Julian Ochorowicz a sugestão Mental


Capítulo I A sugestão mental aparente



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Capítulo I

A sugestão mental aparente


Devo, antes de tudo, prevenir de que eu não acreditava na sugestão mental há um ano atrás. Não somente não acreditava como a questão não me parecia suficientemente séria para legitimar um estudo especial.

Ensaiei, entretanto, numerosas vezes, a ação pretendida do pensamento em um certo número de meus pacientes.

A primeira vez foi em Lublin,1 onde experimentei sobre um jovem de 17 anos, um tanto difícil de adormecer, mas que, uma vez em sonambulismo, apresentou certos fenômenos interessantes.

Ele reconheceu, por exemplo, todas as pessoas de seu conhecimento que, com um só dedo, lhe tocavam as costas. Fez isso quinze vezes e devo dizer que parte dessas pessoas só entrou na sala depois que ele já tinha adormecido.

Se ele demonstrava uma certa hesitação em relação a indivíduos que não pertenciam a seu meio habitual, distinguia sempre meu toque do de todos os outros e chegou a reconhecer uma dama, entrada sem que ele soubesse, e que ele havia visto pela primeira vez muitos dias antes.

Como foi isso possível?

Quanto à diferença entre o magnetizador e uma pessoa estranha, ela é muito nítida para um grande número de sonâmbulos: o toque do magnetizador lhe é agradável ou indiferente, embora qualquer outra pessoa possa causar-lhe dor. Por quê? Porque, dizem os magnetizadores, essas pessoas não estão em rapport (relação) com o sujeito. Mas esta é uma palavra que não nos diz muita coisa. O que é, pois, rapport?

Para esclarecer a questão é preciso antes de tudo salientar que esse fenômeno não existe no hipnotismo propriamente dito. Um hipnotizado pode ser tocado por quem quer que seja e se isso lhe causar dor, pode acontecer o mesmo com todo mundo. Ele ouve todo mundo ou ninguém, obedece a todo mundo, pode ser despertado por não importa quem.

Ele não é sempre o mesmo no sono dito magnético, provocado não mais por um objeto inanimado (um botão brilhante, por exemplo), mas por um magnetizador e sobretudo por passes.

Ora, cada pessoa tem sua própria maneira de tocar e, quando a gente se habitua, sente-se facilmente o contato, o calor ou a pressão de uma mão estranha. Há animais domésticos, gatos sobretudo, que não suportam as carícias de estranhos. Se passarmos a mão num gato adormecido e que apresenta essa idiossincrasia, podemos reconhecer facilmente a diferença dos movimentos reflexos: o gato se espreguiça langorosamente se for a dona que o acaricia; caso contrário, ele acorda descontente e foge.

O isolamento em que se encontra o sujeito magnetizado, a possibilidade de concentrar melhor a atenção, facilitam esta sensibilidade diferencial. O exercício, o hábito a fortificam. O sujeito suporta melhor as impressões às quais está habituado; às vezes mesmo elas se tornam para ele uma necessidade, um desejo agradável, ao passo que as sensações imprevistas, desacostumadas, o desagradam.

Mas desde que se trate de distinguir entre elas as pessoas estranhas, essa explicação não parece suficiente, mesmo considerando-se as diferenças moleculares do contato, diferenças prováveis, embora não provadas, e que seria necessário conhecer de antemão, para poder deduzir daí que uma certa sensação física corresponde a uma dada personalidade psíquica.

Há, então, no caso uma sugestão mental?

Reconhecer qualquer um é reconhecer sobretudo sua personalidade psíquica, é reconhecer esse conjunto vivo, interiormente ativo, cujas manifestações táteis exteriores são apenas um reflexo imperfeito. Se ficar bem provado que o eu de uma pessoa pode agir virtualmente sobre o eu do sujeito, esta será uma explicação direta e relativamente suficiente. A pessoa que toca pensa nela mesma; seu estado mental pode se resumir a uma afirmação (“Sou eu!”) e a uma questão (“Você me reconhece?”). Todos os assistentes olham para a pessoa e pensam nela maquinalmente; assim todo mundo influencia o sujeito e esta influência constitui a sugestão.

Mas para admitir uma tal explicação é preciso que fique bem demonstrado que a sugestão mental existe, ainda que essas experiências estejam longe de prová-la por si mesmas.

Permito-me uma outra explicação, mais natural, embora um tanto complicada: sim, houve sugestão por parte de todo mundo, mas não sugestão mental. O sujeito tinha os olhos vendados, mas, como eu atraí sua atenção para as pessoas que o cercavam, ele podia ouvir tudo o que se passava em torno; ele estava em sua própria casa, o hábito o familiarizava com todos os ruídos das portas, dos móveis, do soalho; ele conhecia intimamente as 8 ou 10 pessoas presentes, antes de adormecer; as pessoas que não tomavam parte na experiência, a um dado momento, não se privaram de trocar algumas palavras em voz alta, embora os outros recomendassem silêncio; a percepção de vozes conhecidas e as quais é fácil saber de que direção chegam permite que aos poucos se tome conhecimento da posição de diversos interlocutores; o ruído de inevitáveis trocas de lugar completa ou corrige, afinal, suas ideias.

