Ganhador-perdedor



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A problemática do perdão

Culpa e perdão são questões estreitamente ligadas. No entanto, a focalização direta da problemática do perdão só se expandiu recentemente na literatura psicanalítica. Até então, parecia evidente que ela se limitava aos campos da religião e da ética, não chegava aos da psicologia. O que nunca impediu que estivesse implícita no pensamento de nossos autores, notadamente no conceito kleiniano de posição depressiva.

Curiosamente, como demonstra Damasio (2003), a importância geral dessas questões já era clara para o filósofo Espinosa, no século 17, ao valorizar as bases naturalistas, evolutivas, biológicas, somatopsíquicas e socioculturais da ética e das virtudes, na concepção holística do ser humano e da integração sujeito-objeto-mundo. (Grande precursor!).

Como afirma Cavell (2003), filósofa associada á psicanálise, perdoar e perdoar-se andam juntos, requerem a renúncia das supostas onipotência e onisciência atribuídas a si próprio e ao outro. Dependem de ver o agressor como maior que o mal cometido, mas também como uma pessoa limitada, não necessariamente um monstro cheio apenas de intenções malignas. Suas possibilidades de escolha eram, afinal, mais restritas do que se supunha.

Em termos análogos, perdoar-se por seus erros, numa dimensão justa, resulta do abandono das pretensões narcísicas de tudo saber e tudo poder, que dão lugar a responsabilidades exorbitantes, vergonhas e culpas gigantescas, condenação a castigos e correções igualmente desmesurados.

O perdoar-se, portanto, se prende ao perdoar as pessoas importantes na formação da criança e do adulto, basicamente os pais. Consiste em relativizar também os erros do próprio sujeito, reconhecer que eles decorrem de vários fatores constitucionais e biográficos, muitos independentes da escolha individual. Desta maneira, conseguem-se abrandar as representações maternas e paternas e suas funções superegóicas, que se tornarão menos carrascas e mais benfazejas, à medida que as reconciliações forem se fazendo no íntimo do indivíduo.

Perdoar, continua Cavell, é despregar-se qualitativamente do passado. Mas perdoar não é esquecer, é aceitar o passado como passado, que não pode ser desfeito, mas que pode se tornar gradativamente mais leve, menos influente, menos presente e aprisionante, como acontece em qualquer processo de luto e superação.

Em todas as questões humanas, os vieses e inclinações individuais precisam ser levados em conta. Há, realmente, graus diversos de injúrias e de perdão, variáveis conforme a pessoa, suas fases de vida e sua relação com cada agressor ou vítima. Os elos afetivos dificilmente se recuperam por inteiro; em muitos casos apenas se reduzem as hostilidades, possibilitando um certo entendimento em atividades de interesse mútuo.

Existiria, por ventura, um perdão total e completo? O perdão sublime do Cristo crucificado aos seus algozes, ou o do José bíblico aos irmãos que tripudiaram sobre ele, parecem atos-limite, talvez inverificáveis na realidade comum. Encontramos aos milhares os falsos perdões e a negação narcísica da mágoa perdurante.

Mas, afinal, o que é perdoar? Perdoar significa a eliminação completa de ressentimentos, da cobrança de indenizações e pedidos de desculpas? É o término dos desejos de vingança e retaliação? É querer todo o bem para o ex-inimigo? Discute-se cada definição, há séculos.

A especificidade do conceito e até mesmo a possibilidade real do perdão permanecem cercadas de dúvidas. Freud (1930) achava incompreensível o mandamento cristão de amar os inimigos, perdoando-os de todo. Seria, para ele, uma contradição em termos, um oximoro, como falar em gelo quente e hemorragia sem sangue.

Contudo, como sintetiza Marchon (2004), estudando a expansão dos temas éticos e morais no pensamento psicanalítico atual: mesmo com polêmicas e relativizações, o exercício da capacidade de perdoar é condição de acesso à felicidade.

Ainda que a maioria esteja adotando essa posição e ressaltando a relevância teórica e clínica do ato de perdoar, o debate prossegue. Alguns não reconhecem a especificidade da função, incluindo-a no contexto das elaborações (working through) promovidas pelo processo analítico (Smith, 2008). Mais cauteloso, Lansky (2001) aproxima os conceitos de elaboração e capacidade de perdoar, mas não vincula necessariamente um ao outro.

Seja como seja, a dinâmica do perdão concedido a outro tem como ponto de partida a atenuação do profundo sofrimento narcísico causado por ofensas ou injúrias tidas, por e para aquela pessoa, como descomunais, capazes de ameaçar a própria existência individual, a coesão do self (Kohut), e de acarretar uma vivência de break-down (Bion, Winnicott), de total desastre do ser, de desmoronamento, aniquilamento (“Morri de vergonha”), anulação da vontade de viver, do amor próprio, da dignidade mais fundamental, assomando a urgência de sumir (“Me deu vontade de morrer”, “Se ali tivesse um buraco, eu me enfiava”). Dessas vivências degradantes nascem um ódio brutal, a fúria narcísica, a necessidade imperiosa de vingança (“lavar a honra com sangue”, o alheio ou mesmo o próprio), má-vontade manifesta e amargura generalizada, a descrença no ser humano; instala-se o sentimento pétreo de direitos lesados a serem ressarcidos por alguém, o próprio agressor ou qualquer outro, o que pode levar a quadros paranóicos querelantes crônicos, a intermináveis demandas judiciais. Costuma ser teimoso o desejo, quase sempre ingênuo, de que o agressor se arrependa e peça desculpas.

Algumas defesas são habituais: a negação dos danos sofridos, ou a simulação de perdão, o retraimento esquizo-narcísico como proteção onipotente contra novos traumas, a identificação com o agressor e a prática de atos semelhantes contra outros, como é comum na pedofilia e nos crimes em série, cometidos compulsivamente.

Lansky (2001), destacando a vergonha insuportável e odienta da vítima, assinala uma nuance dos traumas que se repetem: o vexame que o agredido sente por ter de admitir que ainda se prende ao agressor, precisa dele, espera por ele, apesar das reiteradas desilusões e ultrajes.

