Incêndio no inferno



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Encontro05.07.2018
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Incêndio no inferno
Alissa já ultrapassara todos os limites para aquela rodovia. Seu pé no acelerador parecia pesar mais que alguns quilos de chumbo. Os cabelos negros voavam por seu rosto suado e sua maquiagem, agora derretida, fazia manchas escuras embaixo dos olhos vidrados.

No banco ao lado, Abigail Gardner rezava um Pai Nosso desajeitado, enquanto roía as unhas pintadas de vermelho. Aquela não era uma das melhores situações do mundo. Alissa nunca fora grande coisa como motorista, e sob aquelas circunstâncias? Pior ainda.

O carro cheirava a cigarro e morangos podres. Na pista contrária, caminhões e outros veículos passavam como se estivessem na velocidade da luz, e, na mente da motorista assustada, flashbacks do drama vivido há poucos minutos. As garotas seguiam em fuga.

A festa estava agitada, mas a noite parecia tranquila. Jovens universitários por todos os cantos, perambulando próximos à mesa de petiscos. A casa afastada parecia o lugar perfeito para a comemoração. No centro, uma residência enorme, com paredes bege e detalhes em vermelho. Uma linda sacada, e atrás da porta de madeira escura, um amplo salão, cheio de decorações e várias mesas.

Do lado de fora, a alguns metros da residência, havia um pequeno casebre, com paredes de madeira e teto de palha, o tipo rústico. A porta estava fechada, mas alguma luz brilhava pela janela minúscula. Pessoas cantavam em volta de uma fogueira enquanto outras dançavam numa clareira próxima. Assim que chegaram, foram convidadas a retirar os sapatos para se sentirem “o mais conectadas possível com a natureza.” O chão estava morno e a grama era macia, a terra vermelha espalhada pelo solo causava uma sensação engraçada nos pés.

Era o aniversário de 21 anos de Jade Aleandro, uma amiga de Alissa da faculdade. Tudo corria como o esperado e às quinze para meia noite, os convidados se dirigiram ao salão central para cantar os parabéns. Abigail, empolgada, correu com seu vestido esvoaçante para o local indicado, deixando Alissa para trás.

Ela se levantou e caminhava em direção à casa quando ouviu seu nome ser chamado. Parou para escutar de onde vinha o som, e percebeu que saía do velho casebre. Foi até lá calmamente e abriu a porta. Se deparou com uma cena comum às pessoas que ali se encontravam. Evan, Lola, Lílian, Samantha e Carlos, sentados em um sofá velho, com os pés escorados em um tapete azul empoeirado, enquanto tragavam tranquilamente um cigarro de maconha. Esses cinco eram inseparáveis, ali havia um sistema de hierarquia. Samantha a grande abelha rainha, e os outros, seus zangões trabalhadores. Sustentando suas farras com tráfico de drogas, garotos maus, mas que ainda dependiam do sustento familiar.

Eles ofereceram-na um trago, mas recusou educadamente. Carlos se levantou, com passadas longas e silenciosas foi até a porta. Olhou-a nos olhos e acariciou sua pele do rosto com os dedos trêmulos. O toque frio a assustou, mas não fez com que recuasse. A beleza contida nos traços magros do garoto prendeu sua atenção como um inseto à lamparina. Ele colocou um cigarro aceso em sua mão, só então ela se afastou, saiu do lugar e fechou a porta atrás de si. Baixou o olhar para os dedos delgados, como se não pensasse. Jogou o cigarro por cima do ombro. Ele voou, pleno e silencioso.

Em poucos segundos ela já estava a alguns metros dali. Um odor de fumaça invadiu suas narinas, o crepitar das chamas estalava em seus ouvidos e um calor estranho tomava seu corpo. Quando se virou, Alissa se deparou com o casebre incendiado, todo tomado pelo fogo. Pessoas atraídas pela fonte luminosa vinham em bandos da casa, gritando. Enquanto isso, nenhum sinal dos que estavam lá dentro. A noite que antes era tranquila havia se transformado em um caos completo.

