Exmo. Sr. Dr. Claudio Azevedo Sales, presidente da Academia Mineira de Medicina



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Exmo. Sr. Dr. Claudio Azevedo Sales, presidente da Academia Mineira de Medicina.

Ilustríssimos membros da Mesa Diretora,

Prezados Acadêmicos, familiares e amigos.

É com grande orgulho e imensa satisfação que aqui estou hoje nesta solenidade de posse na Academia Mineira de Medicina. Confesso que nunca sonhara com esta honraria quando, numa manhã do início de outubro de 2014, recebi um telefonema do Dr. Jorge Paprocki indagando-me se gostaria de concorrer a uma cadeira na Academia. Jamais poderia imaginar o conteúdo daquele telefonema que significou um grande desafio o qual, não sem pensar bastante, resolvi enfrentar. Após meses de trabalho intenso estava concluída a pesquisa sobre as psicoses no envelhecimento. Não quis o destino que Paprocki estivesse presente para avaliar meu esforço.

Senhoras e senhores, é com grande emoção que estou aqui nesta casa de tão ilustres personagens de ciência e cultura. Uma casa com uma bela tradição de 46 anos. Pertencer aos seus quadros representa uma responsabilidade cujo peso farei o possível para enfrentar utilizando de todas as minhas capacidades. Honrar e dignificar esta casa é um dever que me imponho acima de tudo.

Coube-me a cadeira de número 86, cujo patrono é o Prof. Washington Ferreira Pires, um dos mais ilustres neurologistas da história de nossa medicina, com profundos conhecimentos neuropsiquiátricos. Washington Ferreira Pires nasceu em 1892 em Formiga, Minas Gerais. Graduou-se em medicina em 1914 pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Transferiu-se para Belo Horizonte, fez concurso para a Cadeira de Medicina Legal na Faculdade de Direito, onde passou a lecionar. Posteriormente, ingressou na antiga Faculdade de Medicina de Belo Horizonte e se tornou professor catedrático na Clínica Neurológica. Foi também Catedrático de Higiene e Odontologia Legal e diretor da Escola de Odontologia e Farmácia da Universidade de Minas Gerais.

Paralelamente, dedicou-se à política, inicialmente como Deputado Estadual depois Federal na década de 1930, chegando a Ministro da Educação e Saúde do governo Getúlio Vargas. Foi Secretário de Saúde e Assistência do Estado de Minas Gerais no governo Bias Fortes. Faleceu em 1970.

O primeiro ocupante da Cadeira de número 86 da AMM, Prof. Austregésilo Ribeiro de Mendonça, nasceu em São José de Ubá, norte do estado do Rio de Janeiro, em 1908. Graduou-se em medicina na Faculdade Nacional de Medicina, no Rio de Janeiro, em 1931. Foi psiquiatra do Serviço Nacional de Doentes Mentais e livre-docente da cadeira de clínica psiquiátrica na Faculdade Nacional de Medicina. Em 1939, transferiu-se para Belo Horizonte, quando foi aprovado em concurso público para livre-docente na Faculdade de Medicina de Minas Gerais, atual UFMG.

Ainda em 1940, juntamente com o Professor Lucas Machado e outros nove professores, foi um dos cofundadores da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, onde foi professor Catedrático de Psiquiatria.

Foi Secretário de Saúde do Estado de Minas Gerais, sendo um dos responsáveis pelo início da construção do Hospital Galba Velloso para pacientes do sexo feminino. Também atuou na política como Deputado Federal. Em 1947, fundou a Casa de Saúde Santa Maria, onde tive a honra de trabalhar por mais de duas décadas. Faleceu em 1999.

O segundo ocupante da Cadeira 86 da Academia foi o Prof. José Raimundo da Silva Lippi, meu padrinho no ingresso a esta egrégia confraria. O Prof. Lippi graduou-se pela Faculdade de Medicina da UFMG em 1965. Quando ainda estudante, coordenou uma enfermaria de crianças no Hospital Galba Velloso, então dirigido por Jorge Paprocki. Participou na fundação de entidades nacionais na área da psiquiatria da infância e adolescência. Foi diretor do Hospital de Neuropsiquiatria Infantil e também do Hospital Galba Velloso, da antiga FEAP, atual FHEMIG.