Todas essas induções poderiam ter estado inconscientes. Sob certo aspecto, nós somos melhores observadores nos nossos sonhos do que no estado de vigília. As cenas imaginárias do sono nos representam as pessoas de nosso conhecimento com um profundo sentimento de seus caracteres, de seus hábitos, de suas palavras favoritas, de uma infinidade de sinais fisionômicos que escapam à nossa observação consciente. É, pois, compreensível que um sonâmbulo que não se distraia, cujas lembranças e todas as sensações contribuam para uma só operação perceptiva, possa distinguir melhor do que nós as conexões de certos sinais.

O único fato que me impressionou um pouco foi o da mulher que o sonâmbulo só vira uma vez; mas esse fato oferecia algumas particularidades capazes de o guiar. O roçar de um vestido de seda por trás de sua cadeira fê-lo perceber que se tratava de uma mulher, e de uma mulher estrangeira, pois as da casa não estavam usando vestido igual. Ela o tocou levemente, com uma evidente timidez; era, pois, mais provavelmente uma senhorita do que uma mulher casada; entre as solteiras que podiam ter ido a esse sarau com vestido de seda, a Srta. W. figurava em primeiro lugar. Devia ser ela.

Não havia, portanto, no fato citado, senão uma sugestão por conjectura.2

Vejamos agora outra experiência, feita com o mesmo indivíduo; é uma experiência aparentemente mais extraordinária.

Tratava-se de verificar a visão sem o socorro dos olhos.

Eu tomo um livro, fora da vista do indivíduo, abro-o ao acaso e ordeno-lhe que leia.

– Eu não vejo bem, diz ele.

Eu leio as duas ou três primeiras palavras da página e convido-o a continuar.

– Está no meio do segundo volume, diz ele, capítulo tal e tal; é o romance de Kraszewski O mundo e o poeta.

– Perfeitamente, continue agora.

E, para nosso assombro, ele se põe a ler uma página inteira, quase sem errar.

Se eu pousasse o livro, ele parava; ele “lia” correntemente quando eu tinha os olhos sobre o texto.

Mudei de página. Ele lia sempre bem.

Algumas das pessoas que assistiram a esta experiência acreditaram estar vendo a “dupla visão”, apesar das explicações que eu dava imediatamente.

Mas se esse não era o caso de uma dupla visão, seria preciso prova melhor da sugestão mental?

Infelizmente sim. Antes de tudo, ele “lia”, embora menos bem, o livro fechado; era preciso apenas comunicar-lhe a primeira frase do trecho, e isso não era, pois, transmissão do pensamento; não era também dupla visão, pois sem esta sugestão verbal ele não podia ler os números das páginas nem reconhecer um objeto qualquer.

Eis a explicação do mistério:

O jovem em questão lera, anteriormente, duas vezes seguidas o mencionado romance. Ele o havia lido como se lia naqueles tempos na Polônia, isto é, com a idade de 17 anos. Conhecia-o quase de cor. Evidentemente não saberia recitar, na idade adulta, páginas inteiras textualmente, mas nossa experiência provou ao menos uma coisa: uma vivacidade impressionante das lembranças no sonambulismo. Quanto à influência de meu pensamento, a causa era simples: ele “via” melhor quando eu olhava o livro, porque maquinalmente eu corrigia seus pequenos erros. São exatamente esses erros que me sugeriram a verdadeira explicação da experiência; pois em lugar de ler mal uma palavra escrita, ele a substituía por outra, análoga como sentido mas diferente como forma. Levado por associações exatas, por um erro semelhante, ele parava quando eu fechava o livro, porque eu não podia mais prestar-lhe ajuda.

Apesar dessas decepções, eu ainda tentei a sugestão mental direta:

1 – Ele devia repetir meus gestos, executados numa sala vizinha, cuja porta ficaria entreaberta. Estas experiências não deram nada de surpreendente; houve apenas algumas coincidências, de vez em quando.

2 – Ele devia vir a mim, atravessando muitos quartos fechados, os olhos vendados. Esta experiência dava sempre certo, mas era preciso que ele fosse prevenido antes que ela fosse feita. Então, e sempre com um atraso de alguns minutos, ele vinha me encontrar. Era certo que ele sentia minha presença, desde que estivesse no mesmo quarto, mas isso não provava nada ainda em favor da ação mental, sobretudo porque todos os ensaios feitos de improviso só deram resultados negativos.

3 – Ele devia adivinhar o objeto pensado, tocando minha mão. Resultado quase nulo; alguns, entretanto, deram certo.

Eis a explicação que me pareceu mais provável para um certo número de coincidências:

1º) Nós éramos dois amigos, vivendo juntos nas mesmas condições, e era comum termos simultaneamente as mesmas ideias.

2º) Os movimentos que foram repetidos à distância faziam parte de gestos ou atitudes comuns cujo número é muito restrito e que podiam ser adivinhados ao acaso.

Lembro-me, por exemplo, de ter começado as experiências com uma ordem de “levantar o braço direito”. Ora, é esta, quase sempre, a ideia que nos ocorre em primeiro lugar quando queremos experimentar a sugestão mental; acontece o mesmo quando, querendo provar o livre-arbítrio, damos um murro na mesa, exclamando: “Eu posso bater ou não bater!”.

O sujeito, tendo levantado o braço direito e não tendo executado as ordens seguintes, me deu o direito de presumir que ele teve simultaneamente a mesma ideia que eu. Acrescento que ele foi prevenido antes de que teria que executar os movimentos comandados mentalmente.

