Estrelas Mudam de Lugar



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Estrelas Mudam de Lugar

Número do registro 54650


De

Ricelli Dias

Drama profundo de uma família e seus problemas do dia-a-dia. Ricelli é um garoto de 22 anos que sofre de depressão profunda. É infeliz, vive na maioria das vezes sozinho, as únicas pessoas com quem pode contar é sua mãe e sua irmã. Não se dá bem com o pai e nem com o irmão. Tudo que Ricelli deseja em sua vida é se livrar do sofrimento que é a sua vida.

Adaptação do roteiro Estrela Imaginária.

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Algumas pessoas já nascem ferradas na vida, vieram e vêm ao mundo somente para sofrerem e se darem mal. Você saca e sabe isso deste o início que, você é diferente das demais pessoas que estão ao redor, e a vida já deixa isto bastante claro com alguns acontecimentos que acontecem desde quando você sai de dentro da barriga de sua mãe. Mas para onde quer que você vá ou esteja não há jeito de fugir, fugir não sei de quê; talvez, fugir da vida, de você mesmo. Você quer, tenta fugir, mas não consegue fugir de você mesmo. A única solução que encontra é acabar de vez com tudo, o que aplica acabar consigo mesmo. O que para alguns é loucura e para outros é fraqueza! A fraqueza, para essas pessoas, significa acabar com a sua própria vida, pois para elas, você não lutou. O que adianta viver se você nunca atingirá a vitória? A única coisa que conseguirá é exaustão e cansaço! Cansaço de ser você mesmo.



É paralisante a dor de odiar a si mesmo, tudo que você mais quer e deseja e fugir de você mesmo, mas não adianta porque para onde você for algo te perseguirá sempre, você nunca conseguirá de se livrar deste algo que te persegue, e isso, vira um tormento na sua vida medíocre e amarga.
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Para os outros é tão simples. O que é tão simples para eles, de ser resolver, não é simples para alguns, é uma batalha interminável, pois na verdade a sua vida não é vida é um castigo tão grande do qual nunca conseguirá fugir e deixar de sentir. Você tenta, tenta, se enche de esperança, mas o que você consegue é só sofrimento, aborrecimento e dor. Tudo que você consegue e não deseja é se foder. Você procura sair, de qualquer maneira, do inferno do qual está vivendo porque só vê a escuridão no seu caminho e mais nada, mas não consegue de jeito nenhum se livrar.

Você luta, luta, tenta, tenta! Vê a luz no fim do túnel, se alegra e pensa que, finalmente chegou a sua hora de vencer, que chegou a sua hora de ser feliz e viver em paz consigo mesmo, mas a vida se encarrega de lhe dar mais um empurrão derrubando-o no chão mostrando que o seu momento nunca chegará. Você volta a lutar, lutar e lutar! Persistir e insistir, é derrubado de novo; luta, luta, persiste e insiste e é trapaceado de novo, se levanta e leva mais um tombo; se levanta e mais uma vez é derrubado. Você continua levantando e levando a sua vida como Deus determinou, e aceitando o fato que, você é um erro tão grande nesta vida, e que Deus errou ao pô-lo no mundo. Mesmo assim, você tenta viver a vida, da melhor maneira possível, cheio de esperança no peito

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enfrentando com o nariz em pé todas as dificuldades que a vida lhe impuser porque sabe que esta dificuldade já existe em seu caminho, e, é a sua vida que é um peso enorme de se carregar. Você se sente sozinho, abandonado e ser revolta; mas se revoltar é pior.

Chega um momento que você cansa. Cansa de tudo, de lutar, de persistir, de insistir! Cansa de continuar lutando por algo que nunca alcançará que é em vão; que mesmo as pessoas lhe dizendo palavras bonitas de conforto e consolo falando que "A vida é bela", você sabe no fundo, no fundo do peito e da alma que você nasceu pra se foder. Chega o momento que você se revolta por existir, odeia a si mesmo; mas não adianta! Você só está cumprindo e desempenhando o seu papel na vida, que é se dar mal pra sempre. Mas você não aceita o fato e procura fugir de si mesmo, procurar uma saída, uma solução e quando você acha a solução, faz a solução com tuas próprias mãos, ainda é julgado e condenado pelas pessoas que julgam sua atitude errada. E, é errado por quê? Porque você não quis viver a vida inteira num sofrimento interminável que é a sua própria vida? É errado por que você

interrompeu seu sofrimento antes que Deus interrompesse? Mas que interromperia depois que você estivesse bem velho e tivesse sofrido muito por vários longos e intermináveis anos, depois que

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você já se sente há anos um nada, um fracassado e está massacrado, esmagado aos 70 anos, e ainda, para interromper seu sofrimento Ele lhe manda outro sofrimento trazendo-lhe uma doença incurável como câncer que te come aos poucos e o faz definhar até a morte. Enquanto ladrões, bandidos e malandros que roubam, matam e aterrorizam gente boa nem sequer sofre nada, sente nada; nem ao menos tem uma doença que lhe tire o sossego, e eles ainda, se sentem os invencíveis, os inatingíveis porque nada lhes acontece, só pra pessoas que agiram corretamente a vida toda. É foda viver a minha vida, a sua vida!

Disse Ricelli, escrevendo em seu caderno em cima do telhado de sua casa. Ricelli é um garoto negro de 22 anos supercomplexado, sofre muito na vida. Tem depressão profunda, na maioria do tempo se sente infeliz. É sozinho, solitário, sente-se diferente da maioria das pessoas. Ricelli sofre muito, pois a única pessoa com quem pode contar é sua mãe, seu pai não o trata bem prefere o outro filho Vinícius Luciano, branco 25 anos, sua adoração. Ricelli também não se dá bem com o irmão e sofre por saber da preferência do pai pelos irmãos, também tem uma irmã mais velha com quem se dá bem. É uma família típica brasileira, não são ricos e nem pobres, alias, não muitos pobres, mas, não é uma

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família unida. O casamento de seus pais está em crise e piora quando Ricelli mostra toda a sua revolta, não porque quer mostrar a sua revolta, mas porque essas revoltas são incontroláveis de se agüentar, de guardar para si mesmo. Sempre quando, Ricelli tinha uma explosão apanhava de seu pai, seu pai não entendia que essa explosão do qual expunha não era apenas agressividade, mas era por causa da profunda depressão que sentia. Ricelli sabia que aquelas explosões lhe faziam mal, pois acarretava numa série de discussões em sua família, mas que Ricelli não podia controlar essas explosões, entrava em crise, crise consigo mesmo. E quando o seu pai lhe batia por essas crises incontroláveis só piorava as coisas em sua cabeça. Ricelli se revoltava mais ainda e, era uma grande agonia para ele viver nesta agonia que parecia interminável. Ricelli vivia no seu mundo, no seu mundo onde ninguém podia entrar só ele mesmo, pois ele se achava diferente das demais pessoas.

Ricelli estava sentado na varanda de sua casa olhando para fora, sua mãe Maria chegou e se aproximou dele, sua mãe sentou ao lado dele e começou a conversar com ele.

_Por que o meu pai não gosta de mim, mãe?_ Perguntou Ricelli para sua mãe.

