Gt 1 epistemologia da pesquisa em educaçÃO: abordagens colaborativas a construçÃo da história profissional de professores universitários


NARRATIVA DE VIDA PROFISSIONAL DE PROFESSORES UNIVERSITÁRIOS



Baixar 2,18 Mb.
Página3/147
Encontro27.04.2018
Tamanho2,18 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   147
NARRATIVA DE VIDA PROFISSIONAL DE PROFESSORES UNIVERSITÁRIOS

Nóvoa (1988, p. 126) defende que no processo de formação dos(as) educadores(as) deve-se conceder atenção especial às suas vidas, pois o saber de referência desses(as) professores(as) está ligado às suas experiências e à sua identidade como docente: “O adulto em situação de formação é portador de uma história de vida e de uma experiência profissional; as suas vivências e os contextos sociais, culturais e institucionais em que as realizou são fundamentais para perceber o seu processo de formação.”

Nessa perspectiva, Dominicé (1988a) recomenda que a formação do(a) professor(a) parta da construção da subjetividade de quem será esse(a) futuro(a) profissional, haja vista que sua formação está indissociavelmente ligada à produção de sentidos sobre vivências e sobre experiências de vida. Nesse sentido, Nóvoa (1988, p. 117) “[...] reforça o princípio segundo o qual é sempre a própria pessoa que se forma e forma-se na medida em que elabora uma compreensão sobre o seu percurso de vida; a implicação do sujeito no seu próprio processo de formação torna-se assim inevitável”.

Produções acadêmicas atuais vêm ressaltando a importância de o professor formador agregar estratégias de pesquisa à trajetória formativa do(a) estudante e, ainda, de incorporar, na prática e no cotidiano da sala de aula, os pressupostos teóricos relativos à pesquisa como princípio educativo, ou seja, utilizar esses princípios em uma dimensão didática que alie pesquisa e formação (NÓVOA, 1992, 1988; DESGAGNÉ, 2001).

Nóvoa (1988, p. 117) ressalta que a investigação é emancipatória quando se volta tanto para o processo educativo quanto para o processo de produção de conhecimentos, aproximando, sem fazer coincidir, esses dois processos essenciais para a formação do(a) professor(a). Nesse sentido, afirma que as histórias de vida têm a dupla função de, ao formar, também desencadear “[...] reflexões teóricas sobre o processo de formação dos adultos, dando aos formandos o estatuto de investigadores.” Dessa forma, cria “[....] as condições para que a formação se faça na produção do saber e não, como até agora, no seu consumo.”

Perrenoud (1993, p. 125-129) também se manifesta com relação a esse aspecto, ressaltando que a investigação talvez seja "[...] a única maneira eficaz de desenvolver o espírito crítico e a autonomia dos professores face ao discurso das ciências humanas, incentivando, ao mesmo tempo, uma atitude ativa, exigente e pragmática relativamente às investigações em educação". A investigação poderia, ainda, conforme esse autor,


[...] contribuir para a adoção, por parte dos professores, de uma prática refletida, ou seja, de uma disposição e competência para análise individual ou coletiva das suas práticas, para um olhar introspectivo, para pensar, decidir e agir tirando conclusões e, inversamente, para antecipar os resultados de determinados processos ou atitudes.
Nessa perspectiva, com base em Nóvoa (1992, 1988), ressaltamos a importância do método (auto) biográfico não apenas como instrumento de investigação, mas também (e sobretudo) como procedimento de formação. Na visão de Nóvoa e Finger (1988), essa linha de trabalho tem favorecido a construção de nova epistemologia da formação, capaz de fazer repensar as questões de formação e acentuar a riqueza das histórias narradas para o trabalho de reflexão sobre “o ser e o tornar-se professor(a)”.