Em 1869 renovei minhas tentativas em Varsóvia, numa senhora italiana que se dizia ser “lúcida” e de quem muito se falava. Ela era notável, entre outras coisas, pela insensibilidade quase completa da pupila à luz, em estado de contração geral. Tendo-a adormecido e colocado à prova, fiquei impressionado com sua facilidade especial de contar os sonhos sonambúlicos de modo verdadeiramente surpreendente. Quanto à lucidez ou “clarividência” propriamente dita, ela era muito obscura e eu não consegui uma só vez deter a fluência de sua eloquência em favor da uma ordem mental.

Veremos mais adiante que, no estado se sonambulismo ativo, quando a sonâmbula fala muito dela mesma, a sugestão mental não é possível.

No mesmo ano fiz ainda algumas experiências “espiríticas” (emprego este termo no sentido que lhe deu Richet), experiências que se ligam a nosso sujeito.

Eis sua origem: um homem sério assistia, certo dia, a uma sessão de mesas giratórias. Vendo o entusiasmo fácil das pessoas que se divertiam em impelir a mesa inconscientemente, disse:

– Eu acreditarei nos espíritos se eles me disserem o nome de batismo de meu avô.

Ele mesmo era um homem idoso, convencido de que nenhuma das pessoas presentes conhecia o nome de seu avô.

– Os espíritos podem não saber – observou gravemente um espírita que dirigia as experiências –, mas se você concentrar seu pensamento no nome que só você conhece, eles poderão lhe dizer.

Recitou-se o alfabeto e os golpes da mesa nas letras correspondentes compuseram o nome Alberto. Era exatamente esse o nome.

– É uma coisa diabólica, pensou o homem.

E ele prometeu nunca mais assistir a uma sessão espírita.

Quando ele me contou esta história, tive o direito de supor uma sugestão mental. Não acreditando em espíritos, ele teve, a menos que admitisse um simples acaso, pouco provável, que se resignar a esta última hipótese. Entretanto, dada a complexidade deste gênero de experiências e a facilidade de uma ilusão qualquer, eu decidi não admitir nada antes de uma experiência que eu mesmo executaria, em condições bem conhecidas e bem determinadas.

A ocasião apareceu logo.

Entre as cinco pessoas (moças na maioria) sentadas em torno da mesa, nenhuma, segundo me asseguraram, conhecia o nome da avó de uma mulher idosa que ficou fora da ação. Esse nome foi indicado; mas feita a verificação, constatei que uma das moças da mesa devia ter ouvido pronunciar o nome em questão com frequência; ela mesma me confessou que no curso da sessão tinha ouvido esse nome, que acreditava não conhecer minutos antes.

Foi o suficiente para justificar uma influência, mais ou menos involuntária, de seus músculos.

Imaginei, então, um nome de fantasia que só eu conhecia.

A mesa respondeu outro nome que não tinha qualquer semelhança com meu pensamento. Fingi escrever uma palavra numa folha de papel. A mesa respondeu com uma palavra, “torto”, em que ninguém havia pensado. Ficou, pois, evidente que a fantasia inconsciente dos “médiuns” dava uma falsa rota cada vez que ela não era mais guiada por uma sugestão qualquer.

Passemos a uma outra experiência.

Eu tinha preparado antes a fotografia de um de meus amigos num envelope lacrado.

– O que é que há neste envelope? Uma carta, uma nota bancária ou uma fotografia? (Copio textualmente as questões segundo minhas anotações).

– É uma fotografia.

– De um homem ou de uma mulher?

– De um homem.

– Que idade tem ele?

A mesa bateu 23 vezes, o que era certo. Os crentes acreditaram num milagre. Mas feita a reflexão e depois de eu me ter recordado bem de todas as circunstâncias, não pude participar da mesma opinião.

De início, a probabilidade de uma resposta certa era muito grande; de 1/3 para a primeira questão, de 1/2 para a segunda. Quanto à terceira, ela era bem menor, mas eu havia cometido uma imprudência que sem dúvida determinou o acerto: quando a mesa, depois de ter batido 23 vezes, fez o pequeno intervalo, eu me precipitei em dizer: “Está certo!”. Ora, antes de chegar às 23 batidas a mesa também fez um pequeno intervalo e eu não disse nada. Segundo minha impressão, ela certamente continuaria a bater se minha exclamação não a interrompesse.

Além disso eu notara que o envelope, fechado na minha carteira, assumira a forma de um cartão fotográfico, um pouco curvado e visivelmente mais rígido que uma carta ou um aviso bancário.

Enfim, e isso é uma particularidade difícil de explicar, eu sentia perfeitamente que, naquela sociedade e nas condições dadas, esperava-se de minha parte mais a fotografia de um homem do que de uma mulher.

Não houve, portanto, senão uma sugestão por conjectura, de acaso talvez.

Ainda um êxito aparente:

Pedi a uma mulher que não fazia parte dos “médiuns” que passasse para um outro quarto e lá escrevesse uma cifra qualquer num pedaço de papel, sem mostrá-lo a ninguém.

Quando ela voltou eu perguntei à mesa:

– Quantas cifras ela escreveu?

– Duas.


– Qual é a primeira? Eu recitei todos os dez sinais, inclusive o zero, mas a mesa não respondeu. Recomecei:

– É o um?

– Sim. (Havia sido combinado com os “espíritas” que um golpe seria sim e dois não).