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_Que isso, Ricelli? Lógico que seu pai gosta de você. Ele te ama, você é o filho dele. _ Respondeu, Maria.

_Mas não é isso que ele demonstra. Ele gosta mais do meu irmão, ele prefere mais o Vinícius Luciano. _ Disse Ricelli para Maria.

_Ele não gosta de mim, mãe. _ Afirmou Ricelli para sua mãe. Maria chorando em silêncio o abraça.

Era noite quando Ricelli estava deitado no sofá da sala e seu pai se aproximou para sentar no sofá e com agressividade seu pai lhe pediu para que ele se levantasse daquele sofá. Ricelli perguntou para o pai como ele tinha ido no trabalho, seu pai não respondeu nada e disse para ele sumir dali. Ricelli sai da sala triste e quando chega ao quarto começa a chorar muito.

Ricelli se aproxima da janela e começa a olhar para o céu, para as estrelas.

_Por que o meu pai não gosta de mim, por quê? O que eu fiz? Se eu não tivesse sofrido aquele acidente a minha vida seria outra, eu seria outra pessoa. _Perguntou Ricelli, supertriste e com lágrimas nos olhos.

Sempre quando Ricelli conversava com o seu pai, ele lhe deixava transparecer sua afeição por Vinícius Luciano, o que

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causava em Ricelli uma enorme tristeza. Ricelli se fechava para o mundo, ficava isolado no seu quarto pensando e sofrendo calado quando alguma divergência acontecia. Ricelli tinha brigado na escola e estava muito triste porque não conseguiu bater no garoto que mexeu com ele, naquele dia Ricelli trancou-se no seu quarto nem desceu para jantar com a família. D. Maria põe a mesa do jantar reunindo o resto da família formado por Otávio, o seu marido e os filhos Vinícius Luciano e Márcia Eduarda que é a mais piradinha da família, e também na mesa está Daniel namorado de Márcia Eduarda.

_Onde está o seu irmão, Márcia Eduarda? _Perguntou Maria.

_Não sei. O Vinícius é que deve saber. _Respondeu Márcia Eduarda.

_Eu não sei de nada não. Ele passou o dia todo trancado no quarto, eu tive que esmurrar a porta para que ele abrisse. Quando desci, ele estava no banho. _ Disse Vinícius Luciano.

_O que será que está acontecendo com este menino? Parece doente. _ Exclamou, Otávio.

_Parece? Ele é doente. _ Ironizou, Vinícius Luciano. Maria lança um olhar de desaprovação para Vinícius Luciano.

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_Será que aconteceu alguma coisa? _Perguntou Maria.



_Não. Não aconteceu nada não. O que poderia acontecer para ele?_ Respondeu Otávio.

_Deve estar descascando a banana. Ou melhor, batendo uma punheta para aliviar a tensão. _Disse Vinícius Luciano ironizando.

_Eu não gosto de quando vocês fazem assim, falam assim. Não dá para suportar! _ Exclamou Maria, que bate na mesa.

_O que foi mulher?

_Você parece nem ligar para o Ricelli, você nem se mostra nenhum pouco preocupado com ele. Que droga! Ele também é seu filho.
_O que você quer que eu faça? Ele já é um homem. Eu não vou me preocupar com marmanjão não. _ Exclamou Otávio.

_Por isso que ele fica revoltado. E quando ele se revolta você ainda bate nele. Por quê? _ Perguntou Maria.

_Agora a culpa é minha se ele é um doente? _ Perguntou Otávio.

_Nunca mais repita isso, entendeu! Nunca mais! _ Falou Maria, em um tom agressivo, de raiva. Maria se levanta da mesa.

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_Que droga! Vocês não são nenhum pouco compreensíveis com ele. Ele não é nenhum doente não! Ele só tem problemas como todo mundo tem. Ele é depressivo e vocês só agravam a situação, não o ajudam. Por quê? _Perguntou Maria.

_Ele é esquisito mesmo. Você tem certeza, mãe, que ele não foi trocado na maternidade não? _ Perguntou Vinicius Luciano em tom de deboche. Maria irritada bate na mesa.

_Vocês são uns merdas! Uns merdas! Quem vocês pensam que são para falar assim dele? Vocês não são melhores que ele não! Vocês não ligam para o Ricelli, debocham dele, humilham ele, o desprezam. Por isso ele é assim, se sente desprezado por vocês. Que raiva, que ódio vocês me dão!

Vocês se acham melhor do que ele. Que merda!... Desculpe, Daniel!_ Maria sai da mesa.

_Tudo bem! _ Falou Daniel, meio que incomodado com a situação.

_O que deu na sua mãe? _Perguntou Otávio para Márcia Eduarda.

_Ela tem razão, vocês nem ligam para ele. Como pode? Ele também é seu filho, pai. Coitado! Não merecem isso! _Respondeu Márcia Eduarda.
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_As mulheres desta casa fazendo drama à toa. Vamos jantar em paz! _Disse Otávio.

Ricelli está no banheiro totalmente nu sentado sobre o vaso chorando muito, Maria entra no banheiro se aproximando dele.

_Como dói, meu Deus? Por que essa dor não passa? Por quê? _ Perguntou Ricelli a si mesmo, chorando. Maria entra no banheiro.

_Meu filho, o que você está fazendo sentado aí?

_Mãe, eu quero morrer. Eu quero morrer!

_Ô meu filho, não fala isto nem brincando. Eu te amo muito e te perder me deixaria muito triste. _ Maria ajoelha-se no chão perante Ricelli e o abraça.

_Só você que me ama, mãe! Só você.

_Não, meu filho. Muitas pessoas te amam também. Por que você quer morrer, meu filho? _ Perguntou Maria para ele.

_Porque eu não aguento mais esta dor, essa imensa dor que está em meu peito. Esta dor nunca vai passar, nunca me deixará de me atormentar. Só com a morte eu me libertarei. Eu não sou feliz, mãe. _ Disse Ricelli para sua mãe. Ao ouvir o que ele disse Maria começa a chorar silenciosamente.
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Depois, Maria vai para o quarto e comenta com Otávio que tem que levá-lo ao médico, Otávio diz que está tudo bem que ele não tem nada que ele é normal igual ao Vinícius Luciano.

_Acho que as pessoas não entendem porque são burras, ignorantes. Não é só por que as pessoas têm pernas e braços que isso faz delas normais iguais as outras pessoas. Cada pessoa é cada pessoa mesmo tendo braço e perna o que é normal de se ter, o que as diferenciam uma das outras é muito mais que ter braço e perna. Se uma pessoa é aleijada, anda em cadeira de rodas quando a vemos de imediato percebemos que ela é diferente por causa do problema físico. O que quero dizer é que o problema do Ricelli vai além disso, é profundo. É na alma! _ Afirmou Maria para o marido Otávio.

Os dias passam e Ricelli cada vez mais se tranca no quarto se isolando do mundo nem consegue mais sair por falta de ânimo, de coragem. Sua mãe lhe questiona por ele não sair, se trancar sempre no quarto. Ricelli diz que tem vergonha dele mesmo, pois já tem 22 anos e nem trabalha como os garotos de sua idade, não sai e nem namora. Ricelli está sentado na beira da calçada quando passa por ele Daniel, apesar de Daniel ser o namorado de sua irmã,
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Daniel e Ricelli se dão bem. Ricelli confessa para Daniel que gostaria de ter outra vida.

