Feliz Ano Velho


UTI Unidade de Terapia Intensiva



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UTI

Unidade de Terapia Intensiva
Acordei. De um lado, um caninho com um líquido amarelo que entrava em minha veia; do outro, um com sangue. Na boca, um acoplado, aqueles aparelhinhos de respiração artificial que já conhecia do Fantástico. Muito eficiente, fechava a boca com a língua, mesmo assim o ar entrava. Tinha uma sanfoninha pendurada que enchia e esvaziava. Assoprava e ela nem se tocava, enchia e esvaziava...

Fiquei curtindo o bicho: como é gostoso respirar sem fazer força, enchia e esvaziava... Passei a reparar no ambiente. Era uma sala pequena, com luz fria. Não sabia se era dia ou noite, porque não havia janelas, só paredes brancas. À minha esquerda, um leito com um cara em cima. Também tinha uma sanfoninha. À direita, dois leitos. Tentei me erguer, mas não consegui.

É mesmo, não mexia nada. Lembrei-me do acidente, só podia estar num hospital. "O que aconteceu comigo? Será que fui operado? Será que é por causa da bebida que estou assim ? Algum trauma devido à batida na cabeça?" Ouvi vozes e percebi que havia gente na sala. Comecei a balançar o pescoço pra chamar a atenção. Veio uma enfermeira e perguntou se tava tudo bem.

– Eh, eh, eh...

Perguntou se eu queria tirar o aparelho. Fiz um gesto afirmativo, ela pediu pra esperar um pouco e saiu. Nunca sentira tanta falta da minha voz. Precisava saber se era sério o que tinha acontecido, queria falar, ouvir, e naquela sala não havia nada. A enfermeira voltou com mais dois caras. Perguntaram-me se eu seria capaz de respirar sem a sanfoninha. Era óbvio que podia, afinal de contas eu tava absolutamente acordado. Minha boca livre, perguntei o que havia acontecido. Responderam que eu fora operado e que , estava tudo bem.

– Como assim ?

– Mantenha-se calmo e com um pouco de paciência, que você vai pra casa logo. Tua mãe teve aqui, mas voltou pra São Paulo, porque já é tarde.

– Que horas são?

– Três da manhã.

– Tudo isso? Mas o que aconteceu? Por que acordei só agora ? Quebrei alguma coisa ? Por que é que não me mexo ?

– Calma, amanhã cedo virá o médico que te operou, e você vai saber de tudo. Nós estamos aqui pra te ajudar, tente dormir e descansar, que já, já você fica bom.
Acordei com uma pessoa cantando. Era uma enfermeira. Vinha vindo direto pra mim, como se me conhecesse há muito tempo.

– E aí Marcelo, tudo bem? Eu sou a Elma. Agüenta um pouco que nós vamos te dar um banho.

Ela era baixinha, gordinha, dessas com uma cara simpaticíssima. Não entendi direito aquele banho. Será que vão-me colocar num chuveiro? Mas como? Se eu não me mexo. Imagino que não conseguiria ficar em pé. Podem me pôr numa banheira, mas com esses caninhos vai ser meio difícil. Estava meio confuso, não conseguia pensar direito. Será que vai demorar pra mexer alguma coisa? Pode ser que dê pra mexer alguma coisa, pode ser que dê pra ficar de pé, que merda não entender nada de medicina. Além do que, esse líquido amarelo que entra na veia deve ser algum tranqüilizante, é que eu tô meio de barato, com a boca seca e formigando."

Apesar de sozinho lá deitado, dava pra sacar que a movimentação era intensa. Veio um crioulo com uma bandeja na mão:

– E aí meu irmão, como é que é, tudo firme? Fica frio, não esquenta não, porque se você esquentar a cabeça, caspa vira "mandiopan ".

Fiquei imaginando um cara começando a ficar nervoso, vermelho, a cabeça pipocando ploc ploc ploc...

Até hoje não sei porque comecei a chamar esse crioulo de Ding Dong. Era o nome do percussionista do meu conjunto, só que era branco. Acho que foi uma forma carinhosa de chamar um crioulo de King Kong sem racismo. Lembro-me que ele adorava quando eu o chamava de Ding Dong e, apesar de não ser sua função, ele vinha todo o dia, punha a bandeja e falava:

– Olha, senão caspa vira mandiopan.

