Gt: Imaginário, representações literárias e deslocamentos culturais plano de trabalho para 2015 e 2016 Descrição do gt tópicos de estudos e linhas temáticas



Baixar 56,27 Kb.
Página1/5
Encontro06.04.2018
Tamanho56,27 Kb.
  1   2   3   4   5

GT: Imaginário, representações literárias e deslocamentos culturais

PLANO DE TRABALHO PARA 2015 E 2016
Descrição do GT - Tópicos de estudos e linhas temáticas
A crítica do imaginário, cujo núcleo central é o trajeto antropológico do homem, estuda a hermenêutica dos símbolos, das imagens e dos mitos no processo da criação literária, vendo neles um esforço poético de resgatar o homem de sua temporalidade, projeto que, segundo Gilbert Durand, tem falhado na corrente racionalista. Na obra O imaginário - ensaio acerca das ciências e da filosofia da imagem (2004), Durand lembra que o imaginário encontrou como opositora a corrente aristotélica racionalista, que exerceu no ocidente uma influência quase perene. O pensamento aristotélico exclui a imagem porque ela não pode ser “verdadeira” nem “falsa” e, além disso, ela propõe uma “realidade velada”, quando se sabe que a lógica aristotélica exige “claridade e diferença”. Por sua vez, a corrente platônica defende que a imagem fala diretamente à alma, representando um mundo ideal, opondo, desta forma, o mythos ao logos. O que o pensamento não consegue alcançar pela exposição racional, a imagem, o símbolo e o mito podem oferecer um sentido, uma possibilidade, uma via de acesso.

Teórico responsável pela sistematização da crítica do imaginário, Gilbert Durand elabora sua teoria a partir dos trabalhos de Gaston Bachelard, Carl Gustav Jung, Mircea Eliade – e do pensamento de discípulos desses estudiosos que gradualmente foram surgindo – além de material colhido em diversas culturas. Ana Maria Lisboa de Mello, pesquisadora que, de forma mais sistemática, introduziu nos estudos literários brasileiros a crítica do imaginário, fundando, em 2008, o Núcleo de Estudos sobre Imaginário e Literatura, no PPGL da PUCRS, explica as bases do pensamento de Gilbert Durand: são relevantes, na base do pensamento de Durand, duas fontes: a Escola de Eranos e a obra de Gaston Bachelard. De tendência gnóstico-científica, a Escola de Eranos, fundada em 1933, com a participação de Carl Gustav Jung, favorece sobremaneira o desenvolvimento de investigações interdisciplinares sobre o homem, superando a não-comunicação entre as ciências sociais e enfrentando o positivismo agnóstico da ciência ocidental. O conhecimento chamado “gnóstico” persegue a captação do “sentido” que não emerge do puro logos (na sua reflexão racional e objetiva), mas do nível mais profundo do mythos, da experiência vivida.

A crítica do imaginário observa nas artes como são traduzidos os arquétipos universais, considerando que os sistemas simbólicos estão ligados não só ao sujeito, mas à cultura que os produz. De acordo com Jung, “a imagem arquetípica constitui um correlato indispensável da idéia de inconsciente coletivo, indica a existência de determinadas formas na psique, que estão presentes em todo tempo, em todo lugar”. O arquétipo é inalterável, o que varia são os símbolos que expressam esse arquétipo. Dessa forma, a montanha, a árvore, o pássaro são símbolos do arquétipo ascensional. De igual modo, a casa, o útero, a igreja, o berço, o túmulo, fazem parte de uma constelação simbólica que reatualiza, a cada ressurgência, o arquétipo da intimidade e do repouso. Se os celtas sepultavam seus mortos nos troncos das árvores, os brasileiros os acolhem sob a terra. Em ambos os casos, está explícita a idéia de repouso e renascimento pela reintegração a um elemento da natureza.

Para Bachelard, a imagem é uma expressão arquetípica. Em seus estudos dos quatro elementos, o fenomenólogo resgata a poesia como meio de conhecimento, pois ela é da esfera do simbólico, do sensível e do subjetivo. Por meio de flutuações de técnicas e variações, o imaginário se fecha sobre algumas grandes imagens, conforme a competência do poeta. Por ser a manifestação de um arquétipo, não significa que a imagem tenha um “passado”, uma vez que “o poeta fala no limiar do ser”. Em A poética do espaço, escreve Bachelard: “Em sua novidade, em sua atividade, a imagem poética tem um ser próprio, um dinamismo próprio. Procede de uma ontologia direta”. É a condição de novidade da imagem que transporta o homem às profundezas de sua origem. A imagem, por isso, está acima de qualquer significante, cabendo a ela revigorar a língua, além de enriquecer o pensamento.