Um dos maiores óbices à possibilidade de perdoar se encrava, de fato, na própria natureza da ligação: o agressor se impõe como objeto indispensável, alvo de sentimentos ambivalentes poderosos, como figura familiar fundamental ou aspecto dissociado da própria vítima, como parceiro de um pacto sadomasoquista destrutivo, porém gratificante e útil, numa aliança de dependência recíproca, um cárcere a dois.

Em minuciosa análise, Lansky (2005) procura decifrar a tragédia de Medéia, narrada por Eurípides. Traída pelo marido, a heroína grega entra num frenesi vingativo que culmina no assassinato dos filhos de ambos. O mais vergonhoso e enlouquecedor para ela talvez fosse reconhecer que não conseguiria romper de modo menos cruel as cadeias de necessidades e ganhos que a jugulavam ao traidor, abominável-fascinante.

É verdade que conjunturas de tal tipo são comuns na vida adulta, mas lembro que sua ocorrência (frequentíssima) é tão mais traumática quando atinge uma criança absolutamente dependente dos pais e desatendida por eles. No Congresso Internacional de 2005, dei relevo ao “direito natural da criança” a uma maternagem satisfatória. Juntando várias noções enunciadas por nossos autores e as pertinentes à visão evolutiva dos seres vivos, creio válida a afirmação de que os bebês humanos nascem com expectativas filogenéticas de encontrar um meio favorável, físico e humano, onde haja o quanto o satisfaça de oxigênio, água, calor, alimentos, e um “holding emocional”, uma maternagem suficientemente boa, um meio facilitador (Winnicott); é preciso que a pré-concepção de um seio (Bion), se realize em medida e qualidade adequada. A ocorrência de um trauma neste nível torna particularmente difícil o perdão à mãe, ao pai, cujas falhas são vivenciadas como maldades intencionais cometidas por seres poderosos, malignos por opção. A maioria dos traumas posteriores se enraíza nos da primeira infância, os pais ficam registrados na memória profunda, com mais ou menos justiça, como autores dos primeiros danos “imperdoáveis”, mas que têm de ser perdoados como condição para a conquista de uma existência razoavelmente sã. Aí reside um paradoxo: é preciso ter certa maturidade para ser normal, para conseguir perdoar, para entender os erros praticados pelos pais e agressores como os de pessoas falhas e não necessariamente malvadas.

A capacidade de perdoar (e perdoar-se) só se adquire e se expande a duríssimas penas. É preciso renunciar às cobranças e expectativas amargamente consolidadas e reconhecer seu reduzido valor; admitir, mesmo que parcialmente, as razões do agressor ou agressores, reconhecer seus aspectos mais favoráveis, suas fraquezas e sofrimentos.

Torna-se imprescindível à vitima rever suas concepções sobre as pessoas, suportar a vergonha e a dor narcísica de confessar-se menor do que acreditava, não ser dono da razão e da verdade, agüentar a humilhação de “dar o braço a torcer”, admitir que não é o campeão mundial da desgraça, e pior, descobrir que, para manter esta ilusão, chegou a plantar obstáculos em seu caminho a fim de ter depois a glória de ultrapassá-los. Para quem se consagrou no papel de vítima inocente, é terrível assumir os próprios erros, a condição de igualmente agressor e responsável por danos causados aos que vitimou - mormente aos próprios filhos.

“A falta de perdão, como o luto patológico (com o qual está intimamente relacionado), inibe a liberdade, tanto de usar a criatividade própria, quanto de sentir prazer no comportamento livre e espontâneo” (Horwitz, 2005). Porém, continuam a existir inclinações para o lado re-construtivo, e “[... estão] sempre presentes as premências de perdoar, buscar perdão, ser perdoado. [...] Essa transformação no rumo da maturidade é inevitavelmente complexa, errática e prolongada no tempo. Temos que contar com um fluxo contínuo entre os modos maduros de funcionamento da posição depressiva, e os modos primitivos e turbulentos da posição esquizoparanóide [...]” (Schafer, R., 2005).


Culpa e perdão: subjetividade e objetividade nas vivências e nos julgamentos. Outros aspectos do conjunto de problemas correlatos e suas aplicações clínicas.

As gigantescas questões gerais, delineadas nos tópicos anteriores, interessam a todos os que refletem sobre a contingência humana; também a nós, em nossa condição de pensadores comuns. Mas, como psicanalistas, nossa tarefa é bem mais restrita, embora nada fácil: consiste em tentar descobrir os julgamentos morais próprios de cada paciente, os que ele conscientiza, baseados em critérios mais objetivos, e, principalmente, as sentenças emanadas de ideologias e valores inconscientes, em grande parte subjetivos, irracionais, disparatados, transgeracionais. Com enorme freqüência, são esses que acabam determinando as opções da pessoa e decidindo sobre sua vida.

Mostra-se oportuna, neste ponto, a distinção entre ética e moral, dois termos muitas vezes tomados como sinônimos. A ética se refere a princípios gerais e universais, como os conceitos de bem e mal, de livre-arbítrio, direitos, deveres e responsabilidades quanto aos atos cometidos. Seriam desta ordem os “imperativos categóricos” de Kant (considerar o outro como seu semelhante, um ser também dotado de plenos direitos, que é um fim em si e não pode ser usado como meio para os desígnios alheios). Ou, uma visão análoga de Espinosa, sobre a conveniência de negociar direitos e deveres com o semelhante, já que o sujeito precisa dele para viver. Em uma linguagem psicanalítica, ambas as proposições implicam a necessidade geral de sacrificar o narcisismo primário, absoluto, (só justificável nos primórdios da mente infantil) em proveito da sobrevivência e do convívio social. Ou seja, o mais adequado resulta de um razoável equilíbrio dinâmico entre narcisismo normal e altruísmo normal.