– E a segunda cifra?

A mesa bateu 6 vezes. Mas infelizmente, quando a mesa acabou de bater a sexta vez, a mulher gritou:

– É fantástico! Eu escrevi 16!

Devo acrescentar que ela não havia podido se decidir na escolha de um número.

– Devo escrever um número de uma só cifra ou de muitas? – perguntou ela antes de sair para outro quarto.

– Um número qualquer – respondi – de duas ou três cifras, por exemplo.

A sugestão de duas cifras foi dada por inabilidade, portanto.

Recomeçamos e, desta vez em condições rigorosas. Eu era o único a saber da cifra. Escrevi 4 e a mesa adivinhou 346...

Em 1872 foi uma jovem alemã, muito sensível, muito delicada, sujeita a desmaios histéricos, que me sugeriu a ideia de um novo ensaio. Eu havia feito sobre ela uma série de observações relativas às mudanças da pulsação nas diversas fases do sonambulismo, observações mencionadas na obra que publiquei em 1874. Mas os fenômenos psíquicos, nela, foram muito medíocres e, quanto à sugestão mental, não conseguira nada.

Não mencionarei aqui uma série de experiências de ocasião, feitas à revelia de pessoas despertas e que consistem em fazer voltar a cabeça de uma pessoa a quem se fixa por trás, ordenando-lhe que nos olhe. Estas experiências dão certo de vez em quando, mas jamais em condições científicas. Uma vez, entretanto, as experiências me impressionaram muito. Eu me encontrava num baile. Uma moça atraiu minha atenção pela singularidade de seus traços; dirigia, pois, frequentemente meu olhar para ela e percebi que cada vez que eu lançava um olhar mais prolongado, sua cabeça e seus olhos se voltavam para mim. Ela, entretanto, não me podia ver. Para verificar o fenômeno eu escolhi um momento menos favorável e consegui. Ensaiei mais uma vez, com o mesmo sucesso. Depois, estando eu numa sala vizinha, disse a um de meus amigos:

– Vamos tentar uma experiência curiosa. Você está vendo aquela jovem sentada num canto do salão? Eu a farei vir até aqui...

Um minuto depois a jovem se levantou, entrou na sala, ficou um momento indecisa, lançou sobre nós um olhar interrogador e depois voltou ao salão...

Vim a conhecê-la algumas semanas depois. Submetida à experiência da hipnoscopia,3 ela só apresentou o dedo um pouco engrossado. Adormeceu com dificuldade (em 15 minutos) um sono muito leve e que logo se dissipou. Era pouco. Nenhuma experiência de sugestão mental teve êxito.

Teria sido então uma ilusão? Creio que sim.

Depois de refletir sobre este caso, conhecido o sujeito, passei a interpretar meus primeiros sucessos. Concluí que não havia nada de especial no fato de ela se voltar, quando eu a observara, porque, tendo ouvido falar de mim, ela queria conhecer-me; e é mesmo provável que, por uma forte ilusão comum, acreditei tê-la notado primeiro por causa da “singularidade de seus traços”, quando na realidade ela é que já me observava havia algum tempo. Além disso, é razoável que uma mulher bonita esteja atenta a quem a observa.

Este incidente me deixou desgostoso com a sugestão mental e muitos indivíduos notáveis passaram pelas minhas mãos sem que eu tentasse ensaiar com eles a transmissão de pensamento.

Lembro-me ainda de uma outra experiência desencorajadora.

Eu tinha ido a uma representação “extraordinária” de um certo “Visconde de Caston”, que fazia demonstrações de memória e prestidigitação, improvisava versos, lia sem a ajuda dos olhos e adivinhava pensamentos. Era uma sessão verdadeiramente interessante para um psicólogo. Eu não falarei nos truques comuns, se bem que – digo-o com toda franqueza – esse é um estudo que recomendo sinceramente a todo fisiologista que se ocupa do hipnotismo em geral e da sugestão mental em particular. A magia branca é a obra de uma aplicação engenhosa da psicologia da atenção, das associações involuntárias, da ilusão e dos movimentos reflexos, mais do que da habilidade física.

Merece ser mencionada aqui uma série de casos baseados unicamente na associação de ideias. Sabe-se que, por um subterfúgio muito simples, é possível forçar uma pessoa a escolher uma carta pretendida, espalhada entre muitas outras. Tem que se espalhar apenas, rapidamente diante de seus olhos, o jogo de cartas, de maneira que a carta predestinada seja a única bem visível. Escamoteia-se, assim, a percepção da pessoa, que escolhe maquinalmente a carta sugerida. Nosso prestidigitador psicólogo desenvolveu esse método, aplicando operações puramente mentais; depois de ter preparado um certo número de envelopes fechados contendo palavras escritas antecipadamente, tais como “rosa”, “diamante”, “negro”, etc., ele entabulava uma conversa espiritual com o público. E parava exatamente no instante em que a associação mais próxima e mais inevitável era de um dos objetos predestinados. Depois, fazendo um giro hábil, ele repetia, num outro canto, a mesma associação, não expressa, e pedia bruscamente a uma pessoa que ele julgava bem absorvida nas suas maquinações, que pensasse num objeto qualquer.

Ela escolhia sempre o objeto sugerido.

