Genealogia das psicoses Aula 3


O que é a internação na Idade Clássica?



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O que é a internação na Idade Clássica?
Dito isto, Foucault tem em mãos os elementos para expor qual o sentido das práticas de internação na Idade Clássica. Sua ideia fundamental consiste em defender que a internação não podia ser compreendida como uma prática médica, até porque: “no século XVII, a loucura transformou-se em questão de sensibilidade social, aproximando-se desta forma do crime, da desordem, do escândalo”4. Não é por outra razão que a experiência clássica da loucura funda-se na constituição de uma unidade indecisa entre uma análise filosófica das faculdades e uma análise jurídica da imputabilidade. É a experiência jurídica da alienação que irá aos poucos configurar a sensibilidade médica, isto até que a alienação jurídica do sujeito do direito possa coincidir com a loucura do homem social. Não é por outra razão que a decisão da internação era, normalmente, resultado de uma decisão jurídica, e não médica. Foucault é claro a respeito desta premência da experiência jurídica:
Sob a pressão dos conceitos do direito, e na necessidade de apreender de maneira precisa a personalidade jurídica, a análise da alienação não cessa de afinar-se e parecer antecipar as teorias médicas que a seguem de longe.

Neste contexto, a internação é uma prática que se justifica sobretudo pela percepção social, pela impossibilidade de convívio social sem risco de escândalo para as unidades sociais fundamentais, como a família e o mundo do trabalho. Assim, a internação tem uma primeira dimensão ligada ao castigo. Mas, juntamente com esta dimensão vinculada à percepção social, a loucura também é doença que deve ser curada. Devemos então colocar a questão: que forma de doença é, neste momento, a loucura?

Há duas coisas que podemos dizer a este respeito. Primeiro, para o classicismo, a loucura é o homem em relação imediata com sua animalidade, sem outra referência ou ponto de apoio. E quando se está diante de um animal, os únicos recursos possíveis são o adestramento e uma certa redução do sujeito à condição de besta. Daí, por exemplo, a posterior infantilização do louco e a consequente determinação da loucura como regressão. Neste sentido, lembremos que a criança será, juntamente com o animal, outra figura clássica da ausência de razão A loucura é infância e tudo será organizado para que, desta forma, o louco seja objeto de uma experiência de minoridade. O que permite a Foucault afirmar que, em meados do século XIX: “começa a ser formulada a ideia de que, primeiro, o louco é como uma criança, depois, que o louco deve ser posto num meio análogo à família; e, enfim, que esses elementos quase familiares possuem em si um valor terapêutico”5.

A questão fundamental nesta infantilização é: para que a conduta infantil seja um refúgio para o doente, para que a regressão à infância se manifeste como figura da neurose e a psicose, faz-se necessário que a sociedade instaure uma barreira intransponível entre o passado e o presente, entificando uma linearidade do tempo que é figura de uma certa noção de progresso. Da mesma forma, para que o delírio religioso seja estrutura privilegiada da paranoia com seus delírios de grandeza e fim do mundo, faz-se necessário que a laicização da cultura aproxime a religião de um delírio sistematizado. Foucault descreve claramente como ele compreende as relações entre loucura e retorno a uma certa animalidade:


Na Idade Média, antes do início do movimento franciscano e, sem dúvida, muito tempo após e apesar dele, a relação do ser humano à animalidade consistiu nesta relação imaginária do homem às potências do mal. Na nossa época, o homem reflete sobre tal relação sob a forma de uma positividade natural; ao mesmo tempo hierarquia, ordenamento e evolução. Mas a passagem do primeiro tipo de relação ao segundo tipo ocorreu justamente na Idade Clássica, quando a animalidade foi percebida ainda como negatividade, mas natural: quer dizer, no momento em que o homem experimentou sua relação á animalidade apenas no perigo absoluto de uma loucura que abole a natureza do homem em uma indiferenciação natural6.
O outro ponto a lembrar é que, para o classicismo, não há psicologia, ou antes, não algo como uma autonomia do fato psicológico em sua estrutura de determinação causal, não há uma causalidade psíquica. Foucault chegará mesmo a afirmar que a distinção cartesiana entre res extensa e res cogitans não guiava o horizonte das práticas médicas. Neste sentido, não há possibilidade alguma de compreender, durante todo período clássica, a loucura como um fato psicológico. Este é um dado fundamental pois permite a Foucault afirmar que, sendo o clacissismo, um momento marcado pela ausência da psicologia e da psiquiatria, já que não há simplesmente um objeto que possa ser descrito como “fato psicológico”, então um dos problemas centrais será de ordem epistemológica. Trata-se de se perguntar em que condições um objeto de uma determinada ciência empírica pode constituir-se, o que deve ocorrer ao ser humano e o que deve ocorrer à loucura para que eles sejam objetos de uma empiricidade como a psicologia e a psiquiatria.

