Foi a partir do século XX que a adolescência tornou-se um objeto de estudo da ciência, em particular, da Psicologia (bock, 2001)



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Adolescência: da inquietação à compreensão

Alexandra Borges dos Santos1
Foi a partir do século XX que a adolescência tornou-se um objeto de estudo da ciência, em particular, da Psicologia (BOCK, 2001). Muitas teorias e manuais tratam a adolescência como um período de desenvolvimento e conflito, caracterizada pelas mudanças corporais e como um período de transição, muitas vezes temido, que deve ser percorrido com a intenção de se alcançar o objetivo maior: chegar à vida adulta.

A concepção de adolescência mais difundida é baseada em uma visão naturalista e universal, onde os desequilíbrios e instabilidades são apresentados como inerentes aos jovens.

Essa visão homogeneizadora com que é tratada a adolescência vem nos provocando inquietações, já que não a entendemos como uma fase natural do desenvolvimento humano (confundindo-a com a puberdade, por exemplo), mas como uma produção da Modernidade, daí a impossibilidade de naturalizá-la. Construiu-se uma denominação e algumas características a que todos os jovens de uma determinada faixa etária deveriam se enquadrar. Só podemos falar de uma forma típica de se vivenciar a adolescência? Ou melhor, todos teriam realmente que viver uma adolescência?

Buscamos compreender o que denominamos de adolescência como um momento existencial, que como os outros, tem suas particularidades e sua importância de ser-no-presente, não devendo ser encarada como uma fase de ajustes para alcançar uma vida adulta equilibrada. A adolescência não é simplesmente uma ponte entre a infância e a adultícia.

Como pensar na adolescência como natural e universal se essa foi construída historicamente? Os jovens sempre existiram, mas o sentimento de adolescência vivido na modernidade é uma criação recente. Não existe uma única adolescência em todos os tempos e lugares. Cada adolescente experiencia este momento de sua existência com características que lhe são singulares. Apesar de alguns aspectos que podem se repetir em cada adolescer, não podemos universalizá-lo. “É surpreendente que mesmo com estudos antropológicos que vem questionando a universalidade dos conflitos adolescentes, a psicologia convencional insista em negligenciar a inserção histórica do jovem” (BOCK, 2001, p.165).

Não podemos pensar na adolescência de forma unívoca, mesmo dentro das teorias psicológicas, se encontramos distinções até nas definições de diferentes autores. Esta é vista como: um período de tempestade e tormenta (Stanley Hall, 1925); uma recapitulação do complexo de Édipo (Anna Freud, 1973); período de moratória social (Erik Erikson, 1976); período de vivência e elaboração de três lutos básicos (Arminda Aberastury, 1983); uma “síndrome” normal (Maurício Knobel, 1981). É notória a influência da psicanálise na concepção de adolescência acatada pela psicologia.

Contudo, a perspectiva sócio-histórica contribui com uma visão diferenciada sobre a questão. Ela acredita na importância da contextualização social, histórica e cultural para a compreensão da adolescência; entende que ela (a adolescência) é uma criação histórica do homem enquanto representação, fato social e psicológico, só podendo ser compreendido na inserção com o social e com o histórico.

A adolescência é um fenômeno que nos instiga por ser uma das formações culturais mais importantes da nossa época; ela é o objeto de sonho e de temor, fonte de desconfiança e de potencialidades consumistas. Percebe-se, contemporaneamente, um culto desse período da vida ao mesmo tempo em que ele é visto por um prisma de estereótipos, pelo qual os adultos olham os jovens ou estes mesmos se reconhecem.

Nos perguntávamos se os adolescentes vivenciam suas subjetividades tal como descrevem as teorias, já que a grande maioria fala de um adolescente “típico” e nesta busca de homogeneização acabam se afastando do fenômeno que é o adolescer. A teoria pode iluminar um olhar lançado sobre a realidade, mas por ser limitada, torna-se insuficiente para dar conta da verdadeira vivência. Pela singularidade de cada ser, só podemos falar das várias experiências desse possível adolescimento. Essa distância entre a teoria e o vivido se dá porque as teorias consideram mais a explicação que a experiência.

