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Instituto de Psicologia - Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Aula 02 - História de Psicologia 2007/2

 

O início da psicologia científica

Leslie Spencer Hearnshaw

 

Hearnshaw, L. S. (1987). The shaping of modern psychology



(Capítulo 9, pp. 124-148). London: Routledge.

(Traduzido por Caroline Passuello, Mariana Raymundo e Mayte Amazarray

 e revisado por Cristina Lhullier e Janaína Pacheco.)

 

I

A psicologia científica nasceu nas Universidades alemãs no século XIX e, desde então, difundiu-se para todo o mundo desenvolvido. Este nascimento na Alemanha não foi acidental. A psicologia científica é um produto da universidade moderna que, com sua dupla ênfase no ensino e na pesquisa, foi primeiramente estabelecida na Alemanha. Conforme observou, um século atrás, o historiador James Bryce “não existe nenhum povo que tenha dado tantas idéias e tanto suor para o desenvolvimento do sistema universitário como os alemães têm feito - em nenhum outro setor da vida nacional eles se dedicaram tanto”.1 Como resultado da fragmentação da nação alemã em numerosos reinos, ducados, bispados e cidades autônomas, bem como da falta de um governo central efetivo antes de 1870, havia muito mais universidades na Alemanha do que em qualquer outro país europeu.

Na ausência de um Estado ou de uma Igreja unificados, as universidades tornaram-se um condutor primordial da cultura nacional. Com o desenvolvimento da faculdade de filosofia no século XVIII, a fim de complementar as tradicionais faculdades de teologia, direito e medicina, surgiu a idéia da ampla e enciclopédica “Wissenschaft”, abrangendo todo o conhecimento, humanístico e científico. A Universidade de Göttingen, fundada em 1734, foi a incorporação da “Wissenschaft, assim como do importante ideal de “Lehrfreiheit” - a liberdade dos professores universitários de dirigirem suas aulas e suas pesquisas sem interferência ou constrangimento, e a liberdade do aluno de estudar o que fosse de seu interesse e escolher os professores de sua preferência, em qualquer universidade, onde receberia a melhor instrução. Esse elemento de liberdade foi um fator importantíssimo para o surgimento de novas disciplinas como a psicologia. Foi, entretanto, a fundação da Universidade de Berlin, em 1810, por Wilhelm von Humboldt que realmente consolidou o modelo da universidade moderna. Isso coincidiu com a reforma da educação primária e secundária por Baron von Stein, com a abolição da servidão e do sistema de castas, bem como com a extensiva modernização do Estado Prussiano, após sua humilhante derrota para Napoleão na batalha de Iena em 1806.

O excelente padrão de ensino e de pesquisa estabelecido na Universidade de Berlin propagou-se rapidamente às outras universidades alemãs que eram instituições mantidas pelo Estado e, deste modo, recebiam grandes quantidades de livros e de equipamentos. Laboratórios bem aparelhados foram estabelecidos para pesquisa em física, química, fisiologia e outras disciplinas científicas. Como Flexner observou em seu livro sobre as universidades, “nenhum outro país, durante o século XIX, reuniu semelhante grupo de cientistas e de estudantes tão notáveis, providos com tantas facilidades ou recompensados com igual respeito.”2 Portanto, não foi acidentalmente que a psicologia científica teve origem na Alemanha.

Apenas no final do século XIX as instituições acadêmicas de outros países ocidentais começaram a competir com aquelas da Alemanha. De fato, antes da fundação do “University Grants Committee” (Comitê de Outorga Universitário), em 1919, as universidades inglesas dificilmente recebiam algum apoio do governo; e antes do estabelecimento da ordem de PhD, no mesmo ano, havia pouca tradição em pesquisa neste país. Nas universidades mais antigas, Oxford e Cambridge, predominavam as disciplinas tradicionais; escolas renomadas em ciências naturais não foram inauguradas antes de 1850 e, até 1870, não existiam laboratórios adequados para pesquisas. Novos temas propostos para estudo freqüentemente confrontavam-se com a oposição conservadora, e isso aconteceu especialmente com a psicologia. Quando, em 1877, James Ward e o racionalista Dr. Venn organizaram um movimento para promover a psicologia experimental como disciplina independente em Cambridge, o “University Senate” (Senado da Universidade) opôs-se à idéia, alegando que iria “insultar a religião  pondo a alma humana nos pratos de balança”. Em Oxford, não havia ensino oficial de psicologia experimental até 1936.



No início de 1870, nos Estados Unidos a situação era muito semelhante. Antes da inauguração da Universidade de Johns Hopkins, em 1876, nenhum estudo ou pesquisa significativa, que seguisse o padrão alemão, fazia parte do modelo de educação americana. Durante a breve liderança de Stanley Hall, que foi nomeado para o corpo docente em 1881,3 Johns Hopkins logo se tornou a pioneira no desenvolvimento da psicologia americana. Progressos similares rapidamente seguiram-se em Harvard, Yale, Columbia, Princeton e em outras universidades americanas, apoiados pela fundação de revistas e de associações acadêmicas. O ambiente necessário para o crescimento de uma psicologia científica espalhou-se de sua terra natal, a Alemanha, para o outro lado do Atlântico, acarretando importantes conseqüências.

De acordo com o que comentamos no último capítulo, a psicologia científica foi a união resultante da antiga psicologia filosófica com o novo espírito experimental das ciências naturais, em particular da fisiologia experimental. As universidades alemãs possibilitaram as condições necessárias para este  encontro. A primeira parte do século XIX foi um período de um vigoroso debate filosófico na Alemanha. A figura gigantesca de Kant havia elevado a discussão filosófica a um novo nível de sofisticação, mas sua filosofia crítica, enquanto aparentemente solucionadora de alguns problemas, acabou dando origem a outros, e a dicotomia entre os mundos material e espiritual gerou tantas discussões  quanto o dualismo mente-corpo de Descartes. Um poderoso grupo de pensadores idealistas, dos quais Fichte, Schelling e Hegel eram os mais proeminentes, tentaram transcender as restrições que Kant havia imposto ao pensamento especulativo, e, por algum tempo, dominaram a filosofia alemã. Contudo, seus delírios metafísicos e dogmatismos não-científicos contribuíram para a alienação de vários pensadores realmente preocupados com os rumos da ciência. Depois da morte de Hegel, em 1831, a escola idealista perdeu terreno, embora sua influência jamais tenha se extinguido. A escola idealista se desenvolveu sob ataque constante. Feuerbach, que foi alvo de atenção de Marx e Engels, em sua Critique of the Hegelian Philosophy (Crítica da Filosofia Hegeliana - 1839) acusou-a de ser uma mera teologia disfarçada. Em todas essas vigorosas controvérsias metafísicas, o status da mente e a possibilidade de uma psicologia científica tiveram uma participação fundamental. Uma corrente de obras filosóficas centradas na psicologia, a maior parte delas hoje esquecida, emergiu das universidades alemãs entre 1830 e 1860. Havia bastantes argumentações, mas ainda faltavam conclusões concretas. Foi aqui que os progressos na fisiologia pareciam estar abrindo novas possibilidades, e pelo menos em certas áreas restritas da psicologia, particularmente a psicologia sensorial, estavam sendo produzidas respostas experimentais. O primeiro laboratório fisiológico foi inaugurado na Universidade de Breslau, que naquela época fazia parte da Alemanha, pelo fisiólogo J. E. Purkinje, conhecido pelos psicólogos principalmente por sua contribuição no estudo da visão. Em seguida, outras universidades seguiram este modelo. Em 1833, Johannes Müller foi indicado como professor de anatomia e fisiologia na Universidade de Berlin, e foi aí que ele produziu seu monumental Handbuch der physiologie des Menschen (Manual de Fisiologia Humana - 1833-40, tradução para o inglês- 1842). Müller foi um pesquisador produtivo em vários campos: microanatomia, embriologia, zoologia marinha, fisiologia experimental e psicologia fisiológica. Ele sintetizou o conhecimento fisiológico de sua época. O seu estudo mais importante foi o das sensações, segundo o qual tanto os fatores psicológicos como fisiológicos tinham participação nestas; e sua lei das energias específicas, na qual afirmava que cada rota de um nervo sensorial, uma vez estimulada, originava apenas um determinado tipo de sensação. Ele contou com várias figuras famosas entre seus alunos, inclusive o grande Helmholtz. Em Leipzig, E. H. Weber conduziu suas investigações pioneiras sobre o tato sensível, publicadas no clássico Der Tastsinn und das Gemeingefühl (Sobre o tato e a sensibilidade comum, 1846).4 Em suas pesquisas, ele empregou pela primeira vez o método das “diferenças apenas perceptíveis”, que pode ser considerado como o início da psicofísica e do acesso quantitativo à psicologia, e formulou a lei na qual as diferenças perceptíveis são constantemente proporcionais às magnitudes do estímulo original. Entre os alunos de Weber, em Leipzig, estava R. H. Lotze, formado em medicina, mas com uma inclinação à filosofia, que reuniu as correntes fisiológicas e filosóficas em seu influente Medizinische Psychologie, oder Psychologie der Seele (Psicologia Médica ou Psicologia da Alma  1852).

O caminho havia sido preparado para o nascimento de uma psicologia que era tanto quantitativa quanto qualitativa, tanto experimental quanto introspectiva, organizada, sistemática e com sua identidade própria. Entre 1850 e 1879 três grandes figuras em particular marcaram este caminho. Fechner formulou os métodos básicos de psicofísica quantitativa, Helmholtz sistematizou o acesso experimental aos problemas da percepção sensorial, bem como mediu a velocidade dos impulsos nervosos; e Wundt organizou toda a área da psicologia fisiológica, relacionado com o grande domínio da psicologia em geral, e deu à psicologia sua identidade institucional.