_Por que você fala assim? _ Perguntou Daniel.

_Porque eu sou assim. Não adianta as pessoas tentarem omitir, falar que não, mas eu sei do fundo da minha alma que eu não sou normal igual às outras pessoas. Se eu fosse normal eu não estaria aqui te falando o que sinto. _Falou Ricelli.

_Que isso, cara! Você é que se acha assim, ninguém te acha assim. Você é legal, bacana.

_Eu queria fumar crack. Você consegue para mim? _ Perguntou Ricelli.

_Fala sério, Ricelli! Eu não sei nem onde arruma essas coisas. Tira essa ideia de sua cabeça, cara! Droga não é uma coisa legal para ninguém. Droga não leva a lugar nenhum, só a destruição.

_Mesmo se eu fumar eu não vou me destruir, pois já estou destruído há muito tempo. _ Afirmou Ricelli para ele.

Daniel ficou muito surpreso com o que Ricelli lhe disse que nem contou para Márcia o que seu irmão tinha lhe pedido.

_Às vezes seu irmão tem cada ideia. _Falou Daniel.

_Qual deles? _ Perguntou Márcia Eduarda.


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_O Ricelli. _Afirmou Daniel.

_Por que você fala isto? Ele te disse alguma coisa.

_Eu nem sei te conto a parada que ele me pediu.

_Fala aí!

_Ele me pediu uma pedra de crack.

_Sério. O meu irmão nunca foi disso. Por que ele quer uma pedra de crack?

_Para ficar doidão. É o mais óbvio! _ Disse Daniel.

_Coitado do meu irmão! Vou ter que trocar umas idéias com ele. _ Disse Márcia Eduarda.

Maria estava pensando muito no seu casamento, nas coisas que estavam acontecendo na sua família. Maria chama Otávio para conversar, mas ele foge da conversa dizendo que estava muito cansado e que não queria conversar. Maria pede para Otávio arranjar um trabalho para Ricelli na fabrica onde trabalha, Otávio rejeita a ideia, mas com muito custo aceita a ideia.

No dia seguinte, Otávio sonda alguns dos encarregados da fabrica para ver se tinha uma vaga onde encaixava Ricelli para trabalhar. Quando chegou em casa foi ao quarto de Ricelli dizer-lhe a notícia. Ricelli estava sentado na beirada da janela olhando fixamente para fora quando seu pai entrou no quarto se aproximando dele.

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_Por que você só fica aí? _Perguntou Otávio.

_Porque eu gosto. Sabia que as Estrelas mudam de lugar?

_Sabia. Tenho uma notícia para você.

_Qual?_ Curioso em saber, perguntou Ricelli.

_Vou levá-lo amanhã para trabalhar comigo. Vai ser legal você trabalhar comigo! Assim você arruma uma ocupação e para de pensar em besteira. _ Falou Otávio.

_Será que é besteira mesmo, pai?

_Esteja pronto às seis horas da manhã. Não vou vim no quarto chamá-lo. _Falou Otávio, saindo para dentro da casa.

Otávio acabou de falar e sai do quarto. Ricelli olha para o lado de fora, pensa. Sai da janela, se aproxima do aparelho do som e coloca um Cd de músicas lentas, o aparelho de som começa a tocar a música Stay on these roads. Ricelli volta para a janela onde senta-se novamente e começa a chorar.

Ricelli ficou na janela por horas até o Cd todo acabar de passar todas as músicas, depois foi para a cama onde dormiu muito. Ricelli levantou cinco e meia da manhã e arrumou para ir ao trabalho junto do pai. Maria ficou feliz por Ricelli começar a trabalhar assim ele ocupa a mente e não pensa mais nas coisas das quais ele pensava o dia todo pensando.

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Ricelli passou o dia inteiro trabalhando até tudo mudar e atrapalhar os planos de sua mãe. Um rapaz se aproximou dele zoando, brincando com ele por ele ter deixado passar uma peça de automóvel errada, Ricelli se irritou com aquilo tudo e teve uma crise nervosa, ficou gritando e derrubou tudo no chão. O encarregado teve que intervir chamando Otávio para acalmá-lo e disse que não daria para ele continuar trabalhando na empresa. Otávio ficou com muita raiva de Ricelli. Ricelli estava no vestiário trocando de roupa quando Otávio se aproximou dele.

_Viu só o que você fez? Eu sabia que não deveria ter trago você para trabalhar aqui. Me fez passar a maior vergonha! Você não te jeito não. _ Reclamou Otávio. Ricelli fica sentido ao ouvir as palavras duras do pai.

_Azar tá! Azar! Eu já estou cansado de tudo. _ Gritou Ricelli.

_Azar o caralho! Quando é que você vai virar homem e vai parar de dar chiliques, seu chiliqueiro?

_Eu sou homem.

_É nada. Fica aí como mulherzinha dando chiliques para qualquer coisa. Isso não é coisa de homem.

_Fodas se não é. Eu não pedi para Deus para ser assim. Eu não tô nem aí! Eu não tô nem aí! Eu só quero ir embora desta bosta

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logo de uma vez. Eu nunca mais vou voltar aqui. Nunca mais quero voltar nesta bosta!_ Exclamou, Ricelli gritando.

Ricelli e Otávio chegam em casa discutindo, Maria estranha deles estarem chegando mais cedo em casa, Otávio conta para Maria o que houve na firma em que ele trabalha. Otávio xinga muito Ricelli por ele te o feito passar uma vergonha em pleno serviço. Ricelli mais uma vez explode.

_Não tô nem aí! Eu não tô nem aí! Deus quer que eu me foda então, que seja feita a sua vontade. Deus quer que eu seja assim! Ele quer que eu me foda por isso, eu tudo aquilo aconteceu. Eu não sou feliz, eu não sou. Eu odeio esta vida, eu odeio. _ Diz Ricelli, gritando. Ricelli sobe para o quarto falando bem alto. Maria desaprova o que Otávio fez.

_Não Otávio, as coisa não podem ser assim! Você tem que entendê-lo e não brigar com ele. Você sabe que ele não é igual ao Vinícius Luciano, que ele tem problemas. _ Falou Maria muito brava.

_Ah! Não venha com este papo para cima de mim não! Toda vez é a mesma coisa. Qual é o problema dele? Até hoje eu não sei qual é o problema dele que você tanto fala. Ele é normal.

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_É normal fisicamente, mas por dentro é diferente. Mentalmente é diferente. Em vez você de ajudá-lo só complica as coisas. Que droga! _Falou Maria.

Maria sai da sala e vai para o quarto de Ricelli. Ricelli está no quarto chorando deitado na cama, Maria se aproxima dele.

_Filho, como é que você está? _Perguntou Maria, se aproximando dele e o abraçando.

_Eu faço tudo errado, mãe. Eu sou todo errado, mãe! _

Diz Ricelli chorando no ombro de Maria.

_Não, você não é errado, meu filho. São eles que são errados. Não fique assim, por favor! Não fique assim! Não chore, meu filho!

Otávio está na varanda fumando o seu cigarro. Maria se aproxima dele.

_Você tá fazendo mal para o nosso filho!

