Julian Ochorowicz a sugestão Mental



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Sucessos

Prob.

Reais

Para 1883 experiências c/ cartas

458

510

Para 218 experiências c/ fotos

42

67

Para 98 experiências c/ varetas

48

44

Para 124 experiências ditas espíritas

3

17

Totais

521

638

Isto quer dizer que em todas as experiências havia uma vantagem a favor da sugestão. Repeti a experiência com cartas de jogar em quatro pessoas e obtive cifras sensivelmente análogas.

De todas as suas experiências, Richet concluiu a probabilidade do que se segue:

1º) O pensamento de um indivíduo se transmite, sem o concurso de gestos exteriores, para o pensamento de um indivíduo colocado perto dele.

2º) Esta transmissão se faz em graus diferentes entre os diversos indivíduos; ela é também eminentemente variável entre as mesmas pessoas.

3º) Esta transmissão é, em geral, inconsciente, no sentido de que ela age mais sobre a inteligência inconsciente do que sobre a inteligência consciente do indivíduo que transmite.

4º) Entre as pessoas adultas, de boa saúde, não hipnotizáveis, o grau de probabilidade desta transmissão não passa de 1/16.

5º) A probabilidade geral em favor da sugestão mental pode ser representada por 1/3.

Minha impressão pessoal é de que o método empregado nas experiências não convence, mas, se a sugestão mental existe, este método prestou um grande serviço à causa, preparando uma base de probabilidade, um ponto de apoio sério, e excitando a curiosidade dos pesquisadores.

Diz Richet:

“Todas as minhas experiências foram feitas em pessoas não sensíveis, como meus amigos e eu; seria interessante saber o que seria se fossem feitas em pessoas realmente sensíveis, hipnotizadas, hipnotizáveis, histéricas, nervosas ou preparadas por um longo exercício para a percepção de sugestões. Infelizmente não tive ocasião de fazer essas pesquisas.”

Como era preciso munir-me de um hipnoscópio e ir a uma sociedade de uma vintena de pessoas para encontrar um indivíduo adequado, comecei a fazer uma série de experiências.

O sujeito era a Sra. D., 70 anos, hipnotizável, reumatismo articular crônico, constituição muito forte, muito robusta, inteligência incomum, habituada a trabalhos literários, muita erudição, impressionabilidade interna, sem sinais exteriores, temperamento psiquicamente ativo mas tranquilo, caráter de uma amenidade excepcional.

Fiz experiências com objetos, cores, letras, fotos, cifras, impressões, figuras, nomes, número, gosto.

Quando o sujeito aparentou muita fadiga, interrompi as experiências. Elas me surpreenderam. Em 31 experiências, houve menos de 13 que foram completamente bem sucedidas, enquanto a probabilidade foi muito pequena. De modo que apenas uma dezena, excluindo-se as que apresentavam evidentes analogias, podiam ser consideradas fracassadas.

Uma dúvida me inquietava.

Já expliquei o que chamo de meio psíquico. Todos os objetos imaginados foram escolhidos por mim ou pela pessoa que me ajudou nas experiências. Ora, é possível que nós três tivéssemos sido envolvidos numa engrenagem psíquica de associações que se sucederam mecanicamente, sem que percebêssemos. Esta suposição pode parecer inverossímil, mas devo dizer que eu me apoio numa experiência anterior que foi surpreendente.

Estávamos no campo, entre amigos, cinco ou seis pessoas. Jogávamos carta. Depois passamos para a adivinhação. Tendo adivinhado por acaso duas ou três vezes uma cifra escolhida entre zero e seis e algumas cartas escolhidas mentalmente, achei que devia registrar que depois das experiências repetidas se havia estabelecido em nossos espíritos uma sequência maquinal de cartas ou de números, em razão das contiguidades, das similitudes, dos contrastes, que me permitiam pressentir a carta ou o número que se deveria escolher em dado momento. Deixei-me levar pela conjetura de que havia no ar a imagem de uma carta. Pensei no rei de ouros. Convidei meu vizinho a pensar numa carta qualquer e ele pensou no rei de ouros.

Não foi uma sugestão mental da parte de meu vizinho, pois eu estava decidido a dizer “rei de ouros” antes que ele tivesse feito sua escolha; depois que chegamos a esse momento, uma outra pessoa gritou: – Engraçado, eu pensei na mesma carta!

Ela estava, pois, no ar.

Algumas vezes foi-me possível descobrir o mecanismo provável desse encantamento. Por exemplo, depois de 47 escolheu-se 28, provavelmente porque 4 x 7 = 28. Ou ainda, se entre as cifras de 1 a 9 escolheu-se 8, isto é, uma cifra aproximada do 9, uma segunda pessoa escolherá 2 ou 3, por serem as mais distantes da precedente; 2 e 3 farão pensar em 6; em seguida, para não repetir as cifras já citadas, se escolherá 4 ou 5, associados aos 3 e 6, que foram pronunciados mais alto do que os outros, etc.

