Estrutura de um projeto de dissertaçÃO



Baixar 75 Kb.
Página1/4
Encontro20.11.2019
Tamanho75 Kb.
  1   2   3   4

A IMPORTÂNCIA DAS EMOÇÕES ANIMAIS NA TEORIA DA MENTE

EM CHARLES DARWIN - OBSERVAÇÕES PRELIMINARES

André Luis de Lima Carvalho1
Introdução: O Conceito de Mente e a Revolução Darwiniana

O conceito de mente constitui matéria de pauta de infindáveis debates filosóficos e científicos, nos mais diversos ramos das ciências humanas, naturais e da saúde. O período moderno, especialmente na voz de René Descartes, assinala o coroamento da concepção da mente como marca da singularidade humana, do homem como único portador de uma mente racional, em oposição aos animais, meros autômatos biológicos desprovidos de mente, com os quais o homem só compartilharia seu corpo físico, sujeito às leis mecânicas.



O cartesianismo foi alvo de fortes críticas e exerceu profundas influências até a metade do século XIX. Mas a partir da publicação de Origin of Species, por Charles Darwin em 1859, operou-se profunda e revolucionária transformação na percepção do lugar do homem no mundo natural. Retirando do homem seu status especial de criatura única dotada de alma imortal, e nivelando-o com os demais seres vivos como apenas mais um ator no palco do drama evolutivo, o darwinismo substituía a explicação teológica pela naturalística (Mayr, 1998; Bowler, 1989). Após acirrados e prolongados debates entre darwinistas e seus opositores, a teoria darwiniana foi ganhando terreno, e a evolução tornou-se tema central no pensamento biológico. Mas foi uma conquista gradual, marcada por diversas disputas teóricas. Alvar Ellegard (1990) relata as várias frentes de debate entre os darwinistas e seus opositores, adeptos da teologia natural, e mostra como os últimos eram obrigados a ceder e reformular suas teses na medida em que os partidários de Darwin reuniam argumentos e evidências em prol da evolução. O acúmulo de descobertas fósseis forçou os criacionistas a abrir mão da perspectiva fixista, e admitir como fato a evolução das espécies. O passo seguinte desse debate envolvia uma questão crucial: a origem do homem e sua inserção no reino animal. Esse tema constituía capítulo à parte, pela ameaça que representava às concepções religiosas vigentes na vida social da Inglaterra vitoriana.
A Teoria da Origem Comum e a Questão da Mente Humana

Numa discussão conceitual, Ernst Mayr (1998) defende ser mais adequado falar em duas revoluções darwinianas1. A segunda delas é a teoria da seleção natural, mas a primeira revolução darwiniana corresponderia à teoria da origem comum (‘common descent’) de todos os seres vivos a partir de um único ancestral primitivo. Mas dentro do universo de autores darwinistas não foi Darwin o primeiro a fazer uma defesa mais direta de uma origem comum entre homem e animais. Disso incumbiu-se um aliado seu. Com a publicação, em 1863, de Man’s Place in Nature, Thomas Huxley (2001) declara de forma explícita o que Darwin não havia senão insinuado no Origin: o íntimo parentesco entre o homem e os grandes primatas, que partilhariam uma herança biológica comum (Bowler, 1989). Mas, como aponta Ellegard (1990), os adversários do darwinismo não desistiam facilmente; recuavam de suas posições ou as reformulavam em novas bases à medida que suas teses se tornavam insustentáveis dentro da comunidade científica. Uma vez que Huxley concentrara seu foco na anatomia comparada, a linha argumentativa de seu discurso em Man’s Place dizia respeito unicamente a estruturas físicas. Assim, muitos anti-darwinistas passaram a admitir a continuidade física entre animais e homem, mas não a continuidade mental. Mesmo dentro do núcleo de darwinistas, o próprio Alfred Wallace - co-autor junto a Darwin da teoria da seleção natural - defendia que a teoria da seleção natural era suficiente para explicar o comportamento animal, mas não a inteligência humana, que exigia uma explicação sobrenatural (Wallace, 1870). Como instância mais diretamente relacionada à alma e aos valores morais e religiosos, a mente humana restava, assim, como última cidadela sitiada pelos incessantes bombardeios evolucionistas. E redobrados foram os esforços para salvar a mente das ameaçadoras garras do darwinismo e das perturbadoras implicações filosóficas de seus postulados. Sendo a mente a morada da consciência, reivindicada por teólogos como seara exclusiva do dogma cristão, não caberia à ciência gerar questionamentos capazes de abalar os alicerces da teologia então vigente.

