História da escola normal de natal (rio grande do norte, 1908-1971)



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HISTÓRIA DA ESCOLA NORMAL DE NATAL (RIO GRANDE DO NORTE, 1908-1971)

Francinaide de Lima Silva – UFRN

francinaide_pedagog@yahoo.com.br
Maria Arisnete Câmara de Morais – UFRN

arisnete@terra.com.br


Palavras – chave: História da Educação. Profissão Docente. Escola Normal de Natal

O presente artigo analisa a formação de professores em Natal, Rio Grande do Norte, entre 1908 e a década de 1920. Temos por aporte teórico-metodológico Burke (1997), Chartier (1990) e Elias (2001). Nesse texto enfocamos o conceito de representação postulado por Chartier (1990) por entendermos que com as representações a história lida com o que os homens pensam e como pensam, lida com o imaginário. Tal como as práticas, as representações são construídas. São construções que os grupos fazem sobre suas práticas. Desse modo, as práticas somente existem enquanto representações.

A ideia de Chartier desconstrói a noção de história como tradução da realidade, pois afirma que nenhum texto traduz a realidade, nenhum texto apreende a realidade em sua totalidade. A história é concebida como narrativa. A historicidade é uma relação de espaço e tempo onde o sujeito vive, trabalha e fala.

Fundamenta-se em documentos localizados, principalmente, no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte (IHGRN) como Atas, Ofícios, Relatórios dos Diretores da Instrução Pública, em Leis, Decretos, Mensagens do Governo além de artigos do jornal A República e da revista Pedagogium (1921-1925), edição da Associação de Professores do Rio Grande do Norte (APRN). A data inicial deste recorte justifica-se por ter sido este o momento da criação de uma instituição específica para a formação docente associada à implantação de uma rede de Grupos Escolares. Na década seguinte, sucessivos atos legislativos concernentes à educação são aprovados e estabelecem práticas peculiares ao magistério e, por conseguinte, fortalecem o ofício de professor primário.

O cerne das políticas da educação eram as Reformas da Instrução que tinham a formação de professores como seu principal instrumento para o progresso do ensino. Neste período, ocorreram importantes mudanças educacionais a fim de organizar a instrução e consolidar a arte da docência. As leis e documentos revestiram o magistério de particularidades que o elevaram ao status de profissão. Códigos formativos e órgãos são instituídos pelo poder público, ao mesmo tempo em que a APRN, fundada em 04 de dezembro de 1920, congrega o professorado na defesa do ensino.

Francisco Pinto de Abreu (1906), em seu Relatório anual apresentado ao Governador do Estado do Rio Grande do Norte, apontava a situação em que se encontrava o Ensino Público. Propugnador da ideia de que não haveria ensino de qualidade, nem reforma educativa, nem inovação pedagógica, sem uma adequada formação de professores ele afirmava a necessidade do preparo dos mestres, além de vencimentos compensadores. Eis a sua meta:

Rever os regulamentos para simplificar os programas e adotá-los às nossas condições de vida; reformar o sistema defeituoso de inspeção; restabelecer o fundo escolar, escriturado especialmente no tesouro, sabiamente previsto por uma lei de 1892, com a contribuição forçada de todos os municípios, incumbindo-se o estado da construção de escolas e custeio do Instituto Profissional (RIO GRANDE DO NORTE, 1906, p. 4).

Em sua visão, a função do mestre deveria ser privilegiada através da garantia do seu bem-estar no exercício da nobre missão social de ensinar. Para ele, o professor deveria ser tão respeitado “como o vigário da freguesia” (RIO GRANDE DO NORTE, 1906, p. 5). Pinto de Abreu defendia que os poderes municipais seriam os responsáveis pelos docentes, através dos quais se alcançaria a moral, o direito e a política que honrasse o povo. O ideário republicano de formar um cidadão concedeu aos professores um papel simbólico na sociedade, envoltos numa áurea de prestígio.

Francisco Pinto de Abreu expressa o desejo de reabrir a Escola Normal de Natal e salienta a importância da inserção da mulher nessa instituição, uma vez que possuía “dotes especiais para a delicada profissão de ensinar” (RIO GRANDE DO NORTE, 1906, p. 5). Para este educador a presença feminina na Escola Normal indicava desenvolvimento, visto que em nações adiantadas como os Estados Unidos este era um fato reconhecido. As cadeiras do Ensino Primário deveriam ser “regidas exclusivamente por senhoras, atentas às suas naturais aptidões”. Além disso, este era um ótima ofício para as moças da classe menos abastada, mais fáceis de aceitar vencimentos modestos, do que os representantes do sexo masculino.