“O adolescente é um mistério não porque seja uma realidade inacessível, mas porque é uma pessoa cuja intimidade não se desvela facilmente e quer ser não explicada, mas compreendida, não esmiuçada, mas respeitada” (RAMOS, 1986, p. 12).

Encontramos muitas teorizações sobre a adolescência e verdadeiros manuais de como esta deve ser vivida, entendida e controlada. Percebemos que se busca muito mais cercá-la de explicações do que compreendê-la. Portanto, geralmente não se procura pensar a adolescência partindo do próprio adolescente.

Apesar da ausência de teorias que apresentem uma reflexão fenomenológica do processo de adolescer, vimos o quanto o método fenomenológico pode ser um valioso caminho para a compreensão da vivência desses sujeitos, já que buscaríamos o sentido que os próprios adolescentes atribuem à sua experiência, buscando lançar um novo olhar sobre a questão, já que percebemos uma lacuna na teorização que trata deste tema, uma vez que dificilmente o discurso do próprio adolescente é a referência para se compreender este fenômeno, sem a intenção de apenas enquadrá-lo em modelos pré-estabelecidos.


“Não se sai em busca da compreensão de um fenômeno tentando aplicar sobre ele uma resposta já sabida sobre ele mesmo. Investigar não é assim, uma aplicação sobre o real do que já se sabe a seu respeito. Ao contrário, é a ele que perguntamos o que queremos saber dele mesmo” (CRITELLI, 1996, p. 25).
Seguindo os pressupostos fenomenológicos, o dado humano é único. Cada sujeito só pode falar de sua própria experiência, por isso, não há como promover generalizações, por não haver uma verdade única enquanto tal, que deva ser buscada em cada experiência. Através de uma herança heideggeriana, tomamos o conceito de verdade como aletheia (do grego, desvelamento, desocultação), por entendermos a verdade como transitória e incompleta, diferente da verdade (veritas, do latim) buscada pelos positivistas no sentido de exatidão, adequação com a realidade.

Ao falarmos de uma reflexão fenomenológica devemos compreender que há muitos caminhos possíveis.

“Mesmo dentro da fenomenologia, existem divergências quanto ao modo de buscar a identificação de um fenômeno. Assim, enquanto Husserl buscava apreender dos fenômenos sua essência, compreendida como algo que não se perde, pois que independe do intérprete, Heidegger quer entender a vida e seus fenômenos desde si mesmo, quer participar e não ‘suspender’ o próprio viver” (FROTA, 2001, p. 12).
Ao pensarmos na contribuição que este tipo de reflexão pode trazer à psicologia, percebemos o quanto é importante lançarmos esse olhar em busca de compreendermos as singularidades e não ficarmos na tentativa de estabelecer generalizações. É fundamental nos abrirmos para compreender o fenômeno que nos é apresentado através de suas particularidades, seja ele: um adolescente, uma instituição, um problema, um cliente, etc. Pois os nossos conhecimentos anteriores e generalistas nos constituem e podem balizar nossas práticas, mas não darão conta de um caso específico, já que cada ser, por sua unicidade, não será compreendido, senão através do que lhe é singular.

Em uma investigação fenomenológica, tem-se como objetivo fazer com que a coisa interrogada se revele através da participação e da abertura, e não através da manipulação e do controle próprios de métodos científicos mais tradicionais. As experiências só podem ser entendidas através das significações dos acontecimentos que as constituem. Sendo única a vivência de cada sujeito, só podemos ter acesso ao seu vivido através do que nos é dito pelo próprio sujeito.

Partindo do próprio adolescente, com suas vivências singulares, pensamos na riqueza de uma nova leitura mostrando as diferentes possibilidades de se olhar e refletir sobre a adolescência, fornecendo informações mais particulares em detrimento das generalizações, visando assim, abordar essa questão de uma forma diferente das explicações e crenças que perpassam as concepções já arraigadas. Sem ter como objetivo promover uma explicação ou comprovação do fenômeno em questão.

Uma reflexão acerca da adolescência, através de uma descrição fenomenológica, jamais será completa ou acabada, visto que o fenômeno nunca se esgota, já que a própria existência humana é um constante vir a ser. Contudo, ao dar voz aos próprios adolescentes, que só podem falar de suas experiências particulares, entramos em contato com suas singularidades e podemos perceber a beleza da diversidade, das várias possibilidades de estar-no-mundo.







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