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GT HISTORIA DO JORNALISMO
COORDENAÇÃO GERAL: MARIALVA BARBOSA (UFF)
MESA I: HISTÓRIA DO JORNALISMO – IMPRENSA E AUTORITARISMO

1 DE JUNHO – 14 ÀS 16 HORAS

COORDENAÇÃO: MAURICIO PARADA (PUC-RIO)

Entre vozes e silêncio: o jornalismo de A Tarde durante o regime militar (1968-1972)


Andréa Cristiana Santos1
No dia 15 de janeiro de 1972, nota do Comando de Operações de Defesa Interna (CODI-6) sobre a prisão de militantes do Partido Comunista do Brasil e da Ação Popular, ocorrida em agosto de 1971, era divulgada pelo A Tarde, jornal de circulação no estado da Bahia e região nordeste do país. Os militantes eram acusados de promover reuniões para reestruturar a Associação Baiana de Estudantes Secundaristas, entidade vinculada às organizações de esquerda clandestinas.

Com o título “Subversão no meio Estudantil: Alerta aos Pais”, a nota “comunicava” a família baiana que seus filhos estavam sendo contaminados pelo “germe do comunismo, veneno inoculado por falsos amigos e indivíduos mais velhos que, face sua experiência subversiva, conseguiram manter-se fora da lei”. Os pais deveriam manter sob vigília os seus filhos para que não fossem “inocentes úteis nas mãos de experientes agentes da subversão comunista2” .

O comunicado não se tratava de um evento casual propagado pelo regime militar, mas evidencia o clímax do processo de institucionalização da repressão política no país que, entre outras medidas, oficializou a censura à imprensa e utilizou os meios de comunicação para divulgar a hegemonia da Doutrina de Segurança Nacional e Desenvolvimento. Formulada pela Escola Superior de Guerra e implementada após o golpe militar de 64, a Doutrina visava justificar ideologicamente a imposição de um sistema de controle e dominação (ALVES, 1987:26). Utilizando-se da ênfase da constante ameaça dos “inimigos internos” à nação, ela incutiu na população um clima de suspeição e medo que permitiria aos militares desencadearem campanhas repressivas que, de outro modo, não seriam toleradas (MAGALHÃES, 1997).

Para autores como Maria Aparecida Aquino, a política de censura institucionalizada, exercida de maneira contínua e constante, ocorreu em dois momentos distintos no país: no primeiro governo de Getúlio Vargas, durante o Estado Novo, e no regime militar instaurado após 1964, iniciando com ações repressivas a jornalistas entre 1964 a 1968 até se consolidar com a presença de censores nas redações (AQUINO, 1999: 205).



Porém, o marco da censura institucionalizada é a partir de 13 de dezembro de 1968, data de edição do Ato Institucional nº 5 (AI-5). A partir desse momento, veículos de comunicação, como Jornal do Brasil, Estado de São Paulo, passaram a receber visitas de censores para vistoriar a publicação. Quando não estiveram presentes, tornou-se comum a prática de enviar bilhetes com recomendação de cortes em relação ao conteúdo publicado, além de editoras necessitarem submeter à censura prévia matérias das suas publicações, como ocorreu com a revista Veja, da Editora Abril, e a imprensa alternativa, como Movimento.

Assim como ocorreu a censura prévia a publicações, o mecanismo de autocensura também foi instaurado nas redações, com o receio de jornalistas de publicarem assuntos que não eram tolerados, como eventuais referências às ações das organizações de esquerda. O jornal A Tarde e demais periódicos também vão se defrontar com os limites imposto por essa circunstâncias histórica de cerceamento à liberdade de imprensa e isto se refletirá na cobertura jornalística.

Neste artigo, interessa-nos analisar como A Tarde repercutiu os ideais do regime militar e silenciou questões importantes à esfera pública, como a participação da sociedade civil e, particularmente, dos segmentos estudantis. Face a um Estado autoritário, o jornal exerceu um papel importante ora pelo “silenciamento” de questões inerentes à vida pública ora por divulgar atos e ações do regime militar.

Diante disto, analisamos como a construção jornalística sobre as manifestações estudantis de contestação ao poder político instituído, ocorridas no ano de 1968 em Salvador, e divulgadas abundantemente pelo A Tarde, foi “silenciada” após a política de cerceamento à liberdade de expressão.

Consideramos que a cobertura jornalística sofreu ingerências dos mecanismos de repressão política, mas também refletiu a linha editorial que considerava o regime militar como “restaurador da democracia”. Os atos de exceção, como restrição ao Hábeas Corpus, a cassação de mandatos eletivos, a perseguição a organizações políticas de esquerda, se não são aceitos integralmente pelo jornal, foram considerados como compreensíveis no momento em que o “outro”, a ameaça do inimigo interno, estava representado pelos grupos de oposição ao regime.

A partir da nota abordada no inicio deste artigo, procuraremos demonstrar como a ideologia da Doutrina de Segurança Nacional e Desenvolvimento foi aceita pelo jornal e teve reflexos na construção jornalística. O periódico que, anteriormente, repercutiu as manifestações estudantis paulatinamente cedeu espaço da cobertura jornalística para notas oficiais que associavam os estudantes a “terroristas”; “germe do comunismo”, “falsos amigos”, peritos em “subversão”, “inocentes úteis”.

Para tanto, trazemos breve histórico do jornal e análise de conteúdo acerca da construção jornalística no período entre 1968 e 1972, tendo como ponto de inflexão o AI-5, que impõe barreiras ao trabalho jornalístico e a organização da sociedade civil.


