João lobo antunes sobre a mão e outros ensaios



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JOÃO LOBO ANTUNES
SOBRE A MÃO E OUTROS ENSAIOS
gradiva
© João Lobo Antunes/Gradiva Publicações, L.da

Revisão do texto: José Soares de Almeida

Capa: pintura: pormenor de «San Jerónimo», Marinus Claeszon van

Reymerswaele, pintura flamenga, século xvi

© Museu do Prado, Madrid

design gráfico: Armando Lopes Fotocomposição: Gradiva

Impressão e acabamento: Multitipo Artes Gráficas, L.da Reservados os direitos para Portugal por: Gradiva Publicações, L.'Rua Almeida e Sousa, 21, r/c, esq. — 1399-041 Lisboa Telefs. 21 397 40 67/8 — 21 397 13 57 — 21 395 34 70 Fax 21 395 34 71 — Email: geral@gradiva.mail.pt URL: http://www.gradiva.pt 2." edição: Novembro de 2005 Depósito legal n.° 235 303/2005


gradiva

Editor: Guilherme Valente


Visite-nos na Internet http://www.gradiva.pt


Ao Guilherme Valente, pai de livros

índice
Agradecimentos 9
Introdução 11
1. A história de um velho 17

2. Lo mio maestro 33

3. Sobre a mão 49

4. Os malefícios do tabaco 69

5. «Umana cosa è» 83

6. Sobre as minhas mortes 99



7. O sabor da nossa qualidade 119

8. «O médico doente» 133

9. Como decidimos 147
10. Conflitos de interesse 167

11. Meio ou fim? 193

12. A guerra das ciências não existiu 209

13. A quarta missão da universidade 223

14. Carta a dois cardeais 235
Notas bibliográficas 239

Agradecimentos


Como refiro na introdução, a maior parte destes textos foram escritos a pedido de várias pessoas, em nome próprio ou em representação colectiva. Cabe-me assim agradecer o estímulo de me terem obrigado a pôr em letra de forma estas reflexões.

A minha secretária, Cristina Félix, continua a ser a colaboradora cada vez mais indispensável. Confesso que, com o andar do tempo, o número de vezes que revejo o manuscrito inicial tem crescido de forma inexplicavelmente exponencial.

José Soares de Almeida reviu, mais uma vez, este livro, tentando aparar-lhe as imperfeições e corrigindo os erros gramaticais que tão bem definem a minha «mortalidade literária». Com ele aprendo sempre.

A fotografia do autor é de um amigo, Rui Ochôa, cuja máquina me tem surpreendido ao longo dos últimos vinte anos.

Introdução
I I

Uma colecção de ensaios é sempre, em grau maior ou menor, uma composição heterogénea, quer quanto aos temas que o autor selecciona, quer quanto à forma que escolhe para os tratar. Se por vezes é aparente um fio condutor, um eixo visível, como aquele que corre no dorso de certos peixes transparentes, noutras circunstâncias o autor sente-se forçado a explicar o que, à primeira vista, parece apenas um bricabraque de ideias. É claro que este último modelo tem a vantagem de abrir o livro a um leque mais largo de potenciais leitores, enquanto as obras monotemáticas atraem sobretudo especialistas.

Desde o primeiro volume que coligi, há quase dez anos, tenho procurado escapar a uma forma de quarentena intelectual em que um discurso demasiado hermético nos confina, procurando um estilo que corresponda melhor à exigência das novas humanidades. O meu objectivo é, por meio de uma linguagem simples, tratar das ciências naturais, das ciências sociais, da história, da filosofia e até das artes, em todas as suas formas de expressão, de uma forma aberta, mas não super
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JOÃO LOBO ANTUNES
ficial — o que a tornaria um exercício frívolo —, nem demasiado profunda, que a transforma em erudição majestática. Mas isto é, claramente, uma acrobacia de grande risco e não estou de forma alguma convicto de ter evitado o tombo.

