Julian Ochorowicz a sugestão Mental



Baixar 0,79 Mb.
Página7/16
Encontro30.11.2019
Tamanho0,79 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   ...   16
Primeira experiência – O sujeito em sonambulismo conta de 1 a 50. Ele devia ser interrompido por uma ordem à distância. Resultado: algumas coincidências, mas a mais frequente, a paralisia, acelerava-se muito e precedia a ordem mental; em consequência, era preciso considerá-la como provocada pela ideoplastia.

Segunda experiência – Eu toco a nuca com um dedo e ordeno-lhe mentalmente que se levante e vá se sentar numa cama. Ele se levanta um pouco, desliza para o chão, senta-se, inclina-se e põe-se de joelhos. Um dos assistentes, o engenheiro B, afirma que foi ele quem lhe ordenou mentalmente para que se pusesse de joelhos. (É provável que a fraca pressão de meu dedo, dirigido um pouco de cima para baixo, lhe tenha sugerido a ideia de se sentar no chão e em seguida a humildade desta posição fez nascer em seu espírito a imagem de uma atitude humilde por excelência e mais cômoda, a de se pôr de joelhos, ao passo que, ao mesmo tempo, e por uma associação semelhante, o engenheiro B teve a ideia de ordenar-lhe).

Terceira experiência – Sem contato e sem gestos. Todos os assistentes pensam em fazer com que ele levante a perna direita. Ele fica imóvel, mas declara ter ímpetos de dançar (insuficiente para autorizar uma conclusão).

Quarta experiência – Só eu comando, sem contato, mas com gestos e dirigindo o olhar para o membro em questão. O sujeito tem os olhos vendados. Fico diante dele a 2, 3, 4, 6 passos de distância.

Ele executa bem muitos movimentos: levanta-se, vai para a direita, para a esquerda, para frente, para trás, coloca-se de joelhos, senta-se. Ordeno-lhe que estenda o braço esquerdo. Foi a única experiência que não deu certo; eu estava então a 6 passos de distância.

As mesmas experiências repetidas com gestos, mas sem uma concentração especial da vontade, dão quase o mesmo resultado positivo.

Alguns dias mais tarde:



Quinta experiência – O sujeito, em sonambulismo, tem os olhos vendados e as orelhas tapadas. Fico diante dele a uma distância de 4 a 5 metros, executando os gestos de atração e de repulsão.

Durante quase uma hora todas as experiências deram certo. A principal consistia em verificar se o sujeito sentia realmente minha presença. Tomei todas as precauções possíveis. Troquei de sapatos, outra pessoa imitou meus passos, tentei induzi-lo ao erro, etc. Ele me seguia por toda parte e me encontrava sempre. Quando avançava, ele farejava como um cão de caça. (Eu era o único fumante naquele grupo e minha roupa estava impregnada de cheiro de fumo).

Resultado definitivo: ele foi guiado:

1º) por uma sensibilidade excepcional de toda a superfície do corpo, pelos movimentos do ar (gestos à distância);

2º) por uma sensibilidade excepcional ao calor (ele sentia o calor de minha mão a uma distância de 75 centímetros);

3º) pela exalação de odores, mas nada pela sugestão mental.

Alguns dias depois:

Sexta experiência – O sono não é completo, talvez devido às emoções da jornada.

Um de meus alunos, P., engana o sujeito, que se confunde comigo. Os movimentos ordenados são mal executados. O sujeito improvisa, deixando vagar sua fantasia. Executa movimentos sobre os quais ninguém pensou, fazendo um ar de quem sente influência. Em suma: resultado claramente negativo.

Ainda um experimento negativo sobre uma jovem histérica muito sensível. Éramos dois magnetizadores, o Dr. B e eu. Cada um de nós toca sua cabeça com um dedo e ordena que ela apanhe um objeto. Como resposta ela se torce, de modo particular: a metade de seu corpo mantém contato comigo, a metade direita pertence ao Dr. B. Ela não me ouve senão com o ouvido esquerdo; ela só ouve o Dr. B. com o direito. A mesma coisa com a atração. Se eu lhe toco o braço direito ela não acusa qualquer sensação. O mesmo acontece quando por intermédio de um objeto. O olhar não se move e a sugestão puramente mental é nula.