Evidentemente o mecanismo dessas adivinhações raramente basta para explicar certas coincidências inesperadas; mas na minha qualidade de determinista, em psicologia como em outro campo, eu digo: eu não conheço esse mecanismo; em consequência, não posso justificar a hipótese geral trazendo provas; mas tudo sendo determinado por um encadeamento de causa e efeito, é concebível que uma inteligência onisciente, conhecendo todos os traços das sensações em nossos cérebros, todas as conexões de nossas ideias, todos os nossos hábitos, defeitos e qualidades, poderá facilmente calcular ou prever de antemão não somente nossa escolha, como também as respostas do sujeito. E como é certo que o inconsciente dos sonâmbulos é um grande mestre no ocultismo, quem é que poderá se vangloriar de conhecer os limites de sua força? A ideia de que meu sujeito não estava em sonambulismo não me deteve, porque depois de muito tempo eu adquiri a convicção de que todos os fenômenos do sonambulismo podem manifestar-se isolada e momentaneamente, em estado de vigília.

Peço ao leitor que não se impressione com estas especulações. Quando se trata de um fenômeno tão controvertido, tão extraordinário e depois de longos anos se chega, enfim, a ver abaladas todas as convicções teórica e experimentalmente adquiridas, a gente se defende como pode.

Mas voltemos aos fatos.

Eis aqui três experiências a favor da hipótese do meio psíquico, feitas às pressas sobre uma outra pessoa não hipnotizável.



Uma cor

Vermelho Rosa



Uma flor

Lilás Lilás



Uma pessoa presente

J. D.


O aspecto geral dessas três experiências parece um tanto favorável à transmissão; mas examinemos as circunstâncias: previne-se o sujeito de que se trata de uma cor e ele não a adivinha senão aproximadamente: era vermelha e ele adivinhou rosa. “Rosa”, que é, ao mesmo tempo,uma flor, sugere-nos a nós todos a ideia de uma flor.

Previne-se o sujeito de que se trata de uma flor. A lilás se encontra no centro da mesa e, todos notaram, ela se apresenta como a primeira coisa ao espírito de todos. Depois, uma vez que se trata de uma ideia um pouco mais afastada e em que a probabilidade continua forte (havia 15 pessoas na sala), ele errou. Não somente não adivinha a pessoa, como toma a mulher por homem. Essas três experiências, sedutoras, são quase sem valor quando consideradas in abstracto, e se eu digo quase é unicamente porque houve uma certa aproximação entre o vermelho e o rosa, que pode ter sido ocasionada por causa fortuita, isto é, estranha à sugestão.

Voltemos ao nosso primeiro sujeito. Na segunda série de experiências, feita com mais precaução, evitou-se o encadeamento de associações (2 de maio de 1885):

Um objeto



Um busco de N.

Retrato... homem... busto

Um leque

Algo redondo – O.

Uma chave

Qualquer coisa de chumbo... bronze... ferro...

Uma mão com anel

Qualquer coisa brilhante... um diamante... um anel.

Um gosto

Ácido

Doce – O.

Uma forma

Um quadrado

Qualquer coisa irregular – O.

Um círculo

Um triângulo... um círculo.

Uma letra

M

M

D

D

J

J

B

A, X, R, B

O

W, A; não, é um O

Jan

J... (continue!) Jan

A terceira série foi feita a 6 de maio de 1885. Foram feitas 25 experiências cujas notas infelizmente não guardei, salvo três, que foram as que mais me surpreenderam. O sujeito voltou-nos as costas, pegou um lápis e escreveu o que lhe vinha à ideia. Nós o tocamos nas costas ligeiramente, olhando para as letras escritas por nós.

Brabant

Bra... (Eu me esforço mentalmente para ajudar o sujeito, sem dizer nada).

Brabant.


Paris

Paris

Telefone

Telefone

Quarta série

Z

L, P, K, J = 0

B

B

T

S, T, F

N

M = 0

P

R, Z, A = 0

Y

U, Y

E

E

Gustavo

F, J, Gabriel = 0

Duch

E, O = 0

Ba

B, A

N o

F, K, O

Um número

44

6, 8, 42 = 0

2

7, 5, 8 = 0

(Presto minha ajuda para se representar a forma escrita e não o som dos números).

3

8, 3

7

7

8

8, não, 0, 6, 9

Uma pessoa

O sujeito

O, não, sou eu.

D.

D.

Uma imagem qualquer

Representei-me a lua crescente. P. sobre um fundo de nuvens, eu no céu azul. Ele adivinhou:

– Vejo nuvens... uma luz... (e com satisfação) é a luz!

Se depois dessas experiências me perguntassem se eu acreditava na realidade da transmissão, eu teria respondido afirmativamente. Do ponto de vista de uma racionalidade consciente, científica, era preciso render-se à evidência. O acaso não poderia causar tantas aproximações. Considerando, por exemplo, unicamente as experiências com as letras, e sem contar as palavras inteiramente adivinhadas, tem-se sobre 20 experiências 15 sucessos, enquanto a probabilidade do acaso não deveria dar senão 1 sobre 24 experiências, isto é, zero para as 20 – zero contra quinze! Para haver uma chance de adivinhar a combinação de três letras jan seriam precisas 25³ = 15.625 experiências sem sugestão, ao passo que com a sugestão uma só foi suficiente.

