Eva Maria Seitz



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SEITZ, Eva Maria. Biblioterapia: uma experiência com pacientes internados em cliníca médica. Florianópolis: Habitus, 2006. 95 p. ISBN 8599850016.

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Eva Maria Seitz


BIBLIOTERAPIA
Uma experiência com pacientes internados em clínica médica
Associação Catarinense de Bibliotecários
HABITUS EDITORA
FLORIANÓPOUS – SC
2006
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Eva Maria Seit, by Associação Catarinense de Bibliotecários, 2006.
Todos os direitos reservados e protegidos. Proibida a duplicação ou reprodução desse livro ou partes dele, sob quaisquer meios, sem autorização expressa dos editores.
Produção:
Habitus Editora
Capa, projeto gráfico e diagramação:
Rita de Cássia Motta e André Luiz dias
Revisão textual:
Rosa Maria Somavilla
Ficha Catalográfica
Catalogação na fonte: Vera Regina Ribeiro Vieira - CRB 14/565
S462b
Seitz, Eva Maria
Biblioterapia: uma experiência com pacientes internados em clinica médica! Eva Maria Seitz. -- Florianópolis: ACB: Habitus, 2006. 98p.
Inclui bibliografia
ISBN: 85-99850-01-6
1. Biblioterapia. 2. Leitura. 3. Lazer. 4. Humanização. 5. Hospitalização. II. título.
CDD 002
Índice para catálogo sistemático
Biblioterapia — livros 002
Leitura 306.488 – 002
Lazer-leitura 002-790
Humanização 301
Saúde pública e humanização 361.1
Hospitalização 616
Interação social 302
ACB - Associação Catarinense de Bibliotecários
Rua Josué di Bernardi, 239 - Ed. Jowi - 302 - Campinas - São José
Fone/Fax: (48) 3035 4871 - Site: www.acbsc.org.br
Editora Habitus - Av. Hercílio Luz, 1395 - Centro - Florianópolis – SC
Fone: (48) 3028-5363 - E-mail: habitus@livrariaobjetiva.com.br
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Dedico ao Felipe, meu filho, grande incentivador, o meu tudo. A minha mãe Ester, com muito carinho.
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AGRADECIMENTOS
O Deus, pois sem ele não teria chegado ao final desta caminhada.
Ao meu querido amigo e mestre Francisco Antônio Pereira Fialho, pela dedicação, incentivo, compreensão e competência profissional na realização deste estudo.
Aos pacientes, que foram os grandes incentivadores deste trabalho, que na sua dor e sofrimento mostraram ser possível encontrar momentos de descontração e alegria.
A todas as pessoas que me ajudaram nesta caminhada.
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SUMÁRIO
PREFÁCIO 09
APRESENTAÇÃO 15
1 - BIBLIOTERAPIA 17
1.1 Aspectos Conceituais 17

1.2 Histórico 19


1.3 Campos de Atuação 26
1.4 Tendências 30
2 - LEITURA 35
3 - HOSPITALIZAÇÃO 41
4 - PROCEDIMENTOS METODOLÓGICO 45
4.1 Campo da Prática 45
4.2.1 Reconhecimento das Clínicas estudadas 46
4.2.2 Sujeito da Pesquisa 47
4.2.3 Acervo 48
4.2.4 Coleta dos Dados 49
5-A PRÁTICA BIBLIOTERAPÊUTICA 53
5.1 Entrevistas 53
5.2 Encontros 62
6 - CONCLUSÃO E SUGESTÕES 67
6.1 Conclusão 67
6.2 Sugestões 69
REFERÊNCIAS 71
APÊNDICES 77
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PREFÁCIO
Ver um mundo num Grão de Areia e um Céu numa Flor Silvestre, Ter o Infinito na palma da sua mão e a Eternidade numa hora. (William Blake)
Atualmente, observa-se um profundo questionamento de paradigmas consensuais. Diante da perplexidade das mudanças vertiginosas, característica de nossa época, emergem novas visões de homem e de mundo em que se inserem as discussões e as buscas por uma realidade mais pacífica, segura e saudável. Redescobre-se o Homem, criador e criatura, enquanto matéria-prima de todo engenho, de toda a arte.
Platão falava de um lugar incrível, em que residiriam entidades arquetípicas como o Belo em Si, o Bom em Si e outros senhores de fraque e costeleta. Para Gregory Bateson, o filósofo da ecologia profunda, sagrada, é preciso entender que o nome não é a coisa e o mapa não é o território.
Teremos, de fato, algum Mundo Real onde árvores sejam árvores e territórios sejam territórios? Somos homens capazes de se sonhar borboletas, ou borboletas a sonharem-se humanas? Afinal o que é esse tal conhecimento sobre o qual Eva resolve filosofar.
Filosofar é fazer amor com as ideias, vadiar com elas em algum mundo proibido e se deixar levar como um garoto moleque junto com as bolinhas de sabão em meio ao pólen das flores e os raiozinhos de luz a se refletir no ar.
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Lembro de Gil e do seu medo de que não tivéssemos mais noites de luar por causa dos astronautas. Guilherme Arantes gritava em alto e bom som: “Quem foi que disse que eles podem vir aqui, nas estrelas fazer xixi”. Quem são esses intrépidos argonautas querendo transformar em ciência o que antes era apenas objeto da Filosofia?
O Mundo das Ideias é um recanto sagrado, onde reside o oculto do oculto, as intenções que existiam nas mentes dos artistas ao criarem suas obras. Qual a intenção de Eva ao falar sobre a biblioterapia?
Lacan busca a comunicação perfeita, a palavra mágica capaz de deslocar a psique, como o mago Don Juan, personagem / mito / realidade de Castañeda, para algum lugar de poder. Procura-se a não língua, la langue, na lalação das criancinhas. Falo / falho; Tradutore, traidore; Trepalium, tripalium. Gestação, gestão, indigestão. Biblio, bile, fígado, humor. Seria esse apenas mais um livro sobre essa tal saúde e de como a mente, demente, influencia os fluxos e refluxos?
As ideias serão sempre sonhos intransferíveis, de mentes criadoras, que se transformam em representações nas mentes dos aprendizes. Jamais descobriremos (talvez nem mesmo a Eva saiba direito ...) o significado, esse tal sentido, tão desnecessário e, paradoxalmente, tão tolamente perseguido.
Como diz Pessoa (qual deles?): Eu não tenho filosofia, eu tenho sentidos e se eu falo sobre a natureza não é porque eu saiba o que ela é; é porque eu a amo e amo-a por isso, porque quem ama nunca sabe o que ama, nem por que ama, nem o que é amar.
Do concreto ao simbólico, do produto ao processo, dos resultados da aplicação dos conhecimentos à sua própria essência, a hospitalização, o doente, o paciente e o livro que salva, que cura, que age como terapeuta, é disso que trata o livro
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que Eva nos convida a ler. Tarefa árdua essa, a de falar sobre algo invisível, inacessível, misterioso, que cura sem ser remédio para O corpo, ou talvez, por isso mesmo cure, por se remeter direto à alma.
De fato, todo livro habita um terceiro mundo, o Mundo das Sombras, das Representações, necessárias para que comuniquemos nossos pensamentos e possamos, de alguma forma, escapar ao cogito, agindo de forma comunicativa, como quer Habermas, o nosso filósofo vivo.
Todo conhecimento é falso, tolice a correr atrás do vento, como diria o sábio Salomão, ou erros que o cozimento do tempo nos faz crer que sejam verdades, no dizer de Deleuze. Acreditamos, com Hegel, que nada existe fora do espírito. Fantasia é realidade e realidade é a fantasia que fazemos de conta ser real.
Pois bem, falemos, pois dessas fantasias com as quais tecemos os nossos sonhos, desenhamos as nossas ilusões. O que é um livro se não sonhos transformados em palavras. Por que sonhos não podem curar? Afinal, de que são feitas as almas senão de sonhos. Tudo é milagre ou nada é milagre como diria Einstein. Todo conhecimento é criação da mente, farsa ou drama a agitar neurônios, convocar sinapses e atravessar campos de forças nos pântanos e jardins do córtex cerebral.
