Fibromialgia, um corpo que dói: regime do desespero no mundo em que vivemos



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Um corpo que dói: espelho do mundo em dês-espero
Rodrigues, Priscila Almeida1

Romera, Maria Lúcia Castilho2

Prochno, Caio César Camargo de Souza3

Resumo:

Tendo por base as formações narcísicas e o corpo articulados com a sociedade contemporânea, considerar-se-á a problemática do corpo doído no universo da clínica. Investiga-se a complexidade dessa questão e a importância de uma análise cuidadosa sob a lente do método psicanalítico. No cotidiano da clínica não raro nos deparamos com a manifestação de condições que mais comumente são designadas de psicossomáticas. Tal designação nos remete a pensar em um estranhamento sem representação, ou num corpo que se manifesta sem mediação da palavra que toma a dimensão do corpo. Configura-se um estado ou uma condição: o corpo carrega o real que nele se concretiza. Uma psique que não é de nossa fabricação pessoal, mas é criada no real. O mundo se apresenta no corpo e o aprisiona. O mundo ou o pensamento do mundo atravessa o corpo e este o espelha de forma convexa escancarando como se fora um disfarce.


Palavras-chave: Corpo, Contemporaneidade, Dor.
I – Introdução
não me toquem nessa dor

ela é tudo que me sobra

sofrer, vai ser minha última obra”

(Paulo Leminski)
Estamos inseridos num contexto sócio-econômico-cultural caracterizado pelas crescentes exigências de produtividade e funcionalidade e constante apelo ao consumismo que configuram um regime de pensamento na atualidade. Tal regime traz consigo a idéia de que para ser livre é necessário produzir, consumir e aparecer ou parecer pelo que se produziu e consumiu.

Assim vivemos em meio ao crescimento das tecnologias da informática, da medicina, da virtualidade, da informação, da mídia, entre outros que agem na formação da consciência do indivíduo. Uma ordem imperiosa constituinte da subjetividade do homem contemporâneo com uma organização espaço temporal muito peculiar.

A ordem linear: passado-presente-futuro se desconfigurou. Os dias parecem estar mais curtos, o volume de compromissos, trabalho e a competitividade são crescentes e a ordem é de uma presentificação em bloco. O presente não se articula com o passado e o futuro, mas sim com o aparecer. Não ter tempo é fonte de aflição, mas também de conforto por sentir-se ajustado a rotina da vida contemporânea. Tudo precisa ser rápido e o mais prático possível.

E o corpo? Há uma tendência oriunda de uma forma mais positivista de pensar que nos leva a acreditar na existência de duas faces aparentemente distintas: de um lado o indivíduo adoecido e de outro, a sociedade contemporânea e de maneira análoga, de um lado o orgânico e de outro o psíquico. Nessa investigação também é muito freqüente privilegiar-se a psicogênese infantil como caminho para entendermos a neurose, psicose ou perversão e a investigação da sociedade fica a cargo das ciências sociais, antropologia e áreas afins.

Neste trabalho pretende-se tomar em consideração a problemática do corpo na contemporaneidade, do corpo doído, que não cessa de queixar-se de dor. Para essa investigação, considera-se a complexidade dessa questão e a importância de uma análise cuidadosa sob a lente do método psicanalítico, levando-se em conta o regime de pensamento na atualidade.

Por muito tempo a Psicanálise ficou restrita e mais reconhecida pela análise do indivíduo/sujeito que se apresentava nos consultórios. Estabeleceu-se como uma terapêutica alicerçada na relação transferencial entre analista-analisando emoldurada por número estabelecido de sessões semanais, técnica da associação livre, rememoração dos traumas infantis, etc. Alguns autores ou pensadores psicanalistas têm questionado tal forma de circunscrição da psicanálise.

Maia (2000) coloca que “é cada vez mais difícil pensar numa dicotomia entre psique e soma.” (Maia, 2000, p.266). A autora nos atenta para a complexidade das relações entre corpo e mente e questiona “se lidamos com uma possibilidade dupla: dor corporal ou dor psíquica. Em larga medida, o corpo expressa e inclui o psíquico.” (p.267). A autora enfatiza o corpo considerando como estofo para as primeiras marcas e impressões psico-afetivas.

Garcia-Roza (2000) por sua vez, nos auxilia a refletir que o mundo psíquico é constituído muito mais além do que os traços mnêmicos ou memória, mas há algo da ordem sensorial que também o constitui.

Herrmann (2004) retomando a história da Psicanálise desde a época em que Freud expôs suas idéias psicanalíticas e a construção do edifício clínico-teórico psicanalítico, coloca que a psicanálise ao longo dos tempos passou a ser mera repetição de uma técnica – associação livre, atenção flutuante e interpretação da transferência. Houve, assim, uma deterioração e esvaziamento dos conceitos psicanalíticos.

Birman (2003) traz a discussão dos caminhos tomados pela psicanálise nos últimos anos e coloca que esta “deve repensar seus fundamentos para ficar sensível e ser potente no que tange ao mal estar na atualidade.” (BIRMAN, 2003, p.26). Para o autor, um desses fundamentos é a Psicanálise continuar indagando sobre “as relações turbulentas do sujeito com seu desejo.” (BIRMAN, 2003, p.26).

Assim, mostra-se a falência de uma análise centrada no indivíduo sem articulação com sua condição de sujeito da representação, o que implicaria em uma articulação com a sociedade e a cultura.