Assim, do ponto de vista objetivo, meu ceticismo tinha o direito de capitular diante da eloquência dos fatos. Mas – e esse é o lado engraçado da questão – em problemas dessa natureza a impressão subjetiva do observador precisa às vezes mais do que uma constatação empírica. Evidentemente é preciso que o observador tenha uma rotina científica geral e uma experiência especial dos fenômenos; mas então é sobre sua impressão subjetiva, instintiva, que levarei mais em conta; ele me contará todos os detalhes – e lhe é impossível contar realmente todos os detalhes das condições e circunstâncias – se eu não perceber que ele está subjetivamente não somente impressionado como convencido, pelos fatos observados. Gostaria mais de uma experiência meio fracassada, mas com esta impressão pessoal de um homem instruído e sincero que se resume numa frase ao mesmo tempo prudente e firme: “Há qualquer coisa aí.”

Ora, esta impressão pessoal eu a tive quando fiz experiências precipitadas; mas o que sempre me faltava era esta outra impressão subjetiva, porém mais decisiva: “É uma transmissão direta do pensamento.”

Coisa estranha! Quase todas as vezes que o sujeito devia adivinhar nosso pensamento eu tinha um pressentimento. Parecia-me que, apesar de todas as precauções tomadas, havia uma certa cumplicidade de nossos inconscientes que se riam de nós; mas parecia que, ao escolher os objetos mais difíceis para adivinhar, eu fazia uma escolha astuciosa para dar certo mais facilmente; que mesmo quando a carta era tirada ao acaso eu a substituía por uma outra, sob um pretexto qualquer insuficiente, esquecendo mesmo esta manobra e fazendo tudo com minha consciência tranquila.

Receio ser mal compreendido. Trata-se aqui de um fenômeno quase inapreciável de operações mínimas, fugitivas e mais ou menos inconscientes, causadas pelo meio psíquico. Tenho um velho hábito de observações psicológicas, é a ocupação principal de minha vida, direi, desde a minha infância, pois desde a idade de 15 anos tomo notas diárias e eu tinha 17 anos quando escrevi minha primeira dissertação sobre os “Métodos de estudos psicológicos”, publicada em 1869, na qual eu indicava como os fenômenos do hipnotismo podem ser explorados sob a forma de um método particular, pela psicologia teórica positiva.

Por isso não quero ser suspeito de um misticismo qualquer e dou-me o direito de me atribuir a rotina necessária para fazer observações exatas. Mas precisamente devido a esse longo exercício cheguei a sutilezas empíricas muito difíceis de serem expressas. A psicologia tem, para mim, um aspecto muito diferente daquele que encontramos nos melhores tratados de nossa ciência. A psicologia de hoje me parece grosseira demais frente às sutilezas da vida real, tal como eu a vejo. A teoria associonista, por exemplo, que é hoje a base de toda psicologia dos fenômenos, não é, para mim, senão uma expressão parcial e insuficiente do mecanismo da vida psíquica. É apenas um esquema grosseiro de uma mecânica delicada. É suficiente para a didática primeira, mas não para uma ciência fina e completa. Reconheço francamente que, com a teoria associacionista de hoje, não compreendo por que nossas ideias se associam e, em geral, porque elas vivem, circulam e produzem efeitos sensíveis. E contudo sou determinista, e isso não é uma faculdade ou uma força obscura qualquer que eu queira juntar à teoria associacionista, para torná-la mais justa e viva. É apenas uma questão de detalhes, mas de detalhes que estão, com a teoria atual da associação, na mesma relação que a visão direta está com a visão da microscopia.

Para os fenômenos grosseiros da vida psíquica esta anatomia associacionista é suficiente. Mas é a histologia microscópica associacionista que nos falta, quando se trata de fenômenos raros, isto é, raramente notáveis e notados, pois os fenômenos raros não são raros só porque nós raramente somos capazes de vê-los. Ao contrário, seremos menos levados a ver em toda parte um encadeamento por similitude, por contraste ou por contiguidade no tempo e no espaço, se virmos as coisas por um microscópio psicológico que distinguirá frequentemente os fenômenos adequados, assimilará os contrastes e estreitará as contiguidades, por uma série de anéis e de agentes intermediários.

Infelizmente, desde que se trata de precisar os detalhes, duas coisas nos faltam: primeiro a visão nítida desses detalhes e, depois, mesmo quando nós os vemos passavelmente, a possibilidade de exprimi-los como é preciso. É aqui o lugar de se lembrar o círculo vicioso de Gorgias, o sofista.

Evidentemente meu ceticismo não é niilista como o dele. Se hoje não vemos bem, veremos melhor amanhã e encontraremos, sem dúvida, pouco a pouco, palavras novas para ideias novas.


Em resumo, eu estava convencido da realidade dos fatos da sugestão mental, mas não da sugestão propriamente dita. É a teoria dos fatos que resta formular. Enfim, havia talvez dois ou mesmo muitos processos diferentes que era preciso descobrir, nas minhas experiências.

Primeiro, uma concordância de dois mecanismos inconscientes, uma concordância baseada numa espécie de harmonia pré-estabelecida, pela mudança mútua das sensações ordinárias conscientes, e na qual o objeto escolhido, assim como o objeto adivinhado, serão determinados independentemente um do outro, mas por uma mesma engrenagem determinista inconsciente.

