Josiléia ribeiro dantas souza – Graduanda em Letras/Português -uespi patrick álisson de sousa – Graduado em Letras/Português uespi


CAPÍTULO I CLARICE LISPECTOR NO CONTEXTO ESTÉTICO-LITERÁRIO DO MODERNISMO BRASILEIRO



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CAPÍTULO I

CLARICE LISPECTOR NO CONTEXTO ESTÉTICO-LITERÁRIO DO MODERNISMO BRASILEIRO




Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome. (LISPECTOR, 1998, p. 70)
Nesse capítulo será abordado acerca das contribuições de Clarice Lispector no Modernismo Brasileiro. Para isso, é necessário entendermos o que foi o Modernismo.

Em termos gerais, foi um movimento que veio para radicalizar mudanças nas artes, literatura, cultura, teatro e cinema. Seu inicio foi, basicamente, a partir de 1922, com a Semana de Arte Moderna. Esse movimento surgiu no fim do século XIX e inicio do século XX, apresentando-se nas artes plásticas e literatura, e tinha como principal objetivo renovar as manifestações culturais no país, opondo-se ao tradicionalismo vigente e retratando a insatisfação politica, que ocasionou a inflação, desemprego, greves e protestos. De um modo muito genérico, essa sedução pela irracionalidade, visto como uma atitude existencial e estética dá o tom e os rumos de novos grupos considerados modernistas e impõe uma agressividade no campo acadêmico geral.

Tanto no Brasil como em Portugal o Modernismo acabou por se afirmar como um movimento singular, pois seu impacto está para além da literatura. Entretanto, no Brasil, seu caráter estético seu voltou mais para a intenção e ambição de construir uma arte de caráter nacional, com originalidade criativa, procurando uma sobreposição da densidade dos personagens sobre os eventos narrados, em que a língua fosse também de fato um elemento de coesão e identidade nacional.

Daí resulta a opção dos modernistas brasileiros pelo coloquialismo e pela oralidade da língua falada pelo homem comum. Seja como for, é preciso reconhecer que a primeira geração foi a mais radical não pelo fato de inaugurar o pensamento modernista enquanto movimento estético, mas, por assumir um projeto artístico-estético até então revolucionário, optando com primazia pela arte, pela inovação literária e pela cultura do país, deflagrando um genuíno movimento de rompimento com o passado de uma arte brasileira que era quase que uma imitação da arte europeia.

Para Santos Filho e Costa (2014):
Ao trazer para o texto literário o uso coloquial da língua portuguesa falada no Brasil, os escritores modernistas absorvem os registros linguísticos antes colocados de fora do entendimento de língua culta, revertendo a função social anteriormente desempenhada pela literatura. Não se está, obviamente, afirmando que a literatura modernista passou a ser disseminada através da oralidade, mas sim que os registros da língua oral passaram a compor a literatura, ainda que escrita (SANTOS FILHO; COSTA, 2014, p. 550).
Assim sendo, é preferível evitar uma análise simplificada que coloca ora a primeira geração como representante de um desejo de ruptura radical – embora essa fosse uma característica central do modernismo brasileiro –, sem ligações estético-artísticas com outros movimentos; e outrora, as outras duas gerações como fases que funcionaram apenas para assimilação do paradigma central do modernismo, como meras iniciativas literárias posteriores, herdeiras cegas do movimento que eclodiu em 1922, em São Paulo.

Segundo Vera Lúcia de Oliveira (2002):


O Modernismo radicalizou a controvérsia sobre o problema da dependência cultural do país, levando muitos escritores a rever, de forma ainda mais crítica, o presente e o passado e a denunciar a alienação vigente em muitos setores da vida nacional. A questão é antiga, como vimos. Foi colocada pelos românticos, mas se achava, então, ainda distante de uma solução definitiva.

Na verdade, é com o Modernismo que se consolidará, definitivamente, a emancipação das letras e das artes brasileiras. E o momento culminante, o ponto de conjunção de todas as discussões e polêmicas sobre o assunto, foi a Semana de Arte Moderna: para ela confluíram e nela acabaram colidindo entre si muitas das posições mais extremas do debate. O Modernismo marca, nesse sentido, uma ruptura. Podemos afirmar que existe um modo de conceber o fenômeno estético-literário nacional anterior e um outro, já bem distinto, posterior a Mário de Andrade e Oswald de Andrade. Partir dessa vanguarda é percorrer um caminho obrigatório para compreender plenamente a literatura brasileira contemporânea: foi a partir desse movimento e das suas conquistas que essa literatura alcançou uma alma nacional e se transformou em um instrumento de expressão da cultura sincrética do país (OLIVEIRA, 2002, p. 63-64).


