Julian Ochorowicz a sugestão Mental



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d) – Enfim, já observamos que a invasão do sujeito por um foco radial exterior, e uma regulagem, conforme a natureza dinâmica desse foco, se efetuam pouco a pouco e constituem o que chamamos de rapport (relação). Ora, esse rapport forma uma condição necessária para todas as transmissões mentais.

11) Narra Richet:

“Estando com meus colegas na sala, almoçando, e estando presente nosso colega Landouzy, então interno como eu no Hospital Beaujon, resolvi garantir que poderia adormecer uma doente à distância e que eu a faria vir até a sala onde estávamos, apenas por um ato de minha vontade! Mas ao cabo de dez minutos ninguém apareceu; a experiência foi considerada como fracassada. Na realidade a experiência não fracassara, pois algum tempo depois vieram prevenir-me de que a doente passeava nos corredores, adormecida, tentando falar-me, mas não me encontrou. E, com efeito, assim foi, sem que eu pudesse obter de sua parte outra resposta para explicar seu sono e esse passeio errante, senão pelo fato de que ela queria falar comigo.”

Aqui é mais a falta de educação magnética que aparece. Se ela estivesse habituada a estas experiências, como os sonâmbulos de Du Potet e Foissac, ela, sem dúvida, teria reconhecido a causa de seu passeio. Outra circunstância merece ainda ser assinalada: a sonâmbula não encontrou Richet e, por várias razões; porque Richet parou de influenciar, porque ali onde a atração física não se junta à ação (como na experiência de Bruno) o sujeito não pode encontrar seu caminho; ela sabia que deveria ir a alguma parte, mas não sabia aonde e, enfim, é provável que esta ideia dominante de ir ver Richet provocou nela uma monomania sonâmbula que, como todas as monomanias, impede de se ver com clareza. Não nos ocorre, por exemplo, procurar uma faca que jaz em nossa frente na mesa; quanto mais a procurarmos, menos a vemos: afinal, renunciamos à busca e aí a encontramos. De resto, é bom lembrar uma circunstância análoga em nossa experiência em Havre, quando a Sra. B. procurava Gibert e não o encontrava. Ela vinha, entretanto, de uma distância de um quilômetro, obedecendo a uma ordem mental. Isso nos explica o insucesso de muitos magnetizadores que, depois de terem induzido mentalmente seus sujeitos, não conseguem fazer-se encontrar, quando trocam de lugar. O sujeito se impacienta, se confunde e não ouve mais.

12) Héricourt completa assim sua nota já citada:

“Logo minha ação se estendia, com os mesmos resultados. As circunstâncias nas quais eu exercia pela primeira vez esta ação a longa distância merecem ser relatadas. Estando um dia no meu gabinete, veio-me a ideia de tentar adormecer a Sra. D., que eu acreditava estar em sua casa, a 300 metros da minha. Eram 15 horas e comecei a andar pela sala, pensando no resultado que eu queria obter. Nisso vieram me procurar para que eu fosse ver os doentes. Esqueci-me momentaneamente da Sra. D., com quem eu deveria me encontrar às 16:30 numa praça. Lá fui e não a encontrei. Só a vi à noite, numa visita social, e eis que ela me contou, de maneira absolutamente espontânea, sem que eu sequer fizesse alusão à sua ausência no encontro, o seguinte: às 15 horas, estando no seu quarto, veio-lhe um desejo invencível de dormir. As pálpebras eram como chumbo e as pernas dobravam-se. Passou para a sala, para afugentar o sono, mas atirou-se num canapé. A empregada, que naquele momento entrou na sala, contaria mais tarde que a encontrou dormindo pesadamente, os pés frios, como morta. Assustada, a empregada tratou de socorrê-la. A Sra. D. sentiu então, quando acordou, uma terrível dor de cabeça, que só passou às 17 horas, exatamente a hora em que eu, sem saber se a experiência estava dando certo, resolvi despertá-la mentalmente. Eu pus a Sra. D. ao corrente da experiência que havia feito à sua revelia e propus outras, das quais participaram várias testemunhas. Entre estas citarei o major-médico e um capitão da minha unidade, da qual eu era major. Todas essas experiências foram do mesmo tipo: estando numa sala com a Sra. D., eu lhe dizia que iria tentar adormecê-la de uma sala vizinha, as portas estando fechadas. Eu passava, então, para a outra sala, onde ficava alguns minutos, com o pensamento bem claro no sentido de mantê-la desperta, isto é, no seu estado normal. Quando voltava, encontrava a Sra. D. realmente no seu estado normal e rindo do meu insucesso. Um instante mais tarde, ou em outro dia, eu passava para a sala vizinha sob um pretexto qualquer, mas desta vez com a intenção de produzir o sono. Um minuto depois o mais completo resultado era obtido. Não se invoque aqui nenhuma outra sugestão que não a sugestão mental. As condições dessas experiências, que se controlam reciprocamente, são de uma simplicidade e de um valor sobre os quais eu chamo atenção, pois elas constituem uma espécie de esquema a seguir, para a demonstração.”

Esta observação é eminentemente instrutiva.

Com efeito, as experiências negativas de controle apresentam um interesse todo especial. Recorde-se uma contraprova desse gênero, pedida por Bertrand e que Du Potet conseguiu realizar. Encontramos também fatos análogos no relato de Pierre Janet e na maior parte dos casos em que uma ação puramente mental foi constatada. Tocou-se no sujeito, houve passes e simulação de adormecê-lo, sem qualquer resultado positivo.

Mas isto é muito raro; a maior parte dos sujeitos eminentemente sensíveis sofre a ação ideoplástica e eu creio, mesmo, que um certo número dos que são capazes de ser influenciados à distância não resistirão a uma ação imaginária; e que, em consequência, a prova negativa de Héricourt não pode ser decisiva. Mas o que parece certo é que os sujeitos sugestivos à distância ou mentalmente são menos sugestionáveis verbalmente. Eles sentem a ação real por mais fraca que ela seja, mas não se influenciam. É verdade que isso pode ser devido à educação, mais do que a uma diferença efetiva de sensibilidade. Nestes últimos tempos, a sugestão anda fazendo a moda ou sugerindo aos sujeitos toda sorte de alucinações e a escola de Nancy não faz outra coisa há muito tempo. Nestas condições, não é de se admirar que se obtenham sujeitos muito divertidos, mas completamente impróprios para um estudo sério. A partir do fato de que tudo é imaginação, uma ação verdadeira fica despercebida. É o contrário disso que estão fazendo os magnetizadores sérios, como Bruno, Puységur, Deleuze, etc. Eles se esforçam para conduzir os sonâmbulos sem contrariá-los e para desenvolver mais suas faculdades do que sua mobilidade sugestiva. A sugestão verbal não deve ser negligenciada, pois ela pode prestar grandes serviços à terapêutica, mas antes de tudo é preciso desenvolver as propriedades sinceras desta sensibilidade extraordinária, se se quiser fazer progressos reais do ponto de vista teórico. Não é de se admirar que com a mania das sugestões se chegue a ridicularizar o magnetismo e a substituir os sonâmbulos pelos órgãos da Barbária.

13) Vejamos ainda as experiências feitas à distância na Sra. B.:



a) – Sem preveni-la de sua intenção, Gibert fechou-se num quarto vizinho, a uma distância de seis ou sete metros, e de lá tentou adormecê-la mentalmente. Eu fiquei – diz Janet – ao lado do sujeito e constatei que ao cabo de alguns instantes os olhos se fechavam e ela começou a dormir. Mas o que me pareceu curioso é que, na letargia, ela não ficou de todo sob minha influência. Não pude provocar nela nem contração nem atração, embora ficasse a seu lado enquanto dormia. Ao contrário, ela obedecia inteiramente a Gibert, que não estava presente; enfim, foi Gibert quem teve que despertá-la e isso prova que ele a havia adormecido. Entretanto, aqui uma dúvida ainda pode persistir. A Sra. B. certamente não ignorava a presença de Gibert na casa; ela sabia também que ele viera para adormecê-la. Embora me pareça bem pouco verossímil, pode-se supor que ela adormeceu por sugestão, no preciso momento em que Gibert a comandou da sala vizinha.

b) – A 3 de outubro de 1885 eu entrei na casa de Gibert, às 11:30 da manhã, e pedi-lhe que adormecesse a Sra. B. por comando mental, sem sair de seu gabinete. Essa mulher de forma alguma estava prevenida, pois nós jamais a havíamos adormecido naquela hora. Ela estava numa outra casa, a 500 metros de distância. Fiquei todo o tempo a seu lado, para ver o resultado desse singular comando. Verifiquei que ela não adormeceu de todo e, então, eu mesmo a adormeci pelo toque e, desde que ela entrou em sonambulismo, antes que lhe fizesse qualquer pergunta, começou a falar assim: “Eu sei que o Sr. Gibert quis me adormecer... mas quando percebi, procurei água e pus as minhas mãos na água fria... não quero que me adormeçam assim...” Verificação feita, ela tinha realmente posto suas mãos na água fria, antes de minha chegada. Contei esta experiência porque ela me parece curiosa sob vários pontos de vista. A Sra. B. pareceu ter consciência, em estado de vigília, desta influência que se exerceu sobre ela; ela pôde resistir ao sono pondo suas mãos na água fria; enfim, ela não se prestou complacentemente a essas experiências, o que pode ser considerado como uma garantia de sua sinceridade.

c) – No dia 14 de outubro Gibert me prometeu adormecer a Sra. B. à distância, a uma hora qualquer do dia que ele escolhesse ou que lhe seria designada por uma terceira pessoa, mas que eu devia ignorar. Só cheguei ao pavilhão onde se encontrava a Sra. B. às 4:30; ela dormia já fazia um quarto de hora. Mesma insensibilidade e mesmos caracteres que precedentemente; não havia completo sonambulismo. Mas nesse dia ocorreram outros fenômenos. Gibert só chegou às 5:30; contou-me então que havia cogitado de adormecer a Sra. B. às 4:15 e que ele estava então em Graville, isto é, a dois quilômetros de onde estava a Sra. B. Foi-lhe muito difícil provocar a contração e despertar o sujeito.

d) – Ainda a 14 de outubro, a Sra. B. foi adormecida a partir de Graville e eu observei, durante o seu sono, os seguintes fenômenos: exatamente às 5 horas, dormindo, ela começou a gemer e a tremer, murmurando as seguintes palavras: “Chega... Chega... Não faça isso... Você é mau...” Levantou-se e, sempre gemendo, deu alguns passos e, explodindo risadas, se deitou no sofá e adormeceu profundamente. Às 5:05 essa mesma cena se reproduziu, mas só que ela dizia: “Você não pode, você não pode...” Mesma cena às 5:10. Quando Gibert chegou, às 5:30, mostrou-me uma carta que lhe foi entregue por outra pessoa, que não podia ter tido qualquer comunicação com a Sra. B. Na carta propunha-se que a Sra. B. fosse comandada a fazer diferentes atos de 5 em 5 minutos, depois das 5 horas. Esses atos, complicados demais, não chegaram a ser executados, mas no exato momento em que Gibert os ordenou, de Graville, eu vi, a dois quilômetros de distância, o efeito que essas ordens produziam. Parecia que a Sra. B. ouvia realmente tais ordens, que a elas resistia e que não podia desobedecer senão na base de uma distração de Gibert.”

Novas experiências foram feitas. Do relato delas extraio a segunda nota de Janet, apresentada perante a Sociedade de Psicologia Fisiológica a 31 de maio de 1886.

“É sobretudo no sono provocado à distância que conduzimos estas novas pesquisas, pois esse fato é da maior importância e parece um tanto fácil de verificar. Como eu tinha que me assegurar da realidade desse fenômeno, procurei eu mesmo produzi-lo numerosas vezes com toda a precisão possível.

A Sra. B. voltou a Havre depois de 10 de fevereiro; estava com muito boa saúde e não sofrera, depois de sua última viagem, qualquer acidente nervoso. Uma única vez ficara indisposta, disse ela, contando como foi. Certa pessoa da região onde estivera e que em outras épocas costumava adormecê-la com muita facilidade tentava produzir de novo nela o sono magnético. Não conseguiu. A Sra. B., depois dessas tentativas, teve uma forte dor de cabeça e uma indisposição durante alguns dias. Preocupou-se muito, achando que nunca mais alguém conseguiria adormecê-la. Nós não nos preocupamos, pois havíamos combinado que, às vésperas de sua partida do Havre, durante a última sessão de sonambulismo do dia 14 de outubro, Gibert lhe havia proibido ser adormecida por qualquer pessoa fora de Havre. A sugestão foi feita mentalmente, encostando a fronte. Entretanto, não posso relatar esse fato como um exemplo preciso de sugestão mental, pois não estou certo de que não discutimos a questão na presença dela, durante o sono. O fato é que funcionou, durante quatro meses. Logo que a Sra. B. esteve conosco, Gibert pressionou sua mão como de outras vezes e ela adormeceu em dois minutos; eu mesmo a adormeci no dia seguinte, com muita facilidade.

Adormecendo-a tentei, frequentemente, eu mesmo adquirir sobre essa mulher uma espécie de influência, para poder experimentar o sono à distância. Durante as primeiras sessões adormeci a Sra. B. segurando-lhe a mão ou o pulso, sem tentar outros procedimentos.

Ao cabo de alguns dias pude provocar-lhe o sono muito rapidamente. Coisa de três ou quatro minutos até chegar a meio minuto. Agora já não era mais necessário fixar seu pensamento na ordem do sono para adormecer a Sra. B. A ação física exercida no seu ponto hipnógeno do pulso substituía qualquer outra influência. O comando mental conservava sua importância quando não se tocava o sujeito, quando ele era adormecido por sugestão mental, na mesma sala.

Depois de uma dezena de sessões, durante as quais eu adormeci a Sra. B. seis vezes, tentei comandar o sono sem estar perto dela, mas ficando no quarto vizinho.

A experiência teve resultado: depois de ter pensado cinco minutos em adormecê-la, entrei no seu quarto e ela estava completamente adormecida, com a cabeça e o corpo pendendo fortemente para o lado em que antes eu me encontrava. A experiência, entretanto, não foi conclusiva, pois a Sra. B. desconfiava de minhas intenções.

A 22 de fevereiro, depois de 14 sessões de sonambulismo e depois de tê-la adormecido 8 vezes, tentei, pela primeira vez, comandar seu sono de longe. Eu estava em minha casa, a uma distância de 400 ou 500 metros do pavilhão onde a Sra. B. se encontrava, quando tentei concentrar meu pensamento na ordem do sono, como já havia feito anteriormente na sua presença. Sem muita convicção, levei 5 minutos. Só fui vê-la uma hora depois, persuadido do pouco sucesso de minha iniciativa. Para grande admiração minha, as pessoas da casa me advertiram de que a Sra. B. estava seriamente indisposta havia já uma hora: sentiu tonturas e interrompeu seu trabalho, para beber um copo d’água e lavar as mãos e o rosto. Ela mesma me contou sobre a indisposição que sentiu e que não sabia explicar. A este propósito é bom lembrar que, em estado de vigília, a Sra. B. não suspeitava de que se pudesse adormecê-la de longe. Esta singular coincidência mostra duas coisas:

1º) que eu podia exercer uma certa ação sobre esta mulher, mesmo de longe;

2º) que por uma razão qualquer, seja por falta de costume, seja graças à ação da água fria, a Sra. B. pôde resistir à minha ação e não adormecer...

A 2 de março recomecei o mesmo comando, desde minha casa, às 15 horas. Fui vê-la uma hora depois e encontrei-a em atitude singular. Estava sentada e costurava um guardanapo; os olhos estavam abertos, os movimentos continuavam a se produzir com muita regularidade, mas com uma lentidão extraordinária: dava apenas três ou quatro pontos por minuto. Levantei seu braço, sem dizer nada, e ele ficou no ar, imóvel; ela estava em estado cataléptico e assim ficou, para espanto dos presentes, durante uma hora. Pouco a pouco ela foi cessando de responder às perguntas e ficou assim, imóvel. Baixei-lhe as pálpebras tão logo ela caiu para trás, e nesse estado de sonambulismo de forma letárgica ela não cessava de repetir: “Oh, tenho sono... Você não deve me acordar... Tenho sono... Vou cair... Não falem comigo... Onde está o Sr. Janet?”. Num instante de lucidez ela me reconheceu, pegou minha mão com um grito de satisfação e adormeceu calmamente.

No dia seguinte, 3 de maio, a Sra. B. não foi adormecida e passou muito bem.

A 4 houve um incidente curioso. Eu pretendia adormecer a Sra. B. de minha casa, através de comando mental ordinário; pensei nisso uns três ou quatro minutos, quando entraram na minha sala algumas pessoas, interrompendo minha singular ocupação. Foi-me impossível retomá-la e, quando, uma hora depois, eu pude ir até o pavilhão em que a Sra. B. se encontrava, tinha certeza de que a experiência havia fracassado. A Sra. B. estava numa cadeira, dormindo havia já três quartos de hora; por minha recomendação ninguém deveria acordá-la. Quis pegar na sua mão, para provocar contrações características, mas ela imediatamente acordou, se levantou e disse que não estava adormecida de todo. Entretanto o olhar estava espantado, a postura titubeante e tive que sustentá-la para conduzi-la a um outro aposento. Em seguida ela adormeceu completamente, segurando minha mão. Não há qualquer coisa de espantoso nessa meia sonolência se produzindo exatamente no dia e na hora em que eu tentei adormecê-la, sem que dispusesse de tempo suficiente?

A 5 de março, nas mesmas condições e desta vez às 5 horas da tarde, pensei adormecê-la durante dez minutos e pouco depois encontrei-a no mesmo estado cataléptico descrito acima.

A 6 de março foi Gibert quem tentou adormecê-la de sua casa e em hora totalmente diferente, às 20 horas. Conseguiu. Uma testemunha declarou que viu a Sra. B. adormecer exatamente às 20:03. Uma tal precisão torna qualquer coincidência fortuita difícil de ser imaginada.

Nos dias seguintes nada fizemos. A 10 de março foi Gibert quem a adormeceu, a partir de sua casa, mas como não pude assistir ao fato, deixo de registrá-lo. Nos dias 11 e 12, nada tentamos. A 13, eu a adormeci, de minha casa, às 4 horas e encontrei-a meia hora depois em estado de catalepsia. Ela costurava com movimentos automáticos, muito lentamente. Sem nada dizer, sem tocar nela, portanto sem que ela tivesse percebido minha presença, contentei-me em comandá-la através do pensamento, ordenando-lhe que dormisse profundamente. Ela deu um suspiro, o movimento das mãos cessou e ela ficou imóvel na última posição.

