I genética e psicologia



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Unidade I. GENÉTICA E PSICOLOGIA

UM POUCO DE HISTÓRIA

Os filósofos gregos já demonstravam vivo interesse em explicar as semelhanças entre as pessoas da mesma família. Hipócrates (460-370 a. C.), o pai da Medicina, chamou a atenção para a repetição de características como o estrabismo e a calvície em certos grupos familiares. Ele observou também que certas enfermidades, como a epilepsia e a catarata, ocorriam em determinadas famílias e não em outras. Algumas síndromes já eram reconhecidas pelos gregos, assim como a idéia de que a constituição física está relacionada à imunidade ou susceptibilidade a certas doenças.

Entretanto, ao longo dos séculos, essas concepções gregas perderam-se e só foram reaparecer nos tempos modernos. Pierre Maupertuis, um biologista do século XVIII, foi o primeiro a reavivar o interesse pela genética humana. Coletou pedigrees de famílias nas quais ocorriam polidactilia e albinismo e analisou os resultados, aplicando a teoria das probabilidades. Entretanto, como os requisitos básicos do conhecimento sobre a genética não estavam ainda estabelecidos, o significado de seus estudos não teve grande repercussão.

Nos últimos anos do século XIX, Sir Francis Galton utilizou recursos estatísticos sofisticados em seus estudos sobre a herança das características humanas, e dedicou sua atenção especialmente às implicações sociais da genética humana. Apesar disso, a genética humana desenvolveu-se muito lentamente, até a descoberta da herança mendeliana, quando se constatou que os princípios de Mendel também se aplicavam aos seres humanos.

Na primeira década deste século, desenvolveu-se um interesse considerável pela genética humana. Observou-se que muitas características eram mais freqüentes em certas famílias do que na população geral. Algumas delas foram inicialmente explicadas em termos mendelianos simples. A imbecilidade, por exemplo, foi considerada uma entidade única e interpretada com base na herança de um único par de genes. Hoje sabemos que apenas umas poucas condições causadoras de imbecilidade (hoje denominada deficiência mental)1 seguem esse padrão, enquanto a maior parte dos casos de deficiência mental são genética e ambientalmente complexos.

Análises críticas indicaram que muitas das primeiras aproximações sobre os caracteres humanos eram demasiado simplistas. Depois da primeira onda de interesse, no início de 1900, os estudos humanos começaram a rarear, pelo fato de serem muito imprecisos. Era mais fácil e produtivo aplicar os métodos experimentais a animais e plantas. Na avaliação dos princípios genéticos básicos, os cruzamentos controlados entre organismos experimentais tornaram-se preferidos aos incertos estudos de seres humanos.

Felizmente, os resultados de experimentos com organismos mais adequados às abordagens experimentais demonstraram uma aparente aplicabilidade universal dos princípios básicos da genética, e assim, indiretamente, favoreceram a genética humana.
O SER HUMANO COMO OBJETO DE ESTUDO

Muitos tipos de experimentos não podem ser realizados no homem, e, mesmo quando os experimentos são possíveis, raramente fornecem dados objetivos. Idealmente, as investigações genéticas mantêm indivíduos padronizados num meio controlado. O ser humano está longe de ser genotipicamente padronizado, e, na maioria das vezes, ele mesmo regula o seu ambiente. Circunstâncias no lar ou na escola, o estado nutricional e muitos outros fatores influenciam o desenvolvimento de uma criança. Por isso, é difícil encontrar, uma condição na sociedade humana em que haja a possibilidade ideal de coleta de dados adequados aos estudos experimentais em genética.

Gêmeos idênticos e outros tipos de nascimentos múltiplos são as únicas situações que se aproximam de um padrão genotípico. Porém, os gêmeos são raros, e em geral, os membros dos pares ou grupos são educados no mesmo lar, ficando assim sujeitos às mesmas condições ambientais. Só quando os gêmeos idênticos são separados precocemente e experimentam situações ambientais diferentes, é possível comparar os efeitos de ambientes desiguais em genótipos similares.

O problema da genética humana complica-se ainda mais devido ao longo período (em média uns 30 anos) que divide as gerações. O tempo de atividade dos investigadores não é maior que o de seu material de estudo. Apenas recentemente foram desenvolvidos métodos que permitem a ligação de dados estatisticamente significativos de uma ou duas gerações.

