Ganhador-perdedor



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CULPAS DO GANHADOR, GANHOS DO PERDEDOR E OS IMPASSES PSICANALÍTICOS1


Carlos Doin2
Resumo

Retomando as reflexões do autor em outro estudo (2005), sobre traumatofilia e questões correlatas, o presente trabalho aborda especialmente os impasses crônicos, repetitivos, instalados em muitas análises, em cuja origem é decisivo um tripé: problemática da culpa, patologia narcísica, ganhos secundários dos arranjos anacrônicos. As culpas e seus desdobramentos constituem o centro do presente texto, o que são significa menor importância dos outros fatores.

Ressalta-se a relevância das análises pessoais dos psicanalistas, já que os pontos cegos contratransferenciais costumam se compor estreitamente com os transtornos estruturais e funcionais dos analisandos, na produção da patologia do vínculo e dos impasses terapêuticos; avultam entre eles os problemas relacionados com traumas de infância, falhas graves da maternagem e paternagem e do convívio, abusos edipianos, pedofilia e perversões diversas, violências de todos os tipos e fases.

Ao longo do texto se incluem ilustrações clínicas e sugestões técnicas sobre os pontos selecionados para exame.

À fundamentação teórica psicanalítica são acrescidas contribuições de áreas vizinhas, particularmente da neurociência cognitiva evolutiva.


Introdução

Creio que minha preocupação com os impasses dos tratamentos psicanalíticos, as limitações e a longa duração de muitas das análises-padrão, é compartilhada por todos os colegas, especialmente pelos veteranos, por aqueles que já creditam a seu favor um saldo razoável de sucessos terapêuticos, ao lado de inúmeros fracassos.

Vou propor o exame de diversos elementos encontrados por todos nós na composição dos impasses, como o emaranhado vergonha-culpa-perdão, a afirmação narcísica através das vinganças e das resistências, os ataques invejosos, os ganhos secundários da chamada patologia e da condição de vítima (traumatofílicos, estruturantes, narcísicos, libidinosos, relacionais, defensivos). O que se denomina patologia, no geral das pessoas razoavelmente estruturadas (tipicamente, as “neurótico-normais”), refere-se a uma organização somatopsíquica de enorme complexidade e funcionalidade, que é mantida, no bojo das compulsões à repetição, pelo especial motivo de produzir vantagens, de acordo com um viés subjetivo, inconsciente, quase sempre conflitante com outros pontos de vista do mesmo indivíduo e com o senso comum.

Dada a vastidão dos fatores em interjogo, foi preciso selecionar alguns para este texto, enquanto muitos outros serão apenas mencionados.

Digamos, desde logo: a definição de ganhador ou perdedor oscila, quase sempre, entre níveis e posições subjetivas, no meio das lógicas paradoxais do perder-ganhando e do ganhar-perdendo.

Os nós das análises costumam resultar de dificuldades de ambos os participantes; do lado do paciente, de uma trama viciosa de crime e castigo operando em arranjos patológicos tidos (inconscientemente) como úteis e lucrativos, a serem repetidos e preservados; do lado do analista, pontos cegos sobre questões mal resolvidas, algumas bastante semelhantes às do analisando, quando não idênticas, ou complementares.

Verifico sempre mais, na base de incontáveis desgraças crônicas e da maioria dos impasses psicanalíticos, uma renitente incapacidade de perdoar, principalmente aos pais, aos analistas e a si mesmos (Doin, 2005). Fazer e fazer-se justiça constituem uma das metas culminantes dos bons tratamentos psicanalíticos, só atingível à medida que, no foro íntimo de cada paciente e de acordo com seus critérios individuais, muitas vezes surpreendentes, as culpas forem relativizadas, e as razões e os méritos das partes em julgamento forem reconhecidos.