Insisti para que ela caísse para trás, no mais completo relaxamento muscular. No dia 14 de março eu a adormeci ainda da mesma maneira, encontrando-a em um estado de sonambulismo letárgico, sem qualquer movimento.

A 16 de março combinamos que Gibert adormeceria a Sra. B., de sua casa, pelo pensamento, e que ele tentaria, sempre de sua casa, forçá-la a se levantar e vir encontrar-nos. Meu irmão, Jules Janet, interno dos hospitais de Paris, encontrava-se então no Havre e deveria ir comigo à casa de Gibert, antes das 8 horas da noite, momento em que tínhamos a intenção de começar a experiência. Um atraso inesperado impediu-nos de encontrar Gibert na hora marcada e a experiência só pôde começar às 9 horas. Registro esse incidente insignificante porque se a Sra. B. tivesse, por acaso, sido prevenida de nossa intenção, ela teria adormecido e se poria em marcha às 8 horas e não às 9.

Eis o que aconteceu. Não querendo deixá-la andar adormecida pelas ruas sem precauções, deixei Gibert e fui até o pavilhão onde estava a Sra. B. Não entrei, com receio de produzir alguma sugestão com minha presença, mas fiquei longe, na rua. Às 9 horas e alguns minutos a Sra. B. saiu bruscamente da casa e andou apressadamente. Fui atrás e vi que ela estava com os olhos completamente fechados, apresentando todos os sinais do estado sonambúlico. Caminhava evitando todos os obstáculos e levou muito tempo para me reconhecer. No começo me repeliu e disse que não queria ser acompanhada. Mas acabou aceitando e pareceu satisfeita com minha presença, momentos depois. Continuou andando até chegar à casa, entrou e caiu numa poltrona na mais profunda letargia. Essa letargia só foi interrompida um instante, por um período de sonambulismo no qual ela murmurou: “Cheguei... Vi o Sr. Janet... Me enganei de rua... Havia muita gente... Um homem se pôs na minha frente...” Depois adormeceu por longo tempo.

Esta experiência foi recomeçada com o mesmo êxito diante de Paul Janet a 20 de abril e uma vez diante dos Srs. Myers, Marillier e Ochorowicz no dia 22.”

Janet termina o relatório com um resumo das experiências de sono à distância, feitas ora por ele, ora pelo Dr. Gibert.

Em 22 experiências ele teve 6 fracassos, três logo no começo, quando o hábito sonambúlico ainda não era muito forte, um outro mais tarde, depois de uma interrupção de alguns dias nas sessões, e duas quando o sujeito resistiu mais de meia hora antes de adormecer. Em suma, 16 sucessos “precisos e completos”. “É de se crer – diz ele – tenha havido 16 coincidências fortuitas e exatas? A suposição é talvez um pouco inverossímil; terá havido, todas as vezes, uma sugestão involuntária de nossa parte? Só posso responder uma coisa: que tomamos, sinceramente, todas as precauções para evitá-la.”

Todas essas experiências tendem a demonstrar não somente a ação à distância em geral, mas ainda:

1º) a importância do rapport (relação) que só se estabeleceu depois de muitas magnetizações consecutivas e que inseriu um selo de individualidade em cada experiência conseguida (a paciente reconhecia sempre se era Gibert ou Janet quem a adormecia à distância, e a profundidade do estado provocado depende da intimidade desse rapport (relação);

2º) a importância de uma concentração do pensamento, por parte do magnetizador;

3º) a falta de uma diferença perceptível de grau, entre uma ação de alguns passos a alguns quilômetros de distância (é bem isso o que observamos nas comunicações telefônicas: a voz só se enfraquece em distâncias consideráveis. Para nós o fio representa o rapport).

Mas a questão dos limites ainda é muito prematura. Notemos somente que a distância maior, mencionada nas experiências, é de 10 quilômetros.

Supondo que o fenômeno é verdadeiro, seria interessante conhecer as condições favoráveis ou desfavoráveis a uma transmissão à distância. Um só magnetizador, M. Aubin Gauthier, acreditou poder formulá-las. Segundo ele:

1º) os corpos inanimados não interrompem a ação à distância;

2º) os vegetais ajudam;

3º) certos animais a desarranjam;

4º) homens demais podem impedi-la.

Ele acrescenta ainda que “em tempos de trovoadas é difícil magnetizar, não somente à distância, mas também em presença”.

É inútil dizer que só estou citando essas afirmações a título de curiosidade.

Terceira Parte

Teorias, conclusões e aplicações

Capítulo I

A hipótese da percepção exaltada


Diz A. S. Morim, no seu estudo Do magnetismo e das ciências ocultas (1860):

“A comunicação de pensamento é uma das faculdades que mais frequentemente encontramos entre os lúcidos, e às vezes ela tem lugar em muitos outros gêneros de lucidez, que se gabam de encontrar, se bem que realmente não existam. Há poucos sonâmbulos em condições de descobrir o nosso pensamento de maneira seguida e de formulá-lo com as próprias expressões que temos no espírito. O mais frequente é que o sonâmbulo captura fragmentos de seu pensamento na hora em que você o incumbe de descobrir, seja de coisas distantes, seja de coisas passadas; e então o lúcido se imagina estar vendo realmente essas coisas, se bem que nada mais faz do que ler em seu espírito. Se em seguida você quiser que ele leia em seu pensamento, você terá que concentrar sua atenção naquilo que você quer fazê-lo ver e isso você não conseguirá. Assim, o lúcido rouba o seu pensamento à sua revelia e à revelia dele e quando você lhe propuser que leia o seu pensamento, como exercício, ele será incapaz disso. Quanto a este último ponto, há exceções, notadamente a que relata Puel, de um cataléptico; mas elas são muito raras.

(Morim, que escreveu em 1860, não podia, naturalmente, conhecer as experiências recentes feitas pela Sociedade Psicológica Inglesa e outras.)

E, sobretudo, não se pense que, munidos de um bom lúcido, se poderá penetrar à vontade no segredo dos pensamentos. Quando um lúcido chega a captar alguns pensamentos, ele só o faz com as pessoas com as quais está em relação, e mesmo esta faculdade tão reduzida é variável, intermitente, sujeita a ilusões, de modo que o lúcido crê possuí-la, dando como uma descoberta os sonhos de sua imaginação.”

Morin não indica as causas presumidas desta variabilidade. Mas estas observações gerais são justas, com a única restrição de que, quando um sonâmbulo é bem conduzido, ele jamais dirá ver isto ou aquilo, se não estiver vendo nada. A verificação, de resto, não é tão difícil.

Morin reduz à comunicação dos pensamentos a ação aparente da vontade. Ele não admite nem fluido nem uma ação física qualquer, nem a influência direta da vontade sobre os órgãos do sujeito. Se este último deixar cataleptizar um membro, paralisar ou hiperestesiar um sentido, é porque depois de ter adivinhado o pensamento de seu magnetizador, ele influencia seu próprio corpo.

Mas ele também rejeita uma transmissão real do pensamento. Este não é transmitido senão por sinais ordinários.

E, para legitimar esta adivinhação, segundo os sinais exteriores do pensamento, ele invoca alternadamente a frenologia, a fisiognomonia e a quiromancia.

Quanto à frenologia, eu não compreendo realmente o que ela faz aqui, visto que nenhum frenologista sustentou ainda que, tocando com a cabeça os órgãos correspondentes, possa se adivinhar os pensamentos e que os sonâmbulos que o fazem não tocam os órgãos frenológicos.

Acrescentando-se que a frenologia não é uma ciência demonstrada, tem-se o direito de eliminá-la.

As mesmas observações se aplicam à quiromancia.

Mas, quanto à fisiognomonia, ou mais precisamente à patognomonia (sinais de expressão em geral), a aproximação é digna de atenção. Não é de se duvidar que nossos pensamentos, e mais ainda nossos sentimentos e nosso caráter em geral, se reflitam em nosso rosto, esse “espelho da alma”. Afirma Morin:

“Entre os indícios que pode oferecer o exterior do corpo humano, ele é que atrai mais o olhar; o indivíduo dado à embriaguez, por exemplo, não traz na face os estigmas horríveis de seus hábitos? Há outros sinais que, bem menos aparentes, não são menos reais e que, para serem percebidos, demandam uma grande clarividência. Lavater era dotado, nesse sentido, de uma penetração que se é tentado a encarar como adivinhação, e lia correntemente nos rostos como se fossem livros. Se as regras que ele estabeleceu não puderam constituir a ciência da fisiognomonia nem servir para formar fisionomistas tão hábeis como ele, os princípios sobre os quais ele fundou seu sistema não são menos verdadeiros e os resultados aos quais ele chegou provam que, para completar sua obra, trata-se agora de formular o método que instintivamente ele conduzia com admirável acerto.”

Aqui eu estou inteiramente de acordo com Morin. A fisiognomonia tem uma base positiva que tende a um determinismo geral, aplicável tanto ao desenvolvimento dos organismos como a seus caracteres estáveis e que, na espécie, pode se resumir neste princípio: Nada é acidental no exterior de um organismo vivo. Não se trata de conhecer as relações casuais que existem, sem dúvida. Mas estamos ainda longe desse objetivo e eu creio, mesmo, que para chegar até lá mais depressa, será bom, em lugar de formular as leis fisiognomônicas, o que ainda é prematuro, será bom, dizíamos, continuar os estudos da patognomonia, renovados com tanta autoridade por Darwin.

A expressão dos estados mais ou menos passageiros, de doenças, de dores, de emoções, da atenção e de tendências volitivas, se prestam muito mais às pesquisas experimentais do que a expressão dos caracteres nos traços estáveis, que por muito tempo ainda não poderá ser julgada senão por uma espécie de intuição, baseada na experiência inconsciente.

Mas não é menos certo que aqueles que, desde sua infância, adquiriram o hábito de observar, podem perfeitamente decifrar com muita aproximação o caráter de um homem na sua fisionomia. Pelos contrastes claros é quase impossível um engano. O sonâmbulo poderá, pois, possuir a mesma faculdade e dela se servir para a adivinhação dos sentimentos, das tendências e dos hábitos.

Eis ainda um ponto que merece ser assinalado, no que diz respeito à adivinhação das doenças. Há uma obra, hoje muito rara e esquecida, única no gênero. Ela é devida a um destacado médico, professor da Universidade de Freiburg, o Dr. K. N. Baumgaertner, e tem o título de Physiognomice pathologica, Krangen Physiognomik, Stuttgart – Leipzig, 1839. É um grosso volume que contém um atlas apresentando os tipos fisionômicos de todas as doenças principais. As figuras, quase de tamanho natural, são pintadas a mão, de modelos naturais, por excelentes artistas. Nada mais interessante para um médico que esta cristalização, por assim dizer, de sinais patológicos que nos permitem distinguir pelo exterior, pelo aspecto, uma doença do coração de uma doença do útero, por exemplo. Muitos médicos experimentados têm esta facilidade de apreciação. Os sonâmbulos podem possuí-la até graças à experiência inconsciente de toda a vida que, insensível em estado de vigília sob a pressão dos atos conscientes, poderá se manifestar no isolamento psíquico do sonambulismo.

O mesmo se dá com os sinais das emoções; e Morin chegou a mencionar sobretudo as nuances da voz, que, mesmo contra nossa vontade, traem nossos sentimentos e sobretudo nossas aprovações ou nossas dúvidas. A adivinhação de um pensamento depende às vezes desses sinais mínimos.

“O físico é a expressão do moral”, diz Morin com justeza. Depois ele conclui:

“O lúcido que penetra o pensamento não faz outra coisa senão o que faz o frenólogo, o fisionomista ou o quirognomista, só que ele vê um monte de sinais materiais que escapam à nossa visão e que completam as indicações que nos dá o exame do crânio, da figura das mãos. O lúcido não tem senão os meios análogos aos nossos, porém mais extensos. Tudo se resume na observação dos órgãos. Ele não pode se dar conta, nem dar contas a nós, do valor de cada sinal. É uma espécie de linguagem que ele compreende instintivamente sem saber os princípios. E isso não nos deve causar admiração, pois cada um de nós conhece os primeiros elementos dessa linguagem sem os ter aprendido e mesmo sem ter formulado suas regras... Que, numa reunião, alguém venha falar de um sujeito de forma a chocar um dos assistentes, que este deixe ver na sua fisionomia os sentimentos que o animam, qualquer um se impressionará com isso e afirmará, por exemplo, que ele está com despeito, raiva, sede de vingança, ódio contido, etc. Mas perguntem aos espectadores quais são os sinais materiais que lhes revelaram tantas coisas; a maior parte responderá que eles não sabem nada, mas que estão certos de seu julgamento e que os sentimentos em pauta foram manifestados de maneira a não causar impressões. Da mesma forma o sonâmbulo, que lê o pensamento de outro, não pode dizer como esse pensamento se tornou aparente para ele; tudo o que ele sabe é que o viu.”

Em resumo, como disse o próprio Morin, “a questão está concentrada na maneira como os sonâmbulos veem os objetos materiais”.

Pois é precisamente ai que está o lado fraco da teoria.

Antes de tudo, não é justo esquecer as sensações auditivas e olfativas; depois, como o sonâmbulo tem os olhos fechados, ou ao menos não se serve deles para adivinhar o pensamento, a teoria de Morin não faz mais do que unir uma questão incompreensível a uma outra que não o é menos. “Como é que os sonâmbulos veem os objetos materiais?...” Mas esta é outra questão! Quanto a nós, não queremos abordá-la; entretanto, somos tentados a crer que Morin, que para explicar a comunicação do pensamento, liga-a ao sonambúlico, saberá nos explicar esta última. Mas não, ele rejeita todas as hipóteses conhecidas e “confessa sua ignorância”.

De nossa parte, voltamos ao ponto de partida.

Acrescentemos que a teoria de Morin não explica as experiências nas quais o sujeito volta as costas ao operador, tem os olhos vendados e a fortiori ela não explica uma transmissão qualquer à distância.

L. Figuier desenvolveu esta teoria, sempre admitindo o mesmo princípio:

Segundo ele, tudo se explica por uma exaltação excepcional dos sentidos e da inteligência no estado de sono. O sonâmbulo não tem outras sensações senão as de nossos sentidos; mas sua percepção sendo exaltada, ele percebe os menores sinais voluntários ou involuntários procedentes do magnetizador e, por seu intermédio, adivinha seu pensamento. Diz ele:

“A exaltação passageira dos sentidos do sonâmbulo magnético explicará, segundo penso, o fenômeno ao qual os magnetizadores deram o nome de sugestão ou penetração do pensamento. Quando um magnetizador declara que seu sonâmbulo vai obedecer a uma ordem expressa mentalmente por ele, e quando o sonâmbulo, coisa aliás rara, cumpre esse esforço, não é impossível ter-se em conta esse aparente milagre que, se fosse real, inverteria todas as noções da fisiologia e, podemos dizê-lo, as leis conhecidas da natureza viva. Nesse caso, um ruído, um som, um gesto, um sinal qualquer, uma impressão inapreciável a todos os demais assistentes é suficiente para que o sonâmbulo, visto o estado de tensão de seus principais sentidos, venha a compreender, sem qualquer meio sobrenatural, o pensamento que o magnetizador quer comunicar-lhe. Assim, não mais neste caso do que nos outros, o indivíduo magnetizado não tem o privilégio de romper as barreiras comuns que a natureza impôs ao exercício de nossas faculdades.”

Como disse Sêneca, ad id sufficit natura quod poscit. Mas desde o tempo desse estoico “as barreiras comuns da natureza”, sem serem rompidas, recuaram lindamente e além disso, se há uma teoria que possa impedir o desenvolvimento de todas as noções da fisiologia moderna, ela é seguramente a teoria das barreiras intransponíveis, desde que tivesse sido admitida antes da descoberta dessas noções. Pode-se saber exatamente onde se encontram essas barreiras? Uma placa metálica, por exemplo, poderá ou não falar como um homem? Bouillaud, que não foi o primeiro, disse que não, que isso seria subverter todas as noções de fisiologia. Disse isso diante do fonógrafo de Edison, em plena Academia, e agarrou a garganta do infeliz intérprete do célebre inventor americano, acusando-o de ventriloquia...

Enfim, por que e de que maneira a sugestão mental deveria subverter todas as noções da fisiologia?

Nem todas, em todo caso. Espero que a teoria da digestão, por exemplo, possa continuar tranquila; a teoria da circulação também; como a da respiração, da reprodução, etc.

O que está em jogo é a teoria da percepção. Mas será que a existência de uma transmissão sutil qualquer pode destruir os fatos e as leis de uma transmissão grosseira e palpável? A descoberta do telégrafo elétrico subverteu as estradas de ferro?

Não, é melhor não abusar desse preceito, além do mais muito sábio, que reconhece certos limites naturais a todas as ciências. Não sejamos mais naturalistas do que a própria natureza; deixemos a ela a iniciativa da oposição.

Em suma, a teoria de Morin e de Figuier, que entretanto admitem os fatos da sugestão mental, não toma conhecimento do conjunto e seria dificilmente aplicável ao caso de uma transmissão clara qualquer, dos mitos aqui citados por seus autores. Mas não se pode contestar que ela pode ser utilmente desenvolvida, para servir à interpretação de um grande número de casos mistos, nos quais a percepção normal exaltada se junta a uma transmissão verdadeira. É preciso também reconhecer nela a vantagem de que se inspira num princípio eminentemente científico: o de reconduzir o desconhecido para o conhecido, na medida do possível. Só que, creio eu, é mal aplicada.

Em todo caso é uma hipótese evasiva. Ela contorna a dificuldade em lugar de encará-la de frente.

Passemos agora às teorias que admitem francamente o fenômeno.


Capítulo II

A hipótese da exaltação do cérebro


Em primeiro lugar é preciso citar Bertrand.

Este eminente analista, na verdade, não desenvolveu uma teoria completa da sugestão, mas emitiu muitas concepções claras a respeito, que merecem ser mencionadas.

Bertrand não admite uma ação a distância ou, em geral, uma ação física qualquer; ele é o pai científico da teoria sugestiva do magnetismo. É o próprio sujeito que se influencia, por imaginação; mas a imaginação do sujeito pode ser influenciada por um pensamento estranho, mesmo sem qualquer sinal exterior. O pensamento se transmite, mas não a vontade. Em consequência, se o sujeito executa a ordem dada, não é a vontade do magnetizador que agiu sobre seus membros, mas sim que, tendo percebido o pensamento do operador, ele concorda em executá-lo. Afirma Bertrand:

“O conde de Lutzelbourg, procurando se instruir a respeito, fez a seguinte experiência: disse, no ouvido de uma testemunha, aquilo que ele queria que uma sonâmbula executasse e perguntou à doente se ela a determinaria. “Eu sei – respondeu ela – e executo o que o senhor está pedindo. O senhor pediu que eu me sentasse na minha cadeira e eu obedeci.” Em geral, os magnetizadores de hoje (1823) me parecem admitir com uma rapidez inconcebível a opinião sobre a influência direta da vontade de um homem sobre outro homem; eu não conheço nenhuma ideia mais fácil de ser destruída por quem quer que deseje pensar. Antes de tudo, não há nada que nos seja tão íntimo do que nossa vontade; ela sozinha constitui a personalidade, o Eu.