Por outro lado, famílias grandes são mais adequadas para os estudos genéticos, e mesmo as maiores famílias humanas são pequenas em relação ao tamanho necessário para estabelecer proporções genéticas e fazer análises estatísticas ortodoxas. Entretanto, métodos estatísticos novos permitem analisar dados provenientes de famílias pequenas.

HEREDITARIEDADE E COMPORTAMENTO

As características psicológicas são herdadas? Você com certeza já ouviu, e talvez até tenha utilizado expressões como: ‘herdou o temperamento do pai’, ou ‘tem a teimosia da avó’, ou ainda ‘tá no sangue’. Entretanto, embora ninguém questione a influência hereditária na determinação das características físicas, como a cor dos olhos ou o formato do nariz, há uma grande resistência em aceitar um componente genético para a personalidade, a inteligência ou as emoções.

Ninguém gosta da idéia de ser pré-programado geneticamente - ela faz com que nos sintamos como robôs… onde fica nosso livre-arbítrio, a sensação de que podemos determinar o rumo de nossas vidas? Essa questão é fundamental porque envolve a própria natureza humana: como fica o ideal igualitário? Será que realmente todos os homens nascem iguais ?

Depende de como entendemos isso: a afirmação pode significar que todos iniciamos a vida com o mesmo potencial, ou seja, que ‘qualquer um pode fazer qualquer coisa, desde que se lhe ofereçam as oportunidades adequadas’. Essa interpretação, de tanto apelo político e humanitário, é particularmente atraente pelo otimismo de suas implicações, que prometem ao menos a possibilidade de uma utópica perfeição final. Entretanto, o fato é que as pessoas nascem diferentes - cada qual singularmente única.

Evidentemente, a questão está no significado que se atribui à palavra ‘iguais’. Se estivermos falando em direitos iguais perante a lei, ou em igualdade perante Deus, haverá relativamente pouca discordância.

O fato de as pessoas não nascerem todas iguais, no sentido de serem igualmente capazes de atingir os mesmos objetivos, certamente não é posto em dúvida, especialmente quando esses objetivos podem ser afetados por deficiências observáveis, devidas ao físico ou aos órgãos sensoriais. O anão jamais se tornará um campeão de salto em distância, da mesma forma que, não é provável a um deficiente visual distinguir-se em corridas de esqui com obstáculos.

Porém, quando se trata de aptidões menos observáveis diretamente, nas quais as pessoas em questão não se mostram claramente deficientes, tendemos a nos tornar menos receptivos à idéia das diferenças genéticas. É o que acontece, por exemplo, em relação à inteligência.

Uma questão fundamental no estudo da relação entre os genes e o comportamento é se a hereditariedade afeta diretamente o comportamento ou apenas define o estado no qual as estruturas comportamentais podem ser moldadas por fatores do ambiente. Embora biólogos e psicólogos já tenham encarado esse assunto de maneiras opostas, atualmente ambos reconhecem que tanto a hereditariedade quanto o ambiente exercem um papel de extrema relevância em praticamente todos os comportamentos humanos. Os fatores ambientais estão entrelaçados aos mecanismos de hereditariedade em todos os pontos do processo de desenvolvimento. O problema é reconhecer o papel de cada um e avaliar sua importância relativa em situações específicas.

O tema desperta toda essa resistência em função de dois aspectos básicos: por um lado, nossa espécie é a que apresenta maior capacidade de aprender e um comportamento incrivelmente plástico. Por outro lado, temos, em geral, uma idéia equivocada sobre o significado da influência genética. Vamos discutir separadamente cada um desses aspectos.
A PLASTICIDADE DO COMPORTAMENTO HUMANO

Se, por milagre, você se transformasse num pintinho, seu mundo seria muito diferente. Gerado numa chocadeira, isto é, numa estufa de temperatura e umidade reguladas (como acontece com a maioria dos pintinhos hoje em dia), mesmo sem uma galinha-mãe para guiar seus passos, você executaria vários atos essenciais à sua sobrevivência, sem aprendê-los com ninguém. Sua primeira façanha seria quebrar a casca do ovo e libertar-se dela, bicando-a por dentro, embora seu corpo estivesse todo empacotado, quase sem poder se mexer. Quem ensinou você a bicar a casca?

