Introdução da nova edição americana do livro de Carl Rogers



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Introdução da nova edição americana do livro de Carl Rogers, A Way of Being, lançado nos EUA, [parte dele, editado no Brasil como Um Jeito de Ser], feito pelo professor de Psiquiatria e Terapia Existencial da Universidade de Stanford,’’ Dr. Irvin D. Yalom, autor de numerosos livros de sucesso mundial como Quando Nietzsche chorou.
Tradução : Eduardo Bandeira

No seu primeiro trabalho como professor, vê-se Carl Rogers junto com o grupo de estudantes de Psicologia. Ele estava nos seus trintas anos avançados. Era logo depois que tapes eletromagnéticos foram introduzidos e o grupo ouvia excitadamente uma gravação de entrevista psicoterápica. De novo e de novo, Rogers parava e repetia partes da sessão para apontar onde a entrevista ocorreu errada, ou para delinear aqueles momentos quando o cliente fazia um significativo passo para frente.

Essa é uma imagem de Carl Rogers que será encontrada em A Way of Being. Existem muitas outras. Imagine outra cena, uma que ocorreu quando ele tinha vinte anos de idade. Em um simpósio acadêmico sobre Ellen West, uma paciente exaustivamente estudada, que cometeu suicídio algumas décadas antes. Rogers assombrou a audiência pela profundidade e intensidade de suas reações. Ele falou sobre Ellen West como se a conhecesse bem, como tivesse sido ontem que ela tivesse se envenenado. Não somente Rogers expressou o seu pesar sobre sua trágica perda da vida, mas também a sua raiva aos seus médicos e psiquiatras, que através da impessoalidade e a preocupação com o diagnóstico preciso, a transformaram em um objeto.

- Como eles puderam fazer isto? Rogers perguntou.

Se apenas eles tivessem sabido que tratar uma pessoa como um objeto sempre se coloca como um obstáculo para uma terapia de sucesso. Se somente eles tivessem se relacionado com ela como uma pessoa, se arriscado, experienciado a sua realidade e seu mundo, eles poderiam ter dissolvido sua solidão letal.

Ainda outra imagem, quinze anos depois, Carl Rogers estava com setenta anos e foi convidado a pronunciar em uma conferência honorária na Convenção Anual da American Psychological Association. A audiência relaxou-se em suas cadeiras esperando a retrospectiva melosa de um septuagenário reverenciado. Ao invés disso, Rogers os balançou com uma série de desafios. Ele estimulou os psicólogos escolares a não se contentarem meramente em tratar os estudantes prejudicados por um obsoleto e irrelevante sistema educacional, mas invés disso mudar o sistema participando e desenhando uma experiência educacional que poderia liberar as curiosidades estudantis enfatizando a alegria de aprender. Depois ele atacou as constrições de um profissionalismo e sugeriu que os esforços de certificação e licenciamento não valiam a pena. Existiam muitos charlatões credenciados, tanto quanto outros, não credenciados, muitos terapeutas talentosos tiveram seus acessos negados à profissão e a rígida burocracia da American Psychological Association congelou o campo no passado e amarrou a criatividade. Ninguém dormiu durante esta fala. Neste cenário e em muitos outros evocados em A Way of Being, o envolvimento de Carl Rogers com o crescimento dos outros é evidente.

Centrado na Pessoa era o termo preferido por Rogers para a sua abordagem. Cuidado e respeito para o mundo experiencial do cliente tem sido o objetivo no trabalho de Rogers desde o começo de sua carreira, quando por doze anos trabalhou com delinqüentes e crianças desprivilegiadas em Rochester. Ele começou a formular idéias sobre terapias que revolviam em torno da sua crença de que devemos apoiar o cliente para delinear a direção do trabalho terapêutico – de que o cliente sabe o que doi, quais experiências devem ser desveladas e quais os problemas que são cruciais. Ele escreveu um livro por volta dos seus trinta e cinco anos sobre o tratamento das crianças com problemas atraindo uma grande atenção no mundo acadêmico, que o levou a uma cátedra na Ohio States University. Lá ele ofereceu um curso pioneiro em Counseling, (lembre-se de que no final dos anos 30 o campo da Psicologia Clínica como a conhecemos hoje não existia). Logo enquanto suas idéias sobre psicoterapia se cristalizavam, ele escreveu outro livro Counseling and Psychotherapy, seus editores ficaram relutantes em publicar; eles disseram a Rogers que preferiam um texto para um curso em um campo que existisse! Por fim, Counseling and Psychotherapy esteve destinado junto com o livro de Rollo May, The Art of Counseling a exercer um significante papel no nascimento da Psicologia Clínica e a formatar o futuro de um approach terapêutico humanisticamente orientado.