 

II

G. T. Fechner (1801-1887), uma estranha mistura de físico, filósofo, esteta, místico e psicólogo ‘inadvertido’, fez mais que qualquer outro individualmente, exceto talvez por Helmholtz, modificando o curso da psicologia acadêmica.5 Trabalhando assiduamente em um problema estritamente individual - a relação entre estímulo e sensação - ele introduziu a metodologia, a experimentação sistemática e a avaliação quantitativa dos resultados. Apesar da discussão de suas hipóteses e de suas conclusões, ele inaugurou uma nova era no estudo dos processos mentais. Segundo Boring, “Elemente der Psychophysik” (Elementos de Psicofísica - 1860) de Fechner encontra-se no topo da nova ciência da psicologia.”6 Nas palavras de um comentarista mais recente, Fechner “inventou métodos de mensuração psicológica baseado em considerações estatísticas, que são os verdadeiros fundamentos da psicologia experimental de nossos dias”.7 Embora Fechner tenha se iludido ao pensar que estaria lançando os fundamentos da “ciência exata da relação (ou relações) funcional de dependência entre corpo e mente”,8 e que sua lei psicofísica alcançaria no campo das relações mente-corpo um significado tão genérico e fundamental como a lei da gravitação no campo da mecânica;9 ele defendeu, contudo, a necessidade para a psicologia de haver recursos de “seu próprio laboratório, sua própria aparelhagem e seus próprios métodos”.10  E isto foi revolucionário. Experimentos, mensurações e propostas psicofísicas ocasionais já haviam sido feitos anteriormente, mas com Fechner tornaram-se sistematizados e estudados detalhadamente.11

O “Elemente der Psychophysik” finalmente foi publicado em 1860, depois de dez anos de trabalho assíduo, seguindo-se o afastamento prematuro de Fechner  das cadeiras de física em Leipzig, e um período prolongado de invalidez. Fechner, filho de um pastor, estava profundamente contrariado com o progresso do materialismo de sua época e, em oposição aos materialistas, acreditava na presença universal da alma - inclusive escreveu um livro sobre a alma dos vegetais - e defendia a idéia de que mente e corpo são dois aspectos, interno e externo, de uma realidade implícita. Ele começou a provar que isto funcionava desta forma, experimentalmente e matematicamente, estabelecendo uma relação constante e legítima entre os dois. Essa foi a motivação do trabalho que ele intitulou de “psicofísica”. Iniciou com o que chamou de “psicofísicas externas”, a relação entre estímulos externos e sensações, porém ele acreditava que os mesmos princípios poderiam ser aplicados também às funções mentais complexas. “As atividades mentais superiores”, escreveu, “não menos que a atividade sensorial, a atividade da mente como um todo, assim como em detalhes, é o objeto para a determinação quantitativa.”12 Isto, entretanto, foi uma área que ele nunca investigou a fundo, exceto na área da estética.13

O problema essencial, caso a mente fosse mensurável, era o de estabelecer uma escala de unidades e um ponto zero, a partir do qual as mensurações poderiam iniciar. A mente não poderia ser medida diretamente, mas Fechner acreditava que havia encontrado uma escala indireta apropriada nas diferenças apenas perceptíveis (d.a.p.) de E. H. Weber, que havia estabelecido alguns anos antes baseando-se nas evidências experimentais que d.a.p., no domínio de cada sensação, revelavam uma razão constante à magnitude do estímulo inicial. Assim, se poderia tomar como ponto zero, o limiar absoluto, abaixo do qual um estímulo é imperceptível. A magnitude de qualquer sensação poderia então ser verificada pelo número de d.a.p. superiores ao ponto zero. Para expressar isso numericamente e para estabelecer a lei relacionando as magnitudes do estímulo e das sensações, Fechner levou adiante prolongadas séries de experimentos, conferindo pesos, estimando brilhos visuais, julgando diferenças táteis e visuais. Fechner reconheceu que a experimentação psicológica envolvia dificuldades especiais, pois os resultados variavam segundo as condições, que não podiam ser completamente padronizadas, portanto os resultados deveriam ser avaliados estatisticamente. Os três métodos psicofísicos de Fechner, foram denominados de: os métodos das d.a.p.; o método dos casos certos e errados; e o método do erro médio. Estes foram os primeiros projetos sistemáticos experimentais em psicologia, assim como sua aplicação da teoria de probabilidades para a avaliação dos resultados numéricos foi o começo da psicologia estatística.14  O capítulo 8 do “Elemente der Psychophisik”, no qual Fechner discute sobre métodos de mensuração das sensações e sobre as precauções necessárias no uso destes, é um clássico na história da psicologia e inclusive pode ser lido com proveito do pesquisador até mesmo nos dias de hoje. O resultado da longa pesquisa de Fechner foi a formulação de sua  famosa lei logarítmica, que postulava que a grandeza de uma sensação varia de acordo com o logarítmo do estímulo.

O trabalho de Fechner não foi tão importante pelo que estabeleceu, mas também pelo que iniciou. Houve desde o início objeções aos seus procedimentos. Ele assumiu a validade geral da lei de Weber, que as d.a.p. poderiam ser tomadas como unidades equivalentes e que os limiares poderiam ser considerados como pontos zero.15 Brentano prontamente suscitou objeções contra a lei logarítmica, sugerindo uma alternativa, porém ele nunca a provou com evidências experimentais, e, por isso, foi ignorada até que, muitos anos depois, fosse embasada empiricamente pelo pesquisador sueco Ekman.16 William James ridicularizou essas iniciativas, negando que as sensações poderiam ser consideradas unidades de massa  “nossa sensibilidade pelo rosa certamente não é uma porção de nossa sensibilidade pelo vermelho”.17

O problema de quantificar as sensações tem sido infinitamente discutido pelos psicólogos por mais de um século sem se chegar a um acordo.18 Durante o domínio do behaviorismo, inclusive haviam dúvidas quanto ao que a psicofísica se referia. Entretanto, a lei logarítmica foi largamente aceita como uma útil generalização até a primeira metade do século XX. Foi aplicada em situações práticas, como a escala de decibéis para medir a intensidade sonora. Até mesmo a antiga escala de magnitudes estelares, formulada pelo astrônomo grego Hiparcos, no segundo século AC, foi aproximada logaritmicamente, e, desde a introdução da medida fotométrica, tem sido ajustada a uma função logarítmica. A confirmação fisiológica veio do trabalho das correlações nervosas das sensações feito por Adrian,19 que descobriu que a frequência dos impulsos neurais aumentavam como uma função logarítmica da intensidade da luz. Depois de 1950, S. S. Stevens20 apresentou claras evidências de que na avaliação da sonoridade e do brilho não se obtinha a função logarítmica, propondo, então, uma poderosa lei que afirmava que em toda modalidade sensorial, a magnitude de uma sensação é uma função direta do estímulo.

Quaisquer que fossem as objeções às propostas iniciais de Fechner, o uso de métodos quantitativos em psicologia tem proliferado, e uma nova psicologia tem surgido baseada no antigo modelo Fechneriano. Métodos de escalas diretas tem conduzido a uma grande variedade de aplicações de técnicas quantitativas a outras áreas além da sensação;21 e no campo da sensação novas teorias, como as teorias do quanta neural22 e da detecção dos sinais,23 tem originado novas áreas de investigação. A psicologia matemática tem se desenvolvido enormemente, bem como tem se tornado uma área altamente especializada com suas próprias revistas técnicas.24 Tudo isso se deu graças à iniciativa de Fechner.

Os problemas, evidentemente, persistem. Um especialista na área da psicologia matemática é modesto em relação às realizações desta ciência e ainda tem dúvidas quanto ao seus fundamentos, dizendo que ainda existe “o medo assustador de que a matemática existente não seja, na verdade, particularmente adaptada para os problemas psicológicos”.25 Aparte disso, duas questões fundamentais estavam envolvidas nos problemas Fechnerianos e, principalmente, na psicofísica  a natureza da mensuração e o status das sensações. Um grande foco de discussões relacionadas com a natureza da mensuração foi conduzido tanto por físicos como por psicólogos; gradualmente uma visão menos restrita da mensuração tem prevalecido, legitimando técnicas mais moldadas ao domínio psicológico do que escalas comumente empregadas na física.26 O status das sensações originou dois problemas centrais: a relação da ordem sensorial com o mundo externo e seu espaço dentro do domínio psicológico. Com o fim do simples dualismo, o empenho de Fechner ganha um caráter diferente. As sensações passam a ser mais uma forma de linguagem do que algo paralelo à física, e o estabelecimento de uma relação funcional direta entre estímulos e sensações torna-se uma prática incerta quando transduções complexas intervêm no processo. Além disso, as sensações não podem ser totalmente separadas de seu ambiente psicológico. Como Stern apontou, “todos os limiares que nós estudamos através da ciência empírica estão sujeitos não apenas a fatores constitucionais genéricos, mas também a fatores individuais estabelecidos pelo estímulo e o significado pessoal daquele estímulo no momento”.27 Contudo, apesar destes problemas, não há dúvidas de que Fechner deu uma nova dimensão à psicologia, e o que havia sido até o momento uma disciplina essencialmente filosófica tornou-se tanto quantitativa como experimental. Ele é, portanto, uma das figuras chaves na história da psicologia moderna.

