Julian Ochorowicz a sugestão Mental



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A. Baréty.

Como os pormenores da experiência não estivessem bem precisos, adquiri o direito de crer que as questões do experimentador e sua atitude pudessem sugerir ao paciente as alucinações desejadas. Na verdade, basta lançar um olhar ao teto e perguntar ao sujeito se ele não vê alguma coisa no ar para sugerir-lhe a ideia de um pássaro voando.

É ainda provável que, insistindo sobre os detalhes da visão, descubra-se que o pássaro visto pelo paciente não se assemelhe ao do experimentador.

Algumas semanas depois recebi uma segunda carta mais detalhada:

“Tenho sobre minha mesa duas estatuetas, uma de bronze e outra de marfim. Eu as coloquei uma ao lado da outra a uma distância de 8 a 10 centímetros. Eu disse então ao paciente:

– Olhe para estas duas estatuetas: que cores têm?

– Uma é branca (a da direita) e a outra é escura – respondeu.

Então, pousando minha mão esquerda na sua mão direita, perguntei-lhe se ele via alguma coisa particular, em relação a essas duas estatuetas. De meu lado eu havia imaginado ou fortemente pensado que a branca se deslocara, para confundir-se com a escura... Ele me respondeu, depois de alguns minutos, que a estatueta branca se deslocava, que ela se transportava para o outro lado da estatueta escura.

Era um pouco mais do que eu havia pensado.

Em seguida imaginei (sempre sem fazer o menor sinal) que as estatuetas se encolhiam (minha mão esquerda pousando sobre sua mão direita). Perguntei-lhe o que via. Ele me respondeu que via as estatuetas cada vez menores, até ficarem do tamanho da cabeça de um alfinete. Ora, estas estatuetas têm uma altura de 12 centímetros.

Em seguida tive a ideia de que elas aumentavam e, sem que eu lhe perguntasse, ele me disse que as via crescerem cada vez mais. Ele chegou a erguer a cabeça para acompanhar seu crescimento. Imaginei a seguir que elas diminuíam até tomarem suas dimensões exatas e ele declarou que elas diminuíam...”

Esta experiência é, seguramente, muito mais importante que a primeira. Mas está longe de ser decisiva. Antes de tudo, as ideias do sujeito foram fixadas de antemão e limitadas a “alguma coisa” que devia acontecer com as estatuetas. Que é que podia acontecer? Uma mudança de cor? As experiências sobre mudança de cores já haviam sido feitas na sessão precedente. Elas podiam se deslocar. O sujeito teria essa ideia com um chamado para os detalhes. Elas podiam crescer. O sujeito poderia adivinhar. Qual é a associação mais próxima do crescimento? A diminuição. Ainda foi adivinhado. Depois de ter falseado a realidade nas duas direções opostas, sente-se a necessidade de restituir a verdade que se impõe a nosso sentido e é provável que o experimentador e o sujeito tivessem tido essa ideia simultaneamente. Seria preciso conhecer não somente os detalhes da experiência como também a conversação anterior e todas as condições do momento para se estar seguro de que um treinamento associacionista e o meio psíquico não tenham sido a causa única do sucesso.

É nesse sentido que fiz minhas observações ao experimentador e ele reconheceu a legitimidade de um certo número de minhas objeções.

Continuemos:

“Depois dessa experiência fiz outra, das mais interessantes, que consistia em fazer com que ele encontrasse um objeto escondido.

Fazendo com que ele virasse a cabeça, apanhei a estatueta de marfim com a mão direita, pousando-a na minha ilharga. Minha mão esquerda desta vez não estava em contato com sua mão, como precedentemente.

Pedi-lhe para que se voltasse e que olhasse as estatuetas, o que ele fez. Mas como ele não manifestasse nenhuma surpresa, perguntei-lhe se ele via as duas: ele respondeu afirmativamente. Então eu lhe disse: – Muito bem. Apanhe a estatueta branca.

Ele avançou a mão até onde anteriormente estava a estatueta de marfim, pareceu apanhá-la e levá-la até si, para examiná-la; mas logo mexeu os dedos, como se compreendesse que estava apenas “segurando” uma sombra ou um objeto que se esvaecia. Nesse momento eu lhe perguntei: – Onde é que ela está?

Ele voltou seu olhar para minha mão direita fechada e pousada na ilharga (posição que eu dera a essa mão antes mesmo de esconder o objeto) e me disse: – Ela está aí na sua mão direita...

Observação: até aqui eu não vejo ainda mais do que uma alucinação passageira e uma presunção que bem poderia ser sugerida pela imobilidade da mão direita fechada, que o sujeito pôde notar somente no momento da busca. Mas prossigamos:

“Eu lhe pedi, então, para que se virasse completamente para o outro lado e rapidamente e sem ruído escondi a estatueta no meu colete. E coloquei outra vez minha mão direita fechada, como antes, na ilharga. Pedi-lhe para que se voltasse e me dissesse rapidamente onde estava a estatueta e que a apanhasse. Então ele fez a sua mão direita seguir um trajeto dos mais curiosos. Levou-a primeiro para o ponto da mesa onde antes estivera a estatueta. Depois, sempre lentamente, ele dirigiu a mão para o colete onde estava a estatueta, passou perto da ilharga e, em seguida, para onde estava a estatueta.

Para terminar, refiz a experiência do crescimento e da diminuição das estatuetas, sem que minha mão estivesse em contato com a sua e fechando meus olhos. A experiência deu certo. Esta última experiência me pareceu muito probatória: que pensa o senhor?”

Sim, ela é mais probatória do que a primeira, mas infelizmente era a segunda, repetida quase que nas mesmas condições; em consequência, não se livra das dúvidas que formulei acima.

Mas de qualquer forma me interessei muito pelas experiências do Dr. Baréty e enviei-lhe uma série de questões, com o pedido de resolvê-las experimentalmente. Quanto às experiências do objeto escondido, disse-lhe francamente que eu não a entendi.

Seria preciso um estudo mais rigoroso. Baréty sabia disso tão bem quanto eu. Podia ser uma incredulidade exagerada, mas quando se trata de experiência de sugestão mental só tenho confiança em mim mesmo. Assim, fiquei muito feliz em saber, um mês mais tarde, que o sujeito e seu magnetizador resolveram vir a Paris. Eu me preparei e as experiências foram planejadas segundo um programa previamente combinado com o Dr. Baréty.

Comecei pela experiência hipnoscópica. Ela denunciou um homem muito sensível: tinha contratura e insensibilidade quase instantâneas no braço inteiro. Esse fenômeno podia, de resto, ser provocado ou suprimido só pela sugestão verbal.

– O que você pensa obter de seu sujeito? – perguntei ao magnetizador.

Ele mencionou toda uma litania de fenômenos, dentre os quais escolhi os três seguintes:

1º) ação simpática e atração à direita, antipática e repulsiva à esquerda;

2º) paralisia à distância;

3º) procura de objetos escondidos.

– Você crê poder obter de seu sujeito uma transmissão direta, qualquer, através apenas de seu pensamento?

Para minha surpresa, o magnetizador respondeu que não. E era esse o objetivo da nossa reunião, afinal!

Tenho necessidade de gestos, me disse ele, salvo para a terceira experiência, que pode ser feita sem qualquer participação de minha parte. Mas eu não posso garantir a ação somente do pensamento.

Que importa! Faremos a experiência de qualquer maneira, pois o Dr. Baréty acredita ter conseguido várias vezes.

Não contarei em detalhes a primeira experiência. Ficou evidente, e R. concordou com esta opinião, que ela foi pura e simplesmente o resultado de uma educação hipnótica.






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