Ele só tinha que perguntar, em seguida, a qual dos reinos – mineral, vegetal ou animal – pertencia o objeto escolhido, para assegurar o êxito e provar à pessoa interessada que seu pensamento escreveu-se, por si só, numa das cartas fechadas.

Como a experiência que acabo de descrever não é senão a utilização consciente de um processo mental que se reproduz diária e mecanicamente na vida comum, conclui-se que num grande número de casos o meio psíquico da assembleia é suficiente para explicar coincidências inesperadas entre os pensamentos do experimentador e os dessas pessoas. Coincidências tanto mais surpreendentes quanto menos conhecemos o mecanismo inconsciente dessas sugestões mentais, se quisermos, mas que nada têm a ver com a transmissão do pensamento. Depois disso tudo, estou certo de que, numa experiência de sugestão mental bem sucedida, há sempre duas questões a elucidar. A questão: “Como pôde o sujeito adivinhar o pensamento?” é a segunda, pois a primeira consiste em saber: “Como é que o experimentador chegou a escolher uma palavra em lugar de outra?”. Não é senão através da relação íntima desses dois processos que se pode julgar o valor científico da experiência.

Todas as vezes que muitas pessoas se entretêm durante um certo tempo, estabelece-se entre suas inteligências um encadeamento recíproco. Basta, então, a um observador hábil se isolar pelo pensamento do mecanismo involuntário, de abraçá-lo mentalmente por uma percepção global, para prever o objeto que naquele instante vai ocupar a atenção dos assistentes. É o mesmo mecanismo que faz com que, às vezes, numa sociedade, duas pessoas emitam simultaneamente um mesmo pensamento ou coloquem uma mesma questão. Quanto mais conhecemos seu mundo, mais conseguimos nessa “clarividência” psicológica. Lembro-me de que, sendo secretário de uma sociedade que tinha por objetivo a publicação de uma Enciclopédia de Ciências, eu havia preparado com antecedência o protocolo de uma de nossas reuniões. Tinha-se que discutir a questão de saber se convinha ou não reservar, entre as ciências a tratar, um lugar para a teologia. Dois padres faziam parte da comissão. Mas conhecendo as pessoas e as opiniões, arrisquei a experiência. O protocolo foi preparado; ele prestava contas da discussão geral, terminando com o seguinte voto: “A teologia não deve ser tratada senão como fazendo parte da História das Religiões.” Não tive que trocar nenhuma palavra para submeter o protocolo à assinatura dos membros.

Evidentemente, não se é tão bom profeta sem ser um pouco cúmplice, mas se é sempre cúmplice desde que se comande a execução de uma ideia que nos venha mecanicamente ao espírito. Eis um exemplo: você é frequentador de uma casa. Você não se lembra de que, na última vez, discutiu-se sobre a política colonial e que logo depois uma mulher começou a tocar piano. Discutiu-se de novo sobre a política colonial, ao mesmo tempo em que você teve a ideia de ensaiar a sugestão mental: você ordenou à mulher que fosse ao piano e ela foi. Você se impressiona com o sucesso, tanto mais que não vê nenhuma relação entre a política colonial e um trecho musical para piano e que sua cúmplice, ela também, garante com a maior boa fé do mundo que não compreende como a ideia de tocar piano lhe veio subitamente à cabeça.

Pode-se utilizar esse processo inconsciente com conhecimento de causa: M. P., meu amigo, tão espiritual quanto distraído, jogava xadrez numa sala vizinha; nós, os outros, conversávamos perto da porta. Eu observava que, entre as obsessões comuns nos jogadores de xadrez, uma das mais frequentes em particular a meu amigo era a seguinte: jogando com a máxima atenção, ele assobiava mecanicamente uma ária de “Madame Angot”. Parecia acompanhá-la com batidas na mesa. Mas desta vez ele acompanha outra coisa, por exceção. Era a “Marcha do Profeta”.

– Ouçam – disse eu a meus companheiros –, vamos fazer uma coisa com P. Vamos ordenar-lhe mentalmente para passar do “Profeta” para a “Filha de Madame Angot”.

Pus-me a bater o compasso da marcha, depois, aproveitando algumas notas comuns, passei rapidamente ao compasso mais rápido.

Então nosso jogador, ele também, mudou rapidamente de ária e começou a assobiar “Madame Angot”.

Todos começaram a rir. Quanto a ele, estava absorvido demais por um xeque à rainha para perceber alguma coisa.

– Recomecemos – disse eu – e voltemos ao “Profeta”.

E tivemos logo uma reprise de Meyerber.

Meu amigo sabia que tinha assobiado qualquer coisa, mas nada mais.

Quem conhece os hábitos de uma pessoa pode às vezes simular a sugestão mental mesmo sem qualquer impressão sugestiva.

Na Faculdade de X., um professor de Filosofia, dando aula, tinha o hábito de olhar à sua direita, depois para o meio da sala e depois para a esquerda, depois novamente para a direita e assim por diante, com a regularidade de um pêndulo. Certo dia ele estava tentando nos provar a liberdade psíquica do homem...

– Vocês vão ver seu livre-arbítrio – disse eu a meus colegas, por brincadeira.

E, levantando o dedo eu me pus a comandar os movimentos que sua cabeça devia executar, à direita, no meio, à esquerda...

