Interações em plataformas digitais e análise de memórias da cidade turística: uma proposta metodológica em Peirce e Foucault1


Uma sistematização metodológica em Peirce e em Foucault



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Uma sistematização metodológica em Peirce e em Foucault

Segundo Peirce (2005), toda cognição é determinada logicamente por cognições anteriores. Isso implica que as questões devem ser investigadas por meio de sistematizações que possibilitem a interligação das conjeturas e aspectos que compõem o objeto da análise. Para o pai da semiótica, o conhecimento se dá a partir de processos cognitivos em estruturações capazes de aproximar fatos internos e externos inerentes ao objeto. Compreende-se a apreensão do saber a partir da desconstrução e detalhamento dos pré-saberes, que são construções lógicas que abrem perspectivas para incertezas e imprevisibilidades. Ou seja, observações pontuais sobre os fatos geram produções epistemológicas, pois permitem a delimitação de objetos de estudo.

Portanto, a construção do objeto corresponde a um recorte do social, através de uma atitude mental/cognitiva. Isso implica em reflexões continuadas sobre fenômenos sociais, que se comportam como objetos pré-construídos, que são pré-saberes, como reitera Moesch (2000), dada sua complexidade e relevância para a sociedade e comunidade acadêmica. Assim, para compreensão do modelo metodológico em estudo, é necessário conhecer o caminho percorrido para a sua elaboração.

A problematização em torno da memória coletiva sobre a cidade turística formada a partir de interações em plataformas digitais foi formulada entre os anos de 2013 e 2014, a partir da implementação e gerenciamento do processo de comunicação virtual da Prefeitura Municipal de Ilhéus, destino turístico da região sul da Bahia. Site5 e fanpage6 foram construídos com base na pesquisa Cibercultura e a potencialização da atividade turística (COSTA, 2005), com o objetivo de ofertar o máximo de serviços a residentes e visitantes, explorando as caraterísticas da internet (hipertextualidade, instantaneidade, interatividade, personalização, multimidialidade/convergência e memória).

Além da produção noticiosa, buscava-se facilitar o acesso da população aos serviços públicos, e difundir o turismo, através de narrativas multimídias, disponibilização de links de serviços e de empreendimentos do trade, publicação da programação cultural, disponibilização de imagens, sugestão de roteiros, pensando nos fluxos regionais e nacionais. O processo de interação entre residentes e governo, através da fanpage, passou a ser ferramenta para pautar produção noticiosa e ações públicas, especialmente referentes à infraestrutura urbana.

Esta prática não surge com a internet, sendo o rádio o veículo que mais colabora para pautar gestões públicas naquele município; mas, pela fanpage, foi possível observar detalhes das perspectivas do cidadão, que acabaram gerando roteiros para ações municipais. Reitera-se, com Palácios (2003), que ao romper com limites de tempo e espaço das mídias tradicionais, o ciberespaço apresenta novas possibilidades produtivas a partir da memória digital e de processos interativos, que colaboram para identificação e análise da memória coletiva. Nas demandas, notavam-se expectativas e angústias da população com a dinâmica turística, apontando para uma cultura já incorporada ao cotidiano da cidade.

A prática começou a chamar a atenção para o desenvolvimento de uma sistematização que permitisse a apropriação do conteúdo gerado pelo usuário ao planejamento urbano, pensando na potencialização do turismo. Porém, verificava-se que nesses processos interativos, o visitante, ator preponderante da cultura turística, não participava ativamente dos debates em torno do turismo, visto que geralmente as discussões fomentadas pelos usuários residentes estendiam-se para particularidades do cotidiano do lugar. No caso de Ilhéus, esporadicamente, turistas interagiam com a prefeitura através de e-mails ou pela caixa de diálogo, em busca de informações individualizadas.

Portanto, para estudar a memória da cidade turística, foi preciso buscar outra plataforma digital para entender a memória produzida pelo visitante. A princípio cogitou-se o Fousquere, um aplicativo de dispositivos móveis que indica pontos turísticos do lugar, com espaço para os usuários manifestarem suas percepções. Contudo, entre elaboração da problemática e cumprimento de créditos do doutorado, observou-se que o APP vinha sendo pouco utilizado, contendo apenas manifestações antigas, o que inviabilizaria a pesquisa já que seria difícil encontrar atualizações sobre o lugar. A opção pelo Airbnb deu-se por seu caráter informativo (simbólico), interativo (funcional) e comercial (material).

Acredita-se que o objeto formulado representa um sistema de relações construído propositalmente que admite relevância social e acadêmica. Reitera-se com Braga (2011) que a construção do modelo metodológico adotado para investigá-lo não deve assumir abordagens prévias e fechadas, e sim buscar procedimentos compatíveis com suas especificidades e grau de complexidade, o que amplia a exigência sobre a pertinência do método. Além disso, pela amplitude do campo de estudo da comunicação, o pesquisador aponta para sistematizações interdisciplinares, atendendo às necessidades específicas da pesquisa.