_Eu? _ Assustou-se Otávio.

_Eu não aguento mais o modo de como você o trata.

_Não começa, Maria! Eu trato o Ricelli superbem, afinal ele é meu filho também. Mas, às vezes não dá para agüentar. Ele vive dando chiliques. Que saco! Depois eu que sou o errado. _ Afirmou Otávio.

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Maria e Otavio começam a discutir, brigam feio. As magoas começam a aparecer, Maria diz que Otávio está muito distante dela, que eles não estão vivendo mais em harmonia como antes, que eles nem mais fazem amor como antes. Maria vai chorando para o quarto, Ricelli sente-se culpado por ver a mãe triste e vai consolá-la no quarto.

_Não precisa brigar com o meu pai por minha causa, mãe!

Disse Ricelli.

_Não foi por sua causa, mas o seu pai precisava ouvir umas verdades na cara dele. Ele só tem olhos para o Vinícius Luciano.

_Eu sei. _ Diz Ricelli.

_Ele não pode deixar você de lado. Eu não vou permitir que ele deixe você de lado. Você é filho dele também. Mas o nosso casamento não é mais o mesmo.

_Eu sinto muito, mãe, por ser assim!

_Você não tem que sentir nada. Eu te amo, meu filho.

_Eu sei mãe. Eu sei. Mas não brigue mais com o meu pai por minha causa. Eu não quero que vocês briguem por minha causa. Eu quero vê-los juntos. _ Disse Ricelli que abraçou a mãe.

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Depois de tudo que aconteceu naquele dia Ricelli sai do quarto de sua mãe e vai para o seu. Ricelli pega o seu caderno e começa a escrever mais do que escrever, desabafar no seu caderno tudo que está sentindo naquele momento:

Às pessoas acham que quando você se mata, ou melhor, se suicida você foi fraco porque não lutou, que você foi fraco porque não enfrentou os problemas, mas eu pergunto: que problemas são esses? Problemas físicos e do dia a dia são fáceis de curar, o mais difícil é quando estes problemas vêm de dentro, de dentro de sua alma. É como uma faca rasgando todo o seu interior, é uma ferida na alma que não cicatriza jamais. E você para se livrar desta ferida acaba se matando. As pessoas o julgam por isso não entendendo que a causa desta única solução encontra, morte não é o problema, mas sim, o sofrimento, a infelicidade. Do que adianta viver a vida se a gente é infeliz? Por que ninguém aceita o fato que têm pessoas que não nasceram para serem felizes e que viverão a vida inteira infelizes? As pessoas acham que só porque elas são felizes, curtem a vida intensamente, se divertem é que tem que ser igual para todo mundo. E ainda vem com o papinho clichê: “Todo mundo tem problema”. Eu sei, nós sabemos que todo mundo tem problema, mas não é isso que leva as pessoas se suicidarem, a encontrarem uma

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solução. O problema é o sofrimento, é a infelicidade. Não adianta viver sem motivação para viver, a felicidade é a motivação para viver a vida. Não adianta viver a vida sofrendo, viver triste só por que as pessoas acham que se você acabar com o seu sofrimento você é um fraco.

A vida não é perfeita para todos. Mas ninguém aceita isso! Culpam Deus quando algo dá errado na sua vida, tentam achar um culpado quando tudo dá errado na sua vida. Mas quando estão felizes nem ligam se Deus existe ou não! Mas, e quando você se dá mal desde que nasceu? De quem é a culpa? Minha? Talvez não. Talvez tenha que ser assim, talvez seja para pagar algo que você cometeu em outras vidas. A vida é uma grande incógnita que nunca saberemos decifrar o resultado exato desta incógnita.

Se você reclama da vida para alguém, do que sofreu na vida você ainda é julgado e condenado por essas pessoas que o dizem que você está se fazendo de coitadinho porque todo mundo tem problemas em suas vidas. Mas o problema não é o problema em si, vai, além disso, muito mais além de um simples problemas. É o sofrimento, o sofrimento que acaba com você aos poucos, a infelicidade. Será que e tão difícil as pessoas entenderem que não é os problemas que te cansam de viver a vida, mas sim o sofrimento.

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Quem quer viver a vida inteira infeliz, sofrendo só para agradar as famílias? Quem? Nem sempre são os problemas que trazem o sofrimento. Você já é o sofrimento em si.

Escreveu Ricelli em seu caderno.

Ricelli, Maria, Otávio, Vinícius Luciano e Márcia Eduarda estão a mesa jantando, há um enorme silêncio na mesa. Ninguém está se falando.

_Nossa, que silêncio! _Exclamou Márcia Eduarda.

_Só assim mesmo para jantarmos em paz!

_Você e o meu pai brigaram? _ Perguntou Márcia Eduarda.

_Márcia Eduarda, vamos mudar de assunto, por favor!_

Falou Maria, superincomodada com o assunto.

_Eles brigaram sim, e tudo por causa do nosso irmãozinho que vive dando trabalho. _ Disse Vinícius Luciano.

_Não enche o saco, Vinícius! Exclamou Ricelli.

_Qual é, bebê! Quando é que você vai crescer e virar homem?

_Cala boca, Vinícius! _ Ordenou Ricelli.

_Ei, vamos comer em paz! Será que não há mais tranqüilidade nesta casa? _ Falou Otávio.


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_Claro que há tranqüilidade, mas quando o Ricelli não está aqui. _Disse Vinícius Luciano na intenção de irritá-lo.

_Que saco! Por que você não me deixa em paz, hein? _ Falou Ricelli que se levanta da mesa e sai.

_Você também Vinícius Luciano. _Disse Márcia Eduarda.

_O que tem eu?

_Não perde uma oportunidade de encher o saco!

_Ele que é um fresco.

_Não fale assim do seu irmão, Vinícius! Eu não admito que você fale assim dele. Se você não quer ajudá-lo, então não enche o saco, isto também vale para você, Otávio. _ Maria se irritou.

_O que tem eu? O que tem eu? Tava demorando para você vir me encher a paciência? Eu não fiz nada para este menino. _ Disse Otávio.

_Olha só como você fala! Fala como se ele não fosse seu filho.

_Não vamos discutir de novo, por favor! Eu não estou com saco para isso.

Ricelli sai de casa transtornado e começa a andar pela rua. Ricelli senta-se na calçada onde derrama algumas lágrimas. Depois de horas naquele lugar isolado e sozinho, aproxima de Ricelli um

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menino chamado Rone. Rone é um menino moreno, de cabelos lisos de 21 anos que pergunta a ele o que ele está fazendo ali sozinho. Ricelli responde que quer ir embora daquele lugar, mas não consegue. O papo vai e o papo vem, Ricelli e Rone conversam bastante e Ricelli diz para ele que gostaria de fumar uma droga da pesada para aliviar toda a sua dor que atormenta sua cabeça e seu coração.

_Você é esquisito. _ Disse Rone para Ricelli.

_É. Eu sei que sou esquisito mesmo, todos me acham esquisito mesmo. Você não é o primeiro que me acha esquisito.

_A maneira como você fala. Parece uma maneira triste, depressiva. _ Afirmou Rone.

_Não, eu sou normal. Eu só quero me drogar, eu preciso me drogar. Consegue um bagulho para mim.

