Julian Ochorowicz a sugestão Mental


Capítulo VI Sugestão mental a prazo



Baixar 0,79 Mb.
Página14/16
Encontro30.11.2019
Tamanho0,79 Mb.
1   ...   8   9   10   11   12   13   14   15   16

Capítulo VI

Sugestão mental a prazo


O fenômeno que deve agora merecer nossa atenção constitui um caso especial da transmissão da vontade: uma transmissão retardada, a prazo fixo. Na realidade, não é a transmissão que é retardada, mas somente a execução da ordem comandada. É uma sugestão mental a longo prazo.

Já conhecemos bem as sugestões verbais a longo prazo. Elas são hoje coisas banais. Você ordena a um sujeito hipnotizado ou magnetizado que execute um ato qualquer depois que ele despertar: amanhã, depois de amanhã, dentro de dez horas, dentro de alguns meses. Despertado, ele não desconfiará de nada, mas na hora certa se verá obrigado a executar suas ordens, sem saber como nem por que lhe veio essa ideia. O mais frequente é que o sujeito a assimile, por assim dizer, e creia estar agindo por sua própria conta, como para confirmar a tese de Spinoza: “Nós não conhecemos as causas que determinam nossas ações”.

O Dr. Gibert, no caso, serviu-se da sugestão mental e da sugestão verbal, obtendo resultados bastante satisfatórios.

Não é de se admirar menos, nesta categoria de fatos, já por si extraordinários, que certos sonâmbulos nos quais as transmissões de ordem diretas não funcionem sejam muito suscetíveis de ser influenciados a longo prazo.

Para explicar esse fato é preciso lembrar a distinção que fazemos de duas camadas inconscientes: uma forte, que se manifesta no sonambulismo, a outra fraca, oprimida por aquela, subtraída à nossa investigação direta, mas que pode, em momento propício, reconquistar seu direito de ação. Parece que nesta última camada as transmissões são mais fáceis, sem que nos possam dar uma prova evidente de sua existência. É o domínio das “sensações imperceptíveis” de Leibnitz. Elas não se podem manifestar imediatamente. Mas se lhes dermos o tempo necessário para minar as camadas superiores, elas vão reaparecer na superfície.

“As sugestões mentais – diz Janet – podem ser feitas sobre a Sra. B. de outra maneira e ter sucesso. Consegue-se pouco quando a mandamos executar a ordem imediatamente, durante o sono; consegue-se muito melhor quando a mandamos, mentalmente, executar uma ação mais tarde, algum tempo depois do despertar.

1) No dia 8 de outubro Gibert fez uma sugestão desse gênero: sem pronunciar palavra, aproximou sua fronte da fronte da Sra. B. durante o seu sono letárgico e se concentrou durante alguns instantes, passando-lhe mentalmente uma ordem. Gibert não contou a ninguém a ordem, mas escreveu-a, colocando o papel num envelope. No dia seguinte fui à casa da Sra. B., pois sabia apenas que ela deveria cumprir a ordem entre 11 e 12 horas. Às 11:30 a mulher ficou agitadíssima, deixou a cozinha e foi até à sala onde apanhou um copo. Perguntou-me se eu a tinha chamado e eu disse que não. Ela saiu e depois voltou várias vezes. Nesse dia ela não fez mais nada, pois adormeceu pela ação a distância de Gibert. Abri o envelope e constatei que Gibert lhe havia ordenado que entre 11 e 12 horas ela oferecesse um copo d’água a cada pessoa presente em sua casa.

2) No dia 10 de outubro combinamos, Gibert e eu, fazer a seguinte sugestão: “Amanhã ao meio-dia feche as portas da casa a chave”. Escrevi a sugestão numa folha de papel e guardei. Gibert fez a sugestão como da maneira precedente, aproximando sua fronte da fronte da Sra. B. No dia seguinte, quando cheguei, ao meio dia menos um quarto, encontrei a casa fechada a chave. Foi a Sra. B. quem a fechou. Quando lhe perguntei por que, ela me respondeu:

– Eu me sentia muito fatigada e não queria que você entrasse para me adormecer.

Ela estava muito agitada, vagueava pelo jardim e eu a vi colher uma rosa e ir até à caixa de correspondência colocada perto da porta. Eram atos sem importância, mas é curioso notar que eram precisamente os atos que havíamos cogitado fazê-la cumprir na véspera. Decidimos, só depois, que ela fizesse outro, o de fechar a porta, mas o pensamento dos primeiros ocupou o espírito de Gibert e exerceu sua influência.

3) A 13 de outubro Gibert ordenou-lhe, sempre pelo pensamento, que abrisse um guarda-chuva no dia seguinte, ao meio-dia, e que andasse à volta do jardim, por duas vezes. No dia seguinte, ao meio-dia, ela estava muito agitada, deu duas voltas pelo jardim, mas não abriu o guarda-chuva. Pouco depois eu a adormeci, para acalmá-la. Suas primeiras palavras foram:

– Por que você me fez andar pelo jardim? Eu tinha um ar de boba... Se fosse ontem... que choveu, muito bem... mas hoje, com bom tempo... seria ridículo...

Era verdade. Na véspera havia chovido; ela não queria abrir o guarda-chuva num belo dia”.

Em que estado estas sugestões a longo prazo são possíveis? Veremos mais adiante, mas esta é outra história.

No início das experiências da Sra. B. só se apresentaram dois fatos distintos: o sono profundo e o sono leve, isto é, o sonambulismo propriamente dito (poli-ideia passiva ou ativa). O primeiro se caracterizou por uma imobilidade muscular completa; o segundo por uma sensibilidade excessiva, com facilidade de movimento e inteligência.

Esses dois estados se alternavam indefinidamente, o que quer dizer que depois de ter contado com uma certa espontaneidade inteligente, o sujeito, como que fatigado, recaía na imobilidade a-idéica, para passar de novo para a lucidez do sonambulismo. Era sinal de uma sensibilidade hipnótica máxima, pois, a um grau um pouco menor, o sujeito não retorna mais à a-ideia, mas passa, pouco a pouco, do sono ao estado de vigília, ou então repousa, passando por um estado muito vizinho do sono normal, voltando a si depois. Essa passagem pode durar muitas horas, mas sempre carregada de sensibilidade. O sujeito alcança uma sensibilidade máxima, girando em torno desses dois estados principais, sem despertar por si mesmo.

Sem entrar em detalhes, podemos afirmar, baseados no relatório do Sr. Janet, que nenhum dos três estados clássicos, tais como foram descritos por Charcot (catalepsia, letargia, sonambulismo) existia naquela ocasião.

Mas algum tempo depois o Sr. Janet foi para a Salpêtrière estudar a trindade hipnótica, passando a trabalhar para descobrir as três fases na Sra. B. “Se estes não existiam nela – pensava ele –, não será, então, o caso de tentar produzi-los”. Mas não era fácil.

Era preciso insistir infinitamente, ensaiar, verificar, sobretudo pela letargia clássica, cuja produção foi muito laboriosa. Afinal, ele conseguiu produzir (esta a palavra) seis estados diferentes.

“Dois estudos novos – disse Janet –, empreendidos no mesmo sentido, destinaram-se a verificar os resultados precedentes, mas é preciso dizer, complicaram um pouco a coisa”. Um pouco não é bem a palavra.

O fato é que a Sra. B., além das três fases principais, apresentou, na época, outras três fases intermediárias: a catalepsia letárgica, o sonambulismo letárgico e o sonambulismo de olhos abertos, ou sonambulismo cataléptico.

Evidentemente, o sujeito, forçado nas suas tendências naturais, se defendia como podia.

Mas Janet queria regularizar por mais tempo esse círculo vicioso “fazendo o sujeito atravessar toda a série desses estados, num ou noutro sentido”. Mas este último se defendia tão bem que manifestou uma sétima fase, que Janet chamou de catalepsia letárgica, depois uma oitava, a letargia sonambúlica (é como se disséssemos branco-negro), que veio se juntar ao sonambulismo letárgico, já mencionado.

