Interações em plataformas digitais e análise de memórias da cidade turística: uma proposta metodológica em Peirce e Foucault1


Cultura turística, interatividade e memória coletiva



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Cultura turística, interatividade e memória coletiva

Plataformas digitais de interação turísticas, a exemplo do Airbnb, Foursquare, a própria blogosfera de viajantes, redes sociais, e mesmo sítios mais tradicionais no ciberespaço, como páginas governamentais, sites de agências de viagens e de hotéis, apontam para a existência de uma cultura turística que virtualiza lugares, constituindo fluxos econômicos e sociais temporalizados. Há uma totalidade de aspectos materiais e imateriais que caracterizam produções socioeconômicas territorializadas, indicando identidades sociais.

Na contemporaneidade, observam-se inusitadas práticas turísticas e percepções sociais sobre a atividade que ultrapassam imaginários propostos pelo trade e governos. Essa dinâmica propõe diferentes reflexões e perspectivas a atores ligados direta ou indiretamente à atividade como moradores de bairros longínquos, elites locais, classes trabalhadoras, movimentos sociais, visitantes entre outros componentes que movimentam centros receptivos; sejam tão complexos quanto Salvador, capital da Bahia, sejam destinos mais pacatos, como Ilhéus, município do interior do Estado.

Nessas contextualizações é provável a percepção de elementos simbólicos que representam uma dinâmica particularmente turística em meio à complexidade social, cujos fluxos dependem das potencialidades de inovações e ressignificação dos lugares. Por esse caminho, desenvolve-se uma compreensão de cultura turística como processos de virtualização, constituindo uma semiosfera específica na cidade na qual coadunam diversos aspectos que se associam em uma relação interdependente entre dinâmica local e global, contidas nas memórias individuais e coletivas.

Este caráter dinâmico e retroalimentativo estabelece conexões entre o lugar e o globo, fazendo emergir diversas formas interativas entre governos, empresas, residentes e visitantes, caracterizando processos de produção culturais. Assim, com base em Eagleton (2005), que propõe a cultura como sistema de produção, é pertinente refletir que o turismo corresponde a uma cultura específica da contemporaneidade, ao mesmo tempo, territorializada e desterriotorializada. Isso implica em uma estruturação social que envolve tanto o modus operandi quanto sistemas de circulação monetária, criações, ressignificações e interações sociais. Tal percepção pode ser constatada pela dinâmica do Airbnb e por interações na Fanpage da Prefeitura Municipal de Salvador.

O Airbnb é uma plataforma de interação no ciberespaço compondo uma comunidade mundial confiável que estabelece uma conexão direta entre viajantes e anfitriões para contratação de serviços de hospedagem. Os acordos são realizados entre as partes, conforme suas afinidades e condicionantes do próprio site. A plataforma propõe ressignificações na dinâmica turística, não apenas no que se refere à hospedagem, mas na própria concepção da atividade, gerando novas práticas na economia e sociabilidade.

Trata-se de um novo modelo de negócio, estabelecendo contratos sociais mais humanizados, pautados pela confiabilidade entre as pessoas. No perfil do residente, estão a descrição do imóvel, valores predefinidos, imagens, regras de convivialidade, entre outras informações úteis aos hóspedes. Na caixa de diálogo, a plataforma sugere que o visitante faça uma autodescrição e comente sobre suas perspectivas no local. Além de investimentos publicitários em canais de TV fechada, o Airbnb, através do Facebook e You Tube, estimula turistas a experimentarem o lugar além do imaginário difundido por instituições tradicionais, convidando-lhes à flânerie pela cidade4, incitando uma nova cultura de viagem, através da busca pelo prazer em meio às belezas e contrastes sociais.



Já interações em ambientes governamentais no ciberespaço tanto ratificam discursos oficiais quanto expõem demandas populares, como a postagem do dia 13/01/2017, na Fanpage da Prefeitura Municipal de Salvador. O post com fotografia do por do sol na Baía de Todos os Santos traz um slogan voltado para a elevação da autoestima da população ("Já diziam uns barbudos por aí: Aponta pra fé e rema"); e a hashtag "#CapitalOficialdoVerão", sugere o ambiente festivo da cidade na alta estação (FIGURA 1). Sete dias após a postagem, registraram-se 589 likes, 37 compartilhamentos, 13 comentários, entre os quais, 12 reiteram o imaginário dissipado pelo governo. Outros dois atentam para problemáticas da cidade, a exemplo do compartilhado por meio da hashtag (FIGURA 2) que aponta para questões ambientais e políticas.





FIGURA 1: Postagem da gestão municipal de incentivo ao turismo

FONTE: www.facebook.com.br/prefeituradesalvador/fref=ts





FIGURA 2: Repercussão popular sobre a postagem turística

FONTE: www.facebook.com.br/prefeituradesalvador/fref=ts



Com verifica Palácios (2003), nessas formas iterativas estão relações do usuário com o equipamento, com a própria postagem, com a instituição e com outros cidadãos, o que colabora para a produção de uma memória digital. Para o autor, o ciberespaço é um lugar de memória por seu caráter hipertextual, além das possibilidades de arquivamento e disseminação de conhecimento, por meio dos diversos nós que compõem as narrativas.

