Introdução 2 o estudo da espiritualidade nas ciências humanas 2


O estudo da espiritualidade nas ciências humanas



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2 O estudo da espiritualidade nas ciências humanas

A espiritualidade e as experiências místicas têm sido objeto de estudo da ciência em várias áreas do conhecimento, como na sociologia, história, teologia, antropologia, e disciplinas derivadas, como a sociologia da religião, antropologia religiosa, história das religiões, etc. Cada disciplina enfoca o objeto de estudo desde uma perspectiva particular.


A antropologia religiosa estuda o homo religiosus inserido no seu tempo e cultura, seu comportamento, através de sua experiência do sagrado. Conforme RIES (1995), um dos primeiros intentos nessa direção, foi realizado por Émile Durkheim e seus discípulos, na primeira metade do século XIX, os quais consideravam o sagrado uma vivência estimulada pela sociedade, o que explicaria que a criação de cultos, rituais e práticas religiosas teria origem na ação coletiva. Durkheim explicava através do totemismo, a sociologia da religião (ELIADE, 1970).
Durkheim (1858-1917), na sociologia, se propõe a compreender a natureza religiosa do homem, isto é, o que a religião contém de essencial e permanente. E o modo como julga alcançar seu objetivo é pelo exame da religião mais simples e primitiva. Por isso o estudo do totemismo, considerado um dos primeiros sistemas organizados de crenças, que tinha como figura principal um animal, vegetal ou qualquer objeto que simbolizavam a ancestralidade de um clã ou coletividade. Sua conclusão geral é a de que a religião é eminentemente social: “As representações religiosas são representações coletivas que exprimem realidades coletivas; os ritos são maneiras de agir que surgem unicamente no seio dos grupos reunidos e que se destinam a suscitar, a manter ou a refazer certos estados mentais desses grupos” (DURKHEIM, 1989, p. 38). Desde sua perspectiva sociológica, o sagrado é uma categoria coletiva, sendo a sociedade que desperta no homem a sensação do divino (RIES, 1995).
No entanto, as hipóteses sociológicas não exerceram influência duradoura sobre as investigações na história das religiões. ELIADE (1970) e RIES (1995), concordam que foi Rudolf OTTO (1992) quem impulsionou o estudo contemporâneo das religiões. Com seu livro, O Sagrado, funda a moderna antropologia religiosa, dando ênfase à experiência do transcendente e do inefável, analisando suas várias modalidades.
Otto (1860-1937), que era teólogo e historiador das religiões, se contrapõe a Durkheim, explorando a experiência vivida pelo homem no seu encontro com o divino. Para este autor, o divino surge na consciência humana e procede do espírito humano. Para aquele que nunca experimentou sentimentos religiosos é difícil tratar de religião, já que não é algo que se ensina, mas sim que se desperta. Há, no espírito, disposições cognitivas e princípios geradores de idéias e esses são um dado primeiro e imediato: o sentimento de uma realidade ou o sentimento de um objeto numinoso (OTTO, 1992).
Na obra de Otto, interessam os elementos racionais e não-racionais, buscando esclarecer, principalmente, o que a religião tem de não-racional, negligenciando o aspecto racional. OTTO (1992), justifica que os aspectos racionais e a compreensão da religião através da precisão, são formas limitadas e reduzidas de se aproximar do fenômeno religioso, além de conduzirem a uma religião racional: “(...) se os predicados racionais estivessem geralmente em primeiro plano, não [poderíamos] esgotar a idéia da divindade pois refere-se precisamente a um elemento que não é racional” (OTTO, 1992, p.10).
O interesse pela história das religiões e pela religiosidade humana é anterior aos estudos da antropologia religiosa e a sociologia de finais do século XIX. As contribuições de Mircea Eliade (1907-1986), a partir dos seus estudos sobre as investigações de história das religiões, superam o tipo de pesquisa na qual apenas se descrevem crenças religiosas. Ao longo de sua obra, o autor relaciona o fenômeno religioso com a experiência humana, explorando o pensamento, a consciência, o conhecimento e a experiência do homo religiosus (RIES, 1995). O homo religiosus aparece na obra deste último como um personagem histórico no transcurso dos milênios da história e da pré-história, desenvolvendo-se socialmente através duma vivência religiosa criativa (com as mitologias, ritos, etc.).