Já o conceito de moral, quando se distingue dialeticamente do de ética, aponta valores e regras de conduta relativos a uma determinada cultura ou época e a cada pessoa em particular. No trabalho psicanalítico, deve prevalecer a importância da subjetividade singular daquele paciente, como ele conjuga as normas ético-juridicas que regulam os julgamentos sociais, interpessoais, com os ditames do “direito moral privado” vigentes no tribunal subjetivo do seu superego. É indispensável procurar entender cada analisando em sua individualidade ímpar, o peso que têm sobre ele suas singularidades morais, quase sempre múltiplas e incongruentes, suas concordâncias e divergências com os valores e critérios coletivos de julgamento e justiça, que ele também conhece, mas que conflitam com seus pressupostos inconscientes. Em outras palavras, é função do trabalho analítico levantar os definidores morais conscientes - e, sobretudo, os inconscientes - dos funcionamentos e condutas de cada analisando.

Para facilitar nosso raciocínio, comecemos ilustrando, com exemplos, a abordagem clínica dessa questões imbricadas e seus nexos com as culpas e a capacidade de perdoar.

As violências cometidas contra crianças vêm ocupando maior atenção dos psicanalistas e estudiosos de toda parte, em consonância com a mobilização que se expande na sociedade em geral. Destacamos aqui a problemática da pedofilia, sobre a qual se abre um vasto leque de enfoques, incluindo considerações sobre a objetividade e/ou subjetividade da culpa.

Ética e juridicamente, o adulto é sempre o responsável pelo dolo, o que não impede que a vítima também se julgue culpada, justa ou injustamente, por algum tipo de conivência, por não ter reagido bastante ao ato ou assédios repetidos, não os ter denunciado mais, apesar das ameaças do agressor, ou pela realização de fantasias edípicas, pelo prazer erótico, pelo agrado que obteve na valorização de seu corpo, do seu ser, através dos contactos físicos, dos carinhos, numa deturpada forma de amor, em contraste bem marcado com a carência de cuidados normais, com o desvalor e desamor que sentiu por parte da mãe, do pai e familiares. Sem contar que, muitas vezes, o pedófilo pertence à casa, e a própria família é cúmplice, de fato.

Nesse labirinto ficou perdido um jovem analista que tomou radicalmente o partido de uma paciente, vitima de pedofilia em família. Diante da evidente patologia da situação, revoltou-se e passou a proclamar abertamente as culpas dos abusadores, sem perceber a amplitude dos problemas, do ponto de vista ou pontos de vista da analisanda. Ora, também o analista fora usado por um parente pedófilo, e, ao que tudo indica, não elaborou a questão em sua análise pessoal. Por outro lado, ele se sentia vagamente em falta com a paciente, e punha seus escrúpulos nos honorários que lhe cobrava, bem modestos e acessíveis. Deslocava para eles suas culpas por falhar como analista e, provavelmente, por atuar como participante transferencial-contratransferencial da situação remontada em seu consultório.

Melhor desempenho teve um outro colega com uma paciente semelhante; este, ao que parece, não sofreu violência sexual, ou a elaborou em suas análises. Dispôs-se a tratar de uma mulher de meia-idade, extremamente solitária e mal-humorada. Durante uns três anos ela comparecia regularmente e ficava em silêncio a maior parte do tempo, repelindo qualquer tentativa de intervenção do analista com rispidez, zombarias ou sofismas teóricos.

Acabou contando, com feroz indignação que, ainda criança, a empregada a penetrara digitalmente por várias vezes, enquanto lhe dava banho. Não fora levada a sério, quando tentou queixar-se aos pais. Ambos, médicos renomados, sempre trabalhando, viajando, prestavam-lhe pouquíssima atenção; aquela empregada lhes convinha. As poucas horas que concediam à menina, eram quase todas consumidas com cuidados “médicos”, discussão dos seus sintomas, dietas e medicamentos, e com exames físicos minuciosos. O analista, sempre acolhedor, deu-lhe bastante tempo para extravasar ódios e revoltas; só então sugeriu que talvez ela sentisse as atenções e intervenções dele como também invasivas, detalhistas, desrespeitosas e degradantes.

Para surpresa do colega, ela concordou com o que ouviu e, nas sessões subseqüentes, foi admitindo, com muita vergonha e culpa, que provocava os pais para tal conduta “médica”, que chegava a gostar dos toques corporais, mesmo nas partes pudendas. Depois, bem depois, confessou que se sentia forte ao induzir o analista a retornar a alguns assuntos, repetidas vezes. Pacientemente, ele acompanhou suas elaborações e a foi ajudando a entender que os recursos desenvolvidos por ela tinham uma finalidade principal: conseguir atenção, carinho, valorização; mas também algum tipo de afago corporal, que de outro modo não obtinha - por limitações psicológicas dos pais e pelas características da psicanálise.

De acordo com o vértice psicanalítico, o próprio pedófilo merece a inserção dos abusos que comete no contexto de sua historia pessoal, das condições em que foi criado, das violências que sofreu, até mesmo das curras propriamente ditas a que foi submetido, das perversões que foi passando adiante, identificado com seus agressores e invertendo os papéis.

Portanto, uma abordagem psicanalítica levaria em conta as dimensões objetivas e subjetivas do problema, para chegar ao recôndito das vivências pessoais de cada paciente, onde os pedófilos não se consideram somente criminosos, nem os pedofilizados se julgam apenas vítimas inocentes. Nem demônios, nem anjos.

Contudo, mesmo sob o prisma psicanalítico, não podemos cair na falsa equivalência entre explicar e justificar. Vale a eloqüência do dito popular “Freud explica, mas não justifica”. Os antecedentes biográficos do pedófilo não o eximem das suas responsabilidades atuais - é sempre um adulto aproveitando-se das carências e precárias defesas de uma criança.

Num raciocínio análogo, os psicanalistas que transgridem o pacto profissional e se envolvem sexualmente com seus pacientes (Gabbard e Lester, 1995) não podem desculpar-se tão simplesmente como sendo um acordo entre adultos, porquanto, na situação especialíssima de um tratamento, a regressão fomentada como recurso técnico tolhe, em algum grau, a liberdade de percepção, escolha e decisão do analisando. Cabe ao profissional se inteirar de todos esses enfoques, e não pretender legitimar sua má conduta através de racionalizações escapistas, como as bem conhecidas entre nós. Tais analistas trabalham pela anti-psicanálise em vários níveis e, de certo modo, são também pedófilos. Além de compreensão, demandam tratamento e disciplina.