Não acreditem que esta anedota não tenha relação com nosso sujeito; naturalmente tratava-se apenas de uma brincadeira. Seria uma trapaça se fosse levada a sério. Mas precisamente no hipnotismo essas trapaças chegam involuntariamente aos fisiologistas, que bem sabem observar os fatos exteriores, mas que não sabem observar-se a si mesmos. Eis o que, nesse gênero, me aconteceu na categoria das sugestões aparentes.

Eu tratava de uma mulher idosa, pelo hipnotismo. Ela sofria de reumatismo articular crônico. Eu a adormecia muito facilmente e um repouso absoluto de meia hora era sempre suficiente para acalmar seus nervos e melhorar seu sono natural ao menos por alguns dias. Não havia meio de provocar o sonambulismo propriamente dito, de modo que eu ficava folheando um livro, esperando a hora de despertar. Um dia tive a ideia de tentar o despertar por ordem mental.

“Acorde”, disse eu, mentalmente, e logo ela teve algumas contrações musculares na face e os olhos se abriram: ela despertara.

Alguns dias depois tentei fazê-la executar certos movimentos, mas em vão; consegui, entretanto, despertar a paciente da mesma maneira, apenas com algum atraso. Era estranho. Por que ela despertava, ficando insensível, todavia a outras sugestões?

Eis a razão. Havia, no caso, dois hábitos que tinham passado despercebidos. Continuando o tratamento por algumas semanas, eu havia adquirido o hábito de despertá-la exatamente meia hora depois da manifestação do sono. Eu não olhava para o relógio, mas despertava-a sempre na hora fixada e, como era uma hora antes do jantar, meu estômago substituía perfeitamente o relógio.

Quanto à doente, ela havia também adquirido o hábito de despertar quase no exato minuto: fenômeno bem conhecido entre os hipnotizadores. Isso não acontece sempre, mas com muita frequência.

Tendo havido essa suspeita, eu quis verificar sua exatidão. Pois bem, cheguei logo a constatar:

1º) que eu não podia despertá-la “mentalmente” 10, 15 ou 20 minutos depois da declaração do sono;

2º) que ela despertava sempre por si mesma, depois de 30 a 35 minutos, sem qualquer sugestão mental.

Em 1881, assisti em Lemberg às representações magnéticas dadas por Donato. Entre suas experiências havia uma que, sem ser apresentada como tal, tinha todas as aparências de uma sugestão mental. Lucile ficava sentada no palco, os olhos vendados, enquanto Donato circulava no meio do público, ouvindo ao pé do ouvido um certo número de atos que a sonâmbula devia executar em seguida. Ela devia, por exemplo, se abanar com o avental de madame N; abrir o chapéu claque do Sr. X e colocá-lo na cabeça; retirar o bracelete de Y para passar para Z e assim por diante. (É preciso notar que os pedidos do público são muito restritos, em geral as mesmas coisas, sem que haja, entretanto, combinação; o meio psíquico faz aí seu ofício.

Às ordens recolhidas, Donato atraía Lucile para o meio do público e, sem dizer palavra, unicamente com a ajuda de gestos, executados um a um ou dois passos de distância ele dirigia a “médium” para a pessoa em questão, e ela cumpria perfeitamente tudo o que lhe havia sido solicitado.

Esta experiência produzia muito efeito, pois é evidente que não havia combinação com o sujeito nem com o público.

Como é que Lucile podia executar esse número interessante?

– Pela educação magnética.

Tal foi a resposta do magnetizador. É vago, mas verdadeiro.

Existe no magnetismo um fenômeno pouco estudado, já mencionado por Richet: o da atração dita magnética. É suficiente aproximar a mão do braço do sujeito adormecido para que esse braço vá na direção da mão e siga todos os seus movimentos. Embora o ímã provoque o mesmo fenômeno, não há analogia.

Essa atração não tem nada em comum com a atração do ferro pelo ímã; ela não é de ordem física, e sim de ordem reflexa.

Mas essa é uma questão à parte. O que importa é que esta faculdade, própria de um grande número de sonâmbulos, pode ser cultivada e aperfeiçoada pela educação hipnótica. Pouco a pouco o sujeito se torna sensível a atrações variadas e se às atrações variadas se acrescentar a concepção inteligente dos gestos, tem-se tudo o que é preciso para simular maravilhosamente a transmissão de pensamento.

No começo o sujeito só pode ser influenciado de perto e só compreende movimentos simples; depois ele se habitua à maneira de agir do magnetizador, adivinha os gestos e uma associação mecânica se estabelece entre os indícios quase imperceptíveis do experimentador e certos movimentos reflexos ou mesmo voluntários do sujeito.

E eis com Lucile podia executar as ordens comandadas sem palavras.

Existe ainda um outro meio, muito mais simples, de simular a sugestão mental. Donato mesmo mostrou que com a ajuda de certos movimentos dos dedos diante das orelhas de Lucile ele podia produzir uma hiper-acústica suficiente para permitir que ela ouvisse as palavras pronunciadas tão baixo que mesmo as pessoas próximas não compreendiam. Repeti essa experiência num camponês de Zakopane, na Galícia, cujas orelhas em abano conseguiam ouvir melhor que outros as palavras que eu pronunciava em voz baixa, a quatro metros de distância.

É evidente que com uma tal hiperestesia o sujeito pode:

1º) ouvir diretamente o que se diz no ouvido do magnetizador; ou

2º) ouvir depois aquilo que lhe é sussurrado no ouvido, sem que os assistentes ouçam.

