Julian Ochorowicz a sugestão Mental



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Quarta experiência – Insisto junto a Gibert para a chamada experiência de Cagliostro: adormecer o sujeito de longe e fazê-lo vir, atravessando a cidade. Gibert consentiu. A ação mental devia começar às 8:55 e durar até às 9:10. Nesse momento não havia ninguém no pavilhão, salvo a Sra. B. e a cozinheira. Ninguém apareceu no pavilhão. Aproveitando dessa ausência, as duas mulheres entraram no salão e começaram a “brincar” no piano.

Chegamos às imediações do pavilhão depois das 9 horas. Silêncio.

A rua está deserta. Sem o menor ruído, dividimo-nos em duas partes para vigiarmos a casa à distância.

Às 9:25 vejo uma sombra aparecer na porta do jardim. Era ela. Escondo-me a um canto para não ser notado.

Mas eu não entendo mais nada: a sonâmbula, depois de ficar um minuto na porta, retirou-se para o interior do jardim. Às 9:30 a sonâmbula reaparece outra vez na porta e desta vez ela se precipita para a rua, com a pressa de uma pessoa que está atrasada e que deve chegar logo ao destino. Nós a seguimos.

Chegando à rua Bard, ela começa a cambalear, para um momento e quase cai. Mas retoma vivamente sua marcha. São 9:35. Em 10 minutos estamos na casa de Gibert, que sai para a rua, cruza com a sonâmbula, que não o reconhece e está sempre de olhos fechados.

Ela entra na casa, procura-o por toda parte, perguntando: “Onde está ele?”.

A esta altura, o magnetizador está sentado e curvado. Ela entra no quarto, quase o toca, mas sua excitação a impede de reconhecê-lo. É então que Gibert tem a ideia de atraí-la mentalmente. Ela então volta e segura sua mão. Nesse instante uma alegria imensa se apodera dela. Ela salta sobre o canapé como uma criança e bate palmas gritando: “Você aqui, você, afinal! Ah, como estou contente!”.

Mais tarde tentamos experiências de transmissão de sensações. A verificação do estado necessário para a transmissão foi feita da seguinte maneira: Gibert bebeu lentamente um copo de água. Logo ela manifestou movimentos de deglutição.

Depois desse ensaio preparatório, Gibert, acompanhado de Marillier, vai para uma sala afastada. Eu sussurro no ouvido de Marillier: “Belisque a mão direita!”.

Dois minutos depois a Sra. B. manifesta uma dor forte. Suas duas mãos, mas principalmente a mão direita, se agitam vivamente: “Não – diz ela –, não faça isso; machuca!”.

Uma segunda experiência foi feita por escrito: “Belisque o meio da testa”.

Agitação geral. A sonâmbula leva as mãos para a testa, como se estivesse sentindo dor.

Uma última experiência, que eu vi pela primeira vez, é realizada. Tratava-se de comandar mentalmente uma ação que deveria ser executada na manhã seguinte.

A ordem foi indicada por escrito: às 11 horas a Sra. B. deveria passar para o salão, apanhar um álbum de fotografias que se encontrava sobre a mesa e abri-lo para examinar os retratos.

Para fazer esta comunicação mental Gibert toma as mãos da Sra. B. e apoia sua testa na dela. Eu estava bem perto dos dois. Ele apenas disse: “Ouça bem, Leonie!”.

No momento da transmissão, o rosto da Sra. B. fez uma expressão de quem ouve com muita atenção. Depois começou a se agitar e a ter convulsões. Era um verdadeiro ataque hístero-epiléptico. Dois minutos depois a transmissão mental terminou e a Sra. B. foi se tranquilizando, não manifestando nenhum conhecimento do que acabava de acontecer.

Explicaram-me que ela não saberia dizer o que se exigia dela e que as ordens transmitidas desta maneira, para serem executadas no sono, jamais tiveram êxito. Parece, assim, que se trata de uma transmissão inconsciente e que o inconsciente do sujeito precisa de um certo tempo para cristalizar, por assim dizer, as impressões recebidas e exercitar os músculos correspondentes.

Este fenômeno não é isolado em psicologia. Acontece que, quando estamos deitados, por exemplo, a ideia nos faz levantar-nos, mas não tem força suficiente para vencer nossa preguiça. Esta ideia ressurge uma vez ou duas, sem resultado. Depois, quando nosso pensamento está ocupado com outra coisa qualquer, sentimo-nos erguer subitamente, como por uma força estranha.

Acontece isso quando precisamos acordar em hora determinada. Tenho que tomar o trem no dia seguinte bem cedo. Sei que me acordarão a tempo e, portanto, minha consciência pode dormir tranquilamente. Mas o inconsciente recebeu a comunicação desta decisão sem que o eu tenha tomado conhecimento. E ele vela. Vela tão bem, calcula tão bem o tempo que, quando chega a hora determinada, ele nos acorda e chama o eu para a consciência.

No dia seguinte, as 10:55, Marillier e eu estamos no jardim. Às 11 horas a Sra. B. desce as escadas de seu quarto, entra no salão e procura qualquer coisa. Toca alguns objetos sem tomá-los com as mãos. Chega Janet e lhe diz bom dia. Ela continua procurando alguma coisa. Janet vem até nós e propõe que a adormeçamos à distância, certo de que a experiência fracassou. Eu me oponho dizendo que a Sra. B., não estando no seu estado completamente normal, poderá adormecer sozinha. Alguns minutos depois, às 11:30, a Sra. B. toma um álbum, depois outro, abre-o, senta-se no canapé e, visivelmente tranquilizada, começa a olhar as fotografias. (Ela nos diria, depois, que estava procurando a fotografia de Gibert, “porque me dá prazer olhar para ele”.)

Entramos no salão e encontramos a Sra. B. sempre ocupada em folhear seu álbum, mas em sonambulismo ativo. Aproveitamos para mais algumas experiências e nos retiramos. Já na rua, eu digo a todos que as experiências até então feitas não me convenceram. São aceitáveis do ponto de vista da ação à distância, mas eu estava em Havre principalmente para verificar o fato, até então desconhecido para mim, de sonambulismo à distância. Proponho, então, a Janet algo mais convincente: adormecer a Sra. B. no mesmo instante. As condições são claras: eu observaria a Sra. B. de longe, certo de que ela estaria no seu estado normal, sem qualquer tendência ao sonambulismo espontâneo. Ninguém tentara antes experiência semelhante. Era um tanto impiedoso de minha parte.

Janet concorda, desde que possa fazer a experiência estando ele em sua casa e não na rua. Aceito as condições e decidimos almoçar juntos.

Eis como tudo foi arranjado. Peço a Marillier que vá ao pavilhão para acordar a Sra. B. Sua presença lá não perturbaria nada, pois era um frequentador da casa; nenhuma suspeita, portanto. Além disso, ele não sabia da hora exata da experiência, não podendo, assim, influenciar o sujeito. A hora exata foi sorteada: 4:30. Ficamos sempre juntos. Às 4:29 retiro-me para o pequeno jardim, para deixar a Janet inteira liberdade de ação.

Ele senta-se na poltrona, a cabeça entre as mãos e concentra toda sua vontade para dar ordens à Sra. B., a um quilômetro de distância, a fim de que ela caia em sonambulismo. Esta ação mental dura dez minutos.

Às 4:48 entro no gabinete de Janet. Ele apanha seu chapéu e saímos todos para o encontro com Myers e seguimos até o pavilhão. Antes de entrar peço a Myers que suba e traga Marillier. Este último chega e declara não ter visto nada. Ninguém, disse ele, entrou no pavilhão. Antes de entrar peço a Janet que me deixe a incumbência das perguntas a fazer para a Sra. B., no caso de a encontrarmos adormecida.

Afinal, entramos sem ruído e vemos a Sra. B., cosendo, mas em sonambulismo ativo. Ela não nos ouve: responde apenas às questões de Janet.

– A que horas a senhora adormeceu?

– Eram exatamente quatro e meia.

– Você olhou para o relógio?

– E eu preciso disso? Falei quatro e meia e acabou-se.

Comparo meu relógio com o dela. O dela tem um atraso de 3 minutos e 30 segundos; em consequência, admitindo a exatidão do que ela disse, o efeito foi produzido à distância quatro minutos depois do começo da ação.

A meu pedido, ela conta o que aconteceu. Diz que desceu antes para a cozinha para almoçar, conversou um pouco com a cozinheira e voltou ao primeiro andar para se vestir; que se pôs a costurar e de repente sentiu-se paralisada, de sorte que quando ouviu um barulho (a entrada de Myers) não se pôde levantar. Não fala de Gibert como das outras vezes. A cozinheira confirma tudo.

Janet me interpela:

– Então, está satisfeito?

– Sim, desta vez a experiência é pura.

Passamos a outras experiências.

No começo de nossas reuniões ela manifesta uma certa repulsa contra Marillier, uma repulsa física. Perguntamos o motivo. Ela examina seu polegar e larga a mão.

– Ele me faz mal... oh, não a mim... mas isso não interessa a vocês...

Janet insiste. Ela examina outra vez o polegar de Marillier e diz:

– Não quero... isso não interessa.

Tudo o que se pode tirar dela é que ele está doente.

Marillier me leva para um canto e me diz que sofre do coração.

Com sua vivacidade habitual, mas própria do estado de sonambulismo ativo, ela passa para outras questões, diverte-se como uma criança, toca as mãos dos assistentes, sempre com os olhos fechados.

Como ela manifestava uma viva impressionabilidade em relação a mim, e como julgasse que eu havia partido, eu quis verificar se ela reconheceria um objeto que me pertencia. Retiro minha gravata e, por intermédio de Marillier, passo-a secretamente para Janet que, ocupado com outras coisas, põe a gravata sobre a mesa. Alguns segundos depois a sonâmbula se aproxima, apanha a gravata, vem diretamente a mim, deixa cair a gravata nos meus joelhos e se afasta com um ar de autômato, voltando ao seu lugar. Teria sido uma ação de meu pensamento? Em todo o caso a Sra. B. não me reconheceu; ela somente executou meu pensamento que não tinha sido formulado como ordem mental. E executou-o mecanicamente, como se não soubesse o que estava fazendo. Mas a ausência da gravata em meu pescoço podia ter sido percebida pela sonâmbula, apesar de sua aparente cegueira. Resolvi, assim, refazer a mesma experiência com outro objeto. Escolhi uma pequena fita preta que ninguém viu em mim e passei-a, por intermédio de uma terceira pessoa, para Janet. Este segurou-a, mão fechada. A sonâmbula, sem qualquer demora, abre-lhe a mão, pega a fita e, mal a toca, começa a saltar de alegria, como uma criança:

– Ele está aqui! Ele está aqui! Não partiu!

Em seguida ela pede um pedaço de papel, embrulha a fita e estende a mão na minha direção para entregar-me o pacotinho.

Mais algumas pequenas experiências semelhantes e ela, depois de manifestar cóleras e agitar-se, cai num verdadeiro ataque histérico que Janet se apressa em acalmar, apoiando sua fronte contra a dela.

Para elucidar a questão dos objetos, proponho a Janet tomar três folhas de papel iguais, marcadas por três pessoas diferentes. Depois de preparadas, tentamos entregá-las à Sra. B. Ela se opõe com obstinação e não quer tocar nas três folhas de papel.

Tivemos que abandonar esta experiência.

Deixei Havre com uma profunda emoção. Vira, afinal, o fenômeno extraordinário da ação à distância, que tanto abala as opiniões atualmente admitidas. Evoquei minhas lembranças, questionei cem vezes minhas anotações para assegurar-me daquilo que acabara de ver. Examinei os fatos do ponto de vista de um ceticismo absoluto e de um simples acaso, depois de um ponto de vista dos magnetizadores, depois à luz da teoria sugestiva, de outras teorias intermediárias possíveis ou fantásticas. Cheguei à conclusão de que a quarta experiência não pode ser explicada sem uma ligação casual entre um ato de vontade e um efeito produzido à distância. Mas como já disse, nesse gênero de questões é preciso que façamos a experiência nós mesmos; é preciso ter provocado – e muitas vezes – o fenômeno em questão, sobre uma pessoa e num meio que se conheça bem, para poder dar um pronunciamento definitivo. Ora, em relação à ação à distância, eu fora apenas um observador passivo e devo, em consequência, fazer minhas reservas. Sem dúvida, havia constatado a sugestão mental de perto, mas vi somente uma experiência à distância que me pareceu rigorosa.

Capítulo V

Novas experiências


Voltando a Paris, fiz novas observações em duas doentes (histéricas), às quais fui obrigado a dar minha atenção.

A Srta. Z. foi magnetizada por mim devido a seus ataques histéricos complicados por um enfraquecimento e uma anemia bem pronunciados. A primeira sessão não deu nada de positivo; apenas minhas mãos esfriaram a um ponto realmente extraordinário. A doente sentiu-se um pouco melhor, mas não atribuiu qualquer ação ao magnetismo. Uma segunda sessão provocou o sono magnético, depois um ataque um pouco longo, mas a passagem da vigília ao sono e do sono ao estado normal se efetivou de maneira tão sensível que ela não acreditou no sono.

Na terceira sessão ela me disse que não acreditava no sono provocado e afirmou que eu jamais conseguiria fazê-la dormir; que se ela ficou algum tempo imóvel foi porque tal era seu desejo, mas que se ela tentasse resistir um pouco, eu não exerceria qualquer influência. Depois de alguma discussão, consenti na experiência.

Ao cabo de alguns minutos, apesar de sua resistência, ela adormeceu pela fixação do olhar, mas passou diretamente para o delírio sonambúlico, repetindo sem cessar: “Não! Eu não quero! Você não conseguirá nada!”. Pouco a pouco o delírio vira um sonho em alta voz que dura mais de uma hora. A doente permanece sentada e tranquila, só ouve a mim, mas não é de todo obediente.

Eu poderia despertá-la, mas depois do que vi convenci-me de que o despertar provocaria um ataque hístero-epilético no estado normal, ao contrário do princípio terapêutico do magnetismo. (Meu tratamento da hístero-epilepsia consiste no seguinte: transporto, por assim dizer, os ataques no sono magnético, o que os suprime pouco a pouco, até o estado normal; a cura é completa, uma vez que não se pode mais provocar um ataque, mesmo no estado sonambúlico.)

Neste momento uma dama de companhia entra suavemente na sala e olha para a Srta. Z. com admiração.

– Não me olhe. – diz esta. – Você me causa mal estar. (A doente estava com os olhos fechados e se achava a 7 ou 8 metros de distância.)