Decididamente, o modernismo brasileiro não é somente um movimento radical, mas um ato inaugural de como a partir de então seria pensada a literatura e a arte brasileira. O movimento de ruptura deflagrado pelos modernistas em 1922 não foi uma tentativa de negação total de outros sistemas literários, mas uma iniciativa radical de construção de uma nova estética literária à brasileira, com arquétipos, linguagem, estética, criatividade, cultura, fluxos, expressividade e inventividade inerentemente brasileiras.

Além disso, como salienta Mônica Gomes da Silva (2015) o interesse por romper com o academicismo e o tradicionalismo ao mesmo tempo, fez do modernismo brasileiro um movimento singular e quase que subversivo no panorama da arte do início dos anos 1920. Esse radicalismo foi, inclusive, um traço estético do movimento que motivou duríssimas críticas aos modernistas ao longo do século XX. Críticas essas que partiam tanto de críticos de arte como de críticos literários.

No entendimento de Frederico Barbosa e Elaine Cuenca Santos: “Os modernistas de 1922 abriram o caminho para que os novos prosadores e poetas pudessem criar em liberdade, sem as amarras formais do academicismo, e preocupadas com a realidade nacional” (BARBOSA; SANTOS, 2009, p. 87). Era preciso, pois, fazer uma arte condizente com a realidade, a história e a sociedade brasileira, mestiça e multifacetada na maioria de seus aspectos históricos, sociais e culturais.

No Modernismo tem-se o encontro da confluência de vozes, da efervescência do coloquialismo e da polifonia, características de uma forma de praticar literatura que pretendia fazer uma tradução alternativa do Brasil, sobretudo, das regiões mais interioranas. No interior do Brasil predominava a exploração do pobre camponês pelo rico senhor de fazenda, o voto de cabresto, uma sociedade agrária – quase feudal –, o coronelismo e a política das oligarquias, uma tendência que foi predominante na segunda e na terceira geração do modernismo, emprestando o contexto histórico para a literalidade, por exemplo, em Vidas Secas (1938), de Graciliano Ramos (1892-1953); O Quinze (1930), de Rachel de Queiroz (1910-2003); Menino de Engenho (1936), de José Lins do Rego (1901-1957); Morte e Vida Severina (1955), de João Cabral de Melo Neto; Grande Sertão: Veredas (1956), de João Guimarães Rosa; e O Auto da Compadecida (1955), de Ariano Suassuna.

Em geral, o movimento deflagrado em 1922 com os modernistas brasileiros foi ao mesmo tempo um ato de atrevimento, de libertação, de coragem e de insatisfação com as formas de fazer, criar e produzir arte até então vigentes, pois se configurou como a primeira tentativa de criar uma arte genuinamente nacional, produzida no Brasil, por brasileiros, para os brasileiros e pelos brasileiros. Foi de fato uma declaração de independência no território da arte, praticamente um século depois da independência política do Brasil, num momento em que a arte brasileira se identificava com a maioria dos movimentos de vanguarda europeus, entretanto, sem perder de vista a originalidade estética que o próprio movimento postulava.


1.1 Clarice Lispector e a Terceira Geração Modernista


Integrante de uma seleta galeria de destacados expoentes da terceira fase do modernismo brasileiro como João Cabral de Melo Neto (1920-1999), Antônio Olinto (1919-2009), João Guimarães Rosa (1908-1967), Mauro Ramos da Mota e Albuquerque (1911-1984), Nelson Falcão Rodrigues (1912-1980) e Ariano Vilar Suassuna (1927-2014), Clarice Lispector (1920-1977) foi uma das raras mulheres da terceira geração modernista da literatura brasileira, mas que assim como seus pares masculinos, não perdeu um determinado fio condutor que ligava-os aos laços estéticos e ideológicos do pensamento original do movimento modernista, que eclodiu na oportunidade dos emblemáticos acontecimentos da Semana de Arte Moderna, realizada em fevereiro de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo.

Mesmo assim, não se pode afirmar com grande segurança que a segunda e a terceira geração modernistas foram tão simplesmente dois desdobramentos históricos e estéticos da primeira geração do modernismo, pois essa continuidade estética, linguística e artística é muito difícil de ser identificada no tempo longo, até porque, a tendência do movimento modernista foi caraterizada por uma certa metamorfose estética, linguística e artística que acompanhou toda a trajetória do movimento. Ao contrário do simbolismo – corrente que o precedera –, no modernismo, a experiência subjetiva e a renovação constante conservaram-se enquanto atributos centrais, tanto na poesia quanto na prosa. Além disso, é preciso considerar que enquanto movimento o Modernismo não foi puramente literário, uma vez que abrangeu vários segmentos da arte, o que torna ainda mais problemática assinalar uma continuidade ou mesmo uma unidade do movimento no Brasil.

