Gt 4 – epistemologia das práticas sociais a doutrina social da igreja católica e a açÃo educativa voltada ao trabalhador em recife (1937/1945)



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GT 4 – EPISTEMOLOGIA DAS PRÁTICAS SOCIAIS
A DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA CATÓLICA E A AÇÃO EDUCATIVA VOLTADA AO TRABALHADOR EM RECIFE (1937/1945)
Lílian Renata de Mélo Filho1
O presente estudo se propõe a analisar a presença da doutrina social católica nas ações assistenciais e educativas desenvolvidas pelo Centro Educativo Operário. Esta instituição criada em 1935, em Recife, teve grande apoio e desenvolvimento durante o período do Estado Novo (1937/1945) na interventoria de Agamenon Magalhães. Sendo uma instituição criada por um militante católico, o Sr. Milton Pontes, que pertencia à Congregação Mariana, o Centro Educativo objetivava impedir a propagação da ideologia comunista entre os trabalhadores recifenses, tendo suas diretrizes definidas com base em valores católicos expressos nas Encíclicas Rerum Novarum e Quadragesimo Anno, que enfatizavam, entre outros pontos, a necessidade de harmonia entre as classes sociais.

Para estudar o conteúdo das encíclicas nas quais se expressam a doutrina social da Igreja Católica, buscando verificar como ele se reflete na proposta educativa do Centro Educativo Operário, nos valemos de Orlandi (1987), que além de abordar a técnica de análise de discurso, enfoca o discurso religioso.

Concordando com Orlandi (1987), vamos considerar que a coerção realizada pela ideologia da Igreja se propõe a transformar a força em direito e a obediência em dever na construção de um sujeito submisso.

Partindo das Encíclicas Rerum novarum e Quadragesimo anno – documentos que expressam a doutrina social da Igreja – tomados aqui como as principais fontes para estabelecer a relação com a proposta educativa dos Centros, constatamos a utilização da Palavra como objeto de coerção. Orlandi (1987) considera que a religião constitui um espaço interessante para se observar o funcionamento da ideologia, e nesta, o lugar ocupado pela Palavra, onde a Palavra de Deus pode ser usada no sentido de construir um discurso autoritário e monossêmico. 2

Observamos como algumas expressões como “obediência”, por exemplo, podem ser apresentadas como a única via de salvação dos operários. A “harmonia” é outra palavra que, ao ser usada para caracterizar como devem ser as relações entre patrões e empregados, será considerada um lenitivo contra as idéias comunistas, constituindo desta forma um elemento importante e muito valorizado na ação educativa que permeia todas as atividades do Centro Educativo.

Conforme Gramsci (1966b apud ORLANDI, 1987), a religião contém em si duas concepções: a de mundo e a de atitude prática, sendo necessário o estudo das ideologias política e religiosa porque elas constituem formas de concepções de mundo.

Rouanet (1978) esclarece que, para Gramsci, a Igreja Católica é uma sociedade civil autônoma, dentro da sociedade civil em geral, tendo sua sobrevivência ideológica devida a sua consistência homogênea e estrutura ideológica. No período que estudamos pudemos constatar tal fato. A Igreja, que sofrera um golpe tremendo com a laicização e que perdera espaços de atuação importantes, não só na educação, mas em outros campos sociais, (em decorrência de outras medidas como a instituição do casamento civil, a secularização dos cemitérios, etc.) mantivera sua força preservada e seu espaço social garantido, apesar da laicização aparente.

Orlandi (1987, p.250) afirma “Que a fé é um dos parâmetros em que se assenta o princípio da exclusão. E o espaço em que se dá a exclusão é a igreja: os que pertencem a ela (os que acreditam) e os que não pertencem (os que não acreditam)”. A (re) educação do operário atendido por meio do Centro Educativo passava essa idéia de exclusão para os que não incorporassem os princípios da doutrina social da Igreja Católica, expressa nas encíclicas Rerum novarum e Quadragesimo anno, fartamente divulgadas entre eles. Além disso, a questão social estava nelas bem contemplada, só que os ganhos a serem obtidos pelos operários deveriam resultar de uma sensibilização junto aos empregadores, nunca de um movimento reivindicatório, pautado por ideologias contrárias aos valores cristãos voltados para Deus, Pátria e Família.

Arnóbio Tenório, componente da equipe de governo do Interventor Agamenon Magalhães, em relatório que trata da Interventoria no interior de Pernambuco, enfatiza a contribuição dos Centros, orientados pela Doutrina Social da Igreja Católica, não só para a ação educativa e social, como também para a o encaminhamento de soluções voltadas para importantes questões trabalhistas. Afirmando que:
Não se fechando em simples preocupações econômicas, nem proporcionando apenas vantagens materiais que, isoladas, são agentes de perturbação e revolta, não descansando no comodismo das disponibilidades doutrinarias, mas orientando-se com decisão e coerência pelos rumos claros dos princípios cristãos afixados nas celebres cartas pontifícias, os Centros Educativos (...) trazem a solução do problema trabalhista no Brasil.3
Aqui fica claro que a Igreja reconhecia que havia um problema trabalhista a ser enfrentado e via nos Centros um instrumento para fazê-lo. Ao estabelecer uma relação entre o poder da Igreja Católica pelo convencimento, através de suas encíclicas, contra o “comodismo das disponibilidades doutrinarias”, o Sr. Arnóbio Tenório aponta como a doutrina da Igreja poderia repercutir no campo das relações trabalhista-sindicais, através dos Centros, contribuindo não apenas para educar mas para formar um operário não somente temente a Deus, mas também ao Estado. Conforme Pontes (1940, p.04) o Centro deveria ser um “obstáculo á luta de classes, promovendo o convívio social”4, já que “Elles não alphabetizam apenas; instruem o operário nos seus deveres para com Deus e a Nação”.5

A encíclica Rerum novarum e, posteriormente, a Quadragesimo anno, vão aparecer nos discursos referentes à orientação doutrinária do Centro Educativo Operário, permeando as falas dos católicos envolvidos com a proposta de ação educativa de tais instituições. Nas suas falas são sempre ressaltadas as necessidades de se orientar e controlar o operariado não somente através do ideário do Estado Novo, mas também pela doutrina da religião Católica, dois discursos profundamente imbricados e afinados.





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