É este último estado que nos interessa particularmente, pois foi nessa fase que puderam ser feitas as sugestões mentais a prazo (aproximando a fronte do magnetizador da fronte da sonâmbula). Estas sugestões não puderam ser realizadas imediatamente, mas sim numa fase seguinte, mais ativa. Importa-nos tomar conhecimento do que seja esta fase.

No sonambulismo letárgico persiste ainda a resolução muscular, como na fase precedente; há ainda insensibilidade, mas já certos fenômenos morais, ausentes no estado precedente, reaparecem: o sujeito se põe a sonhar alto (sonho sonambúlico, que às vezes merece o nome de delírio sonambúlico); ele se torna sensível e se queixa de dores ou, se não as sentir, se encaminha imediatamente para o estado seguinte.

Esta observação de Janet é muito engenhosa, pois é precisamente o momento das percepções latentes de segunda ordem esperarem um estado mais móvel (o sonambulismo lúcido de Janet) para poderem se manifestar. Uma vez declarado o sonambulismo lúcido (a poli-ideia), “novas sugestões são quase impossíveis”.

Trata-se do mesmo estado que eu já descrevi no caso da Sra. M., como monoidéico, mas um pouco menos avançado, isto é, se pudermos nos exprimir assim, um pouco mais poli-idéico (sonho em voz alta: um sonho é sempre alucinatório) e um pouco mais ativo (ela se queixava de dores), o que quer dizer que eu agia sobre a Sra. M. no estado de monoideísmo nascente, em que ela já não mais estava passiva; ao passo que Janet agia sobre a Sra. B. em estado de monoideísmo declarado. Eis por que eu podia agir imediatamente, enquanto esses senhores eram obrigados a influenciar o inconsciente de segunda ordem, já enterrado pelo inconsciente de primeira ordem e que, em consequência, devia esperar sua vez para elevar-se a um grau superior.

Estas distinções são sutis, sei bem disso, mas não há como desprezá-las. Devo observar, de resto, que é difícil, senão impossível, obter todas as graduações num mesmo sujeito; os sujeitos se caracterizam precisamente por uma tendência preponderante para tal ou qual estado e já é muito poder obter uma só nuance dessas fases fugitivas com um pouco de persistência.

Eu me convenci, fazendo experiências com B., de que as sugestões imediatas dificilmente têm êxito porque uma ordem mental direta excita demais, produzindo uma espécie de monomania sonâmbula, que constrange sempre a transmissão imediata.

Quanto às fases, Janet conseguiu ainda uma nona catalepsia sonambúlica que, até o momento, completa a série. Depois desse nono estado, voltava o primeiro, e assim por diante. A sucessão era cada vez mais rápida e, no fim, já não era mais um estado sonambúlico, mas uma confusão de estados. No começo era preciso girar a manivela... perdão, pressionar o polegar para fazer percorrer todos esses estados no sentido da letargia para a catalepsia, ou soprar nos olhos para fazê-los percorrer em sentido inverso; depois isso já não mais era necessário: o sujeito mesmo girava, como um moinho.

Observemos que aqui a pressão do polegar substitui “a pressão no vértice da cabeça” ou o sopro. “A razão desta marcha é ainda muito obscura”, diz Janet. Para mim ela é clara. Todas as fases que se imaginam e que ainda se imaginarão só podem apresentar uma única coisa: um sono mais ou menos profundo; isso quer dizer:

a) paralisia parcial do cérebro (poli-ideia);

b) paralisia incompleta do cérebro (monoideia);

c) paralisia total do cérebro (a-ideia).

Mas, como a paralisia que se observa no hipnotismo (emprego aqui esta palavra num sentido geral) não é uma paralisia definitivamente patológica, mas sim um estado fisiológico de inibição, esta inibição, ou paralisia relativa, deve sempre ser acompanhada de uma dinamogenia, isto é, de uma exaltação relativa, que mantém o equilíbrio. O total da energia nervosa permanece quase o mesmo, mas uma parte do cérebro perde o que a outra ganha. Em consequência, ainda que o campo psíquico permaneça sempre mais ou menos restrito no sonambulismo, e mesmo por causa dessa restrição, as funções psíquicas podem ganhar em qualidade o que perderam em quantidade.

Toda causa inibitória (e a faculdade inibitória de uma causa não depende unicamente só dela, mas de uma relação desta causa com o terreno e o meio momentâneo da ação), toda causa inibitória, dizia eu, fará avançar o sujeito, da poli-ideia para a a-ideia, e toda causa dinamogênica o fará avançar em sentido inverso.

Mas é preciso não esquecer que o cérebro não é o único centro nervoso do organismo.

A distribuição nova da energia vital, o aparecimento do mais e do menos se restringe raramente ao cérebro; ela se estende a outros centros: o cerebelo, o bulbo, a medula e os gânglios. Se o cérebro perde tudo, são estes que ganham e isso segundo as relações hereditárias ou adquiridas, próprias a esses centros. Ora, é na natureza desta organização sábia de nossa economia que existe um certo antagonismo fisiológico entre a ação do cérebro e a dos centros automáticos (cerebelo, bulbo, medula) e, do outro lado, entre todo o sistema cérebro-espinhal e o sistema ganglionar.

A esses antagonismos primordiais se juntam os antagonismos parciais, que caracterizam o indivíduo ou o momento, e vê-se daqui qual será a complexidade dos fenômenos que podem resultar.

Suponhamos que a ação do cérebro seja momentaneamente abolida (estado a-idéico); são os centros automáticos que se aproveitarão disso, haverá um exagero de reflexos, como numa rã decapitada. Mas a energia vital, depois de ter esvaziado o cérebro, mais ou menos completamente, pode se retirar tanto para o cerebelo como para a medula, e então, em lugar dos reflexos, por assim dizer, inanimados, teremos uma série de movimentos automáticos e coordenados, teremos um sonambulismo exteriormente ativo, mais ou menos inteligente, segundo o concurso que prestará o cérebro ao cerebelo. Se a energia se desloca, principalmente para a medula, ela poderá ainda invadir de preferência os feixes anteriores, e então haverá uma exaltação das contrações (a-ideia letárgica ou letargia de Charcot) com excitação neuromuscular profunda e mecânica, que poderá assumir a forma mais tenaz de contração geral, isto é, de a-ideia tetânica; ou então a dinamogenia poderá se manifestar igualmente nos cordões posteriores e dar lugar a uma hiperestesia reflexa, na qual as mais leves excitações superficiais serão suficientes para provocar a contração (a contração sonambúlica de Charcot, mas que não é própria apenas do estado sonambúlico). Esta hiperestesia poderá ser seguida de uma anestesia completa se a inibição tiver lugar no estado de exaltação; e, num caso análogo aos anteriores, teremos uma paralisia completa, com uma resolução dos músculos, isto é, uma a-ideia simplesmente paralítica.

Cada parcela do sistema nervoso, cada gânglio, cada feixe, direi quase cada célula, pode ser excitado ou paralisado momentaneamente; nenhuma ordem rigorosa, nenhuma classificação regular e obrigatória desses complexos pode ser feita seriamente. Todos os caracteres exteriores do sonambulismo em geral (anestesia, hiperestesia, catalepsia, contração, excitabilidade neuromuscular) podem ser provocados a um grau, dependendo das condições gerais momentâneas, em todas as fases hipnóticas, mesmo em estado de vigília.

Em consequência, perde-se o tempo quando se quer precisar com demasiados pormenores as combinações dos sinais exteriores; junta-se uns aos outros quantas vezes se quiser, modifica-se, substitui-se à vontade e se houver qualquer coisa de essencial, de fundamental nessas combinações, trata-se unicamente do estado psíquico, o estado do próprio cérebro, e esse estado se resume em um sono mais ou menos profundo: poli-ideia, monoideia, a-ideia.