A Srta. Maria se retira assustada. Mas a doente não cessa de apostrofar:

– Não pense em mim! Você me faz mal!

Estas palavras, que poderiam ser determinadas por uma presunção e não por uma ação psíquica real, fizeram-me recordar da experiência de Gibert. Querendo pôr no leito a doente, para poder me retirar, e como ela continua insensível às minhas proposições, ensaio a inoculação psíquica inconsciente: aproximo minha fronte e digo-lhe mentalmente: “Em cinco minutos tu desejarás ir deitar”. A doente continua a sonhar e não parece nada influenciada por minha ação. Passam-se cinco minutos e ela não diz nada. Então eu a aconselho, pela segunda vez, a ir se deitar.

– Como queira – diz ela.

Deita-se na cama e depois foi obrigada a acreditar no magnetismo, uma vez que no dia seguinte não se lembrou de como fora parar ali.

A outra paciente, Srta. S., sofria de intensos ataques de histeria, mas pouco frequentes. Eu diria que se tratava de uma histeria latente, pois ela só se manifestava sob a influência de causas morais em intervalos de muitos meses. Entretanto, tratava-se da grande histeria, muito grave, com todas as fases principais, inclusive o período do delírio, que terminava em ataque.

Este durava sempre muitas horas, às vezes uma noite inteira.

A Srta. S. era muito sensível ao hipnotismo, o que explica a intensidade dos ataques.

Certa vez fiz com ela algumas experiências com cartas de baralho. O resultado foi um tanto notável; ela não adivinhava jamais completamente, mas tinha uma percepção em parte justa e sempre segundo os caracteres visuais e não auditivos. Eu imaginava, por exemplo, um dois de espadas e ela adivinhava três de espadas; eu imaginava dama de copas e ela adivinhava valete de copas. Mas tais experiências a enervavam muito. Para poder adivinhar, ela fechava os olhos, baixava a cabeça e ficava absorvida num estado visivelmente monoidéico, que lutava com as impressões ordinárias. Depois de um quarto de hora com esses exercícios, ela me pareceu muito fatigada. Interrompo as experiências e, para fazê-la voltar a si, fiz alguns passes despertadores. Errei: teria sido melhor deixá-la dormir. Momentaneamente ela ficou livre de seu enervamento e parecia bem. Mas o choque perturbou o equilíbrio normal e levou-a a um ataque.

Eu estava à mesa, fazendo minha refeição, quando vieram me dizer que a Srta. S. entrara em seu quarto, caindo em convulsão. Encontrei-a no chão, rolando-se com tal força que foi preciso um esforço acima do normal para impedir que ela batesse com a cabeça em algum objeto. Só a pressão ovariana acalmou um pouco a crise, ao menos por alguns instantes. Em tais condições é difícil fazer adormecer a paciente. A luta durou três horas inteiras, durante as quais ela tentou o suicídio, várias vezes. Falava delirantemente em todas as línguas que ela conhecia, recordando sua vida, com grande agitação. Quando começou a me obedecer eu a fiz deitar-se na cama, onde pouco a pouco sobreveio o sonambulismo lúcido. A relação era clara: ela só ouvia a mim e somente quando eu queria que ela me ouvisse, de sorte que conversamos durante todo o tempo em voz alta. O menor contato de uma pessoa estranha, mesmo através do lençol, provocava uma irritação e a ameaça de um novo ataque. Falando em estado de sonambulismo ela me tratava por tu:

– Tu precisas repousar – disse ela –, eu dormirei tranquilamente até amanhã às dez horas da manhã. A esta hora tu virás me acordar.

No dia seguinte às 9:30 entrei em seu quarto.

– Eu te ouvi chegar. – disse-me ela. – Não me despertes ainda, pois ainda não são dez horas.

– Dormiste bem?

– Sim, porque tu dormiste bem.

Achei que ela deveria adormecer profundamente por mais algum tempo. Fiz alguns passes sem contato e fui para a sala, onde passei a ler um jornal, junto à janela. De repente ouvi um barulho surdo, como se fosse a queda de um corpo. O barulho vinha da rua, mas eu tive a impressão de que ele vinha do quarto e por um momento tive receio de que ela estivesse sendo acometida por um novo ataque. Mas foi apenas por um momento, por segundos. A reflexão venceu e eu continuei lendo o jornal.

Um quarto de hora depois entrei no quarto da doente, separado da sala por outro cômodo grande e que dava para o pátio e não para a rua.

Toquei sua cabeça e notei que ela estava quente. Por quê?

– Porque tu tiveste medo de alguma coisa – respondeu ela.

– Não. – disse eu, já esquecido do pequeno incidente. – Por que teria eu medo?

– Não sei, mas tu tiveste medo e isso me deu congestão.

Acalmei-a e tentei mais algumas pequenas experiências.

– Tu me acordarás logo e eu não terei mais ataque.

– Nunca mais?

– Nunca mais. Eu não me lembrarei de nada e não será mais necessário me dizer o que se passou durante a noite. Em troca tu me darás a palavra de que nunca mais tentarás agir sobre mim à distância.

– E tu crês que isso seja possível?

– Sim, será preciso, porque isso me faz mal.

– E se eu prometer, tu não ficarás mais nervosa com minha presença?

– Não.


– Como é que tu poderás reconhecer o toque de uma outra pessoa?

– Porque é desagradável... estranho... insuportável!

A Srta. S. dormiu 14 horas seguidas, pedindo antes que eu a acordasse suavemente. Segui a recomendação e a despertei lentamente, levando 10 minutos e fazendo passes transversais sem contato.

Ela acordou, enfim, sorriu, olhou em torno e perguntou o que significava minha presença ali.

À noite ela teve dor de cabeça. Aliviei essa dor com as mãos, mas quando ela cessou, eu é que tive dor de cabeça. Fui visitar outra doente que jamais teve dor de cabeça, pelo menos segundo ela me afirmou muitas vezes.

Eu a adormeci, com dificuldade. Minha dor de cabeça passou. Meia hora depois eu a despertei.

– Vou indo muito bem, não é verdade? – disse ela (ela sofre de ataxia). Mas essa droga de dor de cabeça...

Alivio-a da dor, que afinal desaparece completamente.

(Sorrio para mim mesmo, de tal forma essas coisas me parecem bizarras e inacreditáveis.)

À noite revejo ainda a Srta. S. Ela tem de novo uma cefalalgia e minhas mãos estão secas, a pele me queima, sinto uma umidade desagradável. Molho as mãos na água fria, mas a custo dissipo seu mal por alguns minutos. De resto, não era uma dor intensa.

No dia seguinte sinto-me restaurado e dissipo facilmente, na casa de outra doente, uma hemicrania intensa acompanhada de uma febre que durou três dias; depois, ainda com um pouco de dor de cabeça, na casa de uma quarta doente. É de se notar que as minhas mãos readquiriram sua força e normalidade depois que li um livro que me agradou muito. De repente senti que a secura das mãos desapareceu.

Permito-me citar outra observação. Quando meus olhos ficam fatigados com a leitura, vou ao teatro e, então, a vista à distância me serve de repousante. Para refrescar os olhos, aplico as palmas das mãos sobre minhas pálpebras.

Ora, quando minhas mãos secam é suficiente uma cena da peça, uma frase bem dita, para que eu sinta uma emoção agradável, para que minhas mãos readquiram sua qualidade terapêutica e então, apoiando-as nos olhos, a fadiga desaparece.

Chego à casa da Srta. S.

– O que é que o senhor fez ontem às 11 horas? – pergunta-me ela.

Adivinhando uma excentricidade sonambúlica qualquer, eu lhe digo:

– Não. A senhora me diz primeiro o que sabe e depois eu direi se é exato.

– O senhor escreveu toda a noite, e não eram cartas, pois eu vi grandes folhas de papel; o senhor não leu nenhum livro, mas escreveu o tempo todo, depois, às 11 horas, o senhor se deitou mas não pôde dormir, levantou-se ainda uma vez, andou no quarto fumando um cigarro...

Aqui, uma pessoa, que esteve ao lado da Srta. S. na noite anterior, me contou que depois de se deitar, ela não fez outra coisa senão repetir:

– Ah, meu Deus, quando afinal ele irá dormir? Ele está me impedindo de repousar...

Não digo nada à Srta. S., que continua:

– Depois, enfim mais ou menos a uma hora, o senhor adormeceu e acordou às 7 horas da manhã. Não é verdade?

Tudo exato, salvo um atraso de alguns minutos quanto às 11 horas, quando na realidade eu parei às 10:45 e assim por diante. No resto, ela acertou tudo.

Acrescento aqui que a Srta. S. não conhecia meus hábitos e que eu morava a cerca de um quilômetro de distância. Era difícil, pois, explicar tudo isso como acaso. Então de que se tratava?

Eis o que posso dizer:

Sem ter tido a intenção de agir sobre ela, como aliás eu tinha prometido, tive que anotar tudo o que se passou no dia anterior, como sempre faço. Em consequência, passei toda a noite pensando nela. Como havia certos detalhes interessantes, do ponto de vista teórico, esta ocupação mental me impediu de dormir e durante todo o tempo meu pensamento se voltava para questões em que ela desempenhava o papel principal.

Quanto a ela, deitou-se normalmente e num meio sono acreditou ver tudo o que se passava em minha casa, mas ela afirmou que minha ocupação mental a impediu de dormir e que ela ficou furiosa comigo, tendo a sensação de uma dependência estranha, da qual não se podia desembaraçar. Enfim, disse que, ao acordar de manhã, às 7 horas, teve a sensação de que eu também tivesse acordado.

No dia seguinte ela também teve uma visão semelhante. Era, pois, provavelmente, um caso de “alucinação verídica”.

Na obra de E. Gurney, Myers e Podmore, redigida sob os auspícios da Society for Psychical Research, encontram-se muitos casos semelhantes, bem documentados e recolhidos durante vários anos. Esse livro tem como título Phantasms of the Living.

Acrescento somente que a Sra. M. também acreditou ver-me na conferência que pronunciei na Societé de Psychologie Physique a 25 de janeiro de 1886, onde falei de experiências feitas com ela, mas ela no caso estava prevenida. Houve, todavia, certos detalhes que ela ignorava e que acreditou ter visto no seu último sono, a saber, que falando “eu ficava oculto até o peito, por uma longa mesa verde”.

Transmissão de pensamento? Talvez.

Segunda Parte

Fatos observados por outros. – Evolução


da sugestão mental. – Analogias físicas

Capítulo I

O simpatismo orgânico


A superfície de nosso corpo é capaz de transmitir, com ou mesmo sem contato, certos estados orgânicos desse corpo a um outro corpo?

Tal é a questão.

Começaremos pelo exame dos estados físicos para passar às sensações isoladas e daí aos pensamentos.

Estudaremos, pois:

a) a transmissão nervosa física das doenças;

b) a transmissão dos estados emotivos;

c) a transmissão das sensações;

d) a transmissão das ideias;

e) a transmissão da vontade.

Depois estudaremos:

a) a sugestão mental a prazo;

b) a sugestão mental a distância.

A história do magnetismo contém um grande número de fatos, mais ou menos mal observados ou mal atestados, mas também um certo número de observações positivas que devem ser levadas em conta.

Até o momento limitei-me a contar o que eu mesmo vi, achando que nesse gênero de fenômenos é preciso que nós mesmos sejamos o observador, o ator e o crítico, para podermos admitir o testemunho de outros. De outra forma teríamos apenas que aceitar todos os fatos do magnetismo, pois todos, ou quase todos, tiveram testemunhas estimáveis. Mas a estima pessoal é uma coisa e a capacidade de observar bem e contar bem os fatos novos e inesperados é outra. De resto, ninguém se pode vangloriar de ter suficiente autoridade para fazer entrar no domínio científico um fato inteiramente novo, teoricamente isolado de todos os outros. A precaução que eu me impus e que impus ao leitor não teve outro objetivo e outro significado que o de prestar testemunho da marcha de meus estudos, do desenvolvimento progressivo de minhas convicções e, portanto, de meu método. Não estou dizendo, evidentemente, que meu testemunho vale mais do que o de outros fisiologistas. Digo apenas que ele vale mais para mim. Isso não impedirá, talvez, de os céticos da ciência oficial me acusarem de credulidade e eu seria o primeiro a compreender e a desculpar seu ceticismo. Mas isso certamente não impedirá que eu mesmo me acuse no futuro. Creio que isso é tudo o que um escritor pode fazer.

Infelizmente, não se tem tido sempre esta precaução.

O leitor quer estudar na história do magnetismo o fenômeno da sugestão mental e procura testemunhas sérias. Abre um livro sobre o hipnotismo e ali encontra zombarias sobre a sugestão mental; esses senhores jamais a estudaram, mas certificam a exatidão de suas opiniões negativas baseando-se no testemunho de outros sábios que jamais a estudaram. E, finalmente, o leitor encontra um autor sério, que crê na sugestão mental.

Tomemos o Dr. P. Despine (filho), autor de um grande tratado em três volumes sobre a Psicologia Natural. Despine publicou também nestes últimos anos um bom livro sobre o sonambulismo. Ele admite a sugestão mental, mas quanto aos fatos, nada viu, ele mesmo. Refere-se a outros autores estimáveis e sobretudo ao Dr. Bertrand, excelente observador que publicou dois volumes sobre o sonambulismo e o magnetismo (em 1823 e 1826), nos quais trata do fenômeno em questão, mas afirmando não possuir qualquer prova positiva “que pudesse oferecer experiências que seriam pessoais”.

Ele se refere principalmente aos autores dos séculos passados, ao padre Surin, “um homem de uma verdadeira devoção e a quem a maior parte de seus inimigos não se recusaram a fazer justiça, mas de uma credulidade que – segundo a própria expressão de Bertrand – “passa por tudo o que se possa imaginar”; a Poncet, autor religioso igualmente estimável, e à Sra. Guyor, a melhor testemunha possível, pois ela “lia o pensamento do padre Lacombe, seu confessor, como este lia o seu”.

Mas Bertrand diz que ele não teve fatos de sugestão mental na sua prática. Teve apenas alguns; os fatos observados pelo padre Surin e por Poncet apresentam algum valor, graças a circunstâncias particulares.

Mas se eu não tivesse outras provas senão o testemunho do padre Surin, de Poncet e da Sra. Guyon, acredita o leitor que eu publicaria um livro sobre a sugestão mental ou faria, sequer, uma menção qualquer sobre a existência do fenômeno? Jamais. Eu não o negaria também, porque jamais nego uma coisa que não conheço; mas daí a uma declaração científica de um fato tão estranho, a distância é longa.