 

III

Hermann von Helmholtz (1821-1894), um jovem contemporâneo de Fechner, certamente foi outro pesquisador importante. Um dos grandes cientistas da época, igualmente renomado como físico, fisiologista, matemático e psicólogo, trouxe todo o arsenal científico para dar apoio a uma área de investigação psicológica, a da percepção sensorial, e mais do que qualquer outro estabeleceu o modelo para o desenvolvimento de uma psicologia experimental. Graduado em medicina por Johannes Müller em Berlim, tendo, depois de sua qualificação, trabalhado por cinco anos como cirurgião do Exército, ele dedicou-se a lecionar cadeiras em fisiologia, anatomia e física em diferentes universidades alemãs. Além disso, ele foi um homem de cultura ampla e geral, versado em diversos idiomas e ainda admirador de música e artes visuais. Ele atribuiu muito de seu sucesso ao fato de que não era estritamente especializado e lamentou o crescente abismo existente entre a ciência e as humanidades.28 Ele estava idealmente equipado para o lançamento da psicologia a um novo plano, mesmo que jamais tivesse a pretensão de ser um psicólogo. Como Brett observou, o trabalho de Helmholtz constituiu “a verdadeira base da psicologia experimental”.29



Helmholtz, ainda muito jovem, mesmo antes de alcançar seu primeiro posto acadêmico, disparou repentinamente para a fama em 1847 com seu discurso “Sobre a conservação da força” para a Sociedade Física de Berlim.30 Este tem sido descrito como sendo, juntamente com a doutrina da evolução, uma das duas grandes generalizações científicas do século XIX.31 Apesar de haver sido pronunciada por vários outros cientistas, a concepção de Helmholtz de um estoque fixo de energia no universo destacou-se das demais por sua formulação precisa e apoio em provas experimentais. Em particular, Helmholtz demonstrou que os ganhos e as perdas de organismos animais estavam submetidos à lei da conservação e, contrariamente aos dogmas do vitalismo, deveriam ser considerados como parte da ordem natural. Em 1850, depois de se transferir de Berlim para Königsberg como professor de fisiologia, foi bem sucedido ao medir a velocidade dos impulsos nervosos, primeiro nos sapos e depois no homem, e estabeleceu o fato de que estes não eram instantâneos, ou quase instantâneos, como se acreditava anteriormente, mas comparativamente, lentos. Esta descoberta logo foi sustentada pelo problema da “equação pessoal” na cronometragem precisa das observações, enfrentado pelos astrônomos, e conduziu a um dos maiores tópicos de investigação nos primeiros anos da psicologia experimental: os tempos de reação.32 Isto implicava claramente que os processos mentais, uma vez que envolviam sequências causais no tempo, eram parte do mundo físico. Foi durante o andamento desta pesquisa que Helmholtz proferiu sua importante conferência “On methodos of measuring very small intervals of time, and their application to physiological purposes” (Sobre os métodos de mensuração de pequenos intervalos de tempo e suas aplicações às questões fisiológicas),33 que veio a ter uma influência significativa tanto na psicologia experimental como na fisiologia. No mesmo ano, ele inventou o oftalmoscópio, um instrumento genialmente simples para examinar a retina do olho, e sua atenção direcionou-se cada vez mais ao estudo dos processos visuais. Seu discurso inaugural em Königsberg, em 1852, foi On the Nature of Human Perceptions (Sobre a Natureza das Percepções Humanas). O resultado final desses estudos foi seu triplo volume “Treatise on Physiological Optics” (Tratado sobre Ótica Fisiológica)34, o qual William James, que era crítico de alguns aspectos das teorias de Helmholtz, descreveu como “uma das quatro ou cinco maiores obras do gênio humano na linha científica”.35 A obra Physiological Optics foi seguida de um tratado igualmente exaustivo sobre o sentido da audição em Sensations of Tone (As sensações dos sons).36 Com o surgimento dessas obras mestras, segundo as palavras do próprio Helmholtz, “a arte da experimentação, que tem se tornado tão importante nas ciências naturais, encontrou uma entrada no campo até agora inacessível dos processos mentais.”37

Essas obras continuam ilustrando exemplos de metodologia científica e de perfeição até os dias atuais. Helmholtz aproximou o estudo dos sentidos à precisão de um pesquisador científico. Toda conclusão era confirmada por observação ou experimentação cuidadosas. “A principal preocupação que eu tenho tido tem sido a de verificar todos os fatos importantes através das evidências de meus próprios olhos e de minha própria experiência”.38 Nos seus estudos em matemática e física, Helmholtz aprendeu a importância da precisão. Em uma carta para seu pai ele escreveu: “nós que aproximamos as ciências naturais ao ponto de vista matemático somos disciplinados para uma plena exatidão na testagem dos fatos e consequências, assim como somos compelidos a proceder através de passos pequenos e seguros nas hipóteses nas quais nos empenhamos em examinar, o que ainda é um oceano inexplorado”.39 Quando necessário ele recorria às ferramentas instrumentais; inventou novos aparelhos, como o oftalmoscópio; o oftalmômetro para medir a curvatura da córnea, ressonadores para amplificar tons parciais e o taquistoscópio. Também era um adepto à improvisação de equipamentos e construção de “partes de instrumentos para seus experimentos óticos a partir dos carretéis de sua esposa e dos blocos de brinquedos de seus filhos, com extremidades cônicas de cera e pedaços de barbantes”.40 Ele enfatizou a necessidade do cientista de possuir habilidades manuais. A isto ele acrescentou poderes extraordinários de observação analítica; na verdade, este cientista prático foi um dos mais brilhantes dos introspeccionistas psicológicos, havendo dúvidas se não foi ele, acima de todos os outros, que teria estabelecido o modelo de introspecção formal, o qual se tornou a característica central da primeira era da psicologia experimental. Finalmente, este perito em experimentação ainda enfatizou a necessidade dos conhecimentos teóricos: “o único experimentador bem sucedido na ciência física será o homem que possuir um conhecimento teórico completo e que souber como propor as questões corretamente de acordo com isso; enquanto que, por outro lado, só poderão teorizar com proveito aqueles que tiverem um amplo conhecimento prático do trabalho experimental”.41 Helmholtz trouxe para suas investigações não só uma poderosa mente teórica, mas também um amplo conhecimento da história dos estudos anteriores. Talvez sua contribuição mais importante para a psicologia seja seu domínio da metodologia científica e seu reconhecimento de que essa metodologia era aplicável a pelo menos alguns problemas da mente.

As pesquisas psicológicas de Helmholtz foram restritas aos dois sentidos superiores da visão e da audição. Ele considerou essa área especialmente importante porque “a fisiologia dos sentidos é o limite de uma área em que as duas grandes divisões do conhecimento humano, as ciências natural e mental, invadem uma o domínio da outra e os problemas levantados são importantes para ambas, bem como somente um trabalho conjunto das duas pode resolvê-los”.42 Ele foi realmente um tanto cético quanto a até que ponto os métodos científicos poderiam ser aplicados à “ciência mental”. Ele falou de uma “diferença genérica entre as ciências naturais e morais”43 e afirmou que “na vida mental as influências são tão interligadas que nenhuma seqüência definida pode, exceto raramente, ser demonstrada”.44 Contudo, ele sustentou que “a memória, as experiências e as práticas, também são fatos, portanto suas leis podem ser investigadas”;45 e o futuro comprovaria que os métodos experimentais poderiam ser aplicados bem mais extensivamente do que da maneira como ele próprio os aplicava. Sua importância foi ter estabelecido um modelo metodológico.

Suas duas obras sobre visão e audição foram fruto de anos de trabalho paciente, nos quais todos os aspectos desses dois sentidos: físico, fisiológico, psicológico e estético, eram comparados, examinados e testados.46 Por meio de observação extremada e meticulosa, e pelo uso de engenhosos equipamentos, Helmholtz revelou muitas novas facetas dos processos sensoriais, algumas das quais eram comumente ignoradas e outras combinaram-se para criar uma impressão completa. “O trabalho de Helmholtz sobre ótica”, comentou James, “é um pouco mais do que um estudo daquelas sensações visuais que o homem comum nunca toma conhecimento  pontos cegos, muscae volitantes, pós-imagens, etc... Percebemos somente aquelas sensações que significam alguma coisa para nós”.47 Ao ouvir acompanhamentos musicais muito atenciosamente, tons parciais e tons combinados “não eram, como pensava-se anteriormente, fenômenos isolados de pouca importância, mas, com raras exceções, determinavam as qualidades do tom de quase todos os instrumentos”.48 Helmholtz percebeu que esse fenômeno “pode ser submetido a objeto de percepção analítica sem qualquer outra ajuda do que a própria direção da atenção”,49 lançando, assim, o modelo de introspecção experimental do final do século XIX. Muitos dos seus experimentos eram extremamente simples e poderiam ser executados por qualquer um sem nenhum equipamento muito sofisticado. Um exemplo: para explicar os efeitos do contraste Helmholtz cobriu metade de uma folha de papel branco com um pedaço de papel preto; fixava seus olhos em direção a um ponto da parte branca próximo à parte preta; depois de mais ou menos um minuto retirava a folha preta, e então a metade da folha branca agora exposta aparecia repentinamente com muito mais brilho. Essas observações e esses experimentos simples eram significativos por causa de seu embasamento teórico. É graças a seus propósitos teóricos, que o trabalho de Hemholtz é particularmente famoso  a redescoberta da teoria tricromática das cores de Young, sua teoria da ressonância da audição e sua teoria geral da percepção  assim como pela riqueza de detalhes com que ele descreveu a fisiologia e a psicologia dos sentidos.