(Bertrand confunde aqui muitos fenômenos; a personalidade é um complexo de todos os caracteres psíquicos próprios ao indivíduo; o eu é apenas um foco, um ponto central, móvel e momentaneamente e relativamente simples desse conjunto complicado; a vontade, enfim, não é mais do que uma resultante das tendências patrocinadas pelo eu reinante.)

E se a vontade do magnetizador se apodera, como se supõe, da pessoa do sonâmbulo, este não será mais do que um autômato, movido por molas estranhas do corpo do magnetizador.”

Muito bem, acontece com frequência que o sonâmbulo nada mais é do que um autômato. Bertrand, instruído na escola humanitária de Puységur e de Deleuze, não conhecia os hipnotizadores e os magnetizadores modernos, com seus órgãos de barbárie. Ele ainda era daqueles que pediam aos doentes a permissão para fazer-lhes o bem.

“Eu não sei – acrescenta ele – como os partidários desta influência da vontade não se tenham assustado com a consequência. Segundo eles, um sonâmbulo cego, agente movido por um impulso estranho, tomará um punhal e o enterrará no seio de seu próprio pai, sem poder resistir à vontade que o dominará; e ele só tomará conhecimento de sua ação quando o crime estiver cometido. Felizmente não é assim e todos os fatos que deram lugar à estranha opinião que eu combato, não podem provar outra coisa que não seja a comunicação do pensamento e a influência limitada que ele pode ter sobre as determinações do sonâmbulo.”

Ainda aqui Bertrand se engana. A experiência não tem sido feita por sugestão mental, mas sim pela sugestão verbal e é perfeitamente certo que, em estados mais ou menos vizinhos do monoideísmo o sujeito pode cometer um crime comandado, sem perceber nada, mesmo depois do cumprimento do movimento ordenado. A oposição só é possível em pleno sonambulismo e pode ser suprimida por alguns passes. Há cerca de 5 por cento de pessoas que não podem opor uma resistência séria. De resto, não se pode misturar a moral com as questões de fato. O que é verdade é verdade, eis tudo. Se tivermos que nos “assustar com as consequências” estudando um problema, jamais chegaremos a nada de novo, pois toda coisa nova assusta os conservadores. Cristo não foi crucificado por causa das “novidades perigosas”? Nem Sócrates nem Copérnico se assustaram com as consequências de uma verdade. Deixaram aos outros a tarefa de os condenar.

Felizmente os tempos mudaram. H. Taine deu uma boa resposta quando o censuraram porque suas ideias poderiam se tornar perigosas: “Nunca pensei que uma verdade pudesse servir para alguma coisa.”

Mas, sim, ela pode servir para alguma coisa, só que não se deve inquietar com antecipação. E eu estou certo de que o império da vontade dos magnetizadores sobre os magnetizados, quando for bem conhecido, poderá contribuir mais para o bem do que para o mal.

“Assim, para resumir – conclui Bertrand –, eu penso que é absurdo supor que, em qualquer caso, uma vontade estranha possa agir diretamente sobre os órgãos dos sonâmbulos, e ainda menos sobre suas determinações – (a primeira frase é justa, a segunda é falsa) –; mas me parece que um número de fatos suficientes para ocasionarem a convicção provam que não é raro que os sonâmbulos tenham conhecimento da vontade ou do pensamento das pessoas com as quais eles estão em relação, e que este conhecimento pode levá-los a agir e produzir neles os mesmos efeitos como se tivéssemos lhes falado. Acho mesmo que, como esse fenômeno resulta da comunicação simpática dos movimentos do cérebro de quem comanda, o sonâmbulo conhecerá mais facilmente a ordem que lhe foi dada, se esta for acompanhada de um gesto qualquer que, não podendo ser feito sem um movimento muito grande das fibras cerebrais, favorecerá a comunicação; é isso que a experiência confirma em todos os casos e é isso que eu mesmo venho observando. De resto, a opinião que estou enunciando foi adotada por muitos magnetizadores.”

A distinção absoluta feita por Bertrand, entre a transmissão de pensamento, que ele admite, e a transmissão da vontade, que ele rejeita, é um pouco ociosa. Para ter razão ele teria que fazer uma outra ainda, a de uma ação direta da vontade sobre os órgãos periféricos e da transmissão da vontade ao cérebro. Quanto aos músculos, por exemplo, é certo que sem uma excitação física local dos tendões ou dos nervos, é impossível colocá-los em movimento por um ato de vontade estranha, mas esse também não é o sentido da expressão: ação sugestiva da vontade. E, desde que se admita uma transmissão do pensamento, não há razão para se vociferar contra os que acreditam que a tendência para um movimento qualquer pode ser transmitida tão bem como uma ideia puramente passiva e objetiva. Desde que se desperte um sentimento, desperta-se também uma tendência que lhe é própria. E Bertrand não nega a transmissão de sentimentos. Em consequência, com esta reserva de que o fenômeno não pode se verificar senão por uma ação reflexa do cérebro, não mais temos necessidade de traçar um limite absoluto entre a vontade e o pensamento.

Bertrand sempre tem em vista um estado poli-idéico do cérebro e é isso que o engana. Quando há muitas ideias elas podem se opor à execução e, se esta tiver lugar, não se pode realizar senão pelo consentimento das ideias. Mas quando não há? Quando toda oposição é eliminada pelo estado da a-ideia ou do monoideísmo nascente, como é que se pode querer que a ideia inoculada e tornada dominante pelo seu isolamento não determine a execução? É precisamente neste estado que se devem fazer as experiências diretas.

Quanto à questão do “como” da transmissão, Bertrand não se pronuncia. Mas parece admitir a exaltação do cérebro com paralisia dos sentidos exteriores, como uma condição essencial, e ele faz uma aproximação muito justa entre o simpatismo das doenças, que ele muitas vezes constatou, e o das ideias. Diz ele:

“A comunicação do pensamento apresenta-se mais frequentemente entre os sonâmbulos estáticos, fazendo com que o estado de exaltação moral não possa ocorrer sem um aumento considerável da sensibilidade do cérebro, aumento esse que favorece, entre o cérebro do sonâmbulo e o dos assistentes, uma comunicação simpática semelhante àquela em virtude da qual ele sente, nas outras partes do corpo, as dores que sofrem as pessoas que estão em rapport (relação) com ele.”

E em outro lugar ele diz:

“Vimos que minha vontade não expressa teve uma verdadeira ação sobre a doente em estado de paralisia e não teve nenhuma que fosse instantaneamente sensível em estado de vigília.”

Veremos mais tarde a importância desta simples observação.

Capítulo III

A hipótese de uma ação psíquica direta


O simpatismo de Bertrand, sem ser claro, nada tinha de místico. Era uma espécie de indução, no sentido elétrico da palavra. Um pensamento induzia um pensamento análogo, como uma corrente elétrica induz uma corrente elétrica análoga. Nada passa diretamente de um cérebro para outro cérebro. Seria isso uma ação à distância, a uma pequeníssima distância? (Bertrand não admitia outra). Sem dúvida, mas ele não se pronunciou a respeito; essa passagem não ficou esclarecida.

Muitos magnetizadores quiseram preencher esta lacuna admitindo qualquer coisa que passa e, como não podia deixar de ser, emprestaram a este intermediário qualidades tanto psíquicas como físicas, segundo a inclinação de seu espírito.

Detenhamo-nos um pouco nesta primeira hipótese.

Minha alma age sobre outra alma.

Que há de mais simples do que supor uma transferência real de meus pensamentos? Não é isso que irá embaraçar um espiritista. Se meu pensamento pode mover meu corpo e o pensamento de meu sujeito o seu, basta supor que meu pensamento passou para seu cérebro, para se compreender tudo.

Quando se trata de explicar a visão à distância, dizemos simplesmente que a alma do sujeito, depois de ter deixado momentaneamente seu corpo, foi ver o que se passa a cem léguas, depois voltou e contou o que viu.

Seria um pouco tedioso deixar assim o corpo sem alma; mas os espíritas encontraram um meio de remediar o caso: a alma fica no seu lugar; o espírito é que se incumbe da excursão.

Da mesma forma a transmissão e o pensamento. A alma (ou o espírito ad libitum), não tendo limites como o corpo, pode se distanciar um pouco para ocupar momentaneamente uma posição estranha, executar o que tinha que executar, para depois voltar para a sua concha. Descartes reconheceu a impossibilidade de uma ação do pensamento sobre a extensão (a matéria), mas não sobre um outro pensamento.

Em consequência, elas poderiam se entremear; e se alguma coisa deve nos impressionar nesse caso é que tal acontece só raramente. Dever-se-ia esperar por uma comunidade universal: – Passa-me tua experiência e eu te passarei minha esperança... Seria realmente muito cômodo. Uma pessoa sozinha poderia aprender por todo mundo e depois revender suas ideias diretamente, a tanto por série: uma associação por dois níqueis e mesmo duas por um níquel, uma vez que está provado que aquele que comunica suas ideias ao sonâmbulo não perde nada.

Infelizmente esse comércio é prematuro ainda. Nós não nos detivemos, acima, se uma alma ou um pensamento de uma alma pode deixar seu corpo; e se, depois de ter deixado, ela se torna mais poderosa que antes. É o que se precisará provar antes de tudo.

Em lugar de supor uma passagem direta, certos espiritualistas se contentam com uma ação igualmente mística, porém mais vaga ainda.

“Concebemos – diz Chardel – que os obstáculos e as distâncias desaparecem para uma alma lúcida. Ela não se inquieta muito; ela se livra naturalmente desse novo modo de investigação e recobra seu gênero de ação que lhe é próprio.” (Chardel não indica as fontes de seu saber.)

É simples como um “bom-dia”. Sem admitir um deslocamento real ou um alargamento místico das faculdades, pode-se entrever um “esplendor” quase físico:

“O espírito – diz Allan Kardec, o grande mestre do espiritismo – não está fechado no corpo como numa caixa: ele irradia-se em torno; eis por que ele se pode comunicar com outros espíritos, mesmo em estado de vigília, embora o faça com mais dificuldade do que durante o sono.”

É bonito; só que precisaria provar que existe uma analogia entre uma alma e uma lanterna. O que, aliás, ainda não será suficiente, pois uma lanterna apenas ilumina, enquanto que uma alma pode comandar movimentos. É verdade que um raio de luz pode mover um radiômetro de Crookes, mas não se determinou ainda o que seja um raio do espírito, nem do que ele é capaz.

Sabemos que os espíritas admitem ainda uma transmissão de pensamento entre as almas encarnadas e os espíritos libertos. “Os espíritos não têm senão a linguagem do pensamento; eles não têm uma língua articulada”, garante Allan Kardec, e podemos acreditar em sua palavra.

Assim, se algum espírito tem alguma coisa para nos dizer, ele é obrigado a servir-se de um intérprete. Esse intérprete é o médium.

“É o espírito do médium que é o intérprete, porque ele está ligado ao corpo que serve para falar...” Mas às vezes esse único intermediário não é suficiente:

“O espírito familiar é quase sempre aquele que serve de intérprete, para comunicar ao médium o pensamento do espírito evocado, quando este for elevado demais para julgar conveniente não vir pessoalmente, ou quando outras ocupações o impedem. O pensamento entre espíritos se comunica sem o socorro da linguagem falada. Se tu evocas um espírito que ignora a língua, ele transmite diretamente seu pensamento a teu espírito familiar, que o traduz na língua que tu conheces e que te é familiar.” (São palavras de J. Roze em Revelações do mundo dos espíritos, 1862.)

Certos espiritualistas foram mais longe; eles admitiram a necessidade de intérpretes espirituais não somente para uma comunicação entre um homem vivo e um espírito invocado, mas também entre o magnetizador e o seu sujeito.

“A influência que um homem exerce sobre o homem pela ação do magnetismo – diz o Dr. Billot – vem de um auxiliar desconhecido, cuja presença só pode dar a solução dos fenômenos magnéticos.”

Este auxiliar é o mundo dos espíritos, bons ou maus; sobretudo maus, garante o marquês de Mirville.

Esses autores se colocam no ponto de vista dos exorcistas: o homem não é capaz de perceber o pensamento de outrem; em consequência, se ele parece perceber é que o seu anjo da guarda – ou o diabo – lhe soprou as palavras.

Não podemos perder nosso tempo examinando essas fantasias extracientíficas. Notemos apenas que, se a credulidade pode levar tão longe, uma incredulidade também não é de todo preferível.

“A dúvida – disse Arago – é uma prova de modéstia, e ela raramente negou o progresso das ciências. Não se pode dizer o mesmo da incredulidade.”

Se se quiser ter uma prova do que pode produzir um ceticismo patológico, nada melhor do que ler Mabru, “laureado da Academia de Ciências”. Este autor escreveu um livro de 500 páginas (Os magnetizadores julgados por eles mesmos, Paris, 1885) para dizer que nada viu no magnetismo, apesar de todas as cartas que escreveu e de todos os concursos que ele mesmo instituiu. Para ele “o pretendido sonambulismo magnético não existe mais do que o fluido, e os fenômenos que se atribuem ao sonambulismo não são mais do que pura ilusão”.

Ele também admite um intérprete para os fenômenos de transmissão... um comparsa.

“Para não sermos logrados em todos esses belos serões, tão frequentemente repetidos com vantagens em certos salões magnéticos – diz ele –, o meio é bem simples: basta suprimir o comparsa. Não há nem fluido animal nem sonambulismo artificial, nem magia, nem feitiçaria; todas essas pretendidas ciências na realidade não possuem qualquer fato científico e, quando a força de circunspecção, mortificação e de constrangimento chega a provocar a sonolência em um doente ou num sujeito a quem se fatigou (o que se consegue numa pessoa cujos sentidos estão em repouso), esse sono nada mais é do que o sono ordinário. Ele não conta com qualquer das propriedades maravilhosas do pretendido sono magnético. Ele existe com frequência nas sessões de comparsas, mas fora disso é completamente falso que exista entre o adormecedor e seu sujeito uma relação ou um estado psíquico outro que não sejam as relações ordinárias da vida comum. Não somente a coisa não existe como não pode existir...”

“Há erros – diz Cabanis – dos quais só os homens de espírito são capazes.”

Mabru não tem esta desculpa, mas ele tem uma outra:

“La Bruyère disse: Todo espírito que está no mundo é inútil para aquele que não está.”

Ultimamente Mabru foi ultrapassado por um membro da Academia de Ciências Políticas e Morais. Trata-se de Desjardins, que nem sequer quis ver as provas, não permitindo que outros as vissem. Ele condena os estudos hipnóticos. Nada estudou, mas está perfeitamente convencido de que todas as experiências de sugestões, terapêuticas, pedagógicas e outras “malogram miseravelmente”. Isso não impede que elas sejam nocivas e criminosas. Deve-se punir não somente os hipnotizadores como também os hipnotizados, “pois o homem não tem o direito de abdicar sua humanidade e seu livre-arbítrio”.

Pode-se esperar que o insigne jurisconsulto não se deterá aí. Resta-lhe ainda propor uma lei contra os que dormem durante a noite, visto que não deve ser permitido ao homem se transformar voluntariamente em uma massa inerte e abdicar de seu livre-arbítrio.

“Este eloquente protesto – diz P. Favreuil – foi unanimemente aprovado e seu autor foi vivamente aplaudido. Arthur Desjardins acaba de aplicar no hipnotismo um golpe direto do qual se espera que não consiga se levantar.”

Quem viver verá. Notemos apenas que isso se passou em 13 de agosto de 1886, portanto no século XIX, em Paris, na Academia.

Capítulo IV

A hipótese de uma ação física direta


A maior parte dos magnetizadores admite a existência de um fluido nervoso, vital ou magnético.

Troçou-se muito sobre esse fluido e devemos admitir que o assunto se presta a isso. Mas aqueles que fizeram muitas experiências são os únicos capazes de julgar a questão e eles dirão que a aparência é tal como se alguma coisa passasse do magnetizador para o sujeito.

Esse fluido sutil deve servir de intermediário entre o espírito e o corpo. É ele que excita os músculos e transmite as sensações ao cérebro; é ele que, sob o impulso da vontade, se projeta para fora, para afetar os nervos do sujeito. Sendo de natureza móvel, se ele sofrer a influência do meio, reflete, em consequência, a personalidade do homem, seus sentimentos e sua vontade, se impregna, por assim dizer, das alterações de nosso espírito; unindo-se a um outro fluido semelhante, embora individualmente diverso, pode fazer passar para este as mesmas modificações virtuais. É, pois, o fluido que transmite o pensamento, não tendo este necessidade de deixar seu corpo para agir sobre outro corpo.

Quem primeiro expôs esta teoria foi Lecat (Tratado das sensações, Paris, 1767), doutor em medicina e professor de fisiologia. Seu fluido se chama fluido animal e é interessante constatar que já em 1767 havia um esforço para explicar certas transmissões misteriosas. Diz Lecat:

“Esse fluido, dotado do caráter particular de uma paixão, leva a impressão até ao fluido animal dos outros “indivíduos”, pois “as sensações e as pressões consistem em modificações do fluido animal e esses caracteres se comunicam aos fluidos da mesma espécie e são suscetíveis de mudanças a todo instante”. Esse fluido é uma emanação que o autor confunde frequentemente com as emanações odoríferas, como, de resto, faz a maioria dos magnetizadores.”

Citemos ainda uma última passagem:

“Desde que tomemos conhecimento dos fatos evidentes que provam que os diferentes caracteres do fluido animal e dos fluidos vegetais produzem nos fluidos de outros indivíduos emoções, alterações de caracteres, não se terá dificuldade em conceber todos os efeitos que resultam de seu consenso natural ou de seu conflito, qualquer que seja o gênero: intelectual, animal ou animo-vegetal.”

Tal é, em algumas palavras, a teoria do fluido magnético.

Mas por que magnético?

Para responder a esta questão, ouçamos o que diz o principal promotor desta teoria, J. P. F. Deleuze:

“Um sonâmbulo percebe a vontade de seu magnetizador, executa uma coisa que lhe é pedida mentalmente. Para se compreender este fenômeno é preciso considerar os sonâmbulos como ímãs infinitamente móveis: não ocorre um movimento no cérebro de seu magnetizador, sem que esse movimento não se repita nele, ou ao menos sem que ele o sinta.”