Depois, em alguns casos uma percepção verdadeira do pensamento, por intermédio de sinais exteriores, que bem podem nos escapar, pois um sinal tão grosseiro, como a tensão dos músculos na direção do objeto pensado, foi longo a ponto de ter sido visto. Esta seria, assim, uma exaltação da percepção, mas da percepção normal por sinais fisiopáticos e ídeo-gnômicos, que habitualmente permitem somente distinguir a alegria do desgosto, o prazer calmo de um prazer vivo, a simpatia, a suspeita, a ironia ou a sinceridade, no toque da mão ou no timbre da voz; embora aqui, em virtude de uma percepção excepcional, fosse possível ainda adivinhar se se pensa na cor amarela ou azul, numa forma redonda ou quadrada.

Em consequência, meu desejo foi simplificar ao mínimo as condições das experiências. Nos experimentos citados isso foi impossível. Foi preciso sempre prevenir o sujeito de que a experiência se realizaria e, em consequência, seu inconsciente se punha em guarda. O sujeito podia presumir, mais ou menos ciente, que se evitaria repetir as mesmas experiências e que, se na sessão precedente imaginara-se a cor azul ou amarela, agora seria a vez do vermelho e do verde.

Foi preciso circunscrever a categoria dos objetos a escolher e, assim, o pensamento do sujeito também ficava circunscrito por antecipação, só tinha que puxar uma das gavetas da memória para ali concentrar toda sua perspicácia de adivinhação.

Entre os objetos da mesma categoria havia um número muito restrito a escolher. Tratando-se de flor, não iríamos escolher, evidentemente, uma contrayerva officinalis; escolher-se-ia uma rosa, um lilás, uma violeta e então, de tempos em tempos, se teria êxito.

O sujeito adivinhará – esta é a palavra – nosso pensamento. Mas não é disso que eu preciso. Eu preciso de um fato de transmissão real, em que ele não terá nada para adivinhar e em que o inconsciente poderá muito bem calcular o que quiser, sem causar dano à pureza da experiência.

Eu preciso de que um sujeito de nenhuma forma prevenido, que não veja nem ouça ninguém, manifeste a ação do meu pensamento por um reflexo qualquer, visivelmente ligado a este impulso psíquico. Eu me contentarei com um sinal mínimo, mas que ele seja seguro e constante, que me seja impossível atribuí-lo a qualquer outra causa a não ser minha ação mental. Eis do que eu preciso: e só depois de eu ter entre as mãos um fato desse gênero é que terei esta impressão subjetiva da realidade de uma ação mental, e só então valerá a pena fazer um estudo especial aprofundado e arrostar os preconceitos científicos.

A ocasião favorável para tentar esta experiência decisiva não se fez esperar.


Capítulo III

A sugestão mental verdadeira


Dediquei minha atenção a uma dama afetada de hístero-epilepsia e cuja doença, já antiga, foi agravada por acessos de mania de suicídio.

A Sra. M., de 27 anos, forte e bem constituída, tem a aparência de uma saúde perfeita. Ataques convulsivos de grande histeria datam da infância. Influências hereditárias muito fortes. Há algum tempo, além dos ataques clássicos em muitos períodos, acessos de loucura com congestões dos lobos anteriores e anemia dos lobos posteriores. Desmaios nervosos paralíticos e acessos epiletiformes de curta duração. Um só ponto histerógeno abaixo da clavícula esquerda. Um ponto delirógeno no ócciput direito correspondente à fossa occipital superior. Nada de anestesia. A pressão ovariana detém o ataque momentaneamente. Sensível ao estanho, mas também a outros metais em graus diferentes e inconstantes. Temperamento ativo e alegre unido a uma extrema sensibilidade moral, interior, isto é, sem sinais exteriores. Caráter verídico por excelência, tendência ao sacrifício. Inteligência notável, talento, sentido de observação. Em momentos, falta de vontade, indecisão penosa, depois uma firmeza excepcional.

Um certo dia, ou melhor, uma certa noite, terminado seu ataque (inclusive a fase de delírio), a doente adormeceu tranquilamente. Subitamente despertou e eu e seu amigo chegamos junto dela. Ela pediu-nos que fôssemos embora, que não nos preocupássemos.

Insistiu tanto que, para evitar uma crise nervosa, saímos. Desci lentamente a escada (ela morava no terceiro andar) e de vez em quando eu apertava a orelha, perturbado por um mau pressentimento (ela havia se ferido várias vezes, anteriormente). Chegado ao fim, parei ainda uma vez, pensando se devia partir ou não. De repente a janela se abre com estrondo e eu percebo o corpo da doente se inclinar para fora. Corro para o ponto em que ela poderia cair e, maquinalmente, concentro minha vontade no objetivo de me opor à queda. Era algo insensato.

Entretanto a doente, já inclinada, se detém e recua lentamente.

A mesma manobra recomeça cinco ou seis vezes até que a doente, como fatigada, fica imóvel, as costas apoiadas contra o caixilho da janela, sempre aberta.