Veio outro crioulo, esse se chamava Divino, molhou uma toalha n'água e começou a passar no meu corpo. Perguntei se era aquilo o banho.

– É, meu irmão. É um banho de gato, só que ao invés da língua é essa toalhinha.

Eu não podia ficar de bruços, e, para lavar as costas, ele chamou a Elma. Me viraram de lado, ela segurando e ele lavando. O crioulo ficou esfregando a toalha na minha bunda e depois enfiou a mão numa luva de plástico e pôs o dedo no meu cu, para tirar o cocô. Eu morrendo de vergonha, mas ele nem aí. Já devia estar acostumadíssimo.

Só agora percebi que estava num colchão de água. Enxugaram-me e me cobriram. Elma mandou-me esperar um pouco, porque tinha que dar banho em outros pacientes. Disse que logo depois viria dar o café da manhã e bater um papo.

"Que loucura, o que está acontecendo? Eu aqui deitado, sem poder me mexer. Essas pessoas que nunca tinha visto antes, esse lugar, o que é tudo isto afinal ? A única certeza que tenho é que estou vivo e muito lúcido. Consigo me lembrar perfeitamente do acidente, do meu passado, de tudo, enfim. Minha cabeça está a mil por hora e eu aqui paralisado: não poderia ter acontecido algo tão sério assim, será?"

Senti que só existia uma coisa funcionando em mim. Era como se fosse uma cabeça em cima de uma bandeja. Qualquer balançada que desse, a cabeça cairia da bandeja e sairia rolando como se fosse uma bola. Cairia no chão e continuaria rodando, rodando, rodando, rodando, rodando, rodando...

– Até que você é bonito

– Porra, Elma, o que está acontecendo?

– Nada, vou começar a dar café para você agora.

– Eu preciso falar com alguém .

– Tua mãe ligou e está vindo de São Paulo. Deve chegar daqui a pouco.

E foi me dando com colher um café com leite e pão amassado dentro. Fiquei um pouco mais calmo e imaginei minha mãe preocupadíssima. "Como será que eles reagiram à notícia? Será que minhas irmãs já estão sabendo? E o pessoal de Campinas?"

Finalmente chegou minha mãe, a primeira reação que tive foi a de sentir vergonha pela cagada que havia feito: me atirar num lago de meio metro, bêbado.

– Você quebrou a quinta vértebra cervical e comprimiu a medula.

– Medula?

– Medula é um negócio que liga o cérebro aos músculos por estímulos nervosos: enfim, o cabo que liga o telefone de uma casa à central telefônica. O que aconteceu foi que caiu um poste no meio da rua e todos os telefones de um bairro ficaram sem funcionar, apesar da central telefônica estar inteirinha.

– Quer dizer que os meus braços são o Jardim Paulista e as minhas pernas o Ibirapuera ?

– É, filhinho, mais ou menos isso.

– Eunice, falando sinceramente, eu fico bom? Diga a verdade!

Eu nunca tinha tido contato com a morte na minha vida até os doze anos. De repente, morreu meu pai, o pai do Ricardo (meu tio), uma prima, outro tio, outro tio, meu avô, meu outro avô. Tudo isso em dois anos. Foi um choque, pois, encarando‑me como uma criança, nunca me contavam direito a verdade. As pessoas não entendem o que é a morte porque a morte não é para ser entendida, é para ser apenas a morte. A morte é para ser vivida, e minha família não queria que as crianças convivessem com ela.

A morte do meu pai eu vou contar mais tarde. A mais chocante delas foi a do pai do Ricardo. Ele estava com câncer no cérebro, mas me diziam que estava apenas doente. Eu pensava que ele estivesse com uma gripe forte, um resfriado ou com tosse, pensava que ele ia ficar bom logo e nem me importava com o fato de ele ter ido aos Estados Unidos fazer uma operação, de voltar careca, com uma cicatriz enorme na cabeça, de aos poucos ir perdendo a memória, os movimentos e, enfim, entrar em coma. Eu pensava que era só tomar tira-tosse para ele ficar bom logo, porque me diziam que ele estava apenas doente.

Um dia o Ricardo me acordou e ficou sentado na cama olhando pra parede. Percebi que ele estava um pouco triste e, para animá-lo, montei a mesa de botão. Começamos a jogar:

– Lá vai Dorval com a pelota: uahah! (barulho da torcida) – entrega para Fio, dribla o primeiro e perde a bola para Clodoaldo.