Nossas instituições têm suas responsabilidades, mas, frequentemente, não as assumem, omitem-se, tentam acobertar tais casos, não usam seus conhecimentos especializados sobre dinâmica grupal e patologia de grupo. É nessas ocasiões que os psicanalistas se mostram menos psicanalíticos.

Não reste dúvida, a abordagem psicanalítica do problema não anula suas implicações éticas e penais, já no interior das sociedades de psicanálise. Todos os cidadãos estão sujeitos aos julgamentos e procedimentos jurídico-penais estabelecidos pela Justiça comum, em nome da sociedade geral. Esses distintos pontos de vista, ora coincidentes, ora conflitantes, permanecem válidos em seus contextos específicos.

Dentro do campo especializado que é nosso, sabemos desde Freud que, no foro íntimo individual, a imputação de culpas por pecados ou crimes auto-atribuídos costuma ser incomparavelmente mais pesada, e o superego agigantar-se mais cruel, arbitrário e punidor que as instâncias da moral e do direito objetivamente estatuídas, a cuja alçada preferem entregar-se muitos criminosos por sentimento inconsciente de culpa.

Diante das intricadas modalidades subjetivas dos analisandos, nos capítulos das absolvições e reduções ou agravamento de penas, vêm se acumulando montes de equívocos e espantos dos psicanalistas. Uns pacientes cumprem penalidades tremendas por motivos que achamos insignificantes. Outros conseguem se liberar ao preço de um castigo que nos parece pequeno, em relação aos erros de fato cometidos. Quanto a essa ótica-ética subjetiva, veremos mais adiante dois sonhos de perdão.

A costumeira confusão conceitual entre ética geral e moral particular produz reducionismos e radicalismos enxertados em alguns referenciais psicanalíticos bastante influentes, dando base a julgamentos genéricos e apriorísticos, que tendem a condenar ou absolver todos os seres humanos, por definição. Com tal base, muito psicanalista se arvora em árbitro do seu paciente, de fora para dentro, e o considera culpado ou inocente de antemão, por preconceito teórico e contratransferencial.

Singelamente falando: o importante mesmo, para uma observação psicanalítica empática, é descobrir o que, naquele momento, aquele paciente acha, ou melhor, “os” que ele acha, no seu consciente e no seu inconsciente – não o que o analista prejulga e acha, muito menos o que o analista acha que o paciente tem que achar.

Há vários anos, um psicanalista a quem a minha formação muito deve quanto a abertura e abrangência, também tropeçava num postulado teórico corrente: “Não existe homem culpado, o homem é sempre trágico”. Creio que tal afirmação embute uma certeza injustificada: “Não existe vontade livre, o homem é só e sempre pré-determinado”. Além disso, mesmo se vier a comprovar-se a absoluta impossibilidade de escolha, de livre arbítrio, ainda assim restará o fato de que nossa cultura implantou em nós as vivências de culpabilidade, e é com essas que o psicanalista precisa se ocupar, pelo menos por enquanto.

Ao que consta, as experiências culposas, tão determinantes na cultura ocidental, têm menor relevância em outros meios. Em algumas culturas orientais, a vergonha prevaleceria sobre a culpa na motivação de sofrimentos íntimos e atitudes extremas, como o suicídio, mais por conta da desonra lançada sobre a família. O que também implicaria alguma culpa? – pergunto eu.

Mas tenhamos sempre claro que, por muito que nos enfronhemos nas grandes questões gerais, com suas focalizações metafísicas, sociológicas ou de qualquer outro teor, movidos pela fome e sede de saber - o que mais nos importa, enquanto psicanalistas clínicos, é buscar colher as vivências subjetivas do paciente, os códigos pelos quais ele se condena ou absolve, tentando não impor nossos pressupostos pessoais. Quem vai se condenar ou absolver, em última instância, é o próprio paciente.

Até porque, em termos genéricos, supra-individuais, a questão última da determinação dos atos humanos, do livre-arbítrio, responsabilidade e culpabilidade, ainda se encontra longe de ser resolvida. Continuam sem resposta cabal perguntas do tipo: Somos sempre totalmente condicionados por forças estranhas à nossa vontade e escolha, joguetes trágicos do cosmos, da física quântica, da genética, da família, do inconsciente, da cultura e da história? Ou temos alguma chance de tomar rumos opcionais e governar nossas vidas? Veremos, em outro tópico, uma contribuição do neurocientista Eric Kandel a favor de alguma possibilidade de livre-escolha, embora reduzida.

Em nome da psicanálise cometeram-se julgamentos absurdos, tanto no campo jurídico, quanto no sociológico e no psicológico. A compreensão psicanalítica das motivações inconscientes, das propensões traumatofilicas e vitimológicas, já serviu para os abusos das condenações morais e penais de todas as vitimas, como sendo sempre as verdadeiras e únicas responsáveis por suas desgraças (“Queriam...”, “Estavam a fim...”)

No outro polo se arregimentam os partidários da absolvição de todos os réus, como sendo apenas vítimas de forças incontroláveis.

São comuns os jovens delinqüentes que se declaram vítimas inermes dos pais, com a concordância masoquista de vários deles. A partir das responsabilidades inegáveis dos genitores, dada sua enorme importância na criação dos filhos, originaram-se algumas tendências psicanalíticas e penais no sentido de radicalizar sua inculpação, sem considerar a pluralidade dos elementos etiológicos, na singularidade de cada caso.

Como dissemos no tópico anterior, o caminho do perdão aos pais quase sempre passa, com maior ou menor êxito, pela compreensão de que eles são seres falíveis, também vítimas de sua biologia, de dramas, tramas e traumas de família e tantos outros fatores, e pela valorização de suas qualidades. Tais relativizações podem igualmente servir de atenuantes aos pais cobertos de culpas em relação aos filhos.