De acordo com Moraes (1999/2000), na literatura educacional são várias as nomenclaturas usadas para denominar os procedimentos usados para construir informações a partir da história de vida dos colaboradores. Dentre os diferentes termos, destaco os mais citados como a (auto)biografia, o depoimento oral, a história de vida, a história oral temática, o relato oral de vida, narrativa de vida e de formação, dentre outros utilizados indistintamente pelos pesquisadores e formadores para denominar o método e os procedimentos utilizados nas suas pesquisas. Convém, desse modo, fazer uma diferença entre essas várias denominações, principalmente no que se refere à forma específica de agir do pesquisador. Na história de vida e na história oral de vida, embora o pesquisador dirija o diálogo, o narrador é quem determina o fio condutor de seu discurso. Na história oral temática, no relato oral de vida, no depoimento oral e na narrativa de formação, o diálogo é conduzido pelo pesquisador que opta pelos temas que interessam diretamente ao estudo. Outra diferença que destacamos é com relação ao depoimento oral, à história de vida e ao relato oral de vida. No primeiro caso, o pesquisador obtém narrativas de fatos vividos em determinada situação, ou de participação em instituições que ele está estudando. No segundo caso, o relator narra momentos de sua existência vividos em um determinado tempo e, no terceiro caso, o narrador aborda determinados aspectos de sua vida, isto é, a narrativa é direcionada para uma temática específica, determinada pelo pesquisador (MORAES, 1999/2000).

As narrativas expressam o efeito que o trabalho com história de vida exerce sobre os(as) professores(as) em processo de formação, pois eles passam a compreender a profissão docente na voz de pares experientes, percebendo a complexidade de sua tessitura e as possibilidades que as histórias de vida oferecem para a construção de novas versões sobre o ser professor(a). Dessa maneira, o trabalho que faço como pesquisadora proporciona oportunidades para que os professores percebam que a história de outros parceiros funciona como lentes que são postas diante de seus olhos, ajudando-os a compreender como se tornam professores(as). Nesse sentido, utilizo as narrativas como procedimento de pesquisa e formação que permite a (re)organização de experiências que expressam as trajetórias diferenciadas do ser e tornar-se professor. É por meio dessas narrativas que os professores desvelam elementos que compõem o pensar e o agir profissional, criando bases para a compreensão da própria profissão docente.

Dessa maneira, a história de vida é comumente apontada, nos estudos sobre a profissão docente, nacional2 e internacionalmente3, como recurso teórico-metodológico que permite a reconstrução da profissão docente, uma vez que traz à tona as trajetórias, as experiências, os valores, as concepções e os saberes docentes que permeiam as práticas dos professores, permitindo que as lembranças sejam reorganizadas à medida que fatos passados são trazidos para o presente, a fim de serem reinterpretadas, bem como favorece processos formativos realizados a partir da reflexividade sobre a atividade docente, favorecendo a articulação entre a teoria e a prática de ensinar.

Os trabalhos com histórias de vida vêm sendo utilizados nos processos formativos, já há algum tempo como ferramenta para a formação do professor(a). Atualmente, consideramos que o que é significativamente novo na utilização desse método nos processos de formação de professores(as) é a sua utilização como instrumento mediador da produção de conhecimentos científicos e da emancipação profissional (FONTANA, 2000).

Em direção a essa compreensão e concordando com Alarcão (2003), afirmo que quando as histórias de vida são trabalhadas em processos de formação continuados do professor(a) apresentam grandes possibilidades de análise e compreensão da profissão docente, permitindo que a reflexão crítica plante uma reação contra o assujeitamento e a resignação que marcaram e marcam a condição psicossocial do ser professor.

Os elementos citados e a possibilidade de compreender o percurso de vida pessoal e profissional do docente fazem das histórias narradas momentos de produção de conhecimentos e autoformação. Nesse processo, é necessário considerar a importância de não se separar a pessoa do profissional, conforme afirma Nóvoa (1992).