Das quatro colecções de ensaios, esta é, provavelmente, a mais «médica», ou seja, aquela em que pulsa com mais vigor a ciência e a arte da medicina. Não creio ser necessário justificá--lo, pois nunca ocultei que sou primeiro que tudo um médico. Mas entendo que a medicina é, volto a dizê-lo, uma ciência e uma arte tão fascinante, tão complexa, tão eternamente incompleta, que não é hoje, como nunca foi no passado, propriedade exclusiva dos seus artífices. Ela é, de facto, na sua raiz, uma construção de profissionais — e eles são cada vez mais diversos na tipologia da sua intervenção nos actos de diagnosticar, tratar, prever, prevenir, consolar, inventar ou descobrir —, mas exige a participação não só daqueles que solicitam a sua intervenção num instante de necessidade, mas de todos os outros que sobre ela se debruçam por razões que vão da filantropia à simples curiosidade, e a quem o saber electrónico deu um fôlego impensável há poucos anos atrás. É a realidade da nova ciência médica e da expressão holística que a modernidade forçou a adquirir que é, no fundo, o tema central deste volume.

Logo no primeiro livro recorri a Montaigne, o fundador desta forma de escrita, para explicar a minha própria presença, que procurei não tornar incómoda, nas páginas destes ensaios, ou seja, eu sou, eu próprio, como advertiu Montaigne, a «matéria deste livro». Isto sucede não por necessidade de imposição narcísica, mas porque quem, como eu, se habituou a pensar com o rigor com que em ciência se busca a verdade entendeu sempre que não deveria ocultar as influências que recebeu e a inquietação de quem procura o momento em que a dúvida é, temporariamente, suspensa.
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INTRODUÇÃO


Permito-me retomar, já que as introduções a livros desta natureza têm algo de semelhante às «bulas» de letra minúscula que acompanham qualquer medicamento, o que escrevi no prólogo ao livro anterior: ensaios são, na sua essência, um modo de falar com o leitor, uma espécie de carta pública, uma ciência «sin prueba», como escreveu Ortega y Gasset, um dos mais admiráveis autores do género. Tal não significa que não me pareça indispensável explicar um pouco do contexto em que cada uma destas peças foi escrita, quase todas, como no passado, para serem lidas perante audiências de cariz diverso.

«A história de um velho» foi escrita para um simpósio sobre a velhice, a convite do meu grande amigo Walter Osswald. Acrescentei-lhe depois um post scriptum. Ambos reflectem a necessidade de uma reconciliação comigo próprio.

«Lo mio maestro» foi lido numa reunião organizada por um grupo de clínicos gerais. O tema era sobre «médicos e médicos filhos de médicos» e deu-me gosto a viagem que fiz ao passado.

A história do texto que dá título ao livro está explicada nos parágrafos iniciais. Devo ao meu amigo Acácio Cordeiro Ferreira o convite.

A minha diatribe contra os malefícios do tabaco foi proferida pela primeira vez no Congresso Nacional de Bioética, em 2003, e repetida em várias outras oportunidades. Não tenciono calar-me.

Foram também os médicos de medicina geral e familiar, aqueles a quem um dia ouvi chamar «pediatras de adultos», que me solicitaram a reflexão sobre a medicina e as humanidades para o congresso que realizaram em Setembro de 2004. Uma versão ligeiramente modificada foi apresentada na Fundação Gulbenkian sob o título «Para onde foi o Dr. João Semana?», no âmbito de um ciclo de conferências promovido em conjunto com a Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa.


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JOÃO LOBO ANTUNES
O tema da morte é algo sobre o qual sou solicitado a tratar com inexplicável frequência. Foi preparado para o mestrado de Bioética da Universidade Católica, que Walter Osswald organizou.

A Sociedade Portuguesa de Cirurgia pediu-me que falasse sobre a qualidade de vida do cirurgião. O tema intrigou-me e dei-lhe um testemunho íntimo, quase confidencial, e confesso que me diverti com a sua escrita. Tom não muito diferente foi o que escolhi para a narrativa da minha experiência como doente e como «médico de médicos».

Com Manuel Silvério Marques e Fernando Gil, organizei um colóquio sobre a «ciência da arte da medicina». «Como decidimos» foi o meu contributo e pus todo o cuidado em tornar a matéria acessível ao leitor não especializado.

O ensaio sobre os conflitos de interesse na prática médica, e que foi publicado, com pequenas alterações, na revista Arquivos de Medicina, diz respeito ao que considero um segredo mal escondido em muitas profissões.