Na situação mais encontradiça, analista e paciente precisam se conscientizar de que os pais (excetuando casos extremos) não são seres aberrantes que escolhem errar só por querer, quando poderiam facilmente acertar - assim pensa a criança maltratada, em sua dependência absoluta, privada da clareza de mente, no meio das trevas do pavor e do ódio acumulados. É óbvio? Pois, apesar da ideologia oficial de muitos psicanalistas, sua prática continua extremamente moralista e reducionista, anti-psicanalítica.

Também ao julgar as responsabilidades pelos impasses ou fracassos de tratamentos psicanalíticos, muitos empregam vieses extremados e simplistas, e absolvem ou condenam, em termos absolutos e exclusivos, ou o analista ou o analisando. Na imensa maioria dos casos, são bem mais complexas as influências dos fatores em jogo, provenientes de ambas as partes – sem negar a precedência inalienável dos deveres do terapeuta.

A possibilidade de perdoar-se tende a ser muito individual, até mesmo imprevisível. Uma analisanda levou anos descrevendo à analista como maltratava a mãe, vingativamente, por achar que ela a usava e prendia - enquanto tentava ignorar as vantagens que tirava dessa dependência. Os equivalentes transferenciais foram também insistentemente examinados. Com tantos sofrimentos, os problemas cardiovasculares crônicos da mãe se agravaram, precipitando-lhe a morte. Logo em seguida, a paciente teve reaberta uma doença pulmonar que quase a matara, já por duas vezes. Parecia que ia ter de pagar morte com morte, pela inexorável “Lei de Talião” que comanda a grande maioria. Apesar deste prognóstico sombrio, a analista persistiu em seu empenho, como se ela fosse a mãe que continua viva para ajudar a filha, sem desertar por fraqueza ou vingança, como esta achava da mãe morta. A experiência emocional corretiva, na relação analítica, foi provavelmente o fator mais decisivo na elaboração do luto.

Depois do que lhe pareciam poucos meses, a analista recebeu um presente-surpresa: um sonho. A paciente sonhou que estava quase morrendo de calor e sede, perdida num deserto; eis que surge uma velhinha com um jarro de chá de ervas gelado e a salva. Lembrou-se, na mesma sessão, do valor que a mãe dava às plantas medicinais; com mais associações, nos dias seguintes, chegou à conclusão de que a mãe queria que ela se tratasse e salvasse. Começou a levar mais a sério o tratamento médico, a acreditar mais na eficácia da análise. E o prognóstico, que a analista julgara implacável, não se confirmou.

Um sonho de perdão, mais minucioso, brotou na análise de uma senhora, deprimida crônica. Sua vida ficou lacerada por uma injustiça, sofrida na adolescência tumultuada de usuária de drogas. Sumiu a caixa de jóias da mãe e o pai não teve dúvidas, jogou a autoria do furto sobre a filha. Com antecedentes de pequenos delitos, não houve como esta se desfazer da acusação injusta. A relação com o pai arranhou-se para sempre.

Após vários anos de análise e elaboração do luto pelos pais mortos, teve o sonho: A mãe vinha em direção a ela, toda sorridente, mostrando a jóia mais valiosa, a que o marido lhe dera no dia do casamento. Este, o pai da analisanda, vinha junto, mas não sorria. Acordou, toda contente, ainda dizendo, “Então acharam?!” E logo se lembrou de que, quando pequena, o pai a chamava de “jóia”, na língua materna dele.

Nas sessões subseqüentes, foi descobrindo os códigos do sonho, a começar pelo mais fácil: o pai vinha lhe pedir desculpas pela acusação injusta. Depois, o mais custoso: os pais a perdoavam pelos muitos desgostos que lhes dera, pelos roubos da sua paz conjugal. As conotações edípicas desses “roubos” foram reconhecidas por ela, através de insights mais convincentes do que nunca. Outros avanços da análise, ela foi se permitindo e concedendo à analista, que ainda via muito revestida de véus transferenciais, tintos de ambivalências.

O psicanalista há de sopesar, com todas as cautelas, os determinismos inconscientes que regem a vida de cada analisando, as raízes profundas das suas culpas e necessidades de punição, de fracassos e ganhos minguados - além de outros complicadores, como os narcísicos.

Em muitos analisandos, os dramas de consciência foram implantados por ideologias injustas e tendenciosas da família, e passam a condicionar os resultados do tratamento. Algumas estabelecem quem tem mais direitos, os pais, os mais velhos, os meninos, o caçula,..., ou o contrário.

As melhorias de vida, inclusive os progressos psicanalíticos, conflitam muitas vezes com as restrições feitas em casa: “O que você está querendo não é pra gente pobre como nós”, “Você não pode tudo os que os outros podem, por causa da nossa origem, da nossa raça”, “Você é muito doente, teve aquela doença grave na infância e nunca ficou bom” (o que é medicamente falso), “Desista, com essas cicatrizes no rosto você não vai fazer um bom casamento”. Tais vaticínios, centenas de “não pode”, provêm muitas vezes de problemas dos pais, como inveja e rivalidade em relação aos mais moços, cujos caminhos vão se fechando de antemão, ao peso de angústias paranóides e depressivas. Sem esquecer os ganhos, presentes, quase sempre, na condição de vítima.

Em outros casos, o paciente se sente ou imagina instrumento posto a serviço do narcisismo dos pais (percebido/projetado no analista), e considera uma questão de honra sabotar o avanço do processo analítico. Fracassar significa uma vitória da afirmação narcísica, e progredir equivale ao sucesso da subserviência e da alienação do eu.

Paradoxos de tal monta fazem pensar no que o poeta inglês Milton colocou no seu “Paraíso Perdido”: o Anjo Caído gozava de mais dignidade e independência nas agruras do inferno, do que obteria nas benesses do céu, curvando-se submisso diante de Deus.

Registro mais dois exemplos dessa lógica arrevesada do ganhar-perdendo e perder-ganhando.