A seguir algumas experiências com o “willing”.

Estamos num salão do conde D. Uma das damas conta ter conseguido muitas vezes sugerir à sua amiga um ato qualquer, pousando levemente suas mãos nas suas espáduas. Faço algumas experiências que quase dão certo. Mas nessa espécie de experiência é inútil invocar a sugestão mental. Tendo estudado os movimentos inconscientes dos músculos que fazem girar uma mesa ou balançar um pêndulo, sei a que devo me deter. Esses movimentos involuntários são suficientes para sugerir as direções. Ele não pensa em nada e seu corpo permanece em equilíbrio instável. Às vezes ele adivinha o resto, isto é, os atos que não podem ser indicados diretamente.

Uma dessas experiências, entretanto, me surpreendeu. O príncipe C. fica sentado numa poltrona; em consequência ele está em equilíbrio estável; duas mulheres se põem de joelhos diante dele e formam um círculo com suas duas mãos; a ordem consiste em fazer o sujeito cruzar as pernas e provocar um movimento de balanço com a perna direita. Alguns minutos depois a ordem foi executada.

Nesse caso a explicação se complica. É difícil estender as pernas prendendo as mãos, sobretudo numa posição fixa. Mas precisamente por causa dessa posição, só as pernas (e a cabeça) ficam livres, não sendo de admirar que depois de alguns minutos de imobilidade ele tenha tido necessidade de deslocar as pernas; e ele não podia fazer outra coisa senão cruzá-las, dada a posição das mulheres. Além disso é certo que, talvez para verificar a experiência, o olhar das duas mulheres a cada instante se dirigia para o pé direito do príncipe que, mais ou menos maquinalmente dirigia sua atenção para esse ponto. A direção da atenção para um ponto dado do corpo provoca sempre uma tendência ao movimento, e o único movimento possível foi o que ele executou.

Devo acrescentar que, antes de ter concluído, ele fez muitos movimentos com a cabeça que foram negligenciados como “sem importância”.

No curso da mesma noite fiz ainda outra experiência que simula a ação da vontade à distância. Tendo reconhecido a sensibilidade da condessa D., eu me coloquei em pé diante dela e a fitei durante dois ou três minutos; em seguida recuei e ela me acompanhou; precipito o passo caminhando sempre para trás e, apesar dos risos da assembleia e uma certa oposição de sua parte, ela foi obrigada a me seguir. Essa experiência, de resto muito conhecida pelas representações de Donato, parecem provar uma ação física da vontade e do olhar. Mas não é. A fixação do olhar, a atenção expectante e a emoção fazem nascer um estado de obsessão, de fascínio, que pode ser considerado como um monoideísmo intermitente. Sem perder completamente a consciência e a vontade, o sujeito predisposto sofre, de momento a momento, a influência inibidora de seu próprio espírito: ele não está paralisado, mas submetido às sugestões visuais que dominam sua vontade.

Uma outra experiência de “willing” no conde P., tentada pelas duas damas, não teve sucesso; ele, entretanto, era sensível. Mas eu o piquei com uma agulha num dedo insensibilizado localmente, sem hipnotização; o que prova que o êxito da experiência, segundo este método, nem sempre tem relação com a sensibilidade. Nós veremos, em seguida, que eles têm relações exatas entre o hipnotismo e o cumberlandismo.

Eu modifiquei essas experiências em outras pessoas.

A Sra. S., robusta mas anêmica, de tempos em tempos sujeita (sob a influência de emoções) a crises histéricas cataletiformes, estando de pé, é levada ao estado de fascinação pela fixação do olhar. À ordem mental “puxar-me pela barba”, ela leva lentamente a mão na direção da barba, mas não a toca.

A Sra. A., fraca, magra, nervosa. Ordem mental: “abraçar S.”. Ela avança na direção desse homem e diz: “Devo abraçar alguém?”