O ser humano traz em seu inconsciente imagens universais que se dariam a conhecer (sempre parcialmente) por meio de símbolos. O símbolo é a mediação entre o totalmente outro (o sagrado, o inconsciente) e o homem em suas vivências. A relação do símbolo entre significante e significado é epifânica, porquanto o símbolo é a “epifania de um mistério”. Assim, o símbolo não é uma representação direta e seu significado nunca é dado fora do processo simbólico. Valendo-se de Paul Ricoeur, Durand assinala as três dimensões do símbolo: a cósmica, pois o símbolo se liga ao mundo que nos rodeia; a onírica, pois os símbolos se ligam a recordações que emergem nos nossos sonhos (Freud); e a poética, pois o símbolo é produto da linguagem. Há que se lembrar, ainda, do caráter polivalente, ambíguo e até contraditório do símbolo. A inesgotável epifania do símbolo é consequência de sua “repetição instauradora”: o símbolo nunca é explicado uma vez por todas. A repetição o aperfeiçoa, pois um símbolo vai esclarecendo outro. Sem adotar uma posição culturalista, o teórico lembra que a simbolização é progressiva, e que a cultura tem um papel preponderante na genética simbólica, mas com a devida ressalva de que “os homens sempre pensaram com a mesma perfeição. Assim, o arquétipo primordial do divino estará se perpetuando, sempre, em mais uma imagem. Além das relações sociais, a arte, a filosofia, a religião, contribuem para o funcionamento da consciência simbólica.

Na obra O homem e seus símbolos, Jung conceitua o símbolo como palavra ou imagem que “implica alguma coisa além do seu significado manifesto e imediato. Esta palavra ou esta imagem têm um aspecto “inconsciente” mais amplo, que nunca é precisamente definido ou de todo explicado. A função do símbolo é comunicar ao consciente realidades que dizem respeito ao mais profundo do ser e que estão armazenadas no inconsciente coletivo e individual. O símbolo se manifesta em toda sua pregnância simbólica pelo sonho e pela criação artística. Cabe ao artista revigorar os símbolos, criando imagens que mantenham essa “pregnância simbólica”, sob pena de transformar um símbolo num “sintema”, um mero sinal, sem nenhum distanciamento do objeto evocado.

O mito é a morada do sagrado. Nele, os arquétipos e os símbolos se organizam em um sistema dinâmico, que tende a compor-se em relato. Também, conforme Mircea Eliade, “o mito conta uma história sagrada; ele relata um acontecimento ocorrido no tempo primordial, o tempo fabuloso do princípio”. O mito explica como as coisas passaram a existir. Ana Maria Lisboa de Mello elucida essa definição do mitólogo: o mito é, assim, pleno de significação, porque desvela o mundo, as organizações e a ética que preside as relações entre os homens. Ao mesmo tempo, é a palavra que revela e mantém os códigos da existência instituída, preservação que decorre da repetição periódica da palavra reveladora, através do ritual ou do relato.

O mito encerra os paradigmas das situações que não podem ser explicadas, oferecendo ao homem uma possibilidade de compreensão de si e do universo. O mito pode ser traduzido – é linguagem, seja a do culto, do rito, da magia – e concilia o eterno com o momento, as forças apolíneas com as dionisíacas, além de harmonizar “diacronicamente as entidades semânticas que não podem sobrepor-se sincronicamente”. Contudo, não basta ao poeta retomar um “mito cultural” – aquele dicionarizável, nas palavras de Bachelard – para engendrar uma ficção, é preciso que ele recrie esse mito primordial pela força psíquica da linguagem.

Portanto, as pesquisas desse GT se orientam pelo estudo das imagens, dos símbolos e dos mitos como expressões arquetípicas de uma obra de arte , e podem ser resumidas nas seguintes linhas:


  1. Questões teóricas e metodológicas do estudo do imaginário;

  2. História, memória e imaginário na criação literária;

  3. As relações entre literatura e mito;

  4. Imaginário, deslocamento e transferências culturais.




Compartilhe com seus amigos:
  1   2   3   4   5


©psicod.org 2017
enviar mensagem

    Página principal