Na administração do Governador Alberto Maranhão (1908-1913) ocorreram diversas mudanças no Ensino Primário. O Congresso Legislativo votou a Lei n. 249, de 22 de novembro de 1907, que autorizou o governo “a reformar a instrução pública, dando especificamente ao Ensino Primário moldes mais amplos e garantidores de sua proficuidade”. (RIO GRANDE DO NORTE, 1907, p.5). Esta Lei criava uma rede de Grupos Escolares, tendo em vista a escolarização da infância, assim como a construção da cultura letrada. Urgia a abertura de uma Escola Normal para suprir o Estado com profissionais de educação qualificados. Logo, a condição necessária ao êxito desta mudança seria formar os novos educadores de maneira racional “consoante a orientação da moderna Pedagogia” (RIO GRANDE DO NORTE, 1908, p.46). Desse modo, o Decreto n. 178, de 29 de abril de 1908 reabriu a Escola Normal de Natal para o preparo de professores de ambos os sexos, restabeleceu a Diretoria Geral da Instrução Pública, extinta em 1900 e criou os Grupos Escolares e Escolas Mistas na capital e em outros municípios.

O Grupo Escolar Augusto Severo, criado pelo Decreto n. 174, de 5 de março de 1908, foi a primeira instituição primária instalada no bairro da Ribeira, em Natal. Desde sua fundação, servia à prática dos normalistas. Por este motivo, o Decreto n. 198, de 10 de maio de 1909, elevou este estabelecimento à categoria de Escola Modelo onde ocorreria a prática dos alunos formados pela Escola Normal de Natal. Os normalistas que se sobressaíam na sala de aula tinham preferência na ocupação das cadeiras das escolas do Grupo Modelo, na falta de professores diplomados. Os alunos-mestres seriam designados pelo Governador do Estado e prestariam serviços à instituição. Quando diplomados, tinham prioridade para o preenchimento efetivo dos referidos cargos, como também em outras instituições públicas de Ensino Primário.

A Lei n. 284, de 30 de novembro de 1909, ratifica a reforma da Instrução Pública e edita vários decretos a respeito do Código de Ensino (Decreto n. 214, de 26 de janeiro de 1910; Decreto n. 239, de 15 de dezembro de 1910; Decreto n. 359, de 22 de dezembro de 1913). A partir deste dispositivo o Curso Normal deixa de ter duração de três anos para ser ministrado em quatro anos. Este Código de Ensino efetivava as normas educativas e instituía cargos de Diretor da Escola Normal, antes exercido pelo Diretor Geral de Instrução Pública. Este regulamento admitia aos normalistas a regência das classes do Grupo Modelo, assim como estabelecia a inspeção das escolas públicas e particulares e reforçava a junção do Ensino Primário graduado e metódico com a Escola Normal.

Outras medidas surgiram com a finalidade de aprimorar a formação docente no Rio Grande do Norte. A Lei n. 382, de 18 de novembro de 1915, organiza o ensino em Primário, Normal e Profissional (RIO GRANDE DO NORTE, 1917b, p.6). Intelectuais como Manoel Dantas, Henrique Castriciano, Antônio José de Melo e Souza, José Augusto Bezerra de Medeiros e Moisés Soares reuniram-se e apresentaram uma proposta de reforma. Desta reunião surge a Lei n. 405, de 29 de novembro de 1916, sancionada pelo então Governador Joaquim Ferreira Chaves (1914-1920).

A denominada Lei Orgânica orientou a educação norte-rio-grandense até a década de 1930. Criou os Conselhos Escolares para fiscalizar o ensino nas escolas públicas e particulares. Estes representavam o Estado no ensino local e eram responsáveis pelo recenseamento de toda a população em idade escolar. A norma que regia a instrução estabelecia também o Conselho Superior de Instrução Pública que, por sua vez, tinha por finalidade estudar e aplicar as leis do ensino, com o intuito de auxiliar a Diretoria Geral. A norma delineava e ampliava os papéis dos diplomados pela Escola Normal. Além de professores nas escolas primárias, os profissionais ocupavam cargos técnicos de diretores, inspetores, fiscais e conselheiros de ensino, engajados com a causa educacional. Surge a revista Pedagogium (1921-1925), principal veículo de divulgação dos educadores da época.