– Lá vai Clodoaldo galopando pelo campo, faz um passe, em profundidade para Edu, vai pro gol!

– Pode vir.

– Ploc.


– Defende Ubirajara numa sensacional defesa.

Entra Nalu no quarto e, meio assustada, me chama para o quarto dela. Chegando lá ela me diz:

– Fica com o Ricardo, porque tá a maior confusão lá embaixo.

– Mas, por quê?

– Porque Tio Carlos morreu.

Voltei para o quarto, olhei para o Ricardo e não sabia o que dizer. Eu estava chocadíssimo, e, olhando para o Ricardo, comecei a chorar. O que eu ia fazer? Dizer "meus pêsames" para o meu primo?


Nunca perdoei minha família por não dizer que o Tio Carlos ia morrer. Isso me fez sentir um medo tremendo da mentira e, no momento em que vi minha mãe na UTI, sabia que a verdade seria mais saborosa. Eu não queria de jeito nenhum que minha mãe me encapuzasse fazendo o que algumas tias minhas fazem, me dizendo:

– Fica calmo, porque deus vai resolver tudo direitinho. Deus é muito bom, viu? Pode confiar nele.

Um dia eu estava tão de saco cheio que perguntei para a Tia Cida:

– O que é deus? É um novo drops que saiu?


Eu devia estar sendo muito bem dopado, pois apagava com uma facilidade incrível, e, quando acordava, não conseguia pensar direito: hospital, esses caninhos, esse teto branco, por que não mexia nada? Ah é, era a tal de medula.

"E agora? Minha maior preocupação é sair daqui, estudar pra dois exames que ainda faltam na faculdade, fazer a matrícula do próximo semestre, pagar o aluguel e arrumar grana pra passar o carnaval em Olinda, na casa da Nana." Quando entrou no quarto minha mãe de novo, com um baixinho meio careca, todo de branco:

– Esse foi o médico que te operou, Dr. Alex.

Me deu um sorriso, foi até o pé da cama, examinou as minhas fichas, voltou, examinou o meu pescoço.

– Doutor, eu queria te fazer umas perguntas.

– Lógico, eu vou te explicar tudo direitinho.

–Vou ter que ficar ainda muito tempo aqui? Tenho umas coisas importantes pra fazer .

– Agora não posso te responder. Você foi operado e está em estado de observação.


Teto branco. Branco para paz. Limpeza. Repouso. Branco que nem vazio. Tédio. Solidão. Era difícil o tempo passar e não tinha um filme do Marlon Brando com a Maria Schneider na frente, ou mesmo um com Chico Cuoco e Regina "Malu" Duarte pra se distrair. Não dava pra ler um jornal naquela posição horizontal sem levantar a cabeça. Jogar dominó, pôquer, botão. Não dava pra fazer nada a não ser pensar e olhar o teto branco, com três lustres de lâmpadas de mercúrio, oito parafusos em cada e uma rachadura no teto que lembrava o perfil de um cachorro.

Cachorro. Isso me fez lembrar a minha trágica vida com os animais: cachorros atropelados e gatos : fugitivos. Nunca me esqueço do Sig (homenagem ao Sigmund Freud). Eu tava passeando com ele pela praia do Leblon, quando de repente soltei a coleira, e ele, numa demonstração do quanto gostava de mim, se picou. Saiu correndo feito louco, e eu atrás:

– Volta aqui, seu desgraçado.

Ele atravessou a rua e uma decavê passou por cima. Fiquei chocado, arrependidíssimo, com o maior sentimento de culpa. Meu pai, percebendo meu sofrimento, me deu outro: Khe San, nome de uma província bombardeada pelos americanos no Vietnã (meu pai tinha um senso de humor político incrível). Passeando de carro por Copacabana, eu, num instante, abri a janela pra jogar um papel fora e ele pulou, saiu correndo, felicíssimo, latindo.

