Homossexualismo



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CADERNOS DE PSICOLOGIA NQ 7


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Cadernos de Psicologia – Nº 1 – (1994) – Rio de Janeiro: UERJ, Instituto de Psicologia. Vol 7.



REFLEXÕES ACERCA DE ASPECTOS PSICOLÓGICOS ENVOLVI­-

DOS NO HOMOSSEXUALISMO

Daniela Ribeiro Schneider'



Não é objetivo deste pequeno texto esgotar a problemática psicológica que envolve o homossexualismo, mesmo porque ela envolve um conjunto bastante complexo de variáveis. Res­saltaremos alguns aspectos que consideramos fundamentais para a compreensão do enredamento psicológico advindo da esco­lha do homossexualismo como vivência da sexualidade, aspec­tos que têm aparecido com certa freqüência em nossa prática clínica.

Para iniciar a discussão do tema, propomos a consideração do leitor para o seguinte argumento: "a problemática que envolve o homossexualismo é a mesma que envolve o heterossexualismo, e diz respeito à maneira como a cultura ocidental trabalha a questão da sexualidade".

Na sociedade ocidental-cristã, a sexualidade ocupa espaço cen­tral na definição do ser do homem na sua relação com os outros. Foucault (1984) ressalta que "(...) o sexo sempre foi o núcleo onde se aloja, juntamente com o devir de nossa espécie, nossa verdade de sujeito humano"(p. 229). Sendo assim, a sexualidade torna-se um dos dispositivos principais de poder da sociedade, não simples­mente pelos seus mecanismos de controle e repressão, mas tam­bém pelos "(...) mecanismos positivos que, produzindo a sexuali­dade, desta ou daquela maneira, acarretam efeitos de miséria"

' Psicóloga, Mestre em Educação e Professora da UFSC.



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(p.232); desta forma, "(...) a sexualidade não é fundamental­mente aquilo de que o poder tem medo, mas (...) ela é, sem dúvidas e antes de tudo, aquilo através de que ele se exerce" (p.236).



Esse exercício do poder pela sexualidade explicita-se ainda mais a partir da expansão da medicina social no século XIX que, com sua política higienista, visando resolver as "patologias" sociais que grassavam na comunidade civilizada da época, instituiu táticas de controle sanitário e moral das famílias e dos indivíduos. Contri­buiu, com isso, entre outras instituições sociais, para a consolida­ção do modelo de família conjugal e nuclear, representativa da so­ciedade burguesa que se afirmava. Jurandir F Costa (1983) argu­menta que:
(...) quando observamos os resultados da educa­ção higiênica, uma conclusão se impõe: a norma familiar produzida pela ordem médica solicita de forma constante a presença de intervenções dis­ciplinares por parte dos agentes de normalização. (...) A nosso ver, o controle educativo-terapêuti­co instaurado pela higiene iniciou um modo de regulação política da vida dos indivíduos, que, até hoje, vem se mostrando eficiente. Através da tu­tela terapêutica o corpo, o sexo e as relações afe­tivas entre os membros da família, como já vimos, passaram a ser usados, de modo sistemático e cal­culado, como meio de manutenção e reprodução da ordem social burguesa. (p. 15-16)
A compreensão difundida foi e ainda é, então, a de que a "saú­de" da nação, do Estado, está diretamente ligada à "saúde" da famí­--


lia, dependendo, entre outros, dos mecanismos de produção e con­trole da sexualidade, que é efetivado a partir do controle do corpo. Retira-se o corpo de suas possibilidades concretas, desqualifican­do-se suas vivências, em nome do bom uso da "razão": "um ho­mem decente sabe controlar seus impulsos", "uma mulher íntegra põe, acima de tudo, seus deveres de esposa e mãe". A concepção dualista cartesiana, para a qual o homem é um ser composto por duas entidades separadas, o corpo e a alma, contribui com a definição do horizonte de racionalidade ocidental, fornece os elementos necessários para essa desqualificação e controle cor­poral e, portanto, é um dos substratos teóricos que sustenta a repressão sexual.