Rone retrucou dizendo que não mexe com drogas, que só experimentou algumas vezes e tenta tirar da cabeça dele esta idéia. Rone disse para ele que iria para casa de um amigo, Ricelli se ofereceu para ir com ele já que não estava a fim de voltar para casa. Rone deixou que ele o acompanhasse a casa de seu amigo. Rone e Ricelli chegam à casa do colega de Rone, Marcelo um garoto de 25 anos, seus pais estavam viajando. No início Ricelli fica meio

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encabulado de ficar no meio deles, não se entrosa ficando tímido, mas depois se solta e como sempre em todos os papos de amigos começam a falar de sexo, quando chega nesta parte Ricelli se intimida, pois nunca teve uma relação sexual. Rone e Marcelo pedem para ele falar sobre as meninas que ele já pegou o que deixa ele mais encabulado ainda. Ricelli confessa que nunca transou, os meninos riem e zoam ele. Mas Ricelli percebe que é apenas brincadeira. Marcelo diz que vai numa festa no dia anterior e os convida, Rone diz para Ricelli que se ele for à festa vai jogar algumas meninas em suas mãos e que e para ele chegar juntos nelas para finalmente perder a virgindade. Ricelli e Rone foram embora, Ricelli chegou em casa e encontrou com Daniel e Márcia Eduarda na varanda de sua casa.

_Onde você foi, mano?_ Perguntou Márcia Eduarda.

_Dando umas voltas. Com um amigo. _Respondeu Ricelli.

_Amigo, é? Nunca vi você com nenhum amigo antes. Quero saber quem é viu.

_Isso mesmo, Ricelli! Tem que sair mesmo. A vida é só uma, tem que aproveitá-la ao máximo. _Disse Daniel.

_Falô!
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Ricelli entra em casa e sobe para o quarto. Ricelli fica muito feliz com a possibilidade de ter feito um amigo. O dia amanheceu e Ricelli foi à casa dele, mas tem uma bela surpresa vê ele e uma menina transando em cima do sofá.

_Rone! Exclamou Ricelli.

_Cara, sai daqui! Sai! _Falou Rone para Ricelli assim que o vê. Ricelli sai da casa muito sentido pelo jeito como Rone falou com ele.

Ricelli, triste começa a andar pela rua onde senta-se na calçada. Ricelli começa a chorar em silêncio tentando esconder seu rosto para que ninguém perceba que ele está chorando.

_As pessoas nunca gostam de mim. Nunca! Por quê? O que eu faço, o que eu tenho que as pessoas sempre afastam de mim. Eu já estou cansado, meu Deus! Eu já me cansei, já me cansei!

Ricelli ficou nesta calçada sentado durante um bom tempo, não estava a fim de ir para casa e como não tinha nenhum amigo onde pudesse ir, Ricelli foi para pracinha onde ficou durante uma hora, sentado, no banco da praça olhando e observando as pessoas. Quando Ricelli estava indo embora, se aproxima dele Rone.

_Rone! _ Ricelli abre um sorriso.

_Qual é, cara?

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_Pensei que você não quisesse mais falar comigo. _ Disse Ricelli para Rone.

_Que isso, Cara? Àquela hora eu não poderia de dar ideia. Eu estava com uma menina naquela hora que você chegou. Nossa! Quase que a menina tinha ido embora, você quase estragou o nosso lance. _Falou Rone.

_Sinto muito! Eu estrago tudo mesmo.

Rone e Ricelli continuam conversando. Rone fala para Ricelli que ele é muito desanimado e que na festa vai querer ver ele superanimado porque menina não gosta de meninos desanimados. Ricelli vai para casa aliviado com a sensação que está tudo bem entre Rone e ele, e vai direto para o quarto onde começa a dormir. Depois de mais meia hora, acorda com Márcia Eduarda entrando no seu quarto.

_Márcia Eduarda! _Diz Ricelli assim que abre os olhos.

_Dormindo esta hora. Por quê?_ Perguntou Márcia Eduarda.

_Nada. Só cochilei!

_Estava onde? Não te vi de manhã.

_Fui dar umas voltas por ai.
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_Eu e o Daniel vamos a uma boate. Você não quer vir com a gente? _Perguntou Márcia Eduarda.

_Não. Eu vou sair.

_Sair? Olha aí! É difícil vê-lo animado para sair. Que bom! Continue assim que você chegará longe._ Fala Márcia Eduarda para Ricelli.

Quando Márcia Eduarda sai do quarto. Ricelli Diz.

_Tudo que eu mais quero é encontrar um jeito de me livrar desta vida maldita.

Caiu à noite, Ricelli se arrumou tudo e foi encontrar com Rone na sua casa, os dois foram para casa de Marcelo e de lá foram para uma festa. A festa era em um sítio do pai do amigo de Marcelo. Marcelo apresentou Rone e Ricelli para seu amigo, o amigo de Marcelo disse que era para eles aproveitarem porque a festa não acabaria tão cedo. Na verdade esta festa que estava rolando era uma rave com direito a tudo. Assim que chegou nesta festa, Ricelli se animou.

_Cadê as bebidas? Cadê?_Perguntou Ricelli.

_Já quer ficar logo de cara? _Perguntou Rone.

_Lógico. Eu vim para me divertir. Tá boa a festa, cheia de gatas!

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_Quero ver se você vai garrar alguma, hein! Estamos de olho. _Disse Rone para Ricelli.

A festa estava tão maravilhosa para Ricelli, finalmente ele estava feliz, não por beber, mas sim, por se sentir igual a todo mundo. Ricelli começou bebendo cerveja com Rone, depois foi para bebidas mais quentes. Rapidamente Ricelli ficou bêbado, mesmo bêbado continuou bebendo muito, ele estava a fim de curtir como há muito tempo não curtia.

Maria começa a ficar preocupada com o sumiço do filho que não disse para onde iria. Márcia Eduarda está no quarto com Daniel no maior amasso, D. Maria entra no quarto sem bater. Márcia Eduarda e Daniel ficam constrangidos.

_Márcia Eduarda, você viu o seu irmão? _ Perguntou D. Maria.

_Qual deles?

_O Ricelli, né.

_Saiu. Disse que iria para uma festa.

_Uma festa. Ele não é de curtir festas, de ir para festas.

_Pois é.

_Talvez agora ele passou a curtir festa. Talvez seja bom para ele, assim ele começa a se divertir. _ Falou Daniel.

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_Talvez você tenha razão, Daniel. _ Diz Maria, que sai do quarto.

_Nossa, quase que sua mãe nos flagra.

_Odeio quando ela entra no quarto sem bater. Atrapalha a minha intimidade, não só quando você está aqui. Mas agora vem cá que eu não quero perder mais nenhum minuto! _Falou Márcia Eduarda que o beija intensamente.

Maria está na varanda fumando um cigarro sentada na cadeira, Otávio está deitado na rede fumando um cigarro também, os dois não estão se falando, está um clima péssimo entre eles. Vinícius Luciano chega da rua entrando na varanda, Vinícius Luciano se aproxima de seu pai e os dois começam a conversar, a brincar um com o outro, a falar sobre mulheres. Vinícius Luciano conta que estava ficando com uma menina da rua de cima, Otávio como sempre fica entusiasmado com o que o filho lhe diz. D. Maria fica ouvindo os dois conversarem e reprovando aquela atitude de Otávio. Assim que Vinícius Luciano entra, Maria não agüenta e solta novamente.