Pimpão era um gato incrível. Um dia apareceu na casa, foi com a cara do meu pai e passou a morar lá. Passava o dia inteiro na rua e só aparecia quando meu pai estava deitado, fumando charuto e lendo jornal. Ele pulava a janela, subia no encosto do sofá, descia calmamente até a barriga do velho e ficava lendo o jornal. Os dois se amavam silenciosamente. Dizem que quando um gato vai embora é sinal de morte. Pois é, o Pimpão sumiu e, pouco depois, deram sumiço no meu pai.
Por último, veio o mais incrível deles: Biro-Biro, um gato vira-Iata, preto e branco. Esse foi na minha fase adulta, já morando sozinho em Campinas. Peguei-o para criar desde pequenininho, numa época que eu passava muito tempo sozinho. Resolvi que tinha que educá-Io liberalmente, sem repressões sexuais etc. Quando eu estava escrevendo, ele subia na mesa, caminhava pelo meu braço até o ombro e pulava na minha cabeça, para me ver escrever. Então, eu o colocava na mesa e ficava acariciando sua costela. Apertava bem devagarinho sua bunda, ia e voltava. Ele adorava, me olhava bem no fundo, levantava o rabo e se contorcia todo. Todo dia que eu estava escrevendo, ele vinha como quem quer ser acariciado. Já estava virando mania. Eu não queria, mas ele pegava aponta da caneta com a boca e não me deixava escrever. Eu tirava a caneta, ficava lendo, mas ele sentava em cima do papel e só saía se eu o alisasse. Fiquei preocupado. "Esse gato tá virando um sexomaníaco." Resolvi reprimi-Io. Joguei o Biro-Biro numa almofada, como quem diz:

– Vá procurar suas gatas, canalha.

Eu me dava tão bem com ele que até nossos gostos musicais eram parecidos. Quando eu punha uma música que gostava na vitrola, ele vinha correndo, pulava em cima do disco e ficava rodando, felicíssimo. Eu achava um barato, só que isso me custou duas agulhas e uma coleção de discos arranhados.
– Hora do almoço – disse Elma.

Almoço? Você deve imaginar uma mesa no meio de cinco macas com pessoas absolutamente estouradas comendo frango e chupando ossinhos.

– Cuidado, isso é o meu braço.

– Desculpe, é que parecia uma coxinha de galinha.

Mas não. O almoço era um prato de sopa na mão da Elma. Enquanto me dava na boca, a gordinha falava:

– Você é um cara bem conhecido. Tem um monte de gente lá embaixo querendo te ver .

– Ah é? E por que eles não entram?

– Não pode. Aqui na UTI não devem entrar pessoas de fora, pode ser perigoso. Vocês estão em estado de observação, absoluto repouso. Só a tua mãe e...

– Minhas irmãs?

Acabando o almoço, ela me trouxe um copo d'água com um canudinho de plástico.

– Pra que é que servem esses canudinhos aí pendurados?

– Esse amarelo é soro. Tem glicose e alguns medicamentos. O vermelho é...

– Sangue.

– Isso. É por causa da operação, mas hoje mesmo você tira ele. Aqui no pênis é uma...

– Pênis?

– Ah, não dá pra ver, mas tem uma sonda.

– Pra quê?

– Pra você urinar, burro.

Mais uma vez apaguei. Aliás, os três primeiros dias foram na realidade alguns minutos de acordado e o resto dormindo. A vida se resumia em alguns flashes de sopinhas e enfermeiras tirando a pressão. O Dr. Alex, que vinha me ver todas as manhãs, não falava nada além de um :

– Está melhor?


Quando abro os olhos, na minha frente estão duas caras conhecidas: Veroca e Bundão.

– Agora você já pode receber visitinhas, mas por poucos minutos, pra não se cansar .

– E aí, tudo bem ? Viram a cagada que eu fiz?

– Pois é, a gente ficou preocupado.

– No que é que vai dar tudo isso?

– Ninguém sabe dizer mas tá todo o mundo mandando a maior força.

– Vai dar tudo certo – disse o Bundão, que até agora estava quieto.

– Claro que vai. Eu tô ótimo, é só sair daqui e pronto.

Os dois olharam meio desconfiados.

– Está ótimo. Eu estou bem, não estou?

– É... – disse a Veroca.

– Olha o que eu trouxe pra você.