Nessa metáfora da fantasia que denominamos de realidade, criamos com o nosso saber (seria melhor se fosse sabor) um quarto tipo de mundo / mundos, os tais mundos virtuais de nossa cibercultura. Enquanto os mundos virtuais espelham sonhos humanos, nos perguntamos pelo sonhador desse mundo que Platão denominava Real e onde situava seus eidolons.
Tudo o que realizamos se sustenta em pressupostos e esses, como defende Maturana, se apoiam em uma forma de
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emocionar vivenciada dentro de uma cultura. Agimos com base nesse emocionar que, em nosso caso, é o medo do outro, cujo caminho para a sua perda passa, necessariamente, pela busca, pelo conhecimento, que não tem significado se dissociado do sentir.
Nessa ilusão, coletiva ou não (afinal, o coletivo é ilusão?) participamos da ideia que permeia entre os sisudos e adultíssimos (como diria a deliciosa Emília de Lobato) acadêmicos, de que conhecer é criar.
Conhecer não é coisa passiva, algo que está fora e que é percebido por alguém. Conhecer é dialética e dialógica, é transformação e destruição, é criar e recriar-se em um processo contínuo. Oroboro, a serpente mágica a devorar o próprio rabo. Não há conhecimento sem emoção e nem emoção sem conhecimento. E, gestar o conhecimento / emoção deveria partir desse pressuposto: o poder criativo e destrutivo do conhecimento / emoção e, a partir daí, buscar usar esse poder como instrumento de promoção de cidadania.
As imagens, ou as visões que criamos, são muito significativas e determinantes para a subjetividade da realidade, e consequentemente para a cognição de nós mesmos e da caverna em que sobrevivemos. Se acreditarmos que tudo é fantasia, certo é que acreditar no milagre faz bem ao corpo e a alma. Se o corpo precisa de pão, a alma precisa de beleza. Não queremos apenas uma fantasia milagrosa, mas, acima de tudo, uma fantasia que seja bela, que nos alimente a alma.
Se como quer Rubem Alves, o trabalho de um Professor cozinheiro é o de preparar receitas, é no Mundo das Representações que estas receitas habitam, como livros mágicos, passados de mães para filhas, de mestres da arte culinária, ciumentos de seus talentos para discípulos ansiosos por sabedoria.
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Da escuridão das webs, dos vazios dos ciberespaços e das palavras e das coisas a circularem nas inter e intra nets, fez-se à luz, ou melhor, o virtual. Cria-se algo novo, uma inteligência coletiva, com a qual se dialoga, se “inter-age” comunicativamente.
O “info-mar” é o oceano que se abre aos que velejam em busca do conhecimento. Discordamos de Fernando Pessoa, pois assim como Viver, Navegar também não é preciso, porque ainda que existam as estrelas e as bússolas, o desejo do navegador será sempre algo misterioso.
Mundos virtuais, como diria Yates, são construções complexas tecidas pelos sonhos de seus construtores. Se os deuses do Olimpo contentavam-se com a Ambrosia e o Néctar, nós, meros humanos, desejamos mais, desejamos a variedade, a surpresa, um prato sempre novo, diferente.
Para o escultor Michelangelo, “Tudo está dentro da pedra. Só raspamos as saliências necessárias”. Se uma boa refeição demanda as mãos de um artista, é preciso outro artista para saborear, para qualificar sua obra. Uma cultura que faz do tempo seu inimigo não pode se beneficiar das obras de arte, pois obras de arte exigem atenção, vagar.
Nietzsche nos diz que: “Quem atingiu de algum modo a liberdade da razão não se pode considerar na terra outra coisa que um Peregrino, embora não um viajante rumando para uma meta final - pois esta não existe. Contemplará e terá os olhos abertos para tudo que acontece no mundo; não ligará o coração em definitivo a nada de único; deve haver nele algo erradio, pois a sua alegria está no mutável e no inconstante”.
A relevância do livro que se vai ler não está em nenhuma resposta, mas na bússola a nos apontar caminhos por
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onde trilhar. Discutem-se a saúde, o humano e o poder de livros, sonhos de realizar o milagre da cura. Boa leitura.
Florianópolis, 27 de dezembro de 2005.
Prof. Francisco Antonio Pereira Fialho,
Psicólogo e Doutor em Engenharia de Produção - UFSC
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APRESENTAÇÃO
“Ler é fazer amor com as palavras”. (Rubem Alves)
Meu primeiro contato com o termo “Biblioterapia” aconteceu durante a realização de um trabalho do curso de graduação quando, durante um levantamento bibliográfico, localizei um artigo que discorria sobre a aplicação da Biblioterapia em casas de repouso. Achei o assunto muito interessante e pensei em um dia estudá-lo mais profundamente, pois, trabalhava em um hospital e talvez pudesse aplicá-la aos pacientes internados.
Porém, o tempo foi passando, e novos caminhos foram surgindo em minha vida profissional, mas, vez por outra, me lembrava da Biblioterapia, em especial quando observava a ociosidade dos pacientes; a busca dos mesmos por um material de leitura. Assim, quando ingressei no Mestrado, vi que chegara o momento de estudar a Biblioterapia direcionada a um público especial. Digo especial porque até então a Biblioterapia havia sido experienciada somente com deficientes visuais e idosos, ou seja, com pessoas saudáveis.
Os mais de 20 anos trabalhando no Hospital Universitário da Universidade Federal de Santa Catarina me colocaram de frente com a dor e o sofrimento dos pacientes durante o processo de hospitalização. São jovens, adultos e idosos
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que sofrem em silêncio, recolhidos na sua dor, angústia e desespero diante da doença. O convívio com essa realidade me mostrou a necessidade de fazer algo no sentido de amenizar a dor provocada pela hospitalização.
Minha formação e experiência em Biblioteconomia me mostraram que a leitura proporciona ao leitor prazer, tranquilidade e bem-estar, oferecendo a esse leitor a oportunidade de viajar para lugares distantes, conhecer pessoas famosas, fazer parte de acontecimentos históricos sem sair de casa, sem correr perigos.
Desse modo, decidi fazer minha pesquisa de Mestrado sobre a prática biblioterapêutica com pacientes internados em clínica médica, com o objetivo de proporcionar a eles, momentos de alegria, descontração e lazer através da leitura, buscando uma hospitalização mais humanizada e pensando em contribuir no processo terapêutico, além de mantê-lo informado acerca dos acontecimentos do mundo exterior, do qual ficou isolado a partir da hospitalização.
A experiência dessa prática foi muito gratificante, pois foi possível constatar como eram agradáveis os encontros nos quais eram distribuídos materiais de leitura aos pacientes. Eram momentos em que, por alguns instantes, esqueciam que estavam no hospital, distantes de seu aconchego familiar. Além de poderem conversar, através dessa conversa exteriorizam suas inseguranças e medos, pois muitos dos pacientes são procedentes do interior, e ficam vários dias sem receber visita e notícias de seus familiares. Esse sentimento de “abandono” deixa-os necessitados de carinho e atenção, além de causar medo e insegurança.
Apresento, então, o estudo desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) que resultou na dissertação “Biblioterapia: uma experiência com pacientes internados em clínica médica”.
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1- BIBLIOTERAPIA

“A leitura de um bom livro é um diálogo incessante em que o livro fala e a alma

Responde” (André Maurois, 1885-1967)

1.1 - Aspectos Conceituais

O termo Bibliotera é derivado do grego “Biblion”, que designa todo tipo de material bibliográfico ou de leitura e Therapein que significa tratamento, cura ou restabelecimento. O primeiro dicionário especializado em definir o termo Biblioterapia foi o Dorland’s llustrated Medical Dictionary, em 1941, como “o emprego de livros e a leitura deles no tratamento de doença nervosa.” Em 1961, o dicionário não especializado Webster’s Third International Dictionary, definiu o termo Biblioterapia pela primeira vez como “Uso de material de leitura selecionado, como adjuvante terapêutico em Medicina e Psicologia” e, também, “Guia na solução de problemas pessoais através da leitura dirigida.”