A empresa jornalística A Tarde
Ernesto Simões Filho3 criou A Tarde, em 1912, almejando praticar um jornalismo informativo e de interesse publico. No primeiro número, o jornal informa ao leitor que sua política editorial seria imparcial, contudo não seria indiferente aos embates do direito; neutra, mas sem se esquivar das controvérsias partidárias quando interessarem ao bem estar coletivo; ponderada, não provocará rixas pessoais, afeitos a barrear a honra alheira, mas não cederá um espaço na reação enérgica e viril (CALMON, 1986: 67).

O manifesto seria um padrão de conduta a ser seguido pelos profissionais que trabalhariam no vespertino. O jornal nascia para se contrapor ao Diário da Bahia, fundado em 1856 e vinculado ao Partido Liberal, depois ao Partido Constitucional e, em 1901, passou a ser propriedade de Severino Vieira, governador do estado de 1900 a 1904. A vinculação com partidos políticos era tradição da imprensa baiana entre os anos de 1910 a 1930 (SANTOS,1985).

Quando foi criado, A Tarde procurava ir de encontro a esta tradição e desejava se instituir na esfera pública como grande empresa jornalística que utiliza a noticia como mercadoria. O jornal trazia inovações como a publicação de clichês para ilustração de notícias e disposição gráfica, destacando com títulos fortes as notícias pequenas e investigativas.

Ao longo de sua história, contudo, o jornal vai assumir posicionamento político-ideológico e participar da vida política, promovendo campanhas como a “Revolução Sertaneja4”, de 1920, em oposição ao governo de J.J. Seabra e vai se aliar aos coronéis para se opor à Revolução de 30. Neste período, a sede do jornal foi ameaçada de ser totalmente depredada pelos populares e aliados da Aliança Liberal, sofreu censura e Simões Filho foi preso, depois deportado para o exílio durante os primeiros anos do governo de Getúlio Vargas.

As campanhas anticomunistas também foram uma constante no jornal. Em contrapartida, consolidou aliança com ideais do cristianismo, cuja presença ressoa até hoje, com a concessão de espaço editorial dominical do caderno de opinião ao representante da Igreja Católica e, historicamente, sempre teve boas relações com a Associação Comercial da Bahia.

A postura de um jornal informativo que prioriza os fatos em detrimento da opinião nunca foi seguida rigorosamente pelo jornal. Simões Filho costumava referir-se ao jornal como “independente, político e noticioso”. Havia o espaço para o noticiário, mas o jornal demonstrava posicionamento político e o desejo de interferir na opinião pública. É o que podemos observar no contexto da implantação do golpe militar de 1964.
A Cobertura jornalística e o Golpe Militar de 64
No mês de março de 1964, A Tarde vai repercutir no seu noticiário tanto a movimentação de grupos contrários ao governo João Goulart como as ações e atos do governo a favor das reformas sociais de base, entre elas a possibilidade de fazer a reforma agrária em áreas às margens das rodovias brasileiras. Contudo, a repercussão do Comício da Central do Brasil, em 13 de março, levou o jornal a inferir que um clima de intranqüilidade dominava a nação.

O vespertino construiu um discurso de que a sociedade estava ameaçada pela invasão de comunistas no governo de Goulart e utilizava justificativa, como as medidas de aumento da tributação sobre o papel, para alegar que o governo cerceava à liberdade de imprensa. O horror ao comunismo, a ameaça à liberdade de imprensa5 e à garantia da democracia comandada por grupos políticos aliados ao status quo criavam as condições para que o periódico se colocasse contra o governo de Goulart.

A posição do jornal A Tarde não era muito diferente do pensamento de parte da sociedade baiana e brasileira. Para autores como Jacob Gorender (2004) a deposição de Goulart refletiu uma sociedade cindida e funcionou como “contra-revolução preventiva”. Segundo o autor, o golpe militar não resultou apenas de manobra entre o círculo político-militar, mas teve apoio social: “de um lado estariam, a favor do rumo progressista e democrático, os trabalhadores. No lado contrário, a classe média em peso”.

A Bahia é um exemplo desse processo de cisão na sociedade, cujas contradições foram refletidas pelo jornalismo de A Tarde. Nos primeiros meses antes da deposição de Goulart, o governador Lomanto Júnior era considerado um aliado do governo constitucional. No dia 1º de abril, o governador divulgou nota na imprensa a favor da legalidade democrática, mas sem fazer menção ao governo Goulart.

Em Salvador, o Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Destilação e Refinação no Estado da Bahia (SINDIPRETO/Ba), que representava setores organizados da sociedade civil, teve a sede invadida, depredada e a diretoria presa e destituída (OLIVEIRA, 1996). O imediato pós-golpe de 64 teve reflexos na UFBa. Houve aceitação do golpe pelo reitor Alberico Fraga e do conjunto de professores por meio de medidas para investigar professores e funcionários que, supostamente, foram reconhecidos como “comunistas” (BRITO, 2003).



Vitorioso o golpe de 64, o jornal passou a ser um defensor do novo regime em nome de uma normalidade democrática, sem considerar que a destituição de um governo democraticamente eleito era um passo para a institucionalização de um regime autoritário. Para A Tarde, o golpe militar, que seria referenciado na linguagem jornalística como “Revolução”, propunha-se a restaurar o regime democrático, compreendido como manutenção da integridade das instituições políticas, respeito à ordem, às leis, à política econômica liberal e o repúdio ao comunismo. Em editoriais, o apoio ao regime militar se justificaria como uma medida necessária para evitar o “caos” e a influência comunista, advinda com a Revolução Cubana (1959).

Porém, não obstante, em concordar com a nova ordem política e econômica que se instaurava, o jornal, gradativamente, também vai repercutir as contradições internas que perpassavam a sociedade, como a posição de parlamentares ligados ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e as manifestações de contestação ao regime militar como as passeatas estudantis ocorridas entre 1966 a 1968.






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