Nesse tecido (de pessoas eminentemente sensíveis) pode-se bordar tudo o que se quiser.

Façam-me um esboço arbitrário combinando, ao azar, os caracteres mais opostos, um estado fantástico qualquer: sonambulismo-letárgico-cataléptico-tetânico, e eu o produzirei no espaço de três dias.

Se, em seguida a uma excitação qualquer, a fase hipnótica mudar é porque essa excitação agiu ou adormecendo melhor ou despertando mais o sujeito, e essa mudança natural irá arrastar consigo uma carga de caracteres acidentais, que foi inoculada no sujeito por passes e sopros cuja ação física é negada, por sugestão verbal, por hábito, por associação ídeo-orgânica, enfim, às vezes por sugestão mental. É assim que Braid e seus sucessores às vezes fizeram magnetismo.

Janet chegou a fazê-lo, conscientemente, embora continue ainda a confundir o hipnotismo e o magnetismo, chamando de hipnótico o sono da Sra. B., que jamais foi hipnotizada.

“Uma vez que a sugestão mental – disse ele – podia adormecer a Sra. B., a mesma sugestão deveria fazê-la passar de uma fase do sono para outra. Foi fácil verificar. A Sra. B. estava em sonambulismo letárgico. Quando eu fazia as sugestões mentais, sem tocá-la, eu simplesmente me punha a pensar: “Quero que você durma”. Ao cabo de alguns instantes ela caía em letargia sonambúlica (isto é, em um sono um pouco mais profundo). Eu repetia a mesma ordem mental; ela suspirava e ei-la em letargia, depois em letargia cataléptica e cada vez que eu recomeçava este pensamento, ela passava para um estado novo.

Ela passa, assim, por todas as fases e volta para seu primeiro estado. Algo a notar é que esse comando mental fazia sempre o sujeito avançar no mesmo sentido. Voltava outra vez para o sonambulismo letárgico e eu tentava fazê-la voltar para o sonambulismo lúcido. Em lugar de pensar “adormeça outra vez”, eu pensava “acorde”.

No começo, Janet não conseguia: por uma compreensível questão de hábito, o sujeito passava para uma fase mais profunda; mas pouco a pouco o inconsciente compreendeu a ideia de seu mestre e a sucessão das fases se realizou segundo o desejo inexprimido do magnetizador.

O pensamento do magnetizador – conclui o autor – pode, pois, por uma influência inexplicável – mas que aqui é imediatamente verificável – fazer o sujeito percorrer as diferentes fases num ou noutro sentido.”

Temos, assim, uma prova direta de que a criação das fases pode ser solicitada mentalmente como a criação dos estados psíquicos diferentes, no “freno-hipnotismo” de Braid.

Eu não gostaria que se pensasse que minha crítica constitui um ataque contra Janet. Antes de tudo, não costumo atacar ninguém, como pessoa e, no caso, não se trata sequer das opiniões de Janet. Suas conclusões são muito prudentes, muito reservadas, e não poderiam ser atacadas. Eu apenas quis aproveitar a ocasião para analisar os fatos publicados por aquele autor, fatos que considero como uma das melhores provas contra as tendências esquemáticas da escola hipnótica de Charcot. Involuntariamente Janet as reduziu as absurdum, querendo prestar-lhes serviço.

Vejamos as suas próprias conclusões. Antes de tudo, ele previne o leitor para que “não tire qualquer conclusão geral de uma monografia”. Depois se explica mais claramente:

“Alguns atribuem uma grande importância às fases do hipnotismo e o fazem quanto aos estados distintos uns dos outros; outros vêem aí somente fenômenos insignificantes produzidos artificialmente pelo observador. Os fatos que eu contei e, sobretudo, a maneira como eles foram observados, não coincidem nem com uma nem com a outra dessas opiniões extremas. Eles nos mostram que os três estados primitivos não têm tão grande importância, pois podemos determinar muitas outras, tão bem caracterizadas e tão duráveis. Seu número, creio, nada tem de fixo; eu observei seis e logo depois, certamente, nove. O número dessas fases continuou o mesmo durante umas quinze sessões, mas eis que nas últimas fui forçado a constatar a existência de um novo estado, ainda mais distinto, mas evidentemente em vias de formação... Não há dúvida de que com um exercício maior do sujeito, e com maior habilidade do operador, se poderiam determinar ainda outros estados.”

Mas Janet não admite que essas fases sejam simples fenômenos acidentais: e ele tem razão. Um estado artificialmente produzido é sempre uma resultante de influências pessoais do operador e da natureza fisiológica ou idiossincrásica do sujeito. Mas quanto mais o sujeito é móvel, mais essas primeiras influências prevalecem. Eis a experiência que fiz diante daqueles senhores de Havre; eu peço a Janet que me indique um estado no qual a catalepsia do braço é impossível. Ele me indica um desses estados letárgicos com resolução completa dos músculos. Sem dizer nada, tomo o braço do sujeito (que não foi adormecido por mim); ergo o braço e ele cai; não há, pois, catalepsia. Recomeço, insistindo um pouco; o braço cai outra vez, mas lentamente. Ergo-o pela terceira vez com a intenção de ver a catalepsia se manifestar e o braço fica no ar e conserva a atitude que lhe imprimo. Não tive êxito numa segunda experiência, na qual se tratava de provocar a confirmação dos movimentos começados e estranhos a uma dada fase; mas Janet, ele também, não consegue na primeira vez. Enfim, quando a fé de Janet em relação ao valor das fases começou a ficar abalada, o sujeito, ele mesmo ou talvez seu inconsciente, perdeu a cabeça, os estados se confundiram, ele saltou, pos assim dizer, dois ou três e creio que, naquela hora, todo esse edifício, pacientemente construído, ruiu.

Se não bastassem essas circunstâncias para derrubar de uma vez por todas esta questão complicada e supérflua, eu acrescentaria ainda que, quando Gibert (que não acreditava em fases) adormecia o sujeito, as fases não apareciam...

Moral: Desconfie da sugestão mental!

Será o contato necessário para as sugestões a prazo? O contato das mãos parece indiferente, o contato da fronte facilita, talvez, a inoculação, segundo a opinião de Gibert. Mas o que é interessante (pelo menos creio ter observado esta circunstância em B) é que a inoculação psíquica parece dolorosa para o sujeito; ele sofre a ação com dores, se debate, reage com uma espécie de convulsão. Depois o vírus psíquico é pouco a pouco assimilado e o sujeito se acalma. Saberia ele nos dizer imediatamente o que acaba de ser inoculado? Creio que não. Sua atitude não trai e, de resto, se fosse diferente, ele seria capaz de realizar imediatamente a ordem dada, o que não acontece. Em consequência, estamos autorizados a crer que a inoculação tem lugar do consciente para o inconsciente de segunda ordem, que os traços percebidos são fracos demais para aparecerem imediatamente na cena da vida cerebral, mas que elas persistem e se conservam nas camadas inferiores da memória, para ali reaparecerem somente no momento em que a hora, associada a elas, vier a soar. Então o vírus dinâmico se desembaraça da opressão das ideias conscientes, que o mantinham confinado na sombra, as ideias sugeridas se apoderam do campo psíquico (do cérebro) e provocam uma espécie de monomania quase sonambúlica, que luta durante algum tempo com a poli-ideia normal. Depois, logo que as ideias sugeridas se apagam, nesse corpo-a-corpo com o estado normal, elas conseguem inserir-se mais ou menos entre as ideias conscientes e se realizarem exteriormente.

Se a luta for longa e o sujeito inquieto, irritado, se se absorve cada vez mais na sua monomania, sem tender para uma execução clara e imediata, ele chega como chegou, na minha estada em Havre, a dormir por influência psíquica automática.