Mas é sobretudo o fenômeno mais evidente e mais frequente da atração que faz pensar nessa analogia. A experiência de Bruno, como se recorda, mostra esse fenômeno elevado a um grau excepcional; mas é muito comum ver a mão do sujeito atraída pela proximidade da mão do magnetizador e seguir seus movimentos. Um ímã aproximado do sujeito produz o mesmo fenômeno; e, embora esta ação não leve propriamente a se denominar magnética, compreende-se que vários fenômenos tenham podido determinar a escolha da expressão “magnetismo animal”, que não é mais néscia do que a de “eletricidade”, dada a fenômenos que conhecemos e que nada têm a ver com o âmbar (elétron).

Deleuze faz ainda outra comparação:

“Sabe-se que se colocarmos lado a lado dois instrumentos em uníssono e se dedilharmos as cordas do primeiro, as cordas correspondentes do segundo ressoam por si mesmas. Esse fenômeno físico é semelhante ao que tem lugar no magnetismo.”

Segundo esta analogia, este seria o fluido magnético que transmitiria as vibrações psíquicas, como as vibrações sonoras são transmitidas pelo ar.

Quanto à ação a uma distância maior, eis o que diz o autor:

“Embora seja muito difícil explicar como o fluido magnético pode agir de um aposento para outro, a maior parte dos magnetizadores estão convencidos disso. Eu mesmo fiz experiências que o provam. Entretanto, esse fenômeno, sendo daqueles que me parecem inconcebíveis, poderá ser examinado de novo, a meu convite, pelos magnetizadores (1813). De resto, a luz e o som não são levados a grandes distâncias, sem que se possa conceber no móvel que os envia uma força suficientemente grande para arrastá-los rapidamente, mesmo através do corpo. Que a luz seja uma emanação de corpos luminosos ou uma comoção do éter, não é tão fácil de compreender como é que a luz de um carvão ou de uma vela se faz perceber instantaneamente a uma grande distância através de corpos transparentes, ou como a luz de uma estrela chega até nós. Pode haver fenômenos em que nos recusamos a acreditar porque nunca os observamos. Nem por isso não são mais incompreensíveis que outros, que nunca nos impressionam porque nós os vemos todos os dias.”

Mais adiante ele acrescenta:

“Para que o fluido que parte de mim atue sobre o do homem que eu magnetizo é preciso que os dois fluidos se unam, que tenham o mesmo tom de movimento. Se eu apalpar com vontade e atenção e se aquele em quem eu quero agir estiver em estado passivo ou de inação, será o meu fluido que determinará o movimento do seu. Acontece então algo semelhante ao que ocorre entre um ferro imantado e um que não o está: à medida que passamos várias vezes e no mesmo sentido um no outro, o primeiro comunica ao outro seu movimento ou sua virtude. Isto não é uma explicação, mas sim uma comparação.”

E mais adiante:

“Uma vez que os nervos são embebidos de uma certa quantidade de fluido, eles adquirem uma suscetibilidade da qual não fazemos a mínima ideia quando no estado comum. Considerai o indivíduo magnetizado como fazendo parte, de alguma forma, de seu magnetizador, e não mais vos admirareis de que a vontade deste aja sobre ele e determine seus movimentos. Eis tudo o que posso dizer sobre o princípio da ação magnética e sobre a influência da vontade.”

Evidentemente não é uma explicação. Mas nem Deleuze, nem qualquer de seus sucessores se gabaram jamais de ter explicado todo o mistério. Eles somente têm insistido sobre a necessidade de admitir uma ação física que eles resumem pelas palavras emissão de fluido, para conceber, na medida do possível, os diferentes fenômenos de transmissão.

“A vontade – diz Lafontaine – não pode agir materialmente sobre um outro corpo. Nossa vontade só age sobre nós mesmos, produzindo uma secreção mais ativa no cérebro e contrações no plexo; daí a emissão de uma grande quantidade de fluido e mais intensidade na ação... Podemos, pois, dizer com razão que os fenômenos magnéticos têm uma só e única causa, o fluido vital, e que a vontade não é, aqui, mais do que um acessório, como em todas as coisas... O que faz pensar que a vontade age sobre o magnetizado é um dos efeitos que se apresentam no estado de sonambulismo. Um sonâmbulo cuja lucidez for desenvolvida vê o pensamento do magnetizador e obedece à ordem mental. É uma transmissão de pensamento; conclui-se daí que a vontade, à qual o sujeito estava submetido, devia ser a causa; mas cometeu-se um erro, confundiu-se causa com efeito. A transmissão de pensamento não é mais do que um resultado do estado particular no qual se encontra o sujeito. Se o magnetizador não estiver com disposição de saúde e de força convenientes, se ele estiver fatigado, nada produzirá ou produzirá muito pouco, ainda que ponha toda sua vontade naquilo que está fazendo. Se, ao contrário, o magnetizador estiver em plena força e saúde, mesmo magnetizando mecanicamente, distraído, sem vontade, ele produzirá, entretanto, efeitos positivos... Para fazer cessar o estado magnético é preciso desmagnetizar, é preciso libertar o sujeito ou o membro sobre o qual ele estiver agindo, de todo fluido que a ele se transmitiu; e terá que agir fisicamente, pois se não o fizer, ou se o fizer levemente, poderão ocorrer malefícios passíveis de degenerar em graves acidentes.

(Esta última observação, independentemente da teoria do fluido, é muito justa. Fala-se frequentemente de acidentes nocivos depois de uma magnetização. Pois bem, jamais – e eu me apoio numa experiência de 19 anos – uma magnetização, feita em condições regulares, pode fazer mal; ao contrário, ela sempre deve fazer mais ou menos bem; o caso menos favorável é quando o efeito é nulo. Mas as experiências feitas às pressas, para puro espetáculo, por magnetizadores ambulantes ou por hipnotizadores que não estudaram a literatura do sujeito, são nocivas quase sempre, e a causa principal de acidente é uma desmagnetização insuficiente. Diminui-se pela metade o efeito favorável do magnetismo e às vezes causam-se problemas sérios, depois de um despertar prematuro, muito brusco ou incompleto).

Os partidários da vontade – diz ainda Lafontaine – parecem apoiar-se em um outro exemplo para defender sua causa: quando um magnetizador adormece à distância, sem fazer um movimento, um sujeito a quem tem o hábito de magnetizar, ou mesmo quando o magnetiza pela primeira vez, eles pretendem que a vontade age sozinha. É um erro. O magnetizador, concentrando-se em si mesmo, provoca a emissão do fluido, que vai impressionar o sujeito, adormecendo-o. Aqui, como em toda parte, há uma simples projeção do fluido vital.”

Trata-se de uma teoria bem simples. Se o fluido existisse seria cômodo para a explicação de fatos e para aplicações terapêuticas; é preciso, pois, agir como se o fluido existisse. Mas, antes de tudo, é certo que em um grande número de fatos a intervenção do fluido é teoricamente inútil e que ali onde somos obrigados a reconhecer uma ação física, ela não prova ainda o deslocamento, nem mesmo a existência de um fluido particular. Em outras palavra: a teoria do fluido é muito simples diante da complexidade de fatos e inutilmente complicada diante de fatos simples.

Entretanto, Lafontaine tem plena razão quando diz que, desde que admitimos uma ação à distância, será preciso admitirmos uma ação física. O pensamento, como tal, não pode nem passear nem irradiar para outro lugar que não seja o cérebro que lhe pertence ou ao qual ele pertença. Mas a emissão, ou o transporte, assim como a própria existência de um fluido vital particular, não pode ser demonstrada, nos obrigará a procurar um princípio mais positivo para elucidar nosso problema.

Capítulo V

A hipótese de um fluido universal


Em geral pensa-se que foi Mesmer o promotor da teoria do fluido nervoso, vital ou magnético, que se solta de nosso corpo, projeta-se para fora e, em caso de necessidade, transporta-se pelo espaço, etc. É um erro, propagado por aqueles que não leram Mesmer ou que não o compreenderam. A teoria que acabamos de esboçar, de resto muito antiga, foi elaborada por um trabalho coletivo de muitos de seus alunos indiretos e sobretudo pelas revelações de sonâmbulos, que se explicaram como puderam.

Explicarei aqui a teoria de Mesmer. Tudo o que é acessível à investigação pode se resumir em duas palavras: matéria e movimento. Mas para chegar a esta conclusão é preciso liberar nossos conhecimentos dessa impressão superficial que lhes dão nossos sentidos.

“Nós adquirimos todas as ideias pelos sentidos: os sentidos só nos transmitem propriedades, acidentes, atributos: as ideias de todas essas sensações se exprimem por um objetivo ou epíteto, como quente, frio, fluido sólido, pesado, leve, sonoro, colorido, etc. Substituam-se esses epítetos por comodidade da língua, por substantivos; logo se substantivarão as propriedades; se diz o calor, a gravidade, a luz, o som, a cor, e eis aí a origem das abstrações metafísicas.” (Mesmer, 1778).

Estas substâncias foram multiplicadas e personificadas. Daí os espíritos, as divindades, os demônios, os gênios, etc.

“Resta-nos um certo número destas entidades, que precisam ser eliminadas para se chegar a uma visão nítida dos fenômenos. Este é, em geral – diz Mesmer – o objetivo a que me proponho.”

A matéria apresenta muitos graus de fluidez. A água é mais fluida que a areia, pois ela pode preencher os interstícios de seus grãos; o ar é mais fluido do que a água, pois ele pode se dissolver nesta; o éter é mais fluido do que o ar... É difícil determinar onde esta divisão acaba, mas podemos supor que há ainda muitos graus desse gênero e que existe uma matéria primitiva universal, cuja condensação graduada reúne todos os estados da matéria. Qualquer que ela seja, é preciso admitir, segundo Mesmer, que todo o espaço do mundo está preenchido, e podemos muito bem chamar esse fluido, que preenche tudo, de fluido universal. Alguns físicos já reconhecem a existência de um fluido universal, mas erraram ao precisar os caracteres desse fluido, ao sobrecarregá-los de propriedades e de virtudes específicas que não podemos conhecer. Esse fluido existe, embora não sintamos a sua presença. Nós estamos, perante ele, quase na situação dos peixes, que seriam fortemente abalados se um dos seus anunciasse que o espaço entre o fundo e a superfície do mar está cheio de um fluido; que não é senão por esse meio que eles se aproximam, que afastam, e que esse fluido é o único meio de suas relações recíprocas. “O fluido universal não é senão o conjunto de todas as séries da matéria dividida pelo movimento de suas partículas.” Para ele o universo é derretido e reduzido a uma só massa. Tudo o que dele se pode dizer é que ele é fluido por excelência e, em consequência, que ele deve presidir sobretudo as transmissões de movimentos mais sutis do que os efetuados por outros fluidos mais conhecidos. A água pode transmitir movimento a um moinho; o ar transmite as vibrações dos sons; o éter, da luz; o fluido universal, o movimento da vida. Cada uma dessas séries corresponde a um grau dos fenômenos e as suas vibrações não podem ser percebidas senão a um grau correspondente da organização (da agregação em geral) da matéria. Nem o calor, nem a luz, nem a eletricidade, nem o magnetismo são substâncias, mas sim efeitos de movimentos nas diversas séries do fluido universal. Sem ser pesado ou elástico, esse fluido determina os fenômenos de peso, de coesão, de atração, etc., em seguida às reações do movimento comunicado.

A atração, para dizer a verdade, não existe na natureza; ela é apenas um efeito aparente dos movimentos comunicadores e, em geral, todas as propriedades e todas as pretensas forças não são senão um resultado combinado da organização dos corpos e do movimento do fluido no qual eles estão mergulhados. É este fluido que preside as influências mútuas de todos os corpos; e como essas ações e reações são, por assim dizer, simbolizadas pela influência mútua do ímã e do ferro, pode-se bem dar o nome de magnetismo universal a esta influência mútua geral. Nada escapa a esta influência, que pode ser mais ou menos inapreciável, mas que teoricamente não tem limites. Os corpos celestes agem sobre nós e nós reagimos sobre os corpos celestes, assim como sobre aqueles que nos cercam. É esta propriedade do corpo animal que o torna suscetível de uma série de ações e reações que, devido a uma analogia com o ímã, pode ser chamada de magnetismo animal. Em consequência, o magnetismo, tão universal como o animal, não é um fluido, mas uma ação; um movimento e não uma matéria; uma transmissão do movimento e não uma emanação qualquer. Um deslocamento não pode ser feito sem substituição, pois todo o espaço está cheio, o que supõe que se um movimento da matéria sutil é provocado num corpo, produz-se também um movimento semelhante em um outro suscetível de receber, qualquer que seja a distância entre os corpos.

“Considerando – acrescenta Mesmer – que a influência recíproca é geral entre os corpos; que o ímã nos apresenta o modelo desta lei universal e que o corpo animal é suscetível de propriedades análogas às do ímã, creio poder justificar a denominação de magnetismo animal que adotei. Vejo com pesar que se tem abusado desta denominação; desde que tem havido uma familiarização com a palavra, as pessoas julgam ter ideia da coisa. À medida que minhas descobertas eram postas na fila das quimeras, a incredulidade de alguns sábios me deixou toda a glória da invenção; mas depois que eles foram forçados a reconhecer sua existência, começaram a exibir obras da antiguidade, nas quais se encontram as palavras fluido universal, magnetismo, influência, etc. Não é questão de palavras e sim da coisa e, sobretudo, da utilidade de sua aplicação.”

A vida não é senão uma manifestação de um movimento sutil, cuja cessação é a morte. Entre esses movimentos sutis as sensações ocupam um lugar destacado; todas as ações são o resultado das sensações. Os órgãos dos sentidos correspondem a diferentes graus da sutileza das vibrações. Mas a matéria nervosa, ela própria, como produto supremo da organização, é capaz de ser influenciada diretamente pelas vibrações as mais sutis, da matéria mais sutil, isto é, do fluido universal, e esta faculdade, até aqui negligenciada ou desconhecida, Mesmer a chama de sentido interior.

Devo lembrar que esta denominação aparece com frequência na história da psicologia, mas com outro significado. Aristóteles já se ocupava desta questão. Depois dele Albertus Magnus, Occam, Giordano Bruno, Cremonins, etc. já falam de um sensus interior ou mesmo de sensibus internis. Mas este termo tem sido tomado, seja no sentido de um sensus communis, que reúne todas as sensações, seja no sentido da percepção e da consciência de si mesmo.

O que se vinha fazendo era travestir o problema colocado por Aristóteles; é preciso admitir um sexto sentido para ver o que os olhos veem, para ouvir o que os ouvidos ouvem, etc., ou, enfim (na psicologia moderna), dá-se o nome de sentido interno à faculdade de perceber as sensações internas corporais. O sentido que lhe dá Mesmer é completamente diferente. Ele crê que a matéria nervosa em geral e a substância cinzenta em particular pode ser afetada diretamente pelas vibrações do fluido universal. Ele via aí uma fonte de conhecimentos vagos, quase sempre inapreciáveis, sobretudo no homem, no qual as impressões dos sentidos e o desenvolvimento da reflexão abafam essas fracas percepções; mas entre os animais, que têm sentidos menos aperfeiçoados, esta sensibilidade puramente cerebral compensa a imperfeição dos sentidos e os substitui em muitos atos das suas vidas. Ela os põe em relação com toda a natureza, faz-lhes adivinhar as direções no espaço, pressentir as revoluções terrestres ou atmosféricas, a utilidade ou não de certos alimentos e, em geral, forma uma espécie de experiência inconsciente à qual se deu o nome de instinto. No homem esta faculdade não se manifesta senão excepcionalmente no sono normal e, sobretudo, no sonambulismo, depois de um entorpecimento dos sentidos ordinários e da ausência de ideias conscientes que habitualmente o sufocam.

“Se é verdade – diz Mesmer como, aliás, tentarei provar – que somos afetados pelo encadeamento dos seres e dos acontecimentos que se sucedem, compreender-se-á a possibilidade dos pressentimentos e de outros fenômenos análogos.

No estado de “crise”, os sentidos do sonâmbulo podem se estender para todas as distâncias. Parece que toda a natureza se faz presente nele. A própria vontade lhe é comunicada independentemente de todos os meios convencionais. Estas faculdades variam em cada indivíduo; o fenômeno mais comum é o de ver o interior do seu corpo e mesmo de outros... Mas é raro encontrar todas estas faculdades no mesmo indivíduo.

Como é que o homem pode receber a impressão de outra vontade que não a sua?

Esta comunicação não pode ter lugar entre dois indivíduos em estado ordinário, a não ser que o movimento, resultante de seus pensamentos, seja propagado do centro para os órgãos da voz e para as partes que servem para exprimir os sinais naturais ou convencionais; esses movimentos são então transmitidos para o ar ou para o éter, como meios intermediários, para serem recebidos e sentidos pelos órgãos dos sentidos externos. Esses movimentos assim modificados pelo pensamento no cérebro e na substância dos nervos podem, independentemente e sem o concurso do ar e do éter, se estender a distâncias indefinidas e se relacionam imediatamente com o sentido interno de um outro indivíduo.

Por aí se percebe como a vontade de dois indivíduos pode se comunicar por seus sentidos internos e, em consequência, como pode existir uma reciprocidade, um acordo, uma espécie de convenção entre duas vontades, e que podemos chamar de estar em rapport (relação).

Esse gênero de sensações só pode ser adquirido pela radiação dos fluidos, que podem estar no ar comum. Faltam-me as expressões, como se eu tivesse que explicar as cores pelo som. No caso, é preciso suprir pelas reflexões que se possa fazer sobre as pré-sensações constantes dos homens e sobretudo dos animais, nos grandes acontecimentos da natureza, a distâncias inacessíveis para seus órgãos aparentes, sobre a irresistível atração dos pássaros e dos peixes em suas viagens periódicas e, enfim, sobre todos os fenômenos relativos que nos apresentam o sono crítico do homem.”

Essas representações podem referir-se tanto ao passado como ao futuro, porque ver o passado é simplesmente sentir as causas nos efeitos, e ver o futuro é adivinhar os efeitos pelas causas. Tudo o que foi deixou traços; da mesma forma, o que será já está determinado pelo conjunto das causas.

Mas por que o estado de sono é mais apropriado do que o da vigília, para manifestar essas diferentes transmissões?

Mesmer responde com muita precisão:

“1º) Porque as funções dos sentidos são suspensas e a continuidade do sensório comum com os órgãos externos, mais ou menos interrompida. As impressões das matérias circundantes não se operam, pois, sobre os órgãos dos sentidos externos, mas direta e imediatamente sobre a própria substância dos nervos. O sentido interno se torna, assim, o único órgão das sensações.