Carl Rogers era um guerreiro duro que lutou muitas batalhas territoriais, batalhas com o campo da medicina e da psiquiatria que tentavam impedir psicólogos de tratar pacientes; batalhas ideológicas com reducionistas como B. F. Skinner que negavam a centralidade da escolha, vontade e propósito; batalhas de procedimentos com psicanalistas que consideram a Abordagem Centrada no Cliente simplista e anti intelectual. Hoje, cinqüenta anos depois, a Abordagem Terapêutica de Rogers parece tão certa, tão auto evidente, reforçada por décadas de pesquisas em psicoterapia, que é difícil avaliar a intensidade destas batalhas ou mesmo compreender realmente sobre o que elas eram. Terapeutas experientes hoje concordam que o aspecto crucial da terapia, como Rogers colocou no inicio de sua carreira é a relação terapêutica. Com certeza, é imperativo que o terapeuta se relacione genuinamente com o cliente – quanto mais o terapeuta se transforma em uma pessoa real e evita se esconder em máscaras de papeis profissionais, mais o cliente será recíproco e mudará em uma direção construtiva. Com certeza o terapeuta deve aceitar o cliente sem julgamentos e incondicionalmente, e com certeza o terapeuta deve entrar empaticamente no mundo particular do cliente.

Ainda que essas fossem então idéias novas, Rogers teve que aborrecer a profissão para que ela as reconhecesse. A sua arma principal foi a evidencia objetiva e ele foi a força criativa por trás do uso da pesquisa empírica para elucidar o processo e os resultados da psicoterapia. Seus estudos dos aspectos críticos da relação terapeuta cliente – compreensão empática, autenticidade e consideração positiva incondicional, continuam a ser considerados por cientistas sociais como modelos de uma pesquisa elegante e relevante. Rogers foi acompanhado ao longo de toda a sua vida, em seus esforços para criar e nutrir uma abordagem humanística à psicoterapia, pela poderosa voz do Rollo May. Embora os dois homens fundamentalmente concordassem sobre os objetivos e abordagens à terapia, ( ainda que ambos fossem educados no Union Teological Seminary) eles tiraram suas convicções de fontes bem diferentes: Carl Rogers da pesquisa empírica e Rollo May do estudo da literatura, filosofia e mitos. Durante a sua carreira, Rogers foi atacado pela suposta simplicidade da sua abordagem terapêutica e muitos profissionais faziam caricatura da terapia centrada no cliente como um método no qual o terapeuta meramente repete a última palavra da colocação do cliente. Ainda que aqueles que conheciam Rogers, que observaram suas entrevistas ou que leram o seu trabalho com cuidado, sabem que a sua abordagem não era nem simplista nem restritiva. È verdade que Rogers sempre procedeu do fundo para cima ao invés do topo para baixo – isto é, ele primeiro fundamentava-se na sua observação imediata do processo terapêutico, suas e de outros, e gerava hipóteses de nível básico, mas testáveis ( isso sempre foi uma grande diferença entre a abordagem rogeriana e a psicanalítica, que desenhava inferências de alto níveis para construir uma teoria não testável, que subseqüentemente informava e regulava os procedimentos terapêuticos). Também é verdade, que cedo em sua carreira, Rogers chegou a varias premissas terapêuticas sobre as quais o seu trabalho se apoiou.