Em sua percepção do ambiente dominam imagens visuais próximas, certos sons e uma delicada sensibilidade às variações térmicas. Você emite dois tipos de pios: um suave, que significa conforto ( "a temperatura está boa, estou contente") e outro estridente ("socorro, estou com frio!"). Quem ensinou você a piar assim? Desde os primeiros passos, você bica grãozinhos. De repente, engole um: sua primeira refeição. Se há água por perto, você acaba mergulhando nela o bico. Sensação nova, que desencadeia um comportamento complexo: você prende um pouco de água na boca, levanta bem a cabeça e, com o bico semi-aberto, mexe repetidamente a língua, fazendo a água escorrer goela abaixo. Quem ensinou você a beber água assim?

Na verdade, os filhotes de cada espécie de animal vêm ao mundo dotados de certos comportamentos, da mesma forma como vêm com olhos ou patas. Seu sistema nervoso foi construído durante o período embrionário de tal modo que ele já é capaz de responder a certos estímulos automaticamente, da primeira vez em que é exposto a eles. Não há dúvida que esses instintos são comandados por genes específicos da espécie, pois diferem de uma espécie para outra, mas não entre os indivíduos da mesma espécie.

Um pombinho novo, ainda um tanto mole, de repente empina-se sobre as patas, ficando quase vertical, enfia o bico inteiro dentro da boca da mãe (ou do pai), e engole avidamente o que ela regurgita do papo para ele. Mãe e filho se coordenam para agir harmoniosamente, por meio de sinais, dados principalmente pelos movimentos das asas.

Como, em geral, nascem dois filhotes por ninhada, ficam ambos, ao mesmo tempo, dando estocadas com o bico na goela da mãe, um de cada lado da boca, em conquista competitiva do alimento.

Por que o pinto começa beliscando tudo e o pombo enfiando o bico na boca da mãe? Eles têm genes diferentes, que se acumularam ao longo de linhas divergentes da evolução, sob o comando da seleção natural.

Todos os pombos bebem água do mesmo jeito, sorvendo-a com o bico baixado, mergulhado, coisa que nenhuma galinha sabe fazer. Os cachorrinhos bebem o leite de um pires por um terceiro método, que você deve conhecer bem.

Esses comportamentos instintivos, indispensáveis à sobrevivência, não são aprendidos, nem resultam de decisões conscientes, do tipo ‘vou agir desta maneira para obter tal resultado’. O ato instintivo é uma resposta pré-programada a um sinal vindo do ambiente, como a sensação de água no bico, que faz o pintinho erguer a cabeça para beber. É importante salientar que alguns instintos aperfeiçoam-se ligeiramente com o uso, e alguns podem até se redirecionar frente a circunstâncias novas do ambiente. Exemplo típico é o canto de muitos pássaros que, embora surja mesmo quando o animal vive isolado, aperfeiçoa-se com o convívio de outros animais da mesma espécie.

Em alguns casos, a programação genética simplesmente permite que cada animal apresente capacidades de aprendizagem específica em certos períodos de desenvolvimento. Em outros casos, o ambiente no qual um animal atinge a maturidade pode afetar drasticamente certos aspectos do comportamento adulto. H.F. Harlow e seus assistentes mostraram que macacas Rhesus separadas das mães ao nascer e impedidas de ter interação com outros macacos apresentavam deficiência de padrões básicos de comportamento maternal, normas sociais e atividades sexuais. Novamente as características estruturais e fisiológicas que fornecem uma moldura tangível para esses padrões de comportamento devem obedecer aos padrões de DNA do organismo, mas um componente importante do próprio comportamento deve ser aprendido através de contato com o ambiente.


Basicamente, portanto, os âmbitos de modificação é que são herdados, sendo a segregação dos genes e as forças da seleção natural responsáveis por diferenças individuais observáveis nos padrões de comportamento em uma determinada população.
Antigamente, se fazia uma distinção rígida entre natureza e criação. Uma percepção melhor dos mecanismo realmente envolvidos mostrou que todas as características se desenvolvem dentro de limites estabelecidos pelo material genético sob influência do meio ambiente. Tanto a hereditariedade quanto o ambiente estão envolvidos no desenvolvimento de qualquer característica, mas as variações entre indivíduos podem depender mais de um fator que de outro.