2º) Como depois do entorpecimento dos sentidos as funções psíquicas da memória consciente, da imaginação, da reflexão, etc. são também suspensas e, em consequência, as impressões diretas da substância cerebral se encontram liberadas da pressão dos sentidos externos, “elas se tornam sensíveis àquelas, ainda que sejam sozinhas. Como a lei imutável das sensações diz que a mais forte cancela a mais fraca, esta pode ser sensível, na ausência de uma mais forte. Se a impressão das estrelas não é sensível aos nossos olhos durante o dia como é durante a noite, embora sua ação seja a mesma, é porque ela é ofuscada pela impressão superior da presença do sol.”

Para as transmissões individuais de homem para homem, é preciso admitir ainda duas outras condições:

1º) A do rapport (relação) – A ação especial entre dois seres é favorecida por uma espécie de acordo, pela produção natural ou artificial de um tom do movimento ou de um movimento tônico análogo, e que torna um cérebro mais suscetível a uma vibração pertencente à mesma categoria.

2º) A da educação – A perfeição desse sono crítico varia não somente segundo a marcha da crise, a temperatura e os hábitos dos sujeitos, como depende também e, em alto grau, de uma espécie de educação que se pode dar durante esse estado; é como um telescópio cujo efeito varia como os meios de ajustá-lo.

Num estado favorável às transmissões de todo gênero, o homem entra em relação com toda a natureza, como se fosse um líquido cuja superfície perfeitamente equilibrada refletisse todas as imagens do universo. Mas imaginem essa superfície agitada (impressões dos sentidos ordinários) e verão o líquido se mexendo numa infinidade de ondas e reações, e a reflexão das imagens desaparecerá.

Mas, evidentemente, é raro que todas essas condições de perceptividade cerebral estejam reunidas. Estimulados por certos casos excepcionais, vários observadores acreditaram poder fazer sonâmbulos lúcidos à vontade. Esqueceram-se de que é sempre em estado de sono que os sonhos se misturam com sensações verdadeiras. Confundiram magnetismo com sonambulismo.

Mesmer acreditava, como Spencer, que as partículas de uma certa matéria são afetadas principalmente pelas partículas que têm movimentos análogos e, guiado por este pensamento, admitiu uma série de movimentos cada vez mais sutis, e uma série de estados de matérias cada vez mais rarefeitas ao estado sólido, líquido, gasoso, etéreo e um estado mais sutil ainda, do fluido universal ou da matéria primitiva que pode, ela também, apresentar graus que nos são desconhecidos. Logo, ele dividiu o trabalho da natureza e distinguiu o fluido universal, suscetível sobretudo de vibrações vitais, do éter, ao qual ele entrega principalmente a luz. Nada sabemos a respeito desta organização; mas creio que não há limites absolutos na natureza e prefiro, portanto, ficar com a graduação de Mesmer do que com a teoria do fluido, sem dúvida imponderável, dos físicos modernos. Este fluido, que nada mais é do que uma negação absoluta da matéria “ponderável”, constitui uma espécie de matéria absolutamente contrária a tudo o que sabemos da matéria ordinária e, digamos francamente, contrária ao senso comum. As partículas da matéria ordinária se atraem, as do éter se repelem, etc. Um monte de fantasias! O éter é um fluido imponderável. Ora, se fluido quer dizer alguma coisa, fluido imponderável quer dizer contra-senso. Um fluido quer dizer qualquer coisa que pode escoar, deve ser empurrado por alguma coisa e, em consequência, pesar em alguma coisa. Além disso admite-se que as moléculas do éter são atraídas pela matéria ordinária, e quando um corpo é atraído por um outro corpo, este pesa sobre ele. Depois, o éter não pode preencher todo o espaço, precisamente porque ele é rarefeito. Enfim, se é ele que nos deve explicar as atrações e a ponderabilidade, ele não pode ser em si mesmo nem ponderável e nem imponderável, pois não é senão por um rapport (relação) entre ele e a matéria ordinária que estas qualidades se manifestam.

Numa palavra, eu compreendo a necessidade de um gás que conhecemos, isto é, mais rarefeito que o hidrogênio (talvez haja muitos, não sei), mas não compreendo uma matéria que não é matéria, um corpo rarefeito que suprime a vida, um deus ex machina que tudo deve explicar, sem ser ele mesmo compreensível. Prefiro minha ignorância do que uma ciência semelhante. E suplico aos matemáticos para que não imaginem que podem descobrir o que quer que seja fora das relações fundadas na experiência. Um psicólogo pode saber isso. Ele pode estimar quanto quiser as quatro, cinco e n dimensões que lhe desenvolvamos com a ajuda de símbolos abstratos, mas ele confessa francamente que pode imaginar muito bem as três dimensões, não mais. Se Zoellner vivesse ainda, sem dúvida teria explicado a transmissão mental por uma passagem através da quarta dimensão e nós teríamos mais uma teoria.

Sem isso resta-nos somente assinalar uma última, unicamente para efetuar uma transição entre as hipóteses precedentes e a nossa.

Esta transição nós a encontraremos na teoria de Puységur.

Capítulo VI

A hipótese de uma transmissão psicofísica


O simpático bruxo de Busancy, que tanto se apaixonou pela sugestão mental, merece uma menção. Ele foi soldado (marechal de campo do Corpo Real da Artilharia) e gostava de resolver logo as questões. As séries do fluido universal de Mesmer se instalavam em sua cabeça mas ele, o marquês de Puységur, era cortês demais para contrariar seu mestre. Preferia acusar-se a si mesmo de incapacidade metafísica. A teoria não lhe importou muito. “Aumentem o número de experiências – diz ele – e vocês chegarão a uma teoria; do contrário estarão perdendo tempo”. Se fosse preciso esperar, para reconhecer os fenômenos conhecidos da eletricidade, do ímã e do galvanismo, para se chegar a um acordo sobre as explicações de suas causas, não se teria hoje nem o para-raios, nem a bússola nem a pilha de Volta. Existe um fluido elétrico, um fluido magnético, um fluido galvânico? Ele não sabe nada, nem precisa acreditar na existência de um fluido.

Passando em revista os fenômenos do calor, do fogo, da máquina elétrica, da luz, da pilha de Volta e do galvanismo, do ímã e dos bruxos (indivíduos sensíveis que encontram, ao que parece, correntes de água subterrânea) e por uma série de comparações e de reflexões de uma perfeita clareza, ele chega a reconhecer, em oposição às ideias dominantes de seu tempo, que o calor não é senão o efeito sensível ao contato da transmissão de um movimento e que, em consequência, “o calórico não existe”, que a causa das propriedades magnéticas do ímã deriva unicamente de um movimento tônico e intestino no ferro, de natureza mais ou menos semelhante ao existente na pilha de Volta! Enfim, que tudo é “transmissão de movimento”.

Puységur é incomparável nas suas deduções a propósito de uma experiência de transmissão de pensamento, posto ao lado de uma experiência de máquina eletrostática. Ele apresenta dois problemas: acender à distância um pavio com a ajuda de uma faísca elétrica e agir mentalmente à distância sobre seu irmão que está em Versalhes.

“Fiz uma ação de girar a manivela da máquina sem mudar de lugar; esta ação teve seu resultado, que é o de comunicar o movimento; de onde eu concluo que todos os pavios do mundo não podem se acender senão pela transmissão de um movimento comunicado. Meu irmão está a quatro léguas daqui. Vejamos como eu poderei transmitir-lhe movimento. Nada de mais simples: eu me lembro de sua imagem e penso nele. – Eis o místico e o sortilégio! – Nada disso, trata-se de pura física. Todo ato humano não é precedido da vontade? Esta vontade não é também precedida do pensamento que concebeu a possibilidade de sua execução? Este pensamento é, pois, o princípio motor; ele está em mim, como a bandeja de vidro na máquina elétrica. – E você crê que pode produzir algum efeito em seu irmão pela ação de seu pensamento? – Certamente não! Ele perceberá menos ainda, nesse caso, da ação de meu pensamento, do que você, já que ele não está isolado.”

Em síntese, ele desenvolveu a mesma teoria de Mesmer, porém simplificada e popularizada, menos o fluido universal e menos a precisão notável do iniciador do magnetismo. Esta teoria foi apresentada ultimamente pelo Dr. Perronet sob o nome de ondulacionismo. Sua fórmula, brevemente enunciada, é a seguinte:

“A sugestão é um fenômeno pelo qual um indivíduo transmite a um ou a muitos indivíduos seus próprios pensamentos, conscientes ou inconscientes, materializando-os na forma de objetos representados pelos pensamentos e passando por esta série de fenômenos intermediários:

1º) ondulações nervosas de origem central e em direções centrífugas, ondulações essas que são provocadas por um mecanismo desconhecido, nos órgãos que servem de apoio para suas faculdades psíquicas;

2º) ondulações, na periferia de seu corpo, de contrações fibrilares, ou outros fenômenos em geral inconscientes;

3º) ondulações determinadas no meio cósmico pelos movimentos precedentes;

4º) choque das extremidades nervosas dos indivíduos receptores, por estas ondulações cósmicas que produzem nos centros psíquicos daqueles o último fenômeno ondulatório, traduzido pela percepção real do objeto significado pela ideia.”

E agora façamos abstração de todas essas teorias, lembrando-nos apenas dos fatos. Tentarei torná-los compreensíveis na medida do possível, no estado atual das pesquisas.

Capítulo VII

Os elementos de uma explicação científica


Recordemos que:

1º) a sugestão dita mental é um fenômeno muito complexo que, em consequência, não pode ser explicado com a ajuda de um princípio simples e único;

2º) mesmo em relação a um fato determinado e isolado, a teoria deve ser dupla: psicológica e física;

3º) em todos os fenômenos desse gênero deve-se considerar, de um lado, as condições da parte do operador, e do outro as condições da parte do sujeito.

Isso quanto ao princípio geral de uma explicação científica.

Mas o que quer dizer explicar?

Explicar não quer dizer outra coisa senão reduzir o desconhecido para o conhecido e só há um meio de efetuar esta redução: indicando as condições nas quais o fenômeno se manifesta e sem as quais ele não pode se manifestar. É tudo o que se pode fazer e é também tudo o que é preciso. Não se deve ter a ilusão de um conhecimento adequado do que quer que seja. Determinam-se as condições do fenômeno, que se resumem, na medida do possível, nas leis que nada mais são do que uma generalização da observação. Toda a ciência está aí.

Antes de poder precisar as condições de um fenômeno, é preciso descrevê-lo, é preciso analisá-lo, a fim de circunscrever seu conteúdo e designar-lhe um lugar adequado entre os outros fenômenos. É isso que temos tentado fazer, tratando separadamente as diversas transmissões psicofísicas. Resultou que a sugestão mental propriamente dita deve ser considerada em conexão com vários fenômenos de transmissão física que a elucidam através de uma gradual aproximação.

Vimos também que um grande número de fatos, atribuídos à transmissão física ou mental, não constituem senão uma transmissão aparente.

Esta transmissão aparente pode ser explicada, segundo os casos:

1º) por uma harmonia pré-estabelecida entre dois mecanismos associativos, independentes um do outro, mas ambos dependentes de um meio psíquico;

2º) por uma presunção, baseada nas sensações ordinárias da vista, do ouvido, do olfato e do tato.

Estas sensações que traem nosso estado orgânico ou psíquico podem ser cumpridas pelo próprio sujeito, por causa:

1º) da experiência inconsciente que nos é própria e que se faz valer sobretudo na ausência da reflexão consciente;

2º) das associações ídeo-orgânicas que podem descobrir a significação das influências mais ou menos despercebidas no estado normal;

3º) da ideoplastia, que realiza no sujeito a ideia sugerida pela experiência inconsciente e por associações ídeo-orgânicas;

4º) da educação hipnótica e magnética que facilita o concurso de todos os agentes citados.

Resulta que a transmissão aparente deve ser favorecida:

1º) pela exaltação dos sentidos;

2º) pela exaltação da inteligência;

3º) pelo isolamento dos sentidos e da inteligência, que permite concentrar toda a atenção na direção desejada.

Mas toda essa teoria se torna insuficiente desde que se trate de explicar os fatos nos quais os indícios involuntários, fornecidos pelo princípio da exteriorização expressiva de todo estado psíquico ou orgânico, não mais podem entrar em ação. Admitindo-se que a perceptividade sensorial tem limites tão incompreensíveis como o próprio fenômeno, será preciso recorrer a um outro princípio que, desta vez, deverá nos explicar não mais a transmissão aparente, mas a transmissão verdadeira.

A transmissão verdadeira embaraça os fatos nos quais um estado a do cérebro A é reproduzido pelo cérebro B, sem o intermédio dos sinais visuais, auditivos, olfativos ou táteis.

É fácil adivinhar que, na prática, essas duas categorias de transmissão devem se confundir e que somente nas experiências expressamente feitas e a uma certa distância pode-se ter segurança de que a transmissão verdadeira age sozinha.

Se o pensamento é um fenômeno puramente cerebral, no sentido de que ele não pode ser engendrado por nenhum outro órgão, ele jamais é limitado só ao cérebro, quanto às manifestações que o acompanham. Não há pensamento sem expressão; podemos mesmo dizer, com Sietchénoff, que não há pensamento sem uma contração muscular; mas eu prefiro a primeira fórmula, mais geral, uma vez que ela envolve também as secreções, as emanações, a produção direta do calor e da eletricidade. Podemos ficar absolutamente imóveis e pensar em toda espécie de coisas, mas analisando nossa atitude, verificaremos:

1º) que se a reflexão for um pouco intensa, há sempre um começo da palavra; a laringe, a língua, a mandíbula, executantes de pequenos movimentos;

2º) que se o pensamento apresenta um caráter mais visual que auditivo, o olho, apesar da oclusão, segue os movimentos dos objetos imaginários e a pupila se dilata ou se retrai segundo a distância do objeto imaginário;

3º) que a respiração se regula, se acelera ou para, segundo o curso de nossas ideias;

4º) que nos músculos dos membros há sempre uma contração interna, correspondente aos movimentos inacabados, nos quais se pensa;

5º) que todos os estados emotivos são acompanhados de uma alteração correspondente, na circulação;

6º) que uma concentração de vontade se reflete numa concentração correspondente do diafragma;

7º) que todos esses fenômenos devem determinar uma modificação nas funções da vida vegetal, na mudança da matéria e, em consequência, na produção das secreções e emanações diversas;

8º) que é certo que todo trabalho psíquico determina uma produção de calor e, provavelmente, que existe mesmo uma transformação direta do trabalho psíquico em calor irradiante.

O efeito dessas ações não pode estar limitado à superfície de nosso corpo e, em consequência, ainda que a uma certa distância, essas mudanças podem influenciar imperceptivelmente os sentidos de um organismo qualquer e fazer-se sentir, de maneira mais ou menos distinta, por um organismo excepcionalmente impressionável.

Apoiando-nos em uma única categoria de sensações, podemos chegar às explicações parciais, imperfeitas, dizendo, por exemplo:

1º) que o sujeito decifra o pensamento nos sinais patognomônicos visuais e que, em consequência, a teoria da sugestão mental traz consigo uma teoria de visão exaltada;

2º) que, sendo o pensamento habitualmente falado e podendo o sujeito apresentar uma hiperacústica extraordinária, podemos encarar a sugestão mental como uma audição exaltada da palavra interna e dos ruídos da respiração;

3º) que, estando provado que as emoções são acompanhadas de um odor cutâneo, podemos exagerar esses indícios, admitindo que mesmo cada pensamento, um pouco concentrado e persistente, sobretudo o da aprovação ou negação, se caracteriza por uma modificação olfativa perceptível;

4º) que o calor libertado em seguida a um esforço mental, modificado pela aproximação do corpo e dos gestos (correntes de ar), pode guiar o sujeito, fazer com que ele sinta sobretudo o começo e a direção da ação e dar lugar, assim, a uma explicação puramente calórica de certas influências ditas mentais;

5º) que, nas experiências com contato imediato, todas as vibrações e tensões expressivas dos músculos podem servir de sinal palpável, por uma interpretação de nossos pensamentos, e dar lugar a uma teoria mecânica da sugestão;

6º) que o fenômeno da atração reflexa, baseado em uma sensibilidade cutânea exaltada, permite imaginar uma teoria puramente atrativa da sugestão e dizer que todos os movimentos mentalmente comandados são executados em razão de uma atração física reflexa;

7º) que o fenômeno da imitação dos movimentos, sendo comum e suscetível de um considerável aperfeiçoamento, permite dizer que, se mesmo de olhos fechados o sujeito pode reproduzir os movimentos do operador, esse fenômeno tem um grau mais elevado e poderá se manifestar por movimentos inacabados e dar lugar a uma teoria exclusivamente imitativa.

Todas essas considerações, tomadas separadamente, e mesmo coletivamente, não podem se aplicar senão a um certo número de fatos, mas nós devemos levar em conta um dos princípios enunciados segundo o qual alguns deles podem ser evocados, sem um exagero evidente.

Algumas experiências de controle podem precisar a justeza ou a incompatibilidade de sua aplicação.

Em geral, para algumas experiências feitas de perto, parece certo que existe uma graduação de facilidades e que ela pode ser resumida nas seguintes categorias:

1º) com contato, gestos e olhares;

2º) sem contato, com gestos e olhares;

3º) sem contato, sem gestos, com olhares;

4º) sem contato, sem gestos e sem olhares.

A partir deste último grau, a influência não diminui mais com a distância, até a um limite desconhecido. Se a ação pôde ser exercida do fundo de um quarto à revelia do sujeito, ela poderá sê-lo, igualmente, de um outro quarto, de uma outra casa, etc.

O fato de uma graduação frequentemente sensível a uma pequena distância e de uma diferença imperceptível a uma grande distância prova:

1º) que em certos casos o contato, os gestos e o olhar têm sua parte na ação;

2º) que esta ação, assim como a das sensações olfativas, não são suficientes para explicar outros casos.

Além do mais, o contato é quase sempre indiferente. Os gestos se tornam inúteis e o olhar não exerce uma ação palpável. Em consequência, se esses agentes têm uma ação qualquer à distância, esta ação deve ser subjetiva, o que quer dizer que ela facilita a concentração do pensamento no operador.