Foi professor do Departamento de Psiquiatria e Neurologia da Faculdade de Medicina da UFMG. Doutor pela Fundação Oswaldo Cruz. É professor colaborador do Departamento de Medicina Legal, Ética Médica, Medicina Social e do Trabalho, da Faculdade de Medicina da USP. Tem uma vasta publicação científica no Brasil e exterior.

Tive, portanto, o privilégio de conviver e aprender com meus dois antecessores nesta digna Cadeira 86. Assim como também enriqueci meus conhecimentos da psiquiatria com dois acadêmicos aos quais homenageio in memoriam: os professores Clóvis de Faria Alvim e Paulo Saraiva.

Ao Dr. Jorge Paprocki dedico uma especial homenagem. Em agosto de 1966, ingressei como interno acadêmico no Hospital Galba Velloso, sob sua direção. Tenho o orgulho de ter pertencido a uma geração que, sob sua orientação, contribuiu para transformar o panorama da psiquiatria mineira.

Naquela casa, além do modelo de gestão introduzido por Paprocki, tivemos contato com as grandes correntes do pensamento psiquiátrico então em voga no mundo, a saber: as escolas clássicas alemã e francesa; a fenomenologia alemã de Karl Jaspers; a psicanálise freudiana clássica e as teorias de seus discípulos, como Jung, Adler, Melanie Klein e outros; o organodinamismo francês de Henri Ey; a analítica existencial de Heidegger e Sartre; a fenomenologia espanhola de Lopez Ibor, Goás, Alonso Fernandez; e as correntes psicodinâmicas culturalistas norte-americanas, inspiradas pela Escola de Frankfurt, como Harry Stack Sullivan, Erich Fromm, Frieda Fromm-Reichman, Karen Horney.

Paprocki tinha formação psicanalítica e recomendava que o corpo clínico psiquiátrico do Hospital Galba Velloso se submetesse a psicoterapia individual e/ou em grupo com profissionais do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais, fundado em 1963, por Malomar Lund Edelweiss. Malomar fora analisado por Igor Caruso, psicanalista vienense, fundador do Círculo Vienense de Psicologia Profunda. Malomar trouxera para BH uma formação que associava a psicanálise de Freud com as teorias dos expoentes da Escola de Frankfurt (Adorno, Horkheimer, Habermas e Marcuse). Portanto, a influência dos fatores sociais, além da clássica teoria biológica de Freud, era a tônica no Círculo Psicanalítico e nós, do Galba Velloso, bebemos nessas fontes.

Com Jorge Paprocki aprendemos uma psiquiatria clínica que revolucionava nossa prática em Minas Gerais. Posso ressaltar os seguintes avanços que testemunhei, com a introdução de ideias novas e de métodos em consonância com os avanços da medicina internacional:


  1. Terapêuticas menos rígidas para os doentes mentais, com redução ao mínimo das contenções físicas;

  2. Priorização da utilização de psicofármacos sobre outros métodos biológicos mais invasivos ou traumáticos;

  3. Pesquisas com psicofármacos e incentivo à publicação de trabalhos científicos;

  4. Priorização das terapêuticas de ressocialização através de comunidades terapêuticas, socioterapia e terapia ocupacional;

  5. Instituição do open-door integral, isto é, as portas das enfermarias sem grades e sem trancas;

  6. Acolhimento de jovens estudantes de medicina e de outras áreas da saúde, para estágio e formação especializada;

  7. Criação da primeira Residência de Psiquiatria de MG e uma das primeiras do Brasil;

  8. Promoção de eventos de nível municipal, estadual e nacional nas dependências do HGV;

  9. Organização dos dois primeiros congressos mineiros de psiquiatria;



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