Um menino-bomba palestino, de doze anos, despertou suspeita nos guardas da fronteira com seu nervosismo. Foi desarmado e escapou incólume, até certo ponto: a televisão mostrou claramente como estava envergonhado, decepcionado. Sem levantar os olhos, confessou que queria se vingar da mãe malvada e ir para o paraíso de Alá encontrar o pai-herói.

Um professor de tênis tinha imenso orgulho de sua capacidade de formar campeões. Foi-lhe mandado um aluno-desafio, filho de um político notoriamente vaidoso e fanfarrão. Sentindo-se, mais uma vez, “boneco dos outros”, o rapaz encontrava um triunfo íntimo ao “melar” o jogo, deixando os adversários ganharem, com a maior facilidade, vitórias de graça, sem graça. Além de fazer o pai e o professor sentirem-se derrotados.

De outra parte, os sucessivos fracassos punham o jovem visivelmente humilhado, de certa forma punido, mas ainda achando que valiam a pena, pois conquistava outros ganhos (não só os inconscientes); “prêmios de consolação”, a solidariedade dos amigos, os redobrados estímulos que o professor lhe dava, meio a contra-gosto, já meio desconfiado de jogo sujo. Estabeleceu com o analista uma relação parecida: dava-lhe “bolas fáceis”, concordava com tudo, pipocava “insights na bandeja”. Vencido o desconserto inicial, o analista entendeu o que se passava, e pôde ajudar o campeão das derrotas “vitoriosas” a ir desfazendo, laboriosamente, seus nós de paradoxos narcísicos e culposos, partindo dos transferenciais.

Outros do mesmo gênero falseiam o grau das conquistas, ostentando uma felicidade compulsória, mais caricata que autêntica, um simulacro para enganar o superego, o analista, a eles próprios e a todos os que neles investem. Mas a falsidade não vai longe, pois aparentam melhoras sem obter um prazer verdadeiro, sem conceder autêntico reconhecimento e gratidão. Não poder e/ou não querer um legítimo progresso resultam, mais uma vez, do circulo vicioso fechado pelo masoquismo culposo e pelo protesto narcísico-vingativo-invejoso em relação a pais e analista.

Por motivos semelhantes, diversos pacientes se arranjam com semi-sucessos, quase-vitórias, vice-campeonatos às dúzias.

São interessantes as múltiplas tentativas inconscientes de barganhar com o superego para permitir-se um pouco do que parece transgressão ou privilégio, de acordo com os códigos conscientes e inconscientes. Os sacrifícios propiciatórios continuam comuns na cultura cristã: doações e esmolas, renúncia a certas comidas e bebidas, votos, promessas e penitências, como subir as escadas da Igreja da Penha de joelhos, para conseguir uma graça ou evitar uma desgraça. Na tradição judaica se pratica o kapará, ou expiação, que consiste em considerar que um prejuízo sofrido pode servir para amortizar um pecado cometido ou evitar males maiores, ainda por vir.

Muitas pessoas fazem um “carnê crime-castigo”, mantêm uma suposta “conta corrente” com o superego, pagam “no escuro” em sofrimento difuso, sem discutir, para não precisar discutir, pelo que já devem e pelas dívidas futuras; estas são tidas como previamente quitadas e autorizadas. Questionar o esquema à luz da psicanálise pode acabar com a trapaça e acarretar um alto custo de vergonha e culpa. As mágicas do pensamento obsessivo, como o deslocamento de culpas, as punições substitutivas, foram exaustivamente descritas por Freud (1907, 1912); ao lado dessas se alinham as utilizações estratégicas do masoquismo culposo.

No ítem das concessões feitas ao superego em troca de algumas permissões, até mesmo do direito de continuar vivo, determinadas pessoas não conseguem nem chegar ao tratamento, permanecendo imaturas, pré-genitais. Nunca esqueço a situação infeliz do rapaz que me procurou, há algumas décadas, visivelmente aflito e estressado, seguindo a indicação que um médico lhe dera, pouco antes de morrer. Este, um colega meu de turma, lhe teria dito que só eu saberia resolver seus problemas – solução irrealista, inviável, até porque o jovem morava em outra cidade, trabalhando muitas horas todo dia, em dois empregos. Filho mais velho, era o provedor da família desde a morte do pai, vitimado aos cinqüenta por uma doença genética, quase sempre fatal. O rapaz carregava a mesma herança, até aí sem nenhum sintoma maior. Mantivera com o pai uma relação francamente belicosa, que terminou sem se falarem nos derradeiros meses. Creio que, mesmo antes do desfecho, o rapaz já era dado a arranjos inconscientes para continuar inteiro e vivo, perante o pai edipiano; este é que se foi, como se perdesse a guerra, enquanto o “vencedor” ficava, mas com pobres ganhos.

Fiz para mim essas conjecturas pelo que me contou de sua vida, especialmente da sexualidade escassa, só encontros íntimos raros e contidos com um amigo. Sentia a homossexualidade como estranha às suas verdadeiras preferências, um por-enquanto que se prolongava. Dei-lhe algumas sugestões de tratamento, aquelas que julguei cabíveis numa realidade tão estreita, disse-lhe que, pelo menos, se mantivesse em contacto comigo por cartas ou telefone. Ouviu tudo respeitosamente, proferiu algumas poucas palavras, polidas, de aparente concordância. Porém sua face expressava total desesperança, como se me dissesse, em desconsolo: “Nenhuma dessas portas me será aberta”. Talvez me ouvisse repetindo a promessa inexequível do meu saudoso colega: porta existe, mas continuará fechada para você. E eu, à revelia, ficasse como um terceiro pai a lhe negar a chave. Nunca mais soube dele.