A Sra. R., linfática, mas de modo geral saudável. A ordem mental (com contato de uma das mãos no occipício):

1º) “Ir até o piano” – Depois de dois minutos de hesitação: “Devo tocar?”, diz ela;

2º) “Abraçar a Srta. E.” – Depois de um minuto de silêncio, ela diz: “Devo abraçar alguém... É você, Maria... Não, é você, Edwige?”;

3º) “Adivinhar se eu penso em uma afirmação ou negação” – ela exclama: “Você está pensando que sim.” (era o contrário).

Salvo a última experiência, que podia ser considerada como resultado de uma simples conjetura errônea, todas as outras pareciam indicar uma ação real. Mas elas não foram realizadas em condições impecáveis, já que os sujeitos não tinham os olhos vendados e os assistentes, cientes do segredo, poderiam influenciar através de suas atitudes. Em todo caso, lembro-me de que a impressão pessoal dessa experiência não foi decisiva. As duas primeiras, devido ao caráter das injunções, difíceis de pressupor, não foram executadas integralmente; as outras, feitas com contato, apresentavam dúvidas inerentes a esse método e, enfim, os atos comandados podiam ser escolhidos sob a influência do meio psíquico. Lembro-me, por exemplo, de que no começo da sessão em que as três últimas experiências foram efetuadas a Srta. R. foi solicitada a tocar música, mas ela se recusou. Nada de notável, já que em seguida, devendo cumprir uma sugestão, o mesmo ato lhe veio à mente.

Aliás, em condições semelhante o número de atos a escolher é muito restrito.

Que é que se pode comandar a uma jovem numa sociedade conveniente, senão se pôr ao piano ou abraçar sua irmã? E se se trata simplesmente de apanhar um objeto qualquer ou ir a um lugar indicado, o contato da mão e suas pressões involuntárias conduzem o sujeito admiravelmente.

Cito estes pequenos detalhes para mostrar como é preciso ser circunspecto e atento nesse gênero de pesquisas.

Foi por essa época, depois de ter adquirido um certo conhecimento do hipnotismo, que eu me decidi a aplicá-lo no tratamento de doentes. O resultado foi surpreendente e eu compreendi que não somente as alegações de magnetizadores podem ser verdadeiras, como também que uma aplicação racional e metódica levará verdadeiramente a constatar fatos mais surpreendentes ainda. Hoje começa-se a caminhar nessa via e certamente é tempo, depois de se ter embrutecido certo número de histéricos, de lhes devolver a saúde pelo mesmo procedimento.

Absorvido no estudo terapêutico, eu negligenciei o problema da sugestão mental, considerando-a como sem qualquer valor prático. E foi acidentalmente que tive a ocasião de observar alguns fenômenos mais ou menos inesperados e que se interligam. Uma de minhas doentes, por exemplo, adivinhava sempre, desde que eu a tocasse, se minhas impressões da jornada foram agradáveis ou penosas. Ela sofria de uma doença complexa, que serei tentado a chamar de neurose ganglionária clorótica e que a manteve no leito durante 30 anos. Excessivamente impressionável, ela era, no entanto, insensível ao hipnotismo e à metaloscopia. Particularidade interessante: minha mão lhe parecia sempre quente, mesmo quando ela estivesse mais fria do que seu corpo. Como eu mantinha sempre a mesma atitude, esta faculdade de reconhecer meu estado mental me impressionava um pouco. Mas há mil outros meios para adivinhar essas coisas, graças à expressão do rosto, ao timbre da voz, sem que haja necessidade de recorrer a uma transmissão direta. É verdade que ela adivinhava também se, antes de aparecer em sua casa, eu tinha tocado um outro doente; mas ela podia perceber certos sinais de fadiga ou a hora um pouco mais tarde de minha chegada; pode ser também que ela fosse ajudada por certas sensações olfativas.