Donato quis fazer para mim uma sessão privada. Foi então que tive a ocasião de experimentar ainda uma vez a sugestão mental. O magnetizador mesmo manifestou dúvidas. Acreditava na possibilidade do fenômeno, que certa vez, aliás, demonstrou na presença de Aksakof; mas, segundo ele, a experiência não teve êxito senão raramente.

De qualquer forma, fizemos o ensaio.

Lucile em pé e nós dois a seu lado, eu ao lado do magnetizador, a dois metros do sujeito, e este último devia estender o braço esquerdo. Ao cabo de um minuto ele fez alguns movimentos com esse braço, e às vezes com o corpo inteiro, movimentos que bem poderiam ser determinados pela fadiga do sujeito sem ter qualquer relação com as intenções do magnetizador.

Donato não teve dificuldade em reconhecer isso.

– Estarei mais seguro do sucesso – disse ele – se você me permitir agir por meio de gestos.

Mas a questão não era essa.

Certamente podia-se, agindo por atração, fazer estender um braço.

As outras tentativas não foram melhores, sejam as feitas por mim, depois de ter adormecido o sujeito, sejam as que foram comandadas por Donato. Somente constatei o mesmo fenômeno num dos meus primeiros sujeitos, isto é, a faculdade de reconhecer a pessoa que o tocava. Quando era Donato que adormecia o sujeito, meu toque lhe causava dores; ao contrário, quando era eu que magnetizava, Lucile suportava sempre relativamente melhor o contato de seu magnetizador habitual.

Foram tomadas precauções para que Lucile não pudesse adivinhar quem era a pessoa que a tocava, sempre levemente.

Esse fenômeno, eu o constatei depois em quase todas as pessoas eminentemente sensíveis, não hipnotizadas mas magnetizadas, e fui obrigado, ao mesmo tempo, a admitir uma ação física individual, fora do hipnotismo.

Espero que não me acusem de leviandade quando publicar os detalhes destes estudos, e que se tenha em vista a circunstância de que durante 14 anos eu fui “hipnotizador”, como todo mundo.

A questão da ação física não é indiferente ao problema da sugestão mental, como veremos adiante, mas evidentemente uma não implica a outra.

Apesar dessa evolução nas minhas opiniões, eu estava ainda longe de acreditar na transmissão do pensamento.

Os ensaios precedentes, ao contrário, me desencorajaram, colocando em dia toda a complexidade da questão e todas as causas erradas.

Convenci-me de que um magnetizador hábil, tendo como sujeito uma pessoa razoavelmente inteligente, pode perfeitamente imitar a sugestão mental ou ser ludibriado por associações inconscientes. As testemunhas, contando o fato, o transfiguram, o embelezam involuntariamente, em virtude desta faculdade psíquica, muito estimável nas artes mas eminentemente perigosa em ciência, que se chama “fantasia complementar”.

Cito o exemplo de Hugues, o inventor do microfone, do telégrafo impressor, etc., físico e pensador notável. Ele acreditou ter constatado, no início de suas experiências, que o microfone aumenta a intensidade dos sons transmitidos. Era um erro de interpretação, sugerido por certos efeitos enganadores. Jamais um microfone ampliou a intensidade da palavra ou dos sons em geral; produz-se, ao contrário, um enfraquecimento notável. Como é que esse erro pôde nascer? Por um defeito de discernimento entre sons e os abalos mecânicos que os acompanham. O microfone faz ouvir o passo de uma mosca sobre uma tábua delgada não porque ela amplia o ruído, mas porque o microfone transforma em sons os abalos mecânicos desses passos. Fixando-se na proximidade da tábua um relógio que produza um som mais forte, não se ouvirá nada, mas colocando-se na tábua um microfone se ouvirá o tique-taque do relógio pelo telefone, muito melhor do que diretamente, pois que, neste último caso, os abalos mecânicos são transformados em som. Pois bem, esse erro de interpretação se propagou de tal forma que ainda pode ser encontrado em livros de física.

Frequentemente somos levados a uma posição semelhante no que tange à sugestão mental. O pensamento de um lado do cérebro é seguido de um pensamento semelhante num cérebro semelhante: estaremos nós aqui nas condições de dois telefones que se influenciam mutuamente com a ajuda de correntes ondulatórias, ou melhor, nas condições de dois relógios de Leibnitz, que, indicando ambos a mesma hora, não sofrem qualquer ação mútua? Eis a questão. E é preciso acrescentar que entre essas duas situações extremas uma grande parte deve ser feita por uma ação intermediária e complicada: conservando seu mecanismo independente, os dois relógios podem ser regulados imperceptivelmente por uma transmissão pneumática ou elétrica. Médicos que, como Barrier, Teste, Bertrand, Charpignon, Garcin, Despine, etc. nos atestam a transmissão do pensamento, viram dois relógios marcando a mesma hora ao mesmo tempo...

Tive, pois, o direito de considerar seu testemunho como insuficiente e por outra razão ainda, que passo a expor.