Eis por que até aqui me limitei ao histórico do paciente. Mas hoje as coisas mudaram. Eu vi e posso, pois, acrescentar fé ao testemunho daqueles que viram a mesma coisa que eu e não será justo que eu esconda do leitor as observações que não me são pessoais. Ao contrário, vou citá-las, isto é, todas aquelas que têm um aspecto verídico, que foram bem constatadas e que apresentam uma analogia evidente com o que eu mesmo observei. Esta última reserva é desculpável, pois sem ela eu seria obrigado a citar muitas coisas inacreditáveis – ao menos no momento – e é sempre prudente avançar lentamente num terreno obscuro e desconhecido.

Comecemos por um fenômeno na aparência estranho a nosso estudo e que encontramos com frequência nos livros dos magnetizadores. Trata-se da apreciação das doenças pelos sonâmbulos e da visão pretendida dos órgãos doentes.

Diz o Dr. Bertrand que observou uma sonâmbula que dizia possuir a faculdade de reconhecer as doenças, resolvendo testá-la numa doente cujo estado conhecia de antemão. Quando a jovem doente chegou, a sonâmbula estava dormindo. Ela não a conhecia. Prossegue o Dr. Bertrand:

“Entretanto, depois de alguns minutos de contato ela pareceu respirar com dificuldade e logo sofreu todos os sintomas que acompanham uma forte crise de asma. Sua voz ficou rouca e ela nos disse que a doente era sujeita ao gênero de opressão que sua presença acabava de lhe comunicar. Acrescentou o detalhe de um grande número de acidentes e dores parciais aos quais a doente estava sujeita e que ela reconheceu com a maior precisão, em meio a sofrimentos que ela sentiu em si mesma nas partes correspondentes de seu corpo; mas o que principalmente manifestou de maneira incontestável a faculdade que tinha a sonâmbula, foi a descoberta que ela fez de uma afecção herpética, que a doente tinha, nas partes genitais. Nenhum de nós sabia disso.”

Bertrand acrescenta:

“Em geral é preciso distinguir, nas consultas dos sonâmbulos, o que eles declaram experimentar pelo contato com os doentes daquilo que eles imaginam ver no interior de seu corpo. O que eles dizem sentir merece confiança, enquanto que o que eles concluem daquilo que acreditam ver não apresenta nunca senão conjecturas isentas de fundamento e por vezes até absurdas.”

Outro caso relatado por Bertrand:

“Eu estava junto da sonâmbula que eu havia adormecido na cama, quando vi entrar um amigo, acompanhado de um pobre homem ferido, havia pouco tempo, num duelo, e que havia recebido uma bala na cabeça. Pus a sonâmbula em contato com o ferido sem lhe dizer o que havia acontecido. Então ela disse, dirigindo a palavra para si mesma: “Não, não, isso não é possível; se um homem tivesse uma bala na cabeça ele estaria morto. É provável que ele esteja enganado; ele me disse que o cavalheiro tem uma bala na cabeça”. (Ele, segundo a sonâmbula, era um ser distinto, separado dela e cuja voz se fazia ouvir no fundo do estômago. É possível que esta concepção de um ser revelador lhe tenha sido sugerida por um magnetizador espírita). Assegurei-lhe que o que ela disse era verdade e perguntei se ela podia ver por onde a bala havia entrado e que trajeto havia percorrido. A sonâmbula refletiu um pouco, abriu a boca e apresentou com o dedo que a bala havia entrado pela boca e penetrado até a parte posterior do pescoço, o que era verdade. Depois indicou na sua própria boca os dentes que haviam sido destruídos na boca do ferido. O ferido não tinha sinais exteriores e a sonâmbula não abriu os olhos depois que ele entrou no quarto.”

No seu segundo livro (Do Magnetismo Animal na França, 1826), Bertrand se exprime da seguinte maneira:

“Encontramos nas obras dos magnetizadores um grande número de exemplos desse fenômeno e eu mesmo tive ocasião de o constatar muitas vezes, de maneira a não conservar nenhuma dúvida. Creio que não há uma só pessoa, por pouco que tenha observado alguns sonâmbulos, que não os tenha visto sentir, depois de um simples contato, as dores dos doentes com os quais se tenham posto em relação. – (Bertrand emprega este termo consagrado pelo uso dos magnetizadores, nada mais acrescentando, pois ele não admite o “fluido magnético”).

A impressão que eles recebem é, em geral, momentânea e é raro conservarem ao despertar os sintomas que lhes são comunicados durante o sono.”

Em agosto de 1825 o Dr. Foissac endereçou à Academia de Medicina uma carta na qual anuncia da seguinte maneira o fenômeno da transmissão das dores:

“Pousando sucessivamente a mão na cabeça, no peito e no abdômen de um desconhecido, os sonâmbulos descobrem as doenças, as dores e as alterações diversas que elas ocasionam!”

Foissac exagera o instinto diagnóstico apresentando-o como regra geral, o que não é senão um fenômeno mais ou menos raro. Os poucos sonâmbulos que ele teve a oportunidade de encontrar inspiraram-lhe uma confiança sem limites, que se dissipou logo, numa prática um pouco maior.

“Embora seja prometer demais – escreve ele –, não hesito em fazê-lo. Não há doença aguda ou crônica, simples ou complicada, e eu não faço exceção das que têm sua sede em uma das três cavidades esplâncnicas, que os sonâmbulos não possam descobrir e tratar convenientemente; mas não se dá da mesma maneira que com as que têm sede nos membros e na superfície do corpo, se elas não excitarem uma reação geral, ou não perturbarem nenhuma função essencial.”

Esta restrição é interessante, sobretudo partindo de um entusiasta competente. Foissac reconhece que, para que possa ter lugar a comunicação dos sintomas, estes devem proceder de uma perturbação do equilíbrio vital pronunciado e profundo. E se os sonâmbulos também não avaliam bem as perturbações locais “dos membros e da superfície do corpo” é porque a faculdade de que se trata aqui não consiste em ver ou, como ele mesmo se exprime, em “ler na estrutura íntima dos órgãos mais ocultos”, mas se trata mais da faculdade de sentir as perturbações de um sistema nervoso desequilibrado. É preciso que essa perturbação seja um tanto profunda, para atuar sobre o sonâmbulo; como uma mudança elétrica num corpo condutor reage sobre um galvanômetro distanciado.

Foissac, pleno de confiança, propõe à Academia uma pesquisa científica.

“Tomai – disse ele –, na cidade, no birô central ou nos hospícios, três ou cinco doenças das mais caracterizadas. Elas formarão o objeto de uma primeira prova; fareis escolher as mais complicadas e as mais obscuras. Os sonâmbulos farão brilhar sua sagacidade em razão das dificuldades. Estas experiências serão renovadas tantas vezes quantas convier, para dar-nos inteira convicção. Comissários nomeados por vós seguirão os detalhes, farão seu relatório, ao qual acrescentarei o meu. Se não vos satisfizerdes com suas operações, escolhereis outros. O mesmo direito caberá a mim. A verdade não poderá escapar de pesquisas tão rigorosas.”

Certamente. Só que é raro que uma Academia se interesse por uma verdade nova. A carta do Sr. Foissac nem sequer foi lida pela Academia. Foi o secretário quem a leu, comunicando aos outros o conteúdo.

Depois de longa e acalorada discussão, a Academia nomeou uma comissão incumbida de fazer um relatório sobre a questão... “de saber se convém ou não que a Academia se ocupe do magnetismo animal”.

Quatro meses depois, a 13 de dezembro de 1825, o relatório, elaborado por Husson, foi lido para a Academia. A comissão concluiu a favor do exame.

Mas somente depois de várias sessões indecisas é que uma comissão de onze membros, todos incrédulos, foi autorizada a começar o exame. Isso em 14 de fevereiro de 1826.

A comissão fez experiências durante cinco anos e seu relatório, afinal, foi apresentado à Academia pelo mesmo Dr. Husson a 28 de junho de 1831. Ele era inteiramente favorável ao magnetismo e confirmou, mesmo, a ação à distância.

Quanto à questão que nos interessa, a comissão relatou numerosas experiências, tendo como objeto a sonâmbula Srta. Celina Sauvage. A respeito das mesmas, o relator concluiu:

“1º) que no estado de sonambulismo a Srta. Celina indicou as doenças de três pessoas com as quais se pôs em rapport (relação);

2º) que a declaração de uma, o exame que se fez da outra, depois de três funções e a autópsia da terceira, coincidiram com aquilo que a sonâmbula havia antecipado;

3º) que os diversos tratamentos que ela prescreveu não ultrapassam o círculo de remédios que ela pudesse conhecer, nem da ordem de coisas que ela pudesse razoavelmente comandar.”

Foissac teve a oportunidade de tomar a palavra. Imagina-se facilmente a emoção produzida na Academia com a leitura desse relatório. Raramente ouvimos uma prestação de contas com tão numerosas observações, tão imparcial, tão clara e tão prudente. Explodiram aplausos. Mas, quando se tratou da questão de fazer imprimir o relatório, ergueu-se o medo pelo prestígio da Academia. “Se a maior parte dos fatos consignados neste relatório fossem reais – disse Castel –, eles destruiriam a metade dos conhecimentos fisiológicos e seria perigoso propagar estes fatos imprimindo-os...”

Já estava quase decidido seguir este conselho, quando Roux teve a feliz ideia de propor um termo médio. Em consequência, o relatório não foi impresso, mas foi autografado.

Pelo relatório verificou-se que a sonâmbula apresentou um caráter um pouco diferente das observações que fiz precedentemente. A sonâmbula em questão não sofre as dores que ela examina, ela as percebe somente como se fossem alguma coisa palpável; ela as tateia, por assim dizer, sem assumi-las.

Esta diferença decorre da existência de dois tipos, um pouco diferentes, da percepção dos sonâmbulos. A base, entretanto, é a mesma e é sempre a possibilidade de transmissão nervosa que a constitui; é, todavia, necessário distinguir entre uma transmissão imitativa ou imaginária, que não tem qualquer relação com a sugestão mental, e uma transmissão física que lhe serve de base e que pode ser mais ou menos pronunciada.

“A maior parte dos sonâmbulos – diz o Dr. Charpignon – sentem as dores das pessoas com as quais se põem em rapport (relação). Esta sensação é fugitiva e não deixa traços ao despertar, se se rompe a rapport (relação). Se é o magnetizador que sofre, a sensação é das mais vivas e ela persiste depois do despertar. Se se continuar durante muitos dias a magnetizar nessa disposição doentia, acaba inoculando-se nesses sonâmbulos impressionáveis a mesma doença. Deve-se, pois, ser muito precavido nesse ponto e estender a prudência até às afecções da alma, pois pode ser terrível a influência de um espírito agitado em certos sonâmbulos.”

Depois ele acrescenta:

“Esta identificação dos dois sistemas nervosos produz, às vezes, o fenômeno da imitação; assim, quando o magnetizador tosse, o sonâmbulo repete seu ato; se ele toma rapé, ele espirra; se se pica ou belisca, o sonâmbulo sente as mesmas dores.”

Há, nessa passagem, uma confusão de três fenômenos diferentes:

1) imitação dos movimentos;

2) hiperestesia do olfato;

3) transmissão das sensações.

Evidentemente, na prática esses fenômenos se associam com frequência e aí reside uma das dificuldades das experiências, ao mesmo tempo em que aparece um indício para a teoria do “simpatismo”.

A palavra simpatismo, empregada às vezes por Charpignon, me parece bem escolhida e eu a emprego para definir os fenômenos de comunicação direta e instantânea das dores e de outras sensações subjetivas, dos sentimentos e dos estados emotivos, com exclusão dos fatos da imitação pela vista e pelo ouvido, aos quais se poderá dar o nome de “imitacismo”. O imitacismo relativo às doenças e não aos atos toma o nome de contágio psíquico, ao passo que os fatos de transmissão das doenças, transmissão quase sempre mediata e retardada, poderão ser considerados como pertencentes ao contágio nervoso propriamente dito, ou contágio nervoso físico.

O simpatismo físico pode ser subjetivo ou objetivo. Ele é subjetivo entre os sonâmbulos que sentem as dores que descobrem. Ele foi objetivo no caso da Srta. Celine.

Capítulo II

Simpatismo e contágio


Os sonâmbulos da segunda categoria não se contentam em “entrar em rapport” (relação) com o doente, tocando sua mão ou mesmo ficando simplesmente frente a frente com ele por alguns minutos, tocando a mão em muitos lugares e passeando suas mãos pelo corpo, com certa atenção.

Pode esta manobra dar ao sonâmbulo algumas indicações reais sobre o estado patológico?

Eis a questão. Compreende-se sua importância, porque, desde que se possa provar que na superfície do corpo e mesmo a uma certa distância os incômodos mais ou menos profundos, mais ou menos invisíveis, se manifestam de maneira desconhecida, a ciência deverá se apoderar desta preciosa descoberta e pesquisar para tirar partido.

É a primeira vez que ouço falar desse fenômeno, que já conheço há uns cinco ou seis anos.

Passo a expor, em poucas palavras, minha opinião.

Há sete anos um velho magnetizador, que já não mais magnetizava, doente, me disse:

– Você não receia estar se prejudicando magnetizando tanta gente?

– E por quê? Sinto-me bem e posso suportar o cansaço.

– Não se trata de cansaço – respondeu ele –, mas é que você recebe todas as emanações dos doentes, todos os fluidos malsãos.

Eu ri. Não acreditava e nem acredito em fluidos. Mas hoje admito uma certa ação física, ao passo que naquele tempo eu confundia magnetismo com hipnotismo.

É verdade que na época eu magnetizava poucos doentes, quase nada; fazia minhas experiências em pessoas saudáveis e foi alguns meses mais tarde que uma circunstância me fez conhecer o valor terapêutico do magnetismo, levando-me a fazer pesquisas nesse caminho.

Mas durante todo o ano seguinte, tendo já magnetizado muitos doentes, eu ainda não havia observado nada de análogo ao que me dizia o magnetizador e ao que me lembrava de ter lido em certos livros.

E, na realidade, não foi em um doente que fiz minha primeira observação no gênero.

Estávamos no campo. O conde P., que vira minhas experiências em camponeses, pediu-me que as fizesse com ele.