São várias as definições de Biblioterapia:
Rubin (apud VASQUEZ, 1989, p. 22) a define como “um programa de atividades baseadas no processo interativo das pessoas que o experimentam. O material impresso ou não impresso, imaginativo ou informativo, é experienciado e discutido com ajuda de um facilitador.”
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Para Buonocori (apud ALVES, 1982, p. 55), Biblioterapia “É a arte de curar enfermidades por meio da leitura”.
Tews (apud ALVES, 1982, p55) define como sendo “um programa de atividades selecionadas envolvendo material de leitura planejado, conduzido e controlado para tratamento sob orientação médica, de problemas emocionais.”

Cohen (1994, p.40) diz que Biblioterapia “é o uso da literatura com a orientação ou intervenção de um terapeuta.”


Como é possível perceber, as definições estão direcionadas ao aspecto emocional do indivíduo. Isso se deve ao fato de que a Biblioterapia desenvolveu-se, principalmente, em ambientes hospitalares e clínicas de saúde mental. Sua aplicação ocorreu quase sempre de forma corretiva e voltada para aspectos clínicos de cura e recuperação de indivíduos com graves distúrbios emocionais e comportamentais.
Tews (apud VASQUEZ, 1989, p. 23) realizou pesquisa reunindo definições do termo Biblioterapia, na qual contribuíram Bibliotecários, Médicos e Psicólogos com suas próprias interpretações. Para a Psicologia, “Biblioterapia é o uso consciente e deliberado de materiais de leitura com o propósito de alargar ou dar suporte ao programa terapêutico como um todo, conforme ele se relacione a um paciente particular ou, em alguns casos, a um grupo mais ou menos heterogêneo de pacientes.”
Uma bibliotecária considerou a Biblioterapia “um programa planejado de leitura e de atividades de leitura, para um paciente individual ou para um grupo de pacientes,” o que define objetivos claramente baseados em diagnóstico médico. Acrescentou, que “este procedimento envolve a cooperação do bibliotecário e da equipe médica adequada, no planejamento, com a utilização dos conhecimentos especiais e habilidades que cada um traz para a atividade total.”
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Um dos psiquiatras que respondeu ao questionário disse que o problema não era simplesmente definir o que é Biblioterapia, mas formar uma abordagem mais criativa para reconhecer as necessidades existentes e conseguir propor tipos de Biblioterapia que sirvam a essas necessidades. Continua dizendo que a leitura, por muitas razões, é especialmente adequada para alcançar e ter efeito prolongado sobre um grande número de pessoas, e que a Biblioterapia deve constar de esforços muito bem organizados para aliciar a participação ativa do leitor.
Um outro psiquiatra afirmou no questionário que um problema maior e mais fundamental que os programas específicos em Biblioterapia era a provisão de um bom serviço geral de bibliotecas em todos os hospitais e instituições.
Mas, o que é enfim a Biblioterapia? Usando a análise dos comentários e das definições como base, poderemos tentar um resumo eclético.
A Biblioterapia é um programa de atividades selecionadas envolvendo materiais e leituras planejados, conduzidas e controladas como um tratamento, sob a orientação médica para problemas emocionais e de comportamento, devendo ser administrada por um bibliotecário treinado de acordo com as propostas e finalidades prescritas. Os fatores importantes dessa atividade são: os relacionamentos estabelecidos, as respostas e as reações do paciente, a entrega do relatório ao médico para interpretação, a avaliação e a direção do acompanhamento.
1.2 – Histórico
O uso da leitura com objetivo terapêutico é antigo e muitos registros atestam essa utilização, como no antigo Egito,
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quando o Faraó Rammsés II mandou colocar no frontispício de sua biblioteca “Remédios para a alma” (ALVES, 1982, p. 55).
Segundo Momtet (apud CRUZ, 1995, p. 13), a bibliotecas egípcias ficavam localizadas em templos denominados de “Casas de vida”. Entre os romanos do primeiro século encontramos em Aulus Cornelius Celsus, palavras de estímulo ao uso da leitura e discussão de obras como forma terapêutica. Na abadia de São GaIl, na Idade Média, havia a inscrição “Tesouro dos remédios da alma”. Os gregos, também, fizeram associação de livros como forma de tratamento médico e espiritual, ao conceberem suas bibliotecas como “a medicina da alma” (CRUZ, 1995, p. 13). Já para Pereira (1989, p. 23), “o uso dos livros para tratamento surgiu primeiramente na Idade Média.”
Inúmeras discussões são mantidas sobre as origens do termo Biblioterapia, sabendo-se, entretanto, que surgiu na América do Norte em meados do século XIX (dezenove), em um trabalho relacionando a biblioteca à ação terapêutica.
O primeiro pesquisador a recomendar a leitura em hospitais, como parte do tratamento para os doentes comuns foi o médico norte-americano Benjamim Rush em 1802 e, para doentes mentais em 1810. John Minson Galt II, também médico, foi um dos primeiros a escrever artigos sobre Biblioterapia e ficou conhecido pelo seu ensaio tratando da leitura, recreação e diversão para insano, em 1853 (ALVES, 1982, p. 55).
As primeiras experiências em Biblioterapia foram feitas por médicos americanos, no período de 1802 a 1853, que indicavam a seus pacientes hospitalizados a leitura de livros previamente selecionados e adaptados às necessidades individuais, como parte do tratamento. Os praticantes e os filósofos
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da Biblioterapia admitem que a leitura é um método válido e eficaz, sendo que ela é importante e proveitosa.
Mas, foi em 1904 que a Biblioterapia foi considerada um ramo da biblioteconomia. Isso ocorreu quando uma bibliotecária tornou-se chefe da biblioteca do hospital de Wanderley Massachussets, iniciando um programa que envolvia os aspectos psiquiátricos da leitura.
A Biblioterapia recebeu um grande impulso durante a Primeira Guerra Mundial quando bibliotecários e leigos, notadamente, a Cruz Vermelha, ajudaram a construir rapidamente bibliotecas nos hospitais do exército. No término da Guerra, o Comitê dos Veteranos de guerra dos Estados Unidos tornou-se responsável pelos hospitais dos veteranos, incluindo bibliotecas. A partir dessa época, a administração dos veteranos procurou mostrar como desempenhar um grande papel na Biblioterapia (DOLAN apud PEREIRA, 1987, p. 22).
Outro registro importante sobre a prática da Biblioterapia ocorreu em 1916, quando o então Diretor do Comitê de Controle das Instituições do Estado, em Iowa, Estados Unidos, citou o trabalho da bibliotecária Carey, uma pioneira em bibliotecas hospitalares, afirmando que livros são “ferramentas” para serem usadas com uma expectativa inteligente de alcançar resultados.
Na década de vinte, houve uma proliferação das ações em direção ao desenvolvimento da Biblioterapia, com posicionamentos como o de Beatty (apud VASQUEZ, 1989, p. 32), “se fosse um médico, eu faria dos livros uma parte do material médico e os prescreveria aos meus pacientes, de acordo com as suas necessidades”.
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A partir da década de trinta, a Biblioterapia firmou-se definitivamente como um campo de pesquisa. Nesse período, destacou-se “as biblioterapeutas Isabel Du Boir e Emma T. Foremam, principalmente esta última, que insistiu para que a Biblioterapia fosse vista e estudada como ciência e não como arte” (ORSINI apud CRUZ, 1995, p. 14).
Ainda, nessa década, Delaney escreveu sobre “o lugar da Biblioterapia em um hospital”, acentuando a necessidade de treinamento e de pessoal suficiente para registros adequados de todas as experiências vivenciadas por biblioterapeutas. “Mais sessenta artigos foram publicados, sendo que desses 63% foram publicados fora da biblioteconomia” (VASQUEZ, 1989, p. 33).