Para poder julgar um fato desse gênero, é absolutamente preciso ter no espírito a teoria sugestiva do hipnotismo; é preciso lembrar a cada momento que todos os fenômenos hipnóticos, sem exceção, podem ser reproduzidos só pela ação da imaginação, pela ideoplastia. Em consequência, para admitir, por exemplo, um caso de sonambulismo à distância, não basta somente verificar o fato, é preciso ainda ter certeza absoluta de que o sujeito não pôde, por uma combinação de circunstâncias, presumir a experiência. Mais ainda, esta presunção pode ficar inconsciente, determinando o efeito pretendido. Meus estudos hipnóticos não me deixam nenhuma dúvida quanto a isso. De modo que, mesmo no caso em que o sujeito não tenha sido prevenido, ou que se declare não ser dotado de nada, não se está ainda ao abrigo de incertezas. Ora, apesar das publicações do abade Faria, de Hénin, Cuvillier, Bertrand, Braid, Durand de Gross, Morin, Szokalki e Liebeaut, a teoria da sugestão só foi realmente conhecida e reconhecida depois do aparecimento do engenhoso trabalho do Dr. Bernheim. Na época achava-se compreensível a ação das “correntes magnéticas” no espaço, mas acreditava-se inverossímil a produção de sonambulismo através de uma carta (não magnetizada) que fixava a experiência para uma determinada hora. O sujeito adormecia alguns minutos depois de uma concentração de vontade à distância, e em consequência eram o pensamento e o “fluido magnético”, seu fator, que produziam o sonambulismo; post hoc, ergo propter hoc.

Durante muito tempo essas dúvidas me pareceram suficientes para renunciar a novas tentativas. Mas a gente volta sempre aos primeiros amores.

Na Universidade de Lemberg, dando aula (1875-81) de Psicologia fisiológica, estudei muito as diferentes questões de hipnotismo. Um grande número de alunos meus se apresentaram como voluntários para toda sorte de ensaios e foi então que comecei a me orientar um pouco melhor nesse terreno misterioso. Um dia reuni seis de meus melhores pacientes numa sala da Escola Politécnica, hermeticamente fechada à luz, para verificar as pretendidas descobertas do Barão Reichenbach. Ficamos três horas na obscuridade absoluta, mas nenhuma das afirmações do químico alemão pôde ser constatada seriamente. Em compensação, descobrimos um fato novo muito interessante, a saber, que certos sujeitos hipnotizáveis enxergam melhor a fosforescência de uma máquina eletrostática, do que os outros. Os filetes de luz completamente invisíveis para nós, e constituindo um prolongamento dos raios visíveis, foram perfeitamente descritos por dois ou três deles e provados objetivamente de muitas maneiras.

Escolhi dois dos alunos para experimentar a sugestão mental.

O primeiro, um jovem de estatura e força notáveis mas muito sensível ao hipnotismo, apresentava a particularidade de tornar impossível produzir uma alucinação ou uma sugestão verbal qualquer. Adormecido pela fixação do olhar ou por outro meio equivalente, ele caía em contração geral e, do ponto de vista psíquico, num estado de obediência completa (obediência tetânica). Se tentávamos fazê-lo falar ele deixava soltar os músculos da palavra, todos contraídos, e desde que se obtivesse dele uma resposta, não dormia mais; só persistia uma certa contração. Podia-se despertar somente um hemisfério e uma metade do corpo (do mesmo lado), mas era impossível obter o sonambulismo. Ele passava diretamente do estado “letárgico” para o estado desperto; mas em estado desperto, como no da letargia, podiam ser obtidos por passes localizados: a insensibilidade, a hiperestesia, a atração, a catalepsia e as contrações; jamais uma alucinação. A hiperestesia neuromuscular era tão pronunciada que bastava aproximar um dedo, um ímã, projetar um raio de luz ou somente concentrar o olhar num ponto nu do corpo para produzir uma contração ou uma contratura local.

Quando eu tentava influenciar mentalmente, comandando um movimento, esse movimento não se cumpria jamais, mas o membro visado por meu olhar entrava em contratura. Se, em lugar de agir pelo olhar, eu agisse por gestos, havia uma atração excessivamente forte de todo o corpo e ele executava todos os movimentos indicados pelas atrações, até o momento em que uma contratura geral o obrigava a cair rijo ou ficar imóvel. Era preciso, então, aliviar a rigidez com uma ligeira massagem, para poder continuar a experiência.

Essa insensibilidade particular foi se desenvolvendo aos poucos. A atração não se manifestou senão na quinta magnetização. (Todas essas experiências foram apresentadas na Sociedade Médica de Lemberg, em 1881). Ficou claro para mim que ele podia ser influenciado pelo olhar, mas era certo, ao mesmo tempo, que a sugestão mental em si ficava sempre sem resultado. Não havia sequer traço de ação. Hipnotizado, ele obedecia a todo mundo; magnetizado, ele só obedecia a seu magnetizador; só este podia despertá-lo ou fazer desaparecer a contratura, mas sempre por uma massagem, por passes ou gestos e não por ordem mental. Uma ou duas vezes somente, consegui, neste estado de adormecimento momentâneo do cérebro que precede o despertar, transmitir-lhe algumas sensações físicas ( uma picada dolorosa, um gosto amargo, etc.), mas, ainda assim, havia incerteza de interpretação e eu não poderia garantir o valor de qualquer sucesso.

Meu outro sujeito era um homem igualmente alto, mas fraco, muito inteligente, um pouco anêmico e tuberculoso. Era muito sensível, sensível demais a toda sorte de impulsos. A aplicação do hipnoscópio na cavidade do estômago provocava nele uma série de fenômenos singulares, sensações, contorções, gritos prolongados, movimentos rotatórios dos braços, da cabeça e de todo o corpo.




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