Não pude adormecê-lo, mas ele acreditou sentir muitas sensações claras. Eu não disse nada, a fim de não influenciar sua imaginação, mas tive, eu mesmo, ao magnetizar, uma particular sensação nas minhas mãos, coisa que jamais eu havia observado. Esta sensação consistia em um sopro frio, quando eu passeava minha mão sobre seu corpo. Às vezes a sensação era tão forte como se alguém soprasse entre meus dedos. Foi num desses momentos que ele exclamou:

– Oh, diabo de corrente!

Passamos a estudar o fenômeno. Devo mencionar que o conde estava bem de saúde, mas esgotado porque passara várias noites em claro vigiando seu sobrinho doente.

Comecei, pouco a pouco, a ver nesse fenômeno uma causa real. De início, fui obrigado a reconhecer que se tratava de algo mais ou menos independente do calor.

Eu tive uma doente, anêmica no mais alto grau, que achava minhas mãos quentes, mesmo quando elas estavam geladas, ao passo que ela me dava a sensação de frio, apesar do calor de sua pele ao contato direto.

Com uma outra, igualmente debilitada, eu tinha a mesma sensação e, desta vez, com uma perda real do calor, pois minhas mãos tornavam-se muito frias em poucos minutos.

De hábito, era o contrário que acontecia: minhas mãos se aqueciam durante a magnetização e eu ficava com uma sensação de secura.

Uma outra, tuberculosa, me dava a sensação de um vento frio, somente na altura dos pulmões.

Uma outra, atáxica, tinha uma sensação fria à esquerda e quente à direita e eu tinha uma sensação muito nítida de um lado; uma de suas pernas tirava, como uma corrente de ar em minhas mãos, enquanto que a outra perna não tirava, ou pouco menos.

Pouco a pouco eu reconhecia que esse fenômeno ocorria com muitas outras pessoas doentes ou debilitadas, e que às vezes tinha condições de reconhecer o grau de debilitamento de um órgão. Devo acrescentar que se o órgão tivesse paralisia completa e antiga, eu não o sentia, e que a sensação era errada.

Tive algumas observações muito estranhas de sopro, sensação circunscrita ao trajeto de um só nervo afetado, mas não chegava a um encadeamento lógico dos fatos.

Em troca, constatei um outro gênero de sensações que me deu resultados positivos. Eu curei a dor de cabeça de algumas centenas de pessoas pela simples imposição das mãos. Apesar da simplicidade do procedimento, esse fenômeno é complicado, razão pela qual deixo de abordar aqui sua teoria. Duas coisas, todavia, são certas: primeiro, que por esse meio, velho como o mundo, eu curo uma dor de cabeça, 80 vezes em 100, no espaço de poucos minutos; segundo, que frequentemente posso indicar o momento exato em que a dor fica mais fraca e desaparece sob as minhas mãos.

Eis como: a cabeça que sofre pode ser quente ou fria e todo o mundo sabe que uma dor de cabeça pode ser ocasionada por muitas causas diferentes. Mas independentemente dessas diferenças, uma característica só perceptível para os que têm o hábito de observar fica quase constantemente, a saber: uma sensação de aquecimento nas mãos se a dor desaparece, e a falta dessa sensação, se a dor persiste.

Esse fenômeno pode ser observado não apenas na cabeça mas em toda a superfície do corpo e, principalmente, no epigástrio. Se uma dada superfície da pele cobre um órgão sadio, o aquecimento subjetivo deve começar logo depois da imposição das mãos e chegar ao máximo em alguns minutos.

Algumas pessoas, às quais comuniquei esta observação, puderam constatá-la mais ou menos facilmente; mas não posso garantir que ela apresente em todo mundo o mesmo caráter ou a mesma clareza.

Passo por cima dos detalhes e das exceções porque não estou escrevendo um tratado médico, limitando-me a constatar que no futuro a faculdade de diagnosticar um mal invisível pela aproximação da mão torna-se teoricamente possível. Ela pode ocorrer simplesmente pela reação calórica até aqui negligenciada pela termometria médica.

Conhecem-se as relações íntimas que existem entre certas doenças e a temperatura superficial. Os estudos de Mantegazza demonstram que as dores em geral baixam a temperatura; as pesquisas de Charcot nos ensinam a distinguir a hemorragia cerebral do amolecimento do cérebro com a ajuda das indicações termométricas e Williams pretende que, segundo a temperatura observada, pode-se dizer a que categoria das doenças pertence um idiota. Já Hipócrates dizia: “O ar expirado que sai frio da boca e do nariz é um sinal mortal.”

Se assim é para as indicações gerais, torna-se provável que os índices detalhados, mais específicos, poderão dar uma ideia mais ou menos exata do estado patológico do organismo, dos quais os sinais termométricos estão longe de ser os únicos. As reações elétricas entram necessariamente em jogo. Eu mesmo fiz alguns estudos, encontrando, entretanto, alguns pontos obscuros.

O que é um pouco melhor conhecido e que se liga intimamente às apreciações das doenças pelos sonâmbulos são as emanações materiais odoríferas.

Aqui não se deve deixar induzir em erro pelas aparências. Os sonâmbulos parecem servir-se unicamente do toque ou de uma transmissão tátil à distância, mas eu constatei que eles se guiam também inconscientemente pelas sensações olfativas. O olfato é o sentido do inconsciente, assim como a vista é o sentido da consciência e o tato seu mestre comum.

A civilização sufocou esta ciência, ao mesmo tempo profunda e vasta, que os animais devem ao olfato; mas o sonambulismo e certos estados mórbidos dão-lhe seu valor. Não se deve esquecer que se o hipnotizado pode ficar insensível, respirando amoníaco, ele também pode, um momento depois, sentir vivamente o odor de uma maçã a muitos metros de distância. Ora, é certo que nossas individualidades, nossos estados patológicos, mesmo nossos sentimentos, se traem por um odor especial que não percebemos conscientemente, mas que age sobre o olfato, deixando traços inconscientes no cérebro que se associam, por sua vez, com o estado que os provocou. E, em vista da lei da reversão psíquica, a sensação “a” pertencente ao estado “A” pode reproduzir este, como este pode reproduzir aquela.

A maior parte das doenças têm seus odores especiais que, marcando o grau da evolução patológica, podem mesmo conduzir a um prognóstico frequentemente certo. “No quarto de uma parturiente o odor ácido indica que tudo vai bem, que o trabalho da secreção láctica se inaugura. Ao contrário, o odor amoniacal fará temer a iminência da síndrome mórbida conhecida pelo nome de febre puerperal.” É o que nos diz o Dr. Vidal (de Cassis) no seu Tratado de Cirurgia.

É mesmo possível que certos estados psíquicos se revelem da mesma maneira, pois não resta a menor dúvida de que a exalação cutânea sofre alterações marcadas pela influência de muitas emoções. “A ação do sistema nervoso no perfume cutâneo – diz o Dr. Monin – é muito importante. Frequentemente as excitações morais, as paixões depressivas, as neuroses, o exalam ou o modificam.” Gamberini cita o fato de um jovem que depois de um amor contrariado e de ciúme violento, exalava de todo seu corpo um odor fétido muito forte. Eu mesmo observei uma histérica na qual a aproximação de um ataque se traía por um odor de determinado queijo. Há inúmeros outros casos observados nesse sentido. O que, segundo Hammond, o odor de santidade não é uma simples figura de retórica: é a expressão de uma santa neurose, perfumando a pele de eflúvios mais ou menos agradáveis, no momento do paroxismo religioso estático.

Os estados mentais diferentes, exprimindo-se por intermédio de uma ação do sistema nervoso, podem determinar um odor cutâneo especial. O odor exalado pela pele nas doenças mentais, odor assinalado em 1862 por Dagonet, foi estudado por Fèvre no seu trabalho sobre as alterações do sistema cutâneo na loucura. Diz ele textualmente que o odor do suor entre os alienados tem emanações especiais sui generis, penetrantes e infectos; esse odor se encontra sobremodo entre os paralisados gerais e os dementes confirmados. Ele se impregna nas vestes, nos móveis, assim como nos quartos ocupados pelos alienados. Esse odor na loucura é tão característico que Burrows afirma que quando ele o sente numa pessoa, “não hesita em declará-la alienada, mesmo que não tenha outra prova” (!).

Essa exalação patológica pode mesmo ser localizada e ocupar um território da pele correspondente aos problemas internos. É compreensível também que a maior parte das profissões deva ter seus odores especiais. E que os tenham as doenças.

Na gota, as secreções cutâneas tomam um odor especial, comparado por Sydenham ao soro do leite. Ele é almiscarado na icterícia (Boerhaave); avinagrado na opilação do baço (Winslow); insípido na sífilis (Cullerier); urinoso nas doenças urinárias (cistites); no diabético o odor, quando ele sua, é da acetona (Picot). Ele é amoniacal na cólera (Drasch, Porker); ácido na chamada febre de leite; doce no período da invasão da peste (Diemerbroeck); odor de mel, segundo Doppner, que observa a peste em Vetlanka; odor de ácido fórmico no reumatismo, sobretudo ao nível das articulações enrijecidas (Monin).

Será difícil garantir a exatidão ou, ao menos, o valor prático de todas essas asserções. Elas, entretanto, são suficientes para mostrar que há uma base material para as apreciações misteriosas dos sonâmbulos, não somente do ponto de vista do diagnóstico, mas também para o prognóstico das doenças. Fica evidente que a doença não acaba na superfície do corpo; ela a ultrapassa.

Eu já mencionei as sensações que prova às vezes o magnetizador, quando toca no doente. Não fui o primeiro a observá-las. Nada de novo no hipnotismo! Cem anos antes de mim essas sensações foram descobertas e estudadas por um fisiologista e físico, já completamente esquecido. Ele se chamava Bruno e foi introdutor de embaixadores junto ao conde d’Artois, irmão do rei. Escreveu dois volumes sobre o magnetismo animal, sem publicá-los. Morreu em 1818. Nessa época, sendo o magnetismo animal desacreditado pelos legitimistas da ciência, a família do morto não quis autorizar a publicação dessa obra; mas trechos dela se tornaram conhecidos.

Há coisas extraordinárias nas experiências de Bruno, que eu não saberia garantir. Parece que ele mesmo foi sensível e pode ser que a imaginação complementar não tenha sido de todo estranha ao que ele acreditava ter observado; mas como há uma certa analogia entre essas observações e as minhas, embora eu não seja hipnotizável, farei algumas citações. Diz Bruno:

“Se a natureza dotou aquele que magnetiza de certa delicadeza na sensibilidade dos nervos, ele sentirá exteriormente uma grande parte dos movimentos irregulares que têm lugar na pessoa magnetizada, as sensações serão para ele indicações seguras do trabalho que a natureza opera no doente. É verdade que todas as pessoas não são dotadas dessa sensibilidade e que esta nem sempre tem o mesmo grau de delicadeza na mesma pessoa. Graças à minha organização natural, tenho uma sensibilidade que se aperfeiçoou pelo uso habitual. Devo muito a esse uso e à atenção que dedico às minhas sensações. Se cada um fizesse o mesmo, esta propriedade se tornaria muito comum e poderia se desenvolver em alguns indivíduos uma delicadeza de sensações que pareceria bem mais extraordinária ainda do que tudo que posso relatar sobre as minhas.”

“As sensações – afirma ele – variam segundo o estado da pessoa que você magnetiza. Você sente, por exemplo, que o sopro que se projeta nas suas mãos é quente. Esse calor tem nuances que o hábito ensina a distinguir; elas consistem em um calor mais ou menos elevado, mais ou menos seco. Às vezes ele seca as mãos. Tenho o costume de umedecê-las; faço-o para conservar a sensibilidade de minhas mãos, pois ela diminui com a secura.

Em outras circunstâncias você provará sensações de frio e esse frio também tem graduações. Às vezes são titilações muito leves que se fazem sentir na extremidade dos dedos; outras vezes são comichões, entorpecimentos. Sente-se também estremecimentos nervosos. Uma sensação de frio indica quase sempre uma obstrução, uma atomia. Um calor seco indica tensão nas fibras; um calor suave e úmido é sintoma favorável, que anuncia uma circulação mais livre e às vezes uma evacuação.”

Os formigamentos nos dedos indicam a existência de bile e de um sangue ácido; o entorpecimento da mão, dos dedos e de suas extremidades indica um defeito na circulação. O magnetizador sente às vezes um movimento de flutuação nos dedos, o que lhe indica que se está operando um movimento sanguíneo no doente.

Além dessas sensações nas mãos, Bruno também tinha sensações simpáticas em todo o corpo, de forma a, às vezes, sentir em si as dores dos doentes colocados perto dele ou mesmo a alguma distância.

“Conheço um homem – diz Deleuze, em sua obra Instrução prática sobre o magnetismo animal – que sente o mal daqueles que ele magnetiza, experimentando antecipadamente e, às vezes de maneira muito dolorosa, as crises que eles logo deverão sentir.”

Geralmente imagina-se que o contágio é sempre material. É um erro. Há duas espécies de contágio:

1º – O contágio material, que podemos ainda subdividir, mas que aqui não nos interessa. Seus agentes são os parasitas visíveis, os micróbios, os líquidos virulentos e os miasmas (eu ficaria muito embaraçado se me perguntassem o que é isso, mas afinal suponho que são gases deletérios).

Salvo os casos de comunicação direta do parasita ou da introdução direta do vírus no sangue, esse contágio jamais é inevitável; mas as pessoas não hipnotizáveis são a ele sujeitas da mesma forma que as hipnotizáveis.

2º – O contágio nervoso, que é duplo:

a) contágio nervoso psíquico (imaginação, imitação, ideoplastia) que poupa um grande número de pessoas (cerca de 70 sobre 100), mas que se manifesta em um número maior de doenças ditas contagiosas ou não, mas sobretudo nas doenças nervosas do sistema cérebro-espinhal e ganglionar;

b) o contágio nervoso físico (comunicação quase sempre por contato, mas quase unicamente depois de uma relação dita magnética); ela pode se aplicar a diferentes doenças, na maior parte não contagiosas materialmente, mas sobretudo a estados de esgotamento, males e dores.

É evidente que essas três categorias de contágio se combinam na prática, sobretudo as duas primeiras. A terceira pode ser considerada como relativamente insignificante na prática habitual. Ela tem, entretanto, para nós, uma importância teórica capital, já que esse ponto de vista constitui a base do simpatismo em geral, e da sugestão mental em particular.