A atitude básica de Helmholtz para o estudo da percepção humana foi empirista e Lockeana. A aproximação metafísica aos Hegelianos ele considerou fundamental para “a tomada de falsas conclusões”50 e, apesar de admirar a crítica doutrina Kantiana do conhecimento, rejeitou sua teoria a priori de intuição espacial. A percepção, incluindo a percepção espacial, era construída a partir da experiência. As sensações eram meros símbolos ou signos para as relações reais dos objetos. Os signos não eram imagens ou cópias do que eles representavam a forma dos signos dependia de sua ordenação sistemática ou de suas combinações. Nós aprendemos através da experiência, principalmente pela atividade e pelo movimento em nossos primeiros anos de vida, o significado desses signos. Então “os testes que empregamos através dos movimentos voluntários do corpo são da mais alta importância para reforçar nossa convicção da exatidão da percepção que temos de nossos sentidos”.51 Nosso interesse básico em olhar e ouvir é prático. Reconhecemos objetos e interpretamos sons a fim de reagirmos apropriadamente em relação a eles. Desta forma, os numerosos defeitos do sistema visual (aberração cromática, astigmatismo, pontos cegos, sombreamentos venosos, etc.) são negligenciados, e, apesar da mobilidade dos olhos, um mundo estático dos objetos é percebido. Percepções que parecem imediatas e simples são na verdade adquiridas vagarosamente e de forma complexa. Em sua última contribuição para a teoria da percepção, um artigo escrito no último ano de sua vida, ele escreveu,

Através de repetições freqüentes de experiências semelhantes, nós podemos atingir a produção e o contínuo reforçamento de uma associação regularmente repetida entre duas percepções ou idéias diferentes, por exemplo, entre o som de uma palavra e a percepção visual ou tátil de imagens, que originalmente não precisam possuir nenhuma conexão natural; e quando isto tiver acontecido não estaremos longe de reportar com detalhes como chegamos a esse conhecimento no qual se baseia a observação individual.52

Uma grande quantidade de nossos julgamentos perceptuais, dessa forma, dependem do que Helmholtz denominou “inferências inconscientes”, e no caso das ilusões perceptivas essas inferências nos enganam. Nas palavras recentes de Gregory, “as percepções são como hipóteses científicas”.53

O trabalho de Helmholtz sobre os sentidos humanos da visão e da audição foi um enorme avanço em relação a seus antecessores e foi o fundamento de todo o trabalho futuro, assim como o verdadeiro início da psicologia experimental. Na geração anterior, James Mill escreveu sobre visão e audição somente utilizando termos gerais e vagos,54 e até um contemporâneo de Helmholtz, Bain, que pretendia unir a psicologia à fisiologia, produziu muito pouco para a época e limitou suas observações sobre visão em cores a uma nota de rodapé sem importância.55   Helmholtz transformou o panorama. Nem todas as suas descobertas têm sido aceitas. Em particular psicólogos influenciados pela tradição fenomenológica, Hering com respeito à visão, e Stumpf, com respeito à audição, apontaram para aspectos não abordados por Helmholtz e propuseram teorias alternativas. Um século a mais de trabalho naturalmente produziu novas descobertas desconhecidas por Helmholtz. Mesmo assim, ainda continua sendo verdadeiro que, no campo da psicologia sensorial, Helmholtz formulou os fundamentos nos quais se baseia todo o trabalho subseqüente, e os métodos empregados por ele para estudar os sentidos têm sido incorporados por grande parte da psicologia.

 

IV

Os anos posteriores a 1850 constituíram um divisor de águas na história da psicologia. Até então, o estudo da mente, excetuando as observações clínicas dos médicos, tinha sido basicamente filosófico. Em 1842, J. S. Mill levantou a possibilidade de uma ciência da mente baseada em “observação e experimentação”,56  mas foram os alemães Fechner e Helmholtz que realmente deram os primeiros passos nesse sentido. A separação, consolidação e institucionalização dessa nova abordagem psicológica foi o resultado do trabalho de Wilhelm Wundt (1832-1920).57 Antes de 1862, Wundt já havia considerado a possibilidade de uma psicologia experimental quando escreveu que “a importância que a experimentação terá para a psicologia tem sido muito pouco visualizada em toda a sua extensão. Nós temos, com certeza, muitas iniciativas notáveis no campo da investigação psicológica, mas, como uma ciência coerente, a psicologia experimental ainda aguarda seus fundamentos”.58 Em 1874, ele foi o responsável por prover tais fundamentos, proclamando o fato no seu clássico Grundzüge der Physiologischen Psychologie (Elementos de Psicologia Fisiológica): “Das Werk, das ich hiermit der Offentlichkeit übergebe, versuchten ein neues Gebiet der Wissenschaft abzugrenzen” (A obra que estou oferecendo agora ao público faz uma tentativa de definir o novo domínio da ciência).59 Não é, portanto, inapropriado descrever Wundt, nas palavras de Boring, como “o psicólogo veterano na história da psicologia”,60 já que ele foi o primeiro a identificá-la claramente como uma disciplina científica distinta.

A principal importância de Wundt está na consolidação e institucionalização da psicologia. O seu próprio sistema psicológico teve poucos seguidores e, de fato, não estava livre de conflitos, mas possuía alguns aspectos de interesse. Formado em medicina na Universidade de Tübigen, e passando um curto período em Berlin com J. Müller e Du Bois Reymond, Wundt trabalhou aproximadamente vinte anos na Universidade de Heidelberg, oficialmente como psicólogo, mesmo assim de 1860 em diante seu interesse voltou-se ainda mais à psicologia. Por um período ele trabalhou como assistente de Helmholtz, que naquela época era o responsável pela cadeira de psicologia, mas, ao que parece, eles nunca estabeleceram uma relação muito próxima. Sua primeira publicação relacionada à psicologia foi um tratado sobre percepção sensível, em 1862, seguido no ano seguinte por Lectures on Human and Animal Psychology (Conferências sobre Psicologia Humana e Animal)61 e, em 1873-4, pela edição de Grundzüge der Physiologischen Psychologie. Em 1875, Wundt foi escolhido para ser professor de filosofia em Leipzig e ele se manteve nessa cadeira até 1917, três anos antes de sua morte. O Instituto de Psicologia, por ele fundado em 1879,62 rapidamente tornou-se o foco principal da nova psicologia experimental, atraindo estudantes de muitas partes do mundo. O ano de 1881 presenciou o primeiro artigo do jornal Philosophischen Studien (Estudos Filosóficos), onde as descobertas do Instituto eram publicadas, e sucessivas edições do “Grundzüge” eram conferidas e organizadas. Essa atividade experimental, no entanto, constitui uma pequena parte dos trabalhos pródigos de Wundt. Ele exerceu sua função de professor de filosofia seriamente e compilou trabalhos sobre lógica, ética e filosofia em geral; e, na virada do século, inclinou-se a um estudo compreensivo sobre cultura, linguagem, mito e religião humana, o qual foi apresentado vinte anos antes de sua morte em uma coleção de dez volumes Völkerpsychologie (Psicologia Cultural).63

Existem dificuldades consideráveis ao se tratar da psicologia de Wundt. O volume do seu trabalho era enorme, trabalho esse que era constantemente revisado, ampliado e modificado; e em psicologia ele trabalhou assiduamente cerca de sessenta anos. Além disso, existia uma divisão básica na abordagem psicológica de Wundt, duas partes opostas que nunca foram integradas. Suas inclinações filosóficas eram idealistas e enraizadas nas principais correntes da filosofia alemã, porém ele foi treinado nas ciências naturais na época em que as idéias de vitalismo e “naturphilosophie” (filosofia da natureza) eram vigentes. Essa divisão é aparente no seu sistema psicológico e justifica a divergência de interpretações que a ele foram dadas. Enquanto que Titchener, Boring e os antigos comentaristas deram grande importância aos aspectos empíricos e científicos de seu trabalho,64  estudos mais recentes têm enfatizado os componentes idealistas e humanistas de Wundt.65 Parecia haver um elemento de verdade nos dois pontos de vista, embora cada um com sua própria versão.



Não há dúvida de que Wundt, na psicologia, preocupou-se essencialmente com o estudo da consciência. Ele introduziu sua obra “Lectures” (1863) afirmando que “A psicologia deve investigar aquilo que nós chamamos de experiência interna” 66 , e ele jamais abriu mão desse ponto de vista. Passados quase cinqüenta anos, na sua publicação final sobre psicologia geral, ele escreveu “a questão do sujeito em psicologia é toda a multiplicidade de conteúdo qualitativo existente na nossa experiência”.67 Portanto, método essencial de toda psicologia deve ser “unmittelbaren subjectiven Wahrnehmung der Bewusstseinsvorgänge oder Selbstbeobachtung” (percepção subjetiva imediata no processo de consciência ou introspecção).68  A introspecção, no entanto, precisava ser disciplinada pelo controle experimental e manejada com muito cuidado se o objetivo fosse a obtenção de resultados confiáveis. O objetivo dessa introspecção experimentalmente controlada era descobrir os elementos da consciência e suas leis de associação. Em sua última, e definitiva, obra Introduction to Psychology (Introdução à Psicologia), completada após as revisões finais do Grundzüge e do menor Grundriss (Compêndio científico),69 Wundt afirmou categoricamente , “Toda a tarefa da psicologia pode ser resumida em dois problemas: (1) Quais são os elementos da consciência? (2) Quais são as combinações possíveis entre esses elementos e quais as leis que regem essas mesmas combinações?” 70  É, portanto, ir longe demais ao afirmar, como um recente editor o fez, que “Wundt, ao contrário das interpretações de Titchener e Boring, rejeitou a tradição de atomismo individual e mental”.71 Para se certificar de que os elementos se fundiam e se combinavam de diversas maneiras, a tarefa do psicólogo era primeiramente analítica, e Wundt se dedicou a isso em um terceiro “Grudzüge” (de mais de seiscentas páginas) para uma consideração “von Element des Seelenlebens” 72  e os dois tipos básicos de elementos que ele considerou como sensação e sentimento. É, porém, incorreto descrever a psicologia de Wundt simplesmente como uma psicologia limitada, como Boring o fez, porque Wundt deu bastante espaço a processos volitivos. Mesmo tendo sido influenciado por Schopenhauer, ele manteve que “atividades do tipo volitivas são as que constroem todos os outros fenômenos psicológicos”.73 Do mesmo modo, ele não considerou a vontade como um elemento psíquico primário, preferiu considerá-la como “um processo afetivo”,74 reduzível, portanto, a sentimentos. Logo, a análise dos elementos foi certamente o fator proeminente na psicologia de Wundt. Porém, existiam ainda processos sintéticos e sínteses produzindo compostos. Esses podiam ser de dois tipos: fusões associativas e unidades aperceptivas, sendo que as fusões e as unidades podiam ser combinadas entre elas em várias proporções. Wundt não era, de acordo com os moldes britânicos, um associacionista enfático: as idéias eram processos, que associadas, mais do que separavam entidades psíquicas, as tornavam ligadas. Mais importante do que a associação, que era uma relação passiva, era o processo ativo da apercepção, o aspecto volitivo ordenado da mente, centrado em atos internos da volição ou da atenção.75