No começo achei graça daquele presente. Um espelhinho e um pente, desses que vendem em banca de camelô. Pude ver como estava horroroso; Careca, cheio de espinhas, a cara inchada. Mexeu com a minha vaidade. Mas olhando pra minha cara, pude ver que realmente era eu que estava ali. O espelho nos dá esta sensação mágica de, subitamente, tomar consciência de si mesmo. É o momento que você se encontra com o que você representa para o mundo. " Ah, então é assim que eu sou." Repare que em frente do espelho, a gente sempre faz uma careta. É porque achamos que somos diferentes daquilo que realmente somos. Então, a princípio, não acreditamos muito naquela imagem. Até achamos graça. Depois a examinamos direito, e viramos de perfil, de costas, mexemos o cabelo e dizemos: "olá, como vai?". Espelho sempre foi uma coisa importante na minha vida. Eu adoro me ver num espelho, apesar de sentir certa vergonha se houver outra pessoa do lado. Em banheiro de rodoviária, por exemplo, sempre finjo que estou espremendo uma espinha, quando quero me olhar por mais tempo no espelho. Sempre que vou a uma festa e estou bêbado ou chapado, me tranco no banheiro e fico horas me cagando de rir na frente de um espelho: "olha lá você, safado. Está doidão". É engraçado , como eu me estudo minuciosamente frente ao espelho. Presto atenção em todos os detalhes: "essa mecha de cabelo está feia, passo ela pra cá, e assim tá melhor". Acontece que ninguém percebe a mecha corrigida, isto é, pra maioria das pessoas tanto faz se ela está de um lado ou do outro.

Mas foi aquele espelho de camelô que o Bundão me deu que me fez acordar. Me deixou consciente de que, agora, meu dia-a-dia ia ser: teto branco, dormir , teto branco, dormir, teto branco, dormir...


De repente começou. Não, não podia ser, não havia mosquito aqui. Mas era. Uma tremenda coceira na cabeça. Calma, tente se concentrar. "Passa, desgraçada!" Mas ela não passava. Era grande, e eu não podia fazer nada. O braço não saía do lugar. Balançava a cabeça e nada. Não teve jeito.

– Elma! Elma!

Veio uma enfermeira bonitinha:

– A Elma só vem de manhã.

– Dá pra você coçar a minha cabeça?

– Claro.

Ah, que alívio. Ao mesmo tempo fiquei preocupado. E agora, será que sempre, quando der uma coceira, terei que chamar alguém? E se não tiver ninguém? Já imaginou que horrível coçar, coçar, coçar... cada vez aumentando mais. Em filmes, essas coisas nunca acontecem: o mocinho é amarrado numa cadeira, enquanto o bandido seqüestra a sua namorada. Ele percebe que o maldoso assassino esqueceu uma faca em cima da mesa (o bandido é sempre burro). Então ele vai arrastando a cadeira até a mesa, encosta a mão na faca e, de repente, sente uma tremenda coceira no nariz. Ele fica desesperado, a coceira vai aumentando, ele não agüenta mais, solta a faca, se joga no chão, arrasta atesta no pé da mesa, mas não adianta nada. Ele, desesperado, grita. Então, joga-se na fogueira, preferindo a morte a se entregar aos domínios de uma terrível coceira.

– Como é o seu nome?

– Ilma.

– Ilma? Tem uma Elma e uma Ilma, vocês são irmãs?

– Não, mas moramos juntas.

E continuava coçando. Muito bonitinha. Me olhava com uma ternura que transmitia uma certa segurança. Achei altamente sensual duas enfermeiras morando sozinhas nessa cidade moralista. Sei que é um tremendo preconceito meu imaginar que todas as enfermeiras tendem a ter mais relações sexuais do que outras profissionais. É o mesmo que imaginar que todos os enfermeiros são bichas. Mas a minha cabeça sexomaníaca não parava de imaginar: "quando estiver bom, vou sair daqui e ficar bastante amigo dessas enfermeiras, para transar com elas". Sacanagem, né? Também acho, mas eu sou assim mesmo. Depois eu desencano e acabo ficando amigo, mas a primeira coisa em que penso é sempre sexo.

– Você mora aqui? – perguntou Ilma.

– Moro. É que eu estudo na Unicamp,

– Ah é? O que você faz?

– Engenharia agrícola.

– Que ano?

– Passei pro quarto.

– Nossa, mas você parece tão moço. Mora em república?

– Mais ou menos..