Ela não me podia ver, pois era noite e eu estava numa parte mais escura. Nesse momento a Srta. X, amiga da doente, correu e tomou-a pelos braços. Eu as ouvi se debaterem e subi rapidamente as escadas. Encontrei a doente numa crise de loucura. Ela não nos reconheceu. Só consegui afastá-la da janela aplicando a pressão ovariana, o que a fez cair de joelhos. Provoquei a contratura dos braços e consegui adormecê-la.

Uma vez em sonambulismo, sua primeira palavra foi:

– Obrigada e perdão.

Então contou que ela queria atirar-se da janela, mas que cada vez que tentava, sentia-se “erguida” por uma força que vinha “de baixo”.

– Por alguns momentos, disse ela, pareceu-me que você estava a meu lado e que não queria que eu saltasse.

Essa experiência não era suficiente para provar uma ação à distância. Mas me sugeriu a ideia de um novo estudo da questão.

Eu tinha o hábito de adormecer a doente cada dois dias e deixá-la num sono profundo enquanto tomava notas. Eu podia ter certeza de que ela não se moveria, nessas sessões, antes que me aproximasse dela, para provocar o sonambulismo. Então preparei uma experiência, sem contar a ninguém meu projeto.

Adormeci-a e, depois de tomar algumas notas, sem mudar de atitude (eu estava a alguns metros de distância, fora de seu campo visual), fingi que escrevia, mas interiormente concentrei minha vontade numa ordem dada. Ordenei mentalmente que ela levantasse a mão direita e no segundo minuto ela agitou a mão direita. Recomecei, mandando que ela se levantasse e viesse até mim. Ela se levantou com dificuldade e veio até onde eu estava, a mão estendida. Eu a reconduzi para seu lugar e ordenei (sempre mentalmente) que ela tirasse o bracelete de sua mão esquerda e me entregasse.

Ela estendeu a mão esquerda, depois retirou, vacilando, o bracelete, entregando-o a mim. Continuei dando ordens e ela cumpria, como estender-me a mão direita (ela estendeu a esquerda), sentar-se a meu lado, etc.

Em seguida declarou-se o sonambulismo ativo e ela conversou agradavelmente. Não me obedecia mais e disse:

– Agora vou dormir.

Observei alguns traços de um ataque durante o sono e depois ela pareceu acordar.

– Tenho um tique-taque na cabeça que não me deixa dormir. Não quero mais dormir. Sente-se a meu lado.

No dia seguinte, 3 de dezembro, ela adormece pelo olhar e cai num sono muito profundo. Recomeço a experiência e ordeno que ela me dê a mão direita. Nada. Qualquer mão! Ela, então, estende a mão esquerda.

Se eu lhe falo tocando-a, ela me responde; se eu lhe falo sem tocá-la, ela não ouve senão sons incompreensíveis.

Digo-lhe que devo retirar-me por 15 minutos, mas, uma vez fora, eu tento chamá-la mentalmente. “Venha a mim!”. Ela se agita.

Nesse momento a experiência é interrompida por um acidente curioso. A ação à distância provoca nela uma hiperestesia geral e nesse estado “ela se sente incomodada por alguma coisa à direita”, sente “um odor insuportável”, ouve “um ruído imaginário provocado pela congestão cerebral que a impede de me ouvir”. Diz! “Alguma coisa me impedia... alguma coisa de que você não gosta.”

– O que é?

– Não sei, mas quero que me livre disso.

Faz gestos repulsivos à direita. Vejo que no móvel onde há flores está uma planta nova. Retiro-a.

– Ah, finalmente – diz ela –, obrigada. Eu quase tive um ataque.

Era uma planta que lhe havia sido dada naquele mesmo dia, por uma amiga que ela amava muito quando no seu estado normal, mas a quem não suportava quando em sonambulismo. Eu sabia disso, mas não podia imaginar que um objeto pertencido a essa pessoa pudesse provocar a mesma repulsa. Pensei então na ação do odor dessa planta, mas ela não tinha cheiro algum. Passei a fazer, então, uma série de experiências com objetos procedentes dessa mesma pessoa, misturando-os com outros. Coloquei, por exemplo, ao lado da doente, mas um pouco longe, no canapé, um rolo de músicas para piano trazidas por essa mesma pessoa. E ela fez um gesto, dizendo que se sentia mal. O mesmo em relação a outros objetos. Jamais ela adivinhou o que era, mas sempre sentia uma influência antipática.

Devo acrescentar que esta jovem amava muito a Srta. M. e que ela sentia ciúmes da influência que eu exercia sobre minha paciente.

No dia 7 de dezembro, depois de mais uma experiência no dia 5, a doente está em estado de a-ideia, os braços rígidos, as pernas um pouco esticadas. Ordeno mentalmente que ela se levante, vá até o piano, apanhe uma caixa de fósforos, venha até mim, acenda um deles e volte para o seu lugar.

Ela se levanta com dificuldade, aproxima-se de mim, vai ao piano mas passa adiante (eu continuo ordenando mentalmente), seu braço se ergue, toca a caixa, apanha-a, vem a mim e quer entregá-la. Eu ordeno que ela acenda. Ela acende e volta ao seu lugar.