Alissa estava assustada, deu um pulo para trás, acabou por tropeçar em algumas pedras e caiu sentada no chão. Seu vestido azul claro ficou manchado pela terra vermelha e um lado se rasgou, da coxa até a bainha. Todos estavam apavorados. Alguém havia ligado para a polícia. Um círculo de fogo se formava em volta da casinha, não permitindo que fossem ao socorro dos que estavam lá dentro.

Ninguém a tinha visto jogar o cigarro, estavam todos concentrados no saguão da casa principal quando se dera o ocorrido. Ela se levantou e avistou Abigail correndo em sua direção com um copo de bebida na mão. Agarrou seu pulso e puxou com força. Seus cabelos cheiravam fumaça misturada a álcool. Elas foram em direção ao carro, uma sendo arrastada, o mais depressa possível. Abigail sem nada entender apenas assentia. Alissa tinha as mãos trêmulas, os pés descalços estavam doloridos pela corrida nas pedras, o vestido rasgado a deixava com um aspecto ainda mais medonho. Ligou o carro e se dirigiu à estrada. O pé no acelerador, as lágrimas rolando no rosto, e na mente, a lembrança contínua que retratava sua culpa.

Abigail parou sua oração, o único anjo que ela conseguia sentir em sua presença era o da Morte. Começou a gritar, queria sair dali naquele instante. Alissa não hesitou em obedecer seu pedido. Parou em um posto qualquer, destrancou as portas, a menina saiu cambaleando e murmurando coisas sem sentido. Deu a volta no carro e encostou-se à janela do motorista. Inclinou a cabeça, uma única lágrima solitária caiu de seu olho esquerdo. E como se estivesse de despedindo pela última vez de sua companheira, beijou a testa da amiga e se foi.

Ela voltou à estrada e agora dirigia sem rumo, apenas para longe, para fugir. Fugir dos pensamentos, das consequências. A velocidade só aumentava, e o carro cantava pneus pela rodovia. Na noite escura, as luzes dos faróis deixavam tudo ainda mais confuso. Acabara de assassinar acidentalmente cinco colegas da universidade. Um conflito interno a açoitava. Sobre sua falta de atenção e seu instinto fugitivo.

As mãos suadas pelo nervosismo deslizaram pelo volante. O veículo tomou outra direção. Tudo estava acontecendo muito rápido, e ao mesmo tempo, em câmera lenta. Um caminhão vinha em sua direção, suas luzes ofuscavam a visão da garota, uma buzina ensurdecedora invadia seus ouvidos. E de seus últimos pensamentos sobrou apenas o escuro silêncio da morte.

Alissa abriu os olhos, não sabia onde estava. Olhou ao redor e gritou. Estava em chamas. Sua pele pegava fogo. À sua volta, outros cinco corpos. Estes estavam queimados, deformados, envoltos em uma aura negra que parecia querer sugar seus olhos e devorar seu rosto. Ela teve medo. Eles pediam socorro e agarravam seus calcanhares. Paredes de madeira ressecada se levantam à sua volta, por elas subiam seres escuros, do tamanho de lobos. O chão coberto por um tapete azul empoeirado. O sofá velho jogado em um canto, a janela minúscula nada revelava do exterior, apenas refletia o terror que se passava ali dentro.

Ela se deu conta tarde demais. Eles puxavam seus cabelos e gritavam por socorro. Mas seus gritos não eram os únicos, por toda a casa entoavam lamúrias eternas, sons que arrepiavam e causavam náuseas. Eles imploravam um gole de água, se ajoelhavam e enquanto mordiam suas pernas, arrancavam sua pele, choravam por um último suspiro de ar puro. Ela sentia dor física, psicológica e emocional. Seu estômago revirava, seus olhos pareciam querer pular para fora das órbitas, sangue lhe saía pelos ouvidos e nariz. Uma tosse interminável e seca, devido à fumaça quente que invadia seus pulmões. Aquele era seu inferno. Pagaria eternamente por um erro que nem tivera culpa. Ou tivera? Afinal, a quem cabia definir tais punições?