Eu não gostava de falar que morava em república, porque minha casa era diferente. República lembra uma casa de dois quartos, onde moram dez pessoas, um monte de beliches, uma mesa na sala e uma enorme televisão pifada. Minha casa era mais transada: um quarto pra cada um: Nana, Gureti, Helô, Mariúsa, Cassy e eu. Uma decoração linda, samambaia, som na sala, rede. Meu quarto era um barato. Eu o pintei todo de marrom-claro e, na parede da janela, um verde-óleo bem escuro, com umas árvores desenhadas. O teto azul-claro com o lustre parecendo um sol. Era a fase ecológica que eu estava passando: transando tecnologia alternativa, agricultura orgânica (falando grosso: agricultura homeopática), essas coisas que viraram moda. Era lindo, em um dia de lua, apagar a luz do quarto. Como a parede da janela era escuríssima, a janela ficava bem realçada, parecendo uma tela de cinema. Aquela lua fazia o teto brilhar, parecendo um planetário. Nessa coisa de pintar paredes de cores diferentes, eu imitei o Otaviano. É que ele tinha feito a sala dele toda marrom-escuro, com o teto bem verde, e tinha pendurado umas esteiras de palha na parede. Parecia que você estava no meio da selva. lindíssimo.

– Tico-tico.

Que gracinha, era a Nana que tinha acabado de entrar na UTI. É uma das minhas irmãzinhas campineiras, isto é, mora comigo. Pernambucana, linda. Acho que deve ser descendente de holandês: loira, com a pele bem queimada do sol e olhos verdes. Nos conhecíamos há uns seis meses, mas já éramos amigos pacas. Um dia, eu tava em São Paulo na casa de minha mãe, quando tocou o telefone.

– Queria falar com Marcelo.

– É ele mesmo.

– Oi, tudo bem? Eu sou a Nana, irmã de Zaldo. É que eu tô ligando de Recife, porque eu tô "afins" de morar em Campinas, e meu irmão me falou que tinha um lugar na tua casa.

Ficamos uma hora falando pelo telefone, batendo altos papos. Meu primo, que tinha passado as férias em Recife, já tinha-me falado sobre ela. Mas quando a vi, já em Campinas, não imaginava que fosse tão bonita. Pena que ela me conheceu quando eu tinha acabado de levar uni pé-na-bunda da Ana. Eu estava mal pacas, a ponto de queimar a fotografia dela e jogar tudo o que ela tinha escrito pra mim no lixo. Levei a Nana pra casa, ajudei-a a arrumar seu quarto, e demos uma bola. Já na primeira noite transamos, o que foi a maior cagada. Eu não estava nem um pouco inspirado, ou melhor, estava broxa mesmo. Ia ser difícil desencanar da Ana, paixão das maiores. Uma mulher forte, com personalidade marcante. Taurina como eu. Foi com ela que eu descobri que orgasmo e ejaculação são coisas distintas. Minha relação com a Nana já começou complicada, eu não conseguia tirar a outra da cabeça, estava querendo ficar sozinho e a coitada pagou o pato.

– Estou emocionado, tudo bem se eu chorar?

– Tico-tico.

Ela me deu um beijo na boca e me abraçou. Ficamos um tempo quietos.

– Que loucura que está acontecendo. Estou muito carente, sozinho. Que será que vai acontecer comigo? Esse hospital...

– Você não está sozinho, tem um montão de gente ai embaixo querendo te ver. Tá todo mundo torcendo por você.

– Sabe que me dá umas dores na barriga toda hora.

– Cocô?


– Não, acho que é nervoso. Eu tô muito sensível. Eu vejo vocês e me dá vontade de chorar .

Enquanto isso, entra também a Veroca, a Big (minha irmã caçula) e a Gorda. Todos. fazendo festa, rindo baixinho.

– Trouxemos uns trecos pra escovar seus dentes – disse a Veroca, tirando do saco uma escova, pasta, um liquido, fio dental.

– Tem também um creminho pra sua pele, que tá toda ressecada.

– Deixa que eu limpo – falou a Nana. Sentou na cama e começou a escovar os meus dentes delicadamente. Aliás ela tem um jeito incrível pra essas coisas. Daria uma ótima mãe.