Ele foi persuadido da realidade e significância da escolha humana; ele acreditava que o aprendizado experiencial era uma abordagem muito mais poderosa para a compreensão e mudança pessoal, de que uma que se apoiasse apenas na compreensão intelectual; ele acreditava que indivíduos têm dentro deles mesmos uma tendência atualizante, uma não construída propensão em direção ao crescimento e a realização. Rogers freqüentemente falava da sua crença na existência do impulso formativa (contrabalançando uma força entrópica) em toda vida orgânica. Na sua crença em uma tendência atualizante ele se encontra com vários pensadores humanistas como Nietzsche, Kierkegaard, Adler, Goldstein, Maslow e Horney que acreditavam na existência, dentro de cada individuo de um vasto potencial para auto-compreensão e mudança pessoal. Enquanto a primeira sentença lapidar de Nietzsche sobre a perfectibilidade humana era “torna-se quem você é”, Karen Horney uma psicanalista dissidente acreditava que “assim como a semente se desenvolverá em um carvalho, a criança amadurecerá em um adulto”. O trabalho terapêutico emanado dessas posições; então, não é de construção ou reconstrução ao invés disso, ele é de facilitação, da remoção de obstáculos ao crescimento, que ajuda a liberar aquilo que sempre esteve lá.

A Abordagem Centrada na Pessoa gerou muito poder para a mudança pessoal, Rogers acreditava que não havia razão para restringir isto aos psicologicamente perturbados. Conseqüentemente ele tentou a aplicação desse poder para o uso em muitas arenas não clinicas. Por décadas, ele esteve ativamente envolvido em programas educacionais que buscavam integrar o conhecimento cognitivo com o afetivo; de que professores deveriam focalizar na pessoa inteira; de que no ambiente de aprendizado a aceitação, autenticidade e compreensão empática fossem criados; de que professores e pessoal institucional fossem treinados com a abordagem centrada na pessoa; que esforços fossem feitos para construir auto-estima no estudante e a liberar a sua curiosidade natural.

Grupos de encontro foram muitas vezes caracterizados como “terapia de grupo para normais”. Eles trilhavam uma linha tênue entre educação e terapia ou isto foi colocado irreverentemente como espremedores de cabeça e de expansão da mente. Em 1960, Rogers compreendeu que a experiência intensiva de grupo continha um potencial enorme para mudança. Ele se envolveu no movimento de grupos de encontro e fez contribuições significativas à tecnologia da liderança de grupos. Tomando uma posição contra o estilo de liderança manipulativo e coercitivo, ele sugeriu que as mesmas orientações da abordagem centrada na pessoa tão essenciais ao Counseling individual eram igualmente essenciais na experiência de grupo. Lideres tinham que ser tanto participantes assim como lideres. Eles poderiam formar um ambiente facilitador pelo seu próprio exemplo. Rogers seguiu suas próprias prescrições e protocolos em seus grupos revelando a sua honestidade que tirava o fôlego: como em seu trabalho individual ele revelava não somente os seus próprios problemas de personalidade como também suas fantasias sobre outros membros - dessa maneira ele achava que isto poderia levar outros em direção a uma introspecção construtiva.



O que era verdade para o pequeno grupo, era verdade para os grandes grupos. Na idade de 75 anos, Rogers liderou grupos de muitas centenas de pessoas em esforço de construção de comunidades. Ele acreditou que grupos centrados na pessoa ofereciam uma ferramenta poderosa para resolver conflitos humanos tanto nacionais como internacionais. Determinado a ter um impacto cross-cultural e intenções étnicas, Rogers viajou largamente nos últimos dez anos. Ele conduziu grupos de comunicação entre brancos e negros na África do Sul, falou para grandes audiências no Brasil (então uma ditadura) sobre liberdade individual e atualização, facilitou um workshop de resolução de conflitos de quatro dias para altos governantes de 17 nações centro-americanas e demonstrou Counseling centrado no cliente em workshops lotados na então União Soviética. Os seus esforços internacionais foram tão extensivos que ele foi nominado para o prêmio Nobel da Paz.

A Way of Being começa com a visão de Rogers sobre a comunicação. Poucas coisas significavam mais para ele do que a acurada e honesta comunicação dos seus sentimentos e pensamentos. Ele descartava qualquer impulso de assustar, persuadir ou de manipular. De certa maneira, isto faz a tarefa de um introdutor supérflua. Embora alguns mereçam uma introdução maior, nenhum precisa dela menos. Como o leitor irá ver Rogers fala dele mesmo – e fala com extraordinária clareza e graça.

Irvim D Yalom


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