Hoje é dia do Pai



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Encontro08.10.2018
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NO DIAS DO PAI


Marcus André Vieira1


O Pai é o começo


Faremos um breve percurso com o pai em Lacan. Para isso só preciso que vocês concordem com situar no pai o ponto de partida. Nossa premissa é a de que o pai é o ponto de origem, anterior a mãe. Quem for partidário da mar arcaica, quem considera que a mãe é anterior ao pai, funda uma decisiva relação pré-edípica, não vai poder nos acompanhar.

Minhas considerações introdutórias serão, então, no sentido de convencê-los a ao menos admitir como hipótese este ponto de partida, para que nosso percurso seja legível por vocês.

Isto porquê existe uma espécie de vulgata que professa que Lacan teria sido o analista do Pai e que teria esquecido a mãe, ou do Édipo, tendo relegado as fases pré-edípicas. Quando se fala um pouco mais em pai as pessoas começam a se colocar o seguinte: “existe o pai muito bem, mas ele intervem sobre a relação mãe – bebê, esta sim é a relação primária, fundamental, a função paterna é secundária; mais acessória.

A estes, peço que aceitem esta contraposição inicial. A relação mãe e bebê não é anterior ao pai. O pai é anterior.

Uma boa maneira de demonstrá-lo é regredindo. Ele é anterior porque é preciso um espermatozóide, senão não haveria a relação mãe e bebê. Ao que se pode retrucar: o anterior é a relação espermatozóide-óvulo e não o sptz, ou X-Y, ou Yin e Yang, em que fica claro o absurdo de regredir historicamente para encontrar e situar a relação mais primitiva. Partamos de outro ângulo. Vocês nunca repararam que muitas vezes se conta a história de um espermatozóide que buscava um óvulo, mas nunca a de um óvulo atrás de um sptz? O essencial é, isso, sempre que se conta a história da origem, tendemos a começar com algo que remete ao elemento paterno. Afinal, de quem é o sptz?

Na função do óvulo, do real, do concreto, da ciência, talvez sejam os dois ao mesmo tempo, mas na vida de um sujeito, para ele poder se representar, para narrar sua existência se conceder como alguém separa do Outro materno, ele tem que manter coesa uma montagem que chamamos de ego, uma ficção que reúne elemento esparsos do Outro em torno de um vazio. Não se trata de anterioridade histórica, mas lógica. Isso responde também aos poderiam ter perguntado: “mas e quando não houver pai?”

Do ponto de vista de uma narrativa, que é o ponto de onde nos colocamos, sempre há origem. Quando não houver alguém encarnando-a, que é nossa definição de pai, inventa-se um, afinal, é a entrada dele que permite à criança separar-se da mãe, senão a criança é igual à mãe, é subproduto dela, sem distância, sem separação. Para que haja separação entre a mãe e o bebê, em outros termos, para que haja sujeito, para que haja uma criança que é alguém, é preciso que haja o pai, mesmo que ele não exista com pessoa física. É preciso que haja a função paterna. A função paterna é anterior à mãe. Primeiro ponto, então: o pai é o nome da origem e por isso é necessariamente anterior à mãe.


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