Nova experiência no dia 11 de dezembro, na presença do engenheiro Sosnowski. Adormeço a doente e demonstro os três estados principais:

1º) a-ideia (sem pensamento, sono profundo);

2º) monoideia (uma só ideia possível); e

3º) poli-ideia (sonambulismo).

Ordeno-lhe, depois de adormecê-la, que venha até mim e ela vem, que estenda a mão ao engenheiro. Ela estende. Nesse momento ela abre os olhos, pois o contato com uma pessoa estranha lhe provoca uma sensação desagradável.

Novas experiências, nas quais ela obedece, em estado de sonambulismo, a quase todas as minhas ordens. Mas contra algumas se rebela. Numa ocasião ela adivinhou meu desejo. Perguntei o que eu queria naquele momento e ela declarou: “Você quer um pouco de vinho no seu chá.” E era correto.

Fico por aqui. A história dessa doente foi das mais instrutivas para mim. Tenho sobre ela um volume inteiro de notas, tomadas na hora. Só relato aqui as experiências essenciais que têm relação direta com a transmissão psíquica, para não complicar demais.

Para mim essas experiências foram decisivas. Tive, afinal, a impressão pessoal, há tantos anos procurada, de uma ação verdadeira, direta, indubitável; com a certeza de que não houve nem coincidências fortuitas, nem sugestões por atitudes, nem outra causa de erro possível.

Para mim, tudo foi relativamente claro; é preciso considerar a transmissão mental como uma espécie de audição, guardadas, é claro, as proporções. Não se ouve quando se é surdo e não se ouve quando se está distraído.

É-se surdo a uma transmissão de pensamento desde que se durma tão bem que o cérebro não funciona nada. Como querer que um paciente mergulhado numa a-ideia paralítica profunda obedeça a um pensamento se ele não ouve nem à viva voz? Ele é surdo. Também as sugestões mentais são mais difíceis nesse estado do que no estado de vigília e, em consequência, aqueles que imaginam que é suficiente adormecer alguém magneticamente para torná-lo sensível à ação enganam-se.

Não se ouve quando há barulho demais e um sujeito hipnotizado não ouvirá seu pensamento porque ele está à mercê de todo mundo, porque ele tem sensações fortes e diferentes demais. Em consequência, mesmo que você deixe o sujeito hiperestesiado, pela fixação de um objeto brilhante, por exemplo, você não o tornará facilmente sensível às influências mínimas pessoais, tais como a ação do pensamento.

Não se ouve quando se está distraído porque uma ação exclui a outra. Aquele que fala ouve mal. Os sonhos do sonambulismo ativo, sendo mais vivos do que no estado normal, sendo quase sempre sonhos falados, se opõem mais a uma percepção delicada do que em estado de vigília. Em consequência, é inútil tentar a sugestão mental direta num sonâmbulo que fala com vivacidade, que executa um projeto sonambúlico qualquer; ele não ouvirá. Sua atenção não é nula como num hipnotizado, mas – o que é pior para o objetivo que se tem em mira –, ela é dirigida para outra parte qualquer. Assim, apesar das aparências favoráveis (ele pode ouvir sempre seu magnetizador), o estado de poli-ideia fortemente ativo não convém às experiências mais do que uma a-ideia paralítica.

Restam os estados intermediários. Certos sujeitos, capazes de apresentar fases opostas de a-ideia e de poli-ideia, não passam diretamente de uma para outra. Eles param, mais ou menos por um tempo longo, na fase monoideia. Não se trata de uma inércia, de uma paralisia completa do cérebro, mas de um cérebro que concentra toda sua ação funcional e só pode concentrá-lo numa só ideia, única, dominante. Ela é dominante, não sendo contrabalançada por nenhuma outra. Ela é alucinatória pela mesma razão e pela vivacidade, pela vitalidade fisiológica de um cérebro que está repousando melhor que de hábito (sem nenhuma ideia). É preciso, pois, pouca coisa para pô-lo em funcionamento.

Um nada o abala, um nada o domina.

É o momento das sugestões.

Das sugestões mentais?

Sim e não. Esta fase é ainda mais complicada do que parece. O estado monoidéico pode ser duplo; ele pode ser ativo e passivo.

O monoideísmo é ativo se se aproxima do poli-ideísmo, permanecendo como está. Ele se aproxima por uma preponderância muito grande de uma só ideia, associada a algumas outras muito fracas. É o chamado estado de monomania sonâmbula. As ideias fracas pertencem ao mundo real, a ideia forte à imaginação. Ele não pode, por isso, se conduzir tão bem no meio real como um sonâmbulo ativo propriamente dito, pois este reflete, percebe, evita os obstáculos e cumpre um trabalho difícil. Mas se ele vê (mal) um objeto qualquer, seu sonho pode persuadi-lo facilmente de que se trata de um livro, uma lanterna ou um pássaro e então ele cumprirá um certo número de atos, apropriados à sua visão.

Esse estado de alucinação espontânea não é mais favorável à transmissão mental do que o poli-ideísmo ativo, onde ele não está mais do que um grau inferior como lucidez, mas mais avançado e mais isolado como vivacidade das sensações.

