Faders e hospital banco de olhos: qualificando o atendimento



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FADERS E HOSPITAL BANCO DE OLHOS: QUALIFICANDO O ATENDIMENTO

À PESSOA COM DEFICIÊNCIA VISUAL


Alexandra de Lucena Santos1

Emaline de Souza2

Janaína Tenn-Pass3

Laura Geiss da Costa4

Melisa Rossa5

Patrícia Rosa Balestrin6

Simone Regina Sandri7

Vanessa Maria Rampelotto8

Contar uma história a muitas mãos demanda organização de várias ideias, compromisso com o percurso caminhado e, principalmente, o desejo de documentar um trabalho com a intenção de que ele reverbere, de que se movimente como as peças de um dominó que, colocadas próximas, ao serem cutucadas, são atingidas uma a uma em continuidade. É desta forma que nos vimos durante a trajetória da assessoria prestada pela FADERS9/SJDH10 ao CRV11 do Hospital Banco de Olhos de Porto Alegre, tocadas a avançar na clínica com pessoas com deficiência visual, de forma interdisciplinar, através da exploração de pressupostos teóricos articulados aos casos atendidos neste Serviço, debatidos amplamente em nossos encontros.

A FADERS, a partir de sua nova lei 11.666, de 06 de setembro de 2001, tem como função principal a articulação de políticas públicas para pessoas com deficiência com o objetivo de aprimorar o atendimento das demandas desta população no Estado do Rio Grande do Sul. Em abril de 2010, a FADERS, imbuída de sua missão com o atendimento da demanda de reabilitação das pessoas com deficiência visual no Estado, realizou uma Capacitação em Orientação e Mobilidade, tendo como participantes o Hospital Banco de Olhos de Porto Alegre, Associação de Cegos do Rio Grande do Sul-ACERGS, União de Cegos do Rio Grande do Sul (UCERGS), Secretaria Estadual de Saúde do Rio Grande do Sul e Hospital São José (Giruá).

A Portaria MS/SAS nº3128, de 24 de dezembro de 2008, que definiu as Redes Estaduais de Atenção à Pessoa com Deficiência Visual, havia sido publicada e, neste momento, duas Unidades de Atendimento já estavam credenciadas e iniciando seu trabalho, o Hospital Banco de Olhos de Porto Alegre e o Hospital São José. No mesmo ano, a FADERS realizou o monitoramento técnico deste trabalho. Foram chamados todos os profissionais que fizeram o Curso em abril de 2010 para aprofundamento dos conceitos e apresentação da situação em que se encontrava a prestação de serviços nesta área. Constatamos que, em todos os locais de atendimento, a demanda havia se ampliado significativamente e o trabalho se qualificado.

Em outubro de 2010, o Hospital Banco de Olhos, no intuito de atender a sua missão12 na integralidade, inaugurou o CRV, um atendimento especializado em baixa visão e cegueira. O Serviço tem como objetivo realizar diagnóstico, tratamento e acompanhamento da pessoa com deficiência visual, promover o seu desenvolvimento e estimular a autonomia nas atividades cotidianas, visando melhorar sua qualidade de vida e de sua família, através dos programas de estimulação precoce, adaptação de recursos ópticos e não ópticos, orientação e mobilidade, atividades da vida diária, atividades em grupo, serviço social e psicologia.

Neste momento, o Serviço teve como preocupação primordial estar de acordo com o que a Portaria do Ministério da Saúde previa, programas de atendimentos e equipe de profissionais exigida, para atender às necessidades das pessoas com deficiência visual, ofertando as diversas modalidades de atendimentos para cada sujeito.

No ano de 2012, com a equipe já estruturada, composta por oftalmologista, fisioterapeuta, psicóloga, pedagoga, assistente social e terapeuta ocupacional, havia indicadores de uma demanda reprimida que não se materializava em significativa procura por atendimento no CRV. Então, a equipe sentiu a necessidade de se reformular para adotar um método de trabalho fundado numa identidade entre os profissionais, que apostasse na reabilitação dos sujeitos a partir da escuta de sua história, suas demandas e seus desejos, articulando, assim o campo da medicina ao campo do social.