Veroca começou a contar das pessoas que estavam lá embaixo, de gente que havia ligado do Rio, de Brasília, da Bahia. Falou da bagunça em que a minha casa tinha-se transformado. Tava todo o mundo morando lá. Minha mãe trouxera até a empregada. Ia trabalhar de dia e, de noite, voltava. Era férias e todas as minhas irmãs estavam em Campinas. Só Nalu, que tinha que trabalhar, ficava em São Paulo. E a Eliana, que estava incumbida de receber os telefonemas e explicar o acidente. Disse também que não se falava em outra coisa, todo o mundo mandando mil forças, rezando, torcendo, fazendo macumbas.

– Mas afinal, quando é que vou sair daqui?

– Vai demorar um pouco, você não precisa mais da UTI, só que é muito arriscado transferir você. Aqui é um hospital pequeno, só tem um quarto que está ocupado.

– Mas pode deixar, agora você pode receber visitinhas. Nós falamos com o Dr. Alex e ele tá fazendo uma exceção com você. Agora vamos sair que tem mais gente querendo te ver .

Acordei com minha mãe. Ela havia trazido um rádio, mas eu pedi pra não ligar, ia atrapalhar os outros.

– Tudo bem, eu ligo bem baixinho.

– Que bom ver você.

Estava cansado. Minha mãe é dessas figuras fortíssimas, que transmite uma segurança incrível. Sabia que ela estava sofrendo pra burro por ver o filho todo estourado. O que minha mãe já passou na vida afez ter essa cara de segurança em qualquer momento trágico. Você já imaginou uma mãe de cinco crianças ter a sua casa invadida por soldados armados com metralhadoras, levarem seu marido sem nenhuma explicação e desaparecerem com ele? Já imaginou essa mãe também ser presa no dia seguinte, com sua filha de , quinze anos, sem nenhuma explicação? Ser torturada psicologicamente e depois ser solta sem nenhuma acusação? Já imaginou essa mãe, depois, pedir explicações aos militares e eles afirmarem que ela nunca fora presa e que seu marido não estava preso? Procurar por dois anos, sem saber se ele estava vivo ou morto. Ter que, aos quarenta anos de idade, trabalhar para dar de comer a seus filhos, sem saber se ainda era casada ou viúva. É duro, né? Nem Kafka teria pensado em tamanho absurdo. Fora as informações de que:

– Seu marido está em Fernando de Noronha. Eu mesmo o levei até lá.

– Está preso no Xingu e passando bem.

– Está internado num hospício como indigente.

– Está exilado no Uruguai esperando um momento melhor pra voltar .

Ou então ler as declarações de um general supostamente responsável pela prisão do meu pai:

– Pergunte à mulher dele onde ele está, que ela sabe melhor que a gente.

Mais absurdo ainda foi o que uma testemunha, que também fora presa, contou, muito tempo depois:

– Seu marido foi espancado na minha frente até cair no chão sobre uma poça de sangue.

A conclusão é de que seria difícil ele estar vivo depois de passar pelas mãos das nossas heróicas "Forças Armadas".

Essa é mais ou menos a história da minha mãe. Só que, agora, com uma tragédia a mais pela frente: o que dizer a um jovem de vinte anos, quando ele, depois de ter quase morrido, ficou paralítico? Nada. Diga apenas que o ama. E foi isso que ouvi.

– Pode deixar que a gente vai resolver tudo. Você tem uma cabeça boa, vai sair dessa fácil.

– Eu sei que vou, mas agora eu tô mais preocupado em sair daqui.

– Eu já tô transando isso pra você, fique tranqüilo.

Ela nem precisaria ter dito aquilo, tranqüilo era uma coisa que eu ficava só em ouvir a sua voz.

Sabia que era de noite, pois já havia mudado o plantão. Até o almoço, era a gordinha Elma e o que me dava banho, Divino. À tarde, até o jantar, que também era sopa, ficava a bonitinha lIma e uma japonesinha. De noite, até o dia seguinte, João e Maria. Numa UTI não existe noite e dia. A luz de mercúrio fica sempre acesa, não tem janelas, e a movimentação de enfermeiros é de três em três horas. Tirar a pressão, medir a temperatura, abrir a tampinha da tal sonda pra sair o xixi, e o que é pior, os antibióticos e sedativos. Esses remédios me faziam dormir e acordar durante o "dia todo. Chegava de noite, o mesmo. Só que, juntando com o não fazer nada, teto branco, frio na barriga de nervoso, passava a noite inteira acordado. Terrível. Tinha que pensar em alguma coisa. De certa maneira, sentia inveja dos meus colegas de UTI. É que a maioria deles estava mais pra lá do que pra cá, totalmente grogues. Não precisavam enfrentar aquele tédio. O do canto estava com traumatismo craniano. Tomou um pileque e se espatifou na sarjeta. Do outro lado, uma mulher que tinha-se envenenado com mata-ratos. À direita, uma velha gorda, quase morta.

