Futuro da psicanálise, psicanálise e futuro* Carlos Amaral Dias



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FUTURO DA PSICANÁLISE,

PSICANÁLISE E FUTURO*

Carlos Amaral Dias

* Conferência efectuada no II Congresso Luso Brasileiro de Psicanálise

Bahia, Novembro de 2007

Os tempos de hoje não parecem correr de feição para a teoria e a prática psicanalíticas. Um pouco por todo o lado, assiste-se a um conjunto de fenómenos que funcionam como influências emergentes, capazes, ou pelo menos aparentemente capazes, de confinar a Psicanálise a um gueto de analistas e analisandos, enquanto as neurociências, as terapias farmacológicas e, sobretudo, as terapias cognitivas, ocupam o espaço que a Psicanálise, na sua retracção, deixa vago.

Muitos são os que, no lugar da reflexão crítica, parecem apostar na feitura de um coro de lamentações pretensamente uníssono nas diversas sociedades psicanalíticas, filiadas na International Psycho-Analytical Association e não só, como se a coisa psicanalítica se reduzisse ao tema em questão. Questão esta, para a qual e ainda bem, muitas têm sido as terapêuticas propostas, sendo que a interdisciplinaridade ocupa nelas um lugar maior. Fazer as interfaces com as neurociências, encontrar pontos comuns com outras formas de psicoterapia, recuperar a metapsicologia à luz dos novos paradigmas científicos, parece ser o caminho major para ressituar a psicanálise hoje.

Quanto à relação cada vez mais consistente com as neurociências, não podemos deixar de enfatizar os trabalhos de António Damásio que têm confirmado as relações complexas que envolvem emoções, corpo e cortex.

Tais trabalhos têm tido impacto não só no território científico onde se localizam como no interior do campo psicanalítico. Foi Damásio que demostrou do ponto de vista experimental como o reconhecimento das emoções pelo próprio o tornam mais capaz e competente para se relacionar quer com o mundo interno, quer com o externo.

Muitos outros autores têm vindo a acrescentar novas contribuições, sem dúvida enriquecedoras para a confirmação da fertilidade do encontro entre psicanálise e neurociência.

Porém, são também muitos aqueles que põem em questão a vantagem de uma integração da psicanálise com as neurociências. Por outras palavras, não haveria acrescento significativo para a nossa prática na aceitação de pontos de referência externos e independentes da estrita validação psicanalítica para fundamentar as nossas observações.

Por outro lado, se as neurociências viabilizam um menor denominador comum entre as escolas psicanalíticas existentes, já que confirmando alguns dos nossos postulados psicanalíticos de base, isso não quer dizer que tenhamos de remeter os constructos complexos que têm sido elaborados no interior da nossa disciplina, há mais de 100 anos, para um lugar de oblívio e esquecimento.

Freud, que continua a ser a nossa referência básica, sem dúvida alguma que ansiou articular a psicanálise em modelos mais vastos, como aqueles que hoje se designam por neurociências. Bastaria uma releitura do Projecto para uma Psicologia Cientifica (1895) para o demonstrar. Mas aquele que começou como neuroanatomista e neurologista também percorria com o seu pensamento acutilante muitos outros domínios do saber: a antropologia, a sociologia, a filosofia, etc.

O nosso paradigma é portanto outro. A ancoragem do psíquico no biológico que nos parece ser hoje fundamental, não nos aliena do que nos é específico e singular no campo do saber. Ao tirarmos da gaveta o “Projecto”, lugar onde Freud o colocou, não pomos na gaveta o radical psicanalítico que ele também constituiu.

Outras questões são também ciclicamente levantadas na relação entre a psicanálise e o mundo contemporâneo. Aí, o novo mal-estar da civilização, para parafrasear Freud, é apontado como ponto de origem para as dificuldades que a psicanálise atravessa na contemporaneidade. Inúmeros trabalhos insistem em mostrar como as mudanças sociais têm um impacto nas formas contemporâneas de expressão da angústia, formas essas que exigiriam da psicanálise um contínuo esforço de adaptação, muitas vezes inglório. Por exemplo, o papel que Freud atribuiu ao auto-erotismo parece em crescimento, através das novas modalidades de excitação para as quais os termos televisivos, ritmo e swing, parecem apropriados. Por outro lado, emergem novas formas de prazer, que reificam a excitação em si mesma, para não falar já do impressionante número de crianças hipercinéticas ou hiperactivas. Aumentam, num crescendo inquietante, as personalidades com escassa capacidade reflexiva, ou seja, aquelas cujo pensamento não se sedimenta na experiência vital, tendo por isso pouquíssima função psicanalítica da personalidade. No nosso quotidiano, confrontamo-nos mais com humanos dominados por interesses basculantes e superficiais, em que a procura permanente de divertimento e prazer se sobrepõe à capacidade vincular.