«Meio ou fim?» e «A guerra das ciências não existiu» têm a ver, em termos gerais, com a ciência e a sociedade e as incidências éticas, epistemológicas e sociais que envolvem essa interacção e reflectem o meu interesse presente por estas matérias. Como nota Fernando Gil no seu último livro, Acentos, a cultura científica socialmente partilhada é o solo em que a racionalidade tem de se apoiar e foi isto, em parte, o que procurei demonstrar.

Também relacionado com o tema anterior é «A quarta missão da universidade», preparado para a revista Exame, que pretende chamar a atenção para uma outra missão das escolas superiores.

A última peça pode intrigar alguns leitores, que a acharão talvez deslocada do contexto deste livro. Preparei-a a pedido do cardeal-patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, como intro

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INTRODUÇÃO


dução a uma palestra do cardeal Schónborn, arcebispo de Viena. Fi-lo em total liberdade e com um profundo sentido de humildade. Embora tivesse sido publicada já no jornal Público, achei que valia a pena reproduzi-la aqui.

Duas pequenas notas finais. A primeira para referir que me pareceu útil incluir no final do livro uma lista de referências que apoiam os textos que seleccionei e podem, assim, estimular leituras adicionais sobre os temas em questão. A segunda é que, no seguimento de alguns protestos contra o recurso a citações em línguas estrangeiras sem a respectiva tradução, tentei corrigir esse pecado, sabendo embora que qualquer tradução é também, inevitavelmente, uma traição.


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1
A história de um velho
Subitamente, a gente da saúde começou a preocupar-se com os velhos, e até se fala de «medicina baseada na idade», agora que tudo tem de ser baseado em algo ou tem a ver com outra coisa.

Até há bem pouco tempo os velhos eram propriedade privada de um pequeno grupo de médicos auto-ungidos com o título de uma especialidade clandestina, os chamados gerontologistas, que os colegas olhavam com mal disfarçada condescendência, porque, para estes, eles seriam apenas um grupo de apóstolos entusiastas, praticantes de uma medicina sem método e sem substância, cuja pregação tenaz era praticamente ignorada.

Ainda há hoje quem pense que na enfermaria os velhos são muitas vezes apenas uma encomenda que ninguém reclama, nas consultas um desperdício de tempo causado por quem não aceita que um velho doente é o contraponto natural de uma criança saudável e nas urgências não merecem mais do que o encolher de ombros de uma medicina de meias-tintas. E, já agora, não serão eles, para muitos políticos, apenas o objecto
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de um interesse oportunista e, para os economistas, alguém que se senta à mesa tranquilo por não ter de pagar a conta?

Exagero, decerto, mas confesso que eu próprio só terei tomado clara consciência da questão quando, numa curva da vida, o tempo me ultrapassou, como se tivesse subitamente acelerado. De facto, até há pouco os meus doentes eram invariavelmente mais velhos do que eu e velhos eram só os que tinham mais idade do que os meus pais. Depois, sorrateiramente, a maioria dos meus doentes ficou mais nova do que eu e todos mais novos do que os meus pais. Ou seja, os meus pais estavam velhos e eu acompanhara-os sem dar por nada, sem notar qualquer descontinuidade no eu, sem reparar na erosão do tempo, nas pregas, agora bem visíveis, que me amarrotam o corpo, sem detectar tão-pouco as subtis mudanças no intelecto, nos apetites e nos sentimentos. Estava diferente, em imperceptível metamorfose.

O imperador Adriano, nas memórias ficcionais de Yourcenar (1), ao aproximar-se a morte, declarava: «Je suis ce que je 1'étais; je meurs sans changer1.» Mas revoltava-se contra a insubmissão de um corpo que, gasto na caminhada, exigia finalmente repouso: «Toute ma vie j'ai fait confiance à la sagesse de mon corps [...] Mon corps cessait de ne faire qu'un avec ma volonté, avec mon esprit [...] le camarade intelligent d'autrefois n'est plus qu'un esclave que rechigne à sa tache2

E nossa tendência dividir a idade em estações, em intervalos precisos, definidos pelos limites rígidos impostos pelas conveniências da estatística ou pelas exigências implacáveis das leis; ao mesmo tempo, neles entalamos à força atributos


1 «Eu sou o que era, morro sem mudar.»