Uma outra doente apresentava o mesmo talento adivinhatório com todas as pessoas que habitualmente a cercavam. Ela era histérica, facilmente hipnotizável e não manifestava esta aptidão a não ser no momento de despertar, isto é, num estado intermediário entre o sonambulismo e o estado de vigília. Então ela dizia espontaneamente: “Oh! Como X está aborrecido com seu trabalho!”, “Por que Y está tão inquieto?”, “Hoje você tem mais esperança de me curar e está mais contente... eu lhe agradeço...”, etc. ela dizia tudo isso antes de abrir os olhos e às vezes sem pronunciar qualquer palavra sugestiva. Haveria uma transmissão real de estado de espírito? Eu não acreditava. Eram sempre as mesmas pessoas que a cercavam, ela as conhecia muito bem para poder fazer presunções. Entretanto, houve algumas coincidências estranhas. Certa vez, por exemplo, ela ficou muito impressionada com a tristeza da Srta. B. Entretanto, ela não podia vê-la, e a impressão que foi a causa desse desprazer apareceu no curso de seu sono.

Uma terceira, enfim, francesa que não conhecia uma só palavra de polonês, respondeu certo (em estado de sonambulismo) a uma observação feita nesta última língua. Não havia, entretanto, nenhuma analogia nas palavras. Mas isso não se repetiu mais: todas as outras experiências de sugestão mental foram, a meu ver, obra do acaso. Ela era facilmente hipnotizável e adivinhava, em estado de vigília, a doença de uma pessoa estranha, depois de tocar sua mão.

Tendo ouvido contar muitos casos desse gênero, eu quis saber tudo pessoalmente e perguntei-lhe qual era a doença que eu tinha.

– Nenhuma. Você jamais esteve doente. Um pouco de congestão, já que você trabalha muito; mas de resto, tem uma saúde perfeita.

Era exato. Para uma segunda prova, levei até ela uma de minhas pacientes, cuja doença complicada apresentava lesões nitidamente caracterizadas, não sendo fácil reconhecê-la pelo aspecto da doente. Ela tinha uma velha pneumonia, hepatização do pulmão direito, inflamação crônica da laringe, hiperestesia dorsal, frequentes dores de cabeça, muitas perturbações circulatórias, dispepsia e fraqueza geral intermitente. Apesar disso tudo, a doente, graças à sua constituição excepcional, tinha bom aspecto e, à primeira vista, não se poderia duvidar de seu estado.

A sonâmbula, depois de ter tocado a mão da doente, recitou quase todas as suas enfermidades. Ela não detalhou suficientemente as lesões, mas do ponto de vista dos sintomas seu diagnóstico foi muito exato. Mais ainda: fez uma descrição magistral do caráter da doença e de seus maus hábitos.

– Em que você se baseia? – perguntei à sonâmbula. – Você acredita ver os órgãos afetados?

– Não – diz ela –; eu mesma sinto os sintomas da doença.

E realmente, eu a vi sofrer e apresentar momentaneamente certos fenômenos mórbidos de uma outra doente que ela examinou, mas que eu não conhecia.

Esse sentir os sintomas eu poderia explicá-lo pela ideoplastia, mas ainda assim é preciso conhecê-los. E é aqui que a dúvida começa. A sonâmbula reconheceu-os. Mas tratava-se de uma mulher muito instruída, tendo certos conhecimentos médicos e muita experiência; ela podia, em consequência, ser guiada por outros meios que não fossem uma faculdade misteriosa. Enfim, uma ou duas experiências não são suficientes. Mas, por outro lado, devo dizer que a sonâmbula via minha doente pela primeira vez, que durante toda a consulta ela tinha os olhos semicerrados e não examinou a doente por nenhum dos meios comuns. Quanto à experiência da imaginação no sentir os sintomas, é duvidoso, pois a sonâmbula não era sugestionável nem em estado de vigília nem no de sonambulismo. Ela passava rapidamente do estado de obediência para o estado de poli-ideísmo ativo, que se parecia com o estado de vigília, salvo pela anestesia dos membros.

Em resumo, deixo no momento a questão em aberto, reproduzindo somente um fato observado num relatório lido na Academia de Medicina em 1831 por Husson, e onde está escrito o seguinte: “Nós encontramos uma sonâmbula que indicou os sintomas da doença de três pessoas.”