Infelizmente, porém, estamos ainda longe de compreender esta base, que sustenta outros fenômenos ainda mais delicados. Todavia, é preciso fazer o possível para chegar a uma apreciação justa.

Examinemos primeiro o inverso da questão.

Se a doença se transmite por contágio nervoso, a saúde deve poder fazer o mesmo. Na verdade, uma e outra só experimentam uma relação; não são seres, são estados apenas. A saúde representa a harmonia das funções que mantêm o equilíbrio diante das influências do mundo exterior. A doença quer dizer o contrário, isto é, uma desarmonia das funções que não se opõem suficientemente às influências do meio ambiente. Se assim é, a saúde deve então ser, por assim dizer, mais contagiosa, pelo contato físico, do que a doença, uma vez que é mais expansiva, reage melhor. Falamos do ponto de vista físico, dinâmico.

Abstração feita do contágio material e do contágio nervoso psíquico, uma pessoa forte faz mais bem do que uma pessoa fraca faz mal.

Isso que chamamos de magnetismo animal, enquanto ação física, não é senão um contágio de saúde e de força. E, em suma, aquele que é magnetizado ganha mais do que perde aquele que magnetiza. Aqui a analogia com o ímã é completa.

E se a ação magnética em geral pode ser considerada como contágio, a sugestão mental o é também, de um modo mais evidente ainda.

Todos os corpos aproximados tendem a equilibrar seus movimentos moleculares. Trata-se de uma lei compreensível compatível com todos os nossos conhecimentos e fáceis de se verificar em muitas categorias de fenômenos. Por que os corpos orgânicos seriam excluídos, eles que são centros de ação muito mais vivos, muito mais expansivos do que os corpos brutos? Além disso, entre esses movimentos moleculares, engendrados, isto é, transformados no seio do organismo, ele existe e a dúvida aqui não é possível. O calor está nesse caso. A eletricidade também, embora de modo menos evidente. Estas duas forças, isto é, estas duas categorias do movimento molecular não podem ficar circunscritas por uma superfície qualquer. O calor e a eletricidade escapam constantemente de todos os pontos e seria insensato supor que, se reagem sobre o meio ambiente, evitam os outros corpos orgânicos e permanecem indiferentes.

Ora, o calor animal e a eletricidade animal, sozinhos, bastam para explicar um grande número de fenômenos magnéticos. Sua fraqueza física nos enganou durante muito tempo. Imaginava-se que, para produzir um efeito fisiológico, eram necessários “pontos de fogo” ou baterias elétricas que contraem os músculos. Ora, o calor da mão é muito mais eficaz do que os pontos de fogo e a metaloscopia, a ação do ímã e das correntes elétricas muito fracas, muito mais eficazes do que a das correntes fortes. Quanto mais um remédio se aproxima dos agentes normais do organismo, mais ele atua. E, evidentemente, nada se aproxima mais das correntes internas, que regem a harmonia das funções, que estas próprias correntes, num organismo semelhante e melhor equilibrado. Não vejo nisso nada de extraordinário. Ao contrário, devia causar-nos espanto se a presença de um corpo vivo, isto é, de um complexo de vibrações e de correntes, ficasse sem influência em um outro complexo semelhante. O que é menos claro, no estado atual de nossos conhecimentos, é esta afinidade específica das vibrações de certos órgãos por eles apenas, é a transmissão de um nervo para um nervo semelhante, em um outro corpo. Mas isso não é senão consequência de nossa ignorância. E depois, em dois pianos vizinhos as cordas semelhantes não vibram de modo semelhante? Se de dois fios vizinhos apenas um é percorrido por uma corrente elétrica, uma corrente análoga em sentido inverso não nascerá neste segundo fio, por indução? Portanto, há uma afinidade de natureza, e não há razão para que um nervo, perturbado nos seus estados moleculares, não atue por indução, principalmente sobre um nervo semelhante.

Sem entrar nessas questões de simpatismo eletivo das partes, é claro que todas as mudanças orgânicas podem se reduzir a mudanças para mais ou para menos; é claro, repito, que a energia, cuja intensidade é normal, atuando sobre muitas partes associadas, das quais algumas têm um excesso e outras uma falta de energia, tenderá a igualar suas tensões, isto é, a restituir o equilíbrio e, inversamente, uma associação de energias desiguais provocará uma ruptura de equilíbrio análoga, numa associação análoga.

“Todo ser vivo – diz Jussieu – é um verdadeiro corpo elétrico, constantemente impregnado desse princípio ativo, mas nem sempre na mesma proporção. Uns mais, outros menos. Daí concebermos que ele deve ser impelido para fora por uns e atraído ou reaspirado evidentemente pelos outros; que a vizinhança daquele na qual ele abunda é aproveitável àquele que tem falta. A coabitação da criança com o velho é útil a este e nociva àquela. Os vegetais errantes, próximos de viveiros, são vigorosos e frescos; mas vizinhos das grandes árvores, eles secam e morrem.”

O que Jussieu diz da eletricidade se aplica igualmente a todos os movimentos moleculares e a todos os estados orgânicos, embora essa influência possa não ser visível senão depois de uma transformação múltipla, devido à influência do meio.

O fato da transmissão fisiológica entre o corpo de uma criança e de um velho pode ser empiricamente constatado? Até o momento a ciência moderna não se tem ocupado destas questões; mas a ciência antiga achava isso muito natural e a tradição dos povos o consagrou. Contaram-se muitos casos de cura, sobretudo em doenças reumáticas, efetuadas unicamente por contato de pessoas ou mesmo de animais jovens e sadios. Em um dos casos, extraordinário demais para ser citado como prova, as galinhas serviram de remédio e elas morreram depois de terem curado o doente! Menciono este fato apenas para chamar a atenção para o que se passa todos os dias no campo e os médicos, talvez, se enganem ao desdenhá-lo.

Enumeremos os fatos que acabamos de examinar:

1) Transmissão do esgotamento, de uma fadiga nervosa causada por uma doença grave qualquer ou por um estado análogo. Essa transmissão é comum, frequentemente em proveito do doente.

2) Transmissão da saúde e das forças, ação reguladora de um organismo bem equilibrado sobre um outro que não é. Esta ação é ainda mais comum e ela se efetua à custa do transmissor.

3) Transmissão fraca das dores e de outros sintomas análogos que permitem apreciar o estado do doente, quer por uma sensibilidade excepcional do toque e do olfato, quer por sensações simpáticas análogas, em órgãos análogos.

4) Transmissão forte das dores e de outros sintomas patológicos, que comunica uma doença análoga aos pacientes momentaneamente hiperestesiados, de maneira a produzir um estado patológico mais ou menos durável. Essa transmissão é rara, à exceção do contágio material do nervo psíquico.

Capítulo III

Transmissão dos estados emotivos


Passemos agora ao quinto grupo: transmissão de sentimentos e de estados emotivos em geral. Estas transmissões são um tanto comuns, só que se efetuam raramente por “influência” pura e simples, no sentido eletrotécnico do termo. Mais frequentes, as percepções ordinárias dos sentidos, da vista e da audição ajudam a comunicação direta, por induções maquinais, mais ou menos inconscientes. Sabemos como é fácil adivinhar o estado mental de uma pessoa conhecida pela expressão de sua figura e o timbre de sua voz.

Como é a transmissão direta que nos interessa, examinaremos sobretudo os fatos nos quais outras influências são mais ou menos eliminadas.

No fato seguinte, a influência da imaginação não está excluída, mas ela é pouco provável. Tomo este fato de um magnetizador conhecido, o Sr. Lafontaine, cujas conferências experimentais feitas em Manchester suscitaram a Braid a ideia primeira de suas descobertas:

“Certo dia, magnetizando um de meus amigos, Devienne, pintor, obtive um efeito apropriado para fixar a incerteza sobre a existência e a comunicação do fluido vital. Devienne sofria de uma dor de cabeça que o impedia de trabalhar. Ele me propôs que eu o aliviasse. Consenti, mas com a condição de que ele me desse um copo de vinho de Bordeaux, pois eu estava fatigado. Ele se apressou em satisfazer meu desejo; comi um biscoito, tomei um copo de vinho e comecei a magnetizar. Concentrei toda minha ação no cérebro e no estômago, colocando as mãos sobre esses dois órgãos e, sempre magnetizando, tomei outro copo de vinho. Meu doente tinha os olhos fechados sem poder abri-los; mas ele não dormia. Depois de uma hora de magnetização, a dor de cabeça desapareceu, mas meu amigo estava numa alegria fora do comum, como se tivesse bebido. Eu o desliguei prontamente e, para minha admiração, o efeito continuava. Suas pernas se sustentavam a custo. Ele não havia tomado nada e eu só tinha bebido dois copos de vinho, sem sentir qualquer efeito. Meu fluido estava, pois, carregado de partes espirituosas contidas no vinho e eu as transmiti ao doente sem que restasse qualquer traço em mim.”

Ao lado desse relato eu coloquei, há alguns anos, um ponto de exclamação. Hoje eu não acho o fato impossível. É interessante que o álcool se tenha transmitido diretamente, sem ter produzido um efeito marcante no magnetizador.

Lafontaine conta que na sua prática e na de outros magnetizadores ele encontrou não só esse fato de transmissão de sensações físicas, mas também de sensações morais, o doente ficando triste ou alegre, se o magnetizador estivesse indisposto ou preocupado. Nem sequer era necessário que os doentes fossem adormecidos para provarem esses diferentes efeitos físicos e morais; bastava que fossem magnetizados.

Devo assinalar que no caso de Devienne a transmissão teve lugar num estado intermediário entre o sono e a vigília. Ora, lembremos que, no caso da Srta. M., que sentia o estado moral das pessoas que a cercavam, esse fenômeno se manifestou sempre no momento de despertar. Isso, porém, não impede que, sendo o sonambulismo um estado muito variável, muito elástico, as condições do monoideísmo possam ser realizadas momentaneamente e, então, o mesmo fenômeno pode ter lugar.

Baragon observou um caso análogo em que uma jovem que ele magnetizou ficou embriagada. Entretanto, ele mesmo não estava nesse estado, mas tinha bebido. Pelo efeito da transmissão, produziu-se embriaguez numa jovem delicada, eminentemente mais sensível que um homem aos efeitos do álcool.

Trata-se também de um caso de transmissão involuntária, com a aparência de uma amplificação, devido à sensibilidade do sujeito. Mas é provável que, nesse caso, o contágio psíquico tenha desempenhado um certo papel, isto é, que a paciente imaginou ter um caso com um bêbado e que em um momento monoidéico esta ideia se realizou nela mesma por ideoplastia.

“A transmissão das sensações – diz o mesmo autor – se estende aos dois outros seres por uma harmonia geral e simpática. As impressões morais, de despeito, de cólera, de alegria, serão perceptíveis ao segundo, se elas afetarem o primeiro. Este organismo, todo ele subjugado, corpo e espírito, provará, melhor ainda do que eu, que o domino, as delicadas variações da opinião que podem ter as pessoas que me cercam sobre mim, nas minhas experiências, no magnetismo; e isso porque, sentindo uma a uma todas as minhas sensações, ele as analisa melhor do que eu mesmo, no recolhimento que lhe permite sempre esta semi-separação da matéria.”

Sem falar da “separação da matéria”, que não é apenas uma frase, reconheceremos que o sujeito pode sentir-se relativamente melhor por duas razões: primeiro porque ele está hiperestesiado e segundo porque ele está isolado. Hiperestesiado, isto é, como se um excitante insuficiente para mim, pode ser incômodo para ele. Não há amplificação real nas transmissões nervosas, como em qualquer transmissão; mas às vezes tem a aparência de uma amplificação, como, por exemplo, no último caso da embriaguez transmitida. É como se se tratasse de um peso que suportamos muito bem e que passamos para outra pessoa, fraca demais para suportá-lo. Ele está isolado, isto é, ele não está distraído; ele percebe melhor o que está em relação com a esfera de suas ocupações momentâneas e compreende melhor que nós o que significa uma entonação de voz, uma pequena risada, uma palavra que escapa de alguém. Ele não tem necessidade de “analisar” as sensações; é suficiente, para ele, sofrer a ação das associações baseadas na experiência inconsciente.

Sei que Baragnon objetará que o sujeito, estando isolado, não pode ouvir aquilo que fazem as pessoas estranhas. Mas é ainda um fenômeno complicado. O sujeito não ouve senão o seu magnetizador, o que quer dizer que ele responderá somente às suas perguntas e pode-se mesmo dizer que ele realmente não ouve, no sentido exato da palavra. Mas engana-se quem acreditar que as sensações auditivas estranhas permanecem completamente sem ação. Elas entram no cérebro e é então que se produz um fenômeno que chamarei de audição latente; as impressões assim entradas (não digo percebidas) se associam, como todas as outras, se combinam e dão resultantes que, em dado momento, podem aparecer entre os outros estados mais intensos.

A lucidez (e eu não digo clarividência, mas lucidez como faculdade de refletir), aquela que é própria do sonambulismo ativo, deve ser considerada como inconsciente devido ao esquecimento completo ao despertar e as sensações latentes que não são percebidas no sonambulismo, mas que entram no cérebro, ali produzindo uma ação comparável às ações habituais, estas ações, afirmo, devem ser consideradas como um segundo grau de inconsciência. Abaixo da consciência há mesmo muitas camadas da inconsciência.

Toda uma série de fatos prova isso, e ousarei dizer que os fenômenos hipnóticos em geral seriam mais ou menos incompreensíveis sem esta graduação da inteligência. No momento é suficiente tirar dessas reflexões uma moral prática:

Se se quiser fazer experiências sérias, deve-se sempre considerar o sujeito adormecido, mesmo em estado de a-ideia profunda e apesar de todas as provas ordinárias de uma surdez ou de uma cegueira completa, como se ele estivesse acordado.

E “desconfie da sugestão!”

Este preceito de Bernheim deveria estar escrito em todos os laboratórios hipnóticos. Somente Bernheim não acredita, ou pelo menos não acreditava ainda na sugestão mental, ao publicar seu tratado.

Não se duvida nada, entre os sábios hipnotizadores, que fazendo experiências em um sujeito eminentemente sensível, inculca-se nele suas teorias, seus conhecimentos, suas crenças, mesmo suas suposições, e que se chega, assim, a se divertir consigo mesmo, acreditando-se fazer descobertas. Invocam-se os fenômenos como os exorcistas invocavam o diabo. Pois desconfiem vocês também da sugestão mental!