Mas o embate, embora adiado, foi inevitável, e em 1871 o próprio Darwin publicou The Descent of Man and Selection in Relation to Sex, obra que reunia argumentos em reforço da noção da continuidade entre as mentes animal e humana. Ao longo de todo o texto do Descent Darwin apresenta incontáveis argumentos e evidências de que diversas espécies animais são possuidoras, em maior ou menor grau, da maioria das faculdades mentais consideradas por muitos como exclusivas da espécie humana. Darwin enfatiza que reconhece as imensas diferenças entre o homem e os outros animais - na evolução cultural e tecnológica, processo civilizatório, complexidade moral. Mas como tenaz defensor do ‘princípio de continuidade’ (resumido na frase “a natureza não dá saltos”), afirma que essa diferença não é de tipo, mas meramente uma (significativa) diferença de grau.


Mente Animal em Darwin na Visão de Robert Richards

Em artigo historiográfico publicado na década de 1980, Burkhardt (1985) apontava que os pensamentos de Darwin sobre o comportamento permaneciam relativamente inexplorados, e explorava os prováveis motivos desse fato. Mas tal lacuna foi em grande parte preenchida com a publicação de Darwin and The Emergence of Evolutionary Theories of Mind and Behavior, de Robert Richards (1989). Nessa ampla revisão sobre o papel das teorias da mente e comportamento no programa de pesquisa darwinista, Richards elegeu para sua discussão sobre o papel e desenvolvimento das teorias darwinistas da mente e comportamento três temas: o instinto, a razão e a moral, pois - sustenta o autor - são esses os três aspectos ligados às questões da mente e comportamento que recebem maior destaque na obra de Darwin e seus contemporâneos.

A obra supracitada de Richards conta 700 páginas, mais o prefácio. Dessas 700 páginas, 627 são de texto corrido, distribuídas em 12 capítulos e dois apêndices. O autor discute à exaustão o papel dos três tópicos por ele escolhidos (instinto, razão e moral) nas teorias de Darwin, Wallace, Spencer e outros autores implicados no programa darwinista. O estudo da mente humana e animal, no entanto, inclui um aspecto importante que o autor mal toca: a questão das emoções. No índice remissivo do livro de Richards, o termo emotions remete a apenas 8 páginas, dentre as quais apenas 5 dizem respeito a Darwin, comparando as teses deste às de Charles Bell a respeito da expressão das emoções. Ou seja, de um total de 627 páginas escritas, o autor dedicou menos de 4 (0,64 %) à visão específica de Darwin a respeito das emoções. A análise de Richards do papel das emoções na teorização de Darwin sobre mente e comportamento é focada basicamente na obra The Expression of The Emotions in Man and Animals (Darwin, 1998), publicada em 1872, um ano depois do Descent. Richards comenta que o Expression fora originalmente concebido como parte do próprio texto do Descent, mas por motivos práticos e estratégicos Darwin optara por lançar esse texto em volume independente. Richards faz uma breve descrição dos três princípios de expressão emocional enumerados por Darwin no Expression, demonstrando que na teoria darwiniana essas formas de expressão emocional seriam instintos adquiridos meramente pela força do hábito. Assim, comparando a teoria de Darwin à dos cientistas atuais, afirma que “enquanto os etologistas modernos atribuem às expressões dos animais funções comunicativas vitais, Darwin negava que as respostas emocionais tivessem qualquer uso que fosse, motivo pelo qual ele não invocou a seleção natural para explicá-las” (Richards, 1989, p. 230). Com esse raciocínio, parece considerar justificada sua decisão (que não chega a ser assim explicitada) de deixar de lado a questão das emoções na discussão das teorias de Darwin sobre mente e comportamento.