Teria sido sugestão mental?

Eu era o único a conhecer o estado da minha doente e a sonâmbula podia ler isso no meu pensamento.

Essa hipótese não me pareceu admissível, pois nenhuma sugestão voluntária deu certo; e então, o melhor é ficar naquilo que parece menos extraordinário, isto é, no caso, a uma transmissão dos sintomas de uma doença.

É possível isso? Não sei. Não me julgo autorizado a sustentar com certeza a existência de uma faculdade que permita sentir diretamente todas as particularidades do estado patológico de outrem, embora um médico de Paris me tenha assegurado seriamente que não somente esta faculdade lhe é própria, como jamais teve necessidade de outro método para fazer seu diagnóstico.

Tudo o que pude constatar por minha própria experiência é que existe uma outra transmissão nervosa, mais geral e menos circunstancial, que também me pareceu durante muito tempo insustentável e ridícula.

Há um preconceito popular muito antigo segundo o qual pode-se dar as dores que se tem para outra pessoa ou mesmo para um animal. Contaram-me muitos fatos desse gênero, outros são mencionados nas obras de magnetizadores e de alguns médicos, mas eu só mencionarei o que vi e provei eu mesmo.

Eis as conclusões de minha prática pessoal:

1º) A ação de magnetizar, mesmo quando se restringe a uma imposição das mãos, esgota muito mais do que uma ação mecanicamente análoga.

2º) Esse esgotamento é mais marcante quando se magnetiza um doente do que quando se magnetiza uma pessoa sadia.

3º) O esgotamento nervoso que se manifesta por certos caracteres particulares é às vezes acompanhado por uma transmissão de dores.

4º) As dores mais aptas para provocar esse fenômeno são: dores fulgurantes de atáxicos, dores reumáticas e hiperestesia dorsal.

5º) Um contato prolongado facilita esse fenômeno, que, mais raramente, se manifesta também depois de uma magnetização sem contato.

6º) A transmissão é raramente nítida e imediata. Às vezes somente a dor ataca o mesmo lugar e a mesma metade do corpo, o que chega sobretudo quando se tem um caso de muitas doenças, apresentando os mesmos sintomas. Geralmente ela ataca os nodi minoris resistentiae e se manifesta sobretudo no limiar do despertar.

7º) As dores transmitidas são sempre muito mais fracas e de curta duração.

8º) Salvo as dores, certos estados patológicos como congestões, pressão cerebral, insônias, etc. podem ser transmitidos igualmente depois de uma magnetização. Distingue-se-os mais facilmente de uma doença individual espontânea, por seu aparecimento e desaparecimento brusco e também por seu caráter superficial.

9º) O fenômeno é acompanhado sempre por um alívio notável do doente que comunica seu estado doentio. Somos tentados a crer que o equilíbrio nervoso se estabelece à custa de um outro organismo, mais bem equilibrado.

Em consequência, admitindo uma transmissão nervosa mais ou menos geral do doente ao magnetizador, não posso negar a possibilidade de uma transmissão mais explícita e mais detalhada do doente ao sujeito, hipnotizável e hiperestesiado pelas práticas do sonambulismo artificial.

Dois corpos com temperatura desigual tendem a igualar sua temperatura.

Dois corpos desigualmente eletrizados tendem a igualar sua eletricidade.

Dois corpos desigualmente equilibrados nas suas funções nervosas tendem a equilibrar suas funções.

Comparação não é razão, mas é uma aproximação que atenua um pouco nossa ignorância.

E o pensamento? Não corresponde ele também a um estado nervoso? Sem dúvida; e eu jamais neguei a possibilidade teórica da transmissão de um estado psíquico, como não nego a possibilidade teórica de uma transmissão da voz humana através do oceano, sobretudo depois de uma lição de circunspecção que dei a mim mesmo.