Entre as normas educativas, um destaque para a criação do Departamento de Educação (Decreto n. 265, de 24 de março de 1925) e o Conselho de Educação (Ato de 10 de março de 1925). Órgãos criados para fiscalizar mais a escola e o professor, através da criação de regimentos e medidas que regulavam a conduta moral e a prática docente. O Conselho de Educação era composto por comissões pedagógicas, legislativas e judiciárias. Elas visavam auxiliar na proposta de livros a serem adotados no ensino, na confecção de regimentos, editais de concursos, dentre outros casos de caráter jurídico.

Era imperativa uma escola de formação em Natal. Em meados do século XIX foram criadas as primeiras Escolas Normais do país para a formação de docentes. Azevedo (1976, p. 94) registra a criação das Escolas Normais no Brasil: a de Niterói, em 1835; a da Bahia, em 1836; a do Ceará, em 1845; a de São Paulo, em 1846 e a do Rio de Janeiro, em 1880. Em Natal, a Escola Normal teve sua primeira fundação autorizada pela Lei n. 671, de 05 de agosto de 1873. Estava entre as primeiras instituições criadas no Brasil e formou três docentes: Celso Caldas, Joaquim Peregrino e Antônio Gomes Leite. Funcionou durante quatro anos quando foi extinta pela Lei n. 809, de 19 de novembro de 1877.

A segunda Escola Normal, criada já na República, “foi nati-morta”, na expressão de Nestor Lima. Apenas se sabe que foi criada pelo Governador Adolfo Gordo, por decreto de 8 de fevereiro de 1890. A terceira Escola Normal, que é a de Pedro Velho e data de 1882, só chegou a ser instalada em 1896. Era exclusivamente masculina. Diplomou, até 1901, cinco professores: Pedro Alexandrino, Pedro Gurgel de Oliveira, Lourenço Gurgel do Amaral, Alfredo Celso Fernandes e Luiz Marinho Simas. “Extinguiu-se à falta de alunos, ou melhor, morreu de inanição”. É a análise de Nestor dos Santos Lima (MORAIS, 2006, p.74).

Finalmente, foi a Escola Normal de Natal criada em 13 de maio de 1908 que cumpriu o objetivo de preparar os professores e aperfeiçoar a Escola Primária do Estado, instalada nas dependências do Ateneu Rio-Grandense com suas cadeiras providas mediante contrato e a sua direção confiada a um dos lentes do Ateneu. A primeira turma formada pela Escola Normal de Natal, em 04 de dezembro de 1910, diplomou sete professores e vinte professoras. Na ocasião formaram-se:

Luiz Antônio dos Santos Lima, Severino Bezerra de Melo, Manuel Tavares Guerreiro, Anfilóquio Carlos Soares Câmara, Francisco Ivo Cavalcanti, José Rodrigues Filho, Luiz Garcia Soares de Araújo, Ecila Pegado Cortez, Judite de Castro Barbosa, Áurea Fernandes Barros, Olda Marinho, Stela Vésper Ferreira Gonçalves, Beatriz Cortez, Arcelina Fernandes, Guiomar de França, Anita de Oliveira, Francisca Soares da Câmara, Maria Natália da Fonseca, Maria Abigail Mendonça, Maria das Graças Pio, Clara Fagundes, Maria da Conceição Fagundes, Maria Julieta de Oliveira, Maria Belém Câmara, Maria do Carmo Navarro, Helena Botelho, Josefa Botelho (MORAIS, 2006, p. 75).

Começava a tendência para a feminização do magistério, notada em outras regiões do país como São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre (SOARES, 1998, p. 56). Os homens abandonavam as salas de aula. A feminização do magistério ganhava espaço. Era a possibilidade que a mulher dispunha de se engajar no mundo do trabalho. Tal possibilidade não subverteria as funções femininas: ser mãe, esposa e dona-de-casa. Eram funções cumulativas.

Após a diplomação os professores estavam habilitados a lecionar nos cursos primários público e privado. Para ser credenciado como professor público provisório o docente passava por exames nos quais constavam os principais pontos da prática nestes estabelecimentos primários. Fazia parte da avaliação uma prova escrita com a descrição de um passeio escolar, a apreciação de uma Festa da Árvore e de uma festa nacional realizada na escola, cujo tema seria a influência da educação na formação do caráter nacional.