E então se restabelece a calma. O cérebro repousa, numa a-ideia passageira.


Capítulo VII

Sugestão mental à distância


Só nos resta uma última categoria de fatos: a que envolve o caso de uma ação à distância. São seguramente os fenômenos mais extraordinários e menos compreensíveis. É verdade que, desde que admitamos uma ação mental, isto é, a influência do pensamento humano vizinho do nosso, a questão da distância se torna secundária. Aqueles que se contentam com noções místicas poderão até sustentar que o pensamento, sendo independente da matéria (infelizmente ele não é), pode muito bem agir daqui até a lua, como de uma fronte para outra fronte. Mas o método positivo não nos permite ultrapassar a experiência. É bom lembrar, nesse sentido, as sábias palavras do “Hipócrates do magnetismo”, Deleuze:

“As impressões que os objetos produzem se enfraquecem em razão da distância em que eles são colocados. Quanto mais afastados ficamos de um objeto, menos ele envia raios de luz aos nossos olhos. O som de um sino diminui à medida que nos afastamos, acabando por não ser ouvido. As impressões produzidas nos sonâmbulos devem também se enfraquecer com a distância. Assim, o que um sonâmbulo sente da ação de seu magnetizador localizado a vinte passos não sentirá a vinte mil... Esses limites não são bem conhecidos, eles são mais ou menos distanciados segundo o grau de sensibilidade dos sonâmbulos; mas eles existem e é preciso registrá-los quando a experiência puder constatá-los.”

Há ainda outra causa de erro possível, que recomenda a maior reserva, não somente em face de um espaço mais ou menos grande, mas em relação à ação à distância em geral.

Somos obrigados a admitir que certos sujeitos podem perceber o pensamento de outros; mas não sabemos exatamente ainda como isso ocorre. Se, como supõe Morin, a sugestão mental só prova uma exaltação extraordinária de faculdades perceptíveis ordinárias, esta percepção pode se exercer a dois passos, como a vinte passos numa mesma sala, mas não através de um tabique qualquer e completamente sem o conhecimento do sujeito. A dúvida está bem aqui e compreende-se que não possamos admitir o contrário, sem provas experimentais suficientes. É por isso que, tendo já constatado de um modo, para mim indubitável, a sugestão mental, mesmo sem o conhecimento do sujeito, não me senti de todo autorizado a admitir os fatos enunciados por Gibert e Janet e que fui ao Havre para verificá-los. Estava lá o nó da questão: tudo depende da ação à distância. Nós não podemos fazer qualquer ideia decisiva sobre o processo da transmissão próxima, antes de saber se essa transferência só é possível em condições de percepção ordinária, ou então se ela pode se manifestar ainda além da ação provável de nossos sentidos. E, ao mesmo tempo, toda a teoria do magnetismo deve necessariamente tomar outro rumo.

Mas, por outro lado, é de se notar que se chegarmos a admitir uma transmissão próxima, independente de toda percepção normal, a questão da distância se tornará secundária, no sentido de que uma ação a um quilômetro de distância não nos deverá impressionar muito mais do que uma ação a um metro, tendo em vista a própria natureza do fenômeno, que então assumirá um caráter particular de uma transmissão sui generis, análoga às transmissões telefônicas ou radiofônicas, e independente de uma percepção sensorial direta.

Admitamos que as reservas de Deleuze conservem seu valor e que ele nos faz avançar lentamente, à medida que surgirem provas fornecidas pela experiência.

Mesmer conhecia muito bem a transmissão mental à distância. Veremos que ele lhe conferiu uma teoria engenhosa e é bem provável que foi isso que mais chocou seus contemporâneos: a largueza de sua visão, o fluido universal, etc. Só que, mesmo para o sonambulismo em geral, ele acreditou dever fazer segredo desta parte de seus estudos, comunicando-a apenas a alguns privilegiados. De um modo geral, Mesmer experimentava mais do que escrevia, resumia muito brevemente os resultados adquiridos, e mesmo os princípios de sua doutrina foram impressos em um pequeno número de exemplares. E estes eram distribuídos só para alguns alunos escolhidos, sempre sob a chancela do segredo. Por causa disso temos muito poucos detalhes sobre o que se passava na “câmara das crises”, inacessível aos profanos.

No caso da ação à distância, a uma pequena distância, mas de uma outra sala, podemos citar, entretanto, uma experiência interessante, contada por uma testemunha judicial, o sábio austríaco Seifert, que antes tratava Mesmer de charlatão e que, depois, e principalmente sob a influência dos fatos que vou narrar, acabou admitindo sua teoria.

1) A cena se passa em 1775 em Rochow, Hungria, num velho castelo do barão Horetzky de Horka. Mesmer tratava o barão pelo magnetismo, fazendo o mesmo com numerosos outros doentes da vizinhança que o consultavam. Seifert achava tudo isso uma blague.

Certo dia leu num jornal uma notícia sobre Mesmer, na qual se dizia que este havia provocado convulsões em alguns epilépticos aparentemente curados pelo exorcista Gassner, mantendo-os num quarto vizinho e passeando apenas seus dedos na direção dos doentes. Seifert chegou ao castelo, jornal na mão, e encontrou Mesmer cercado de alguns cavalheiros. Ele perguntou se era verdade o que dizia o jornal e Mesmer confirmou. Então pediu a Mesmer uma prova da ação através de uma parede. A princípio Mesmer se recusou, mas foi tal a insistência que ele acabou aceitando a experiência. Escolheu entre os seus doentes mais sensíveis um jovem judeu, afetado de uma doença do peito. Colocou o doente num quarto vizinho, separado da sala em que a experiência seria feita por uma parede de dois pés e meio de espessura. Nestas condições, a experiência não poderia ser totalmente concludente, já que o sujeito esperava por uma experiência qualquer, porém, assim mesmo, ela se tornou interessante devido a certas particularidades.

Mesmer postou-se a três passos da parede, enquanto Seifert, observador, se colocou sob a porta entreaberta, de maneira a poder vigiar ao mesmo tempo o experimentador e o doente. Eis o que ele constatou:

Mesmer fez primeiro alguns movimentos transversais com o dedo indicador da mão esquerda, na direção presumida do doente. Este começou logo a se lastimar, parecendo sofrer.

– Que é que você tem? – perguntou Seifert.

– Estou me sentindo mal – disse ele.

Não satisfeito com esta resposta, Seifert exigiu uma descrição mais clara do que sentia.

– Sinto – disse o judeu – como se tudo se balançasse em mim, à direita e à esquerda.

Para evitar as questões, ele pediu-lhe que declarasse as alterações que sentia em seu corpo, sem esperar pelas perguntas. Alguns minutos depois, Mesmer fez movimentos ovais com o dedo.

– Agora tudo gira em mim, como num círculo – disse o doente.

Mesmer parou esta ação e, quase em seguida, o doente declarou que não sentia mais nada, e assim por diante. Todas estas declarações correspondiam perfeitamente, não apenas aos movimentos da ação ou dos intervalos, como também ao caráter das sensações que Mesmer queria provocar.

2) Outra experiência não menos extraordinária. Sabe-se que Mesmer sustentava que a transmissão física é favorecida pelo som e que as ondas sonoras podem, por assim dizer, ser carregadas de fluido e transmiti-lo à distância. Ora, era costume no castelo do barão que dois músicos fizessem soar, de tempos em tempos, suas cornetas de caça num quiosque do jardim. Os doentes, que esperavam a chegada de Mesmer, separados por muros do jardim, gostavam de ouvir essa música. Um dia Mesmer, querendo fazer a experiência, foi até o quiosque. Seifert foi até a sala dos doentes, para ver Mesmer. Não o encontrou, mas ficou impressionado ao ver que alguns doentes, em lugar de se alegrarem com a música, como de costume, começaram a ficar inquietos, manifestando mesmo certos acidentes nervosos mais graves. Seifert continuou procurando Mesmer, encontrando-o no quiosque, segurando na mão direita a corneta de caça, na qual soprava a música. Ele lhe contou o que acabara de ver. Mesmer sorriu.