Embora Richards demonstre vasto conhecimento da obra de Darwin, penso que fechar uma análise e definir uma posição (como parece fazer esse autor) sobre a importância das emoções no discurso de Darwin baseado unicamente no Expression talvez resulte num empreendimento incompleto. Janet Browne, num artigo no qual analisa o Expression, aponta que o objetivo básico desse livro (Darwin,1998) era “demonstrar que até mesmo as características mais ‘humanas’ eram, em sua raiz, derivadas dos animais”. Por isso, continua a autora, “a chave para o Expression é encará-lo como uma continuação do Descent.”. Afirma que “é essencial ler um volume depois do outro para compreender qual é realmente o ponto central de seus argumentos, pois muito do que aparece no Expression é apenas resumido no Descent, e vice-versa”. (Browne, 1985, p. 309). Cabe aqui a questão: desempenhariam as emoções papel tão secundário na teoria darwiniana quanto nos sugere a leitura de Richards? Meu objetivo é que ao fim desse artigo o leitor esteja convencido do contrário.
Emoções na Obra de Darwin: O Expression e o Descent

Para uma análise da questão das emoções na obra de Darwin, comecemos pelo Expression. Esse volume é dedicado a estabelecer o que Darwin chamou de ‘princípios gerais de expressão’ (Darwin, 1998). Descrever ou discutir tais princípios fugiria ao escopo desse trabalho. O que importa para nós aqui a respeito dessa obra é que Darwin defende que tais princípios de expressão seriam partilhados pelos ditos animais superiores, incluido o homem. Quero salientar, porém, que o foco do Expression - como sugere o título - não são as emoções em si, e sim uma análise comparativa das expressões emocionais.
Analisemos agora o Descent, publicado um ano antes. Os capítulos 3 e 4 - os mais relevantes quanto à discussão das emoções animais e humanas - são ambos intitulados Comparison of the Mental Powers of Man and the Lower Animals. Logo no início do capítulo 3, Darwin explica que seu objetivo neste é “demonstrar que não há qualquer diferença fundamental entre o homem e os animais superiores em suas faculdades mentais” (Darwin, 1998a, p. 67). Nesses dois capítulos Darwin lista inúmeras faculdades mentais, muitas das quais nomeia como emocionais, conforme veremos no estudo de caso.
Emoções Humanas e Animais na Inglaterra Vitoriana: o Cão como Estudo de Caso

A questão das emoções tem uma relação histórica com uma questão ética: a atitude do homem para com os animais. E aqui importam tanto as emoções que os homens experimentam em relação aos animais quanto às emoções que os próprios animais vivenciam. Keith Thomas (2001) declara que “a metade do século XVIII presenciou um culto da sensibilidade, uma voga das lágrimas (...) e na relação com os animais “esse novo modo de pensar pressupunha que o importante eram os sentimentos da criatura sofrente, não a sua inteligência ou capacidade moral.” (p. 210). Essa discussão conquistava dimensões e fóruns cada vez mais amplos: “em seu discurso de jubileu, em 1887, a rainha Vitória notou (...)‘com sincero prazer, a expansão de sentimentos mais humanos para com os animais inferiores’” (p. 178). A respeito da publicação do Descent, já em 1871, Thomas comenta que “não é demasiado ver [no Descent] (...) a influência de uma longa tradição de histórias de classe média sobre a sagacidade e o caráter animais” (p. 169).

Thomas chama, porém, atenção para o fato de que essa mentalidade e atitude de maior sensibilidade na lida com os animais era característica das classes mais privilegiadas: “por trás da evidente distinção de classes havia uma fronteira muito nítida entre as sensibilidades. (...) A maioria dos trabalhadores continuava a considerar os animais de uma perspectiva funcional, em que não entrava sentimento” (Thomas, 2001, p. 223). E mesmo nas classes médias havia “espécies privilegiadas”: o cavalo, o falcão, certas aves silvestres, o gato, o cão. Dentre esses animais havia um predileto: “O cão era o preferido de todos os animais. Havia cães por toda a parte na Inglaterra do início dos tempos modernos.” (p. 122). Os “alicerces dessa obsessão pelos cães” foram lançados no princípio do período moderno: “No século XVIII o cão já era geralmente conhecido como ‘o mais inteligente de todos os quadrúpedes conhecidos’, e louvado como o mais fidedigno e a companhia mais humilde do homem” (...) Houve também uma tendência acentuada a encarar o cão como símbolo nacional.” (p. 130). Mas “a publicação de obras sentimentais sobre os cães só começou no século XIX”, período de ascensão das exposições caninas e fundação do Kennel Club (p. 130). A predileção aristocrática pelo cão se vê no provérbio: “não pode ser fidalgo quem não ama um cão” (Thomas, 2001, p. 124).