Conforme Pereira (1987, p. 27), o Dr. Karl C. Menninger foi um dos primeiros a citar os benefícios da Biblioterapia, e os dividiu como “Identificação do leitor com o caráter ou experiência no livro que poderá resultar numa aberração de emoção; alívio pelo reconhecimento de que outros têm problemas similares, ou projeção de suas características no caráter”. Quando um leitor é estimulado a comparar suas ideias e valores com as dos outros, poderá resultar em mudanças de atitude.
Em 1939, o Hospital Division of the American Library Association estabeleceu a primeira comissão sobre Biblioterapia, alcançando, finalmente, status oficial na biblioteconomia.
Nas décadas de quarenta a sessenta, foram produzidos muitos estudos e publicações. Segundo Pereira (1987, p. 23), “Em 1940, Elbert Lenrow publicou uma extensa bibliografia, relacionando as necessidades emocionais específicas”.
Orsini (apud CRUZ, 1995, p. 14) relata que:
em 1942, a pesquisadora Ilse Bry, formada em Psicologia, Filosofia e Biblioteconomia publicou seu trabalho “aspectos médicos da literatura: um esboço bibliográfico”, abordando quatro diferentes
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aspectos: aplicação médica da literatura; a medicina na literatura e estudos das respostas à literatura.
No período de 1946 a 1950, houve um crescimento contínuo no número de artigos sobre Biblioterapia.
Orsini (apud CRUZ, 1995, p. 14) diz que em 1949, Sofie Lazarfeld publicou um artigo intitulado “O uso da ficção na psicoterapia”, no qual eram descritas as reações dos pacientes diante do texto e entre as linhas dos livros indicados. Esse trabalho serviu para ressaltar a necessidade de uma auto-análise para qualquer pessoa que pretendesse trabalhar com Biblioterapia.
Beatty (1962, p. 113) lembra que “a ausência de uma estrutura para a Biblioterapia tinha sido citada por vários anos, até que um esforço maior para colocar o assunto na perspectiva própria foi completado em 1949, na forma de tese de doutorado “Biblioterapia: um estudo teórico e clínico” de Caroline Shrodes, lançando as bases atuais da Biblioterapia”.
Ainda, a mesma autora lembra que em 1957, “Morrow e Kinney relataram os resultados de um estudo controlado em: “as atitudes dos pacientes com relação à eficácia da leitura de psiquiatria popular, artigos e livros de psicologia”, cujos resultados destacaram as lacunas do próprio trabalho e os passos necessários para cobri-los nos próximos estudos.
Segundo Rubin (apud VASQUES, 1989, p. 34), “o passo significativo no final dos anos 50 foi a determinação da Associação de Bibliotecas de Hospitais e Instituições, de apresentarem resultados alcançados em estudos sobre biblioterapia.” Atividades desse tipo estimularam a troca de informações, favorecendo o desenvolvimento de estudos de pesquisa.
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Na década de sessenta, com o desenvolvimento das Ciências Sociais e do Comportamento, o uso da leitura foi reconhecido como arma capaz de produzir mudanças de atitudes comportamentais, na biblioteconomia.
Rubin (apud VASQUEZ, 1989, p. 35) relata que em 1967, Pauline Ople, colhendo informações para sua tese, enviou um questionário com 12 perguntas a 217 hospitais estaduais de saúde mental nos Estados Unidos. Dos que responderam, 80% eram pessoas ligadas à saúde e 20% eram bibliotecários. As duas perguntas iniciais tinham o propósito de definir Biblioterapia. A maioria das pessoas que responderam concordaram ser a Biblioterapia “um grupo de atividades de leitura com pacientes, conduzidos por bibliotecários, em associações com um membro da equipe médica”. Na pergunta, “Em que setor do hospital seria mais válido a implantação de um programa de Biblioterapia?” 45% acharam que seria mais eficaz na proteção aos idosos. Outro dado importante obtido na pesquisa: 90% dos bibliotecários e 91.3% dos médicos concordaram que um livro pode ter diferentes significados para pacientes com diagnósticos semelhantes, dependendo do seu nível de conhecimento.
Na década de setenta, muitos avanços foram alcançados no sentido de proporcionar uma base muito ampla para o desenvolvimento da Biblioterapia como um campo a ser explorado por médicos, psicólogos, bibliotecários, educadores e outros profissionais que se engajam na busca de registrar os benefícios da Biblioterapia, quando aplicada a diferentes tipos de clientela.
Em 1974, a Federação Internacional das Associações Bibliotecárias, reuniu nos Estados Unidos para elaborar um documento nas bibliotecas públicas e hospitais, acontecendo um grande programa para a biblioterapia. Na
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elaboração do referido documento participaram três bibliotecários, um terapeuta de recreação, um enfermeiro e um médico psiquiatra. Esse trabalho foi publicado pela Comissão Editorial da ALA (American Library Association) em 1975 na Revista Libri, sob o título: “Reabilitação da saúde por serviços de bibliotecas” (PEREIRA, 1987, p. 24).
E, conforme Cruz (1995, p. 14), em 1975, Mary Jane Ryan afirmou ser a Biblioterapia uma arte e não uma ciência.
As décadas de oitenta e noventa representaram um aprofundamento das questões teóricas, até então consideradas discutíveis, surgindo a identificação de novos métodos e uma constante necessidade de pesquisas para assegurar cada vez mais suas aplicações e o delineamento de nova tendência.
Alves (1982, p. 60) afirma que “A biblioterapia vem sendo usada com êxito nos estabelecimentos hospitalares de outros países e poderá, igualmente, ser proveitosa em presídios.”
“A biblioterapia pode ser auxiliar muito útil para o programa correcional, para aperfeiçoar atitudes relacionadas aos conceitos comportamentais para todas as categorias de internos” (PEREIRA, 1987, p. 69).
Nesse mesmo ano, Scogin investigou a eficiência da Biblioterapia no tratamento da depressão geriátrica, com 29 pacientes idosos apresentando depressão leve a moderada, cujos resultados mostraram a redução da depressão na sequência de um programa estruturado de auto-ajuda de biblioterapia.
Vasquez (1989, p.123) estudou o uso da Biblioterapia com 20 pacientes de uma Instituição de idosos, e afirmou que “a Biblioterapia mostrou-se eficiente para o aumento do equilíbrio Psicológico das pessoas idosas institucionalizadas.”
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Tews (apud VASQUEZ, 1989, p. 42), após estudos, afirma que “a prática da biblioterapia vem demonstrando resultados satisfatórios, tanto nos hospitais psiquiátricos como em outros tipos de Instituição que necessitam de serviços de biblioteca.”
Katz (1992, p. 173) considera objetivos da Biblioterapia:
Ampliar a compreensão intelectual e o conhecimento de um problema ou diagnóstico; incrementar habilidades sociais e reforçar comportamento aceitável, e corrigir ou remover comportamento nocivo ou confuso; dar orientação espiritual ou inspirativa; desenvolver um senso de pertencimento, o qual por sua vez ajuda o paciente a se sentir melhor emocionalmente; explorar metas e valores pessoais; e proporcionar uma oportunidade de para catarse e abreaction.
Uma breve revisão histórica da Biblioterapia demonstra sua contínua vitalidade, pois, muitas pesquisas refletem a sua evolução, que no início era voltada para hospitais psiquiátricos, passando, então, a ter aplicação em outros tipos de instituições.
1.3 Campo de Atuação
A Biblioterapia pode ser aplicada no campo correcional, na educação, na medicina, na psiquiatria e com os idosos.
No Campo Correcional: a Biblioterapia visa à recuperação de jovens delinquentes e adultos criminosos que, em geral, tem problemas emocionais e de ordem social, cuja resolução pode ser auxiliada pela leitura. O uso do livro provoca a diminuição da ansiedade, despertando novos interesses,
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canalizando a agressão para ações aceitas pela sociedade, além de que, a leitura contribui na verbalização dos problemas. Várias experiências têm sido feitas com jovens e adultos, na esperança de solucionar problemas através de técnicas biblioteconômicas.