2 «Em toda a minha vida confiei na sabedoria do meu corpo [...1 O meu corpo era sempre um com a minha vontade, com o meu espírito [...] o camarada inteligente de outrora não é mais do que um escravo que resmunga pela sua tarefa.»

r
A HISTÓRIA DE UM VELHO
somáticos e psíquicos próprios de cada era, na ânsia de sincronizarmos o tempo cronológico e o tempo biológico e fazermos com que batam ao ritmo de um metrónomo comum. Pura ilusão. Por mim, prefiro as sentenças de sábios como Confúcio, que afirmava que aos 15 anos tinha aprendido, aos 30 tinha-se afirmado, aos 40 não tinha dúvidas, aos 50 conhecia a vontade celestial, aos 60 os ouvidos estavam alerta e aos 70 seguia os desejos do coração, sem quebrar as regras.

Talvez Confúcio tenha razão e, passados os 60, eu esteja de facto a começar a apurar um ouvido já treinado no exercício da clínica, devotado agora à escuta de mim próprio, espiolhando memórias, experiências e emoções. E nesta escuta ele vai dando conta de que, como disse alguém, «if one's healthy and feeling well, it's invisible dying»(2)3.

Muito está escrito sobre a epidemiologia, a biologia, a farI macologia, a sociologia, da velhice. Estabelecem-se parâmetros,

revelam-se estatísticas, carpem-se dificuldades, prescrevem-se soluções, sonham-se utopias. Irei apenas contar a história de um velho que conheço bem. Este é, irão percebê-lo, um custoso exercício confessional, mas que, julgo eu, na sua simplicidade, abrange a universalidade do tema, porque todos, afinal, conhecem o seu velho. E, apesar de ser esta narrativa um longo salmo de amorosa inconfidência, não creio ferir o recato de quem falo nem o pudor de quem me lê.

Este velho tem um filho escritor que numa crónica que intitulou simplesmente «Você» dizia com aquela sensibilidade em carne viva com que tão bem sabe exprimir sentimentos de indizível delicadeza: «Nunca falámos muito (acho que nunca falámos nada), dou por mim agora a olhar a sua cara devastada, os olhos fechados, os dedos que não cessam de mover- -se, o seu frio constante, e fico calado a vê-lo.» Este filho e

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vel.»

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os outros filhos perceberam, estupefactos, que aos 87 anos o pai fora acometido de uma doença súbita, inesperada, incurável, que o transformara num ser diferente daquele que haviam conhecido toda a vida — a doença da velhice.

A ele se aplicara como uma luva, toda a vida, a expressão tão bela de Eluard: «le dur désir de durer»4. Mas agora ele parecia ter desistido. E certo que anos antes, aos 80 para ser preciso, acontecera a primeira ameaça à imortalidade do pai e, como notou o filósofo, este duro desejo de durar estabelece a ligação entre a identidade, a temporalidade e a morte.

Por essa altura ele começara a queixar-se de uma dor no flanco que o atormentava de noite e lhe roubava o sono, daquelas dores que não auguram nada de bom, a dor que é como um cão que fila, não larga e, ainda por cima, parece rir-se de nós. Os exames de imagem pareciam revelar um tumor da bexiga. Ao ser-lhe anunciado o diagnóstico, ele comentara com a habitual soberba: «Não esperava vir a morrer de uma doença tão inestética.»

Mas este destemor era uma das suas formas de vaidade, um dos modos de afirmar a sua superioridade sobre os filhos. De facto, a sua coragem física era, para eles, quase lendária. Nascido em Benfica, de temperamento belicoso e explosivo, crescera com os «rapazes da rua» e com eles andara à pedrada. Um filho médico recordava como inesquecível expressão dessa coragem a vez em que, muitos anos antes, ele próprio se injectara o antibiótico para tratar uma pneumonia que o pusera a tiritar de febre, cianótico e dispneico. Ele convencera então o médico assistente a tratá-lo em casa, e para isso instalou-se no quarto uma imponente garrafa de oxigénio.