Pela experiência empírica e abordagens teóricas, ratifica-se que a análise da memória coletiva sobre centros receptivos formada a partir de plataformas interativas digitais deve permitir a apreensão de aspectos do sensível, das experiências e cognições dos cidadãos que dinamizam a cultura turística. Pelo grau de complexidade do estudo, a primeira investida metodológica centrou-se na semiótica peirceana. O método estabelece interconexões entre os fatores da pesquisa como elemento preponderante para a análise do fenômeno, possibilitando um processo de investigação ao mesmo tempo aberto, pertinente e reflexivo, com uma dimensão interdisciplinar.

O processo semiótico põe em jogo as razões abstratas e internas nas produções do conhecimento, e propõe um alargamento da consciência, buscando a percepção da globalidade social em seus mais diversos elementos, inclusive aqueles não perceptíveis à primeira vista. Como observa Iasbeck (2010, p 196) “um projeto semiótico não tem pretensões a conclusões gerais ou a fechamentos contundentes”, ao contrário busca o alargamento de possibilidades na análise.

Por sua vez, a imposição de limites à produção do saber epistemológico é incapaz de perceber a condição densa, imagética, simbólica da experiência vivida. Ao contrário de tal linearidade, a teoria do falibilismo de Peirce diz que todo conhecimento está sujeito ao erro (IASBECK, 2010). Assim, observa-se que a investigação científica corresponde a etapas progressivas do pensar, considerando as possibilidades oferecidas pelo erro, que se apresenta como negação da certeza. Como propõe Morin (2005, p. 18), “a própria organização do conhecimento, no interior de nossa cultura, racha esse fenômeno multidimensional; os saberes que ligados, permitiriam o conhecimento do conhecimento são separados e esfacelados”.

O método semiótico propõe justamente esta desconstrução do objeto. A teoria de Peirce estimula a cognição a partir de bases lógicas dialéticas “visto que o pensamento humano gera produtos concretos capazes de afetar e transformar materialmente o universo, ao mesmo tempo que são por ele afetados” (SANTAELLA, 2006, p. 25). Isso implica que a produção do conhecimento está continuamente suscetível a mudanças, ocorrendo em fases, etapas ou contínuos processos de esfacelamentos.

Segundo Japiassu (1991), deve-se falar em conhecimento-processo e não em conhecimento estado. Isso implica que o objetivo da produção do saber científico é analisar estas etapas de estruturação do conhecimento, de modo que este tenha sempre caráter provisório, jamais definitivo e acabado, fomentando ciclos contínuos entre racionalidades e seus efeitos.

Suspendem o acúmulo indefinido dos conhecimentos, quebram sua lenta maturação e os introduzem em um tempo novo, os afastam de sua origem empírica e de suas motivações iniciais, e os purificam de suas cumplicidades imaginárias; prescrevem desta forma, para a análise histórica, não mais a regressão sem fim em direção aos primeiros precursores, mas a identificação de um novo tipo de racionalidade e de seus efeitos múltiplos (FOUCAULT, 2014, p. 4-5).

A presente sistematização objetiva buscar novas racionalidades, criando uma estrutura de pensamento voltada para a análise multidimensional do fenômeno e sua contextualização científica. Nesta perspectiva, admitem-se deslocamentos e transformações de conceitos, diferentes formas de encadeamento de ideias, compatibilidades de sistemas intelectuais, além das análises literárias, que ao mesmo tempo fundamentam e renovam o raciocínio.

Esses confrontos e interconexões empíricos e teóricos podem ser estabelecidos a partir do modelo de Peirce, cujo procedimento de compreensão dos objetos parte do estudo dos signos, que são estruturas de mediação vinculadas a contextos culturais. Há três perspectivas fundamentais a ser consideradas na análise: o fato sobre um objeto, que seria o fato em si mesmo; o fato sobre dois objetos, correspondendo ao estágio de conexões estabelecidas a partir do fato, que seria um estágio de relações; e o fato sobre vários objetos, que implicaria nas ramificações e nas sínteses que se possam ter sobre o fato.

A partir dessa racionalidade, Peirce propõe a análise do signo e constrói sua rede de classificações: sempre triádicas. Como explica Santaella (2004; 2005), para Peirce, a compreensão do fenômeno, no pensamento ou no mundo empírico, é possível a partir de três categorias fundamentais – primeiridade (qualidade), secundidade (relação) e terceiridade (representação) – que permitem a análise do signo em relação a si mesmo, em relação ao seu objeto e em relação ao interpretante (os sentidos produzidos). Essa é a primeira trilogia. Cada uma dessas categorias também admite três outras e assim sucessivamente.