Desta forma o CRV solicitou à FADERS uma assessoria com o objetivo de construir um trabalho interdisciplinar, em que o norte da clínica tivesse como ponto de partida a constituição do sujeito.

Assim, formatamos o trabalho no sentido de que fizéssemos um nivelamento com relação aos conceitos da clínica como constituição psíquica, interdisciplinaridade, estimulação precoce, brincar, instrumentalização da pessoa com deficiência visual através da Orientação e Mobilidade e Atividades da Vida Diária, articulando-os aos casos clínicos apresentados pela FADERS e pelo CRV.

Esses conceitos foram organizados em um cronograma, no total de 48 horas de assessoria, distribuídos em um ano de trabalho, em que o principal resultado foi a constituição de um trabalho de equipe, onde a palavra começou a circular entre todos os integrantes, de forma que as especificidades de cada área pudessem se entrecruzar, com o objetivo de olharmos o sujeito em questão de forma integral.

A existência de outro olhar através da assessoria da FADERS, instigou a continuidade do que podemos chamar de espaços de estudo de casos da equipe do CRV. A opção por eleger o desafio da interdisciplinaridade na busca da união dos diferentes saberes integrantes da equipe tem sua importância fundamental, na medida em que cada profissional traz como bagagem um determinado tipo de formação e necessita estabelecer um diálogo, a partir de sua área, com outros profissionais para encontrar uma direção em comum na intervenção com cada sujeito.

A fragmentação do conhecimento, efeito do progresso e isolamento das disciplinas, principalmente as da área da saúde, que procuram incessantemente a “superespecialização”, deixam de lado as possibilidades de se obter um olhar ampliado sobre o que se apresenta como problemática, evidenciando a escassez desta forma de prática.

Embora se fale muito sobre a interdisciplinaridade, inúmeras são as dificuldades de seu exercício nos serviços de saúde, principalmente quando se trata de sistema público de saúde. As equipes de profissionais com diversos saberes, em sua maioria estão organizados em serviços especializados, partindo de uma concepção fragmentada do conhecimento a partir da qual foram formados. Como consequência, observa-se a dificuldade na mudança de um paradigma racionalista e cartesiano para uma perspectiva interdisciplinar.

A interdisciplina se caracteriza pela intensidade das trocas entre os especialistas e pelo grau de integração real das disciplinas no interior de um mesmo projeto de pesquisa ou trabalho. Sabemos que o fazer na interdisciplina implica em compreender esse processo e método de trabalho e intervenção, bem como, na disponibilidade de uma equipe para vivenciar um processo de reflexão e transformação de suas práticas. É necessário estabelecer uma interdependência entre as disciplinas, assim como o diálogo entre as diferentes áreas do saber e suas metodologias, com o objetivo de construir um novo conhecimento. Então, a interdisciplina se apresenta como resposta à complexidade e à dinâmica do mundo atual.

Como desenvolver um trabalho em equipe, de forma não isolada, em que se possa realmente visar o sujeito na sua forma global promovendo uma terapêutica eficaz, humana e não fragmentada, articulada às necessidades do Serviço? Permitir-se dividir e compartilhar os saberes não é uma prática tão simples, pois envolve tocar em vaidades específicas de cada profissional, necessitando de maiores discussões, respeito, articulação e interação entre a equipe, aliados ao tempo e demanda do Serviço.

Durante os encontros de assessoria foi possível discutir sobre diversos temas e casos, conforme já mencionamos, e o exercício da interdisciplina se fez presente nestes momentos, em processo e com a proposta de ser melhor estruturado para  a prática cotidiana. Observamos que aos poucos se estabeleceu uma relação de confiança permitindo uma maior troca entre os participantes da equipe.

Um dos temas trabalhados em nossos encontros foi a demanda de estimulação visual oriunda dos médicos e dos pais, ou, melhor dito, quando a demanda de cura da visão se sobrepõe à demanda de cura do sujeito.

Para uma família que recebe um bebê com deficiência visual, o qual foi encaminhado para o atendimento em estimulação precoce, algo da ordem do estranhamento ali se instala em maior ou menor grau. A família necessita trabalhar seu luto pela perda do filho que era desejado para acolher o bebê real. Esse tempo do luto transcorre junto ao desenvolvimento do bebê e o cuidado que o terapeuta de estimulação precoce precisa ter, é de que o luto da família não dificulte ou inviabilize as possibilidades em curso para o sujeito que ali está se constituindo.