E eu lá, acesão, contando os parafusos. Uma maneira de passar o tempo foi pegar uma determinada pessoa, lembrar todos os momentos que estive com ela, os papos. Aliás, é uma mania que tenho até hoje. Isso me angustia um pouco, pois acabo conhecendo muito mais a pessoa do que ela a mim, e dando um valor que nem sempre essa pessoa merece. Cada palavra que ela tenha dito, o gesto ao acender um cigarro, o beijo de despedida, acabam-se tornando imagens marcantes e importantes no meu dia-a-dia. A velha gorda ao meu lado começou a gemer. Os enfermeiros vieram rápidos, puseram uma espécie de biombo pra ninguém ver. Ela estava morrendo, era óbvio. Entraram alguns médicos, barulho de massagem cardíaca. De manhã já tinha morrido um que eu não vi, pois estava dormindo. Parece que o esforço fora inútil. Eles tiraram o biombo e pude ver a velha quieta. Saíram todos e lá estava eu, deitado naquela cama sem mexer nada além do pescoço, ao lado de uma velha gorda morta. Foi aí que eu descobri o que é uma UTI. É uma espécie de ante-sala do céu ou do inferno. Se você entrou nela, ou morre, ou sai com profundas lesões. Eu não tinha tanta certeza se eu preferia sair ou passar pro outro lado.

Mas uma manhã, que alívio ouvir a voz daquela gordinha:

– Bom dia, Marcelinho, como vai este menininho?

– Vai bem, gordinha, bunduda e fofinha.

– Olha o respeito, senão você não ganha café da manhã.

Já estava-me tornando íntimo das enfermeiras. Também, de hora em hora, um tal de coça aqui, coça ali. Depois do café da manhã, ficou combinado que minha mãe viria de manhã me fazer um pouco de companhia e ler o jornal pra mim, antes de ir pra São Paulo trabalhar. Desde moleque sou viciado em jornal. Leio tudo, até os classificados.

Estava aflito, precisava ver alguém, aquela dor na barriga não me deixava em paz. Tinha medo que ela aumentasse. Procurava me concentrar, mas já estava de saco cheio de ter paciência. Queria me balançar, mexer com o corpo. Fiquei respirando com força pra me cansar, afinal era a única atitude física que poderia ter. Mas nada, já estava desesperado. Me , senti uma planta sendo atacada por um enxame de abelhas africanas. Frágil, só fotossintetizando. Que loucura. Pedi desesperadamente pro Divino me virar de lado, mas ele estava ocupado. Chamei a Elma e disse-lhe para ligar pro Dr. Miguel. Era o único telefone que sabia.

Diga-lhe qualquer coisa, que eu estou precisando urgente.

Enquanto isso, veio uma sombra escura na minha frente.

– Não esquenta a cabeça, que caspa vira mandiopan, falô, meu chapa?

Era o Ding Dong. Incrível, mas todo dia ele vinha, nunca se esquecia. Acho que no cartão dele estava escrito:
NÃO ESQUEÇA DE FALAR PRO MARCELO:

"NÃO ESQUENTA A CABEÇA,

SENÃO CASPA VIRA MANDIOPAN".
Apesar da movimentação, e dos cinco colegas estourados, estava sentindo uma profunda solidão, uma total incapacidade de me controlar. Estava a um passo de enlouquecer. Eu sou touro, ascendente touro. Sol em oposição a Netuno, isto é, o Sol ilumina exatamente as coisas opostas às inftuências de Netuno, planeta da transcendência, do mistério. Minha cabeça doía de tanto pensar. Se ao menos eu erguesse a cabeça para mudar o cenário. Impossível. Uma mulher bonita qualquer. Imagine transar com a Lídia Brondi. Como é mesmo a cara dela ? Cante, isso, cante:



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