Ciente do peso semântico, linguístico, histórico e estético que a questão da continuidade possui no universo literário, Fernando Guimarães (2004) explica:


Com efeito, a palavra continuidade pode ser entendida, relativamente à produção literária, em dois sentidos bem diferentes. Por um lado, significaria algo que aplainaria a própria realidade textual ao nível de um denominador comum de natureza temática ou estilística. Por outro lado, apontaria para a realização de uma leitura renovada dos textos, aferida por um discurso que acaba por se tornar homólogo e que era capaz, não de encontrar, mas, antes, de lhes propor uma identidade na sua diferença real (GUIMARÃES, 2004, p. 8).
Por isso, ao mesmo tempo, não aceitar que todas essas gerações possuem suas tendências e particularidades anularia o fato de reconhecer que o modernismo teve influência de outros movimentos literários, principalmente, os movimentos de vanguarda europeus, mas também, influência de um conjunto de obras da literatura norte-americana, da literatura hispano-americana e dos próprios românticos. Naturalmente, no modernismo, quando se fala em influência pode-se pensar apenas na influência que se dá no sentido de uma assimilação estética, mas essa mesma influência pude justamente provocar um desejo de mudança nos processos de criação, produção e na estética literária de maneira geral, caracterizando justamente o rompimento com certos modelos, arquétipos e padrões estético-literários considerados ultrapassados.

Portanto, é demasiado problemático analisar as três gerações modernistas enquanto uma continuidade, inclusive, torna-se ainda mais problemático, na visão de Ivanaldo Oliveira dos Santos Filho e Emias Oliveira da Costa (2014), pois o modernismo no Brasil tomou um rumo duplamente revolucionário: uma revolução de natureza estética e outra na própria natureza do conteúdo das obras modernistas. Como bem observou Pedro Pinto (2004), o movimento modernista, no que diz respeito ao seu processo de formação no plano da literatura, até mesmo entre as tendências estéticas que o influenciaram, desde o saudosismo e o decadentismo ao futurismo, e desde o simbolismo ao existencialismo, trazia em seu discurso ideológico concepções de arte bastante divergentes, que vieram do nascedouro do movimento modernista, ainda no Portugal do começo do século XX.

A terceira geração modernista da literatura brasileira, a qual pertencia Clarice Lispector se caracterizou por uma intensificação na questão modernista dessa geração, que foi a busca por uma nova linguagem, uma linguagem simples e acessível, que foi o que caracterizou e limitou o grupo dessa geração. Essa redução de todo o universo da linguagem lírica acabou resultando em algumas cadências intencionalmente estéticas.

Por isso, para se compreender Clarice Lispector e a terceira geração modernista é preciso entender que o próprio termo moderno já sugere um pensamento de ruptura histórica, em que a estética, valores, crenças, costumes, formas de agir e de pensar são considerados superados em relação ao que se apresenta, não necessariamente como novo, mas enquanto uma opção alternativa.

Segundo Monica Pimenta Velloso:
A cada época são criados novos valores, inventos e denominações. Quando nos referimos aos tempos modernos, à mulher moderna, ao espírito moderno, ao estilo moderno e ao mal moderno, mesmo inconscientemente, estamos nos reportando à associação entre tempo e história. Fica clara a abrangência do termo moderno. Ele se mostra de tal forma flexível e ocupa tamanha extensão a ponto de poder integrar uma cultura inteira. Em tempos de globalização o moderno atingiu tamanha organicidade, caráter tão complexo, passando a ser de tal maneira integrado ao circuito da nossa vida cotidiana que deixou de ser um mero vocábulo. Tornou-se parâmetro de referências, moldando pensamentos e juízos de valores sobre arte e ciências, vida política, social e econômica (VELLOSO, 2010, p. 11).
Assim, desde seu pensamento embrionário o modernismo brasileiro procurou romper laços com o academicismo e o tradicionalismo, mostrando ainda um significativo desprezo pelo formalismo. O modernismo brasileiro também teve como características principais, o experimentalismo estético, a liberdade de expressão, a opção por temáticas da vida cotidiana do país, além da influência de vanguardas artísticas europeias como o dadaísmo, o expressionismo, o futurismo, o cubismo e surrealismo, investindo na busca por uma autêntica linguagem literária, no sentido de construir uma vertente estético-artística no plano da literatura, da pintura e da escultura que fosse capaz de pensar formas de tradução da arte e da realidade de viés genuinamente brasileiro.