A fim de sustentar sua tese segundo a qual não há, para a consciência do classicismo, algo como uma psicologia, Foucault procura descrever o “monismo” pressuposto pelo sentido de várias práticas médicas de intervenção à época. Um monismo que demonstra como certa fisiologia aparece como base explicativa de todos os processos de intervenção. Foucault parte afirmando ser possível sistematizar, neste momento, as práticas de intervenção clínica em quatro grandes grupos: a consolidação, a purificação, a imersão e a regulação do movimento.

Por exemplo, no caso da consolidação, parte-se da crença de que, se encontramos nas doenças dos nervos tantos espasmos e convulsões é porque as fibras são muito móveis, ou muito irritáveis, ou muito sensíveis à vibrações. Quer dizer, falta-lhes robustez, isto no sentido mais material que podemos dar a tal diagnóstico. Neste sentido, nada melhor do que o uso deste elemento que é, ao mesmo tempo, o mais sólido, o mais resistente e o mais dócil e flexível à habilidade humana: o ferro. A absorção direta de linhaça de ferro é recomendada tendo em vista uma certa forma de comunicação possível, no interior do corpo, entre as qualidades dos elementos.

Já a purificação aparece como remédio para uma noção de doença dos nervos vinculada a maus humores que corrompem as vísceras, o cérebro e o sangue. Transfusões sanguíneas, produção de sangramentos, ingestão de sabão, aplicação de vinagre são apenas algumas das técnicas usadas nestes casos.

A imersão e as doses sequenciais de ducha fria são resultantes de um duplo tema: de um lado, os ritos de purificação e de renascimento, de outro, a impregnação que modifica as qualidades essenciais dos líquidos e sólidos do corpo. Lembremos ainda como a água fria pode combater o aquecimento e a secura das fibras nervosas que resultam na mania e o frenesi.

Por fim, a necessidade de regulação do movimento, necessidade que sustenta práticas de intervenção médica como a viagem, os exercícios físicos regulares, a roda, o uso medo enquanto afeto que produz a fixação da atenção, será descrita por Foucault nos seguintes termos:


Se é verdade que a loucura é agitação irregular dos espíritos, movimento desordenado das fibras e ideias – ela também é entupimento do corpo e da alma, estagnação dos humores, imobilização das fibras e sua rigidez, fixação das ideias e da atenção em um tema que, pouco a pouco, prevalece sobre os demais. Trata-se então de dar ao espírito e aos espíritos, ao corpo e à alma, a mobilidade que lhes faz vivos7.
Nestes exemplos, vemos claramente como nenhum sintoma da loucura é compreendido como causado por fenômenos vinculados principalmente a uma dimensão para além do corpo. Ao contrário, a intervenção médica orienta-se completamente por uma fisiologia da doença. Um exemplo privilegiado aqui é a melancolia, associada desde Hipócrates às desregulações humorais da bile negra, no baço, e ruptura da isonomia entre os humores (sangue, fleuma, bile amarela, bile negra). Tal teoria da melancolia continuará praticamente inalterada até o século XIX. Daí porque as práticas terapêuticas estarão normalmente associadas à purgação e às chamadas revulsões.

Exemplos desta natureza nos demonstram como não é possível ainda falar, por exemplo, em distinções entre distúrbio funcional e lesão orgânica. Quando a experiência da loucura receber enfim seu estatuto de doença mental, ou seja, seu estatuto claramente psicológico que a transformará em objeto de intervenções psicológicas, estas técnicas continuarão sendo usadas, mas com um sentido totalmente diferente, muito mais vinculado ao castigo moral, à modificação de comportamento do que à recomposição das disposições corporais. O patológico será assim paulatinamente decalcado do imoral.





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