A Escola Normal de Natal funcionou no Ateneu Norte-Rio-Grandense até 31 de dezembro de 1910. No ano seguinte, mudou-se para as instalações do “edifício escolar de mais amplas e majestosas proporções”, o Grupo Escolar Augusto Severo, na Praça homônima. “Todo mundo sabia que era ali a Escola Normal, mas se dizia que era o Grupo Modelo” (MORAIS, 2006, p.76).

Nesse estabelecimento funcionavam os três elementos que compunham uma Escola Normal de segundo ciclo, que era a formação de professores primários em três anos; ou seja, um Grupo Escolar e um Jardim Modelo, que serviam à prática das normalistas. A partir de 1910 o Ensino Normal passou a ser ministrado em quatro anos e compunha-se das seguintes disciplinas: Português, Francês, Aritmética, Noções de Geometria teórica e prática, Geografia Geral e particular do Brasil, História Geral e particular do Brasil, Educação Moral e Cívica, Noções de Física e Química aplicadas à vida prática, História Natural aplicada à agricultura e à criação dos animais. Este corpo de conhecimentos gerais e científicos era ministrado nos dois primeiros anos. Eram disciplinas especializadas que dotavam o Curso Normal de um caráter propedêutico à profissão docente. As disciplinas que compunham os dois últimos anos consistiam em: Pedagogia, História da Educação, Economia e Leis Escolares, Higiene Escolar, Desenho, Princípios de Música e Cantos Escolares, Trabalhos Manuais, Economia e Artes Domésticas (para o sexo feminino), Educação Física e Exercícios Infantis. Por fim, o local da prática seria no Grupo Escolar Modelo Augusto Severo. Esta experiência prática no cotidiano de uma instituição primária introduzia os docentes no magistério e dava ao Curso Normal aspectos instrumentais.

No final dos dois primeiros anos, os alunos submetiam-se a uma avaliação para aferir o aprimoramento nas matérias. Ao término dos dois últimos passavam por mais um exame de suas aptidões nas matérias e, por fim, na prática escolar adquirida no Grupo Modelo durante o ano letivo. Concluído o Curso Normal, os docentes estavam habilitados para atuarem no Ensino Primário, como professores em qualquer uma das instituições primárias do Rio Grande do Norte:

O Estado só reconhece, como tais, para o aproveitamento efetivo no magistério público, os professores diplomados pela Escola Normal do Rio Grande do Norte, externato dirigido por pessoa de livre nomeação do Governador, dentre os professores ou dentre os profissionais estranhos ao mesmo estabelecimento (RIO GRANDE DO NORTE. A Reforma do Ensino, 1917b, p.11).

Quando diplomados, os professores tinham o incentivo do Estado através do Livro de Honra. Os que obtivessem boas notas recebiam elogios, votos de louvor e outros tipos de comendas. O Livro de Honra foi criado pelo Artigo 195, da Lei Orgânica do Ensino de 1916, no qual os professores primários que se destacassem eram homenageados. Um estímulo à prática docente. O assentamento era considerado uma recompensa aos educadores que mais trabalhassem pela difusão e desenvolvimento do ensino. Para receber a láurea, os mestres tinham que se distinguir pelo trabalho intelectual, pela técnica escolar, bem como no cumprimento dos deveres profissionais e na dedicação à causa da instrução.

Em 26 de março de 1919 eram louvados pelo Diretor Geral da Instrução Pública, Manoel Dantas, e publicados no Livro de Honra os nomes dos professores primários que se destacaram no cenário educativo, bem como os respectivos números de alunos que obtiveram êxito escolar (RIO GRANDE DO NORTE. Livro de Atos, 1919, p.44). Constava neste livro os nomes dos professores primários Manoel Tavares Guerreiro, Luiz Antônio dos Santos Lima, Stella Ferreira Gonçalves, Oscar Wanderley, Guiomar de França, Stellita Melo e Anna Silva de Araújo. Professores estes que se destacaram, ao longo da vida, enquanto intelectuais atuantes na sociedade.

No entanto, esta não era a única manifestação honrosa concedida aos mestres. O Registro Profissional facultava aos docentes competentes e de boa conduta, informações apropriadas em concursos de títulos. O regulamento conferia o Prêmio Pestalozzi, uma medalha de ouro com efígie deste educador ou, ainda, o Prêmio Fröebel, uma medalha de prata com efígie do pedagogo (RIO GRANDE DO NORTE, 1910. Código de Ensino, p.125). Além da comenda, os docentes ganhavam viagens para observar e relatar os progressos do ensino em outros estados.