Qualquer comportamento sexual que fuja aos padrões ditados para a família conjugal e nuclear, como é o caso do homossexualis­mo, será considerado anormal e sujeito a repressão e tratamento. É imposto um modelo de comportamento sexual "saudável", por meio do qual se busca enquadrar o desejo e a atividade sexual dos indivíduos. Valoriza-se, sobremaneira, a vivência de papéis sexuais preestabelecidos. Sentir-se "homem" ou "mulher" é fundamental para a formação da personalidade do sujeito. Com isso, a identida­de dos sujeitos é determinada, em muitos aspectos, pela vivência da sexualidade.

A visão que o homem ocidental tem sobre si mesmo susten­ta-se, em grande medida, na visão sobre sua sexualidade e a se­xualidade dos outros e com os outros. Nossa cultura passou a ter como um dos pilares de sustentação da sua racionalidade a questão da sexualidade, o que a tornou uma cultura pansexual, quer dizer, aquela em que a sexualidade está em todos os luga­res, determinando a realidade das relações humanas. Sem dúvi­da, essa cultura é uma construção histórica, com os diversos sentidos que dela subjazem.






do plano. Sendo assim, os homossexuais ficam presos à ideologia pansexual.'

Para compreendermos melhor essa vivência, é importante refle­tirmos sobre a questão do desejo. Enquanto desejo de ser, é aquilo que impulsiona a pessoa para a ação; é o que a lança em direção a um futuro, constituindo o sentido de sua existência. O desejo é, em outras palavras, o "combustível" da dinâmica psicológica. O desejo de ser de uma pessoa é, dialeticamente, a produção e a sínte­se de uma série de desejos-meios: o profissional, o familiar, o soci­al, o afetivo, o sexual entre outros. Portanto, o desejo sexual é uma dentre as demais formas de especificação do nosso desejo de ser no mundo.

No entanto, a nossa cultura faz uma inversão, considerando que o desejo de ser é definido pelo desejo sexual: tudo o que so­mos seria desdobramento da vivência da sexualidade. Sustenta, com isso, a racionalidade pansexual. O desejo seria uma força oculta que nos move, uma força "inconsciente"; inteligibilidade essa sus­tentada por uma concepção psicanalítica. Seria vivido como uma realidade sobre a qual o sujeito não tem controle, como se as vi­vências não pudessem ser diferentes do que são, independente do que se "queira". O desejo seria vivido, portanto, como determi­nante da personalidade: não seria uma escolha, mas um impulso imanente ao ser da pessoa, um definidor dos atos do sujeito, de quem ele é e deverá ser. O sujeito seria determinado e não aquele que determinaria.

Outro ponto importante da problemática psicológica do ho­mossexualismo centra-se na visão de que o desejo sexual seria defi­nido por aspectos fisiológicos: uma questão de hormônios, de re­


2 É lógico que não podemos sustentar essa reflexão como sendo universal; sem dúvida, há homossexuais que superaram essa racionalidade. Estamos falando, aqui, de forma generalizada.





Isto posto, entende-se porque a vivência da sexualidade passou a ser um dos aspectos centrais da problemática psicológica ociden­tal pois, como vimos, a identidade dos sujeitos sustenta-se no as­pecto sexual. Esse fato foi bem interpretado pela Psicanálise que, além de pretender fornecer elementos para compreender o fenô­meno, corroborou com essa determinação sexual da identidade dos sujeitos. Peter Fry (1991) assinala esse predomínio da visão psica­nalítica na nossa cultura, quando afirma que:
(...) as idéias, atribuídas a Freud, se tornaram parte do senso comum. Como tal, adquiriram a forma de dogmas inquestionáveis e informa­ram a maneira pela qual muita gente pensa a (homos)sexualidade (p. 74).
Os sujeitos ficam "presos" neste horizonte de racionalidade. Como então não falar dos homossexuais, que realizam uma es­colha mais radical, de desvincular a sexualidade da reprodução, da lógica familiar, do "determinismo biológico". Essa escolha em si já afronta os "determinismos", desafia o controle da sexu­alidade e acaba por se tornar objeto de uma repressão social acirrada. E esses fatores levam cada vez mais o homossexual a ficar preso a sua vivência da sexualidade, na medida em que sua contestação dos valores sociais passa exatamente pelo aspecto sexual, o que faz com que sua condição seja sempre assinalada e presentificada.