Ainda segundo Silva (2015), mesmo que os literatos modernistas não mostrassem veementemente que tinham em mente a tentativa de aproximação com a população, seja no apreço pelo coloquialismo, seja por uma expressão artística que se manifestasse através de uma estética que fosse capaz de provocar uma leitura dos diversos Brasis que existem neste país de dimensões continentais, isso ocorrera de forma indireta e, talvez, até inconsciente, por meio da grande produção literária do movimento.

Entretanto, diferente da primeira e da segunda geração, a terceira geração do Modernismo, a qual pertencia Clarice Lispector, de acordo com Silva passou a ser cognominado de “geração do instrumentalismo”, segundo comentário do próprio João Guimarães Rosa (2017).

Além disso, Santos Filho e Costa (2014) sugerem que o modernismo brasileiro de fato decidiu por um caminho estético de apreço pela cultural brasileira, ao romper com as ancestrais raízes lusitanas da norma culta da língua portuguesa, ao propor a inserção do coloquialismo na literatura, e, embora não seja possível afirmar que o movimento modernista foi propagado por intermédio da oralidade, mas sim, a partir do movimento modernista os registros da língua falada passaram a compor o cânone literário na sua modalidade escrita.

A notabilidade de Clarice Lispector se dá num contexto em que claramente as mulheres ainda são uma minoria. Na realidade, o aparecimento da mulher no cânone literário brasileiro é uma configuração histórica que só se tornou possível após a década de 1930. Na visão de Luciana Santos de Oliveira e Luciano Amaral Oliveira (2013) houve um silenciamentos da figura feminina no cenário literário brasileiro. Esse quadro só começou a mudar um pouco após o aparecimento da obra de Rachel de Queiroz, primeira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Na verdade, o que Oliveira e Oliveira (2010) acabaram por constatar é que existia uma tentativa deliberada de excluir as mulheres dos círculos literários. Notadamente, porque a sociedade patriarcal brasileira desejava uma mulher que fosse criada e educada para ser boa esposa, boa mãe e boa dona de casa.

A maior parte da obra de Clarice Lispector, sobretudo, os romances, – entre eles Perto do Coração Selvagem, de 1943 –, foi publicada com a autora em vida, por volta de meados dos anos 1940 e final da década de 1970. Neste tempo, o Brasil passou por uma amálgama de acontecimentos turbulentos que subverteram o panorama da política, da sociedade e da cultura brasileira.

De acordo com o historiador brasileiro Boris Fausto (2000), a Era Vargas chegava em 1945 e quase uma década depois, em 1954, acusado pela imprensa de estar por trás de um atentado contra um de seus maiores adversários políticos, Carlos Lacerda, o presidente tirava a própria vida com um tiro no peito, gerando grande comoção nacional. Dez anos depois, os militares, alegando combater o comunismo que chegava ao Brasil realizam um golpe de Estado e fundam um regime ditatorial que duraram duas décadas.

No plano literário, Clarice Lispector tinha a companha de figuras literárias como Maria Alice Barroso, Geraldo Ferraz, Lousada Filho e Osman Lins, que como sublinhou Alfredo Bosi, “percorrem o caminho da experiência formal (BOSI, 2006, p. 434)”. Seja como for, de algum modo, o frenesi de acontecimentos que pairaram sobre o Brasil nessa época influenciaram a terceira geração modernista. Naturalmente, toda essa geração ora despertava elogios calorosos da crítica literárias, ora críticas ferrenhas, que em geral partiam dos críticos orientados por uma visão de mundo bastante ortodoxa.

Compartilhando da posição de Bosi (2006) a respeito do movimento modernista, Cléber Mapeli Serrador (2015) assinala que no âmago da terceira geração modernista reside uma preocupação fundamental com uma singular objetividade, no âmbito de uma dinâmica estética que é significada de forma dialética. De um lado tem-se o pensamento artístico-ideológico e de outro a construção literária. Mas não se trata apenas de meras características.

Na terceira geração modernista havia uma preocupação em dotar a palavra de criticidade, operada quase que na forma de um testemunho engajado sobre o panorama político, social, moral e cultural do Brasil. Além disso, existia um interesse em uma literatura comunicativa, que fosse capaz de dialogar com o homem comum, enfim, com as grandes massas, já que a sociedade contemporânea tinha como traço fundamental a comunicação de massa. E, portanto, nessa geração prevalecia um cuidado bastante especial com a escolha das palavras.



CAPÍTULO II

O PROJETO DE ESCRITURA DE CLARICE LISPECTOR






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