– Eu esperava por isso – disse ele.

Em seguida tocou o instrumento segurando-o com a mão esquerda. Depois parou e disse:

– Agora os doentes vão se acalmar.

Voltaram ao salão e encontraram os doentes voltando a si pouco a pouco.

Podemos admitir uma ação semelhante?

Será preciso fazer experiências nesse sentido para que possamos pronunciar-nos. Mas não haverá aqui certa analogia entre esse fato e o do radiofone de Bell, no qual um raio de luz transmite a voz? Quem ousaria crer num efeito semelhante há dez anos? Entretanto, é um fato. E eis outro ainda, que eu observei uma só vez, precisando, pois, ser verificado.

A Sra. M. dormia um sono magnético. Esperando a hora de despertar, toquei alguns acordes no piano. Logo a sonâmbula, que se encontrava em estado de a-ideia paralítica pouco profunda, manifestou atenção e pareceu encontrar prazer naqueles sons. Como ela jamais ouvia ninguém, a não ser a mim, eu quis verificar qual seria a ação de sons provocados por outra pessoa. Fiz sinal para a Srta. B., que se colocou ao piano e tocou os mesmos acordes. A Sra. M. não manifestou qualquer sensação. Recomecei; ela ouviu. A Srta. B. tocou de novo e bem forte; nenhuma ação.

– Você me está ouvindo tocar? – perguntei à sonâmbula, tentando induzi-la a erro.

– Não – disse ela –, não ouço nada.

Eis um caso particular de rapport (relação), provavelmente muito raro, pois de hábito os sonâmbulos ouvem mais ou menos toda música e, sobretudo, o canto. É possível que tenha havido uma tal diferença física entre os sons provocados pelo magnetizador e os mesmos sons provocados por outra pessoa? É possível admitir que as vibrações sonoras possam transmitir o movimento tônico pessoal, do qual depende a percepção momentânea do sonâmbulo? É isto que ainda resta estudar.

3) Parece que as experiências à distância têm sido frequentes na França ali pelo ano de 1784, pois numa brochura atribuída ao marquês de Dampierre, lê-se o seguinte:

“Muitas vezes se fez a seguinte experiência: uma pessoa muito suscetível foi deixada com outras pessoas prevenidas, que procuravam distraí-la; durante esse tempo ela foi magnetizada sem o saber, do quarto vizinho, e o efeito foi tão pronto e tão sensível como se o magnetizador estivesse perto dela. A única diferença foi que ela se contraía no começo da ação, tomando o que sentia como uma doença natural e ela só cessou de se contrair quando lhe disseram que estava sendo magnetizada. Uma só experiência não seria decisiva; nós a multiplicamos e sempre os efeitos foram mais ou menos marcantes, segundo o grau da sensibilidade da pessoa magnetizada.”

4) Mas há ainda traços mais antigos. Foi ensaiada com sucesso a ação à distância nos possuídos de Loudun.

“Aconteceu muitas vezes que os exorcistas (magnetizadores inconscientes) chamavam secretamente esta mesma religiosa (Elizabeth Bastard) às vezes mentalmente e só com o pensamento, outras vezes em voz baixa, mas sem ser ouvida por ninguém no mundo. Esta jovem sentia-se atraída para o local de onde era chamada e, duvidando do que era, se atirava ao chão para resistir à sua inclinação e, não obstante, nessas ocasiões, ela obedecia normalmente.”

5) Van Helmont, grande médico e grande sonhador do século XVII, teve que estudar esta questão. Ele acreditava que todo homem é capaz de influenciar seus semelhantes à distância, mas que, geralmente, essa força permanece adormecida em nós e oculta pela “carne”. Para se exercer ela precisa de uma certa concordância entre o operador e o paciente. Este último deve ser sensível e exercitado na sua sensibilidade, que, sob a influência de sua “imaginação interior”, vai ao encontro da ação. É sobretudo na cavidade do estômago que esta ação mágica se faz sentir, pois “o sentimento na cavidade do estômago é mais delicado do que nos dedos e mesmo nos olhos. Às vezes o sujeito não pode suportar a colocação da mão nessa região”. A observação de que a ação magnética se faz sentir primeiro na cavidade do estômago é interessante. O Dr. Héricourt disse recentemente: “A Sra. D. pretendia que todas as vezes em que eu pensava nela, ela sentia uma dor forte na região precordial; era, aliás, essa mesma dor que ela sentia quando as sessões de sonambulismo se prolongavam e que me obrigavam a terminá-las”. Van Helmont diz encontrar um grande mistério no fato de haver no homem uma energia tal que, por sua exclusiva vontade e por sua imaginação, faz com que ele possa agir fora de si, imprimir uma influência durável sobre um objeto muito afastado. “Esse mistério – diz ele – ilumina de uma luz suficiente numerosos fatos difíceis de ser compreendidos e que se prendem ao magnetismo de todo o corpo, à potência mental do homem e a tudo o que se disse sobre a magia do homem e seu domínio do universo”.

Não esqueçamos que isso foi escrito há dois séculos! (1682 – J. B. von Helmont, Opera Omnia).

6) A comparação do sujeito sensível com uma agulha imantada aparece sempre nestes antigos autores. Ela se justifica pela analogia indubitável que existe entre a ação física de uma mão e a do ímã em geral; mas sobretudo pela ação atraente do magnetizador sobre o magnetizado. Trata-se de uma questão muito complicada, pois ela apresenta inúmeras formas diferentes:

1ª) atração por ideoplastia, fascinação, imitação dos movimentos;

2ª) atração física reflexa pela aproximação da mão;

3ª) atração física e mental direta, isto é, sem o intermédio da percepção ordinária, a distância.

O sujeito magnetizado é sempre levado para o operador, ele o procura, tende a se aproximar dele; igualmente a experiência de sugestão mental que se realiza mais facilmente é aquela que consiste em fazer vir o sujeito para o operador. Acontece que o sonâmbulo se inclina sempre para o lado do magnetizador e Janet observou que depois de ter adormecido a Sra. B. à distância, ele a encontrou com a cabeça inclinada na direção de sua ação. Mas o fato mais extraordinário desse gênero é citado por Bruno:

“O fenômeno que mais me impressionou, porque foi o primeiro que ocorreu diante de meus olhos, foi o de uma jovem de 18 anos. Havia cinco ou seis meses que tinha sido condenada a morrer dos pulmões. Ela adormeceu desde o terceiro ou quarto dia de tratamento. Seu sono se tornou muito profundo em poucos dias. Quando eu a magnetizava, sua cabeça pendia na minha direção; eu era obrigado a ajeitá-la suavemente na cadeira, para impedir que caísse sobre mim. Como se trata de um efeito comum no sono, eu não lhe prestei maior atenção; depois de tê-la magnetizado, eu a deixei dormir tranquilamente e fui atender outra doente. Novo embaraço: esta jovem pendia para o lado, caía às vezes sobre a vizinha. Fiz ceder-lhe uma grande poltrona, própria para dormir. Precaução inútil: sua cabeça pendia suavemente e toda a parte de seu corpo não era retida pela poltrona, seguia esse movimento. De repente tive uma ideia: parecia-me que a cabeça pendia sempre para o lado em que eu me encontrava. Mudei de lugar; qual foi a minha surpresa quando vi que ela, como uma verdadeira agulha imantada, seguia a curva que eu lentamente percorria ao redor, a uma distância de cinco a seis pés. Quando eu parava, ela parava, sempre na direção de minha pessoa. Saí da sala, desci para o pátio e me desloquei para diferentes direções. Fui me colocar a uma distância muito grande, no ângulo que minha casa fazia, cujos dois lados de um segundo pátio davam para duas ruas diferentes: minha bússola designava sempre, com a mais perfeita exatidão, o ponto do horizonte em que eu estava colocado. E era preciso segurá-la, se não ela cairia. Esta experiência foi muito boa, uma vez que eu a fiz perante um médico a quem deixei na sala. Depois de me ter colocado em vários pontos fora da sala, ele me sugeriu que fosse até a rua e me conduziu até a esquina, longe de casa. Quando o médico voltou, apressado, para a sala, encontrou a jovem caída no assoalho. No dia seguinte o mesmo médico, tendo algumas dúvidas, pediu-me que recomeçasse a experiência. Enquanto eu ia descendo para a rua, ele desejou que eu fizesse a volta em torno da casa vizinha, situada a oeste. E subiu para a sala em seguida, para ver o que aconteceria. Tínhamos combinado que seria evitado que a jovem caísse; ele chegou a tempo de ser testemunha de um prodígio. Eu seguia muito lentamente, pensando sempre nela, e isso sem conhecer toda a importância desta operação do espírito. A cabeça da jovem indicava-lhe perfeitamente a direção de minha caminhada; ele se apercebia da ação que eu fazia pela posição do corpo, que ameaçava cair. Uma senhora que tinha o hábito de socorrê-la nesse estado segurava-a. Mas logo isso não foi necessário; ela se ergueu e a nova direção de sua cabeça, que descrevia uma curva de leste para oeste, anunciou meu retorno.”

Esta observação é interessante para nós porque mostra como um fenômeno físico de atração corporal pela simples presença do magnetizador pode se acentuar pelo concurso de uma ação mental. Mas trata-se de um caso muito raro, em que frequentemente a atração é puramente reflexa (sensação de calor e de correntes de ar), ou, se ela for direta, não se exerce senão a uma distância muito pequena. É de se notar, ainda, que a sonâmbula de Bruno suportava o contato de uma terceira pessoa, o que quer dizer que ela não estava no estado de hiperestesia propriamente dito. Este é um ponto cuja importância não nos escapará, no âmbito teórico. A atração forte é sempre acompanhada de uma rigidez nos membros. Às vezes ela cessa no momento de uma contração geral, mas há sempre uma tendência à contração ali onde a atração se manifesta. Depois de Bruno, e frequentemente sem conhecer seus trabalhos, muitos magnetizadores constataram o mesmo fenômeno. É preciso considerá-lo como um auxiliar da sugestão mental, uma vez que se chama o sujeito para si.

7) Diz Du Potet:

“Às vezes encontramos sujeitos de tal mobilidade, que podemos agir sobre eles através de tabiques, muros, no momento em que é impossível supor que eles conheçam nossa intenção. Eles se sentem próximos de nós, percebem nosso afastamento, adormecem para despertarem e adormecerem de novo, de acordo com a nossa vontade.

Experiências no Hotel Dieu (4 de novembro de 1820) – Estamos todos reunidos na sala de nossas reuniões, menos a doente. O Sr. Husson, médico desse hospício, me diz:

– Você adormece a doente sem tocá-la. Gostaria que você tentasse obter o sono sem que ela o visse e sem que ela fosse prevenida de sua chegada aqui.

Eu respondi que gostaria de tentar, mas não garantiria o sucesso da experiência porque a ação à distância, através de corpos intermediários, dependia da sensibilidade particular do indivíduo. Combinamos um sinal. O Sr. Husson, que tinha na mão uma tesoura, escolheu o momento em que ele a atiraria sobre a mesa. Fizeram-me entrar num gabinete separado da sala por uma grossa parede e cuja porta foi fechada a chave. Fizeram vir a doente, que foi colocada com as costas para o local onde eu estava, a uma distância de três ou quatro pés. Comentaram com ela que eu ainda não havia chegado. Por fim, em vista do atraso, disseram que eu não mais viria, dando-se a esse comentário toda a aparência de verdade. Ao sinal combinado, embora eu não soubesse onde e a que distância estava a Srta. Samson, comecei a magnetizar, observando o mais profundo silêncio e evitando fazer o menor movimento que pudesse marcar minha presença. Eram então nove horas e trinta e cinco minutos; três minutos depois ela adormeceu e, desde o início da direção de minha vontade em ação, viu-se a doente piscar os olhos, mostrando os sintomas do sono, até cair no sonambulismo comum. Repeti esta experiência no dia 7 de novembro seguinte, diante do professor Récamier. Este tomou todas as precauções possíveis e o resultado foi igual ao de nosso primeiro ensaio. Eis os detalhes desta experiência. Logo que cheguei ao local das sessões, às nove e quinze, o Sr. Husson veio me prevenir de que o professor Récamier desejava estar presente e ver-me adormecer a doente através da parede. Combinamos um sinal. Entrei no gabinete, onde me fecharam. Fizeram a Srta. Samson entrar; Récamier colocou-a a seis pés de distância do gabinete, coisa que eu não sabia, de costas para mim. Ele conversou com ela, dizendo-lhe que eu não viria, e ela, então, quis se retirar. No momento em que Récamier lhe perguntou se ela comia carne (esta era a palavra-senha combinada), eu comecei a magnetizá-la. Eram nove horas e trinta minutos; três minutos depois Récamier tocou-a, levantou suas pálpebras, segurou suas mãos, fez perguntas e nós tivemos a prova de que ela estava completamente adormecida. Mas não bastavam esses dois fatos para admitir um fenômeno tão estranho. De qualquer forma, Du Potet perguntou a Récamier:

– Então, estais convencido?

– Convencido não – respondeu ele –, mas abalado.

Quisemos repetir as experiências, variando-as com a mudança da hora e das circunstâncias. Eis o que fizemos: Certa noite, acompanhado por Husson e por outros médicos, cheguei à sala onde estava a doente. Puseram-me a muitos leitos de distância, observando o mais completo silêncio, de modo que eu não pudesse ser visto. Magnetizei-a às 7 horas e 8 minutos; às 7:12 nós todos nos aproximamos e constatamos que o sono e a insensibilidade que a caracterizavam habitualmente existiam no mais alto grau. É inútil dizer que o dia da experiência foi escolhido pelo médico-chefe e não por mim. Que todos viram, antes da experiência, que a doente não estava dormindo. E, enfim, que minha ação havia sido dirigida a vinte pés de distância. Para destruir toda espécie de incerteza sobre o resultado desta ação prodigiosa, eis o que fizemos, ou melhor, o que me mandaram fazer. O Sr. Bertrand, doutor em Medicina pela Faculdade de Paris, tinha assistido às sessões. Ele havia dito que não achava extraordinário que a magnetizada adormecesse, estando o magnetizador no gabinete; que ele acreditava que o concurso particular das mesmas circunstâncias levaria a um resultado semelhante sem minha presença; que de resto a doente poderia estar naturalmente predisposta. Ele propôs, então, a experiência que passarei a descrever:

Tratava-se de fazer vir a doente ao mesmo lugar, de fazê-la sentar-se na mesma cadeira e local habitual, de desenvolver o mesmo discurso a seu respeito e na sua presença. Ele achava que ela adormeceria em seguida. Eu concordei, em consequência, em chegar com meia hora de atraso. Às nove horas e três quartos começou-se a executar o plano. Fizeram a Srta. Samson sentar-se na mesma poltrona em que ela habitualmente se sentava e na mesma posição; formularam várias perguntas; depois deixaram-na tranquila; simularam os sinais empregados antes, como jogar a tesoura sobre a mesa; repetiram tudo afinal. Mas esperaram em vão o estado magnético; a doente se mexia, trocava de posição e não dava o menor sinal de querer dormir, nem, naturalmente, magneticamente. O prazo expirou e eu fui para o hotel, onde entrei às 10 horas e 15 minutos. A doente declarou não ter nenhuma vontade de dormir, mas encostou a cabeça e dormiu durante um minuto e meio.”