Claramente, na psicologia de Wundt, havia componentes das tradições Lockeanas e Leibnizianas. Historiadores da psicologia podem ter distorcido o ponto de vista de Wundt, dentro de limites aceitáveis, por ignorar características de Leibniz76; todavia a distorção é a mesma se forem ignorados os elementos empíricos. Grundzüge de Wundt apresentava não apenas um acúmulo detalhado do conhecimento comum sobre o cérebro, sistema nervoso e órgãos dos sentidos, como também uma revisão compreensiva da pesquisa empírica, a maior parte realizada em seu próprio laboratório; na psicologia dos sentidos; em medidas psicofísicas; na percepção do espaço; na sensibilidade em relação ao tempo; sentimentos; atenção e tempos de reação. Mesmo centrado na consciência, a principal parte dessa pesquisa foi realizada objetiva e meticulosamente e dentro da tradição das ciências naturais. A divisão, porém, permaneceu. Wundt obstinadamente insistiu que o psíquico e o físico eram domínios completamente distintos; e que as causas e as leis psíquicas eram totalmente diferentes das leis causais da física. Ele nunca reconciliou satisfatoriamente esses dois domínios. Ele falou sobre “a unidade psicofísica do indivíduo”, mas nunca explicou como, através de suas próprias premissas, tal unidade poderia ser alcançada. Algumas vezes ele parecia estar defendendo o paralelismo psicofísico,77 em outras, negando a existência de qualquer paralelismo significativo entre ordens essencialmente diferentes. O dualismo fundamental do seu ponto de vista encontrou expressão na sua divisão da psicologia em duas diferentes ciências, psicologia fisiológica e o que chamamos de “Volkerpsychologie” (Psicologia Cultural). Ele acreditava que as funções mais superiores e complexas da mente humana não poderiam ser examinadas experimentalmente com o método das ciências naturais, mas deveriam ser estudadas através das suas manifestações históricas na cultura, linguagem, mito e religião. A psicologia era tanto uma disciplina humanista quanto uma ciência natural. No sistema de Wundt não existia uma ponte real entre as duas.

As hesitações e a ambivalência de Wundt, sem dúvida, pesaram contra a extensa aceitação da sua psicologia, e enfraqueceram seu poder sobre seus alunos, já que suas hesitações eram um reconhecimento de problemas filosóficos subjacentes profundamente envolvidos no estudo da mente  problemas que permanecem até hoje e que ainda dão origem a “modelos humanos” conflitantes. Muitos poucos dos alunos de Wundt, no entanto, estavam preocupados com essas questões e, principalmente para os seus alunos americanos, o que interessava era o lado experimental e da ciência natural de Wundt. Quando eles voltaram para a América, encontravam-se influenciados por Wundt para fundarem laboratórios, mas os tópicos por eles pesquisados, os métodos por eles utilizados e a doutrina que eles vieram a se apoderar divergiam das de Wundt, e eles rapidamente passaram a ignorar as restrições feitas por Wundt à respeito da experimentação. Contudo, havia aspectos na psicologia de Wundt que permaneceram causando interesse. Seu princípio de “resultante criativa” foi o reconhecimento dos aspectos ativamente construtivos da mente e o lugar das inovações emergentes. Seu princípio da “heterogeneidade dos fins” (O fato de todas as ações propositais envolverem não só conseqüências intencionais como também não-intencionais.) implicava a impossibilidade de prever com detalhes as conseqüências das ações humanas. Alguns dos tópicos estudados por Wundt, mas negligenciados por seus sucessores, acabaram por retornar parcialmente. Porém, mais influente do que qualquer uma de suas idéias ou do que seu sistema como um todo, foi o fato do seu estabelecimento de um instituto de pesquisa experimental em psicologia. Isso foi realmente um grande exemplo da “heterogeneidade dos fins”, para conduzir as conseqüências muito mais extensivamente do que o próprio Wundt poderia sequer conceber ou realmente teria aprovado  o florescer da psicologia experimental.

 

V

O crescimento da psicologia experimental durante o século passado pode ser considerado excepcional. Não só tem se desenvolvido como uma disciplina experimental, aumentando seu escopo, refinando seus métodos e estabelecendo suas bases institucionais; mas também tem promovido o crescimento de uma de variedade de ramificações e aplicações. Tem se expandido geograficamente sobre maior parte do mundo civilizado 78 e tematicamente veio a abranger muitas áreas de investigação além do que Wundt havia confinado ao domínio experimental 79. Mesmo que qualquer dificuldade filosófica tenha permanecido, é inconcebível que a psicologia pudesse algum dia voltar a ser uma mera disciplina não-experimental. Meio século atrás, Stern declarou que “a visão que nós agora temos da mente humana é incomparavelmente mais rica do que o inadequado esquema do tempo de Hume e Herbart”. 80 Hoje, mesmo que tenha havido muitas rupturas, a visão é ainda mais rica. Julgando-se pelos frutos, a iniciativa de Wundt foi recompensada.

Nos vinte e cinco anos após o estabelecimento do laboratório de Leipzig, o cenário psicológico transformou-se rapidamente. Laboratórios foram fundados em diversas partes da Alemanha, Estados Unidos, França, Canadá, Bélgica, Holanda, Áustria, Grã-Bretanha, Argentina e Espanha. Jornais especializados seguiram os padrões Wundtianos de Philosophischen Studien: o American Journal of Psychology em 1887, o Zeitschrift für Psychologie und Physiologie der Sinnesorgane em 1890, o Psychological Review em 1894, L’Année Psychologique em 1895, o British Journal of Psychology e o Journal de Psychologie normal et pathologique em 1901, a Revista di Psicologia em 1905. Juntamente com os jornais, surgiram as sociedades de ensino: a American Psychological Association em 1892, a British Psychological Society e a Société Française de Psychologie em 1901, e a Deutsche Gesellschaft für Psychologie em 1904. O primeiro Congresso Internacional de Psicologia aconteceu em Paris, em 1889, e congressos similares, até maiores, têm sido realizados periodicamente desde então, sendo interrompidos apenas pelas Guerras Mundiais. No início do século XX, a psicologia não consistia mais em meditações desordenadas de filósofos; tornou-se um organizado e independente corpo de conhecimento com seus próprios métodos e com suas próprias bases institucionais.

Até a Primeira Guerra Mundial, o mundo que falava alemão permaneceu sendo o principal centro da nova psicologia.81 O próprio Wundt não se aposentou até os oitenta e cinco anos de idade em 1917. Nessa época, porém, sua predominância e muito da sua influência já havia começado a diminuir. Alguns dos psicólogos mais proeminentes na Alemanha não estiveram diretamente associados a Wundt e, mesmo aqueles que o foram, nem todos seguiram seus passos. Como um renomado psicólogo alemão falou “Wundt atraiu muitos alunos, mas ficou com apenas alguns”.82 Mesmo Külpe que foi primeiro aluno e em seguida assistente de Wundt, depois de dedicar seu próprio Outline of Psychology (Linhas gerais em Psicologia  1893) “Para o meu respeitado mestre, Wilhelm Wundt, sincero agradecimento e afeição”83 transferiu-se para Würzburg em 1894 e começou a se atualizar, realizando uma prolongada série de estudos introspectivos sobre processos de pensamentos de alta complexidade, que Wundt desaprovava veementemente.84 Ebbinghaus, Müller e Stumpf fizeram parte daqueles que não tinham nenhum tipo de associação com Wundt. Ebbinghaus (1850-1909), depois de fazer carreira em diversas universidades alemãs e estrangeiras, fixou-se em Berlim, em 1880, e desenvolveu seus famosos experimentos sobre memória85 que abriram um novo campo de experimentação, agora com uma nova dimensão. Em 1881, Müller sucedeu Lotze em sua cadeira em Göttingen e construiu um departamento experimental (especializado principalmente em psicofísica, percepção visual e memória) que antes da sua aposentadoria, em 1921, já havia se tornado rival do departamento de Leipzig. Stumpf (1848-1936), que dirigiu a cadeira de Berlin entre 1894 e 1921, contribuiu notavelmente para a psicologia da audição e para a teoria da música. No entanto, sua fama se deveu, primeiramente, a aceitação dada às idéias filosóficas de seu professor Brentano, que estudou para exercer o sacerdócio católico, e que reintroduziu as idéias aristotélicas e escolásticas na psicologia moderna; e, em segundo lugar, seu incentivo aos psicólogos da Gestalt, que dominaram a psicologia alemã nos anos 20. Durante à eclosão da Primeira Guerra Mundial, vários departamentos de psicologia experimental estavam florescendo na Alemanha e empurrando as pesquisas para além dos limites Wundtianos.