Na Educação: o livro tem sido usado, desde longa data, como apoio em crises de adolescentes e crianças com problemas especiais, como morte em família, separação dos pais, conflitos com amigos, sobretudo para crianças que necessitam permanecer afastada do seu ambiente familiar — em creches e hospitais.
“A leitura dirigida para crianças pode ser efetuada antes mesmo de sua alfabetização e criará condições preparatórias para o desenvolvimento do hábito de leitura.” (RATTON, 1975, p. 208).
Atualmente, com as modificações nos métodos didáticos, os estudantes necessitam realizar pesquisas, buscar informações, confrontar opiniões de diferentes autores. Isso age como estímulo para que o educando não acumule só conhecimentos de outros, mas que forme seu próprio patrimônio intelectual e saiba operar, comparar, criticar e utilizar o que aprendeu.
Segundo Ratton (1975, p. 205), “alguns professores fazem atualmente uso de livros não didáticos para desenvolver atitudes, preparando o aluno para enfrentar os problemas da vida moderna.”
Na Medicina: segundo Rubin (apud VASQUEZ, 1989, p. 40), Biblioterapia é: o uso da leitura, basicamente imaginativa, com grupos de pessoas com problemas emocionais ou comportamentais. Esta clientela pode ou não participar voluntariamente. A aplicação deste tipo de Biblioterapia, geralmente é planejada e conduzida por um médico ou um bibliotecário,
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porém para esta modalidade é mais prudente, que tanto o médico como o bibliotecário se engajem na aplicação e condução dos trabalhos biblioterapêuticos. O ambiente para execução das atividades práticas poderá ser as dependências de uma instituição ou mesmo a própria comunidade. As metas alcançadas referem-se basicamente a uma mudança de comportamento.
Em muitos países, a biblioteca é considerada elemento indispensável em hospitais, podendo a leitura ser usada na profilaxia, reabilitação e terapia propriamente dita.
Na medicina, o uso do livro pode ser útil como fonte de recreação, ou para informação sobre tratamentos especiais ou cirurgias a que tenham de se submeter.
Segundo Ratton (1975, p. 206), ‘Em alguns hospitais, a adaptação à vida hospitalar é auxiliada pela participação em grupos de leitura que visam promover o contato entre pacientes e proporcionar-lhes oportunidade de comunicação.”
O uso da Biblioterapia é especialmente indicado para pacientes que deverão manter-se no leito por vasto período de tempo, sem exercerem qualquer atividade.
Na psiquiatria: é aplicada com a finalidade de curar distúrbios psíquicos já instalados no indivíduo. Os livros podem atuar como elemento auxiliador nas diversas fases. Na psiquiatria, a Biblioterapia é um valioso coadjuvante, pois há casos em que o doente tem grande dificuldade de expressão e comunicação, exigindo um tratamento anterior à terapia propriamente dita. As primeiras experiências com grupos de leitura nesse campo foram feitas com doentes mentais, mas são beneficiados também com esse tipo de tratamento dependentes de drogas.
Idosos: é usada para a diminuição da ansiedade, ajudando-os a aceitarem suas novas condições de vida,
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mantendo-os em boas condições psicológicas. A Biblioterapia permite aos idosos uma preparação para a abordagem de temas considerados por eles proibidos. O livro é o elemento mais indicado para proporcionar informações sobre o processo de envelhecimento, seus aspectos físicos, psicológicos e, sobretudo para esclarecimentos acerca dos problemas sexuais que eles, por timidez, não abordam espontaneamente com profissionais da área. Alguns dos objetivos da Biblioterapia com os idosos são o reajustamento ocupacional da velhice, atualização educacional, socialização e remotivação.
Hynes (apud VASQUEZ, 1989, p. 51) arrolou quatro metas a serem atingidas com a Biblioterapia, destinadas às pessoas com idade avançada:
A primeira meta é a do enriquecimento, isto é, estimular e enriquecer as pessoas para que não multipliquem os problemas da vida cotidiana. O idoso, mantendo contato com seus próprios sentimentos através das facilidades adequadas propiciadas pela Biblioterapia, pode vir a se entender melhor. A segunda meta é a da visão interna do próprio ser, através da qual se procura ajudar o participante a adquirir novas visões internas. Com isso, pode chegar à conclusão de que ele pode não ser o único que sofre uma determinada situação ou um problema específico. A terceira meta é a da percepção e tem como finalidade aumentar a percepção das pessoas de seu grupo de relação. A experiência de estar num grupo de pessoas que estão se comunicando honestamente sobre seus sentimentos pessoais ou qualquer outro tipo que for levantado, é propiciar a cada um, a sua própria reação. A quarta meta é a de sentir a realidade, através da qual se busca engrandecer as visões internas
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do indivíduo para o mundo em seu redor, advertindo as pessoas para a realidade da situação da vida e ajudando-as a lidar com o que não pode ser mudado.
Estudiosos, de maneira geral, argumentam que a prática biblioterapêutica pode proporcionar várias experiências ao leitor, ajudando-o a alcançar a compreensão emocional e intelectual, oferecer oportunidade para identificação e compreensão, aumentar valores e reforçar os já existentes, pode, ainda, dissipar o isolamento, reforçar padrões culturais e comportamentais.
1.4 Tendências
Não importa qual a definição dada, pois tanto na prática quanto na discussão, a Biblioterapia continua sendo um assunto altamente complexo. Analisando-se os resultados de pesquisas realizadas, fica evidente que questões propostas há anos ainda continuam sem resposta.
É inegável que o interesse pela Biblioterapia está crescendo em ritmo acelerado, não importa se como “arte” ou “ciência”. Esse crescimento é mais intenso nos Estados Unidos, enquanto que em outros países acontece de forma tímida e silenciosa.
De acordo com Cruz (1995, p. 14), “A biblioterapia é um campo de produção científica e de atuação profissional que envolve médicos, psicólogos, educadores, bibliotecários, assistentes sociais, psiquiatras e terapeutas de diversas correntes.”
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Mas, um problema ainda parece existir no esclarecimento das necessidades e objetivos da Biblioterapia. Para alguns, há o problema na necessidade de se chegar a um consenso sobre o termo; já para outros, há a falta de uma proposta direcionada.
A verdade é que a prática biblioterapêutica apresenta importantes limitações a serem enfrentadas:
1 — A falta de bibliotecários treinados e com habilidades para conduzir o programa de Biblioterapia.
2 — A inexistência de bibliotecas, sobretudo em hospitais.
3 — O pouco conhecimento sobre o leitor.
4 — A inexistência de estudos que apontem quais os tipos de problemas de saúde são mais tratáveis com a Biblioterapia, qual o tipo de leitura é mais eficaz e qual leitor será mais beneficiado.
Durante muitos anos, pouco foi feito pela Biblioterapia. Há a necessidade de estudos e pesquisas com profundidade em muitos aspectos dos serviços de bibliotecas de hospitais e instituições. Os bibliotecários ainda não sabem por que um leitor escolhe este ou aquele livro, nem por que certos livros atraem certos leitores. Por isso, a realização de estudos com o propósito de melhor conhecer o leitor forneceriam dados importantes para bibliotecários que atuam em bibliotecas de hospitais.
Desde 1914, a Biblioterapia é considerada um ramo da Biblioteconomia, mas até hoje ainda há discussão sobre sua aplicação por bibliotecários. Alguns autores afirmam que cabe ao bibliotecário apenas a seleção do material; outros concordam que os bibliotecários estão preparados para aplicar a Biblioterapia, sendo necessário apenas um treinamento especial.
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“Nas instituições americanas, a biblioterapia é aplicada por bibliotecários, enquanto que nos hospitais eles apenas auxiliam o terapeuta na busca e seleção do material.” (ALVES, 1982, p. 33).
A Biblioterapia é uma atividade do bibliotecário, mas, é necessário que esses profissionais assumam essa tarefa, ou correm o risco de assistir a Biblioterapia se tornar uma especialidade dentro de outras áreas.