Alissa não sabia ao certo quanto tempo havia se passado, mas em um instante, reuniu todas suas forças. Em um movimento rápido, conseguiu se libertar dos seres e correr em direção à porta. Segurou a maçaneta, estava quente como brasa. Estava ciente de que a porta não se abriria. Mas, repentinamente, ela se escancarou e uma lufada de ar quente, com cheiro de cigarro e morangos podres invadiu suas narinas. O pouco ar que chegava aos seus pulmões queimava seu nariz e garganta. Seus olhos pareciam querer explodir devido à pressão. Até seus dentes pareciam derreter. Seus companheiros a seguiram enquanto dava o primeiro passo para fora. No jardim não havia fogueira e nem a grande casa. A grama era negra como carvão e pedras pontiagudas furavam seus pés. Lagartos escamosos tentavam morde-la.

Acima de suas cabeças se estendia um grande céu vermelho, tempestuoso e violento. Chovia fogo e ácido. Mais à frente, um grande espelho erguido por cabos flamejantes refletia a imagem dos seis mortos. Estavam tão horripilantes que até o pior dos seres se assustaria com sua aparência. Seus olhos eram cor de sangue. Os corpos cobertos por um fogo intenso. Foram momentos intermináveis de agonia. Até que tudo se silenciou.

Um clarão, piscar lento dos olhos. A cabeça que pendia para a esquerda, a boca levemente aberta. O cheiro de mofo da cadeira verde escuro. O delegado Connor exigindo esclarecimentos. Como fora parar ali? Essa confissão tão cheia de culpa era realmente verdadeira?

Uma mesa de madeira escura separava Alissa de seu interrogador. Ela não se lembrava de como fora parar ali. Contava e recontava a história do casebre em chamas. Os corpos chamuscados lhe pedindo água. Os seres agarrando suas pernas, a grama negra, o acidente de carro. Implorava que acreditasse em suas palavras.

O delegado havia conferido, realmente a triste notícia de cinco jovens mortos em um incêndio corria em jornais locais. Mas a garota eufórica estava a tantos quilômetros do local do crime e mesmo que sua aparência fizesse jus ao que contava, quem seria louco para acreditar em tais delírios?

Revistada e interrogada, Alissa ficou sob custódia. Sem sinal do suposto carro do acidente. Se passaram três dias. Três noites de pesadelos com o inferno. Gritos vindos de dentro da cela. A garota atormentava a todos na delegacia com seu próprio tormento. Enquanto isso, do outro lado da cidade, o veredito. Acidentalmente, uma bituca de cigarro mal apagada começara o fogo. Connor dá essa notícia para a garota. Ela chora e grita sua suposta verdade para que todos escutem, ela jogou o cigarro!

O caso foi fechado, não haviam suspeitos. Ao ser liberta, não estando ciente de suas faculdades mentais. Foi encaminhada à um hospital psiquiátrico, a família foi contatada. A mãe que morava no exterior sequer retornou às ligações. O pai, casado e com outros quatro filhos pequenos, autorizou a entrada de Alissa em uma clínica de “repouso”.

Cada manhã naquele lugar com paredes brancas e cheiro de naftalina era uma tortura. O dia passava lento, o olhar concentrado no teto com infiltrações. Mas quando a noite ia chegando, o pior acontecia. O quarto se fechava como uma caixa ao seu redor. A temperatura subia aos 50 graus, os vultos dos cinco colegas queimados andando de um lado ao outro, sem nenhum ritmo. Havia fumaça constante e um chama brilhante e vívida sempre queimando tudo.



A manhã retornava, sedativos, teto branco, tarde. E então começava um novo incêndio naquele inferno.
Coraline

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