Ao saber a notícia do provável cancro, o filho teve de dizer-lhe que teria de ser operado. Ele percebeu que o que se anun

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duro desejo de durar.»


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A HISTORIA DE UM VELHO


ciava não era animador; era talvez o primeiro passo numa caminhada que iria terminar numa agonia de atroz sofrimento. Ao contrário do que alguns julgam, dor e sofrimento não são a mesma coisa: o sofrimento tem uma longevidade que a dor não tem. O filho não lhe mentiu. Alguém disse que os médicos mentiriam menos se o homem não tivesse tanto medo de sofrer. Percebeu o filho que, apesar daquela altiva resignação, ele tinha medo, mas, porque os anos lhe tinham conferido, aos olhos do pai, uma autoridade especial nestas matérias, quando o filho lhe disse «Não vou deixar que sofra», o pai confiou que ele levaria até onde fosse necessário o cumprimento deste voto. Soube depois que ficara tranquilo, mas, no fundo, nenhum dos filhos desejava que ele entrasse resignado naquela noite escura.

O pai nunca estivera internado num hospital. Vivia na mesma casa há mais de sessenta anos e não tinha enxoval condigno para a ocasião. Por isso foi com um roupão novo, que uma neta do mesmo tamanho previamente provara, que arribou ao hospital. No dia da intervenção o filho esperou, resignado, pelas notícias, até que o chamaram com alvoroço para lhe comunicarem que as imagens mais uma vez tinham traído e que ele tinha apenas um tumor benigno da próstata e uma enérgica «bexiga de esforço». Afinal, ele não ia morrer, e ao vê-lo dormir tranquilo, enquanto paulatinamente expirava os gases anestésicos, ele percebeu que aquele homem, agora tão frágil, exposto numa nudez que ele sempre ocultara dos filhos, iria continuar a envelhecer sem sobressalto.

Na premonição de uma morte próxima, ele preparara um dossier para cada um dos filhos, uma espécie de testamento personalizado, sabe-se lá contendo o quê: ordens, recomendações, apologias de reconciliação com um passado em que fora injustamente duro para alguns deles, uma despedida, uma derradeira proclamação de vitória? O filho médico tinha deci

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dido que não o iria ler, pois entre eles estava tudo dito e custava-lhe que essa última palavra não tivesse réplica. Mas o pai não resistiria a dizê-la. Aliás, a última palavra é muito importante para os velhos, particularmente quando se aproximam do fim. O mito do canto do cisne está já em Platão: «Porque os cisnes, quando percebem que vão morrer, tendo cantado toda a vida, cantam com mais vigor do que nunca.» E também em Confúcio: «Quando um pássaro está a morrer, o seu canto é triste; quando um homem está a morrer, as suas palavras são verdadeiras.» O bandido Pancho Villa implorava na hora da morte a um jornalista: «Não me deixe acabar assim. Conte-lhes que eu disse alguma coisa.» Oscar Wilde, morrendo exilado num hotel miserável, num quarto forrado de um papel ridículo, preparou um grande final irónico, declarando: «Este papel de parede está a matar-me; ou vai ele, ou vou eu.»

Daquela experiência de uma morte anunciada e, afinal, não cumprida, o pai saiu remoçado, disposto a não dar tréguas à velhice. E prosseguiu no infatigável treino do seu intelecto, musculando a aptidão que fora sempre a sua arma mais eficaz: a memória. Para isso escrevia na tampa de caixas de fósforos uma série interminável de efemérides de almanaque — o ano da morte de Beethoven, do nascimento de Galileu, da batalha de Waterloo, da publicação da Divina Comédia, datas que ele descodificava perante a indiferença dos filhos. Continuava a declamar extensas passagens de Eça e, quando questionado sobre o rigor da citação, subia a correr a escada íngreme e voltava, triunfante, com o livro que confirmava a admirável fidelidade da sua memória. Um dia declarou ao jantar que acabara de decorar três poemas de Manuel Bandeira.

O pai entregava-se assim à contínua activação das áreas funcionais que o tempo vai roendo, ouvindo a admoestação de Cícero no mais famoso ensaio sobre a velhice, De Senectute (3): «a memória enfraquece — assim creio, se não a exercita




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