_Queria que você fosse. _Disse Maria.

_O que foi, mulher?_ Perguntou Otávio.

_Queria que você fosse assim também com o Ricelli.

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_Ah, não, Maria! Não comece com as suas paranóias. Não comece a me encher a paciência com essas histórias que você diz só pra me fazer sentir culpado do Ricelli ser um garoto nada normal. _ Falou Otávio.

_Olha só como você fala dele! Depois não gosta que eu jogue na sua cara tudo que ele sente. Ele também sente! Você acha que ele não sente? Pois ele sente sim, sente que você prefere mais o Vinícius Luciano a ele. _Falou Maria. Sem nada para dizer Otávio fecha a cara e entra dentro de casa.

_É, foge, foge mesmo! Não tem nenhuma defesa ao seu favor._ Gritou Maria.

Ricelli estava se divertindo tanto na festa, estava bebendo muito, muito mesmo, já estava muito bêbado para lá de trêbado, não estava mais agüentando beber mesmo assim continuou acompanhando Rone e Marcelo na bebida. Neste sítio tinha muitos jovens, adolescentes que estavam curtindo ao som de música eletrônica. Marcelo tinha sumido da festa, Ricelli e Rone ficaram o procurando, mas não o encontraram. Depois de muito tempo Marcelo se aproxima deles oferecendo um ecstasy. Ricelli e Rone lhe questionaram por ele ter sumido, ele disse que tava curtindo


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uma boa no meio do mato com uma turma, Ricelli pergunta por que ele não o chamou porque também queria curtir uma boa.

_Mas, eu trouxe para vocês. Vai curtir ou não? _Diz Marcelo, mostrando o ecstasy na palma de sua mão.

_Me dá isso aqui! _ Fala Ricelli que pega o ecstasy e toma.

_Se é para curtir, então vamos curtir. _Falou Rone que também toma o ecstasy.

Em pouquíssimo tempo Ricelli e Rone já estavam curtindo o efeito do ecstasy, ficaram muito sensíveis muito mais suscetíveis àquela onda toda que estava rolando com eles. Tinha muita gente fumando droga naquela festa também, por onde Ricelli passava tinha um monte de gente se drogando, transando. Uma hora Ricelli entrou num quarto para deitar-se um pouco, mas o quarto onde ele foi tinha várias pessoas juntas fazendo sexo.

Teve uma hora que Ricelli, muito bêbado e drogado sentiu um enorme enjôo e foi para o banheiro vomitar, ele vomitou muito. Ricelli mal conseguia andar e dormiu no chão do corredor mesmo. E a festa continuou naquele sítio. O dia amanheceu, Ricelli acordou no meio do chão em volta de outras pessoas que estavam dormindo também. A festa no sítio não tinha acabado ainda tinha muita gente curtindo a festa, o volume do som da música eletrônica estava

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bastante alta. Ricelli saiu procurando por Rone, Ricelli o encontrou dormindo no sofá e o acordou.

_Vamos embora, cara?_ Perguntou Ricelli.

_Fala sério. A festa só está começando. Eu quero é agitar mais um pouco. _ Respondeu Rone.

_Nossa, acho que eu bebi demais ontem.

_Você acha? Eu tenho certeza. _ Disse Rone para Ricelli.

Ricelli e Rone continuaram no sítio, pois a festinha estava muito animada. Eles começaram a beber logo de manhã. Ricelli já estava começando a ficar mais animado e entrou no meio de uma galera que estava dançando. Como Ricelli estava muito animado devido a bebida, ele começou a conversar com uma garota com segunda intenções, primeiro ele foi conhecendo o território para depois chegar aonde queria.

_Eu quero ficar com você. Tem jeito?_ Disse Ricelli para a menina.

_Não sei._ Respondeu a menina para ele.

_Não sei não é resposta. Eu quero uma resposta definitiva.

Disse Ricelli para a menina. A menina estava indecisa, Ricelli continuou jogando ideia nela dizendo que ela era muito bonita e que gostaria de dá-lhe um beijo na boca, mas que não queria roubar o

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beijo, pois não gosta de nada forçado, que apenas a beijaria com o consentimento dela. A menina aceita ficar com Ricelli, ela percebeu que pelo jeito de falar ele era muito sensível. Os dois se beijam intensamente no meio de todo mundo, Rone e Marcelo veem eles se beijando e admite que o rapaz teve atitude do qual não esperavam. Depois de longos momentos com a menina, Ricelli vai pegar uma bebida para os dois, Rone e Marcelo aproveitam para trocar ideia com ele, e o incentivam a levar a menina para o quarto, mas antes Marcelo lhe dá dois compridos de ecstasy.

_Dê um para ela. Ela vai ficar doidona, animadinha facilitando o acesso ao corpo dela. _ Disse Marcelo para Ricelli que se anima todo.

Na casa onde Ricelli mora, sua mãe estava muito preocupada com o seu sumiço. Era sábado, todos estavam em casa. Maria falava com Otavio sobre o desaparecimento de Ricelli, mas ele nem se preocupava, muito menos Vinícius Luciano. Márcia Eduarda estava sentada no sofá com o seu namorado Daniel quando Maria passou perto deles dizendo que ia à polícia dar uma queixa de desaparecimento. Daniel disse para D. Maria esperar mais um pouco porque eles dão como desaparecimento depois de24 horas. Maria começa a chorar por desespero.

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_Eu não sei onde o meu filho está? E se alguém tiver o matado, assassinado? Ele é ingênuo, desprotegido. Não tem maldade nenhuma. Tenho medo dele ter dado mais um ataque e ter acontecido alguma coisa com ele._ Disse Maria em prantos.



Vinícius Luciano e Otávio que estavam do lado de fora jogando bola, entram dentro de casa e pergunta o que aconteceu. Maria mais uma vez briga com Otávio dizendo que ele não gosta de Ricelli, Vinícius Luciano tenta defender o pai dizendo que o irmão é um doente mental o que causa uma enorme discussão dentro de casa porque Maria não aceita que ninguém trate Ricelli desta maneira como um retardado mental.

_Ele não é retardado mental, não é. Ele é inteligente. Só precisa de compreensão e vocês não dão isso a ele, por isso ele se revolta. _Esbravejou Maria, para eles.

Ricelli e a menina já estavam sentindo e curtindo o efeito do ecstasy, estavam dançando bem coladinhos e sentindo o prazer que a droga estava lhes fazendo. Ricelli chama a menina para o quarto, ela aceita. Os dois vão para o quarto, chegando ao quarto eles encontram um grupo de jovens fazendo sexo, então eles vão para outro quarto onde ele tem a sua primeira relação sexual. Depois que eles acabam de ter a relação sexual, eles vão para o meio do povo novamente curtir a festa.

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_Como foi? Quero saber de todos os detalhes? Não é possível que você deu mole e não transou com aquela menina. Se fosse eu já teria rolado há muito tempo. _Disse Marcelo.



_Claro que sim. Rolou. _Respondeu Ricelli.