A primeiridade está relacionada com as ideias do acaso, oriência, originalidade, presentidade, imediaticidade, frescor, espontaneidade, qualidade, sentimento, impressão; a secundidade, com ideias de ação e reação, esforço e resistência, conflito, surpresa, luta, aqui e agora; a terceiridade, com as ideias de generalidade, continuidade, crescimento, aprendizagem, tempo, evolução (SANTAELLA, 2004, p. 30-31).

A primeiridade corresponde ao nível do sensível, da percepção, do sentimento, da qualidade. Considerando o signo em relação a si mesmo, refere-se ao qualisigno (primeiridade da primeiridade); em relação ao objeto, diz-se do ícone (secundidade da primeiridade); e, em relação aos sentidos – interpretante – denomina-se rema ou hipótese (terceiridade da primeiridade). Qualisigno pode ser uma qualidade ou atributo que funciona como signo, produzindo na mente do observador um sentimento vago, abrindo-se para possibilidades. Ícone corresponde a aspectos de similaridades entre o signo e o objeto. Representam por semelhanças, por isso em relação ao interpretante, comportam-se como uma hipótese (Rema), pois são possibilidades qualitativas, abstrações da mente, expectativas.

A secundidade está vinculada ao nível da experiência e refere-se ao sinsigno (o signo em relação a si mesmo – primeiridade da secundidade), índice (relação ao objeto – secundidade da secundidade), e dicente ou dicisigno (relação aos sentidos – terceiridade da secundidade). O sinsigno é um signo de existência, corresponde a um objeto da experiência direta, o próprio ator de uma atividade ou suas representações, por exemplo. Já o índice é dinâmico, propõe ligação de fato entre duas coisas e só funciona como signo quando um intérprete estabelece conexões possíveis. As ações humanas são índices de alguma coisa relativos ao modo como foram produzidas. Nesse sentido, o dicente ou dicisigno tem veracidade e pode ser constatado no local, porque parte da existência concreta.

O último nível, o da terceiridade, está vinculado à inteligência e ao pensamento, por isso é o nível da continuidade. Na relação do signo a si mesmo, a primeiridade da terceiridade, refere-se ao legisigno – uma convicção social, constituída por convenção ou pacto coletivo; na relação com o objeto, a secundidade da terceiridade, constitui o símbolo – aquilo que representa a generalidade da lei, uma ideia armazenada na memória. Em relação aos sentidos, produz o argumento – a terceiridade da terceiridade – que corresponde à razão da lei. Reúne séries lógicas que fundamentam conceitos produzidos pelo observador.

As categorias triádicas são modalidades específicas da apreensão do objeto. Propõem uma sistematização e organização teórica a partir da identificação das funções dos signos existentes no fenômeno estudado. Isso possibilita uma verificação experimental de implicações de uma conjectura, as associando em um construto. Por seu caráter desconstrutivo-investigativo, a semiótica permite a apreensão de sentidos e um aprofundamento dos conteúdos identificados. Pelo método, o pesquisador tem a possibilidade de buscar em diversas disciplinas argumentos para fundamentação do objeto. Assim, é possível, por exemplo, uma aproximação, em um mesmo contexto, entre a sociologia do turismo de Krippendorf (2000) e princípios do prazer de Freud (1996), que discutem comportamentos humanos dentro das particularidades de suas disciplinas.

Segundo Codato e Lopes (2010), a semiótica fornece a compreensão de sentidos, do espaço do discurso, da representação, da construção dos simulacros significantes, do sujeito, do corpo, das vivências, enfim de uma série de fatores que permeiam as atividades humanas. No entanto, Santaella (2006) observa que a semiótica é apenas uma parte no processo de produção do conhecimento e se torna definível em função de um conjunto que envolve a relação com outras estratégias de investigação. Isso implica que, em um estudo específico como o pretendido, é necessário situar o modelo semiótico em uma estratégia de investigação que o complemente, possibilitando ao mesmo tempo uma abordagem dinâmica e delineada, conduzindo a pesquisa no foco do objeto.

Compreende-se que análise estrutural proposta por Foucault (2014) complementa a delimitação da racionalidade pretendida e a identificação dos seus efeitos múltiplos, uma vez que apresenta táticas para formulação e operacionalização do estudo. O sistema inclui formação das estratégias, que permitem a delimitação do objeto e seu confronto com ideias temáticas e teóricas; as formações discursivas, que são os elementos da análise contidos no próprio contexto dos discursos; e a formação de modalidades enunciativas, que colaboram para compreensão das particularidades da disciplina contidas nos objetos, além da formação dos conceitos. Com essa perspectiva, desenvolveu-se o procedimento de investigação, que tem caráter descritivo-investigativo, apresentado a seguir.






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