O monoideísmo passivo, ao contrário, se aproxima mais da a-ideia, precisamente por seu caráter de passividade, de inércia. A vivacidade de sensações é a mesma. Mas elas não podem mais nascer por si mesmas, elas devem ser sugeridas e o são com extrema facilidade. Tudo o que você diz é sagrado. Tudo o que você deixa adivinhar é já obrigatório e a adivinhação se cumpre, não por uma reflexão, mas por associações inconscientes, imperceptíveis, que enganam, que aparecem e desaparecem, tão logo sua tarefa seja cumprida. Pois este estado é, por assim dizer, ainda mais monoidéico do que o precedente. As ideias fracas, acessórias, são quase imperfeitas. E é sempre um estado de tensão, de tensão violenta mesmo, como a outra, com a diferença de que a tensão do monoideísmo ativo entra em jogo por si mesma, enquanto a tensão do monoideísmo passivo espera sempre um estímulo exterior, por menor que seja, um sopro, um indício, um nada. Dir-se-ia que se trata de uma “energia involuntária” que espera apenas um impulso para se manifestar.

Será esta a fase das sugestões mentais?

Quase: Em todo o caso, as sugestões mentais têm sempre uma ação nesta fase, o que quer dizer que bastará concentrar fortemente seu pensamento para que o sujeito sinta. Haverá logo um franzir de cenhos, uma expressão de atenção no rosto, uma agitação nos membros e, enfim, uma execução de sua vontade ou um começo de execução. Uma coisa, entretanto, o ameaça e pode prejudicar a experiência: se a sua ação for demasiadamente viva no começo, ou então se ela for muito vivamente (embora indistintamente) sentida pelo sujeito, ela terá sobre ele uma influência reanimadora, reanimadora no sentido relativo da palavra, isto é, que o sujeito, ao executar a ordem mental, e por causa dela, passará muito rapidamente para um estado um pouco menos profundo, para o monoideísmo ativo, no qual se obstinará em executar suas ordens, sem tê-las compreendido bem; ele o procurará, correrá atrás de você e se insensibilizará, ele próprio, por esta monomania involuntariamente sugerida; ou então passará para um estado menos profundo ainda, mais tranquilo e mais lúcido ao mesmo tempo, do que o do poli-ideísmo ativo; ele começará a adivinhar, a presumir por reflexões próprias aquilo que não pode mais sentir passivamente, e então será capaz de executar qualquer outra coisa que não a que você pediu. Finalmente, o que é mais raro, mas que ocorre nos sujeitos mais sensíveis, a sua agitação mental excita primeiro, como fazem os narcóticos, para adormecer depois; e o sujeito, depois de ter manifestado um começo de agitação, cai outra vez na a-ideia completa.

Eis por que este estado não nos dá o máximo de garantia de êxito. O máximo será preciso procurar um pouco adiante.

O verdadeiro momento da sugestão mental é o do limite entre o estado a-idéico e o monoideísmo passivo.

Mas se é assim, se a sua experiência tem mais chance aqui do que no monoideísmo passivo declarado, isto ocorre unicamente porque ela tem mais tempo à sua disposição e porque em geral fazemos um esforço muito grande no começo da ação mental, o que é útil deste lado do limiar da a-ideia, ao passo que é perigoso do lado de lá. Se pudéssemos estar certos do grau exato, bastaria conformarmo-nos com suas exigências; agiríamos um pouco violentamente em a-ideia (para despertar o cérebro), um pouco mais suavemente em monoideia (para não despertar demais) e livremente, até o limite dos dois estados. Em todo caso o cérebro deve ser regulado, ele deve ser regulado na monoideia nascente.

Permito-me fazer uma comparação telefônica.

Um telefone não reproduz bem a palavra à distância, a não ser em condições bem reguladas. Mas tudo é relativo, na telefonia como na neurologia. Um telefone está bem regulado quando a placa vibradora se encontra bem perto, mas não muito perto do núcleo magnético da bobina; daí, podemos gritar fortemente, sem perturbar a nitidez da transmissão. Ao contrário, quanto mais gritarmos, melhor somos ouvidos do outro lado. Ouviremos relativamente melhor ainda se a placa estiver ainda mais perto do núcleo, quase tocando-o, mas então, falando muito alto arriscamos colar a placa contra o ímã e anular quase completamente a transmissão. Uma regulagem média, próxima do máximo – eis o que a prática precisa, um pouco em desacordo com a teoria.

Mas como regular um sonâmbulo?

Eis a questão! Felizmente não se trata de uma questão muito mais difícil em hipnologia do que na telefonia. Só que, aqui como lá, é preciso que o instrumento seja regulável.