Sem os mesmos impedimentos externos, são inumeráveis os analisandos que resistem com tenacidade ao desenvolvimento geral e analítico, em conseqüência da convicção inconsciente de que, para se manterem vivos, precisam reduzir a vitalidade, mortificar-se, ir “vivendinho-morrendinho”, sabotar todas as possibilidades reais de sucesso e bem-estar, ou, na melhor das hipóteses, esconder, camuflar algum alívio ou alegria, os “contrabandos”, como dizia um desse grupo. Consideram-se condenados à ruína, não destinados a uma vida em aberto; portam-se como prisioneiros de um corredor da morte, em sursis ou suspensão temporária e limitada da pena capital. São, tipicamente, os que sabem ter nascido a contragosto da família, principalmente da mãe, que teriam escapado por pouco do abortamento e, com ou sem razão objetiva, de outras formas de morte. Sentindo-se trancafiados na cadeia superegóica “das execuções penais”, da paranóia e do masoquismo culposo, trocam a pena de morte imediata por uma vida “de morte”, de sofrimentos repetitivos e trabalhos forçados. Nada de bom lhes é facultado, muito menos os resultados liberadores de um tratamento psicanalítico exitoso. Pelo contrário, os perigos iatrogênicos, reais ou imaginários, de uma análise mutativa tornam-se uma barreira resistencial de penetração dificílima.

Um exemplo: Uma paciente antiga chega exausta, sem ânimo para nada. A sessão começa cheia de longas pausas. Ela sofre o luto agudo pela morte de uma tia. O analista diz, lembrando as últimas sessões, que um luto puxa outros, principalmente os mal resolvidos, como o seu por sua mãe. Ela então descreve um fragmento de sonho: um esquife com placas envolvidas em panos, mas sem corpo. Diante de novo silêncio, o analista sugere que as mortes talvez ainda não tenham sido aceitas como reais e definitivas (condição para a elaboração do luto); e lhe pergunta se recorda mais alguma coisa do sonho.

Após mais um longo silêncio, ela responde que só lhe chamou atenção que os panos eram brancos, de linho, como a mãe gostava, tanto que foi enterrada com um vestido-mortalha desse tecido. Mais silêncio, e declara que amanhã é seu aniversario. O analista lhe diz, com referência a outras sessões, que seu nascimento e morte andaram juntos, e que a menção ao seu aniversário, nesse momento de luto, parece confirmar a correlação (Doin, 1988). Ao que ela se queixa de enorme mal-estar físico, de falta de ar, como a morta sentia. O analista, que já tinha pensado, com base em diversas comunicações, em trauma do nascimento e sofrimento perinatal, lhe propõe outra interpretação transicional (Doin, 2002): “Como se você também estivesse morrendo ou morta, igual a sua mãe... e também igual a você-bebê, ... que a mãe não queria?...”

Muitas vezes ouvira da mãe: “Você não é minha filha, é filha da tabelinha” Dizia rindo, como brincadeira, e acrescentava: “Nem parece mesmo minha filha, pelo trabalho que me deu e tem dado...” Mas a paciente não se deixava enganar pelo tom superficialmente brincalhão.

O analista vai perguntando, devagar: “De tudo o que você já me contou, poderíamos pensar que você sentia e ainda sente como se ela tivesse largado você para morrer?... Ou como se ela nem sequer tivesse lhe injetado bastante vida, deixando você como num esquife sem corpo, ...que é também como um berço vazio, só panos, mortalha-roupinha de bebê?...”

Mais silêncio pesado-morto. O analista prossegue “Talvez venha de longe o que você ainda sente, falta de vida em continuidade, de vida completa,... com todos os direitos que tem uma filha que é querida.” Ela concorda, com vivacidade, mas logo se fecha de novo no silêncio pesado.

O analista comenta: “Talvez não tenha podido segurar por mais tempo o bem-estar de vida que parece ter sentido com o que eu lhe disse. (pausa) Talvez não se dê o direito de estar em analise, recebendo vida,... tanto mais agora que sua mãe morreu outra vez, com sua tia, e tudo se repete... (silêncio) Parece que não pode ficar ligada, viva, por muito tempo, sentir-se querida e abençoada por mim,... talvez por ter achado muitas vezes que me dá muito trabalho, também a mim, e não merece perdão...”

A análise prosseguiu por muitos anos mais, com resultados apenas razoáveis.

Resumindo, os impasses em torno do perdão/não perdão, capítulo final de um número imenso de tratamentos psicanalíticos, costumam ser tramados pelas ambivalências narcísicas e culposas. Por isso, num grupo enorme de pacientes, a decisão depende de onde cada um encontre mais dignidade e afirmação pessoal, no perdão ou na vingança. O resultado dessas análises fica condicionado à decisão do paciente sobre o que prefere, o que lhe parece mais lucrativo e menos oneroso, perdoar ou vingar-se.

São incontáveis os que hesitam, narcisicamente, quando estão prestes a relativizar as humilhações sofridas na relação com o analista (pessoa real e representante transferencial), a suportar as qualidades deste e se deixar beneficiar por elas, a renunciar à ilusão de ser “invencível” enquanto permanecer no status quo patológico; esses pagam caro pela manutenção de tal postura, inclusive em sofrimento masoquista pelo tanto de injustiça que assim cometem contra o analista.

Mais na banda culposa, muitos balançam entre a glória impotente das vitimas dos outros (posição narcísica esquizoparanoide), merecedoras de compaixão, tolerância, compensações, isenções de todas as cobranças - e a dolorosa e justa aceitação das culpas, que leva à potência das retificações possíveis, das construções novas e sólidas (posição depressiva). O que faz muita gente desanimar na caminhada é perceber que o acesso à posição depressiva tem que enfrentar um superego ainda injusto, arbitrário, maldoso e sádico, que precisa ser analisado e abrandado, à medida que se reduz, no mundo interno, a onipotência do mal e se reforça a potência do bem, da capacidade de realizar coisas acertadas, reparadoras, dignificantes.

Compete ao terapeuta iniciar a resolução do impasse, admitindo sua provável participação nos problemas.
Mas, por que realinho conhecimentos há muito estabelecidos em nosso acervo comum, mercê de Freud, Ferenczi, KIein, Bion, Winnicott, Kohut e tantos outros?

Em primeiro lugar, porque tenho aprendido que noções bem conhecidas parecem mais convincentes e até mesmo soam como novidades para muitos, quando ditas de outra maneira, especialmente em linguagem coloquial e lúdica.