O desenvolvimento nos Estados Unidos foi ainda mais dramático. O ímpeto original de transformar a psicologia de uma disciplina filosófica para uma disciplina científica era Wunditiano. Com exceção de William James, a maioria dos líderes da primeira geração de psicólogos americanos foi treinada ou associada à Wundt - Stanley Hall, J. Mck. Cattell, Scripture, Angell, Baldwin, Titchener, Witmer, Warren, Stratton e Judd, mencionando apenas os mais importantes. O primeiro laboratório americano foi estabelecido por Stanley Hall na Universidade de John Hopkins em 1883. Em 1895 já haviam mais de duas dúzias de laboratórios de psicologia nos Estados Unidos. A princípio seus instrumentos eram basicamente Wundtianos e os primeiros manuais americanos de psicologia experimental, feitos por Standford (1894) e por Titchener (1901-5)86 eram moldados com base no “Gründzuge” de Wundt, tanto em relação ao método quanto a estrita área de cobertura. A psicologia americana foi, em seguida, responsável por renovar os padrões dentro das novas áreas de experimentação, do campo aplicado da psicologia, das diferenças comparativas e da psicologia do desenvolvimento; e por englobar novas maneiras de pensar. Com o advento do behaviorismo (1913), 87 a psicologia americana divergiu cada vez mais da Wundtiana e, após a Primeira Guerra Mundial, os Estados Unidos começaram a ameaçar a supremacia alemã no campo da psicologia.

Ainda mais significante do que a expansão geográfica da nova psicologia tem sido a sua gradual expansão temática que cobriu novas áreas de experimentação. Wundt acreditou piamente que o experimento poderia investigar somente aquelas áreas da mente “que são diretamente acessíveis a influências físicas ... seus órgãos dos sentidos e movimentos”.88 Portanto, sua psicologia experimental foi essencialmente uma  psicologia fisiológica, que lidava com processos perceptivos e sensoriais, atenção, psicofísica, tempo de reação e assim por diante. Com altos e baixos, durante o século passado, os psicólogos continuam estudando esses tópicos. Pesquisas sobre processos sensoriais e perceptivos sempre obtiveram o maior espaço nos textos padrões de psicologia experimental.89 Com a aplicação de novas técnicas e introdução de novos conceitos, a psicologia experimental tornou-se uma área importante e sofisticada de pesquisa. O estudo dos tempos de reação, que acabou diminuindo nos primeiros anos do século XX, recebeu vida nova com a aplicação da teoria da informação nos anos 50 e “é agora, novamente, o centro da psicologia experimental”.90 Similarmente, o tópico da atenção, que quase desapareceu da pesquisa psicológica na primeira metade do século XX, voltou a ser mais uma vez um assunto de muita importância seguindo o trabalho de Hebb, Broadbent, Sokolov e outros.91 Todos esses assuntos tradicionais foram estudados com uma enorme sofisticação, com melhores delineamentos estatísticos e experimentais, com equipamento avançado, que requeriam uma assistência técnica especializada e, às vezes, até um controle computadorizado assim como um entendimento bem mais completo da substrutura fisiológica dos processos comportamentais.

Houve um igual investimento na expansão da experimentação em novas áreas.92 Destas, talvez a aprendizagem tenha sido a mais importante. Começando com o aprendizado de Ebbinghaus de suas sílabas sem sentido, em 1880, foi no século XX que isso se tornou o foco principal do trabalho experimental, envolvendo tanto sujeitos humanos quanto animais e chegando até a ameaçar a tomar conta de todo o campo da psicologia. Nos anos 50, porém, o estudo central de processos cognitivos, iniciado por psicólogos de Würzburg nos primeiros anos do século XX, voltou a ser favorecido, em parte pelos estudos de Piaget sobre o desenvolvimento do pensamento infantil e em parte pelos trabalhos de Hebb, Bruner, Bartlett e outros, juntamente com o surgimento dos computadores e o nascimento da inteligência artificial. A psicologia cognitiva e sua área relacionada com a psicolingüística tornaram-se, atualmente, o maior assunto da pesquisa experimental. O que Wundt considerava como um assunto em total decadência dentro do alcance de Völkerpsychologie, a ser pesquisado não-experimentalmente, tem sido incorporado, ao menos parcialmente, no campo da psicologia experimental. Enquanto Wundt se preocupava diretamente apenas com as generalidades de uma mente humana, normal e adulta, empregando somente sujeitos treinados em seus experimentos; seus sucessores começaram a usar animais, crianças e casos patológicos em suas investigações, bem como passaram a submeter seus sujeitos a diferentes ambientes e tipos de estresse. Além disso, eles os estudaram experimentalmente e se interessaram tanto nas variações individuais como nas de grupo e no efeito das situações sociais. A psicologia experimental estendeu enormemente suas fronteiras. Existem ainda, obviamente, limites. A experimentação não está ainda preparada, e pode ser que nunca esteja, para abranger tanto a criatividade quanto a emoção humana. Existem ainda e talvez sempre existirão áreas da   psicologia que transcendem os domínios das ciências exatas. A experimentação, no entanto, não é a única fonte dos dados psicológicos. A psicologia, nos anos mais recentes, foi parcialmente influenciada pela medicina, ciências sociais e filosofia. Porém, antes de examinar essas influências, é preciso mencionar resumidamente alguns outros avanços científicos da psicologia.

 

VI

O principal componente da transmutação da psicologia de uma disciplina filosófica para uma científica, como já visto, foi o resultado da união entre a filosofia e a fisiologia, nas universidades alemãs da metade do século XIX. Houve, porém, outros componentes significativos  um francês e um inglês. O componente francês era muito ligado à medicina e enfatizava o valor da experimentação natural de patologias que traziam informações tanto de processos mentais normais, quanto anormais; assumindo que “a doença mental é, de fato, uma experimentação feita pela própria natureza”.93 Essa aproximação será estudada no próximo capítulo sobre influências médicas. O componente britânico foi derivado da teoria de Darwin e permitiu, por um lado, o pioneirismo do trabalho de Francis Galton e o estudo científico sobre diferenças individuais e, por outro, o desenvolvimento da psicologia comparativa e do estudo do comportamento animal. O primeiro impacto do trabalho de Galton foi no campo da psicologia diferencial e aplicada. O trabalho dos psicólogos comparatistas, no entanto, passou a influenciar a psicologia em geral, particularmente pelo trabalho de Lloyd Morgan.

Os movimentos iniciais que tinham como base uma psicologia científica fracassaram na Grã-Bretanha porque lhes faltou base experimental.94 Alexander Bain (1818-1903) esforçou-se para unir a psicologia às novas descobertas sobre a fisiologia do sistema nervoso e do cérebro. No entanto, nunca se preocupou em fazer trabalhos experimentais. Da mesma forma, Herbert Spencer (1820-1903) propôs uma psicologia da evolução, mas estava satisfeito com a exposição abstrata do seu ponto de vista associado com observações generalizadas. W. B. Carpenter (1813-1885) extraiu material da fisiologia e da medicina, mas não de pesquisas em laboratórios. Restou para o próprio Darwin e para psicólogos pós-Darwinianos, Spalding, Lubbock, Romanes e acima de todos Lloyd Morgan, introduzir a experimentação no estudo do comportamento animal e restou para os psicólogos americanos incorporar os resultados desse trabalho na  psicologia geral. A figura principal no desenvolvimento desse projeto foi Lloyd Morgan.

Lloyd Morgan (1852-1936) tem sido negligenciado na história da psicologia.95 Ele tem sido identificado por seu ‘cânone’ e algumas outras coisas. Na verdade, na década que se extende de 1890 a 1900, ele foi uma das figuras mais importantes e progressivas da psicologia e sua influência na revolução behaviorista que se seguiu foi considerável. Encorajado por Thomas Huxley, o ainda jovem Morgan abandonou a mineração e metalurgia pela biologia, e através do próprio Huxley ele teve o primeiro contato com estudos a respeito de comportamento animal. Depois de cinco anos lecionando na África do Sul, ele foi indicado, em 1884, para a cadeira de geologia e zoologia em Bristol, onde permaneceu até 1919. Seu trabalho mais importante em psicologia foi realizado em Bristol e publicado em quatro livros notáveis: Animal Life and Intelligence (1890), Introduction to Comparative Psychology (1894), Habit and Instincts (1896) e Animal Behavior (1900). Em meados da década de 1890, Morgan visitou os Estados Unidos fazendo palestras em Boston, Chicago e Nova Iorque. Suas palestras em Boston, em 1896, foram apreciadas por E. L. Thorndike, que foi muito influenciado por Morgan a iniciar seu estudo de aprendizagem animal.

As contribuições de Lloyd Morgan para a psicologia podem ser consideradas dentro de três tópicos: metodológico, conceitual e teórico. Suas contribuições metodológicas são as mais conhecidas e seu cânone foi reconhecido como um marco divisório, principalmente porque não é muito lembrado que Wundt havia proposto algo semelhante anteriormente.96 O cânone que Morgan formulou era algo como: “Em nenhum caso devemos interpretar uma ação como conseqüência do exercício de uma faculdade física mais elevada, quando podemos interpretá-la como exercício de uma faculdade que se localiza mais abaixo na escala psicológica”.97 A psicologia científica deveria, em outras palavras, buscar as explicações mais simples. Esse princípio deveria, portanto, funcionar também com dados obtidos em condições estritamente controladas. “Os problemas deverão ser resolvidos não através da observação de um grande número de casos, mas por observações experimentais cuidadosamente controladas”98 Também, como Thorpe já havia notado, Morgan deu prioridade à necessidade pela definição operacional e precisa dos termos e da réplica dos experimentos.