Dessa maneira, as histórias de vida põem em evidência o modo como cada professor(a) mobiliza os seus conhecimentos, seus valores, as suas emoções, os seus conceitos, possibilitando que sejam identificadas rupturas e continuidades com as práticas docentes construídas coletivamente. Dessa forma, asseguram o lugar do indivíduo na história coletiva da categoria, respondendo, ao mesmo tempo, pela reorientação profissional. Nessa direção, Thompson (1997, p. 57) afirma:

O processo de recordar é uma das principais formas de nos identificarmos quando narramos uma história. Ao narrar uma história, identificamos o que pensamos que éramos no passado, que pensamos que somos no presente e o que gostaríamos de ser. As histórias que relembramos não são representações exatas do nosso passado, mas trazem aspectos desse passado e os moldam para que se ajustem às nossa identidade e aspirações atuais.
As histórias de vida e os relatos orais e escritos reconstituem, recuperam os acontecimentos passados, permitindo a análise da evolução, no campo educacional, das práticas docentes, do trabalho diário do professor, do seu saber. Estou empregando o conceito de saber tendo como referência Tardif (2002). O autor destaca como atributos do saber os conhecimentos, as competências, as habilidades e as atitudes. Dito de outra forma por Nóvoa (1988, p.126) “[...] do saber (conhecimento), do saber-fazer (capacidade) e do saber-ser (atitudes)”.

Várias são as vantagens que o uso da (auto)biografia traz para a formação de professores(as). Aquela que consideramos mais relevante é o fato de esse método desvelar o passado de quem conta sua história, a partir de visão particular e localizada de mundo (do contador da história). Nesse processo de desvelamento, o pesquisador estimula o professor(a) a narrar integralmente a sua vida, destacando fatos que caracterizam sua infância, a família, os amigos, a juventude, o trabalho, os problemas, conflitos, projetos, sonhos e realizações.

Na visão de Meksenas (2002), para trabalhar com histórias de vida, é necessário fazer vir à tona o maior número possível de informações a respeito da vida daqueles que participam desse processo, tratando-se de colher, por meio de gravação sonora ou filmagem, a narrativa dos pesquisados sobre o modo como eles reinterpretam seu passado, sua visão de mundo, seus valores e projetos. Dentre algumas pistas metodológicas acerca do uso de histórias de vida no âmbito da formação de professores indicadas pelo autor, destacamos: estudar o desenvolvimento profissional com base tanto nos fatores psicológicos e físicos, quanto culturais; identificar as inter-relações entre os momentos de vida dos professores e os da carreira; privilegiar uma abordagem reflexiva que valorize a narração, segundo as circunstâncias em que elas foram vividas; e, por último, evitar as generalizações, reconhecendo os limites que essa metodologia abarca.

Com base nas considerações expostas, realizei esta pesquisa que se materializou nas histórias de vidas narradas por professores que atuam na educação superior. Estimulamos os professores a contar suas histórias, motivando o grupo que ouviu as narrativas a refletir sobre o saber e fazer do professor universitário. Selecionei para apresentar, neste artigo, as histórias - de alguns dos colaboradores -, que serão recontadas a seguir.




: archives -> cd8
cd8 -> A articulaçÃo teoria-prática na formaçÃo docente
cd8 -> Gt 8 – epistemologia da educaçÃO – abordagens fenomenológica / etnometodológica / multirreferencial / interacionista
cd8 -> Gt 1 epistemologia da pesquisa em educaçÃO: abordagens colaborativas a construçÃo da história profissional de professores universitários
cd8 -> Gt 4 – epistemologia das práticas sociais a doutrina social da igreja católica e a açÃo educativa voltada ao trabalhador em recife (1937/1945)
cd8 -> Gt 5 – epistemologia dos dispositivos didáticos: o ensinar e o aprender a articulaçÃo língua e uso na disciplina de língua portuguesa do ensino médio: a perspectiva dos documentos oficiais
cd8 -> Gt 6 – epistemologia dos dispositivos didáticos: educaçÃo de jovens e adultos
cd8 -> Gt 9 – epistemologia da educaçÃO – abordagens histórico e histórico-políticas concepçÕes e práticas de alfabetizaçÃO
cd8 -> A articulaçÃo teoria-prática na formaçÃo docente


Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   147


©psicod.org 2017
enviar mensagem

    Página principal