Também repiso estas noções porque a experiência de convívio bastante próximo e prolongado com dezenas (centenas?) de colegas tem me mostrado como é comum e disfarçada a resistência contra o acolhimento de todos os aspectos dos nossos analisandos, os simpáticos e, principalmente, os detestáveis - que exigem a constatação dos nossos. Até muitos colegas que repetem, nas atividades didáticas e científicas, a lição freudiana das ambivalências, não parecem acreditar em sua efetiva presença. Preferem se ater ao “lado bom” e mais normal das pessoas, do paciente e de si próprios.

É claro que aqueles que buscam ajuda analítica trazem propósitos de mudança, desejo de alívio ou cura para seus sofrimentos, disposição de colaborar. Nós é que temos de pensar que vem junto uma oposição aguerrida às descobertas e mudanças, armada pelos funcionamentos antigos, pela “inércia da libido”, pela compulsão a repetir, pelo “elogio da loucura”, pela louvação do sofrimento, por todos os ganhos da traumatofilia – aquela condição paradoxal em que uma desgraça inevitável e suas conseqüências malignas vão se tornando suportáveis, graças à estratégia de sobrevivência que determina revestimentos libidinais e agrega vantagens ao pior; desse modo, mazelas crônicas acabam se tornando também valiosas e, até mesmo, indispensáveis, imperdíveis. (Doin, 2005).

Ao lado das configurações traumatofílicas até aqui descritas, temos a considerar outras duas modalidades de síndromes traumáticas repetitivas. Numa delas, estudada inicialmente por Freud, as condições neuromentais são razoavelmente propícias e a repetição das situações traumáticas visa sua superação (“repetir para elaborar”). Num outro grupo, pelo contrário, os defeitos neuromentais de base são muito graves, impedindo ou dificultando enormemente a resolução dos traumas. Podemos encontrar tipos intermediários entre os mencionados ou composições deles. Cabe ao analista examinar todas essas possibilidades, sem preconceitos teóricos ou emocionais.

Nunca será demais re-enfatizar a interferência dos entraves contratransferenciais na maioria dos impasses psicanalíticos. Colegas, em grande número, tendem a evitar o trabalho no aqui-agora-comigo da relação analítica, apegando-se defensivamente à psicopatologia do paciente, suas relações externas, sua história e a composição da família. Alegando o apoio de algum referencial teórico, optam por interpretar o conteúdo manifesto das falas do paciente, fugindo emocional e cognitivamente da sessão; perdem, assim, algumas das melhores chances de uma análise profunda e transformadora (Doin, 2002).

Outros colegas percebem o que se passa na dinâmica da sessão, até mesmo os funcionamentos mais conturbados dos pacientes, agora referidos ao analista, mas preferem a abordagem sistemática de seus aspectos mais aceitáveis ou próximos da normalidade, justificando-se igualmente com uma escolha de referencial.

Considero reducionistas essas posições, e busco respaldo na visão holística do ser humano e da ação terapêutica da psicanálise, de longa e profícua tradição (Strachey, 1934), para afirmar: não há, em definitivo, lado bom ou mau, transferência positiva ou negativa - há uma mente a ser integrada em todos os seus aspectos; e, neste sentido, o exame de todas as transferências é potencialmente bom, todos os lados têm sua utilidade funcional a ser considerada no conjunto da pessoa, sua análise faz parte de uma boa análise. Estou persuadido de que nossa meta terapêutica deve ser a síntese organizadora do ser individual, somatopsíquico, sociocultural, não apenas o ilusório reforço do seu “lado bom” (Doin, 2008).

Na verdade, a opção sistemática por um dos lados do paciente, em geral, pelo menos censurado, costuma resultar de limitações e pontos-cegos contratransferenciais. Observo, na efetiva prática de inúmeros colegas, mesmo de alguns justamente prestigiados, uma dificuldade sub-reptícia de abordar as ditas transferências negativas (discursos psicanaliticamente corretos à parte). É bem mais fácil ser o bom amigo normal, o objeto bom, a imagem parental idealizada, mais de acordo até com os melhores aspectos de cada um de nós. Cronifica-se, dessa maneira, a pertinaz e enganosa propensão a acentuar os aspectos positivos, transferenciais e contratransfenciais, por certo existentes, porém maximizados reativamente, visando encobrir as divisões e contradições, os paradoxos, os baluartes da “loucura” de lado a lado, enfim, os embates de grandezas e misérias da humana contingência, que é de todos nós.

Verifico, com desoladora freqüência, analistas não aceitarem verdadeiramente, vivenciadamente, as transferências ditas negativas, em que as pulsões eróticas e destrutivas se exacerbam, como ensinou Freud. Não suportando ser identificados (e, ao menos em parte, se sentir) como objetos loucos, perversos, malvados ou incestuosos, preferem adotar ideologicamente, defensivamente e sem muito mais crítica, uma visão parcial (partidária) dos pacientes.

Não percebem claro o quanto estes, além de se dizerem vítimas dos familiares, também se julgam culpados em relação a eles e ao analista, por motivos transferenciais ou mesmo realistas. Muitos pacientes nos percebem mais ingênuos e pretenciosos do que nos permite reconhecer a nossa vã vaidade defensiva. Já por isso, não podem aceitar a absolvição que o analista lhes concede, porque se julgam, mesmo inconscientemente, mesmo injustamente, cúmplices ou culpados pelos infortúnios alheios e pelos próprios. Casos típicos são os dos analisandos que sofreram abusos sexuais na infância ou daqueles que tiveram uma vida de fato desgraçada, acidentalmente desgraçada.

Dizendo de outro modo: na linha do desenvolvimento e das regressões, inumeráveis analistas fogem do psiquismo primitivo, onde se implantam as raízes mais profundas da saúde mental e existencial e as da patologia mais desagregadora e dissociativa, das psicoses e pré-psicoses, perversões e psicopatias. Atêm-se a níveis mais superficiais e vão se frustrar com seus modelos de trabalho clínico igualmente superficiais, mais psicoterápicos que psicanalíticos. Para tais colegas, parece impossível admitir suas



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