O automatismo dos instintos dos animais surpreende-nos porque nós agimos principalmente por meio de atos inteligentes, planejados. Entretanto, isto não quer dizer que sejamos desprovidos de instintos. Alguns deles, bem típicos e automáticos, fazem parte do chamado ‘repertório’ do bebê.

Ele chora, mesmo sem ter visto ninguém chorar, tal como o pintinho pia quando tem frio ou fome. Se um objeto toca seu rosto, ele vira a cabeça, abre a boca, pega o objeto com os lábios, pára de chorar e suga, seja o objeto o seio materno, uma chupeta ou seu próprio dedo. Isso não é semelhante ao que acontece aos pintinhos e pombos?

Porém, ao contrário do que acontece com os animais, o comportamento humano é, em sua maior parte, aprendido. Nascemos com um repertório muito limitado de comportamentos e reflexos, com um sistema nervoso muito imaturo, e com uma espantosa capacidade de aprender. Ao longo de nossos primeiros anos de vida, vamos desenvolvendo um sistema nervoso infinitamente complexo, a partir da interação com o ambiente em que vivemos.

Dessa mesma forma, vamos construindo nossas características psicológicas a partir da interação como ambiente. Algumas linhas da psicologia conceituam personalidade ao conjunto das características psicológicas de uma pessoa. De qualquer forma, essa construção ocorreria sem nenhuma influência hereditária?

A questão da importância dos fatores hereditários na determinação das características psicológicas é fascinante não apenas em termos técnicos, mas principalmente por suas implicações sociais e políticas.




GENÉTICO OU AMBIENTAL?

Durante muito tempo travou-se, no campo da Psicologia, um debate acalorado sobre se o comportamento humano era determinado pela herança ou pelo ambiente. Para os adeptos ferrenhos da hereditariedade, os traços básicos do indivíduo estão definidos ao nascer, e o ambiente apenas condiciona sua manifestação. Como expressou magistralmente Machado de Assis: ‘A ocasião faz o furto; o ladrão já nasce feito’.

para os ambientalistas, o bebê nasce como uma ‘folha em branco’ (‘tábula rasa’), na qual a experiência pode gravar qualquer história. São posições extremadas, que hoje em dia não têm mais lugar nas teorias psicológicas. Uma das conclusões às quais se chegou é de que ambas as correntes têm suas razões, porém nenhuma delas tem toda a razão.

De fato, a visão evolutiva do comportamento elaborada pela Etologia indica que nossa herança biológica, longe de vedar a influência da experiência, prepara-nos para ela. Pela genética, os organismos vivos são abertos para o meio ambiente. Do ponto de vista adaptativo, somente podem ser rigidamente programados padrões de ação relacionados com aspectos do ambiente que não se modificam. Porém, como as condições do meio variam amplamente para cada indivíduo, desenvolveu-se, ao longo da evolução, a capacidade de aprender. Por meio da aprendizagem, os animais não somente adquirem novos comportamentos, como também podem modificá-los ou mesmo suprimi-los, conforme as exigências do meio em que vivem. A plasticidade é tão importante, que até microorganismos como a ameba têm capacidade de aprender, para se adaptar às variações do meio.

Mas foi nos mamíferos, em especial nos primatas, cujos mecanismos cerebrais vêm sendo intensamente estudados, que a capacidade de aprender atingiu seu mais alto grau de desenvolvimento.

Conclui-se assim que, em lugar da dependência estrita, a evolução biológica vem proporcionando um grau cada vez maior de autonomia em relação ao ambiente. Esse processo atinge seu apogeu no ser humano, que pode transformar o ambiente físico e social para adaptá-lo aos seus interesses.

Porém, também não é correto afirmar que nossa mente ‘é uma folha em branco’. Se a herança biológica não nos obriga `a padrões fixos de ação, como ocorre nos insetos e outros animais relativamente simples, ela nos dá potencialidades e propensões, mas também nos impõe limitações.

O QUE SIGNIFICA TRAÇO HEREDITÁRIO?

