Gênero e poder


A areia movediça dos tempos atuais e a situação do homem e da mulher



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2. A areia movediça dos tempos atuais e a situação do homem e da mulher

Ao longo da história da humanidade, como muito bem nos mostra Nolasco (2001), a violência esteve associada à masculinidade: seja a representação do soldado na guerra, do caçador inescrupuloso, do boxeador no ringue ou ainda do assaltante e do assassino.Os símbolos da condição masculina têm sido o carro (se for um carrão, melhor!), o prestígio e o poder.

Mas... O que é ser um homem? O que se espera do homem? Virilidade, agressividade, determinação? Cavalheirismo, bom-senso, delicadeza? Afinal, assim como Freud perguntou “o que quer a mulher?”, podemos também indagar: o que quer o homem?

Badinter (1993), ao escrever sobre a identidade masculina, questiona: “A masculinidade é um dado biológico ou uma construção ideológica?” (p.23).

A essa formulação, acrescento: e a feminilidade?

Todavia, como muito bem esclareceu Stoller (1993), masculinidade e feminilidade referem-se à identidade de gênero e comportam aspectos biológicos e psicológicos. Sem dúvida, a influência da cultura e das ideologias que a permeiam devem ser levadas em conta.

Quando Simone de Beauvoir (1949) escreveu sobre a mulher, foi categórica ao afirmar que ela não nasce mulher, mas torna-se. Da mesma maneira, o homem não nasce homem, ele se torna homem. E a masculinidade de hoje é bem diferente da de ontem: é múltipla, sutil e indissoluvelmente ligada ao feminino.


Nas palavras de Ortiz (1995), a noção de machismo é “uma construção estética, adialética e aistórica, que descreve mais do que explica a dinâmica masculina.” (p.150). É no discurso masculino que se identifica a dinâmica dessas relações, quando o homem defende a subordinação e a desvalorização da mulher. Para o machão, ela é considerada objeto de prazer, jamais poderá contrariar suas falas e decisões. O que ele espera da mulher é total submissão. Esse homem apresenta-se como autoritário e dominador, potente e competitivo, é o provedor. Super-Homem?

Conforme Ramirez (1989), os homens latino-americanos são chamados de machistas e, fazendo jus ao termo, considerados mulherengos, brigões, farristas, beberrões, agressores das mulheres, grosseiros. E até mesmo bárbaros, selvagens, homens das cavernas... Não se pode deixar de mencionar, também, entre nós brasileiros, a poderosa presença dos patriarcas e dos coronéis como grandes representantes do machismo.

Nos anos cinqüenta e sessenta, um complexo de atitudes e atributos do homem latino - uma verdadeira síndrome - pode ser identificada, acompanhada de estereótipos negativos e juízos valorativos como a agressividade e a violência, o desejo de controle onipotente, a onisciência, o narcisismo e a sexualidade atuada, contrastando com a valorização do europeu do século XIX que evidencia autoridade, força e racionalidade.

De acordo com Badinter (1993), podemos identificar, na atualidade, diferentes tipos de homens. Segundo a autora, há o homem duro e o homem mole. O primeiro, mutilado do afeto, tem a sua feminilidade amputada. Como modelos, temos o supermacho, o Marlboro man, Rambo e o Exterminador. O homem duro, quando deixa cair a sua máscara, permite entrever um bebê que treme.

Nas palavras de Ortiz (1995), “o poder masculino, que representa, definitivamente, certos privilégios para o homem nas sociedades patriarcais, também significa angústia e muita solidão existencial.” (p.151).

O homem mole, homem doce ou homem-pano-de-prato, a porção mulher, o homem rosa renuncia voluntariamente os privilégios masculinos (poder e superioridade do macho) e é partidário da ampla igualdade entre homem e mulher, tipo este de relacionamento que envolve uma construção trabalhosa.

Para Kehl (1998), o homem que historicamente deteve a palavra é que produzirá o desejo que vai habitar a mulher. E aí, então, ela se torna o sintoma do homem, expressando as angústias e os conflitos dele.“Uma construção defensiva da mulher. Mulher-sintoma do homem. Mulher-sintoma da cultura. Mulher-sintoma de si. .Sin-toma. Sim-thoma! O que é preciso é sin-thomar!” (Saad, 2003). Mas... Há homens ou mulheres de verdade? Quais são as suas características - se é que há ? Que representação é essa? Que fantasias envolve?

Quanto ao poder masculino, sem dúvida, o seu símbolo é o pênis, como sobejamente conhecemos. O falo, representado pelo pênis (que quanto maior melhor) é o centro de onde emana o poder. Aliás, isso pode ser observado tanto nos cultos fálicos da Antiguidade como nas expressões artísticas na Grécia Antiga ou no discurso latino que atribui colhões ou aquilo roxo ao homem todo-poderoso. E a falta de lágrimas, a ausência de sentimentos são consideradas fraquezas de mulher... “Homem que é homem não chora!’

O poder, então, é entendido, como bem apontou Ramirez (1989), como respeitabilidade, autoridade, invulnerabilidade, força... E, ainda, segundo o autor, fazer-se homem é processo difícil e doloroso e que o converte em seu próprio opressor.

Relembrando as características atribuídas ao homem, temos os adjetivos forte, autocrítico, aventureiro, arrogante, decidido, assertivo, dominador, rude, desafiador, orientado para a realização, silencioso, firme, provedor, na hora H resolve tudo sozinho nem que seja na base da pancada!...