Segundo Katz (1992, p. 174), Compreensivelmente, artigos sobre o uso de livros com pacientes psiquiátricos aparecem em periódicos de biblioteconomia, antes de aparecerem em periódicos de psiquiatria [...] No entanto, entre os anos 50 e os anos 80 artigos defendendo o uso de livros numa grande variedade de contextos começaram a aparecer em periódicos de psiquiatria, psicologia e reabilitação.
No Brasil, a Biblioterapia está se desenvolvendo de forma ainda, muito lenta. Os poucos estudos realizados não chegaram a ter seus resultados publicados, fato que torna a prática biblioterapêutica uma realidade, ainda, distante. É necessário, portanto, que os profissionais bibliotecários tomem consciência da importância da leitura e dos leitores como dos livros, de que é através da leitura que o leitor faz uso dos livros, e que a Biblioterapia, além dos benefícios proporcionados ao leitor representa um novo campo de atuação.
É necessário, também, que os bibliotecários comecem a se interessar pela Biblioterapia, que olhem um pouco ao seu redor e encontrem no livro a contribuição para amenizar muitos problemas como, por exemplo, a depressão dos idosos, a solidão das pessoas hospitalizadas e verão que praticar a
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Biblioterapia é tão gratificante quanto fornecer ao médico “aquele livro” que traz a dosagem exata do medicamento que o paciente precisa para sobreviver.
Mas, para isso é importante que os profissionais bibliotecários se mantenham informados acerca da prática biblioterapêutica como da catalogação, classificação e outras técnicas inerentes à biblioteconomia, participando de reuniões, seminários e discussões multidisciplinares.
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2- LEITURA
“Bendito, bendito é aquele que semeia livros, livros a mão cheia e manda o povo pensar; o livro caindo na alma, é germe que faz a palma, é chuva que faz o mar.” (Castro Alvos, 1847-1871)
Há muito tempo se considera a importância da leitura para a realização pessoal. Nas sociedades antigas, as mulheres participavam mais da leitura, pois a educação das meninas incluía a aprendizagem desta, mas não a da escrita, que era tida como inútil e perigosa para as mulheres.
Conforme Chatier (apud SILVA, 1999, p. 10), em meados do século XVIII (dezoito), era grande a distância que separava a capacidade de escrever e com a de ler. Na Suíça, por exemplo, apenas 20% das pessoas sabiam escrever, enquanto 80% sabiam ler. Na Inglaterra Luterana, foi realizada uma grande campanha de leitura, apenas de leitura, para que as pessoas pudessem ler com os próprios olhos a “Palavra Sagrada”.
A difusão da escrita, com a invenção de Gutemberg, percorreu um árduo caminho de aceitação por parte dos clérigos e eclesiásticos, que queriam monopolizar o conhecimento por acreditar que popularizar o saber teria o mesmo valor de uma profanação.
Entre os séculos XVI (dezesseis) e XVIII (dezoito), surgem novas práticas da leitura, sendo uma delas a leitura silenciosa, quando a mesma passa do domínio público para o privado. Desse modo, se tornou
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possível ler sem ser em voz alta, prática até então impossível e que foi difundida entre os alfabetizados e, no século XIX (dezenove), surge a distinção entre aqueles que são inaptos à leitura, por não saberem ler em silêncio, e aqueles que, possuindo a capacidade da leitura silenciosa, são conceituados como leitores.
A leitura silenciosa contribuiu para inovar o trabalho intelectual, que se tornou um ato individual, além de permitir a intimidade com os livros. Assim, começou a penetrar na vida das pessoas e, muitos tinham condições de possuir uma biblioteca, cujo local era apropriado para a prática da leitura silenciosa, caracterizando-se, assim, como lugar silencioso e de meditação.
A prática de ler para alguém era muito frequente no século XVII (dezessete): o esposo lendo para sua esposa, experiência que reforçou a intimidade familiar; o criado lendo para seu senhor, prática que contribuiu para a alfabetização dos criados; e até mesmo entre pessoas que viajavam, formando grupos que, por vontade ou acaso, usavam a leitura para tornar o tempo mais agradável.
A impressão de obras escritas passou a ser uma atividade empresarial voltada para o lucro, quando passou a contar com uma clientela capaz de consumir o novo produto, ou seja, pessoas que dominavam o ato de ler. Isso, consequentemente, veio fortalecer a formação de escolas e a obrigatoriedade em alfabetizar a população.
Segundo Lajolo e Zilberman (1996, p.18):
Só por volta de 1840 o Brasil do Rio de Janeiro, sede da monarquia, passa a exibir alguns traços necessários para a formação e fortalecimento de uma sociedade leitora: estavam presentes os mecanismos mínimos para a produção e circulação da literatura; como tipografias, livrarias e bibliotecas; a escolarização era precária, mas manifestava-se o movimento visando à melhoria
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do sistema; o capitalismo ensaiava seus primeiros passos graças à expansão da cafeicultura e dos interesses econômicos britânicos, que queriam um mercado cativo, mas em constante progresso.
Devido à condição do leitor brasileiro, a de iniciante, muitos são os cuidados dos autores para sustentar o leitor e, consequentemente, garantir espaço para a divulgação e multiplicação de suas obras.
Na década de 30, a literatura brasileira adquire uma posição voltada para as questões sociais, na tentativa de retirar a máscara de uma sociedade que, aparentemente agradável, esconde, dentre outros, marginalização, revolta e movimento revolucionários, despertando o leitor para a realidade.
Dificuldades como o aparecimento tardio da imprensa, o número elevado de analfabetos, a carência de livros, o preço dos mesmos, contribuíram para que o Brasil vegetasse intelectualmente. Somente a imprensa real possuía o domínio da produção escrita e, através de alvarás reais, representava o Estado como mediador da venda, impressão e importação de obras. Porém, na Segunda metade do século XIX (dezenove), o Estado iniciou a formação de contratos com outras editoras para publicar obras didáticas que, ligadas às escolas, tinham curso certo de negociação.
Ler é, antes de tudo, compreender, e, segundo Lajolo (1986, p. 59):
Ler não é decifrar, como um jogo de adivinhações, o sentido de um texto. É, a partir do texto, ser capaz de atribuir-lhe significação, conseguir relacioná-lo a todos os outros textos significativos para cada um, reconhecer nele o tipo de leitura que seu autor pretendia e, dono da própria vontade, entregar-se a esta leitura, ou rebelar-se contra ela propondo outra não prevista.
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Estudos apontam para a importância de considerar a leitura como um processo onde o indivíduo tenha habilidade para, além de decifrar sinais, compreendê-los. A leitura é uma procura incessante de significados e, quanto mais o indivíduo ler, mais preparado estará para interpretar o mundo, passando a dominar o saber, cujo propósito básico é a apreensão dos significados mediatizados ou fixados pelo discurso escrito. Portanto, toda leitura de um texto é individual, sendo o texto plurissignificativo: cada pessoa, dependendo da sua vivência pessoal, atribui um determinado significado.
Para Silva (1981, p. 43), “Leitura é um dos principais instrumentos que permite ao ser humano situar-se como os outros, de discussão e crítica para se chegar à práxis [...]. A ciência e a cultura chegam às escolas através do livro.”
O mesmo autor acrescenta que “Mesmo com a presença marcante de outros meios de comunicação, o livro permanece como o veículo mais importante para a criação, transmissão e transformação da cultura”.
O ato de ler não é apenas ver o que está escrito. Ler é ser questionado pelo mundo e por si mesmo, é saber que certas respostas podem sem encontradas na produção escrita; é poder ter acesso ao escrito; é constituir uma resposta que entrelace informações novas àquelas que já se possuía.
Para Maria (1994, p. 175),
Ler é uma experiência. Ler sobre uma tempestade não é o mesmo que estar em uma tempestade, mas ambas são experiências [...] Não vivemos para adquirir informação, mas a informação, assim como o conhecimento, sabedoria, habilidades, atitudes e satisfações vêm com a experiência de estar vivo.
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A autora afirma ainda que “A experiência na leitura produz sempre mais conhecimento sobre a própria leitura, de modo que aqueles que lêem muito sem dúvida tendem a ler melhor.”