Da parte do operador as condições têm sido pouco estudadas. Mas é provável:

1º) que haja diferenças pessoais;

2º) que essas diferenças podem ocorrer não somente a um grau de intensidade do pensamento, mas também devido à natureza desse pensamento, quer visual, auditivo ou motriz;

3º) que é preciso reservar uma certa parte a uma espécie de acordo, de concordância entre as naturezas das duas inteligências;

4º) que os esforços excessivos da vontade prejudicam a nitidez da transmissão, sem aumentar consideravelmente sua intensidade;

5º) que um pensamento firme, persistente, prolongado ou repetido durante mais ou menos longo tempo constitui uma condição eminentemente favorável;

6º) que uma distração qualquer parece ser desfavorável à ação;

7º) que os pensamentos fracos e mesmo momentaneamente inconscientes podem ser transmitidos involuntariamente;

8º) que os esforços musculares que acompanham sempre um esforço de vontade são mais ou menos indiferentes; mas que a expressão muscular no operador pode ser útil subjetivamente em razão do hábito que une o pensamento aos seus sinais expressivos.

Destas considerações resulta que o operador deve insistir menos no “eu quero” do que no conteúdo desta vontade, e é bem provável que não é a vontade forte que favorece a sugestão, mas sim o pensamento claro.

Da parte do sujeito podemos considerar sucessivamente os quatro estados principais:

1º) no estado a-idéico profundo a transmissão jamais é imediata, mas às vezes pode ser latente;

2º) no estado do monoideísmo nascente ela pode ser imediata e perfeita;

3º) no estado do poli-ideísmo passivo ela pode ser mediata ou imediata, mas sempre mais fraca;

4º) no estado do poli-ideísmo ativo as condições se complicam e é preciso considerá-las separadamente:

a) ela pode ser direta, se o sujeito nos ajudar absorvendo voluntariamente uma concentração mais ou menos monoidéica: ele escuta mentalmente, ele procura e, às vezes, acha;

b) ela pode ser indireta, isto é, latente, igualmente com um certo ajustamento da parte do sujeito e este caso parece ser o mais frequente;

c) enfim, ela pode ser, por exceção, mediata ou imediata, mesmo sem que o sujeito esteja prevenido da ação.

E aqui tocamos na questão da ação mental em estado de vigília, que demanda algumas explicações: o estado sonambúlico de poli-idéica ativa não difere do estado de vigília senão por duas características, uma absoluta e a outra relativa.

1 – A diferença absoluta, isto é, constante, necessária, é apenas quantitativa; a vigília é um estado mais poli-idéico do que o sonambulismo. Neste último há sempre uma restrição da vigília, apesar do monoideísmo aparente que seduziu muitos psicólogos (Bain, Morell, etc.), pois nosso pensamento é sempre muito complicado; temos simultaneamente um monte de sensações que lutam entre si, e uma série de lembranças que procuram se livrar da pressão das ideias dominantes. No sonambulismo esse número é bem menor; a maior parte das sensações comuns fazem falta (anestesia); a maior parte das lembranças ficam paralisadas. Podemos afirmar que é mais fácil influenciar à revelia um sujeito acordado do que um sujeito que se encontra em estado sonambúlico claramente ativo. Neste caso, o sujeito é mais absorvido e, em consequência, menos abordável. O estado normal é em geral menos sensível devido à oposição de um grande número de ideias que lutam pela existência, mas ele é menos concentrado, mais elástico, mais variado e, portanto, mais acessível. Dizendo que é mais elástico quero dizer que no estado normal nosso pensamento se projeta mais facilmente à direita e à esquerda, sem deixar o fio que o conduz; mas eu o disse sobretudo devido à particularidade seguinte: o estado normal não é um estado completamente poli-idéico; ele consiste mais em um agregado móvel de todos os estados possíveis, com preponderância da poli-ideia. Há momentos monoidéicos, evidentemente. Mas tudo se mistura, se sucede com uma rapidez muito grande. Mas é isso que torna este estado acessível às influências fracas, sobretudo nos sujeitos hipnotizáveis cujo espírito, em geral, se caracteriza por uma tendência constante ao monoideísmo.

2 – A segunda diferença entre o estado sonambúlico e o estado normal é apenas relativa, porém mais importante para o sujeito. É relativa porque não existe entre os hipnotizados. Um hipnotizado não se põe em relação com ninguém. É relativa, ainda, sob outro ponto de vista, porque, embora exista o isolamento no sonambulismo magnético, esse isolamento apresenta apenas uma diferença de grau, com o estado normal, durante o qual a sugestão pode ocorrer. Na verdade ela não se realiza jamais em um estado normal sem traço de relação. É preciso que essa relação seja estabelecida, seja por magnetizações ulteriores, seja por um laço de sangue, de simpatia, de um intercâmbio diário, enfim, por uma influência excepcional instantânea.

Esse detalhe nos leva ao fundo da questão.

A relação, sendo uma condição sine qua non de uma ação clara, precisa ser definida.

Já vimos que a natureza desse fenômeno é essencialmente dupla: psíquica e física. Conhecemos, já, os elementos psíquicos, restando-nos analisar agora a causa física desses fenômenos. Vejamos:

Temos nós o direito de admitir uma causa física no “magnetismo animal?”

Registremos, de passagem, que, conforme o aspecto geral dos fenômenos, até o momento confundidos sob um só nome, “fenômenos hipnóticos”, esta causa não nos é necessária senão para certas categorias de fatos. Mas isso não suprime a dificuldade; ela permanece, embora na sombra. E o que choca os espíritos legitimistas é que esta ação física parece “transtornar todas as noções da fisiologia”.

“Eu jamais compreendi – diz Brown-Séquard – como um homem inteligente e conhecedor dos princípios fundamentais da fisiologia pode admitir uma tal transmissão (uma transmissão de força nêurica de um indivíduo para outro), quando o estudante menos instruído sabe como são vãos, depois da secção de um nervo motor, os esforços, os desejos, a vontade de mover a parte paralisada...”

Eu não gostaria de passar por um estudante menos instruído, mas ousarei dizer a meu mestre que eu, por mim, compreendi como isso é possível.

A vontade, diz Brown-Séquard, não pode alcançar um músculo cujo nervo motor foi seccionado, ao passo que lhe parece natural que ela possa alcançar um músculo cujo nervo motor não foi seccionado. Pois para mim isso não parece de todo natural. Concordo que ela não possa alcançar um músculo cujo nervo foi partido, mas não admito que ela possa alcançar um músculo cujo nervo motor permanece intacto. A vontade é um fenômeno cerebral que jamais foi constatado fora do cérebro. Ela não se transmite ao nervo motor que sai desse cérebro para confinar num músculo. Paralelamente, o movimento mecânico de um músculo não se transmite a um nervo sensitivo para chegar ao cérebro, mas ele pode, deve, provocar uma corrente molecular que se transmite para o cérebro e ali desperta um outro fenômeno dinâmico de uma outra natureza desconhecida, mas que distinguimos interiormente como sensação ou ideia. A vontade está no mesmo caso. Para atingir o músculo, ela tem absoluta necessidade de um intermediário molecular, que percorra o nervo, e é certo que este intermediário não pode atravessar um fio partido. O telefone fica mudo. Se nos detivermos nesta experiência, teremos o direito de dizer, em relação ao telefone, o que Brown-Séquard diz em relação ao músculo.

Felizmente nossa ciência não para aí. Brown-Séquard, ao proclamar duas verdades incontestáveis se enganou duas vezes. Eis as duas verdades:

1º) uma tal força, absolutamente limitada a um ponto material qualquer, não existe;

2º) se assim fosse, os princípios mais fundamentais da fisiologia, entre os quais os princípios da inibição e da dinamogenia de Brown-Séquard seriam invertidos.

A ação telefônica normal cessa desde que o fio se rompe. Ela também será nula para nós, não estando o fio rompido, mas desde que o circuito não tenha senão um só telefone. É possível transmitir a palavra com um só telefone? Não, e entretanto ele funciona.

Tomemos um outro telefone, que também tem um circuito fechado e que também fica mudo. Aproximemos este do primeiro, ou somente do fio do primeiro telefone, ou simplesmente o fio do primeiro telefone ao fio do segundo; este último vai falar, vai reproduzir a palavra, embora não tenha nenhum contato material entre os dois sistemas. Ele falará por indução. É esta transmissão que corresponde a uma transmissão mental e não a que existe entre um músculo e um cérebro. Meu cérebro não age sobre os músculos do sujeito, mas ele pode agir sobre seu cérebro. Se, em lugar de um segundo telefone pusermos ao lado um outro instrumento, um eletroscópio, por exemplo, não obteremos nada, mas não se poderá concluir que não há qualquer ação elétrica em torno do telefone, pois para constatar uma ação análoga é preciso um instrumento análogo, um telefone por um telefone, um cérebro por um cérebro.

Não tenho a intenção de abusar dessa analogia. Comparação não é razão; se não houvesse outras provas de uma ação física indutiva, esta de nada nos serviria.

Mas, independentemente de toda teoria, os fatos nos obrigam a admitir uma ação física. Seríamos obrigados a isso se nenhum outro fenômeno análogo existisse.

Eis esses fatos, em duas palavras, sem que eu possa prová-los:

1º) Há casos em que o magnetizado distingue a presença de seu magnetizador, independentemente das sensações ordinárias. Ele distingue seu contato entre muitos outros, mesmo que seja por intermédio de um corpo inerte que não possa influenciá-lo. Em consequência, se o sujeito distingue tão bem o contato de seu magnetizador através de uma haste de madeira, por exemplo, como de forma direta, é certo que existe uma corrente molecular qualquer, própria do organismo do magnetizador, e que denota sua presença quase como uma corrente galvânica denota a presença de uma pilha por intermédio de um fio que nos toca. A objeção de que a maioria dos sujeitos não experimentam nada não tem valor, pois não sentimos nada também com uma corrente de fraco elemento galvânico, embora a bússola venha a manifestar claramente sua presença. Suponhamos que há 40 anos, quando Du Bois Raymond publicava suas descobertas sobre a eletricidade animal, nós tivéssemos contestado suas afirmações, dizendo que nenhum galvanômetro havia revelado a presença das correntes que ele anunciara. Isto seria verdadeiro e, entretanto, injusto, porque naquela época Du Bois possuía só um multiplicador capaz de revelar sua presença.

2º) Pode-se obter efeitos significativos do ponto de vista terapêutico, agindo sem contato e à revelia dos doentes, por exemplo nas crianças adormecidas. Há, pois, uma ação indutiva que ultrapassa a superfície do corpo.

3º) Constatam-se claras diferenças na ação dita magnética de diferentes pessoas, sem que a influência moral possa explicar. Uma mão age diferente de outra mão; há, pois, uma ação física e uma ação física pessoal.

4º) Enfim, desde que os fatos nos obrigam a admitir uma ação de longe, é preciso admitir uma ação real de perto.

Não podendo precisar a natureza desta ação, podemos, entretanto, dizer o seguinte:

1º) Todo ser vivo é um foco dinâmico;

2º) Um foco dinâmico procura sempre propagar o movimento que lhe é próprio;

3º) Um movimento propagado se transforma segundo o meio que ele atravessa.

Entremos em alguns detalhes:

Eu não sei se as forças, como tais, existem na natureza; e a fortiori eu não sei se elas existem fora da natureza; mas o que sei é que a força não é senão um movimento. Dizemos “movimento” quando vemos movimento; dizemos “força” quando o movimento é invisível. Um animal dormindo tem a “força” para se levantar, uma vez que existe nele um movimento molecular latente que se pode transformar em um movimento mecânico visível. Uma vez morto o animal não mais terá essa força, porque o movimento molecular interno, que constitui a mudança biológica da matéria, parou.

Podemos, assim, considerar esta força como um movimento oculto, isto é, molecular.

Um movimento tende sempre a se propagar.

Por que às vezes se afigura que ele desaparece? Ele pode se anular? Não. Se o movimento não se cria, ele também não se perde. Assim, quando vemos um trabalho qualquer – mecânico, elétrico, nervoso, psíquico – desaparecer sem efeito visível, não se pode inferir senão de duas uma:

1º) é uma transmissão;

2º) é uma transformação.

Num meio que não oponha qualquer resistência, um movimento se transmite indefinidamente. Imaginem o universo formado por um meio imóvel, mas capaz de ser movido e não apresentando qualquer resistência; bastará empurrar com o dedo um só átomo para pôr todo o universo em movimento. E se esse átomo estiver sozinho no mundo, ele avançará por toda a eternidade. Avançará em linha reta, segundo a antiga mecânica, mas num círculo infinito, segundo a nova, e é aqui que começam as farsas científicas. Limitemo-nos a dizer que não há qualquer razão para que esse movimento cesse.

Mas tal não é o universo: ele tem resistência. O que quer dizer essa resistência? Para explicá-la faz-se como os selvagens: emprestamos à matéria as qualidades que nos são próprias. Depois de ter objetivado um sentimento subjetivo muscular, na noção da “força”, procede-se como os que se opõem à força, emprestando à matéria nossa preguiça sob o nome de “inércia”. A inércia não existe mais do que a força, mais do que o repouso absoluto. Mas o que existe certamente é o movimento que, se não for da mesma natureza, se opõe a um outro movimento.

Que acontece então? Acontece que o movimento inicial se transforma.

Tal é o grande princípio do universo.

Não somente transmissão, como dizia Puységur, mas transformação.

Onde acaba a primeira e começa a segunda?

A filosofia física nos dá uma ideia muito clara:

a) num meio idêntico, só há transmissão;

b) num meio diferente, há transformação.

Um núcleo dinâmico, propagando-se sem movimento, propaga-se por tudo ao redor; mas esta transmissão não se torna visível senão nas rotas de menor resistência. Eis por que se diz que o magnetismo escolhe o ferro; que o calor escolhe os bons condutores; que uma corrente galvânica dá preferência a um fio grosso entre muitos fios, como o raio escolhe as linhas de sua rota, como a impressão da luz escolhe o nervo que lhe convém, como a vontade escolhe a fibra que faz seu serviço, etc.

Mas, na realidade, nada escolhe nada. Somos nós que fazemos a escolha subjetivamente, por incapacidade de ver as coisas invisíveis. A pressão que um líquido doente exerce num vaso é a mesma que é exercida na sua parede intacta ou furada. Mas o líquido só sai pelo furo e então a outra pressão não mais nos interessa. Em lugar de uma substância, tomemos uma força. Atiremos uma pedra num lago, não longe de suas bordas. Esse choque provocará uma série de ondas. Elas são visíveis na superfície da água. Acabam na borda: Não. A terra sente o choque como a água e o propaga; só que ela propaga à sua maneira, invisivelmente. Que faz uma força que encontra um meio impróprio para seu gênero de movimento? Ela se transforma, eis tudo. Não há outras causas de transformação. Transformação supõe resistência. Você passa uma corrente elétrica num fio grosso. Você tem a corrente e não percebe nenhuma outra força. Mas corte o fio grosso e una os extremos com a ajuda de um fio fino; esse fio se incandesce; verifica-se a transformação, aí, de uma parte da corrente em calor. Vamos adiante com a experiência: tome uma corrente mais ou menos forte e intercepte um fio mais resistente ainda ou uma varinha de carvão bem fina. A varinha se encherá de luz e a luz será ainda mais intensa se você partir o carvão em dois, introduzindo um condutor ainda mais resistente: o ar. Uma parte da corrente se transforma então em calor e em luz. Você crê que esta luz só age como luz, na lâmpada que brilha? Errado. Ela age em todo o redor, primeiro como luz visível e depois invisivelmente como calor e como corrente elétrica. Aproxime um ímã. Se ele for fraco e móvel, sob a forma de uma agulha, o feixe de luz o fará afastar-se; se ele for forte e imóvel, ele é que fará o feixe de luz afastar-se. Os raios luminosos que batem nas asas não transparentes de um radiômetro de Crookes fazem mover o pequeno moinho. E tudo isso à distância, sem contato, sem condutores especiais. E tudo isso porque, longe dali, gira-se uma manivela, ou porque um processo químico quase imperceptível trabalha numa pilha!

Um processo, ao mesmo tempo químico, físico e psíquico se opera no cérebro. Um ato complicado desse gênero se propaga na massa cinzenta como as ondas se propagam na água. São fenômenos intensos, cuja intensidade não é mecânica; ela é mais sutil e mais concentrada. O que chamamos de ideia é um fenômeno muito localizado. Mas não esqueçamos que para fazer nascer uma ideia há necessidade de milhares de impressões repetidas, e todas representam uma força. Essa força é acumulada, condensada numa ideia. Vista de seu lado fisiológico, uma ideia não é mais do que uma vibração que se propaga, sem, todavia, ultrapassar o meio em que ela pode existir como tal. Ela se propaga na medida em que lhe permitem outras vibrações semelhantes. Ela se propaga por mais tempo se tomar um caráter que, subjetivamente, chamamos de emotivo. Uma emoção é mais expansiva do que uma ideia indiferente; ela pode ocupar todo o cérebro em detrimento de outras ideias. Mas ela não pode ir além sob pena de ser transformada. Como toda força, ela também não pode ficar isolada, e como toda força, ela se esvai. A ciência oficial não lhe dá mais do que uma rota: os nervos motores. São os buracos de uma lanterna pelos quais os raios luminosos atravessam. Só o pensamento não irradia como uma flama.

O pensamento fica em si mesmo; como a ação química de uma pilha, ele se faz representar fora por seu correlato dinâmico que se chama corrente, para a pilha, e que se chama... não sei como, para o cérebro. Em todo o caso, é também um correlato relativo. Este último não é e nem pode ser limitado às correntes nervosas das fibras motoras. Ele representa todas as transformações do movimento cerebral, transformações tanto mais sutis e tanto mais radicais quanto maior a diferença existente entre o meio anatômico do pensamento e o meio ambiente; corpos sólidos, líquidos ou gasosos sem excetuar o éter, considerado como o quarto estado da matéria.

Ora, chegamos à conclusão de que o movimento que corresponde ao pensamento não pode ser exceção na natureza e que esse movimento se transforma também em outras formas de movimento, necessárias, todavia desconhecidas em sua maior parte.

“Não se opera – diz De Parville – um deslocamento de matérias na natureza morta, um ato voluntário ou inconsciente na natureza viva, sem que haja uma produção de eletricidade em relação exata com a energia do trabalho despendido.”

Além da eletricidade, há produção de calor, há produção de movimento mecânico, talvez de luz; mas minha intenção não é precisar; creio que não conhecemos a milésima parte das mudanças moleculares que um pensamento pode produzir. Devemos nos contentar com uma simples constatação: a energia se transmite e se transforma, aqui como em qualquer outra parte.