ELIADE (1970), localiza já no século V, o interesse pela história das religiões, quando na Grécia Clássica, descreviam cultos estrangeiros e comparavam com fatos religiosos nacionais. Desde esses tempos, várias hipóteses foram levantadas sobre o fenômeno religioso. ELIADE (1970), comenta os principais estudos, passando por Aristóteles (e sua teoria da degenerescência religiosa da humanidade), Marco Polo (que falava da vida de Buda, entre as maravilhas do oriente), e os autores renascentistas, neoplatônicos, enciclopedistas franceses, entre outros.
Nesse passado histórico são encontrados vestígios de religiosidade na pré-história, no homem de crô-magnon, o que levanta a suspeita de ser a religião tão antiga quanto o ser humano. Nesse período, PIAZZA (1977) encontra indícios de rituais religiosos como o sepultamento dos mortos. A religiosidade se manifestava nas principais preocupações do cotidiano e no nível de desenvolvimento dos povos.
No período paleolítico (100.000 a 30.000 a. C), da pedra lascada, do predomínio da economia de caça, havia a crença numa potência superior e a esta eram endereçadas ofertas para que, em troca, tivessem multiplicadas a caça e a prole. No neolítico (de 10.000 a 5.000 a.C.), iniciou a civilização urbana, com a vida sedentária, surgindo problemas de hierarquia social e administrativa e a religião se complexificou na mesma medida. “ A idéia de um ser supremo, que se esboçara no paleolítico, começa a ser encoberta por uma série de entidades divinas, mais próximas do homem, representando as forças atmosféricas (o vento, a chuva, tão importantes na agricultura) ...”. (PIAZZA, 1977, p. 13).
ELIADE (1970) registra que tanto na época dos caçadores nômades, como na dos agricultores sedentários, há uma vivência de um cosmos sacralizado. O mundo é vivido como algo carregado de valores e significados, assim: “... para o homem religioso, o Cosmos ‘vive’ e ‘fala’. A própria vida do Cosmos é uma prova da sua santidade, pois que ele foi criado pelos Deuses e os Deuses mostram-se aos homens através da vida cósmica” (ELIADE, 1970, p. 173). Essa vivência parece revelar uma experiência de integração do ser humano com a natureza e uma disposição para conhecê-la. Provoca uma imagem de um ser humano humilde frente a extraordinária criação do universo e dos seus mistérios.
Na cultura primitiva, antes do aparecimento das cidades e das tribos, na cultura dos povos coletores, a religião servia ao principal propósito de garantir a unidade do grupo e a sobrevivência dos seus membros. PIAZZA (1977) localiza na cultura do Bumerangue (transição entre cultura primitiva e tribal), o início das reflexões sobre o mistério da vida, fomentada por uma comunicação mais intensa entre os grupos humanos. Na mesma época, surge o totemismo. Nas culturas tribais, as famílias se unem em grupos maiores para segurança e maior eficiência na caça, e, na religião, se incrementam os ritos de iniciação dos jovens (PIAZZA, 1977). Na medida em que a humanidade se desenvolve, a religião acompanha essas mudanças. Segundo o mesmo autor, nas culturas superiores, a população cresceu, exigindo maior organização social, política e religiosa. A religião, então, passou a alcançar maior sofisticação para atender interesses coletivos (como os políticos, por exemplo).
Para o homem das sociedades arcaicas, tudo era passível de tornar-se sagrado. A vida humana se desenrolava paralela a uma vida sacralizada, do Cosmos ou dos Deuses. Os rituais não eram reservados apenas para determinadas ocasiões ou atividades específicas, mas envolviam atividades rotineiras como: as refeições, atos sexuais, cumprimentos, o acordar e o adormecer.
COULANGES (1975), ilustra essas concepções através do fogo sagrado. Nas casas dos gregos e romanos, havia um altar que sempre tinha cinzas e brasas. Era uma obrigação do dono da casa manter o fogo aceso, dia e noite. A casa onde o fogo apagasse, seria amaldiçoada. O fogo só deixava de brilhar quando todos os membros da família morriam. Era como se Deus se manifestasse através da chama. O que se pode observar aí é que a fé era continuamente renovada através do contato com o fogo; várias vezes por dia deveriam prestar homenagens ao fogo sagrado. Todas as coisas eram passíveis de se tornar sagradas, como o fogo, ao qual se atribuía esse valor e era homenageado quotidianamente.
A religiosidade servia a vários propósitos, e reunia em torno de si uma variedade de áreas da vida humana. Como ilustra o ritual do fogo sagrado, a religiosidade alicerçava a sociedade e, através dela, podemos conhecer a cultura e os valores de um povo. A sacralidade conferida às coisas do mundo, revela o tipo de relação que as pessoas estabeleciam com ele, com as outras pessoas, com a natureza e com o próprio corpo. O corpo e a vida eram cheios de valores místicos e a religiosidade se prestava a exaltação desses. Ela também era experienciada como uma forma de honrar o cosmos, a Deus e de obter as benções de prosperidade e fortuna. Igualmente a ela se recorria em tempos de miséria, de medo, para suplicar tempos de bonança.