As contribuições conceituais de Lloyd Morgan têm sido muito menos lembradas. Ele é, na verdade, a principal fonte dos conceitos básicos da teoria behaviorista do aprendizado.100 Ao mesmo tempo, no seu reconhecimento do conceito de instinto, ele deu contribuições para aquilo que mais tarde foi chamado de etologia. Apesar de Morgan não ser behaviorista e sempre haver considerado a consciência, inclusive no nível animal, ele foi um dos maiores responsáveis pelo termo behaviour (comportamento) ter se tornado central em psicologia. Somente no início do século XX, este termo começou a ser utilizado como um termo específico de psicologia. Thorndike usou-o incidentalmente, em 1898, em sua monografia Animal Intelligence (Inteligência Animal).101 Porém, Lloyd Morgan em sua obra “Animal Behaviour” (Comportamento Animal  1900) usou pela primeira vez o termo sistematicamente como um conceito central em psicologia. “O termo em todos os casos indica e chama a atenção à reação aquilo que chamamos de comportamento em resposta a certas contingências e circunstâncias que o evocam”.102 No seu trabalho sobre aprendizagem animal, Lloyd Morgan escreve sobre “os efeitos condicionados pelo meio”103 alguns anos antes de Pavlov ter começado a trabalhar com reflexos condicionados; ele falou sobre o mecanismo básico de “tentativa e erro” antes de ter sido usado por Thorndike, e sobre “reforçamento” de respostas positivas e “inibição” de respostas negativas, antes mesmo desses conceitos serem inseridos no vocabulário do behaviorismo. Morgan também deu importância aos princípios homeostáticos quando ele notou que “a tendência de passagem para uma condição de equilíbrio mais estável acontece em toda gama de comportamento animal”.104 Assim, muitos dos conceitos básicos da teoria behaviorista do aprendizado são encontrados nos escritos de Lloyd Morgan e ele baseou grande parte de seus conceitos com o trabalho experimental conduzido, na sua maior parte, sob condições naturais, porém estritamente controladas. Morgan criticava a artificialidade dos labirintos de Thorndike, apesar de concordar com algumas de suas conclusões.

O campo da aprendizagem animal, no entanto, foi apenas um lado do trabalho de Morgan sobre o comportamento animal. Ele observou a existência de “duas escolas contrárias na psicologia ... os empiricistas, que são aptos a relacionar a gênese psicológica como conseqüência das importantes influências do ambiente ... e os apercepcionistas que insistem na importância central da síntese seletiva em psicologia”.105 O sistema de Lloyd Morgan abrangia as duas visões. O condicionamento do meio explicava alguns comportamentos, mas não todos. Trabalhando basicamente com pássaros, Lloyd Morgan notou, e confirmou experimentalmente, que muitos exemplos de comportamento instintivo estavam associados a estruturas inatas e à coordenação central.106 Como Thorpe observou, na sua apreciação crítica do trabalho de Morgan ‘a contribuição de Lloyd Morgan foi tão importante que garante o seu lugar como um dos fundadores tanto da psicologia comparativa como da etologia’107

Não podemos deixar de notificar algumas das contribuições teóricas de Lloyd Morgan, particularmente com respeito ao papel da consciência e da teoria da evolução emergente. Ele concebeu consciência como sendo essencialmente relacionada com ‘controle’. Comportamento sem a presença da consciência estava marcado pelo automatismo, por outro lado

o controle de atividades motoras envolve, e sempre deve envolver, a linha de curva, no curso em que se desenvolviam alguns centros, chamados centros de controle, cuja função é tanto para estimular ou inibir o centro de coordenação baixa do mecanismo automático. Associado com o centro de controle da linha de curva existem centros sensoriais de atividades funcionais que é consciente, ou está associada à consciência.”108

Segundo Morgan, a experiência consciente e seus produtos mentais eram constituídos de “constructos”; e ele definiu três níveis básicos desses constructos, que foram mais tarde chamados de perceptivo, aperceptivo e reflectivo.109 De acordo com seu cânone, ele considerou que não havia boas evidências de que os animais apresentassem o nível reflexivo. Porém, ele considerou que existia uma similaridade básica entre os constructos dos diferentes níveis, o que gerava expectativa, e “as atividades dos organismos são moldadas de acordo com essas expectativas”.110  Nesse sentido, a consciência entra no controle do comportamento. As várias faces do sistema teórico de Lloyd Morgan eram associadas com sua teoria da “evolução emergente”.111 Da qual ele não era o criador, mas certamente seu principal defensor. Essa era uma teoria que, numa visão ampla, evitava as dificuldades do dualismo, as simplificações do materialismo reducionista e as improbabilidades do idealismo.

O trabalho de Lloyd Morgan, que precisa ser melhor apreciado, contribuiu significativamente para o desenvolvimento da psicologia científica do século XX, suplementando e delineando a base do experimentalismo Wundtiano. Infelizmente, Morgan nunca conseguiu uma cadeira de psicologia comparada que estivesse unida ao experimentalismo estabelecido na Inglaterra. E foi deixado aos americanos a tarefa de unir os dois lados: o experimentalismo alemão e o trabalho comportamental de Morgan. Essa fusão pode ser vista na obra de William James, de 1890, Principles of Psychology.

 

VII



O papel de William James (1842-1910) no desenvolvimento da psicologia científica foi peculiar. Diferentemente de Fechner, Helmholtz, Wundt ou Lloyd Morgan ele não foi um cientista experimental. Na verdade, James precocemente admitiu possuir um temperamento que não era compatível com trabalhos de laboratório,112  e a isto acrescentava-se o desgosto por matemática e análises lógicas.113  Então, em alguns aspectos, ele era incapacitado para apreciar ou contribuir para o novo movimento em psicologia. Por outro lado, ele era um gênio intuitivo com interesses em várias áreas, com conhecimentos em medicina e ciências naturais e também influenciado por tendências literárias, artísticas e filosóficas de sua época. Em qualquer ciência há dois ingredientes principais  o conteúdo e a metodologia. James era fraco em metodologia, mas ele possuía um conhecimento intuitivo da riqueza e do alcance do potencial do conteúdo da psicologia, fato que ocorria com poucos psicólogos. Em sua visita à Alemanha, em 1868, ele se deu conta de que uma nova fase havia sido aberta no desenvolvimento da psicologia. “Me parece que talvez tenha chegado a hora”, escreveu em uma carta, “para a psicologia tornar-se uma ciência”,114 e também acreditava firmemente que tal  psicologia deveria ter suas raízes na biologia, apesar dele nunca haver consentido na redução da riqueza das experiências vividas para as formulações abstratas da ideologia científica determinística e mecanicista. Na psicologia, ele foi uma figura de transição, mas uma figura de transição de enorme importância, cujas idéias de longo alcance não podiam ser confinadas às preocupações e limitações dos primeiros experimentalistas. Logo, enquanto absorvia boa parte do que estava acontecendo a sua volta em psicologia, juntamente com aspectos do passado, sua incansável mente estava constantemente aberta para o futuro.

William James deve muito a sua atípica formação familiar e a sua peculiar educação.115 Sua família foi altamente privilegiada e dotada de amplos recursos em diversas áreas, como o avô de William, que emigrou da Irlanda para a América no final do século XVIII e acumulou uma das maiores fortunas de sua época. Isto possibilitou que a família de James viajasse exaustivamente, e no período de 1855 à 1860, a maior parte do tempo gasto viajando pela Europa, levou William e seu irmão igualmente talentoso Henry a estudarem na Inglaterra, França, Suíça e Alemanha. Conseqüentemente, William tornou-se fluente em francês e alemão, e desde jovem adquiriu conhecimentos continentais, assim como o inglês, filosofia e literatura. Isto foi da maior importância para ele quando, posteriormente, interessou-se por psicologia. Igualmente importante foi sua natureza psicológica, duplamente constituída pelo que Perry, seu biógrafo, denominou de seus traços ‘mórbido’ e ‘benigno’.116 No lado ‘mórbido’ sua neurastenia e instabilidade geraram simpatia pela ‘alma doente’ e suas manifestações psicopáticas. Ele não sofreu simplesmente de ‘insônia, desordens digestivas, problemas visuais, debilidade nas costas, e algumas vezes de depressão do espírito’,117 mas ocasionalmente de ‘um medo terrível de minha própria existência”.118 Por alguns anos da década de 1870, ele era incapaz de trabalhar, e mesmo depois de sua melhora, ele cansava-se facilmente. A compensatória característica ‘benigna’ inclui sua imensa vitalidade, sua sensibilidade refinada e sua relevante dádiva de sociabilidade. Ele tinha um grande interesse por pessoas, especialmente por pessoas incomuns e estranhas; ele poderia estabelecer uma afinidade com seres humanos com uma constituição completamente diferente da sua e possuía um entendimento natural da natureza humana. Como seu amigo filósofo C. S. Pierce observou, “ele era ainda melhor na prática do que na teoria da psicologia”.119 Como resultado parcial das suas dádivas de sociabilidade, tinha contato e, freqüentemente mantinha calorosas amizades, com muitas das principais figuras da psicologia e da filosofia de sua época. O grande contato com estas figuras gerou comentários tanto sobre as personalidades, quanto sobre os principais assuntos daquele tempo.120 Havia, portanto, um ótimo motivo que solucionava o fato de James nunca ter tido uma educação formal nem em psicologia nem em filosofia. Como ele próprio admitiu “a primeira aula de psicologia que eu ouvi foi a primeira que eu escrevi”121 A única aprendizagem formal que James teve foi em ciências biológicas e medicina, todavia ninguém pode ler muito a fundo seu Principles of Psychology (Princípios de Psicologia) sem reconhecer que ele teve, de fato, um domínio da literatura relevante de psicologia, fisiologia e filosofia, e os comentários anotados nas suas cópias destes clássicos da literatura indicam o cuidado e a minuciosidade que James teve ao lê-los.