_É. Deixou de ser virgem. Como é que foi. _ Perguntou Rone.

_Eu não vou contar todos os detalhes.

_Ah não. Os detalhes picantes que são bons de ouvir. Pode falar aí! Quero saber de tudo. Eu sou curioso, hein! _Exclamou Rone.

Os meninos ficaram por um tempo conversando, eles pegaram mais bebidas e entornaram todas. Ricelli encontra com Leo, um garoto de 24 anos que estuda no mesmo colégio que ele e fica mexendo com ele, zoando ele. Leo começa a mexer com Ricelli que se segura para não brigar com ele. Mas Ricelli estava feliz, sem o peso da vida nas suas costas, por isso deixou para lá e foi curtir ao lado de seus amigos e de sua “ficante”. Ricelli passou o dia todo bebendo, se divertindo; chegou meia-noite em casa superbêbado. Maria, Otávio, Márcia Eduarda e Vinícius Luciano estão na sala quando ele chegou. Maria não gostou de vê-lo bêbado, mas ficou aliviada por saber que ele estava muito bem. Seu pai não aprovou muito a ideia.

_Então, você estava por aí enchendo a cara na bebida? Deixou a gente superpreocupados com você, e você estava na

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farra. Muito bem! Eu sabia que não era para gente se preocupar com você. _ Disse Otávio para ele.

_Até parece que você se preocupa comigo, não é, papai?

Mais uma enorme discussão em família acontece, e as mágoas aparecem.

_Eu não estou nem aí! Não estou nem aí se estou bêbado ou não. Eu só quero fugir, fugir da minha vida! Da minha vida que parece um eterno castigo. E se não tiver outro jeito de eu fugir, eu vou ficar bêbado sim. Você nem gosta de mim, nem sei por que está se preocupando. Você nem está se preocupando com o que eu sinto ou não. Você só quer me encher o saco, eu sei. Você só quer me encher o saco como sempre! Eu já estou de saco cheio de tudo, de você! _Disse Ricelli.

_Cala boca senão eu te sento a mão.

_Senta então. Senta! Eu já estou acostumado mesmo. Eu já me acostumei de você sempre vir me bater. Se fossem os outros que não te agradassem você nem sentaria a mão, nem bateria.

_Vai para o quarto, Ricelli, vai! Sobe para o quarto!

_Disse Maria tentando amenizar a situação.

Ricelli sobe para o quarto. Ricelli chega ao seu quarto totalmente transtornado; a raiva, a revolta que está sentindo em

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seu peito é tanta que não consegue se controlar e quebra algumas coisas do quarto, e, começa a esmurrar paredes, sua mão fica ferida de tanto dar socos nas paredes, pontapés também. Vinícius Luciano chega ao quarto e começa a xingá-lo chamando de chiliqueiro, bichinha. Vinícius Luciano e Ricelli começam a brigar, como Ricelli está bêbado não consegue bater no irmão e acaba apanhando dele. D. Maria chega ao quarto e intervém na briga, e dá uma enorme bronca em Vinícius Luciano.

_Esse mimadinho! Por isso que ele está assim esse neurótico. Você fica mimando demais esse menino. Ele merece um soco na cara dele para virar homem. _Disse Vinícius Luciano para mãe.

_Sai do quarto agora, Vinícius Luciano. Sai! _Pediu D. Maria em voz alta. Vinícius Luciano sai.

Ricelli está caído no chão, Maria ajoelha-se perante ele.

_Meu filho, por que você foi beber? Por quê? _Perguntou D. Maria.

_Eu quero muito te ajudar. Me ajuda a te ajudar, por favor! Sozinha eu não vou conseguir. _Diz Maria que ajuda Ricelli a se levantar e ir para cama.

_Eu só quero fugir. _Falou Ricelli.

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_Fugir de quê, meu filho?

_De mim. Mas eu sei que não conseguirei fugir de mim mesmo, que para onde quer que eu vá, eu vou ser sempre eu mesmo. _ Afirmou Ricelli. Ricelli põe a cabeça para fora da cama e vomita no chão.

_Eu vou pegar um pano para limpar.

_Obrigado, mãe. E me perdoe!

_Por?

_Por tudo. Por ser eu. _ Disse Ricelli para Maria. Maria sai do quarto com lágrimas nos olhos.



Alguns minutos depois, Maria estava limpando o quarto, Ricelli estava dormindo profundamente. Otávio aparece na porta transparecendo a reprovação por Ricelli ter destruído alguns objetos do quarto.

_Tenha calma, por favor! _Pediu Maria.

_Como posso ter calma? Eu já estou perdendo a paciência com este menino.

_Acho que você já perdeu há muito tempo. Deixe que eu limpo! Não estou pedindo nada a ninguém._ Falou Maria para Otávio.


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Ricelli estava cansado daquilo tudo, de sua vida, estava superdesanimado com a sua vida que nunca mudava, que sempre continuou a mesma coisa desde quando nasceu. Ricelli queria mudar a sua vida na marra, por isso continuou saindo com Rone e Marcelo. Eles iam para boates do centro de cidade, iam a bares. Estava sempre saindo todas às noites não ficando um só dia em casa. Otávio e Vinícius Luciano estavam percebendo a mudança de Ricelli. Ricelli estava feliz, finalmente encontrou a felicidade que o prazer da vida estava lhe dando. Ricelli não só estava bebendo, mas se drogando também. Rone, Marcelo e Ricelli fumavam maconha em todas às vezes que saiam para algum lugar, quando iam para festas na casa de outras pessoas também.

Quando Ricelli chegava em casa bêbado sempre rolava uma discussão, Otávio não gostava de vê-lo chegar bêbado em casa. Mas, os motivos de Otávio brigar sempre com Ricelli não é por preocupação, mas porque Otávio não estava satisfeito com a mudança de Ricelli que agora era uma pessoa mais feliz, mais solta. Otávio estava estranhando o novo Ricelli, pois sempre acostumou em vê-lo triste pelos cantos. Otávio sabia que o que sentia quando via Ricelli mais animado não era legal, se sentia mal por sentir raiva de ver Ricelli feliz.

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_Por que você não me deixa em paz? Se eu estou mal você enche o saco, se eu estou bem você também enche o saco? O que você quer de mim? Me dá um tempo, por favor! _ Disse Ricelli para Otávio em uma de suas brigas.

_Não é enchendo a cara na bebida é que você vai ser igual a todo mundo. _ Falou Otávio para Ricelli.

_Igual a todo mundo? Parece que você gosta de me confirmar o que eu suspeito. Você também acha que eu sou diferente dos outros, não é? parece que me ver feliz te incomoda. Por quê? _ Disse Ricelli para seu pai, com muita raiva.

Todas às vezes que havia uma discussão entre Ricelli e seu pai, Ricelli ficava muito nervoso, agressivo, transtornado. Ricelli se trancava no quarto e começa a chorar só de raiva, de nervosismo mesmo; começa a chutar portas e esmurrar paredes. Vinícius Luciano sempre zombava dele, o que deixava-o mais irritado ainda. Numa dessas brigas Ricelli foi para casa de Rone onde bebeu muito e fumou um baseado para aliviar a dor que estava sentindo em seu peito.