Vinícius de Moraes expressou isso assim:

“Preciso ser delicado/ porque dentro de mim mora um ser feroz

e fratricida./ Como um lobo.”

(Elegia ao primeiro amigo)


Este homem tem mais do que um lobo, tem um dinossauro dentro, a despeito de ser profissional liberal, progressista, humanista, urbano, pós-moderno, pós-graduado, pós-tanta-coisa... Esse dinossauro-dentro, de dimensões respeitáveis, salvo da extinção na era mesozóica, habita as profundezas abissais do íntimo masculino. E dependendo da fossilização, das condições ambientais e do verniz cultural, comporta-se como a terrível fera que é....

Já, para a mulher, as características que encontramos são: fraca, frágil, gentil, sentimental, compreensiva, emotiva, dócil, dependente, submissa, sensível, orientada para a afiliação. Em comerciais na televisão, nota-se que ela aparece como objeto de desejo e consumo, dependente, ansiosa de amparo e proteção, feliz como boa mãe e esposa.

Na relação com a mulher, o homem-que-tem-o-dinossauro-dentro a trata como objeto, não leva em conta as suas opiniões nem seus desejos, fala palavrões, despreza a sua companhia quando a televisão exibe o jogo do seu time, cobiça a mulher do próximo e também dos longínquos, cobra fidelidade absoluta e total compreensão para os seus erros (que ele, evidentemente, não cometeu...).

E a mulher, o que aconteceu com ela? Queimou o sutiã e, aí, o seu peito caiu e precisou implantar uma prótese...

A mulher, freqüentemente tem dupla ou mesmo tripla jornada de trabalho, salário desigual, convivência com homem que nem sempre compartilha com ela as tarefas domésticas, experimenta culpa por “abandonar” a família quando sai para o trabalho e... por


tanta coisa, muitas vezes tem vontade de largar tudo e entregar os pontos. Na verdade, ela comumente deseja jogar a toalha no ringue - bordada a mão pela vovó - e... sumir!

Com a Revolução Tecnológica, todavia, e graças a ela, o homem não precisa mais acordar de madrugada, pegar o tacape e caçar a anta sua de cada dia. A lei do mais forte foi substituída pela lei do mais talentoso.

O movimento feminista apresentou-se como ameaça à sobrevivência dos dinos. Assim, o acesso ao trabalho, a liberdade sexual, o investimento na educação, a conquista de

cargos políticos, a diminuição do número de filhos e os casamentos tardios vem obrigando os homens a repensar a sua maneira de agir frente às mulheres e a si mesmos.

Se, como afirma Jablonski (1995), o homem que a mãe preparou e as tias do colégio confirmaram já não sabe mais quem é e isto se deve às demandas impostas pelos avanços sociais e pela nova mulher.

Um novo homem para uma nova mulher! Será isto o que desejamos? Já o temos?

Neste ponto, passo a mencionar a música popular para ilustrar as relações entre os gêneros, tais como foram referidas.

“A música popular brasileira”, segundo Oliven (1998), “constitui uma manifestação cultural privilegiada para a análise das representações masculinas sobre as relações entre os sexos no Brasil” (p.220). Já que a grande maioria dos letristas é homem, ele se permite falar o que pensa e sente a respeito da mulher - o que não ocorre em outros discursos, em que as suas angústias, o seu desejo e as suas fraquezas estão impedidas ganhar expressão. Dessa forma, os sambas nas décadas de 30, 40 e 50 - época de formação da sociedade urbano-industrial brasileira e de disseminação do trabalho assalariado mostram muito bem a questão.

É preciso lembrar que até o século dezenove, o trabalho manual era visto como degradante e próprio dos escravos. A ojeriza pelo batente avançou praticamente até o século vinte. Nessa época, os sambas exaltavam a malandragem, com os temas dinheiro, trabalho e mulher. Para evocar Noel Rosa, em entrevista a O Globo (31-12-1932), “... o malandro se preocupa no seu samba quase tanto com o dinheiro como com a mulher (...) afinal, (...) as únicas coisas sérias deste mundo.”

Assim, por exemplo, temos “Emília” e “Ai que saudades da Amélia”, respectivamente de Wilson Batista e Haroldo Lobo e Mário Lago e Ataulfo Alves.

O que os sambas clássicos expressam é a “domesticidade”, a submissão e a passividade da mulher, que é também âncora e bússola para o homem - como a protetora figura materna projetada, figura mítica.

Quantos temas de sambas da época são a traição e a vingança, o abandono e também o prazer, o dinheiro, o trabalho? Lembremos Lupicínio Rodrigues, a dor de cotovelo e a cornitude com “Nervos de aço” e “Vingança”.

Mais tarde, temos também outras composições com letras que falam das relações entre os gêneros, nas quais se pode identificar as concepções que as permeiam. Assim, por exemplo, Martinho da Vila com o seu “Você não passa de uma mulé” ou a canção gravada por Maria Betânia. “Você é um homem eu sou apenas uma mulher...”., ou ainda Chico Buarque com a sua Geni: “...feita pra apanhar... e pra cuspir..”

Como se observa então, as relações entre os gêneros e as ideologias que as embasam, expressas nos discursos – no caso, nas letras das composições musicais – são assim, aí reveladas.


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