O ato de ler proporciona a possibilidade de diálogo para além do tempo e do espaço; é o alojamento do mundo para além dos limites de nosso quarto, mesmo sem sairmos de casa; é a exploração de experiências mais variadas, quando não podemos viver realmente. Por meio da leitura, em um ato aparentemente solitário, podemos dialogar com meios sociais e geográficos muito distantes do nosso, podemos dialogar com passados remotos e vivenciar experiências de outros momentos históricos.
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3- HOSPITALIZAÇÃO
Talvez a missão da literatura seja a mesma da psicanálise: nos salvar da loucura dos nossos monstros.” (Nilza Resende)
A hospitalização, independendo da gravidade da doença, é um processo que causa medo e insegurança.
Para Silva (1992, p. 6), “a hospitalização, por mais simples que seja o motivo, tende a levar a uma experiência negativa, Os desconfortos físico, moral, espiritual e o medo da morte podem gerar sofrimentos.”
Os hospitais são estruturados de modo a facilitar o trabalho dos profissionais, favorecendo um tratamento eficiente a um grande número de pessoas. Assim sendo, os pacientes são distribuídos por unidades de acordo com seu diagnóstico e, então, são submetidos a normas e rotinas rígidas e inflexíveis. Isso favorece um ambiente de solidão e isolamento que gera ansiedade, angústia e insegurança, dentre outros.
De acordo com Beuter (1996, p. 16),
As pessoas, no hospital, ficam expostas a um ambiente estranho e impessoal, onde o relacionamento dos profissionais de saúde com elas caracteriza-se pela distância, formalidade, informações rápidas e a utilização de terminologias técnico-científicas.
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Segundo Farias (1981, p. 2)
Apesar de ser a hospitalização uma experiência vivenciada individualmente supõe-se que a maioria das pessoas que se hospitalizam independendo da idade ou quadro clínico, sejam afetadas pelo estresse Além do estresse fisiológico produzido pela própria doença, a hospitalização provoca mudanças de ambiente físico e social e, nas atividades diárias do paciente, de modo a afetar todo o seu sistema de vida.
De acordo com Zind (apud FARIAS, 1981, p. 3), “a hospitalização pode implicar em ameaça ao bem-estar, à integridade física, talvez à própria vida; priva de comportamentos usuais, força mudança de papel e perda do sistema de apoio.”

Murray (apud FARIAS, 1981, p. 3) afirma que “A necessidade do paciente de em curto período interagir com várias pessoas estranhas, a expectativa de submeter-se a procedimentos técnicos que lhe são desconhecidos a sensação de que o seu corpo está sendo manipulado por outros, são eventos ameaçadores.”


O mesmo autor discute que a dependência de outros, a falta de privacidade e identidade, forçam o indivíduo a mudar seu papel e assumir padrões comportamentais para os quais não está preparado. E que o sentimento de perda do sistema de apoio surge em consequência da dramática mudança do ambiente físico da separação de pessoas significativas junto às quais o indivíduo se sente seguro.
O estudo de Takito (1985, p. 45) mostra que,
O fato de pacientes compartilharem a enfermaria com outros pacientes, mostrou mais respostas favoráveis do que a privacidade, que o companheirismo e a ajuda mútua foram mais importantes que a privacidade oferecida pelos quartos. Os pacientes reportam-se uns aos outros como amigos, companheiros, colegas que têm em comum as mesmas dificuldades, e
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encontravam na presença, no diálogo e entre ajuda, o apoio e a alegria para atender sua necessidade gregária.
Segundo Beuter (1996, p. 30), “O enfermo, apesar de contar com a presença de colegas de enfermaria, pode ter a sensação de estar só, isolado de sua família e comunidade.”
E, Volicer (apud FARIAS, 1981, p. 3) diz que, “a experiência de estresse psicossocial, vivenciado na hospitalização, afeta o processo de recuperação da doença.”
Observa-se que os hospitais, na sua maioria, não oferecem nenhuma atividade e lazer aos seus pacientes. Portanto, os pacientes ficam horas e horas inertes no leito olhando para o teto, mergulhados na sua dor, em seus pensamentos e preocupações. Em vista disso, deve-se proporcionar a esses pacientes algum tipo de lazer, respeitando as condições e preferências de cada um.
Henderson (apud BEUTER, 1989, p. 35) diz que,
A música e o teatro estão sendo levados, cada vez mais, ao alcance dos doentes incapacitados, pela sua divulgação através do rádio e da televisão. Porém, mais importante é a participação dos próprios pacientes em alguma peça musicada ou em drama, sobretudo por eles liderados.
De acordo com Beuter (1996, p. 34):
O hospital deveria ser um centro irradiador de saúde e, como tal, promover, manter e recuperar a saúde das pessoas, dos grupos e da comunidade. Deveria ser um dos objetivos do hospital levar à humanização, oferecendo condições que proporcionem bem-estar durante a hospitalização, propiciando um ambiente mais familiar, mais humano e mais natural, sem que os enfermos precisem abdicar de sua identidade para ser apenas mais um número.
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4- PROCEDIMENTO METODOLÓGICO
“A leitura é para a mente o que o que o exercício é para o corpo”. (Richard Steele)
4.1 Campo da Prática
A prática biblioterapêutica foi desenvolvida nas CMM e CMF do Hospital Universitário da Universidade Federal de Santa Catarina — HU/UFSC, cujo objetivo é ser campo de ensino, pesquisa e extensão na área da saúde e afins, em estreita relação e sob orientação das Coordenadorias e dos Departamentos de Ensino, que nele efetivamente atuam e, prestar assistência à comunidade na área de saúde em todos os níveis de complexidade de forma universalizada e igualitária.
O HU/UFSC está dividido em Diretorias e estas em Divisão de Serviço, oferecendo a comunidade, aproximadamente, 95 especialidades em nível ambulatorial e de internação e, tem um quadro de funcionários composto por 1.391 efetivos e contratados para o atendimento de, aproximadamente, 11.000 pacientes em nível de ambulatório e 700 internações mensais.
Tem como objetivo a curto, médio e longo prazos atender a todas as pessoas indiscriminadamente, oferecendo serviço de saúde especializado e de qualidade à população desprovida de recursos, atendendo única e exclusivamente pelo
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Serviço Único de Saúde (SUS), de acordo com seus critérios de universalidade, integralidade e gratuidade.
4.2.1 Reconhecimento das Clínicas estudadas
As unidades de internação nas quais foi desenvolvida a pesquisa, Clínicas Médica Masculina (CMM) e Clínica Médica Feminina (CMF) estão localizadas no terceiro pavimento do hospital.
A CMM dispõe de duas unidades de internação: CMM-I e CMM-Il, as quais são separadas por especialidades. A CMM-I interna pacientes nas seguintes especialidades: oncologia, reumatologia, pneumologia, gastroenterologia e nefrologia, e a CMM-II interna pacientes nas especialidades de hematologia, cardiologia, neurologia e endocrinologia. Durante a pesquisa, as CMM I e II foram consideradas como CMM, ou seja, uma única unidade de internação.
Ambas as unidades têm capacidade para trinta pacientes e dispõem da mesma área física: hall de entrada, com TV para os pacientes, posto de enfermagem, sala de preparo de medicamentos, sala de prescrição médica, expurgo, sala de curativo, copa, sala de lanche, sala para passagem de plantão e sala de aula.
De acordo com os registros do Serviço de Arquivo Médico e Estatístico (SAME), a taxa média de ocupação dos leitos das Clínicas Médicas é de 83%, e o período médio de internação é de doze dias, O quadro de funcionários para atendimento nas clínicas é formado por:
- CMM — dezoito enfermeiros, vinte e cinco técnicos de enfermagem, dezoito auxiliares de enfermagem, seis auxiliares de saúde e três escriturários;
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- CMF — oito enfermeiros, treze técnicos de enfermagem, oito auxiliares de enfermagem, dois auxiliares de saúde e dois escriturários.
Os funcionários são distribuídos em três turnos, manhã, tarde e noite, com exceção dos escriturários que trabalham somente nos turnos da manhã e da tarde.