Tal é o relatório do principal interessado no caso. Vejamos agora o que nos dizem os incrédulos intransigentes, Burdin e Dubois:

“Husson chegou inopinadamente à sala às sete horas da noite, acontecimento singular nos hábitos de um chefe de serviço tão exato, tão pontual. Husson não disfarçou. Foi direto ao leito da Srta. Samson e para confundi-la (como se confundir uma sonâmbula fosse coisa fácil) ele se dirigiu à sua vizinha e disse:

– É por você que eu estou aqui esta noite; esta manhã você me perturbou, mas agora eu estou achando-a melhor; fique tranquila, tudo irá bem.

Era a sonâmbula que devia dizer a si mesma: tudo irá bem; ele queria preveni-la. Mas não foi tudo. Colocaram astuciosamente o magnetizador num leito de intervalo de seu sujeito; uma lâmpada, disse Bertrand, iluminava a sala e se encontrava colocada atrás do magnetizador, de sorte que ele podia aparecer como uma sombra chinesa. E Husson, também a pouca distância, tinha os olhos fixos nela; por acaso não queria ele uma experiência bem instituída?... Pois o que aconteceu então? Foi a moça, uma vez todos os preparativos terminados, que disse em voz alta, para admiração dos experimentadores:

– É impressionante como meus olhos ardem; estou caindo de sono! Vou adormecer.”

Mas Burdin e Dubois não assistiram à experiência. Vejamos o que diz o próprio Bertrand, a quem os autores acadêmicos se referem:

“Husson teve a complacência de acolher minhas objeções e de concordar com uma experiência que devia servir de contraprova, mostrando até que ponto as circunstâncias acessórias, que acabo de assinalar, poderiam agir na ausência do magnetizador. Tratava-se de fazer vir a doente na hora comum, no mesmo gabinete, de fazê-la sentar-se na mesma cadeira, de simular um sinal, numa palavra, de se comportar na ausência do magnetizador exatamente como costumava se fazer quando ele estava lá. Tudo foi feito como eu pedi; e, contra aquilo que eu havia presumido, a doente não adormeceu... Esta experiência, não tendo o resultado que dela eu esperava, me levou a propor uma segunda, que me parecesse mais conclusiva ainda: consistia em dirigir a ação magnética na doente, não somente à sua revelia, mas ainda numa hora em que ela não esperasse que nós agiríamos sobre ela. Numa hora, por exemplo, em que todo mundo estivesse deitado e, depois de se ter assegurado de que ela dormia (é muito fácil distinguir o sono natural do sono magnético), magnetizá-la de longe, sem o seu conhecimento... Foi no instante em que já nos tínhamos retirado para um canto da sala, que o local da experiência foi escolhido.

Muitas circunstâncias tornaram, a meu ver, esta experiência duvidosa. Uma lâmpada que iluminava a sala achava-se atrás do magnetizador e a pouca distância dele, de modo que seu corpo, por pouco que estivesse visível, era fácil de ser percebido pela doente. Uma outra causa da incerteza resultou na exatidão com a qual se queria fazer a experiência; pois Husson, tendo desejado assegurar para si mesmo que a doente não dormia, foi obrigado a fazer-se ver por ela; e alguma precaução que ele tenha podido tomar, para fazê-la crer que ela não era o objeto de sua visita noturna, deve ter-lhe causado, ao menos, alguma dúvida, capaz de despertar sua atenção. Tanto mais que fazia 15 dias que ela tinha sido sujeito de uma série de experiências, algumas das quais montadas com o objetivo de exercer sobre ela alguma ação, à sua revelia.”

Bertrand termina sua análise declarando que ele não contesta os fatos, mas que está bem longe de confirmar a realidade do agente magnético e de apresentar estas experiências como concludentes.

Sou da mesma opinião. Elas não são concludentes, como não são despidas de todo valor, como querem fazer crer Burdin e Dubois. Elas foram as primeiras experiências públicas desse gênero e Du Potet teve o mérito de ter ousado o primeiro passo.

“Pouco tempo depois – diz ainda Bertrand no seu livro editado em 1826 –, ensaios semelhantes foram feitos em Salpêtrière, por homens versados no estudo da Medicina, por alunos destacados que se tornaram médicos estimados. Seus resultados fizeram se converter à crença dos fenômenos de sonambulismo o autor da Fisiologia do sistema nervoso, Dr. Georget, que registrou nessa sua obra o resultado de suas pesquisas. Estas experiências arrastaram também a crença do Dr. Rostan, autor de muitas boas obras e de um grande número de artigos do novo Dictionnaire de Médicine, compilação na qual ele acaba de publicar um artigo sobre magnetismo animal, onde expõe as observações que o convenceram. O Sr. Georget, assim como Rostan, proclamam, é verdade, a existência de um agente particular e acreditam, sobretudo, na influência da vontade do magnetizador, ao qual fazem desempenhar um papel tão importante como Deleuze e Puységur. Mas não é de se admirar muito, de tal forma é fácil a ilusão quando se observam seres para quem a crença menos fundamentada se torna uma fonte de fenômenos reais. Passei pela ilusão na qual ainda estão os distintos médicos que acabo de nomear. Que me seja permitido esperar que um dia eles cheguem a adotar o ponto de vista no qual me detive. O importante é o testemunho que eles deram sobre a realidade dos fenômenos; esse testemunho felizmente veio fortalecer aquilo que já havia convencido homens aos quais não se pode atribuir nenhuma intenção de mentir. Outras experiências foram feitas em todos os hospitais de Paris; foram feitas no Pitié, no Charité, sob a direção de Fourquier, no hospital Saint-Louis, e em toda parte obtiveram-se resultados mais ou menos significativos; sempre encontrando a oposição da administração.”

8) Bertrand se enganou quanto aos resultados definitivos das experiências feitas à distância. Cinco anos depois da publicação de sua obra, novas provas foram trazidas pela comissão acadêmica nomeada naquela ocasião. O Dr. Foissac repetiu as experiências de Du Potet com pleno sucesso e nas melhores condições. Morin, outro incrédulo, relatando esses fatos, só pôde fazer uma única objeção: a de um possível acordo entre o Dr. Foissac e o doente...

É difícil admitir a suposição de Morin, ou ainda a de Burdin e Dubois. E, para dizer a verdade, esses senhores não a fazem seriamente; mas eles têm razão quando, em várias questões, dizem que toda delicadeza deve ser eliminada e que Foissac não devia ter sabido da hora exata com antecipação.

9) Diz Lafontaine:

“O sono à distância só se produz em pessoas que são frequentemente magnetizadas. Em Rennes o Dr. Dufihol, reitor da Academia, e Rabusseau, inspetor, vieram um dia, em companhia de alguns médicos, ao hotel onde eu estava hospedado. Dufihol pediu-me que o acompanhasse até sua casa, prevenindo-me de que uma dama desejava falar comigo. Saí com ele. Quando íamos atravessar o pátio, entramos numa das salas do hotel e Dufihol entabulou uma conversa cujo objetivo eu não sabia qual era. Um quarto de hora depois ele me disse:

– Você pretendia adormecer o seu sujeito à distância, sem que ele fosse prevenido. Pois quer tentar essa experiência agora?

Eu aceitei. Três minutos depois eu disse a Dufihol que o sujeito devia estar dormindo. Ele me pediu que permanecesse na sala, atravessou o pátio, subiu as escadas e, quando chegou perto da porta, ouviu aqueles senhores dizerem ao sujeito:

– Olá, você está dormindo? Acorde!

Dufihol entrou precipitadamente e encontrou o sujeito dormindo: então me chamou e disse:

– Na presença de fatos como esse, é preciso acreditar, meus senhores. Fui eu quem pediu a Lafontaine para que adormecesse o sujeito da sala do hotel.”