Não parece ter sido pequena a influência dessa mentalidade sobre Charles Darwin. No Expression são abundantes as referências ao cão, e há várias pranchas com gravuras de cães em diferentes posturas para ilustrar os ‘princípios gerais de expressão’ por ele concebidos. Também no Descent Darwin faz inúmeras alusões ao cão, como exemplo da posse, pelos animais, das mais diversas faculdades mentais - muitas das quais se encaixam no rol das emocionais. No presente artigo escolhi, por isso, o cão para uma análise de caso, e adotarei aqui o método especime-tipo, adaptado por Hull (1985) da taxonomia para estudos historiográficos. Segundo esse autor, na taxonomia moderna, de orientação não-essencialista, o primeiro exemplar encontrado de uma nova espécie, por mais aberrante que pareça em comparação com os tipos morfológicos mais comumente encontrados, pode ser usado como espécime-tipo, ou seja, como referência para descrição daquela espécie. Da mesma maneira, se desejamos estudar uma comunidade científica ou um sistema conceitual, podemos escolher qualquer membro dessa comunidade ou qualquer conceito dentro de um sistema e acompanhar seu comportamento na rede de relações que estabelece. Meu espécime-tipo foi, aqui, o cão de Darwin, i.e., o cão conforme visto por esse autor. Esse cão foi analisado como portador de emoções, para análise da importância das mesmas na obra de Darwin. Observações preliminares encontram-se nas tabelas 1 e 2.

Numa análise preliminar da tabela 1, podemos listar 23 faculdades mentais atribuidas aos cães, das quais 18 (78,2%) podem ser consideradas emocionais ou emocionalmente motivadas2, contra 5 (21,8%) não-emocionais. Na tabela 2, que analisa a contestação por Darwin de aforismos a respeito da singulairdade humana, a relação se inverte: 1 faculdade emocional (14,3%) contra 6 (85,7%) não-emocionais. Somando os 30 atributos analisados nas duas tabelas para uma análise única, temos apenas no capítulo 3 do Descent 19 faculdades emocionais ( 63,3%) contra 11 não-emocionais (36,7%).




Catálogo: resources -> Anais
Anais -> Caminhos do cuidado: um relato de experiência tatiana Matias Lopes1 Josué Adilson Cruz2
Anais -> EducaçÃo permanente e estágio: desafios e reflexões isadora Rocha de Carvalho
Anais -> Violência em um serviço de saúde especializado em álcool e outras drogas
Anais -> Saúde Mental e Justiça: a construção de um espaço de acolhimento psicossocial
Anais -> Potencialidades e fragilidades da/na formação do psicólogo para atuação na Saúde Mental Coletiva: Implicações para a Atenção Psicossocial”
Anais -> O trilhar da militância: loucomotiva na construçÃo da saúde mental de sergipe
Anais -> Construção de Identidade lgbt e a Moda: diálogos possíveis para promoção em saúde
Anais -> Movimento dos trabalhadores (1978 -1985): em busca de autonomia e poder

Baixar 75 Kb.

Compartilhe com seus amigos:
  1   2   3   4




©psicod.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Universidade federal
Prefeitura municipal
santa catarina
processo seletivo
concurso público
conselho nacional
reunião ordinária
prefeitura municipal
universidade federal
ensino superior
Processo seletivo
ensino fundamental
ensino médio
terapia intensiva
Conselho nacional
minas gerais
oficial prefeitura
Curriculum vitae
Boletim oficial
seletivo simplificado
Concurso público
Universidade estadual
saúde mental
educaçÃo infantil
direitos humanos
Centro universitário
educaçÃo física
Poder judiciário
saúde conselho
santa maria
assistência social
Excelentíssimo senhor
Atividade estruturada
Conselho regional
ensino aprendizagem
ciências humanas
políticas públicas
ResoluçÃo consepe
outras providências
secretaria municipal
catarina prefeitura
recursos humanos
Dispõe sobre
Conselho municipal
Colégio estadual
consentimento livre
psicologia programa
ministério público
conselho estadual
público federal
Serviço público