Ora, há sujeitos que não se deixam manobrar sob esta relação. Bastará que os ocupemos em outra coisa ou que nos contentemos com uma ação furtiva, como fizemos até agora. Mas aqui também é preciso evitar os sujeitos obedientes demais ou já educados, os sujeitos manobráveis. Em troca é preciso aprender a provocar o grau do sono desejado. Mas as primeiras sessões devem ser destinadas unicamente a uma observação puramente passiva, como a que produziu a sua ação primitiva, para que nos demos conta da natureza do sujeito. Se for preciso devemos esperar mesmo muitas horas, para que o sujeito desperte por si mesmo, a menos que ele peça para ser despertado mais cedo. Nos sujeitos eminentemente sensíveis ao sono (pois há aqueles com os quais você pode fazer todas as experiências físicas, mas não psíquicas), poder-se-á obter sempre duas fases principais: o sono profundo, que pouco a pouco se dissipa, e depois o sono lúcido, ou o sonambulismo propriamente dito. Do que precisamos é de um estado intermediário. Não deixar o sujeito despertar demais, recuperando sua atividade espontânea e não deixá-lo adormecido demais, pois do contrário ele não o ouvirá. O melhor meio de se obter esta graduação é utilizar os passes ditos magnéticos, longitudinais e transversais, pois a profundeza do sono geralmente aumenta com o número desses passes, diminuindo com o número dos mesmos. Assim, fazendo dois, três, quatro passes diante do sujeito (sem contado), obtém-se um pouco mais ou um pouco menos de sono e chega-se às vezes até a poder graduar à vontade as fases intermediárias que acabo de enumerar. Se esta graduação não for possível através de passes, será difícil obtê-la por outro meio qualquer. E será preciso sobretudo evitar o emprego de um método diferente para fases diferentes, pois então você criará uma associação ídeo-orgânica artificial, um mau hábito que acabará desorganizando o sujeito.

Está claro que eu não entro aqui numa discussão sobre a ação dos passes. Pode-se imaginar que eles têm uma ação física ou puramente sugestiva, o que não tem importância para os objetivos propostos. Indico simplesmente o meio mais antigo, mais conhecido, que dá resultados mais constantes e mais favoráveis para o sujeito (certas práticas hipnóticas são prejudiciais) e o melhor para graduar à vontade o sono, ali onde a graduação é possível.

Uma vez senhor de seu sujeito, você não terá mais do que escolher o momento em que ele possa ouvi-lo e não responder ainda muito bem.

Procure não confundir uma dificuldade de falar causada por uma contração dos músculos da voz, com uma dificuldade afásica, isto é, puramente cerebral.

Entraremos ainda em alguns outros pormenores, ao formular as conclusões de nosso estado.

Capítulo IV

As experiências de Havre


No mês de novembro de 1885 Paul Janet leu, na Sociedade de Psicologia Fisiológica, uma comunicação de seu sobrinho Pierre Janet, professor de filosofia no liceu de Havre: “Sobre alguns fenômenos do sonambulismo”. Este título, prudentemente vago, continha revelações extraordinárias. Tratava-se de uma série de ensaios, feitos por Gibert e Janet, que pareciam provar não somente a sugestão mental em geral, mas ainda a sugestão mental a uma distância de alguns quilômetros, sem que o sujeito estivesse prevenido.

Nesse trabalho Janet só contava os fatos: era crer ou não. Tomei então a decisão de realizar um projeto que provasse ou não as informações contidas naquela comunicação.

É verdade que sobre a sugestão mental eu não tinha mais dúvidas, depois das inúmeras experiências que realizei. Mas os fatos anunciados pelos dois Janet eram outros: conseguiram êxito em condições mais extraordinárias do que minhas experiências feitas em pessoas adormecidas; eles fizeram sugestões mentais a longo prazo e adormecendo o paciente à distância.

O sujeito de suas experiências, a Sra. B., era uma brava mulher do campo, de uns 50 anos, honesta, muito tímida, inteligente, embora sem nenhuma instrução. Constituição robusta. Quando jovem, era histérica, mas foi curada por um magnetizador desconhecido. Depois, só em sonambulismo é que alguns traços da história se manifestam, sob a influência de uma contrariedade. Em estado normal a histeria desaparecia, mas a sensibilidade hipnótica persiste, sendo ela sujeita a acessos de sonambulismo natural durante os quais ela pode falar e descrever as singulares alucinações que sofre. Tem marido e filhos que gozam saúde. Por insistência de Gibert ela foi até o Havre, para ser submetida a experiências. É adormecida com facilidade, bastando segurar-lhe a mão e comprimi-la ligeiramente. Em 2 a 5 minutos adormece profundamente.

Quando cheguei ao Havre, encontrei Gibert e Janet de tal forma convencidos da realidade da ação à distância que aceitaram todas as minhas imposições, quanto a precauções, para me permitir verificar o fenômeno.

Formamos uma espécie de comissão, com F. Myers, o Dr. Myers, membros da Society for Psychical Researches, Marillier, da Sociedade de Psicologia Filosófica da França, e eu.

Eis as precauções que tomamos para nossas experiências:

1) A hora exata da ação à distância é tirada na sorte.

2) Ela só é comunicada a Gibert alguns minutos antes do termo, e tão logo os membros da comissão cheguem ao pavilhão.

3) Nem o sujeito nem qualquer habitante do pavilhão, situado a quase um quilômetro de distância, tem conhecimento da hora exata, nem mesmo do gênero da experiência que terá lugar.

4) Para evitar a sugestão involuntária, nem nós nem ninguém pode entrar no pavilhão, senão para verificar o sono.



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