Disso decorre uma das características principais do homossexu­alismo (que não deixa também de ser do heterossexualismo, mas sem o mesmo destaque): o fato de as pessoas fazerem de sua esco­lha sexual o eixo central da existência. Todas as demais questões (profissionais, de amizade etc.) são, geralmente, postas em segun­-





ações psicofisiológicas, de instintos. O desejo sexual seria determi­nado pelo biológico, independente da vontade do sujeito, que só entraria no segundo momento, para administrar aquilo que já es­taria determinado. Esse tipo de concepção levou à explicação do homossexualismo como conseqüência da hereditariedade, de de­feitos congênitos, de desequilíbrios hormonais, como se essa op­ção fosse uma doença. Essa situação atrelou as questões homosse­xuais à Medicina, quando então os médicos reivindicaram sua au­toridade para falar o que seria a verdade sobre a sexualidade.



As concepções deterministas, seja a que remete o desejo ao in­consciente, seja a que o considera fruto da natureza biológica do indivíduo, desdobram-se na segunda característica marcante dos homossexuais: a vivência da sua escolha sexual como sendo um fatalismo. As pessoas dizem: "sou assim e não posso deixar de sê­lo"; "não consigo deixar de sentir atração por mulheres, é mais for­te do que eu", etc. Boa parte dos homossexuais dizem que "assim se descobriram" (aquilo que na essência já eram), nada mais restan­do do que "se assumir". Essas reflexões de senso-comum são as expressões próprias da visão determinista. Isso faz com que o ho­mossexualismo seja vivido como um caminho irreversível, que acaba por concretizar uma definição existencial.

É preciso uma compreensão científica e dialética da personali­dade, como a que nos oferece o Existencialismo Moderno, susten­tado por Jean-Paul Sartre, para romper com esse fatalismo. Como o autor assinala, o desejo é construído historicamente, como ex­pressão do "eu", um modo de concretização da subjetividade. O desejo é resultante das possibilidades concretas vividas por uma pessoa. Em função disso, das relações interpessoais estabeleci­das, das condições materiais e educacionais que o cercam, cada sujeito constrói o seu desejo de ser, que se especifica em variados desejos empíricos: ser amigo, ser profissional, ser amante etc.. O


desejo sexual é uma "especificação do meu desejo de ser" e não "o que determina meu ser".

O desejo sexual não é determinado pelo biológico. Este é uma das variáveis que vai constituir o desejo. Robert Wright (in: The MoralAnimal, 1994)) tenta provar que a definição sexual é intrín­seca à "evolução da natureza" do indivíduo. Esta teoria foi dura­mente criticada porque está mais do que superada pelas Ciências Humanas contemporâneas. Sabe-se que:
(...) o sexo biológico de um sujeito não é consti­tutivo da identidade sexual. É possível ser homem ou mulher biologicamente (cromossomos, geni­tais externos, etc.) e, apesar disso, se viver como do sexo oposto. Esta vivência é a da identidade de gênero, que se constitui a partir de uma série de fatores culturais (...): a designação do sexo do recém-nascido pelos pais, a influência das atitu­des dos pais, os padrões de manejo de seu corpo e sensações, corporais e genitais, que confirmam ou não a designação pelos pais. (Calligaris, 1994)
Beauvoir (1980) deixa claro que não há nenhum fator determi­nante na elaboração do erotismo, argumentando que ele é sempre resultado de uma escolha feita em meio a um conjunto complexo de fatores e sustentada por uma livre decisão:
(...) Nenhum destino sexual governa a vida do indivíduo: seu erotismo traduz ao contrário sua atitude global para com a existência. (p.158) (...) uma sociedade não é uma espécie: nela, a espécie realiza-se como existência; transcende-se