Baragnon, que era um bom prático e um observador muito perspicaz, aponta ele próprio certas ilusões desse gênero e nós citaremos algumas.

Um estado muito favorável às transmissões dos sentimentos e das emoções se obtém facilmente também na fase hipotáxtica, isto é, no estado que resulta de uma concentração passiva da atenção, antes que a hipnose propriamente dita se manifeste. É um estado intermediário entre o sono e a vigília.

Ele é frequentemente obtido entre as pessoas que, colocando as mãos sobre uma mesa, esperam pacientemente que ela comece a girar. As pessoas também se divertem em sociedade, colocando ao “espírito” (isto é, ao inconsciente dos médiuns) questões relativas ao estado psíquico dos assistentes. Descobrem-se assim não somente o bom ou mau humor, os temores, os tédios, as confianças ou incredulidades, mas também as inclinações do coração, as simpatias e as antipatias dos assistentes.

Esse fenômeno foi muito comum entre os possuídos e os demoníacos dos séculos passados e, evidentemente, era explicado pela intervenção do diabo.

Um caso complicado foi observado por Charpignon:

“Ele prestava serviços a uma senhora casada. O marido dela, primeiro incrédulo, levou de tal maneira a sério os fenômenos que aconteciam e dos quais foi testemunha, que seu espírito ficou perturbado; ele só se ocupava de altas questões do destino humano e, tendo evidentemente uma tendência à melancolia, entregou-se a uma profunda exaltação e teve até ideia de fazer estourar seu cérebro para chegar mais depressa ao completo conhecimento das coisas. Teve, entretanto, suficiente discernimento para esconder seus pensamentos de sua mulher, passando a morar em outro aposento.

Durante esse tempo, as ideias da sonâmbula refletiam as perturbações mentais de seu marido. Uma excitação seguiu-se ao desencorajamento e ela gritou:

– Sim, se eu tivesse uma arma, eu estouraria a cabeça!

O marido tinha chegado, atraído pelos gritos.

– Ouve – disse a sonâmbula a seu esposo –, tu deves viver já que foste mole demais para querer morrer.

O autor acrescenta a esse fato as seguintes reflexões: inquietações vivas ou aflições profundas podem ter resultados tão funestos quanto uma doença. O sonâmbulo sente as angústias do magnetizador com muito mais dores, que ele não sabe a que atribuir o mal que o aflige.”

É de se notar que, no fato citado, não foi o magnetizador a causa das perturbações, mas uma terceira pessoa, unida somente à sonâmbula por ligações de uma simpatia e de uma vida em comum.

Deleuze disse a esse propósito:

“A ação do pensamento de um indivíduo sobre outro é ainda um fenômeno inexplicável, mas nosso pensamento se comunica pela palavra, pelos gestos, isto é, pelo som, pela luz. Sabemos nós, por acaso, se as modificações de nossa alma não se podem tornar sensíveis por outros meios? A que devemos esse sentimento, inerente à natureza humana, que nos faz desejar que um amigo ausente se preocupe conosco? O magnetismo dá um novo motivo a esse desejo: ele nos explica como aquele que se ocupa de um outro e para seu bem age sobre ele, como uma vez restabelecida a relação, seja pelo afeto e pelos hábitos, seja pelos meios físicos, pode existir uma comunicação entre dois seres que são forçados a viver separados um do outro... Desejo observar apenas que a filosofia ganharia muito se fizesse entrar na ordem natural e física os fatos que têm uma aparência de maravilhoso e que são, entretanto, atestados por homens esclarecidos. Não é a crença nesses fatos e sim as consequências que deles se tira que são a causa da superstição.”

Estas observações justas deveriam dar o que pensar àqueles que só admitem uma coisa: a inviolabilidade das verdades admitidas. Irei mais longe, dizendo que o espírito humano é pouco inventivo para criar um preconceito qualquer, sem qualquer base empírica. Trata-se somente de saber precisar onde esta termina e onde começam a imaginação complementar e os erros.

Mas, quanto à importância prática desses fatos reais, ela está longe de poder satisfazer às aspirações “das almas sensíveis”. Os fatos das comunicações inconscientes, que podem ser frequentes, se perdem completamente sob a torrente das impressões e das associações normais, e os fatos da comunicação pura, experimental, são de tal forma raros que eles não poderão apresentar um valor prático, antes que se descubram todas as condições exatas de sua manifestação fisiológica.

Mas voltemos aos fatos. Jamais devemos nos inquietar com as aplicações quando se trata de uma verdade nova de ordem teórica. Acumulamos os fatos para chegar a uma boa teoria, e a aplicação virá por si.

Esta verdade às vezes nos embaraça.

“Acontece frequentemente – diz o conde de Maricourt – embaraçar-me e confundir-me a clarividência dos sonâmbulos, experimentando impressões ou adivinhando sentimentos que eu gostaria de esconder deles.”

Não contesto o fato, mas o advérbio frequentemente é, por assim dizer, demais. Eu poderia citar muitos fatos semelhantes, mas devido ao seu caráter íntimo e complicado são difíceis de ser contados sem entrar em numerosos pormenores explicativos que sobrecarregariam demais nosso estudo e de nada serviriam para convencer os incrédulos. São fatos que devem ser observados. Mas não se deve imaginar que um sonâmbulo “clarividente” descobre ou reproduz todo o tempo as nossas sensações. Aliás, os sonâmbulos que o conseguem são raros e isso não lhes acontece todos os dias. Como em todos os fenômenos de transmissão, há só momentos, de um quarto de hora mais ou menos, em que eles têm lugar.

Isso se aplica sobretudo nas transmissões claras, experimentais e nas sensações detalhadas. Conhecemos já bem alguns desses fatos. Vejamos agora alguns outros observados por outros experimentadores.

Comecemos com Baragnon:

“Antes de nos voltarmos para o estudo da ligação moral e misteriosa que se estabelece pela via do fluido nervoso entre dois seres, é bom que se observem fatos que revelam uma intimidade não menos anormal e miraculosa entre dois corpos.

Profundamente ligado aos fatos físicos, porque eu creio que são eles que salvarão o magnetismo da destruição dos tempos até que as inteligências se abram para ele (Baragnon escreveu em 1853), eu vejo na transmissão da sensação uma nova alavanca contra a resistência.

Qual será essa comunhão íntima entre dois seres que a dor mais leve, as impressões físicas mais diversas, percebidas por um, repercutem no outro?”

Há sujeitos que sentem a sensação sem serem influenciados pelo pensamento e vice-versa; e no mesmo sujeito um desses dois fenômenos pode se manifestar, sem o acompanhamento do outro. As sensações se transmitem geralmente num estado monoidéico, no qual a imitação dos movimentos também existe, ao passo que a transmissão das ideias parece exigir um monoideísmo um pouco menos passivo e um pouco mais absorvido ao mesmo tempo; ele talvez esteja mais próximo do poli-ideísmo do que o outro, enquanto o estado que favorece a transmissão da vontade parece ainda mais passivo e mais próximo do a-ideísmo.

O mesmo autor faz ainda uma observação justa a propósito da influência mental durante as experiências em geral:

“Digamos, a este propósito, que ao tentarmos provas de insensibilidade no magnetizado e que, no momento em que operarmos as queimadelas, sentiremos certas impressões de nosso ato, um sentimento de repugnância e de mal-estar em cometer estas crueldades, e que nesse caso o paciente, por um efeito de transmissão de sensações, estremecerá também, não de dor, que é nula, mas em virtude de nossa própria angústia. É aqui que poderemos julgar se a recomendação de calma e de sangue frio é de grande importância. A reação do magnetizador no sujeito é, em tais condições, a primeira fonte do remédio, como em estado contrário, a ativação do princípio perturbador.”

Isso é muito justo. Houve há tempos (em 1845) uma viva polêmica nos jornais consagrados ao magnetismo, a favor e contra experiências de insensibilidade, sobretudo entre Lafontaine, que as fazia publicamente, e Brice de Beauregard, que as considerava infames, entre outros motivos devido ao mal que os sonâmbulos sofriam durante ou depois do despertar. Até hoje não posso compreender esta polêmica. Fiz frequentemente experiências de insensibilidade em sonâmbulos; com a autorização de muitas pessoas, eu lhes impunha toda sorte de torturas aparentes, picadas, queimadelas com vela derretida, etc.; com as picadas, mesmo profundas, jamais tive o menor acidente. Em dois casos de queimaduras, uma com vela derretida e outra com ferro em brasa, o processo inflamatório seguiu seu curso normal, mas sempre sem o menor sofrimento, nem durante nem depois do sono. Foi até com grande impressão que soube que certos magnetizadores observam sempre maior ou menor dor depois do despertar. Hoje eu compreendo; depois da primeira experiência, perfeitamente bem sucedida, tive certeza de que o sujeito pode não sofrer nada, e esta certeza eu a sugeri efetivamente aos meus pacientes, ao passo que os operadores que começaram por ter um acidente acabaram conservando uma crença, uma emoção, uma inquietude, uma compaixão inútil que influenciam seus sujeitos. E há mais: o homem mais humanitário possível, o mais suscetível moralmente entre os magnetizadores, Deleuze, jamais pôde provocar a insensibilidade, e entretanto em outros (Esdaille, Baragnon, Lafontaine, Du Potet, etc.) a anestesia constitui um dos caracteres mais constantes do sono nervoso! Eis o que a respeito acrescenta Deleuze, depois de citar muitos casos de insensibilidade confirmados pelos médicos:

Meus sonâmbulos jamais a apresentaram; sua sensibilidade era, ao contrário, mais delicada que em estado de vigília; o contato de um corpo não magnetizado era-lhes desagradável e o toque de uma pessoa estranha lhes fazia muito mal. Tenho certeza de que os sonâmbulos experimentaram convulsões e despertaram em virtude de serem tocados bruscamente por alguém com o qual não estavam em “rapport” (relação).”

Tudo isso é verdade, mas os adversários também têm razão.

Provoca-se a insensibilidade quando se está seguro de que ela deve produzir-se.

E isso serve para todos os outros fenômenos, acidentes, estados – evidentemente tendo em conta o grau e a natureza da insensibilidade hipnótica do sujeito.

“Certo dia – diz Perronet – pareceu-me que um sujeito estava fatigado e que as poses que ele assumia, contra as leis da gravidade, deviam utilizar seu poder muscular; imediatamente, no momento preciso de minha concepção, errada sem dúvida, vi seus membros caírem em uma flacidez inerte; erguidos, eles caíam, como massa bruta ou como braços de polichinelo... Quatro ou cinco minutos depois, adquiri, num momento de mau humor, a firme vontade de fazer reviver naquele sujeito as propriedades inerentes ao estado cataléptico; tive a satisfação de conseguir. Desta experiência concluí que, nos fenômenos de catalepsia, tudo depende da direção volitiva ou intuitiva do operador, sem omitir as predisposições subjetivas do cataleptizado.”

Observemos bem que Mesmer, o homem vivo e irascível que desdenhava o sonambulismo, obtinha-o raramente, ao passo que ele obtinha quase sempre crises convulsivas, por ele consideradas necessárias; que Puységur, homem calmo e humanitário, raramente obtinha espasmos e quase sempre conseguia o sonambulismo; que o enérgico Lafontaine produzia profundos e tenazes; que se o crédulo Billot não fazia senão obedecer às divagações espontâneas de seus sonâmbulos, Donato, pleno de confiança em si mesmo, domina-as como feras domesticadas; que se muitos magnetizadores recomendam o mais profundo silêncio para não retardar a chegada do sono, o abade Faria e o general Noizet o provocavam gritando bem alto: “Durma!” Que se certos magnetizadores não chegam a provocar sugestões, a escola de Nancy só age por sugestão; que se os três estados clássicos se mostram todos os dias em Salpêtrière, raramente ocorre em outros lugares; que “a causa que faz, desfaz”, mas raramente fora de La Pitié...

Isso é absolutamente como são os remédios novos, que só agem eficientemente num momento da fama.

– Pode ir embora, porque agora ele está curado!

Mas, então tudo é ilusão!... Tudo é apenas sensação, sentimento, crença dos operadores?

Não. Há verdades em todas essas observações opostas, só que é preciso não se deixar enganar por uma primeira impressão, se entusiasmar por uma ideia que não é mais que possível, por uma observação que talvez não seja devida ao acaso ou a circunstâncias particulares.

É preciso conservar na corrente da pesquisa uma neutralidade de sentimentos, pois todas as presunções, um tanto fortes, repercutem no sujeito eminentemente sensível e induzem a erro. É bom não esquecer que não se está lidando com um cometa, que não liga ao telescópio, nem com uma combinação química, que sofrendo a ação de um reativo, não se inquieta.

Agora passemos às experiências mais recentes, entre as quais é preciso citar as que foram feitas pela Society for Psychical Research, que tanto tem contribuído para a extensão dos estudos psicológicos delicados, até este momento completamente negligenciados.

Comunidade de sensações – Passaremos para uma questão muito controvertida e discutível. Nós sustentamos que frequentemente temos observado uma comunidade de sensações verdadeiramente notáveis, entre o operador e seu sujeito, fenômeno que poderá ser chamado mais exatamente de transmissão de sensações. Esse fenômeno é, evidentemente, intimamente ligado àqueles dos quais se ocupa o comitê de transmissão mental. Nossas experiências diferem destas, em que o sujeito não está no seu estado normal, mas se encontra em um “sono mesmérico”. Eis como elas foram arranjadas. Fred. Walls (um jovem de 20 anos, o sonâmbulo) estava sentado numa cadeira, os olhos vendados, e o Sr. Smith estava atrás dele. O sujeito foi adormecido pelo Sr. Smith com a ajuda de alguns passes. Este último foi, então, beliscado em diferentes lugares, de forma um tanto forte, e esta operação durou um ou dois minutos. Um silêncio absoluto foi observado, com exclusão de uma questão necessária:

– Você está sentindo alguma coisa?

Esta pergunta foi pronunciada pelo Sr. Smith, pois parecia que o sujeito não ouvia as outras pessoas. Na primeira série de experiências o Sr. Smith segurava uma das mãos do sujeito, mas esta precaução verificou-se inútil, uma vez que todo contato entre o operador e seu sujeito foi rompido nas experiências ulteriores.”

O resultado foi: em 16 experiências, 13 sucessos e 3 fracassos, na primeira série.

Na segunda série, em 24 experiências concernentes ao fato, houve 20 sucessos.

O protocolo foi assinado por W. F. Barret, Edmund Gurney, Fredrich H. Myers, N. Ridley, W. H. Stone, George Wyld e Frank Podmore.