O ciberespaço permite uma intercomunicabilidade a partir de cliques, postagens, curtidas, compartilhamentos, manifestações de emoções que configuram proliferações de discursos sociais, gerando um volume de informação e possibilidades interativas que causam efeitos tanto na produção quanto na recepção do conteúdo. Há uma ruptura com configurações espaço-temporais das mídias de massa, exigindo do usuário maior dinâmica na busca de conteúdos, que cada vez tornam-se mais simbióticos, assumindo ao mesmo tempo funções simbólicas, funcionais e materiais.

Isso implica que a memória em rede ou memória digital pode ser identificada tanto a partir do sistema, que armazena e disponibiliza conteúdos, quanto pela ação do usuário, através da qual é possível estabelecer fluxos e interligações entre manifestações individuais e coletivas. Palácios (2003) fala em uma memória múltipla, instantânea e cumulativa para descrever as potencialidades de arquivamento, flexibilidade combinatória e velocidade de acesso do ciberespaço. Isso cria um novo panorama no resgate da memória social, que funciona como uma base de dados para a produção de conteúdos.

Puhl e Araújo (2012) discutem que há uma memória explícita (dados estocados em bases de dados digitais) e outra implícita, que se autoconstrói a partir da interconexão de conteúdos que permite processos interativos. São descrições em primeira instância dentro de um processo de produção de sentidos sobre o lugar, correspondendo a narrativas discursivas que prescindem de abordagens mais profundas para identificação de conceitos sociais. Ressalta-se, com Dodebei (2006), que essa mediação possibilita compreensões da subjetividade, práticas e racionalidade humanas. Assim, infere-se que a memória digital, na acepção de Palácios (2003), constitui-se como um elemento da memória coletiva. Trata-se do conteúdo inicial que chama a atenção para o contexto sociocultural em que ela se evidencia e representa.

Desse modo, a percepção da memória coletiva a partir de ambientes interativos, como o Airbnb e a Fanpage da Prefeitura Municipal, convida para um aprofundamento do conteúdo gerado pelo usuário, indicando estruturas culturais em que ela se evidencia. Isso possibilita a constituição de análises semióticas, incluindo os enunciados institucionais, que, com base em Foucault (2014), correspondem a instâncias de delimitações discursivas. Assim, fundamentado por Nora (1990), reitera-se o ciberespaço como um lugar de memória por admitir ao mesmo tempo e em graus diversos sentidos material, funcional e simbólico, de onde podem ser extraídos conceitos que compõem memórias coletivas.

Em Nora (1993), Le Goff (1994) e Halbwaches (1990) observa-se que os lugares de memória possibilitam conexões entre membros de uma cultura, visto que nas perspectivas individuais estão contidas concepções que possibilitam ao cidadão o sentimento de pertença a um grupo, contextualizando-o como um agente social. A partir de aspectos sensíveis e cognitivos contidos na memória individual é possível identificar elaborações da história e cotidiano, afetividade com o lugar, ideais de grupos, perspectivas de futuro, entre outros fatores que compõem identidades culturais.

Para Le Goff (1994), a memória coletiva é uma construção psíquica, intelectual, seletiva e temporal, dotada de sentidos, através dos quais é possível se identificar conceitos, simbolizações e argumentações sobre uma cultura. São manifestações de cidadãos que refletem uma coletividade a partir de suas experiências e observações individuais. Isso implica que a memória coletiva compreende um processo entre representações, como produções midiáticas, experimentações (relações) e simbolizações da cultura.

Assim, observa-se que partindo da memória digital produzida em espaços interativos, é possível identificar diferentes constituições discursivas que apontam para comunidades com interesses específicos. Isso implica que em uma cultura dotada de conflitos, como a turística, podem-se identificar diferentes memórias, já que para Nora (1993), há tantas memórias quantos grupos existirem. Portanto, para análise dessas memórias é preciso o desenvolvimento de uma metodologia que permita o aprofundamento dos conteúdos manifestos pelos usuários do ciberespaço, correlacionando produção de discursos e práticas sociais.

Conforme constatado por Ribas (2012), isso implica em uma metodologia interdisciplinar, buscando uma sistematização para análise da comunicação virtual, práticas sociais e concepções de usuários da Web.

A localização temática da memória enquanto objeto de estudo é transdisciplinar (MORIN, 1999; NICOLESCU, 2000, ASSMANN, 2011a, 2011b3), tendo como fator comum, a partir dessas várias perspectivas, a atualização da problemática a partir de sua (re)definição e potencialização pelas tecnologias digitais e pela constituição de uma rede global em que a memória passou a ter um ambiente privilegiado de (re)construção. (RIBAS, 2012, p. 17)

Portanto, com o propósito de encontrar uma estruturação apropriada à complexidade da investigação, estabeleceu-se uma relação entre a semiótica peirceana e as regularidades discursivas propostas por Foucault (2014). São perspectivas que propõem ligações entre aspectos do sensível, da experiência e da representação para descrição e análise dos fenômenos, exigindo interconexões entre diferentes áreas de investigação, através de uma ação de vigilância epistemológica, como propõe Japiassu (1991). Devem-se fomentar conexões entre percepções e conhecimentos, gerando um processo cognitivo que pode tanto designar elaborações de ordem prática quanto edificações teóricas.

Busca-se, portanto, uma construção de pensamentos e reflexões sobre o contexto abordado na tentativa de contextualizar práticas vigentes, suas relações com a sociedade e seu aproveitamento pelos sistemas técnicos. A seguir, apresenta-se o caminho percorrido para se chegar à proposta de estudo – análise da memória coletiva da cidade turística a partir da interatividade em plataformas digitais – seguida de uma abordagem sobre a tomada de decisões metodológicas.





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