Capítulo VIII

A lei da reversibilidade


Devemos, pois, considerar o pensamento como um ato dinâmico. Esse ato dinâmico se desenvolve no seio de um foco dinâmico mais amplo que se chama ação nervosa. Esta última deve ser considerada como um mecanismo particular funcionando sobre um fundo ainda mais amplo, do agregado vital inteiro. O organismo completo possui um tom dinâmico que lhe é próprio e que depende da natureza anatômica e fisiológica geral, assim como de seu estado de equilíbrio momentâneo. Esse equilíbrio é governado pela tensão nervosa e esta última pela mobilidade psíquica. Este triplo microcosmo dinâmico age sobre um meio, primeiro por sua presença apenas, como máquina vivente, depois por seu estado, como sistema nervoso e, enfim, por seu pensamento, como centro psíquico.

Sendo o movimento contagioso, compreende-se que um tom suficientemente marcado poderá ser comunicado aos objetos ambientais e sobretudo a um outro organismo, cujo tom individual é menos peremptório, cuja natureza consiste precisamente em uma mobilidade passiva, facilmente modificável. A influência é sem dúvida recíproca, mas é a modalidade mais forte, mais amplamente constante que dá o tom. E então um contato estranho produzirá ou uma dissonância desagradável ao sujeito, ou nada, dependendo da solidez do tom que domina. Neste último caso teremos a ver com uma corrente vigorosa e decisiva que se oporá a toda infração. Quanto mais for assegurada a união dinâmica pelo contato, pelos passes repetidos, pela submissão fisiológica do sujeito, menos a transmissão é constrangida, menos ela encontra resistência. Certos gêneros de movimento (calor, eletricidade) podem se comunicar sem modificação sensível. Mas nem o princípio da comunicação, nem o princípio da transformação nos servirá muito para a explicação da sugestão mental, se não forem completados por um outro princípio, que pode ser resumido numa lei de física geral. Nós a chamaremos de lei da reversibilidade.

Sabemos já que toda força se propaga (lei da transmissão); que toda força propagada que encontra uma resistência se transforma (lei da transformação); mas não sabemos ainda o que pode ocorrer com uma segunda ou terceira transformação. Ora, pode resultar que um movimento, duas vezes transformado, recupere seu caráter primitivo. Em que caso isso pode acontecer? Em um caso particular no qual o movimento comunicado reencontra um meio análogo a seu ponto de partida. É a lei da reversibilidade.

Segundo esse princípio, uma transformação é sempre reversível.

Teoricamente a coisa parece natural, mas é preciso não esquecer que ela é menos evidente na prática, pois raramente as mesmas condições acompanham uma transformação reiterada. Durante muito tempo se produziu a eletricidade pela fricção, sem que se duvidasse que a própria fricção pode ser produzida pela eletricidade. O fonoautógrafo, isto é, a ação mecânica da palavra, era conhecido há muito tempo sem que se suspeitasse que uma ação mecânica também pode reproduzir a palavra no fonógrafo de Edison.

Verifica-se, daí, a utilidade de uma lei que nos assegure por antecipação que, desde que o efeito A pode ser produzido por uma causa B, inversamente, um efeito B pode ser provocado por uma causa A.

Se o trabalho mecânico produz o calor, inversamente o calor pode produzir o trabalho mecânico. O homem selvagem já utilizava o primeiro fato; o outro só foi aplicado seriamente na máquina a vapor.

Se a eletricidade em movimento pode produzir um ímã, um ímã em movimento pode produzir uma corrente elétrica, e se por rotação mecânica se obtém uma corrente, inversamente uma corrente pode produzir uma rotação mecânica.

Se uma ação química pode engendrar a luz, a luz pode engendrar uma ação química e, se esta ação química encontra condições particulares, ela vai nos produzir uma imagem que era visível antes de agir quimicamente e que, depois de ter agido quimicamente, volta a ficar visível numa fotografia.

A magia da ciência não fica aí. Você quer, com ajuda de uma lâmpada comum, iluminar uma outra lâmpada que se encontra em Versalhes, por exemplo? Pois isso é possível utilizando-se a bateria termoelétrica de Clamond, um condutor de um dínamo ligado a um motor elétrico.

É possível um raio de luz transmitir a palavra? Perfeitamente, pois isso foi feito por Bell e Tainter. Mas qual o físico que admitia isso há 20 anos?

Vejamos o que se passa no caso do cérebro: o seu cérebro carregou os nervos motores de seu pensamento transformado. Os nervos o transmitiram para os músculos e para as cordas vocais, as cordas vocais para a atmosfera, a atmosfera para o espalho, o espelho para a luz, isto é, o éter, o éter para a lâmina de selênio, o selênio para a corrente de uma pilha, a corrente da pilha para o eletroímã, este para a placa vibradora, a placa para o ar, o ar para o tímpano, o tímpano para os pequenos ossos do ouvido médio, estes para a membrana do labirinto, a membrana do labirinto para o líquido do ouvido interno, o líquido para os órgãos terminais do nervo acústico e, enfim, o nervo acústico para o cérebro. E este cérebro reproduziu o pensamento de outro cérebro. Por quê? Porque a última transmissão encontrou um meio análogo ao do seu ponto de partida.

E você acha que isso jamais se produziu antes de Bell e Tainter?

Por que não? Toda pessoa que falava diante de um espelho enviava sua palavra para o universo. E não esqueçamos que esse não passa de um caso particular de uma lei geral. Tudo se transmite, tudo se transforma, tudo pode ser reproduzido.

Se alguma coisa não se reproduz visivelmente é porque as condições de reprodução são mais ou menos afastadas de uma analogia perfeita dos meios. Encontre um receptor sensível e você terá a reprodução. Falava-se num telefone, antes de se ter um outro para a recepção. Mas o telefone não é senão um modelo plástico e grosseiro de uma transmissão biológica reversível. O fotofone é já mais delicado; ele se contenta com um raio. Chegará um dia em que se dispensará o raio e nos contentaremos com um intermediário qualquer, um jato d’água, uma corrente de ar. As invenções vão sempre do complexo para o simples. Aliás, elas não fazem mais do que imitar a natureza, aperfeiçoando-a.

Disso resulta, entre outras coisas, que a luz pode ser carregada com uma palavra. Ora, paralelamente, o calor da mão pode estar carregado de uma boa saúde e de uma boa intenção.

Vão gritar que é misticismo. Tanto pior para os que gritarem, pois eles perderão a oportunidade de aprender uma verdade soberba! Pouco me importa que ela tenha sido propagada por uma turba ignorante; se é uma verdade, agradeçamos à turba. Sim, como o la de um pistão não é o la de uma flauta e o la de um instrumento qualquer não é o de uma corda vocal de um homem, assim o calor da mão não é idêntico ao calor de um cataplasma. E não se invoque o termômetro como juiz! Um termômetro não tem mais direito de julgar uma diferença assim, do que um barômetro de julgar a pureza da atmosfera ou uma balança de julgar a qualidade de dois vinhos.

Outra observação: nós não devemos dissimular que as transformações jamais são completas. Digo jamais com pleno conhecimento de causa. Fiz esforço para provar que uma força A se transforma sempre em mais de uma força B, C, D, etc. Um golpe de martelo produz não somente um abalo mecânico, mas também calor, eletricidade, um som, uma mudança magnética, etc. Jamais uma força A se transforma totalmente numa força B. Eis por que o equivalente mecânico do calor não pode ser uma quantidade absolutamente constante na prática e eis por que, em lugar de palavra equivalente preferi servir-me da palavra correlato dinâmico. Há mais do que isso: o universo não é vazio nem morto. Uma força que se transmite encontra outras forças e se ela não se transforma senão pouco a pouco, então ela se limita a modificar uma outra força à sua custa, mas sem quase nada sofrer com isso. É sobretudo o caso de forças persistentes, bem concentradas, bem apoiadas pelo meio; é o caso do equilíbrio fisiológico, da força nervosa, da força psíquica, das ideias, das emoções, das tendências. Elas modificam as forças ambientais sem desaparecerem, elas não se transformam senão insensivelmente, elas ganham até em ação indutiva, como o ímã ganha com uma armadura de ferro doce ao qual ele comunica sua força. Um sentimento comunicado nada perde; ao contrário, uma indução polar frequentemente o sustenta.

Seria preciso escrever toda uma psicologia e toda uma filosofia da natureza para elucidar suficientemente estas questões sutis. Limitemo-nos a dizer que há na natureza “morta” fatos análogos. Uma faísca provoca um incêndio. Mas tudo o que constitui o incêndio, mesmo a primeira chama, não pode ser considerado como o equivalente mecânico da faísca. Esta última nada mais fez do que liberar uma série de forças latentes. Se o telefone magnético produz, ele próprio, a corrente que transmite a palavra, o mesmo não acontece com um transmissor microfônico. Este precisa de uma pilha e a palavra não faz mais do que modificar uma corrente existente; ela lhe imprime modificações correlativas, ela a incumbe de uma missão, sem se enfraquecer.

É assim que procede o pensamento do magnetizador.


Capítulo IX

Últimas suposições


Transportemo-nos agora para uma outra situação para ver o que acontece. Tomemos o sono à distância e tentemos explicá-lo.

Os magnetizadores dizem que sua vontade concentra o fluido e depois o projetam para fora, numa direção aproximativa, como uma dose de ópio. Esse fluido é tão inteligente e tão amável que corre a toda velocidade, encontra seu caminho, alcançando o sujeito. Ele o invade e, no momento em que o sujeito estiver convenientemente saturado, o sono se declara, de longe como de perto. Como o ópio, ele tem virtudes soníferas.

Mas no caso é preciso provar, antes de tudo, que o fluido existe, depois que ele pode ser projetado, em seguida que ele sabe encontrar seu caminho e, enfim, que ele se detém exatamente no sistema nervoso do sujeito.

Em suma, não se ganha muita coisa com esta teoria. Descreve-se a ação, substancializando-a, como dizia Mesmer.

Encaremos a questão por outro lado.

Suponhamos, no momento, que a teoria sugestiva é a única verdadeira, isto é, que se o sujeito adormece o faz por sua própria imaginação, pela ideoplastia. A ideia do sono se apresenta no seu espírito, encontra um momento de monoideia e se realiza. Bastaria, nesse caso, transmitir ao sujeito a ideia do sono para que ele adormecesse. Essa ideia não pode chegar desta forma. As ideias não viajam. Mas nós sabemos, já, que as ideias enviam para toda parte seu correlato dinâmico. Para toda parte quer dizer em toda volta. Não é uma substância que se transporta, mas sim uma onda que se propaga e que se transforma cada vez mais, na medida da diferença e da resistência dos meios que ela atravessa. Ela pode atingir toda espécie de corpos sem nenhuma ação sensível, e digo sensível porque seria contrário ao princípio mecânico do universo dizer que por isso ou por aquilo ela não tenha nenhuma ação. Assim, a ação é geral, mas ela fica mais ou menos insensível antes de encontrar um meio análogo e todas as condições necessárias para uma transformação reversível. Um cérebro B reúne estas condições: a ideia correspondente é despertada nele e ele adormece.

Mas então todos os cérebros sensíveis que se encontram no círculo não deveriam fazer o mesmo?

Não, porque todos esses cérebros não são regulados, não estão em rapport (relação) com o operador. E eu creio que não é possível agir à distância sem que haja esse rapport, o que consiste no seguinte: o tom dinâmico do sujeito corresponde ao do operador e, por hábito e por educação, o cérebro do sujeito se torna sensível de um modo especial a essas influências mínimas.

A ação mental à distância, supondo que ela seja certa, será consciente ou inconsciente? Isto é: o sujeito suspeita de algo, antes de se submeter inteiramente?

Frequentemente não. A transmissão é mediata: do consciente para o inconsciente. A ideia sugerida não entra na poli-ideia normal; mas depois de ter encontrado um momento monoidéico (e um momento absolutamente monoidéico jamais é consciente; quem diz consciência diz poli-ideia), ela se realiza também pela ideoplastia. Só então, no estado sonambúlico, o sujeito pode perceber o seguimento da influência e adivinhar a causa. Frequentemente, então, a imagem do operador é sugerida e produz uma alucinação verídica.

Mas também acontece que o sujeito adivinha a ação antes de se submeter completamente. Às vezes, sobretudo depois de um desfalecimento momentâneo do operador, ele tem o tempo e a força para se opor. Neste caso temos que fazer uma sugestão imediata, mas insuficiente, seja por causa do operador, seja por causa do sujeito. Mas então, às vezes, a sugestão imediata falha se transforma em uma sugestão mediata, retardada, que pode ainda encontrar seu momento propício.

A ação pode, então, ser consciente ou inconsciente; mas ela é sempre puramente cerebral? Dito de outra forma: a transmissão se opera no sujeito pelo cérebro no organismo, ou pelo organismo no cérebro?

Na hipótese de Baragnon, o qual acredita que a transmissão de sensações serve de base a toda sugestão mental, seriam os nervos que, sendo os primeiros a ser afetados, atuariam no cérebro.

Do ponto de vista fisiológico geral, sem pensar na ação à distância, esta suposição não está isenta de fundamento. A lei da reversibilidade se aplica tanto à fisiologia do sistema nervoso como às questões de física geral. Se uma emoção se exprime por uma atitude muscular, esta última, provocada exteriormente, pode reproduzir a emoção. É isso que provam as sugestões musculares de Braid. Paralelamente, as sensações transmitidas poderiam reproduzir a ideia que as acompanha no operador. Mas será que o operador tem realmente sensações de sono quando provoca o sono? Isso seria um pouco puxar os fatos pelos cabelos. Ele somente tem a ideia do sono; além disso eu creio que, pelo menos quanto às experiências feitas à distância, a ação simpática de dois cérebros é ainda mais compreensível que uma ação simpática dos nervos. E como o próprio cérebro é suficiente para produzir, através de uma ação centrífuga, todas as sensações possíveis, é melhor nos determos neste limite.

Admito, ou melhor, suponho, que uma ação à distância poderia ser exercida única ou principalmente por intermédio do cérebro.

Temos admitido, é verdade, uma ação física e mesmo uma ação psíquica local. Mas é quase impossível eliminar, na hipnologia em geral, o concurso do cérebro, isto é, de uma ideoplastia ou de uma ação reflexa sensorial. Você pode agir sobre um só membro; você pode paralisar um só dedo ou um só ouvido, mas a aparência de uma ação localizada dos passes, da aproximação da mão, do ímã, dos metais, das diversas substâncias medicamentosas não nos deve induzir ao erro; mesmo quando o cérebro parece adormecido ele pode reagir por associações ídeo-orgânicas reversíveis. Uma só categoria da ação física parece admissível: é aquela cujo modelo apresenta a comunicação do calor. Eu posso aquecer uma mão fria segurando-a entre as minhas mãos quentes e então a ação não é reflexa, ela é puramente física. É provável que outras transmissões físicas do mesmo gênero existam. É provável que uma mão bem nutrida de sangue, bem vitalizada pelas correntes normais dos músculos e dos nervos, uma mão que transpira de modo normal, que, enfim, no conjunto de suas vibrações moleculares é perfeitamente equilibrada, é provável, dizia eu, que do ponto de vista teórico uma mão assim pode comunicar seu tom a uma parte doente, reanimar por indução um movimento molecular amortecido, acalmar os excessos dinâmicos vitais e restabelecer um equilíbrio perturbado.

Eu compreendo que tudo isso se pode efetuar mesmo a uma pequena distância, sempre dirigindo localmente a mão para um dado membro. Todavia, o que eu dificilmente compreenderia é uma ação semelhante a grande distância ou através da parede; e eu creio que então isso não é mais uma comunicação física direta que age, mas sim a sugestão cerebral, e se o sujeito da experiência de Mesmer sentia atrás de um muro os movimentos de seus braços, isso se dava mais por transmissão transformada e reversível do pensamento do que por uma ação física local. Mas não insistamos, não estando a questão suscetível ainda de uma discussão rigorosa.

E eis o que eu creio poder inferir de uma série de minhas experiências, assim como das de Bertrand e de outros:

Contrariamente à teoria da exaltação dos sentidos, a sugestão mental parece se operar melhor quando os sentidos estão completamente paralisados. E então estaremos certos de estar na presença de uma verdadeira transmissão mental. Verifica-se uma exaltação do cérebro, ima exaltação toda particular, que definiremos adiante, mas não uma exaltação dos sentidos.

É uma questão delicada que eu apresento com toda reserva.

Parece-me que Mesmer mais uma vez tinha razão. Ele sustentava que se o sujeito, no qual todos os sentidos são absolutamente paralisados (o que acontece às vezes na catalepsia e no êxtase), ouve seu magnetizador, ele o ouve por sugestão mental. A palavra, ainda que pronunciada de viva voz, impressiona diretamente seu cérebro e não seu ouvido.

Mesmer se enganava em parte porque generalizava muito. Ele acreditava que sempre que o sujeito não ouve senão seu magnetizador, ele só o ouve mentalmente. Mas nós já vimos que, em certa medida, o fenômeno da relação se deixa explicar por uma impressionabilidade especificada, por uma percepção eletiva, e é preciso sempre dar preferência às influências conhecidas antes de recorrer a um princípio essencialmente novo. Assim, se em lugar de uma anestesia relativa estivermos na presença de uma insensibilidade absoluta e geral, é verdadeiramente difícil compreender como uma palavra do magnetizador, pronunciada igualmente de modo inaudível, pode ser ouvida com grande facilidade!

Em resumo, eu considero como provável a existência de duas espécies de sugestão mental: uma condicionada por uma exaltação dos sentidos, exaltação relativa frente às sensações provenientes do magnetizador, o que constitui rapport (relação) comum; e outra condicionada por uma paralisia completa dos sentidos, com a exaltação inteiramente excepcional do cérebro.

Neste último caso há sempre uma espécie de febre localizada no cérebro. A cabeça fica quente e os membros frios. Dir-se-ia que toda a força nervosa se concentra nos hemisférios. A circulação não é viva, mas ela pode se tornar mais viva que de hábito, a qualquer momento, e sob a influência de uma exaltação mínima.

Admitindo que é sobretudo a ação dos vasos constritores que regula a circulação capilar, será preciso conferir-lhes, nesse caso, uma mobilidade de excitação e de relaxamento toda especial. Quanto a fenômenos elétricos, eis como se pode conhecê-los. Sabemos, depois dos trabalhos de Du Bois-Raymond, que as correntes próprias dos nervos como dos músculos sofrem um enfraquecimento durante a ação nervosa propriamente dita; o que quer dizer que uma quantidade de energia dada se manifesta tanto sob a forma de uma ação nervosa como sob a forma de uma ação elétrica. No caso que nos interessa, a ação nervosa psíquica é nula; mas pode se tornar muito intensa. Em consequência, é preciso admitir que existe no cérebro uma tensão elétrica excepcional, mas que pode desaparecer rapidamente e que, em geral, deve sofrer grandes mudanças momentâneas. Enquanto o cérebro permanece em a-ideia, a tensão elétrica é grande e ela excita os vasos motores que contraem as artérias. Mas graças a uma tensão do sangue, sobretudo arterial, a menor diminuição de tensão elétrica pode aumentar o trabalho nervoso e produzir uma dilatação das artérias. É suficiente, pois, supor que as correntes elétricas da atmosfera, modificadas por uma transmissão psicofísica – como o raio do fotofone é modificado pela palavra – transmitem esta modificação para as correntes elétricas do cérebro, para se compreender a reprodução de um fenômeno mental.

