História, memória e sofrimento Aula 8



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Encontro20.05.2018
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História, memória e sofrimento

Aula 8

Até agora, vimos no interior do segundo módulo do nosso curso como o desenvolvimento da história como ciência forneceu parâmetros importantes para a constituição da psicologia como saber. Vimos, por exemplo, como a noção de progresso fora decisiva para a própria determinação do horizonte de cura, da distinção entre normalidade e patologia tal como podemos encontrar na história da psicologia. Em larga medida, a doença mental fora pensada a partir de dinâmicas de regressão, de fixação e degenerescência, ou seja, ela faria o caminho inverso do progresso em direção à maturação. Há claramente uma noção de tempo em progresso na consolidação do horizonte de normalidade e cura na clínica do sofrimento psíquico. Procurei mostrar como este tempo, com toda sua carga normativa, continuava claramente presente em discussões e trabalhos fundamentais para o campo da psicologia do desenvolvimento, como os de Jean Piaget e Lawrence Kohlberg.

Para deixar mais claro este ponto, vimos na aula passada como as questões internas à constituição de uma categoria clínica específica, a saber, o fetichismo. Vinda de uma discussão histórica vinculada à teoria do progresso e dos processos de modernização, a transformação do fetichismo em categoria clínica era muito mais do que um mero uso por analogia. Ele explicitava o movimento de constituição de categorias clínicas a partir do empréstimo conceitual maciço a outras áreas do saber. Ela mostrava ainda como o quadro clínico da perversão era estruturalmente dependente de uma noção de desenvolvimento aplicada à dinâmica dos estágios de desenvolvimento da libido. Não por outra razão, veremos a tendência a aproximar o perverso e a criança, tal como vemos, por exemplo, em Freud quando afirmar que a criança é um perverso polimórfico. Esta polimorfia própria à perversão seria índice da incapacidade da sexualidade encontrar sua forma adequada, esta capaz de submeter a multiplicidade dos prazeres específicos de órgãos à função de reprodução com seu privilégio em relação ao prazer genital.

Na aula de hoje, gostaria de explorar uma outra via. Gostaria de voltar às teorias da história a fim de fornecer uma imagem do tempo histórico distinta desta caracterizada pelo progresso linear em direção a reiteração de uma forma normativa geral. Para tanto, gostaria de apresentar a vocês alguns aspectos essenciais da teoria da história de um dos filósofos mais influentes no campo dos debates sobre a natureza do processo histórico, a saber, Hegel. Feito isto, gostaria, na aula que vem, de apresentar para vocês uma experiência clínica cujo manejo da temporalidade em muito se assemelha ao que vocês poderão encontrar nesta noção hegeliana de tempo histórico, a saber, a psicanálise de Jacques Lacan.





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