para o mundo e para o futuro; seus costumes não se deduzem da biologia; os indivíduos nunca são abandonados a sua natureza; obedecem a essa segunda natureza que é o costume e na qual se refletem os desejos e os temores que traduzem sua atitude ontológica. Não é enquanto corpo, é en­quanto corpo submetido a tabus, a leis, que o sujeito toma consciência de si mesmo e se reali­za: é em nome de certos valores que se valoriza. E diga-se mais uma vez, não é a fisiologia que pode criar valores. Os dados biológicos revestem o que o existente lhe confere. (Beauvoir, 1980, p.56)


Assim, o homem é o único ser que transcende o determinismo biológico. O seu corpo está em função do seu ser.
A sexualidade humana tem justamente a propri­edade de ser completamente desnaturada. Nossa espécie é a única, entre os mamíferos, que desco­nhece o ciclo; (...) a excitação sexual não depen­de nada da reprodução. (Calligaris, 1994, p.6)
Todavia, é preciso ressaltar certas condições da realidade psicos­social da sexualidade para que possamos perceber como a vivência do determinismo é tão forte para as pessoas. Frisamos que o desejo sexual é expressão da nossa personalidade e uma construção histó­rica. No entanto, no momento em que se sente o desejo, ele é vivido espontaneamente. Quando alguém se sente atraído por uma pessoa isso se dá de forma espontânea; não é uma decisão reflexiva, no estilo: "quero me sentir atraída por fulano". Simplesmente acon­-


tece; é como se na hora não dependesse da vontade do sujeito. Portanto, é vivido como um "determinismo". Contudo, não nos sentimos atraídos por qualquer pessoa, são algumas que nos atra­em, com certas características e em dadas circunstancias.

Assim, a vivência da atração é espontânea, mas o que lança a pessoa na atração é resultante do seu projeto existencial, da história de vida de cada um. Este fenômeno, tendo sido mal interpretado, corrobora com as concepções deterministas da sexualidade.

Para o entendimento do homossexualismo naquilo que ele é - uma escolha sexual, construída a partir da vivência de um conjunto histórico de situações e condições existenciais, elaborado pelo sujeito - é preciso romper com o determinismo e ter compre­ensão dialética da personalidade. Esse processo é crivado de me­diações (econômicas, culturais, afetivas, existenciais). O sujei­to, com uma lógica rígida, constrói uma inteligibilidade que só vê como saída a homossexualidade, consolidando, assim, uma dinâmica psicológica homossexual. Geralmente enxerga-se como um ser humano "diferente", que na hora de se emocionar com certas coisas, de desejar outras pessoas, de estar no meio delas, não consegue deixar de colocar a sua escolha sexual como o fundamen­to do seu ser.

Para ilustrar esse processo de construção histórica e de escolha homossexual, descreveremos o caso de uma cliente. Parodiando Van Den Berg (1981), gostaríamos de esclarecer que essa cliente "existe e não existe". Existe porque suas vivências pertencem co­mumente à história de vida dos clientes homossexuais; e não existe como uma vivência que possa ser de um indivíduo específico, que possa ser identificável por essas situações que serão relatadas aqui. Serão usados apenas alguns dados que contribuirão para a reflexão sobre a problemática da escolha homossexual.




assim não poderia pular, correr, não teria facilidade nos movimen­tos e poderia aparecer a calcinha.

