-me isolado de todos, não ouço nada, existo somente nos meus dedos que trabalham sem mim. Quanto menos penso, mais consigo...”

Quanto à experiência com o hipnoscópio, será necessário admitir que sua presença imantou o ar por um certo tempo ou então produziu uma outra mudança que não podemos determinar.

Quisemos ainda verificar a ação direta do pensamento.

Tocando o sujeito, imaginei um objeto qualquer, forma, cor, sensação, mas ele não via nada ou só via alguma coisa muito vaga.

Tendo sido colocada diante de nós uma folha de papel branco, eu imaginei uma rodela amarela: o sujeito viu qualquer coisa cinzenta; imaginei uma cruz negra; ele viu uma mancha redonda.

Parece que o Dr. Baréty foi mais feliz do que eu, pois o moço adivinhou duas ou três vezes a cor mentalmente representada.

No ano seguinte (1885) Charles Richet publicou seu notável trabalho na Revue Philosophique.

Ele foi inspirado por uma ideia que julgo ao mesmo tempo simples e engenhosa e que posso resumir assim:

Não há limites absolutos nos fenômenos fisiológicos: há apenas uma graduação. Em consequência, se a sugestão mental existe em um grau excepcional em alguns sujeitos privilegiados – o que resta ainda provar – ela deve existir em grau mais ou menos imperceptível em todo mundo. O que é imperceptível num fato isolado pode tornar-se palpável por uma adição de fatos isolados. A estatística pode revelar um efeito até então despercebido e o cálculo das probabilidades pode indicar facilmente aquilo que pertence ao acaso e o que é devido a um agente real. Poder-se-á, pois, encontrar uma base racional, premonitória (desculpem este termo colérico) antes de se chegar à constatação direta de um fato extraordinário.

Ele se pôs a fazer experiências (muito fáceis de repetir), a reuni-las por grupos, e chegou à conclusão interessante de que ali onde a sugestão mental podia juntar-se ao acaso havia sempre uma ligeira vantagem de sucessos.

Eis uma tabela sumária dos resultados obtidos:





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