De todas essas experiências podemos tirar algumas conclusões relativamente às vibrações nervosas, que não conhecemos ainda, e suas relações com a transmissão.

Em resumo:

Há correntes elétricas nos nervos? Sim. As correntes elétricas têm a propriedade de se induzirem à distância, apesar dos obstáculos de toda sorte? Sim. Esta indução é sempre palpável? Não. Para isso são necessários instrumentos de uma sensibilidade extrema, isto é, de bons pacientes. Há uma relação constante entre as excitações dos nervos e as correntes elétricas desses nervos? Sim.

Ora, é suficiente que uma excitação de um nervo A, acompanhada de uma mudança elétrica a, provoque, por indução, uma mudança análoga a’, em um nervo A’, para que esse nervo reproduza a excitação dada, em razão do princípio das associações organo-inorgânicas.

Não é contrário à razão que esta transmissão, ou esta indução, possa também ser dirigida, isto é, que mesmo sem a intervenção de correntes elétricas as correntes nervosas possam se induzir.

Não há, pois, necessidade de admitir uma força nova para tornar compreensíveis esses fenômenos: basta alargar e subutilizar um pouco as propriedades das forças conhecidas e as leis das reações, provavelmente inerentes a todos esses movimentos da natureza.

Enfim, é preciso não esquecer que uma localização exata é muito rara. Há sujeitos que sentem bem a dor num órgão correspondente, porém não do mesmo lado. Parece que a indução vai então para o lado mais sensível, ou para nodi minoris resistentiae.


Capítulo IV

Transmissão das ideias


Com a transferência das sensações, deixamos o terreno da localização simpática. As ideias não são mais localizadas.

Evidentemente, como em tudo, há graus.

As sensações da vista e da audição têm menos relação local com seus órgãos do que as sensações do tato, mas elas se aproximam de tal forma das ideias propriamente ditas que é inútil tratá-las à parte. Se eu transmito a imagem de um rei de ouros olhando-o ou apenas imaginando-o, não haverá senão uma diferença de grau de clareza da representação, ao passo que nas sensações táteis o elemento emocional constitui uma diferença marcante.

Na esfera das ideias a ação é mais sutil e é presumível que uma transmissão direta e clara será mais rara ainda.

É sobretudo à Sociedade Inglesa de Pesquisas Psicológicas que cabe a honra de ter realizado um grande número de estudos a respeito, feitos com uma precisão e uma perseverança notáveis. Eles devem ser considerados não somente como o ponto de partida do estudo da sugestão mental, mas, em geral, um novo voo de toda a ciência psicológica. Não há dúvida de que eles fazem época na psicologia moderna.

Em muitos dos meus escritos poloneses, a partir de 1869, e sobretudo num estudo atual sobre a psicologia, publicado em 1881 pela Revue Philosophique de Ribot, salientei a necessidade absoluta de trabalhos coletivos em psicologia. Foi a Sociedade Inglesa que os realizou primeiro, dando um passo enorme nestes últimos anos.

Os resultados das pesquisas desta Sociedade no campo da sugestão mental estão consignados em quatro relatórios de um comitê especial do qual faziam parte Edmund Gurney, F. W. H. Myers, F. Podmore e W. F. Barret, professor de Física do Royal College of Science for Ireland. Também foram feitas experiências por Henry Sidgwick e pelo professor Balfour Stewart. Elas foram realizadas em Buxton, Cambridge, Dublin, Liverpool, etc. Em toda parte o resultado foi o mesmo: a constatação da existência do fenômeno. Elas compreendiam baralhos, diferentes objetos, nomes e números. Mas os resultados mais interessantes foram obtidos com figuras desenhadas.

Minhas experiências com desenhos são muito menos notáveis, mas cheguei à conclusão de que há grandes diferenças individuais, sobretudo concernentes ao sujeito, assim como aos operadores. Creio, por exemplo, que uma imagem mental alucinatória se transmite melhor do que uma imagem realmente vista, apesar da clareza aparente maior neste último caso. Mas é certo que uma imagem mental alucinatória é mais monoidéica do que uma imagem simplesmente vista. Há também diferenças em relação ao sujeito: uns são mais influenciados por imagens visuais, outros por sons mentais, outros por imagens motrizes. Parece também que a transmissão é sensivelmente favorecida quando duas pessoas, capazes de concentrar bem seu pensamento, agem ao mesmo tempo e quando uma pensa com a ajuda de imagens visuais e a outra com a ajuda de sons das mesmas imagens, pronunciados mentalmente.

Mas o que é sobretudo digno de atenção e o que surge de minhas experiências, é que os êxitos se manifestam por séries, isto é, que há flutuações no estado do sujeito que favorecem ou se opõem à transmissão. Estas séries são talvez mais constantes no estado de sonambulismo do que no estado de vigília, mas o princípio da impressionabilidade simpática permanece sempre o mesmo. Para que possa ter lugar a transmissão, o cérebro não deve estar muito entorpecido nem muito distraído (poli-ideia) nem muito absorvido nas suas próprias ideias (monoideia ativa); ele deve, ao contrário, estar passivo, mas capaz de funcionar com absorção. Quanto mais o estado momentâneo se aproxima deste limite, maior é a chance de êxito.

À parte a transmissão imediata, existe uma transmissão latente e retardada. O estado do sujeito pode não permitir uma comunicação direta (devido à pressão das ideias que o ocupam ou devido ao entorpecimento cerebral); mas a comunicação se efetua insensivelmente e a ideia percebida às escondidas aparece de um modo despercebido em uma experiência seguinte, ou fora da experiência. Richet já fez esta observação, muito importante, de que a transmissão se efetua mais facilmente do consciente para o inconsciente do que entre dois estados conscientes. Será mais fácil entre dois estados inconscientes? No momento não estamos em condições de esclarecer esta questão.

De qualquer forma sabemos que as melhores condições para as transmissões conhecidas são as seguintes:

da parte do operador: estado de monoideísmo declarado e ativo;

da parte do sujeito: estado de monoideísmo nascente, passivo.

O primeiro se aproxima do poli-ideísmo e o segundo do a-ideísmo. Em consequência, o sujeito-receptor não deve refletir nem adivinhar, mas sentir a ação da ideia transmitida. Pode-se dizer que esta transmissão – mesmo quando tem lugar num estado inconsciente – se efetua sempre por intermédio das camadas inconscientes do espírito. Eis por que o sujeito raramente pode dizer de onde lhe vem a ideia transmitida e ele tende mais a considerá-la como um ato espontâneo de seu próprio espírito do que uma sugestão recebida. Duas ou mesmo muitas ideias podem ser transmitidas ao mesmo tempo por dois ou muitos transmissores, mas então elas sofrem ainda maior influência do meio individual que as recebe, confundindo-se, geralmente, num resultado, num complexo modificado e assimilado às associações pessoais.

É permitido supor que a maior parte das transmissões realizadas na vida comum permanecem inconscientes para sempre. Elas nos explicam em parte esse fenômeno, indubitável na história da civilização, segundo o qual certas ideias, certas tendências e aspirações, dominam em certas épocas, e as reformas e revoluções se manifestam por vezes simultaneamente, em regiões afastadas e quase sem relações recíprocas.

Os primeiros séculos do Cristianismo, a época das Cruzadas, a da Renascença, a da Grande Revolução, são exemplos. É também notável que o movimento literário conhecido sob o nome de romantismo tenha feito sua evolução quase simultaneamente em toda parte, mesmo no Japão; que os anos 1830-31 e 1846-48 se assemelham tanto em diferentes países, etc.

Há epidemias de ideias, incontestavelmente. Mas aqui ainda, como nas categorias precedentes de transmissão, a imitação prevalece sobre a comunicação direta; limitemo-nos, entretanto, a assinalar um elemento a mais na explicação positiva de certas comunidades de espírito, um elemento de resto muito pouco perceptível, na mecânica geral da história.

Desde que se chegou a se convencer da possibilidade de uma transmissão do pensamento, deve-se esperar encontrar traços disso, mesmo na antiguidade. Por mais raro que possa ser, esse fenômeno não deveria escapar de autores que escrupulosamente notaram as manifestações extraordinárias das faculdades humanas.

Limito-me a registrar alguns exemplos somente, visto o pouco valor científico dessas observações distantes.

Santo Agostinho conta que, na época em que ele era maniqueu, costumava consultar adivinhos. Licentius, que ele põe em cena em seus livros contra os acadêmicos, lembra-o da lucidez de um certo adivinho chamado Albicerius. Certo homem sábio e célebre vai à procura de Albicerius, depois de ter elaborado o projeto de adquirir uma herdade, e o entretém com o fim de lhe fazer revelar esse desenho secreto, a fim de julgar sua habilidade. O adivinho lhe diz a natureza do projeto e ainda lhe especifica, sem hesitar, o nome da herdade, tão bárbaro e difícil que o próprio consulente, o sábio Flaccianus, quase não se lembrava mais. Albicerius adivinhou ainda o pensamento daqueles que o interrogavam.

Há ainda o caso do padre Ars, morto em 1876, que lia, segundo se diz, o pensamento dos que o consultavam e desconcertava, pela segurança infalível de sua visão, os céticos. Joseph de Cupertius, canonizado sob o nome de São Cupertino, famoso por suas numerosas ascensões, tinha o dom de ler o pensamento dos penitentes que não ousavam confessar-lhe alguns pecados pesados.

Graças a um preconceito fatal da humanidade, provas quase certas da transmissão do pensamento já eram recolhidas no século XVII. Falo da opinião que admitia a existência de demônios e sua encarnação no corpo de certos infelizes. Esse preconceito, como todos os preconceitos, aliás, não era de todo privado de fundamento. Os fatos sobre os quais ele se baseava eram fatos reais. A sua interpretação é que era errada, pois ela refletia um estado lamentável de conhecimentos. A excentricidade de uma moléstia terrível que hoje não mais nos assusta graças aos trabalhos clássicos de Charcot, e que aparece frequentemente no terreno favorável de uma grande sensibilidade hipnótica, fez crer aos observadores dos séculos passados que era preciso uma força estranha ao homem e uma força diabólica, para explicar essas manifestações. E como o diabo não se pode apoderar de um corpo batizado senão com o consentimento de sua alma, queimavam-se esses infelizes, para facilitar-lhes a expiação de seus pecados.

Diminuía-se, assim, nossa herança neuropatológica, destruindo-se ao mesmo tempo grande número de excelentes sujeitos hipnóticos.

Não se deve imaginar, entretanto, que se procedia irrefletidamente para condenar um homem ou uma mulher acusados de demonolatria. Ao contrário, ninguém era considerado possuído antes de um sério exame.

Segundo o ritual, o padre chamado para exorcizar devia, depois de preparado pelo jejum, pelas orações e outras boas obras, ao sair da santa missa, coberto, mandar interiormente que o demônio lhe fizesse um sinal. E o demônio, forçado a obedecer, devia se revelar. Assim, segundo o ritual, só se devia exorcizar os doentes que poderiam desfrutar da faculdade maravilhosa de conhecer os pensamentos não expressos.

Evidentemente, tal não era a interpretação dos exorcistas. Acreditava-se, ao contrário, impossível a transmissão de pensamento e se, apesar de tudo, o doente respondesse às perguntas mentais, em estado de crise hístero-epilética, ou em estado de sonambulismo espontâneo, isso era prova de que ele não estava doente, mas possuído. Admitia-se que o diabo, que era um espírito, mas um espírito maligno, era capaz de ouvir os pensamentos; mas um simples mortal, nunca.

O padre Surin, recapitulando as provas da possessão das religiosas ursulinas de Loudun, apresentou, como uma das mais incontestáveis, o fato de que elas revelavam os pensamentos mais secretos. Entre os exemplos estão estes dois:

“No dia seguinte à minha chegada, estava lá, no exorcismo, um homem que me declarou desejar ver se o demônio conhecia nossos pensamentos. Eu pedi que ele fizesse um comando de coração; e depois que ele o fez, eu pressionei o demônio para que fizesse aquilo que o homem havia mandado fazer; depois de se ter recusado várias vezes, ele foi até o altar e apanhou o evangelho de S. João e o homem garantiu que ele havia mandado, no seu coração, que o demônio mostrasse o último evangelho que havia sido dito na missa.

– Um de nossos padres, querendo provar se era verdade que os demônios conhecem nossos pensamentos, fez um comando interior e em seguida fez outro; no espaço de um instante fez cinco ou seis, um após o outro, atormentando o demônio, dizendo: Obediat ad mentem. O demônio repetiu em voz alta tudo o que lhe mandaram fazer.”

Entre outras testemunhas que afirmaram a existência da comunicação do pensamento entre os religiosos de Loudun, deve ser citado o irmão do rei, que assinou um certificado no qual atesta que não está entre os que duvidam da possessão, por várias razões, entre outras porque uma religiosa havia obedecido a uma ordem que ele tinha dado mentalmente, sem proferir uma só palavra e sem fazer qualquer sinal.

Eis a passagem em questão:

“Nós, Gaston, filho da França, duque d’Orleans, certificamos... E tendo ainda desejado ter um sinal perfeito da possessão dessas jovens, ajustamos secretamente e em voz baixa com o padre Tranquille, capuchinho, para ordenar ao demônio Sabulor, que possuía então a irmã Claire, que ele fosse beijar a mão direita do padre Elysée, seu exorcista; o dito demônio pontualmente obedeceu segundo nosso desejo, o que nos fez crer certamente que o que os religiosos, trabalhando em exorcismo, nos haviam dito das possuídas é verdade, não havendo nada de aparência que tais movimentos e conhecimentos das coisas secretas possam ser atribuídos a forças humanas. Pelo que, querendo render testemunho ao público, outorgamos o presente atestado, que assinamos com nosso nome, fazendo contra-assinar pelo secretário de nossas ordens, casa e finanças da França, a 11 de maio de 1635. Assinado: Gaston.”

Devemos isso ao príncipe Gaston; foi ele dos primeiros a fazer experiência de sugestão mental.

O jesuíta Surin fez mais. Ele afirmou, sobre sua consciência, que a possessão era real e jurou, perante Deus e a Igreja, que “mais de duzentas vezes os demônios descobriram coisas muito secretas, ocultas no seu pensamento ou na sua pessoa”. Foi esta revelação que determinou a condenação daqueles infelizes.