Peço ao leitor não criticar muito esta pequena incursão no domínio do invisível. É possível que as coisas se passem de outra forma; é possível sobretudo que esse processo íntimo seja muito mais complexo. Faz-se de tudo para não ficarmos com ar de idiotas diante de um fenômeno que “subverte todas as noções fisiológicas”. Esperemos que ele nada subverta e que lance uma luz viva sobre muitos fatos obscuros.

Para que assim seja, é preciso encontrar para tal fenômeno conexões sólidas com fenômenos próximos e mais ou menos conhecidos. Se a lei da reversibilidade explica a ação à distância, ela deve também explicar a ação de perto e esta última deve encontrar analogias com fatos ainda mais rudimentares.

Nós já assinalamos que a ação mental à distância encadeia-se intimamente com a ação física de perto e com muitos fenômenos de simpatismo e de contágio nervoso. Vamos descer mais abaixo na escala, para depois soldar as duas séries da evolução.

Existe uma ação à distância no seio de um só e mesmo organismo.

“É uma propriedade característica do sistema nervoso – diz Maudsley – que uma excitação localizada se transmite também a partes afastadas.” Como isso ocorre nós não sabemos; é indiferente também designar esse fenômeno com o nome de simpatia ou de consentimento das partes, de indução, infecção ou ação reflexa, ou com qualquer outro nome. “Qual pode ser a causa desse fato – pergunta D. Whytt –, que às vezes a amputação de um braço ou de uma perna provoca a contratura dos músculos da mandíbula, mais do que de um outro órgão? Nossa ignorância não nos deve impressionar; ninguém sabe por que numa planta sensitiva, na mimosa pudica, por exemplo, a excitação aplicada a um só ponto se propaga por toda a folha e, às vezes, até para as folhas vizinhas; ninguém sabe como se efetua a indução elétrica; por que um só ponto de um músculo excitado transmite a excitação ao longo das fibras ou como se transforma a substância de um nervo em estado eletrônico.”

Mas não é necessário conhecer tudo isso em pormenores para capturar o princípio. Ora, esse princípio consiste manifestamente na lei que acabamos de citar.

Uma excitação qualquer causada por uma mudança anatômica ou puramente dinâmica, espontânea ou provocada, constitui sempre um foco de movimento. Esse movimento, como todos os movimentos da natureza, se propaga. Se ele se propaga através de um meio idêntico (fibras nervosas da mesma natureza), só há transmissão. Se ele encontra um meio diferente, há transformação. E é então que se manifesta o fenômeno do simpatismo, no mesmo indivíduo.

Um estado inflamatório da pituitária pode se transformar na mucosa das pálpebras, da laringe, dos pulmões, dos intestinos, etc., na totalidade ou em parte, e então só há transmissão. Mas pode se efetuar através das mucosas intermediárias sem alcançar um ponto afastado, que individualmente constitui um nodus minoris resistentiae, pois aqui, como em toda parte, a transmissão não se torna palpável senão em rotas de uma resistência menor.

Haverá transformação completa se dois órgãos diferentes reagirem um sobre o outro à distância. É assim que um deslocamento do útero pode determinar um acesso de melancolia que desaparece com a recolocação deste órgão; se a ação é levada ao cérebro é porque ele estava particularmente disposto. Eu observei uma outra simpatia desse gênero. Numa mulher atáxica um deslocamento do útero provoca dores ciáticas que cessarão logo depois da reposição. Aqui os nervos ciáticos apresentavam um terreno favorável (devido à ataxia), embora o cérebro se opusesse a toda influência.

A gravidez pode provocar regularmente uma loucura, ao passo que em outros casos é a razão que vem com a gravidez e de tal forma que só permanece nesse período. Um pessário pode suprimir instantaneamente certos casos de melancolia (Fleming, Maudsley), como uma pressão nos ovários pode deter um ataque histérico (Charcot) e, no homem, a pressão no testículo detém um ataque cataléptico histérico (Avde). Sabemos que a presença de vermes no intestino pode causar o prurido nasal e outros fenômenos simpáticos e que uma agulha nas mesmas condições pode determinar convulsões (Whytt).

Mas o que é sobretudo interessante é uma transformação total, que se manifesta em muitos doentes e que já foi notada pelo Dr. Darwin e ultimamente por Maudsley. Existe um certo antagonismo entre as convulsões e o delírio. Muito frequentemente o delírio se manifesta no momento em que as convulsões se detêm, e reciprocamente. Nesse caso é a excitação da medula que se transmite ao cérebro e ali se transforma sob a influência do meio. Ao contrário, quando a transmissão tem lugar transversalmente, isto é, de uma metade do corpo para outra, ela encontra, frequentemente, um órgão idêntico e, em consequência, não muda de caráter. É assim que uma dor de cabeça, uma nevralgia qualquer, uma contração, uma anestesia ou hiperestesia passa da direita para a esquerda e o fenômeno da transferência hipnótica mostra que todos os fenômenos unilaterais, sensações, alucinações podem ser transferidos.

Esse fenômeno é bem conhecido em princípio desde os trabalhos da comissão nomeada pela Sociedade de Biologia para estudar a metaloterapia do Dr. Burq. Mas, às vezes, a transferência apresenta uma forma particular. Eis, por exemplo, um fato interessante observado por Ollivier: num caso de semi-anestesia esquerda, picando a perna insensível, este autor provocou uma sensação dolorosa no ponto correspondente da perna direita.

Há, pois, no mesmo organismo:

a) uma ação à distância (excitação refletida num órgão distanciado); a excitação pode ser de origem psíquica e todos os casos de ideoplastia podem ser considerados como os fatos de uma ação mental à distância, no seio do mesmo organismo;

b) uma transmissão com transformação parcial aparentemente completa (transmissão e transformação das doenças de um órgão para outro, diferente); aqui ainda o ponto de partida pode ser psíquico;

c) uma transferência de sintomas, isto é, uma transmissão psíquica ou física reversível, nos órgãos análogos bilaterais.

A um grau um pouco mais elevado observa-se uma transmissão de um organismo para outro, ligado com este somente por uma comunidade de nutrição. Falo das influências maternais que sofre o feto.

Um outro gênero de transmissão é constituído pela transmissão hereditária, que é mais psíquica do que física. Coisa estranha! Isso é bem admitido porque há aí uma gota de albumina que serve de ponto de apoio para nossa imaginação, enquanto se recusa admitir uma transmissão pelo contato, como se fosse mais fácil compreender que uma série de tendências e aptidões morais pode ser encerrada numa gota de matéria! Eis, por exemplo, um caso observado por Brown-Séquard:

“O fato assinalado pelo Dr. Harvey, de Edimburgo, como tendo sido observado no homem e em algumas espécies de animais, apresentou-se de maneira muito clara na cobaia. A mãe foi fisicamente modificada de maneira a parecer-se com o pai. Cobaias-machos que tiveram o nervo simpático cervical partido tiveram filhotes apresentando os efeitos da secção desse nervo e a mãe também, na época do nascimento dos filhotes, mais tarde apresentou os mesmos efeitos.”

Assim, agiu-se sobre o pai e foi a mãe que sofreu a ação! Esse fato é menos impressionante do que o contágio nervoso ou a transmissão mental?

Não há limites absolutos na natureza. Tudo se encadeia numa evolução gradual. Se uma mãe pode ficar parecida com o pai por uma transmissão fisiológica, se o embrião, depois de ter herdado do pai, pode comunicar sua doença à mãe, se as moléstias nervosas são hereditárias, com transformação ou não, se a epilepsia pode suceder à loucura nos pais, ou a loucura à epilepsia, por que não será o mesmo por um contato íntimo entre dois indivíduos, contato muito mais amplo e muito mais direto que o de um corpúsculo espermático que, além do mais, não é absorvido pela mãe, mas, ao contrário, se alimenta e se transforma à custa dela?

E uma vez o contágio nervoso admitido, estamos no terreno da sugestão mental e aqui chegamos, como vimos, por uma série de fenômenos intermediários: transmissão da saúde, sensações do magnetizador, sensações dos sujeitos, transmissão de dores, de sensações objetivas, de emoções, de ideias e da vontade. A ação da vontade à distância nada mais é do que uma última escala de uma longa série evolucionista.

E no fundo de tudo isso só há uma coisa, a mesma que há entre o ferro e o ímã, a mesma que há entre o sol e a terra: transmissão e transformação do movimento.

Só nos resta registrar as aplicações.

Como? A sugestão mental terá que ter uma aplicação prática qualquer?

Ao começar este estudo eu também não teria acreditado nisso. Pensei em fazer uma obra de pura teoria e, constatando uma nova verdade, não me preocupei em saber se ela poderia servir para alguma coisa. Mas certos casos ultimamente observados me parecem de natureza a legitimar uma aplicação mediata.

Façamos notar antes de tudo que, a partir do momento em que nós admitimos a realidade da ação mental, é preciso penitenciar-nos com os magnetizadores e reservar uma certa parte a esta influência, na prática geral do magnetismo. Não se deve mais agir maquinalmente, mas acrescentar à ação sugestiva ou física a influência de um pensamento e de uma vontade firme. É verdade que habitualmente fazemos isso sem dar nenhuma importância. Mas aqueles que muito hipnotizam negligenciam esse concurso e então acontece, como a mim mesmo aconteceu, que eles obtêm menos do que aquilo que poderiam obter. Eis um exemplo: Coloquei uma questão a uma doente adormecida que me respondia habitualmente sem dificuldade. Mas naquele dia pareceu que ela dormia mais profundamente do que de hábito e, apesar de minha insistência, ela não me respondia. A doente permanecia com o braço direito esticado, como se quisesse escrever. Então dei-lhe um lápis e ela escreveu. Fraco... Eu não compreendi e me impacientei. Ela também, mas continuou apática. Afinal, eu disse com mais energia psíquica: “Responda! Eu quero!” Então ela me respondeu e me explicou que não tinha força para falar porque eu não o exigi com suficiente firmeza.

Eu sei que na grande maioria dos casos a ação mental não servirá para grande coisa. Mas, como nunca se sabe onde começa sua eficácia, será bom tentar.

Antes de tudo será preciso levar isso em conta nas aplicações terapêuticas e não fazer pouco dos magnetizadores que exigem do operador uma certa simpatia moral para com o doente e um desejo firme de fazer-lhe o bem. Será preciso levar em conta o estado físico e psíquico no qual nos encontramos, para não inocular no doente um mal ou um desencorajamento moral.

Estas são aplicações gerais. Mas isso não é tudo. Outros fatos me sugeriram a ideia de uma aplicação mais específica.

Eu imaginava, no começo, que ali onde a sugestão verbal fracassa, a fortiori, a sugestão mental não nos serve para nada. Pois bem, me enganei! Ela pode servir e pode mesmo ser muito útil.

Às vezes acontece, nas doenças nervosas, e sobretudo mentais, que uma certa questão, solicitada ao doente, produz um efeito deplorável. É preciso, no entanto, que esta questão seja elucidada ou arrumada de um jeito ou de outro. Um médico criterioso sabe administrar as suscetibilidades naturais ou patológicas do doente e começa com palavras disfarçadas. Ele prepara o doente. Mas às vezes isso não adianta nada, sobretudo no sonambulismo. A menor lembrança provoca o ataque, a menor ordem numa direção dada provoca oposição. Pois é precisamente desses casos que tirei um grande partido da sugestão mental. E devo acrescentar que os dois sujeitos nos quais fiz esses ensaios não eram sugestionáveis diretamente nem pela palavra nem pelo pensamento. Tratava-se, num caso, de transportar o leito para outro quarto. Em razão de circunstâncias particulares, era impossível convencer a doente da necessidade dessa mudança, que, entretanto, interessava à sua saúde. Um dia, estando eu perto dela, que dormia, comecei a pensar, durante pelo menos dez minutos: “Você vai transportar a cama para outro quarto; você precisa mudar a cama para outro quarto...” Alguns minutos depois ela começou a conversar comigo sobre diferentes assuntos e de repente falou sobre a questão da cama. E ela mesma decidiu que a cama deveria ser mudada. Conhecendo bem as condições, estou certo de que a sugestão mental não foi estranha à súbita mudança; mas, como garantia, fiz outro ensaio. Durante dez minutos pensei: “Você vai pôr sua mão direita na cabeça; ponha sua mão direita na cabeça...” A ação imediata foi nula; mas um quarto de hora depois ela colocou sua mão direita na cabeça e a manteve assim durante dez minutos, sem nenhum motivo racional.

Outra experiência semelhante foi com a Sra. Z., que não queria se deitar e que depois de ter resistido a todas as tentativas de persuasão verbal, cedeu a uma sugestão sem palavras, a uma sugestão mental retardada.

Em geral, minhas últimas observações parecem provar que a sugestão mental retardada é muito mais comum do que se pensa, isto é, que ela pode se efetuar ali onde a ação direta imediata é nula.

Eis um resultado que seguramente terá importância se for confirmado em escala mais vasta.

Enfim, mencionemos ainda que, nos sujeitos em que a ação direta é possível, a aplicação se torna mais clara e poderá se exercer todas as vezes que se tratar de uma série de associações, ou de suscitar uma outra, sem que o sujeito suspeite da intenção. Pois já sabemos que a sugestão mental pode permanecer despercebida. E o sujeito sofre a ação atribuindo-a a motivos pessoais.

Devo falar das aplicações teóricas? Elas são muito numerosas. Um monte de fatos até agora inadmissíveis poderão e deverão ser examinados seriamente.

Com efeito, a transmissão psicofísica poderá nos explicar:

1º) certos casos de apreciação instintiva das doenças;

2º) certos casos de contágio nervoso direto;

3º) certas ilusões de observadores que não se põem ao abrigo de uma influência mental;

4º) certos casos de uma pretendida visão à distância;

5º) certos fenômenos inacreditáveis e, às vezes, bem constatados, de alucinação verídica;

6º) comunicação de certas sensações, nos sonhos de sono normal;

7º) as pretendidas adivinhações de “espíritos batedores”;

8º) a influência mística de certos personagens;

9º) as diferenças pessoais de “hipnotizadores” e as diferenças características dos efeitos que eles obtêm;

10º) muitos fatos registrados na história da civilização e atribuídos aos demônios, aos oráculos, aos feiticeiros, aos possuídos, etc.

Mas isso seria uma verdadeira ressurreição do ocultismo e da magia!

Perfeitamente. E eu não me queixo, pois esse ocultismo e essa magia se tornarão uma ciência. Direi mais: poderão regenerar a nossa. Seja dito que a ciência deste século peca um pouco por falta de fantasia. Ela entrou na rotina, fez barricada num terreno seco e descolorido, se desperdiçou em pequenos detalhes, em pequenas medidas e pequenas fórmulas, muito úteis, muito necessárias, mas que jamais podem constituir uma ciência. Uma ciência não é completa sem uma concepção geral, isto é, sem filosofia. E se abusou tanto da fantasia filosófica em épocas precedentes que chegamos a crer que podemos passar sem ela. Acredita-se que o positivismo científico, que exclui a pesquisa das causas “eficientes” e das causas “finais” como realmente inabordáveis, no estado atual de nossa evolução, deve excluí-las para sempre, e não somente aquelas causas como também todo fenômeno presumido que parece ultrapassar os limites de nosso saber.

Trata-se de uma prevenção censurável. Os velhos sistemas arbitrários foram vencidos, está bem, mas não é nada bom que um outro melhor não tenha vindo substituí-los. E é preciso avançar, suavemente, mas avançar, não somente em relação às mesmas observações, cada vez mais numerosas, mas também no que diz respeito a uma concepção filosófica cada vez mais ampla, vigorosa e profunda.

Ora, eu acho que jamais chegaremos a uma visão de conjunto dos fenômenos sem nos desembaraçarmos da rotina da escola, sem abordar francamente os problemas do ocultismo e da magia.

Notemos bem que a própria doutrina sensualista nos ensina que o homem não inventa os problemas, mas que ele os coloca na sua experiência. A magia não é mais do que uma ciência experimental, mal fundamentada, desnaturada, incompleta, degenerada, tudo o que se quiser, mas sempre uma ciência primitivamente experimental. Recomecemos os estudos com os meios aperfeiçoados que possuímos, com esta precisão de métodos da qual nos orgulhamos e veremos que um progresso inesperado virá desta aliança entre o passado e o presente: uma nova época de renascimento.

Se não me engano, ela já começou.

As grandes descobertas científicas destes últimos anos trazem esta marca miraculosa e, ao mesmo tempo, positiva: faz-se falar os corpos brutos e os raios do sol. Analisam-se quimicamente os corpos celestes, coloca-se o problema de uma visão elétrica à distância, regenera-se a medicina dos exorcistas e os milagres dos estigmatizados, revisa-se o velho espiritismo, volta-se para os amuletos de metaloscopia, para as palavras mágicas do Oriente...

Tanto melhor! Gosto desse despertar juvenil de um espírito forte. Nós mesmos estaremos seguros da nossa sanidade lógica, de nosso equilíbrio mental e de nossas tendências positivas, enraizadas por um século de experiência, por jamais termos medo de uma extravagância mística?

Não, o ocultismo não é perigoso para a civilização porque existe, mas porque ele se apoderou de alguns raios de luz que a ciência não procura tomar dele.

Evidentemente haverá sempre um certo número de espíritos elevados que irão banhar-se com complacência no vago e no obscuro. Mas não são eles que farão viver os preconceitos. Estes serão sustentados pelas aspirações daqueles que, descontentes com uma ciência claro-escura, procuram uma luz mais viva, e a procuram como as mariposas da noite: queimando as asas.

Um médico inteligente, de uma imaginação viva e sincera, mas cético por rotina científica, assiste a uma sessão de espiritismo. Veio trazido por um amigo. Nem mesmo por curiosidade, tal sua convicção quanto à patetice dessas “manipulações e ilusões”. Sorriso nos lábios, ele faz perguntas aos “espíritos” a fim de desmascarar a burrice humana. Mas eis que o “espírito” se vinga. O inconsciente do médium adivinha seus pensamentos e nosso cético se confunde todo. Como homem sincero que é, proclama a verdade. Como a ciência jamais se inquietou com o fenômeno da sugestão mental, ele não a conhece, considera-a impossível e, em consequência, cai no misticismo, torna-se espírita e propaga o contágio.




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