Com esse tipo de comportamento, as pessoas a sua volta (tias, primos, colegas, professoras) começaram a falar e a brincar com o fato, dizendo-lhe que parecia um menino. Essa situação ressalta o aspecto da inteligibilidade social ou da mediação social. Os outros dizem para nós quem somos e como devemos agir. Sempre faze­mos alguma coisa com isso: ou aceitamos, ou nos revoltamos, ou outra possibilidade; mas com certeza o "olhar do outro" faz parte da nossa identidade. Com essa "impugnação", ela passou a com­preender o que fazia, como sendo um comportamento de meni­no. Verificava que o primo da sua idade e seus amiguinhos podiam fazer determinadas coisas que lhe eram proibidas, como brincar na chuva, fazer certos passeios, entre outros, e recebendo como justi­ficativa da proibição o fato de ser menina.

Foi também importante a sua convivência com os papéis mas­culino e feminino. O que presenciava da relação do pai com a mãe era que esta mulher, que considerava maravilhosa, se submetia a uma série de situações humilhantes. Nas brigas que presenciou, ficou impressionada com a fragilidade da mãe frente ao pai.

Todos esses aspectos iam ajudando essa cliente a elaborar os papéis sexuais e o seu desejo aí colocado. Menino sai, brinca, pode fazer mais coisas; menina tem de ficar mais em casa, não pode fazer uma série de coisas, tem brincadeiras paradas. Ho­mem manda, define; mulher tem de obedecer. Todos esses fa­tos convenceram-na de que preferia fazer as coisas que cabiam aos meninos. Deduziu, "logicamente", que tinha de ser um me­nino. Chegou a expressar esse desejo para a mãe, quando, um dia, depois de ter feito uma peraltice, sua tia xingou-a na frente de muitas pessoas, dizendo que "aquilo não era coisa que meni­na fizesse".





Essa cliente, uma mulher com pouco mais de 30 anos, desde adolescente "descobriu-se" homossexual e começou a viver sua se­xualidade nessa direção. Não tinha grandes problemas com isso, gostava de sua opção e não tinha desejo de mudar, apesar de em certos momentos questionar-se sobre esse aspecto de sua vida. Contudo, vivia problemas de ordem afetiva com a namorada, o que lhe causava bastante angústia. Tinha uma visão fatalista de sua homossexualidade, como se não houvesse outro cami­nho possível, já que "desde que se conhecia por gente era as­sim". Depois de um certo tempo de terapia, começamos a des­crever sua história.

Viveu sua infância e adolescência nas décadas de 60 e 70, num tempo marcado pelo questionamento de valores morais e políti­cos e por uma reação das forças conservadoras na tentativa de ma­nutenção da "ordem social", expressa pelo golpe militar de 64. Morava em um bairro residencial de Florianópolis, S. C., onde predominavam as relações de parentesco e amizade; todos se co­nheciam e sabiam da vida uns dos outros. Próximo à sua casa moravam muitos meninos de sua idade, porém havia poucas me­ninas. Tinha somente uma irmã, bem mais velha do que ela. O pai era bastante rígido na educação e com suas relações cotidianas; es­tava sempre em conflito com a mãe, uma pessoa mais aberta, am­bientada com os questionamentos da sua época. A mãe incentiva­va a filha a brincar na rua com os amiguinhos, pois não gostava de vê-la parada. Ensinava-a a ler, a "curtir a vida". Com esse tipo de incentivo, e como suas relações de amizade era com os meninos, seus vizinhos, começou a gostar das brincadeiras ditas masculinas: correr, jogar bola, soltar pipa. Nesse tipo de brincadeira se sentia mais satisfeita, mais inteira. Achava aborrecidas as brincadeiras di­tas femininas: boneca, casinha, etc. por serem muito paradas e sem graça. Detestava ser obrigada a usar saia para ir à escola porque


fatalismo, como se tivesse nascido assim, o que tornava o caminho irreversível para ela.