O combate ao analfabetismo, os meios práticos que podiam ser empregados com este fim, deveriam ser de atenção dos habilitandos. Os professores eram submetidos aos exames orais nas disciplinas ministradas nas escolas primárias. A prova em Língua Francesa era obrigatória. No que diz respeito à Pedagogia, os candidatos teriam que versar sobre os aspectos sumários da educação física, intelectual, religiosa e cívica. Os métodos de ensino, recompensas e punições também deveriam ser enfocados. Os candidatos aprovados fariam a prova prática para a avaliação de sua aptidão pedagógica.

A ação pedagógica dos professores primários era norteada por concepções didático-metodológicas, apresentadas nos Regimentos Internos dos Grupos Escolares, que normatizava também as Escolas Isoladas. Este documento incentivava a imposição da disciplina em sala de aula, regulava o comportamento de alunos e professores no interior da instituição escolar, assim como a disseminação de valores e normas educacionais e sociais. A mudança proposta nestes Regimentos Internos se materializava no ambiente escolar.

O mês de maio era singular. Neste mês realizava-se a Festa da Natureza, bem como a festa do patrono do Grupo Escolar Augusto Severo. No dia 12 de maio os alunos rendiam homenagens a Augusto Severo de Albuquerque Maranhão, rememorando o aniversário de morte deste norte-rio-grandense que dedicou-se ao estudo sobre a navegação aérea. Ele morreu a 12 de maio de 1902, na França, ao realizar um experimento com o balão dirigível denominado Pax.

As árvores, as flores, os frutos, as aves tinham “um culto fervoroso, de onde o coração humano aprende logo a virtude de praticar o bem” (BARBOSA, 1914, p.1). As festas do Grupo Escolar Augusto Severo cultuavam a Pátria com cânticos, exercícios, poesias. Os alunos decoravam e declamavam poesias, faziam discursos. Na Festa das Aves, uma metáfora da liberdade da ave com a Independência do Brasil, o objetivo era desenvolver os sentidos e o físico das crianças.

Tudo quanto se aprende agora é proveitoso, nutre o espírito desabrochante, sem aquela cantilena monótona das tabuadas e das demais disciplinas que o método antigo sabia estabelecer. A escola ensina ser tudo: útil, grande e bom. Explica os exemplos de modo a alma ficar bem iluminada e os meninos desejam aprender convictos de que todas as lições têm um substancioso interesse e um extraordinário fim (BARBOSA, 1914, p. 1).

Os processos de ensino intuitivo, o aprender-fazendo, e a formação específica do educador tinham relação intrínseca com a Pedagogia Nova. A prática dos preceitos modernos no ato de educar conferia unidade teórica, técnica e profissional, que buscavam garantir o efetivo proveito da instrução primária e valorizavam a profissão do professor primário.

Na década de 1920, a Escola Normal de Natal já estava consolidada como a instituição de preparo do magistério primário potiguar. O professor Nestor Lima, era o diretor da Escola Normal de Natal e o diretor da Instrução Pública, posteriormente, Departamento de Educação.

O Curso de Férias, realizado em janeiro dos anos de 1925 e 1926, promovido pelo Departamento de Educação, reunia os educadores, em seu primeiro ano, no Salão da Escola Normal de Natal e no seguinte no Teatro Carlos Gomes. Nestas reuniões os docentes ouviam palestras sobre doenças infecto-contagiosas, o ensino da língua, aritmética, geometria, cartografia, escrituração e administração escolar e orientações gerais sobre o ensino.

As assembleias tinham uma média de frequência de cento e vinte docentes da rede pública de ensino. Conforme Nestor Lima (1927) a Escola Normal de Natal havia formado mais de duzentos professores primários e a de Mossoró criada pelo Decreto n. 165, de 19 de janeiro de 1922, trinta, em fins da década de 1920. Muitos docentes formados na Escola Normal atuavam em instituições públicas como os Grupos Escolares “considerados escolas de qualidade e de grande prestígio social que se estendia ao corpo docente” (SOUZA, 1998, p. 73).

A atividade de ensinar era um ofício. Produzia práticas, consolidava a profissão docente e delineava condutas e mentalidades. Nas salas de aula, nos corredores, nos pátios e em outros meios, os professores representavam os artífices da moral atendiam aos preceitos vigentes. Enfrentavam desafios, ocupavam novos postos de trabalho na inspeção, fiscalização e produção de leis relativas ao ensino. Formas do fazer docente que evidenciam a história da profissão docente no Rio Grande do Norte.