Evidentemente o fenômeno da transmissão não se manifestava sempre e foram necessários esforços consideráveis e assíduos por parte do padre Surin para obter bom número de provas. O exorcista (leia-se o magnetizador) conquistava, assim, uma influência pessoal sobre os sujeitos. Os extáticos adivinhavam às vezes o pensamento, mas era preciso que o padre Surin os conhecesse com antecipação.

Passemos aos sonâmbulos, dando a palavra a Bertrand:

“Entre os sonâmbulos que magnetizei, não encontrei nenhum que apresentasse a comunicação de pensamentos a um grau um pouco elevado. Entretanto, posso citar dois fatos. Um trata de minha primeira sonâmbula, na qual executei os procedimentos, no meio dos quais eu tinha o costume de despertá-la, com uma firme vontade contrária, para que ela não despertasse. Nesse instante ela tinha fortes movimentos convulsivos.

– Que é que você tem? – dizia-lhe eu.

– Como – perguntava ela –, você me pediu para despertar e não quer que eu desperte?”

Esta experiência é muito conclusiva, mas raramente tem lugar, pois a associação ídeo-orgânica que se forma entre certos gestos e o despertar provoca isso por hábito, não obstante a fraca influência contrária, puramente mental.

“Outro exemplo é o de uma pobre mulher, sem educação e não sabendo ler, que era capaz, dizia-se, em sonambulismo, de compreender o sentido das palavras cuja significação lhe era desconhecida no estado de vigília. E, com efeito, ela me explicou, da maneira mais justa e mais engenhosa, o que se devia entender por encéfalo, palavra que eu mesmo lhe propus. Este fenômeno só se explica reconhecendo que essa mulher lia no meu pensamento a significação da palavra sobre a qual eu a interroguei.”

Este fato é digno de atenção. Se compararmos as apreciações diagnósticas dos sonâmbulos, consignadas nos livros de magnetizadores que não possuíam conhecimentos anatômicos suficientes, com as apreciações dos sonâmbulos dirigidos por um médico, ver-se-á uma grande diferença de precisão.

A menos que se admita que nenhum dos médicos que fizeram essas experiências não tenha sabido se abster das sugestões verbais, é bom constatar, pelo sim e pelo não, um concurso de transmissão de ideias, no gênero que acaba de citar Bertrand.

O primeiro a atrair a atenção dos observadores sobre o fenômeno da sugestão mental em sonambulismo provocado foi o marquês de Puységur. Encontramos em seus escritos um grande número de fatos.

Algum tempo depois de Puységur, um distinto médico de Lyon, presidente da Sociedade Médica desta cidade, foi levado a constatar os mais maravilhosos fenômenos de magnetismo. Ele era adversário do mesmerismo, mas o acaso quis que ele fosse obrigado a reconhecer uma série de fatos muito mais extraordinários do que todos os que Mesmer havia anunciado. Seus trabalhos sobre a catalepsia, sobre a ação do ímã, da eletricidade, dos metais, sobre o fenômeno dito de “transposição dos sentidos”, etc., enfim sobre aquilo de que aqui nos ocupamos, constituem um marco do magnetismo. Eles são hoje absolutamente ignorados, mas como já se passou um século desde então, eu não tenho dúvidas de que um belo dia se anunciará que um hipnotizador de Lyon ou de Paris os descobriu de novo e, graças ao seu engenho, à sua autoridade e à ignorância da história, formou-se uma nova escola “hipnótica”.

Enquanto isso, registremos que o Dr. Petetin, morto em 1808, aplicava o magnetismo, fazendo notáveis observações; que em 1815 o abade Faria, experimentador verdadeiramente original, é o pai dos sugestionistas, que se ocupam só da sugestão verbal e não admitem a transmissão da vontade; e que uma terceira escola surgiu, mais diretamente ligada a Mesmer, chamada dos fluidistas, fundada por Deleuze.

Deleuze, como se sabe, conhecia perfeitamente os fenômenos da transmissão. Ele entrevia mesmo todo o partido que a ciência poderia tirar desta descoberta, para fazer entrar no domínio positivo um grande número de fatos, até então incompreensíveis e próprios para preconceitos. Ele acreditava tanto na comunidade de pensamento entre o magnetizador e seu sujeito que chegou a dizer, com encantadora ingenuidade:

“Quando se quer perguntar qualquer coisa ao sonâmbulo, é preciso exprimir sua vontade por palavras. Os bons sonâmbulos ouvem a vontade sem que seja preciso falar-lhes. Mas por que empregar esse meio sem necessidade? É uma experiência e dever-se ia fazer uma lei proibindo toda e qualquer experiência.”

Na época de Deleuze foram publicados numerosos volumes sobre a aplicação terapêutica do magnetismo, mas toda a parte científica experimental não fez qualquer progresso. Curava-se tudo. Só por acidente a sugestão mental foi observada.

Certos magnetizadores, entretanto, estudaram um pouco a questão e deixaram algumas observações interessantes. Citarei as que merecem confiança, tentando separar a transmissão de pensamento da transmissão da vontade, de que me ocuparei adiante.

A transmissão de ideias e de palavras, ou de pensamentos em geral, se apresenta de várias formas:

1º) Como experiências diretas e desejadas – São os casos menos numerosos. A esta categoria pertencem os ensaios dos Drs. Teste, Puel, Comet, Barrier, Perronet, etc. Mas são sobretudo as experiências recentes do professor Barret e da Sociedade de Psicologia Inglesa que nos revelaram este fenômeno.

2º) Como experiências de visão aparente – São as mais numerosas e nelas geralmente se confunde a transmissão de pensamento com as lembranças de uma visão real de objetos presentes ou distantes.

3º) Enfim, mencionaremos também que a transmissão de pensamento se junta acidentalmente a muitas outras categorias de fatos, sobretudo no pseudo-hipnotismo.

As experiências recentes e melhor controladas da comissão inglesa já formam um volume inteiro. Reproduzirei algumas apenas.

A Srta. Relph – sujeito – fica sentada e os objetos escolhidos são escondidos atrás de uma cortina às suas costas. Experiências sem contato. Ela acertou a cor de todos os objetos e muitas vezes o naipe do baralho. Recomendei a mesma série para o Sr. Preyer, para que fizesse a mesma experiência tirando a sorte. Eis alguns fatos, narrados pelos magnetizadores:

1) Em Tour, uma sonâmbula minha cliente, diz Lafontaine, adivinhava sistematicamente tudo o que meu amigo Renard, provisor de colégio, trazia nos bolsos, diariamente. Clarisse, a sonâmbula, executava tudo o que eu mandasse fazer mentalmente, o que prova que se tratava de um fenômeno de transmissão de pensamento.

2) O Sr. de la Souchère, ex-aluno da Escola Politécnica, sábio, químico residente em Marselha, tinha uma doméstica, mulher do campo, a qual tinha grande facilidade de fenômenos durante o sonambulismo. Diz ele que Lazarine, a moça, “entrava comigo em perfeita comunicação de pensamento e ficava de tal modo insensível que eu a furava com uma agulha e ela nada sentia”. De la Souchère conta que ela adivinhava o que as pessoas escondiam, desde que ele, é claro, conhecesse o objeto, transmitindo-o mentalmente.

3) O Dr. Bertrand conta que certo magnetizador místico tinha um sonâmbulo que durante o sono só via anjos e espíritos de todas as espécies. Estas visões serviam para confirmar mais e mais o magnetizador na sua crença religiosa. Como ele sempre citava os sonhos de seu sonâmbulo em apoio de seu sistema, um outro magnetizador se incumbiu de desmenti-lo, mostrando-lhe que um sonâmbulo não tinha as visões que ele narrava. Propôs, então, para provar o que anunciava, fazer ver ao mesmo sonâmbulo a reunião de todos os anjos do paraíso à mesa, comendo um peru. Assim, ele adormeceu o sonâmbulo e depois de algum tempo lhe perguntou se não via nada de extraordinário; este respondeu que via uma grande reunião de anjos, que estavam em torno de uma mesa, comendo.

Capítulo V

Transmissão direta da vontade


Passemos à transmissão da vontade.

Vou começar pelo relato de um bom observador, hoje completamente esquecido. Trata-se do advogado Fournel, autor de vários livros, um dos quais sobre o sonambulismo magnético. Conta ele ter visto um sonâmbulo fazer o que ele ordenou: pegar um chapéu que estava sobre uma mesa de um escritório e colocá-lo na cabeça de um dos presentes. “Eu não disse nada – acrescenta ele –, mas somente fiz um sinal que traçava as linhas que eu queria que ele percorresse”. O sonâmbulo, que tinha os olhos vendados, se levantou da cadeira, seguiu a direção indicada por meu dedo, foi até a mesa, apanhou o chapéu entre muitos objetos e colocou-o na cabeça da pessoa indicada.

Vale aqui observar que mesmo quando o sujeito não vê nossos gestos, eles facilitam a experiência. Nesse caso, diversos agentes contribuem para o resultado:

1º) as correntes de ar são muito bem sentidas à distância;

2º) as impressões auditivas que acompanham os gestos;

3º) as atrações, muito ativas, entre certos sujeitos;

4º) a própria concentração mental do operador, muito facilitada pela mímica.

Trata-se de um caso de transmissão da vontade dos mais comuns e que é praticado habitualmente. Mas neste capítulo não nos devemos esquecer de que foi Puységur quem primeiro estimulou esse gênero de pesquisas.

Frequentemente nos admiramos de que certos observadores conservam as palavras “sono magnético”, dadas por Mesmer e Puységur a uma certa forma de sonambulismo provocado, hoje confundido com hipnose. Esta denominação tem uma relação íntima com a transmissão da vontade. As analogias, que Puységur acreditava dever constatar entre certos fenômenos de eletricidade e magnetismo e as aptidões dos sonâmbulos, podem nos parecer hoje inexatas e superficiais; mas é preciso não esquecer que ele mesmo as considerava como analogias e não como provas de uma identidade natural.

Vejamos algumas observações mais recentes neste campo. O Dr. Lafontaine conta o seguinte:

“Foi durante uma sessão, na casa do sábio e incrédulo Dr. Bretonneau, que tive a honra de ver Béranger, nosso célebre cantor. Béranger havia assistido a muitas experiências de transmissão de pensamento e desejou fazer ele mesmo uma delas, para convencer o dono da casa. Depois de algumas indicações de minha parte, ele tomou a mão da sonâmbula, pedindo-lhe para executar aquilo que ele lhe ordenava mentalmente. Ele agiu com tal força de vontade que sua outra mão fazia tremer a mesa sobre a qual a apoiava. Logo vimos a sonâmbula se levantar, dirigir-se para o Dr. Bretonneau, tomar sua mão e, apesar de sua resistência, levá-lo até onde estava Béranger, que declarou que aquela havia sido sua ordem mental.”

Um fisiologista eminente, H. Beaunis, professor da Faculdade de Nancy, declarou recentemente:

“Jamais consegui até o presente constatar, entre os sujeitos que observei, os fenômenos maravilhosos admitidos por certos magnetizadores, tais como a adivinhação mental e outros. Todas as vezes que a sugestão que eu queria produzir era simplesmente pensada e não expressa, ela não se realizava... Não quero, entretanto, negar esses fatos na presença de sábios de muito boa-fé; o que posso dizer é que eu jamais os observei.”

Esta sim é uma linguagem verdadeiramente científica; e se Beunis jamais encontrou nada semelhante, ele tem o direito de fazer todas as reservas. Mas o acaso fez com que ele se convencesse. Pouco mais tarde contou que certa ocasião, na residência do Dr. Liébeault, pediu a um jovem sonâmbulo, já adormecido, que abraçasse o primo, presente na reunião. O pedido foi escrito numa folha de papel, que todos leram em silêncio. Ele deveria abraçar o primo depois de acordar. Foi o que ele fez, coroando de êxito a experiência.

Passemos agora às transmissões puramente mentais da vontade, isto é, às experiências feitas sem contato, sem gestos e sem atrações, às vezes mesmo sem olhar.

Uma tentativa de demonstração desse fenômeno delicado foi feita em 1837 pelo Dr. Berna diante de uma comissão acadêmica. Mas ela malogrou completamente, pelo menos segundo o relatório do Sr. Dubois. Os comissários não puderam constatar sequer a existência de sonambulismo. Vejamos um trecho do relatório:

“Um dos itens do programa tinha por título obedecer à ordem mental de, no meio de uma conversação, cessar de responder verbalmente ou por sinais a uma pessoa designada. O magnetizador procurou provar à comissão que a potência tácita de sua vontade chegaria a produzir este efeito.”

Mas a experiência não deu certo.

Quando o sujeito conversa com outra pessoa, isto é, quando ele se encontra em estado de poli-ideísmo ativo, é muito difícil agir sobre ele mentalmente, antes de tudo porque seu rapport (relação) com o magnetizador é enfraquecido por essa divisão com outra pessoa; e também principalmente porque, para que uma ação tão fraca possa ser sentida é preciso que nenhuma outra a ela se oponha. Frequentemente as pessoas que conversam entre si não nos ouvem; pois o mesmo fenômeno, guardadas as proporções, tem lugar em relação a uma palavra mental. Eu admiro a fé robusta desses médicos que, sem conhecer as condições de um fenômeno tão fugaz, queiram se expor a um fracasso, diante de uma comissão de incrédulos!

Os magnetizadores de hoje são mais prudentes. Apresento a seguir um relato de Aksakof, a respeito de experiências que ele viu Donato fazer.

“... É conhecido que um dos aforismos mais exaltados da fisiologia moderna é que a atividade psíquica não passa da periferia dos nervos. Se pudéssemos demonstrar que o pensamento humano não fica circunscrito ao domínio do corpo, mas que ele pode ultrapassá-lo, agir à distância sobre outro corpo humano, transmitir-se para seu cérebro, sem qualquer procedimento visível ou reconhecido, e ser reproduzido pela palavra, movimento, ou outro meio qualquer, isso seria um fato imenso diante do qual a fisiologia materialista deveria se inclinar.”

Aqui o Sr. Aksakof se engana. Não há qualquer relação entre a sugestão mental e a questão do materialismo ou do espiritualismo. Apesar de seu caráter inusitado, a sugestão mental é um fato de ação e não de natureza íntima das coisas que não conhecemos. A ação à distância não é uma característica própria das coisas imateriais – se é que há coisas imateriais. A eletricidade não se tornou uma coisa “espiritual” depois que se inventou o telégrafo.

Prossigamos.

“No dia 17 de novembro de 1878 fui à casa do Sr. Donato e, depois de alguns minutos de conversa, pusemos mãos à obra.





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