A escolha por essa Instituição se deve ao fato de que ela dispunha de livre acesso aos sujeitos da pesquisa. Além do que, como funcionária da Instituição, tive oportunidade de vivenciar, por várias vezes, o processo de hospitalização.
4.2.2 Sujeito da Pesquisa
O alvo deste estudo foram 47 pacientes, sendo 27 do sexo masculino e 20 do sexo feminino. Para a seleção, foram estabelecidos os seguintes critérios:
- participação voluntária;
- estar lúcido e orientado;
- pertencer à faixa etária de 18 a 50 anos; e
- ser alfabetizado.
A limitação da idade se deve ao fato de que o indivíduo, nessa faixa etária, é responsável pelas suas decisões. Logo, poderia decidir pela sua participação no estudo sem a necessidade da autorização de responsáveis, o que poderia dificultar o mesmo, pois sendo o HU/UFSC um hospital que tem como finalidade oferecer um atendimento de qualidade à população menos favorecida e, atende única e exclusivamente pelo SUS, atende muitos pacientes provenientes de outras cidades do Estado, o que poderia dificultar o desenvolvimento da pesquisa.
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Por questão ética, o nome dos pacientes foi substituído por nomes de flores e/ou plantas e, para garantir o total anonimato, omitiu-se também na identificação o local de procedência e o diagnóstico.
4.2.3 Acervo
O acervo foi formado tomando como base o prévio conhecimento dos pacientes. Tendo trabalhado durante vários anos nas clínicas, em contato direto com os pacientes, foi possível perceber que os mesmos possuem baixa escolaridade, são leitores em potencial e preferem a leitura de revistas.
Procurou-se utilizar materiais de leitura que proporcionasse descontração e informação, algo que não alterasse o estado emocional dos pacientes. Assim, o acervo foi constituído por revistas, jornais e livros — literatura adulto, infanto-juvenil e auto-ajuda, como:
- Revistas: Veja, lstoé, Época, Caras, Capricho, Claudia, Marie Claire, Carícia, Sabrina, Julia, Bianca.
- Jornal: Diário Catarinense.
- Livros: Rei do Mundo — Prado, Lucília Junqueira de Almeida
Para Gostar de Ler—Andrade, Carlos Drummond de
Um Certo Dia de Março — Prado, Lucília Junqueira de Almeida
Meninos de Asas — Homem, Homero
Uma Rua como A que/a — Prado, Lucília Junqueira de Almeida
A Baía dos Golfinhos — Prado, Lucília Junqueira de Almeida
Bolsa Amarela — Nunes, Lygia Bojunga
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O Homem do Terno Marrom — Christie, Agatha
Vítimas do Preconceito — Palissy, Codro
Te Levanta e Voa — Klueger, Urda Alice
Iracema — Alencar, José de
O Alienista — Assis, Machado de
Decisão de Médico — Mitchell, Kerry
Violetas na Janela — Carvalho, Vera Lucia Marinzeck de
Vida Selvagem — Ford, Richard
Assim Morreu Tancredo — Britto, Antonio
Não Diga Sim Quando Quer Dizer Não — Fensterheim, Herbert
Pollyanna Moça — Porter, Eleanor H.
A Revolução dos Bichos — Orwell, George
Novo Testamento
4.2.4 Coleta dos Dados
O primeiro passo para a entrada na Instituição foi o contato com a Direção Geral do hospital, para apresentar e informar sobre o protocolo de pesquisa exigido pela Instituição. Depois, foi enviado a Comissão de Ética de Pesquisa com Seres Humanos, o projeto da pesquisa e demais documentos solicitados para análise e posterior consentimento para o seu desenvolvimento (APÊNDICE A).
Nas unidades selecionadas, foi realizado um contato prévio com as chefias a fim de apresentar a proposta da pesquisa, solicitar a colaboração e esclarecer dúvidas. Após esta etapa, foram iniciados os encontros com os pacientes da CMM, no dia 13/06/2000 a 11/07/2000, e na CMF em 13/07/ 2000 a 08/08/2000.
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Os encontros aconteciam duas vezes por semana, nas terças e quintas-feiras, no período da tarde, entre 13h e 18h por ser um horário em que as unidades estão mais tranquilas, oferecendo as condições necessárias para a execução das atividades e, também, para contemplar os pacientes que não recebem visitas.
No primeiro contato com o paciente, eram avaliadas suas condições física e emocional. A cada um deles prestavam- se esclarecimentos sobre como ocorreria a prática biblioterapêutica. E, nas situações em que não eram desenvolvidas atividades de leitura, procurava-se estabelecer uma relação amiga com os pacientes, como conversar dando apoio emocional, sendo solidária com seus temores e suas preocupações.
Para o desenvolvimento da atividade de leitura, os materiais eram transportados em uma caixa até o hall da unidade de internação, onde ficavam à disposição dos pacientes para escolha do material desejado. Para aqueles que não podiam deambular, o material era levado até eles. Como forma de incentivar a prática de leitura, deixava-se material, como jornais e revistas com os pacientes, sob forma de empréstimo.
O primeiro contato com a população do estudo aconteceu após ser realizado levantamento dos sujeitos da pesquisa, através do relatório de pacientes internados e do Histórico de Enfermagem, que depois de selecionados, eram entrevistados com o objetivo de serem caracterizados por: idade, sexo, escolaridade, profissão, gosto pela leitura, tipo de leitura preferida quanto à forma e gênero, como ocupava o tempo dentro do hospital e a aceitação em participar do estudo (APÊNDICE B). Assim, foi possível levantar dados para a implementação da Biblioterapia.
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Antes de o paciente receber alta hospitalar, era aplicada uma segunda entrevista, com o objetivo de avaliar a atividade executada e o interesse pela implantação de um programa de Biblioterapia (APÊNDICE C). Foi considerado importante solicitar o parecer de todos que participaram do estudo, a fim de avaliar se cada paciente teve a compreensão da importância da Biblioterapia.
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5- A PRÁTICA BIBLIOTERAPÊUTICA
“O amor à leitura permite que o homem troque os momentos monótonos da vida, que vêm a todos nós, por momentos de prazer”. (Montesquieu, 1689-1755)
5.1 Entrevistas
Foi traçado o perfil dos pacientes que participaram do estudo, no qual variáveis como sexo, idade, escolaridade, entre outros foram pesquisadas e apresentadas em forma de gráficos.
Gráfico 1: Faixa Etária.
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Fim de Gráfico
A faixa etária que apresentou maior incidência foi de 31 a 40 anos e 41 a 50 anos com 33% e 32%, respectivamente, seguidos de 21 a 30 anos com 26% e 18 a 20 anos com 9%.
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Gráfico 2 – Sexo.
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Fim de Gráfico
Em relação ao sexo, 57% pertencem ao masculino e 43% ao feminino. Essa predominância do sexo masculino está ligada ao fato de que a CMM possui duas unidades de internação com capacidade para trinta pacientes cada uma, o que soma um total de sessenta leitos; já a CMF tem apenas uma unidade de internação com capacidade para trinta pacientes, ou seja, a CMM tem uma capacidade de leitos 100% maior que a CMF.
Gráfico 3: Estado civil.
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Fim de Gráfico
O estado civil com resultado mais representativo foi o casado, com 59%, seguido do solteiro, 30%, e separado, 11%. Este resultado está relacionado à faixa etária predominante que
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é de 31 a 40 anos, idade em que as pessoas, de modo geral, já constituíram família.
Gráfico 4: Profissão.
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Fim de Gráfico
O universo profissional é bastante diversificado. No seu conjunto, os grupos profissionais prevalecentes foram: outras profissões 68%, do lar 15%, motorista 11% e doméstica 6%. Em outras profissões estão, dentre outras: jardineiro, pintor, camareira, faxineira e costureira. Observa-se que as atividades desenvolvidas estão relacionadas à baixa escolaridade, ou seja, são as que não exigem formação acadêmica.
Gráfico 5: Escolaridade.
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