Sell (1987) esclarece esse engolfamento no determinismo que a pessoa passa a viver e a estabelecer como parâmetro sobre si mesma e sobre os outros:
(...) Importante observar que o comportamento atual, assumido para si mesmo, fortalece o signi­ficado das reminiscências da infância. É possível que tais lembranças só tenham ganho valor na medida em que o presente confirmou expectati­vas passadas. Daí, lembranças de iniciação homos­sexual adquirirem a força de definição. E o que poderia ter sido, muitas vezes, um ato isolado, uma possibilidade apenas, se revestiu de caracte­rísticas deterministas. (p.27)
Na verdade, o que ela buscava desde pequena, a forma como construía seu desejo de ser, era buscar ser uma pessoa ativa, partici­pativa, em direção a uma atitude de transcendência frente ao mun­do. Entretanto, como nossa cultura entende que ser ativo é ser homem e ser passivo é ser mulher, sob essa inteligibilidade foi cons­tituindo a visão de si mesma. Sem dúvidas, ela não estabeleceu esse caminho mediante uma escolha crítica, feita a partir de uma refle­xão clara da situação. Construiu-se alienadamente, em escolhas fortuitas. Mas, ainda assim, foi elaborando significados, apropri­ando-se de valores, definindo o seu ser.

Os homossexuais têm dificuldade de ver e compreender essa construção. Não conseguem entender que sua homossexualidade foi montada em função da forma como lidaram com a inteligibi­lidade social, que define o que é ser homem ou mulher, como ser


A forma como a cultura ocidental ensina a pensar e a sentir as

situações, base da construção da identidade, é através de uma ótica

lógico-formal da realidade. Aprende-se a seguir o "princípio da iden­

tidade", que assinala que "aquilo que é, é; aquilo que não é, não é".



Portanto, não há possibilidade de mudança, só de ajustamento aos padrões. Não se aprende a refletir dialeticamente, de que ser isto, ou aquilo, não é uma definição a priori, mas uma construção social que pode ser modificada conforme o que se fizer da situação.

A descoberta da sexualidade foi como a de todas as crianças, em brincadeiras com os amiguinhos e amiguinhas.Porém, com a ami­ga com quem fez as brincadeiras, as coisas se deram de forma mais calma, sustentadas por toques, por descobertas mútuas. Com os meninos essas brincadeiras foram mais "mecânicas", mais "brutali­zadas": mostravam os órgãos genitais, tocavam-se, fechavam a rou­pa e voltavam a brincar. Não havia o carinho e a delicadeza que havia com a amiguinha. O entendimento que teve, então, refor­çou a lógica que já vinha construindo, a de que era um menino e a de que, por isso, gostava mais de menina. Mais tarde, na escola, já adolescente, teve aulas com uma professora de Educação Artística que era menos rígida do que as outras professoras, fazia uma aula mais solta, com brincadeiras, com mais "liberdade". Essa pro­fessora a fascinou (quem já não se sentiu fascinado por um um professor?). No entanto, o entendimento que teve é de que estava apaixonada por ela, transformando essa relação em sua primeira paixão homossexual.

Foi, então, compreendendo uma série de situações, por meio das quais começou a perceber cada ato seu como a expressão desse desejo de ser menino. Isso foi constituindo sua identidade. Enqua­drava todos os comportamentos nessa perspectiva, sendo que as outras pessoas confirmavam a inteligibilidade que ia montando sobre si mesma. Começou a viver a homossexualidade como um




uma entre outras questões existenciais fundamentais. Deve-se inverter a compreensão da realidade humana que considera a personalidade e os sujeitos definidos em função da sexualidade; ao contrário disso, esta deve ser definida no bojo do projeto existencial da pessoa, quer dizer, a sexualidade deve ser definida em função de quem a pessoa deseja ser, daquilo que ela quer para si mesmo enquanto sujeito.



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