James graduou-se em medicina em 1869.122 Isto foi cinco anos antes dele obter o seu primeiro cargo de professor de fisiologia, em Harvard. Nesse intervalo, ele experienciou um longo colapso neurótico, do qual ele conseguiu recuperar-se após ler os escritos do filósofo francês Renouvier, e aceitando sua estimulante doutrina do livre arbítrio. Após alguns anos de sua nomeação em Harvard, suas aulas foram basicamente de anatomia e fisiologia comparada dos vertebrados, mas logo começou a demonstrar interesse por psicologia fisiológica. Desenvolveu um curso de graduação sobre as relações entre fisiologia e psicologia, em 1875, e introduziu demonstrações experimentais no ano seguinte. Em 1878, o curso foi transferido para o departamento de filosofia e, em 1885, James foi nomeado professor de filosofia. Enquanto isso, em 1878, ele assinou um contrato com Holt, o editor, para escrever um compêndio de psicologia. Este foi o começo de Principles of Psychology, que surgiu, após muito esforço, doze anos depois, em 1890. Talvez este seja o mais conhecido e o mais lido de todos os compêndios de psicologia, e aproximadamente um século depois da primeira edição continua mantendo-se atualizado.123

O valor de Principles of Psychology está na combinação de James de um maciço saber, com uma proposição radical e questionadora, além de uma brilhante capacidade de exposição. As viagens de James pelo continente europeu deram-lhe em primeira mão conhecimento sobre o que estava se passando nos novos laboratórios da Alemanha e ele conheceu muitos dos principais vultos deste país, da Inglaterra e da França. Ele banhou-se nas obras científicas e filosóficas importantes, na maioria dos idiomas europeus. Porém, recusou a identificar-se com alguma escola de pensamento predominante. Foi igualmente crítico com o método sensacionalista-associacionista-materialista dos empiricistas e com a suposição religiosa dos idealistas. A hipótese da alma, ele manteve em um de seus mais conhecidos aforismas, “nada explica e nada garante”.124 Por outro lado, considerou o associacionismo como “contaminado com um grande erro”,125  que era o atomismo mental. Sua psicologia consistia em duas bases principais: primeiramente a biologia e, em segundo lugar, o que ele definiu como ‘empiricismo radical’, pelo qual ele determinava o reconhecimento de toda riqueza e variedade da experiência. O fundamental “Weltanschauung”, ele diz, é “o máximo da riqueza tanto subjetiva quanto objetiva”.126 Em primeiro lugar, entretanto, a biologia: “o caminho para um entendimento mais profundo da seqüência de nossas idéias”, ele afirmou, “está na rota da fisiologia cerebral”.127 A mais importante doutrina da fisiologia cerebral foi a doutrina do ato reflexo, que dava a entender que o resultado do funcionamento dos nervos e do cérebro era uma descarga motora. Em outras palavras “percepção e pensamento estão lá apenas devido ao comportamento”128 Isso foi de extrema importância para a mudança da análise da consciência para o estudo do comportamento, e James reservou uma porção razoável de seu compêndio para descrever os vários tipos de ação: instintiva, habitual e voluntária. Ele foi mais longe, explicando eventos mentais em termos fisiológicos; assim, a memória foi explicada pelo “caminho do cérebro”129 e na bem conhecida teoria da emoção, denominada teoria de James-Lange (em função da promulgação quase simultânea das idéias de James e do fisiologista dinamarquês Lange), as alterações fisiológicas eram prioritárias à emoção experienciada.130

Apesar da sua ênfase na ação, no comportamento e nos aspectos fisiológicos da mente, James nunca se tornou, e jamais poderia haver se tornado um behaviorista. Ele acreditava em estruturas internas  “a mente é preenchida com relações necessárias e eternas”.131 Ele acreditava no livre arbítrio, o máximo poder de decisão, a ‘ordenação’ da vontade,132 bem como na habilidade individual para superar desafios;133 e na consciência, não como uma entidade, mas como uma função orgânica “um órgão adicionado para dirigir um sistema nervoso muito complexo para regular a si mesmo”.134 Assim, observações introspectivas continuavam para ele como um método primordial,135  e foi através da introspecção que ele chegou em uma das suas características mais típicas, a do “fluxo de pensamento”.136 A idéia de um movimento contínuo e definitivo, o qual poderia ser distinguido em partes nítidas “substantivas” e em partes mais imprecisas, “transitivas”.137  James enfatizou a “reafirmação do impreciso para o valor do mesmo na vida mental” 138 e a importância dos detalhes da consciência. E achava duvidoso que o self fosse apenas o que ele ouvia na introspecção, e que “cada pensamento é parte da consciência pessoal”.139 Mas acreditava que o self era algo mais complexo, havia “tantos self sociais, quanto há diferentes grupos de pessoas cujas opiniões ele se importa”,140 e acima disso há um elemento ativo, um self espiritual “com o qual nós temos direto conhecimento físico”.141

Isso foi útil também para outras áreas, além da psicologia experimental dos laboratórios alemães; e certamente a atitude de James para esse experimentalismo alemão foi claramente ambivalente. Inicialmente ele estava intensamente interessado nele, chegando a visitar os importantes Helmholtz e Wundt. Ele começou com demonstrações experimentais mesmo antes de Wundt criar o Instituto de Leipzig, construiu um laboratório de primeira categoria em Harvard142  e, quando não estava mais em condições de dirigi-lo, trouxe um experimentalista alemão conhecido, Hugo Münsterberg para realizar a tarefa. Logo após esse fato, ele tornou-se profundamente desiludido com os resultados dos experimentos. Em 1899, ele escreveu em uma carta para Stumpf, “o pensamento de experimentações psicofísicas e os instrumentos, assim como as fórmulas algébricas para psicologia me enchem de horror”.143 Acreditava que “o resultado psicológico apropriado (para a psicofísica de Fechner) era justamente nada”,144 e como para Wundt, ele desprezou suas pretensões e descreveu-o como “um Napoleão sem genialidade e sem idéias centrais”.145 Na conclusão de seu Briefer Course” (Breve curso - 1892) ele escreveu,

Quando, então, nós falamos de psicologia como uma ciência natural nós não devemos supor que signifique que está solidificada sobre um terreno firme, significa justamente o contrário; significa que a  psicologia é particularmente frágil, e que a efemeridade da crítica metafísica torna-se evidente a cada instante, uma   psicologia cujas suposições elementares e dados devem ser reconsiderados em conexões mais amplas e transportadas para outros termos ... Isto não é ciência, é apenas a esperança de uma ciência.146

Isto não significa que James tivesse abandonado a esperança; isto significa que “as suposições da ciência natural que os psicólogos adotaram deveriam ser consideradas como provisórias e reversíveis”.147 O futuro está assentado em novas idéias e em novos dados, e James estava sempre procurando essas idéias e esses dados. Ele tentava encontrá-los especialmente no campo da psicologia anormal, na pesquisa física e nas proezas paranormais. No fim de sua vida escreveu:

As concepções clínicas, embora mais imprecisas que as analíticas, são certamente as mais adequadas, dão uma imagem concreta da maneira que a mente funciona e têm importâncias práticas mais urgentes. Então, a “atitude médica”, a “psicologia funcional”,  é a área que mais merece valor nos estudos.148

Ele expressou cedo a opinião que a descoberta, por volta de 1880, da direção das atividades inconscientes em certas situações era “o passo mais importante da psicologia”,149 e disse para Stumpf que acreditava que as pesquisas de Janet em histeria eram mais dignas de valor do que as mensurações de laboratório.150 Em 1896, comentou sobre a possibilidade da utilização das descobertas Freudianas no alívio das patologias histéricas,151 e após assistir, em 1909, na Clark University, uma conferência sobre psicanálise, na qual Freud formou seu Five Lectures upon Psycho-Analysis (Cinco Lições de Psicanálise), James comentou,

Eu espero que Freud e seus alunos promovam ao máximo suas idéias, a fim de podermos aprender o que elas são. Não podem deixar de iluminar a natureza humana, mas confesso que ele me deixou a impressão de um homem obcecado com idéias fixas. Não posso fazer nada de útil para mim com sua teoria dos sonhos, e obviamente, o “simbolismo” é o método mais perigoso.152



Há algum tempo atrás, esse mesmo James utilizou-se dos estudos de caso em seu Principles of Psychology e isto é o que parcialmente tornou o livro de tanto interesse humano. Suas conferências Gifford no Varietes of Religious Experience (Variedades de Experiências Religiosas  1902) têm sido descritas como estudos em  psicologia clínica, tratando duplamente das manifestações patológicas da “alma doente” e do “self dividido”, do fenômeno da conversão religiosa, e da “enorme diversidade das vidas espirituais que os diferentes homens têm”.153

Em tudo isso James estava olhando adiante do fechado mundo dos laboratórios do período de transição entre o século XIX para o século XX e ao que está relacionado com o mesmo  o impacto das novas idéias vindas da medicina e das ciências sociais, a ascensão da psicologia aplicada e diferencial, e as novas filosofias. O interesse dominante nas duas últimas décadas na vida de James foi filosófico.154 Ele foi atípico entre outros filósofos ao preferir o desordenado à ordem, as heresias às ortodoxias, a verdade dos resultados práticos à verdade abstrata e especulativa. “Realidade, vida, concretude, experiência, imediaticidade, use o termo que quiseres, exceda sua lógica, inunde e envolva isso”.155 Psicólogos não têm prestado atenção na mensagem de James, mas ele não apenas fez a psicologia parecer um tema interessante, como também preparou o caminho para outros acontecimentos.


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