Qualquer característica de um indivíduo resulta sempre da interação do seu conjunto de genes com os fatores do ambiente. O que pode variar é a importância relativa dos fatores genéticos e ambientais. Portanto, a rigor não existem características exclusivamente hereditárias ou exclusivamente ambientais.


FENÓTIPO = GENÓTIPO + AMBIENTE
O gene deixou de ser aquele determinante todo-poderoso da genialidade ou de taras, e passou a ser visto como uma simples unidade de informação codificada na molécula de DNA, que pode ou não se manifestar.

Em algumas circunstâncias (certos tecidos, certas fases do desenvolvimento) o gene, embora presente, mantém-se inativo; isto significa que não ocorre síntese da proteína cuja estrutura ele determina. Ou então, a proteína pode se formar, mas podem faltar condições para que seu efeito se revele no fenótipo. Assim, a presença do gene não garante o aparecimento do caráter que a ele corresponde.

A manifestação de um gene depende do ambiente bioquímico produzido pela ação de outros genes. Por outro lado, fatores do ambiente externo podem reforçar ou impedir a manifestação dos genes.

Como todo traço resulta da interação do genótipo (conjunto de genes) com o ambiente (conjunto total de influências não-genéticas, intra e extra-uterinas, físicas, psicológicas e sociais), é mais adequado falarmos em traço predominantemente hereditário em contraposição a traço predominantemente ambiental.

Traço predominantemente hereditário é aquele que varia de acordo com o genótipo, mas atinge a mesma expressão qualquer que seja o ambiente que esteja contribuindo para que ele se manifeste, como por exemplo o tipo sanguíneo. Por outro lado, traço predominantemente ambiental é aquele que varia com o ambiente, mas se manifesta do mesmo modo qualquer que seja o genótipo que esteja controlando sua manifestação.

A cor dos olhos é outro exemplo de caráter predominantemente hereditário porque genótipos diferentes conduzem a cores de olhos diferentes, mesmo que o ambiente seja totalmente padronizado. Além disso, um mesmo genótipo, interagindo com os mais diferentes ambientes, leva à mesma cor dos olhos. Dizer que a cor dos olhos é um traço predominantemente hereditário não implica em negar a participação do ambiente em sua formação. Significa apenas que todos os ambientes contribuem da mesma maneira para a expressão do traço. Os genes não poderiam determinar a formação da melanina (pigmento que dá cor aos olhos) se o ambiente não fornecesse ao organismo as substâncias precursoras desse pigmento. Mas, qualquer que seja a alimentação do indivíduo, ela sempre contém tais precursores, de modo que qualquer ambiente compatível com a sobrevivência contribui sempre da mesma maneira para a expressão do caráter.

Como exemplo de traço predominantemente ambiental, podemos tomar a capacidade de ler português, porque esse traço varia com o ambiente, mas não com o genótipo. Todos os indivíduos normais, quaisquer que sejam os seus genótipos, tornam-se capazes de ler português, se submetidos a um determinado tipo de ambiente; por outro lado, o mesmo indivíduo será capaz ou incapaz de ler português, conforme o ambiente a que for submetido.

Dizer que um traço é predominantemente ambiental não é negar a contribuição do genótipo para seu aparecimento. Significa apenas que todos os genótipos, por mais diferentes que sejam, contribuem da mesma maneira para a expressão do traço. No exemplo acima, vemos que classificar o traço como ambiental é aceitável na prática, mas, a rigor, não é perfeitamente correto, pois o genótipo de indivíduos com deficiência mental de causa genética pode tornar impossível a aprendizagem da leitura.

Além dos traços predominantemente hereditários ou predominantemente ambientais, há muitos outros que são parcialmente hereditários e parcialmente ambientais, ou seja, cuja expressão varia conforme o genótipo e conforme o ambiente. O peso do corpo é um exemplo de característica desse tipo - quando submetidos à mesma dieta e à mesma quantidade de exercício (mesmo ambiente), certos indivíduos se mantém mais gordos do que outros, porque seus genótipos determinam diferenças de metabolismo entre eles. Por outro lado, o mesmo indivíduo fica mais gordo ou mais magro conforme o ambiente (quantidade de alimento e exercício).
CONGÊNITO, FAMILIAL OU HEREDITÁRIO?




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