Julian Ochorowicz a sugestão Mental



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Prefácio de Alberto Lyra


Em A Sugestão Mental, Ochorowicz apresenta-nos um roteiro completo e as bases metodológicas para uma pesquisa psíquica. Pesquisador já aos 17 anos, quando publicou o trabalho “Métodos de estudos psicológicos”, ele acabou tornando-se um observador tenaz, metódico, extremamente minucioso e cuidadoso e crítico sagaz, imune ao entusiasmo e levado exclusivamente pela reflexão lógica.

Desta forma, ele inicia o livro expondo as suas buscas preliminares e as de alguns observadores da sugestão mental aparente, caminhando pela sugestão provável, até terminar com as suas próprias observações de sugestão mental verdadeira, com as experiências que fez com a Sra. M. e com as de Janet e Gibert com a Sra. B., as quais ele acompanhou de perto.

Ochorowicz estuda magistral e profundamente os diversos estados de transe, desdenhados pela ciência acadêmica atual. Aponta esses diversos estudos tendo em vista os mecanismos neuro e psicofisiológicos e psicológicos, assinalando assim a a-ideia, a monoideia e a poli-ideia de Janet e seus mecanismos cerebrais e psíquicos.

Na Hipnologia e na Sofrologia de Caycedo (Barcelona, 1960), os estados de transe têm sido abordados mais no sentido de alguma pesquisa especializada ou para se obter resultados terapêuticos.

Os parapsicólogos modernos têm dado um enfoque diverso ao de Ochorowicz. Não me é possível consultar a imensa literatura sobre o assunto. Posso dizer apenas que não vi nada equiparável aos estudos de Ochorowicz. Assim, há experiências não bem divulgadas, de Milan Rizl, nos E.U.A., de Lozanov, na Bulgária, e de Raikov, na U.R.S.S.

Entretanto, falta-me ter acesso às pesquisas da Escola Sofrológica de Kioto (Japão), que empreendeu o estudo dos estados de transe nos aspectos filosófico, neurofisiológico, eletroencefalográfico e psicológico.

De qualquer forma, parece-me ainda válido repetir as observações de Ochorowicz, utilizando-nos dos recursos instrumentais da eletroencefalografia, da tomografia computadorizada, da kirliangrafia, do polígrafo, dos estudos modernos sobre o sono, sobre os movimentos oculares rápidos e as variedades do reflexo psicogalvânico.

O problema do inconsciente, que Ochorowicz menciona em diversos pontos de seu livro, não lhe foi estranho, embora o tenha entrevisto por um ângulo totalmente diferente do de Freud, que o abordou tendo em vista os aspectos psicodinâmicos e psicoterápicos da Psicanálise, e Ochorowicz, sob o ponto de vista psicofisiológico e psicológico clássicos. Ele descreve, de maneira atraente, os seus tateamentos, as suas dúvidas e perplexidades e compara as suas pesquisas com as de outros observadores. É admirável a sua capacidade de observação e de apreciação dos fenômenos abordados, em todas as partes de seu livro.

Ochorowicz recapitula as pesquisas dos hipnotizadores e magnetizadores do século XIX que o antecederam, os quais, com a paciência e o tempo de que não dispomos hoje em dia, observaram fenômenos que, de tão insólitos, foram desprezados pelos cientistas acadêmicos, que os atribuíram à mistificação, fantasia, coincidência fortuita, má observação, sugestão, má interpretação, quando não a causas psicopatológicas (ilusões e alucinações de doentes mentais).

Provado o fenômeno da sugestão mental, que pode ser denominado com mais propriedade de comando telepático, em presença ou na ausência do paciente, de efeito imediato ou retardado, Ochorowicz mostrou os seus mecanismos e as suas causas e, enfim, procurou explicar o fenômeno que, no seu dizer, significa:

“... reduzir o desconhecido para o conhecido, indicando as condições pelas quais o fenômeno se manifesta e sem as quais não pode manifestar-se.”

Seria a ação da vontade? Ou de fluidos (nervoso, vital eletromagnético e outros)? Ou de um fluido universal, aventado por Mesmer? Ou resultante da força do olhar, em certos casos?

Que mecanismos neuro e psicofisiológicos estariam em ação?