No mês de outubro de 1884 eu ainda estava convencido de que, em vista do antagonismo essencial que existe no microfone, entre a sensibilidade de suas peças constitutivas e a nitidez da palavra, não se chegaria nunca a reproduzir a palavra em voz alta; eu acreditava ser capaz de provar essa impossibilidade por uma série de fatos e de considerações rigorosas; e no mês de janeiro de 1885 eu mesmo inventei o termo-microfone, que reproduz a palavra em voz alta. Lembremos, pois, as palavras sábias de Arago que coloquei à testa deste trabalho e... prossigamos nosso estudo.

Chegando a Paris em 1882, fui procurar, naturalmente, tudo o que dissesse respeito a hipnotismo.

Certo dia eu estava assistindo a experiências hipnóticas em casa de um médico de Paris. Depois de ter posto em jogo todo o mecanismo maravilhoso de uma jovem histérica, convenientemente educada, o médico me deu a surpresa de uma sugestão mental...

Eis como a experiência foi feita:

A sonâmbula recebeu a ordem (verbal) de ir até o fundo da sala. Ela se manteve com os olhos entreabertos, com o jeito de uma colegial que conhece sua lição na ponta da língua, e ficou longe de nós.

E então, fixando na doente um olhar aterrador, o médico ordeno-lhe “mentalmente” que voltasse (nós estávamos ao lado de seu leito).

Depois de alguns minutos de hesitação e de impaciência, ela veio ao nosso encontro.

O médico me deu um sorriso de triunfo que queria dizer:

– Não é notável?

Mas a única coisa que me impressionou nesse caso foi a boa fé do experimentador, que se contentava com tão pouca coisa.

Pede-se ainda menos nos círculos dos magnetizadores. Se, por exemplo, fixando-se o olhar no dorso da mão de um sujeito (que não está com os olhos vendados) obtém-se a contração, isso é uma prova de que a concentração foi devida ao influxo ocular.

Se se pergunta ao sujeito se ele sente alguma sensação nas pernas, ele responde que na realidade sente qualquer coisa e isso é prova de que essa qualquer coisa foi provocada por “sugestão mental”.

Evidentemente, tais experiências só fortificavam minha incredulidade.

Na ocasião de ensaios de “demonstração”, repetidos diante de curiosos, devo fazer aqui uma restrição geral que pode parecer excessiva:

Uma mesma experiência de sugestão mental, repetida nas mesmas circunstâncias exteriores, não tem valor científico. No primeiro momento ela poderá ter o valor de um fato isolado, que não terá mais quando é feita pela segunda vez, do mesmo modo e nas mesmas condições. Exemplo:

Um dedo curvado pode significar muitas coisas e nada. Mas se, em estado de hipnotismo sugestionável, você faz crer ao sonâmbulo que há um papagaio no seu dedo curvado, bastará apresentar uma outra vez ao sujeito o seu dedo curvado da mesma maneira, para fazê-lo ver imediatamente o papagaio.

Este fenômeno é possível no estado poli-idéico, é inevitável no monoideísmo; não há controle possível, o sujeito não pensa, não é capaz de uma única ideia e aquela ideia foi você quem a inculcou direta ou indiretamente. No caso citado é a associação inseparável que completa a sensação direta.

Suponha-se que a sonâmbula que veio se reunir a nós tenha decidido, na primeira vez, levada pela impaciência, retornar ao leito; suponha-se que houvesse ali uma ação real qualquer; essas duas alternativas são indiferentes, desde que se trata de recomeçar a experiência em outro dia nas mesmas condições. Formou-se já uma associação mais ou menos inseparável entre a ideia da posição no fundo da sala, o olhar imperioso do experimentador, as figuras em expectativa das testemunhas e a intenção de ir reunir-se a elas.

Este reparo sobre a importância da associação pela contiguidade e em seguida por hábito é muito simples, mas quase não é levado em conta. Eu estranho quando vejo isso negligenciado por fisiologistas, sem dúvida distintos, mas que não têm o hábito da observação psicológica.

Esta negligência é de tal forma comum que se tornou causa única de uma série de generalizações errôneas e que nem ao menos são admitidas como princípios em hipnologia!