O que estamos denominando como a cura do sujeito? Para a psicanálise, é na ordem do simbólico que um deslocamento acontece para que o sujeito mude a sua posição. Alfredo Jerusalinsky em “A Direção da Cura do que não se Cura” (1999), argumenta que com o real de “corpo monstrificado”, ou de corpo que produz questões pelo que carrega de diferença na sua aparência ou na sua funcionalidade, o que podemos fazer é ligá-lo as suas representações simbólicas para falar dele. Assim, a cura não está referida ao estabelecimento ou ao retorno de uma certa condição funcional e de saúde do sujeito, mas à forma que representa sua nova situação.

Em outras palavras, e trazendo nossos casos em discussão, observamos que quando os pais acolhem o filho com sua deficiência, mudando o foco de seu olhar do “olho que não funciona” ou “do olho que pouco funciona” para o desenvolvimento do bebê na sua integralidade, algo ali se opera da ordem do desejo destes pais pelo seu filho, como um dizer “te aceito como és”, repercutindo significativamente para o pequeno, que se sente reconhecido, incluído no discurso dos pais, reinaugurando ou instaurando o circuito de troca entre eles.

Nesta operação, o trabalho interdisciplinar é fundamental, pois o terapeuta de estimulação precoce necessita que o suporte dos profissionais das outras áreas como medicina, psicologia, pedagogia, fonoaudiologia, fisioterapia, terapia ocupacional, serviço social, possibilite-o olhar o bebê sem fragmentá-lo, trazendo a família para este processo.

O terapeuta de estimulação precoce é, portanto, aquele que conduz o trabalho como terapeuta único, portador do discurso de uma equipe, que vai possibilitando, através da transferência13, que o bebê e sua família tragam para a cena terapêutica o que estão vivenciando e, nesta relação de confiança, a intervenção se estabeleça.

O que se observa atualmente no CRV é que, pela demanda existente, tanto de sujeitos à espera de atendimento como, da demanda de produção do Serviço, é preciso estar o tempo todo com a atenção ligada ao processo, buscando manter espaços para a discussão de casos, e, assim, o repensar contínuo sobre a prática interdisciplinar.

É importante ter em consideração que, por mais que a equipe compreenda a interdisciplina, ela é uma prática em constante construção, cotidianamente trabalhada e alimentada, com necessidade de sustentação tanto na equipe quanto na gestão da Instituição, garantindo sua efetivação.

Nossa experiência de um ano de trabalho aponta para a possibilidade de mudança quando uma equipe se dispõe à reflexão sobre sua prática. A interdisciplina apresenta-se como possibilidade de aprimoramento da metodologia de trabalho desenvolvida no CRV, pois propõe um “religare” entre o conhecimento científico e a complexidade do mundo, em uma busca pelo humano na produção científica.

Visando superar a dicotomia entre teoria e prática, buscamos preservar espaços de circulação do saber e experiências vivenciadas no cotidiano do trabalho desenvolvido com as pessoas com deficiência visual. Os desafios, inquietações, dúvidas, discussões, estudos de casos, produzem momentos de aprendizagem para a equipe, que vivencia a construção de um novo modo de intervenção clínica.

 

Referências Bibliográficas:



COSTA, Pereira Rosemary. Interdisciplinaridade e equipes de saúde: Concepções. Mental. V.5 n.8 Barbacena jun.2007. Periódicos Eletrônicos em Psicologia
Instituto de Psicologia da USP
DORGEUILLE, Claude e org. Dicionário de Psicanálise: Freud e Lacan. Salvador, Agalma, 1997.
JERUSALINSKY, Alfredo. A Direção da Cura do que não se Cura. In: JERUSALINSKY, Alfredo e colaboradores. Psicanálise e desenvolvimento infantil: um enfoque transdisciplinar. 2ª ed. rev. e ampliada. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1999. p.89-106.

 

JERUSALINSKY, Alfredo. Quantos terapeutas para cada criança? In: Escritos da Criança. Centro LydiaCoriat, nº 5, Porto Alegre, 1998. p.30- 47.





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