Julian Ochorowicz a sugestão Mental


Prefácio de Charles Richet



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Prefácio de Charles Richet


Este livro, cujo título talvez assuste os que temem as novidades, não é uma obra de imaginação, mas de experiência. São aqui expostas dezenas de fatos que foram observados tanto pelo próprio autor como por diferentes experimentadores.

É uma coleção de fatos sobre a sugestão mental e em nenhum outro lugar encontraremos reunidos tão numerosos documentos sobre o assunto.

Mas não basta reunir fatos; é preciso também que eles sejam bem observados. Nesse sentido a crítica de Ochorowicz aos fatos que ele viu ou que relata segundo outros sábios é tão severa quanto deve ser num paciente tão difícil. O que domina, em sua obra, é a vontade, bem determinada e bem perseverante, de levar em conta todas as objeções, de afastar todas as causas de má-fé, conscientes ou inconscientes, de se representar, por vezes exagerando-as, as dificuldades do problema e de não se satisfazer senão depois de afastar tudo o que possa causar ilusão.

A tarefa era difícil e já é muito empreendê-la com tal rigor.

Para demonstrar a sugestão mental, basta eliminar duas causas de erros:

– Antes de tudo, e em primeiro lugar, o erro devido ao artifício, ao estratagema. E quando eu falo de estratagema não me refiro àquele que é voluntário, meditado, maquinado, combinado de antemão; este é muito raro. Eu me refiro ao estratagema inconsciente, mecânico, produzido pela tendência natural que em todos nós existe, de querer fazer cobrir de êxito uma experiência. Antes de tudo, pois, é preciso assegurar que nenhuma indicação involuntária deve ser dada, isto é, que não deve haver nem palavra, nem gesto, nem contato que possa induzir a pessoa que responde a preferir tal ou qual resposta.

A segunda causa de erro é o acaso. O acaso leva frequentemente a coincidências impressionantes. Ora, todas as vezes que o acaso possa ser invocado, a certeza matemática jamais poderá ser obtida, não ficando sequer uma certeza moral que resulta do sucesso consecutivo de muitas experiências cuja probabilidade é fraca.

Ochorowicz procurou eliminar estas diferentes dificuldades: assim, chegou a um certo número de casos que ele considera como probatórios (e eu creio poder dizer que é um tanto difícil fazer provas). Graças a algumas experiências decisivas, ele firmou uma convicção e naturalmente quer transmiti-la para os seus leitores.

Entretanto, não creio que seu livro, por mais demonstrativo que seja, arrebate a convicção de todos. Sei muito bem, por minha própria experiência, como é difícil acreditar naquilo que se vê, quando aquilo que vemos não está de acordo com as ideias gerais, banais, que formam o fundo de nossos conhecimentos. Há 15 dias vi um tal fato impressionante, que me convenceu. Hoje eu sacudo a cabeça e começo a duvidar. Dentro de seis meses eu não acreditarei em mais nada. Trata-se de uma curiosa anomalia de nossa inteligência. Não é suficiente, afinal, para conduzir à convicção, que um fato seja lógico e experimentalmente provado; é preciso também que adquiramos, por assim dizer, o hábito intelectual. Se ele quebra nossa rotina, é repelido e desprezado.

É o que nós comumente chamamos de bom senso. É o bom senso que faz rejeitar todas as ideias não entendidas, novas, é o bom senso que rege nossa conduta e dirige nossa opinião.

Pois bem, esse bom senso que tanto louvamos não é senão uma rotina da inteligência. O bom senso de hoje não é o bom senso de há 200 anos nem o bom senso de há 2 mil anos. O bom senso, 2 mil anos atrás, levava a acreditar que o Sol gira em volta da Terra e se esconde todas as noites no oceano. O bom senso de há 200 anos dizia que não se pode, no mesmo dia, mandar notícia para Pequim e ter uma resposta e, entretanto, o bom senso de hoje indica que se pode mandar um telegrama para lá, com resposta paga. Hoje o bom senso manda treinar um formidável exército com um milhão de soldados e cinco milhões de fuzis. Não é fato que há dois ou três séculos esse bom senso era um absurdo?

Assim, se nós nos opomos à sugestão mental em nome do bom senso, não estamos falando do bom senso de 1986, pois o bom senso de 1986 terá outras tendências. É apenas uma questão de tempo e eu imagino que dentro de bem poucos anos esta ideia, tendo feito seu caminho nos espíritos, será considerada muito simples. Chegarão mesmo a se admirar de que tivéssemos tido dificuldades para admiti-la. Por acaso não estamos vendo as imortais descobertas de nosso grande Pasteur, estabelecidas com um luxo impressionante de experiências demonstrativas, encontrarem uma assustadora oposição? Que melhor exemplo de nossa incurável rotina?

Isto não quer dizer que eu considere, em definitivo, a sugestão mental como rigorosamente provada. É claro que não; e as experiências demonstrativas são raras. Em geral, quando elas são probatórias (pela concordância dos resultados) não são irrepreensíveis, e quando elas são irrepreensíveis não são de todo probatórias. Há, entretanto, algumas que são ao mesmo tempo irrepreensíveis e probatórias; nós as encontraremos expostas neste livro e poderemos avaliar sua importância.

Depois dos fatos, as teorias. Estas são numerosas, mas não me parecem merecer grande importância. O essencial é estabelecer este fato:

“Além de todo fenômeno apreciável a nossos sentidos normais, à nossa perspicácia normal, tão viva como se supõe, existe, entre o pensamento de dois indivíduos, uma tal correlação, que o acaso não é suficiente para explicá-la.

A meu ver, a demonstração desta proposição é que é ponto fundamental. Ora, o que quer que Ochorowicz e outros, antes dele, tenham acumulado de provas, elas não trazem a convicção absoluta, integral, mas somente a dúvida, tão forte é, para atuar sobre nossas ideias, a influência da rotina e do hábito.

Qualquer que seja, além disso, a opinião definitiva que se faça, sobre a realidade da sugestão mental, isso não deve, eu acho, influir sobre o julgamento do livro de Ochorowicz. Parece-me que todo mundo deverá render homenagem à sua sinceridade, sua perseverança e seu desprezo pelas opiniões firmadas. Sente-se que ele ama apaixonadamente a verdade. É um elogio que todos os homens de boa fé saberão apreciar.



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