A religiosidade foi uma maneira, a primeira talvez, através da qual, se construiu um conhecimento sobre os ritmos, ciclos e funcionamento do universo. ELIADE (1970) constata uma capacidade inesgotável de especulação entre os primitivos. Eles tinham complexos sistemas simbólicos com correspondências micro-macrocósmicas. O autor descreve algumas delas, como a assimilação do ventre à gruta, das veias e das artérias ao sol e a lua. Eram homologações entre o corpo humano e o macrocosmos, ainda não completas, seriam plenamente desenvolvidos em culturas posteriores. Um outro exemplo é a comparação da vida sexual aos fenômenos cósmicos como as chuvas e a semeadura, se dizia que as chuvas fertilizavam a terra.
Através da religião o homo religiosus criava cultura. RIES (1995) exemplifica essa criação de cultura quando se propõe a analisar precisamente as relações entre a experiência religiosa e a experiência cultural. Outro autor que cita o homo religiosus como criador de cultura, é G. Dumézil que o descreve como observador do universo, hermeneuta do cosmos e criador de cultura (RIES, 1995). O que parece significativo é que esse homo religiosus construía conhecimento através da experiência religiosa, criava cultura e assim se mantinha através dos tempos, ainda que as crenças, os ritos e os mitos se modificassem.
COULANGES (1975), afirma uma outra face da religião: a de constituinte da família e das primeiras leis. Conforme o autor, a família era formada por um grupo de pessoas a quem a religião permitia invocar os deuses e oferecer o banquete fúnebre aos mesmos antepassados. Ao que se constata, nem os laços sangüíneos, nem o afeto, nem o poder paterno ou marital, foram o fundamento das primeiras famílias, assim, como diz o autor, “a família antiga é, desta forma, mais uma associação religiosa do que uma associação natural” (p. 34). Era a religião e seus cultos que ditavam as regras familiares e mais tarde as da cidade. A religião “estabelecera primeiro o direito doméstico e o governo da gens, em seguida as leis civis e o governo municipal. O Estado estava estreitamente ligado à religião; dela nascera e com ela se confundia”, diz Fustel de COULANGES (1975, p. 279).
Como se pode observar, a religiosidade, enquanto prática coletiva e compartilhada, faz parte da humanidade desde quando se tem registros, e englobava outras áreas como a ciência e a política. Através dela, podemos nos aproximar dos modos de viver e experienciar de nossos antepassados, bem como de sua evolução através dos tempos.
Concluindo, entre os primitivos havia o cosmos sacralizado, a vida na sua totalidade era passível ser santificada, “Seja qual for o contexto histórico em que se encontra, o homo religiosus crê sempre que existe uma realidade absoluta, o sagrado, que transcende este mundo mas que se manifesta neste mundo, e por este fato, o santifica e o torna real” (ELIADE, 1970, p. 209).
No mundo moderno é que surge a figura do homem a-religioso, principalmente nas sociedades européias. ELIADE (1970) salienta que na história das religiões, nos documentos que se tem acesso, esse comportamento não é encontrado. O homem a-religioso assume uma nova postura, não encontrada anteriormente e diferente daquela assumida por seu antepassado, o homo religiosus: ele se vê como agente da história, não aceita o apelo à transcendência, vê o sagrado como um obstáculo à sua liberdade e só se reconhece na medida em que se liberta das superstições dos seus antepassados. No homem moderno, então, a religiosidade se esvazia e o mundo já não comporta significados últimos.
Após constatar a influência básica da religião e espiritualidade através dos milênios, podemos afirmar com ELIADE (1970), que o homem profano ou a-religioso em estado puro é um fenômeno muito raro. Mesmo se considerando como tal, no seu viver permanecem tabus, superstições, pensamento mágico-religiosos e ele que ‘se pretende a-religioso’, dispõe ainda de toda uma mitologia camuflada e de numerosos ritualismos degradados” (id., ib., p.211). Assim também, DIAZ (1992) concorda que quando a religião perde a dimensão simbólica de responder à contingência humana, ideologias filosóficas e cosmovisões científicas se oferecem para ocupar-lhe o cargo, atuando como pseudo-religiões. O ser humano, portanto, não pode fugir do seu passado que o constitui atualmente, e negar essa dimensão espiritual que faz parte intrínseca de sua personalidade.




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