Humanos com baixa capacidade da criação de vínculos de amor e solidariedade e em que o conceito “à la page”de pro-actividade se confunde com pro-clivagem, hipocrisia e falsa aceitação, acompanhadas da omnipotência fálica que caracteriza este novo tipo de sedutores.

Por outro lado, os efeitos de normalização e homogeneização da vida social, através do esforço combinado dos media e da publicidade, têm tendência em criar seres iguais uns aos outros, que pensam e fazem como os outros e em que, consequentemente, a passividade e submissão dominam os comportamentos. Ao lado, os trânsfugas da homogeneização não se organizam na franja reflexiva, mas por manifestações agressivas, tendências impulsivas não controladas e intolerância face à frustração e à adversidade.

A identificação imitativa a modelos externos ao pensamento substitui, mais e mais, a identificação propriamente dita. A identificação adesiva submete a identificação coesiva, num abuso estiolante da identificação introjectiva.

Tais sinais dos tempos encontram nas pautas culturais contemporâneas as fundações necessárias ao seu desenvolvimento.

Os psicanalistas mais habituados a lidar com modelos e meta-modelos emergentes a partir da segunda tópica de Freud, incluindo aí as teorias kleinianas, vêem-se, face a estas modificações, a remanejar as suas conceptualizações e as suas práticas, não tanto porque questionem o pensamento psicanalítico dito, mas antes por encontrarem uma fragilidade entre o habitual da clínica e as novas personagens que a habitam.

Um mundo dominado, para parafrasear Bion, por L- e H- faz do divã não um lugar para a perplexidade, mas um não lugar para este tipo de contemporaneidade. Pelo menos, é o que parece, embora nem sempre o que parece é...

É sabido o esforço que muitos autores, tais como Kernberg, têm feito para encontrar outras formas de comunicação psicanalítica com estes pacientes. Pensamos, nomeadamente nas perturbações de dependência (aditivas ou objectais aditivas), caracterizadas essencialmente por fusão e ataques à fusão contra o objecto (oscilações L- H-com expressão em necessidade de protecção e raiva contra a necessidade de protecção) bem como as perturbações do pensamento onde a adesão/rasgadura na relação com o outro, é cada vez mais evidenciavel.

É sabido também que as malhas do setting parecem frequentemente ameaçadas face aos que presentificam o futuro, sem cuidarem de saber o que são passado, presente e futuro.

A terceira questão exógena à psicanálise de hoje, e que também a questiona, deriva da ideologia dominante que ocupa o mundo mediático. O novo Graal das ciências é o genoma humano e o nosso destino já não se encontra inscrito nos astros, mas nos genes. O alcoolismo recombina-se com a genética, a esquizofrenia e a psicose maniaco-depressiva também. Todos sabemos da fraude imanente a este tipo de raciocínio. Nenhuma descoberta actual autoriza ao paradigma genotípico puro. As descobertas genéticas mostram como a sua expressão depende pelo menos no adoecer psicológico das variáveis desenvolvimentais e sócio-culturais . O que parece óbvio, ou seja, um paradigma fenotípico de expressão probabilística e não reducionista que é também o nosso, torna-se opaco e até aparentemente abstruso, face aos dizeres contemporâneos. Já não há destino, há predestinação. Os jornais e as televisões de hoje apenas plagiam Sto. Agostinho, o velho, aquele que não dava ao Homem liberdade alguma, porque o seu destino já se encontrava traçado por Deus. Esta infâmia cognitiva é, no entanto, emergente e marca a vida social de uma forma decisiva. Não é apenas a indústria farmacêutica que ganha com isso. Mais, muito mais ganha o neo-obscurantismo travestido na investigação cientifica, que medievaliza e nos medievaliza.





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