Para Herrmann (2001) “o estado presente da psicanálise é um estado de crise” (HERRMANN, 2001, p.14), uma crise que se relaciona à crise da realidade cotidiana. Uma realidade homogeneizadora e repetitiva que produz uma adesão à padronização técnica e produz uma psicanálise que se caracteriza por uma baixa produção teórica, repetição e restrição de modelos considerados psicanalíticos, divisão em escolas assim como, uma prática clínica explicativa que projeta nos pacientes as teorias escolásticas.

Em contraposição a essa forma padronizada de pensar a Psicanálise e o cotidiano, a Teoria dos Campos, fundada por Fábio Herrmann, propõe-se a uma reflexão sobre a essência da Psicanálise - o método psicanalítico de Freud concebido como uma forma de produção de conhecimento, um ponto de vista sobre o mundo.

E por falar em mundo, a Teoria dos Campos nos convida a vê-lo com outros olhos, com a lente do método psicanalítico. Assim também, a adotar uma postura que tome em consideração a cultura e a sociedade nas quais os indivíduos estão imersos - indivíduo e sociedade como duas faces de uma mesma moeda.

Herrmann (2003) coloca que a Teoria dos Campos “(...) recusa a distinção taxativa entre indivíduo e sociedade, e, na esteira de Freud, como não poderia deixar de ser, utiliza o método interpretativo para compreender criticamente a psique do real.” (HERRMANN, 2003, p.8). O autor também coloca que a “Psicanálise é, em essência, um método de conhecimento, cujo horizonte de aplicação inclui a análise da psique social, ou melhor, dizendo, da psique do real” (HERRMANN, 2003, p.2)

O conjunto dos campos da vida social e individual é o que organiza a topografia da psique. E como coloca Herrmann (2001) a psique foi confundida “com uma espécie de cérebro metafórico, o aparelho psíquico individual. O cérebro é um só, feito de neurônios, sinapses de correntes eletroquímicas; já a psique é produção viva de sentido.” (HERRMANN, 2001, p.161).

Para Herrmann (2001) o mundo em que vivemos participa de cada pensamento do indivíduo, ele determina como o sujeito está constituído. “O pensamento vem do mundo e ao mundo se dirige: o mundo pensa-se através de mim, e o modo de meu pensar é o modo de ser deste mundo em que vivo.” (HERMANN, 2001, p.156).

E prossegue dizendo:

A psique que nos usa como lugar de sua ação, mas que nós temos a ilusão de dominar como a um instrumento, não é de nossa fabricação pessoal, cria-se no real, desenvolve suas propriedades historicamente e é infundida no indivíduo por seu tempo e sua cultura, moldando-o ao estilo presente de pensar. (HERRMANN, 2001, p.158).

O autor também coloca que uma psicanálise do cotidiano precisa considerar o regime de pensamento do mundo “sob pena de fazer ciência abstrata e, pior, desarraigar o sujeito individual, eliminando o próprio objeto de estudo.” (HERRMANN, 2001, p.158).

Romera (2006) coloca: “a imediatez ganha espaço privilegiado e segue a nova ordem da temporalidade momentânea do “tudo deve ser para ontem”!” (ROMERA, 2006, p.11). Ou tudo deve ser para amanhã. As comidas fast, as dietas devem ser rápidas e eficazes, o sexo prazeroso e casual, as relações descompromissadas.

Atualmente, os pacientes que chegam para tratamento almejam soluções rápidas, indolores, que tragam alívio para suas angústias, mas que não exija grandes mudanças no modo como têm vivido. “Parece que a indagação, a reflexão e a dúvida perderam o espaço para a resolutividade imediatista a qualquer preço.” (ROMERA e TORRECILLAS, 1998, p.339).

Estes autores também discorrem sobre a solidão como uma condição psíquica do homem atual, onde os vínculos se escasseiam e impera-se a idéia do homem dono absoluto de si mesmo. Uma solidão que não lhe permite dobrar-se ou refletir sobre si mesmo e o mantém protegido de sua condição de fragilidade e precariedade.

O impasse se configura com pessoas com urgência de soluções imediatas, ao mesmo tempo, impossibilitadas de refletirem sobre si mesmas. Trazem consigo a ausência de uma substancialidade capaz de lhes conferirem o sentido da vida, alienados de sua condição identitária e desejante.

Barone (1999) situa o mundo em que vivemos como caótico e fragmentado. Presenciamos os avanços tecnológicos nas várias áreas, concomitante à crise nos valores, nos relacionamentos, nas relações de trabalho. A autora considera:

Não é a toa que se diz, hoje, em tom de brincadeira, que não se fazem histéricas como antigamente. Basta olharmos para nosso consultório para constatar que nossos pacientes são outros. As demandas são diferentes. O sofrimento também. Cada vez mais nos procuram pacientes com queixas psicossomáticas. Ou que expressam a fragmentação, a impossibilidade de organização identitária e da realidade minimamente confiáveis. A falta de sentido da vida. (BARONE, 1999, p.170)


Um sujeito expropriado de si mesmo, numa condição de existência caracterizada pelo enquistamento/fechamento psíquico. É neste mundo ou é este mundo que o corpo doído traz!

Mendes (2005), apoiada em autores como Ávila (2004) entre outros, fala sobre o perfil clínico dos pacientes que chegam aos consultórios dos analistas atualmente. Um perfil caracterizado por dores que se expressam no corpo, queixas psicossomáticas que podem ser notadas nas depressões, por exemplo. Sintomas que não encontram expressão verbal ou uma via que possa nomeá-los.

Como será possível então, cuidar do sujeito em meio a essa fragmentação? Como será possível ouvir sua dor?

II – Corpo: decifra-te ou te devoro!




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