Ochorowicz, então, além de estudar todos esses fatores e as hipóteses lançadas anteriormente, mostra-nos as vacilações e receios, dele e de seus predecessores, porque tratar de tais fenômenos, naquela época, representava um desafio à ciência estabelecida. Era um ato de grande coragem moral mexer em tais assuntos.

Quando a comissão presidida por Husson pareceu provar a existência do chamado magnetismo animal (discutido até hoje), Castel opôs-se à publicação do relatório exclamando: “Se a maior parte dos fatos consignados neste relatório fossem reais, eles destruiriam a metade dos conhecimentos fisiológicos e seria perigoso propagar estes fatos imprimindo-os...”

O mesmo se aplicaria às pesquisas de Ochorowicz, na ocasião. Ele foi tão fundo em sua pesquisa e em seu estudo crítico, analisando os achados de seus antecessores (Deleuze, Morin, Bertrand e outros), que até hoje pode servir de modelo para as pesquisas modernas. O capítulo VII, “Os elementos para uma explicação científica”, é magnífico e merece mais de uma leitura, o que ainda pode ser aplicado ao livro todo.

Ochorowicz mostrou que o comando telepático existe irrefutavelmente (embora o mestre Richet em seu prefácio não o ache), porém que é muito raro – ele levou anos para encontrá-lo –, pois depende de um conjunto de circunstâncias:

a) do sensitivo;

b) da sensibilidade especial deste, tanto que, dentre tantos observados, Ochorowicz só o encontrou em 4 pacientes;

c) de um longo trabalho de reforço do condicionamento hipnótico (a educação hipnótica ou magnética, de Ochorowicz);

d) do experimentador.

Talvez não se tenha visto até hoje experimentador com a capacidade de Lafontaine, que efetuava o comando telepático ao primeiro encontro, sem ter conhecido o paciente e sem o ter treinado!... Lafontaine, aliás, tinha esse poder sobre humanos e animais!

Ochorowicz dedicou-se também ao estudo de fenômenos que são muito mais frequentes do que o comando telepático, ou são confundidos com ele: o simpatismo, de Charpignon (comunicação direta de dores e de outras sensações subjetivas; transmissão de doenças (contágio nervoso físico), inclusive o curioso fato de o operador ingerir pequena dose de bebida alcoólica e não sentir nada, e o seu paciente mostrar sintomas de embriaguez. Isto nos lembra os pais de santo da umbanda e do candomblé, que tomam fortes doses de cachaça sem apresentar o menor cheiro e o menor efeito da bebida; a hiperestesia sensorial; o imitatismo, imitação inconsciente de sentimentos e estados emocionais, através do que é visto ou ouvido e as associações ídeo-orgânicas, que partem do princípio estabelecido por Sietchenoff, pelo qual não há pensamento sem contração muscular, que Ochorowicz ampliou para: “não há pensamento sem expressão” (calor, modificação elétrica, secreção, movimento muscular, glótico, etc.).

Isto é focalizado quando se pesquisa a sugestão, sob o nome de ideodinamismo, cuja lei fundamental é expressa: “Toda ideia sugerida e aceita pode tornar-se um ato, uma sensação, uma imagem, um movimento, como pode neutralizar atos, sensações, imagens e movimentos”, ou pela lei mais restrita de Bain: “Todo fato de consciência pode determinar um movimento que se irradia pelo corpo e a cada uma de suas partes”.

O livro de Ochorowicz está recheado de observações curiosas e de conclusões dignas de serem meditadas. Assim, menciona certos experimentadores de tal acuidade olfativa que esta lhes permite diagnosticar doenças. Ochorowicz, ao apontar que o olfato desperta faculdades inconscientes, ressalta que ele é o sentido do inconsciente, assim como a vista é o sentido do consciente e o tato, o seu mestre comum.

Ele aborda, sem receio, a metaloscopia e a metaloterapia de Burq, que, se se conseguir afastar os preconceitos científicos, merecerão ser revistas.

Por tudo o que se acaba de ver, o livro de Ochorowicz ainda conserva a sua atualidade.

Temos que felicitar a IBRASA pela feliz iniciativa de reeditá-lo e ao Sr. Noé Gertel, tradutor fiel e condensador hábil, que reduziu o original francês a um pouco mais da metade, sem alterar o texto e sem prejudicar a sua clareza.

São Paulo, 08/04/1982.

Alberto Lyra




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