Exemplo: Não há qualquer relação entre os “olhos abertos” e a catalepsia. A catalepsia pode ser produzida com os olhos abertos, semi-abertos ou completamente fechados e também na mais absoluta escuridão. Para se verificar a catalepsia, habitualmente ergue-se o braço do paciente; se o braço cai novamente é porque ele não está em estado cataléptico, pois do contrário manteria a posição imposta.

Um dia experimentei provocar a catalepsia por ordem mental. Ela veio; o braço ficou no ar. Eu a suprimi para recomeçar; o braço caiu. Ordenei mentalmente a catalepsia, ela se manifestou de novo e assim tantas vezes quantas ordenei.

Deve-se, então, acreditar que eu tinha o direito de concluir pela existência de uma ação real?

Jamais. Eis a explicação natural do fenômeno:

Fazendo a experiência pela primeira vez, eu obtivera a catalepsia de um braço, erguendo-o pela mão, enquanto a outra mão executava alguns passes de alto a baixo. Foram precisos vários minutos para provocar essa flexibilidade mecânica do membro, que constitui a catalepsia. Mas à força de repetir, tudo foi mais rápido; um só passe ao longo do braço foi suficiente.

Depois da experiência em questão, tive que reconhecer que mesmo este passe se tornou supérfluo; formara-se uma associação ídeo-orgânica entre a ação de levantar o braço e o próprio estado cataléptico. Uma provocava a outra, o que quer dizer que minha sugestão mental não valia nada e que eu provocava a catalepsia querendo verificar se ela existia.

Mas, dir-se-á, o mesmo movimento do braço, executado imediatamente, demonstrou uma firmeza completa dos músculos! Como é que o mesmo movimento sugere uma vez a paralisia simples (a letargia) e uma segunda vez o estado cataléptico?

É que precisamente este movimento não é o mesmo. Levanta-se o braço uma vez para fazê-lo cair e outra vez para ver se por acaso ele não fica no ar. Uma ligeira nuance no estado de nosso espírito é suficiente para imprimir em nossos músculos e em nossos dedos uma diferença de movimento e de toque, diferença perfeitamente suficiente, em hipnotismo, para reproduzir, em um caso, a associação orgânica de catalepsia e não reproduzi-la de outro.

Toca-se, diversamente, sem intenção nenhuma e diversamente quando se quer produzir qualquer coisa; diversamente quando não se acredita e diversamente quando se tem absoluta confiança.

Em 1884 chega a Paris o famoso “leitor do pensamento”, Cumberland. Eu, depois de numerosas experiências, já não podia alimentar qualquer ilusão quanto ao sujeito dessa transmissão mental aparente.

Tendo observado que o verdadeiro médium, nessas experiências, era o que pensava e não o que adivinhava, eu refiz as experiências de Cumberland em muitas pessoas e publiquei a respeito uma série de artigos na Gazeta Polska (Gazeta da Polônia), no mês de maio de 1884. Depois a coisa foi suficientemente elucidada na França pelas pesquisas de Gley e de Richet e eu só tive que formular minhas observações para completar as deles, sem contar os detalhes experimentais.

É certo que todo pensamento que tem uma relação qualquer com o espaço tende a provocar movimentos inconscientes, indicando essas relações. Trata-se de um hábito, um mecanismo nervoso, uma parte hereditária e uma parte adquirida. No caso de um objeto escondido ou de uma pessoa escolhida, pensa-se no lugar em que eles se encontram e se conduz simplesmente o “leitor de pensamento” que nos segura a mão. É suficiente se exercitar uma noite para se fazer tanto quanto o famoso adivinho, pois apesar de tudo o que se publicou de extravagante sobre esse sujeito, não se trata de uma particularidade do tato nem de vibrações imperceptíveis: é preciso saber ir para onde nos levam, eis tudo. O lado cômico da questão é que não se duvida do que se faz e se paga 20 francos para ver uma pessoa mostrar com o dedo o objeto que ela mesma escondeu. O lado triste, ao contrário, é que nosso desdém pelas “ciências ocultas” nos tornou ignorantes quanto a fenômenos fisiológicos realmente notáveis e muito instrutivos. É o caso do hipnotismo.