Esta experiência foi bem organizada. E eis mais duas, feitas de improviso:

“Terminada a reunião, várias pessoas se agruparam em torno de Lafontaine, conversando. Foi nesse momento que ocorreu a experiência. O sujeito estava afastado e conversava com alguns guardas. Alguém disse a Lafontaine:

– Será que você poderia adormecê-lo daqui?

– Sem dúvida. – respondeu ele. – Cerquem-me para que ele não me possa ver.

Ao cabo de alguns momentos o sujeito estava dormindo.

Em Cinq-Mars-laPile, duas horas antes de uma sessão pública, eu me encontrava na casa do Dr. Renand. Havia lá umas doze pessoas, discutindo magnetismo. Propuseram-me adormecer minha paciente da casa do doutor à sala da prefeitura, na qual eu havia feito a sessão. Aceitei. A condição era que eu não saísse da casa, que dois dos presentes ficassem comigo, os quais me indicariam o instante em que era preciso começar; outros dois iriam procurar a sonâmbula, que estava no hotel, e a conduziriam até a prefeitura sem lhe falar nada. Havia cerca de meio quilômetro de distância da casa do doutor até a prefeitura. As duas pessoas que estavam comigo, uma das quais era o Sr. de la Béraudiaire, me preveniram de que eu podia começar. Quatro minutos depois avisei que o sujeito deveria estar dormindo. E realmente estava.”

Acrescentemos que Lafontaine não admite a ação direta ou uma transmissão da vontade, mas somente a do fluido emitido de fora, sob o império da vontade.

10) O Dr. Dusart completa assim sua observação sobre a Srta. J.:

“Todos os dias, antes de sair, eu a mandava dormir até o dia seguinte a uma hora determinada. Certo dia esqueci essa precaução, e já estava a 700 metros de distância quando percebi. Não podendo voltar, disse a mim mesmo que talvez minha ordem pudesse ser ouvida, apesar da distância. Formulei, então, a ordem de dormir até o dia seguinte às 8 horas e continuei meu caminho. No dia seguinte cheguei às 7:30 e a doente dormia.

– Por que é que você está dormindo ainda?

– Mas, senhor, eu estou lhe obedecendo.

E ela me explicou que pouco depois de eu ter saído, no dia anterior, ela me ouvira ordenar para que dormisse até às 8.

– Ora – disse ela –, ainda não são 8 horas.

Esta experiência, muitas vezes renovada, e em horas diferentes, sempre teve o mesmo resultado.”

A experiência é interessante, antes de tudo, porque parece provar que não somente o contato das frontes é desnecessário; mas que a ação pode ser exercida a 7 quilômetros de distância; depois, porque ela prova que, em tais condições, a influência pode alcançar não somente o sono como o despertar, provavelmente mesmo com especificação de uma ideia particular, como a de uma hora determinada.

Mas eis o que parece mais extraordinário ainda:

“No dia 1º de janeiro suspendi minhas visitas e cessei qualquer relação com a família. No dia 12, encontrando-me a 10 quilômetros da doente, achei que podia tentar fazê-la obedecer-me. Pedi, então, à doente que adormecesse. No dia seguinte, às 6 horas da manhã, recebi um emissário que me trazia uma carta do pai da jovem. A carta dizia que na véspera ele tentara tudo para adormecer a filha. Só depois de muita luta ela adormecera. E logo em seguida disse que adormeceu porque recebeu uma ordem minha.”

Torna-se, pois, provável que, com um conhecimento exato das condições do fenômeno, pode-se chegar a comunicar à distância pensamentos inteiros, como se faz hoje pelo telefone...

O Dr. Glay acrescenta a esta observação uma sugestão de ordem experimental. Diz ele:

“Parece que o Dr. Dusart não conseguiu fazer sua doente adormecer à distância senão depois de tê-la submetido a uma certa educação. Assim, diz ele que havia antes adormecido o sujeito um bom número de vezes por ordem mental, mas dada de muito perto. Evidentemente, não se compreende muito bem qual pode ser a influência desta espécie de educação.”

Creio que é possível compreender muito bem a influência desta educação:

a) – Antes de tudo, ela é observada em todos os fenômenos hipnóticos e magnéticos sem exceção: o sujeito se torna cada vez mais sensível no curso das experiências. O hipnoscópio nos permite controlar este efeito, e eu já observei na minha nota comunicada à Sociedade de Biologia, em 1884, que nesse campo existe um contraste muito claro entre a sensibilidade imaginária e a verdadeira sensibilidade: as pessoas que se julgam muito sensíveis, muito “nervosas”, que têm fé no magnetismo, sem possuírem esta sensibilidade especial, que não depende da vontade nem da fé, experimentam diversas sensações mais ou menos fortes no primeiro ensaio hipnótico. Estas sensações são causadas pela emoção, pelo medo, pela expectativa, em uma palavra, pela imaginação. Renovando a prova do hipnoscópio, veremos que essas sensações diminuem rapidamente e desaparecem, enquanto que os efeitos devidos a uma sensibilidade real persistem e se acentuam a cada aplicação.

Se, depois de um primeiro ensaio hipnoscópico, hipnotizarmos ou magnetizarmos o sujeito durante um mês, por exemplo, e se refizermos em seguida a experiência hipnoscópica, encontraremos sempre os marcos de uma sensibilidade maior. Por quê? Porque a ação, que consiste em uma influência reflexa entre o cérebro e os gânglios, deve necessariamente apresentar os fenômenos próprios a todas as ações reflexas em geral que se aprendeu, se enraízam e se tornam cada vez mais fáceis. Uma veia nervosa qualquer, percorrida uma vez por uma excitação qualquer, apresentará uma resistência menor, no momento de uma segunda passagem da mesma excitação. É a isso que Ribot chamou de memória orgânica, e esta memória não deve ser menos propícia às excitações fracas do que às ações mecânicas comuns.



b) – É preciso não esquecer que se a sensibilidade hipnótica é independente da vontade orgânica do sujeito, o mesmo não acontece com seu inconsciente. O inconsciente pode ser considerado quase como um governo secreto, frequentemente, se não sempre, mais poderoso que aquele que com o nome de Eu1, reina à luz do dia mas... não governa. Com este Eu, mais vaidoso do que poderoso, você pode cuidar das questões superficiais, mas com o Eu2 você pode concluir tratados concernentes a todas as funções vitais.

Você poderá lhe dizer, por exemplo: “Enquanto o Eu1 dorme, você vigiará, contando as horas e os minutos e despertará a tal hora; você vigiará seu primeiro-ministro, que se chama Mudança de matéria, para que ele não ande tão depressa; você ativará a igualará o movimento vital em todas as províncias de seu reino, fechará a fronteira a correntes estrangeiras; cassará os focos patológicos que perturbam o seu sono, etc.”, e ele obedecerá; ele tem o poder de obedecer a você. Em consequência, a vontade do Eu2 pode ir ao encontro da nossa, pode nos ajudar, facilitar cada vez mais as nossas tarefas.



c) – Deve haver uma grande analogia entre uma voz falada e uma voz mental. Ora, às vezes dificilmente compreendemos a palavra de uma pessoa estranha; ela fala muito depressa ou muito baixo e pronuncia mal; mas pouco a pouco a gente se habitua; as associações se formam e, como a mãe que compreende o balbucio do seu filho, nós aprendemos a associar os sons mais ou menos confusos a ideias claras. É possível que as vibrações que transmitem o pensamento e a vontade não sejam menos confusas, nem menos imperfeitas; em consequência, é preciso senti-las se repetirem, para bem avaliar suas diferenças; e é completamente compreensível que o hábito, a educação, o exercício favoreçam esta percepção.




Compartilhe com seus amigos:
1   ...   8   9   10   11   12   13   14   15   16


©psicod.org 2019
enviar mensagem

    Página principal