O empuxo para a dita normalidade, para o verdadeiro self, o desejo de saúde, primazia genital, progresso em todo sentido, o anseio por decência e honestidade, por moralidade, constituem, sem dúvida, poderosas forças filogenético-ontogenéticas de base; mas elas se defrontam permanentemente com disposições adversas, em que se destacam a compulsão à repetição, os ganhos secundários da patologia repetitiva, os benefícios da doença, bastante conhecidos da psicanálise clássica e atual, embora nem sempre levados na devida conta. Por isso considero uma ingenuidade, se não uma cegueira afetivo-cognitiva frequente (frequentíssima), a de tantos psicanalistas que, esquecendo-se de Freud, ignoram a dialética Eros-Tânatos, os conflitos dos determinismos e motivações dos pacientes; polarizando-se em seus aspectos mais louváveis e nos sofrimentos manifestos, empenham-se apenas em lhes dar alívio e os privam das efetivas chances de mudança e libertação.

Penso, nesta altura, na mãe de um jovem drogado-contraventor, martirizada entre agressões sofridas, lamentos, auto-acusações e inúmeros fracassos terapêuticos acumulados por ambos. Um dos analistas em questão me confidenciou o quanto se sentia culpado por não ter feito mais pela paciente. Cobrando-se apenas a obrigação de mitigar os sofrimentos (sintomáticos e defensivos) da senhora, o colega não conseguiu reconhecer a complexidade dos problemas interligados, a loucura a dois mãe-filho (tragédia de todo dia, nas famílias e nos consultórios), as responsabilidades e culpas de ambos, inclusive pelo propósito inconsciente de manterem o status quo, conveniente para os dois, em oposição aos tratamentos.

Ainda bem que o novo analista da mãe se inteirou da patologia interativa. O fio da meada, que soube segurar, foi-lhe dado na sessão em que se flagrou falando muito áspero com a paciente acerca de sua passividade e acomodação diante do filho. Percebeu logo que ela reinstalava um equivalente do jogo sadomasoquista-masoquistassádico na relação analítica, com participação contratransferencial, e que a passividade dela era, também ali, sua arma de desacato, agressão, triunfo e castigo.

Novas associações, então, fluíram. A paciente sofria violências físicas nas mãos do filho (além das inúmeras agressões psicológicas), à semelhança do que acontecia com sua própria mãe, espancada pelo marido, devasso e alcoólatra, quase todas as semanas, a ponto de se tornar conhecida na vizinhança como “mulher de malandro”. Num comportamento típico das relações sadomasoquistas, a mãe da paciente tentava justificar os maus (“bons”) tratos a que se submetia em nome de um suposto grande amor, pois ele “só” a agredia quando estava bêbado - enquanto a paciente tentava desculpar o filho que “só” a atacava quando drogado. Abriu-se caminho para a análise dessa patologia transgeracional, em que os componentes edípicos, os ganhos eróticos, sádicos e masoquista-culposos alimentavam a síndrome traumatofílica. Só então a paciente entendeu o fracasso do casamento com o pai do seu filho, e de suas tentativas com outros analistas. Seu fraco (forte) era apanhar (bater).

Não apresentarei grandes novidades teóricas, apenas o fruto do aprendizado que consegui extrair de meus erros incalculáveis e êxitos crescentes. Meu lucro maior, que desejo repartir com os colegas, é uma empolgação esclarecida com a psicanálise, “o pior método terapêutico, exceto todos os outros do mesmo gênero” - se me permitem parafrasear o dito célebre de Winston Churchill.

Não é supérfluo lembrar: trabalho com o meu modelo atual de psicanálise, aquele mais de acordo com meus conhecimentos, experiências, qualidades e defeitos - sem demérito das opções de cada colega, no universo pluralista dos referenciais psicanalíticos. Mesmo porque as contribuições e vinhetas clínicas aqui incluídas provêm de fontes bem diversas, nacionais e estrangeiras, de modelos múltiplos.

Mais que tudo, acredito que, acima dos referenciais e percursos do terapeuta, o que decide o resultado de um tratamento psicanalítico, junto com as possibilidades do paciente, é a qualidade da relação humana especialíssima que se estabelece entre analista e analisando, o grau de afetos positivos nela vigentes e florescentes, de preferência aqueles verdadeiros desde o início - um “amor à primeira ou segunda vista” que o terapeuta logo conscientiza e aproveita.

Sem alterar as ilustrações clínicas já publicadas, apliquei aos outros casos aqui apresentados os recursos usuais de proteção do sigilo e anonimato, principalmente os recomendados por Gabbard (2000).




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