Conheço uma dama muito inteligente e muito instruída com a qual eu encontraria uma agulha num palheiro. Ela me conduz com tanta segurança e com uma tal força que se torna difícil resistir. Uma vez esconderam um pequeno brilhante debaixo de um vaso de flores. Ela me indicou o vaso e eu comecei a tatear dentro; então com sua mão, que eu segurava levemente na minha, veio um gesto negativo, perfeitamente compreensível, que dizia: embaixo!

Ora, essa pessoa não somente não tinha nenhuma consciência desta conversação expressiva, como jamais quis acreditar que por seus movimentos inconscientes é que eu me guiava nas buscas.

– Não, dizia ela, isso é impossível. Você percebe o pensamento; eu tomei cuidado desta vez para não fazer um só movimento!

Ela era uma pessoa facilmente hipnotizável.

Há cerca de 60 por cento de pessoas com as quais as experiências de cumberlandismo se realizam mais ou menos facilmente; são mais numerosas do que as hipnotizáveis, cujo número não passa de 30 por cento. As experiências são mais fáceis com as hipnotizáveis.

Há, entretanto, entre estas últimas um certo número com as quais não se consegue nada. Por quê?

Porque as condições de sucesso no cumberlandismo são duplas:

1º) uma tendência orgânica a um desdobramento entre os movimentos voluntários e os movimentos involuntários, que caracteriza a maior parte das pessoas hipnotizáveis;

2º) uma facilidade em concentrar e sustentar a concentração de seus pensamentos, que provoca esse desdobramento em todo mundo, de uma maneira natural e necessária.

Ora, entre as pessoas não hipnotizáveis há as que possuem esta última faculdade em alto grau e, ao contrário, ela às vezes faz falta entre os indivíduos facilmente hipnotizáveis, mas incapazes de concentrar sua atenção. Quando elas passam diante de uma pessoa, pensam nessa pessoa; mas quando percebem um espelho, pensam no espelho e, evidentemente, as indicações musculares se embaraçam. Sim, há pessoas facilmente hipnotizáveis e incapazes de concentrar sua atenção, o que, seja dito de passagem, contradiz a teoria de Braid.

Em geral, o cumberlandismo baseia-se no mesmo princípio fisiológico de “willing”, que já descrevemos, quaisquer que sejam as condições exteriores. No “willing” é pela vontade que se procura determinar a pessoa que se toca, para que execute um movimento desejado, e então empurra-se involuntariamente. No cumberlandismo, ao contrário, não se tem essa vontade, a gente se contenta em pensar num lugar, mas se conduz de qualquer forma. O primeiro fenômeno compara-se com as mesas que giram, o segundo com a varinha adivinhadora. No fundo o princípio é o mesmo: uma ideoplastia dos movimentos (realização dos movimentos nos quais se pensa) e, do ponto de vista de quem adivinha, uma sugestão mecânica.

Estamos longe de sugestão mental! E, entretanto, são estas experiências que mais contribuíram para suscitar entre alguns fisiologistas a ideia de estudar a verdadeira sugestão mental.


Capítulo II

A sugestão mental provável


Tais eram minhas apreciações e minhas dúvidas até que, no mês de março de 1884, recebi de Nice uma carta de um conhecido médico, na qual havia a seguinte mensagem:

“... Apresentaram-me hoje mesmo um jovem de 24 anos, inteligente e instruído, desejoso de servir à ciência e em quem se podem determinar fenômenos sugestivos pela palavra e pelo pensamento, em estado de vigília.

Ele é notâmbulo desde sua infância; sua mãe, seu avô materno e seu tio também são ou eram. Fiz com ele algumas experiências. Imaginei ver um pássaro que voava em todos os sentidos num quarto – eu o toquei e ele viu o pássaro em diferentes sentidos...

Ele parecia sentir um pouco mais vivamente em toda a metade esquerda do corpo.

Devo rever esse homem que, certamente, é singular.




Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   ...   16


©psicod.org 2019
enviar mensagem

    Página principal