Na década de 1930 são organizados os Institutos de Educação, os quais tiveram por referência as reformas de Anísio Teixeira no Distrito Federal, em 1932, e de Fernando de Azevedo em São Paulo, em 1933. O Decreto n. 411, de janeiro de 1938 reformou o Ensino Normal norte-rio-grandense. Por este dispositivo o Curso Normal passou de quatro para sete anos. Foram introduzidas as disciplinas ditas modernas, baseadas nas ideias escolanovistas, tais como: a Psicologia, a Sociologia e a Antropologia Educacional. Houve, também, a separação do curso de formação geral do curso profissional. Isto tornou obrigatório ao candidato à normalista, o Curso Secundário do Ateneu, regido por leis federais, como pré-requisito para o ingresso no Curso Normal.

Entre 1939 e 1971 são instituídos e implantados os Cursos de Pedagogia e de Licenciatura e consolidado o modelo das Escolas Normais. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação, Lei n. 5.692/71, institucionalizou o ensino profissionalizante no segundo grau, provocou alterações no Ensino Normal, e interferiu na orientação das Escolas Normais do Brasil. A referida lei estabelecia o 2º grau com habilitação específica para o magistério, em quatro anos, para o exercício no ensino de 1ª a 4ª séries. Dessa forma, o Curso Normal foi desativado e transformado em “Habilitação para o Magistério”, ocasionando, consequentemente, a tipologia das escolas. No período compreendido entre 1971 e a década de 1990 ocorre a substituição da Escola Normal pela Habilitação Específica de Magistério.

A Escola Normal de Natal preparava consoante a orientação da moderna Pedagogia os profissionais especializados em um modo de ensino e aprendizagem compatível com a tarefa de educar a infância. Desde sua fundação passou por diversos espaços, tais como o Atheneu Norte-Rio-Grandense, o Grupo Escolar Modelo Augusto Severo, o Grupo Escolar Antônio de Souza. Em 1952, a instituição é pela primeira vez dirigida por uma mulher, Francisca Nolasco Fernandes – D. Chicuta, educadora conhecida por sua profícua atuação na Escola Doméstica de Natal. Neste período, a Escola Normal de Natal passa a Instituto de Educação, instalado em edificação própria no bairro de Lagoa Nova, em Natal.

Os imperativos sociais, políticos e humanos que modificaram a instituição são denotados a partir da legislação educacional, dos regimentos, dos relatórios e registros da prática produzida pelos mestres. Em consonância com estas necessidades a Lei Orgânica do Ensino Normal, n. 4.024, de 20 de dezembro de 1961, oficializou como fins do Ensino Normal prover o pessoal docente necessário às escolas primárias, habilitar administradores escolares, desenvolver e propagar os conhecimentos e técnicas relativas à educação da infância. A Escola Normal foi extinta pela Lei n. 5.692, de 11 de agosto de 1971, que marcou o surgimento de novas configurações educacionais.

As Reformas de Ensino do Estado do Rio Grande do Norte desenvolveram as configurações do Ensino Primário e Normal ao normatizarem as instituições formadoras de educadoras e educadores primários e sua atuação nos Grupos Escolares. Indicavam os modos de fazer e condutas específicas na Escola Primária. As Escolas Normais são espaço de afirmação profissional, um lugar de reflexão sobre as práticas, que conferem aos professores a representação dos profissionais que produzem saberes e legitimam a profissão docente. Estas instituições de formação de mestres dão autenticidade a um saber produzido no exterior da profissão, que veicula uma concepção dos professores centrada na difusão e na transmissão de conhecimentos.

As singularidades locais e institucionais demonstram que a consolidação do ensino profissional para o magistério acontece no mesmo momento em que são delineadas as diretrizes para a organização educacional.



O passado é inacabado, uma vez que o historiador no presente desta escrita e da leitura ora realizada tem a possibilidade de utilizá-lo de diferentes maneiras. Neste estudo evidenciamos as representações em torno da formação de professores em Natal nas primeiras décadas do século XX. A análise dessa representação permitiu-nos demonstrar que a elite política privilegiava a preparação de mestres primários pela Escola Normal de Natal, espaço de práticas pedagógicas que produziam saberes e legitimavam a instrução.


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