_Por que você tá com essa cara, Zé? _Perguntou Rone para Ricelli.
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_Nada. Eu só quero entornar todas. _Afirmou Ricelli que vira o gargalo de cachaça em sua boca.

_Meu pai me odeia.

_Normal. Nossos pais nos odeiam, assim como odiamos eles.

_Falou Rone em um tom de sarcasmo e brincadeira.

_Eu não odeio o meu pai. Mas tem horas que eu o odeio muito, muito. Me dá vontade de matá-lo.

_E quem nunca teve vontade de matar os pais? _Perguntou Rone para ele.

Bêbado e drogado Ricelli foi para casa. Chegando em casa iniciou-se mais uma discussão entre eles. Otávio disse que não aceitaria mais vagabundo cheirador de pó em casa, Maria apesar de não gostar do estado do filho, pois percebe que ele está drogado fica do lado de Ricelli defendendo. Mais uma vez Ricelli vai para o seu quarto e começa a chorar.

_Por que meu Deus? Por que eu tenho que sofrer tanto? Eu não agüento mais esta vida. Eu não agüento mais! A minha vida é um inferno. Por que eu tenho que viver este inferno tão grande? Por isso que muitas vezes, as pessoas dizem que o inferno não existe porque o inferno é o que vivemos na terra. Talvez, seja para algumas pessoas, não é?

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No dia seguinte Ricelli passou o dia inteiro trancafiado no quarto, estava exausto, muito exausto; não exaustão de cansaço físico, mas mental, cansaço do interior. A briga que teve com o seu pai lhe deixou muito Mal, pois ficou muito nervoso o que acarretou numa nova crise, numa nova explosão e quando essas explosões aconteciam, Ricelli ficava supermal no dia seguinte.Ricelli nem mais queria saber de ir à escola de tão desanimado que estava. Alia, ele queria parar de estudar, pois já tinha 22 anos e ainda estava no ensino média, não se tornaria orgulho para o pai igual aos seus irmãos que já estavam fazendo faculdade. Ricelli estava deitado, debruçado em sua cama, Márcia Eduarda entra no quarto tentando animá-lo, mas Ricelli estava tão desanimado que não tinha animo para mais nada.



_Eu só estou tentando encontrar um jeito de levar esta vida maldita. _Falou Ricelli para sua irmã quando foi lhe perguntado se ele estava fumando drogas.

Naquele dia Rone sentiu a falta de Ricelli, claro, ele sempre ia à sua casa todos os dias, e, como ele não apareceu naquele dia resolveu ir procurá-lo em sua casa. Não tinha ninguém em casa, só


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Otávio que tinha acabado de chegar do trabalho. Rone chega à porta da casa de Ricelli, bate na porta, Otávio atende.

_Olá! Eu quero falar com o Ricelli. Ele está?_ Perguntou Rone.

_Não. Quem é você? _Respondeu Otávio com uma cara fechada, de mal humor.

_Rone.


_Então, é você que está desviando o meu filho, levando-o para o mau-caminho. Eu não quero que você ande mais com o meu filho não! _Disse Otávio.

_Eu não.


_Está sim. Todos os dias ele está chegando bêbado em casa, drogado. Depois que ele passou a andar com você ele tá mexendo com essas porcarias._ Afirmou Otávio.

_Se afaste dele senão você vai se ver comigo. O Ricelli não é um garoto normal, ele é diferente, ele é doente, tem problemas mentais. Mais cedo ou mais tarde você vai acabar machucando ele, e, quando isso acontecer ele afastará de você. Quero você bem longe do meu filho._ Otávio acabou de falar com Rone. Rone fica muito constrangido com o que ele acaba de falar. Otávio não falou só isso com ele, aproveitou que estava sozinho para detonar o

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próprio filho para o amigo dizendo que Ricelli era gay e que mais cedo ou mais tarde iria se apaixonar por ele. Rone vai embora dali pensando em tudo que Otávio lhe disse a respeito de Ricelli

Ricelli estava sempre ligando para Rone, mas Rone não atendia mais as suas ligações, deixava as ligações cair na caixa postal. Quando Ricelli ia à casa dele, a casa estava toda fechada parecendo que não tinha ninguém, este jogo estava deixando Ricelli muito mal. Ricelli estava voltando a ser o mesmo de antes, não voltando a ser porque o que ele era antes ele nunca deixou de ser. Mas, a solidão que ele sentia era imensa que o deprimia. Ricelli estava no seu quarto chorando em silêncio, mais uma vez.

_Deus, me leva daqui, por favor! Me Leva deste mundo, por favor! _ Disse Ricelli com muitas lágrimas nos olhos.

No dia seguinte Ricelli não queria ir para aula, mesmo assim foi, mas não ficou por muito tempo em sala de aula, pois arrumou uma grande confusão. Ricelli já estava muito triste, muito angustiado e ainda um aluno da sala começou a implicar com ele chamando-o de bicha. Ricelli teve mais uma crise nervosa, um rompante no que resultou em uma enorme briga. A diretora teve que chamar a mãe de Ricelli no colégio para conversar com ela e

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entender o que estava acontecendo com Ricelli que parece estar agressivo e ao mesmo tempo sofrendo. D. Maria conversa com a diretora. A diretora lhe aconselha a levá-lo a um psicólogo, a um psiquiatra. Mas, Ricelli diz a mãe que não adianta porque ele já sabe que não tem mais jeito, que o único jeito para ele se livrar daquela vida que ele estava levando era só com a morte. A diretora e D. Maria ficam espantadas e amedrontadas com o que Ricelli fala.

Quando estão indo embora, Maria conversa muito com Ricelli.

_Nunca mais fale isso, por favor! _ Diz Maria para Ricelli.

_É o que eu sinto, mãe! Se eu não posso dizer tudo que eu sinto, eu vou morrer mais rápido ainda. _ Falou Ricelli.

_Esquece isso, Ricelli. Não fale mais isso! Você não vai morrer, não vai! Que ideia! Para de falar isso, meu filho senão eu vou ficar com raiva de você! Eu vou ficar! _ Disse Maria para ele.

_Não fique com raiva de mim, mãe. Você é a única pessoa que gosta de mim neste mundo. É a única pessoa que me ama e eu não sei por quê! Será que sou tão feio que é por isso que as pessoas não gostam de mim? _ Perguntou Ricelli.

_Não. Claro que não, Ricelli. Esta é uma ideia boba. Muitas pessoas gostam de você sim, você vai ver. Sempre tem alguém que gosta de nós. _Disse Maria para ele.

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_Tudo bem, mãe!

Ricelli chegou em casa e se trancou no quarto onde chorou muito. Ricelli gostava de ficar sozinho no seu quarto sempre quando o seu coração estava carregado de mágoa, mágoa da vida, mágoa das pessoas. Ricelli aproximou-se do aparelho de DVD, pegou um Cd de músicas internacionais antigas, a música Living Inside Myself começa a tocar,

caneta e começa a escrever:

Quando eu morrer, eu não quero que ninguém chore. Não quero! Não quero que ninguém chore, porque eu estarei livre da droga desta vida, pois é a coisa que mais desejo na minha vida, poder me livrar da minha insuportável vida. Era para ser tudo diferente, mas não foi. Eu sempre tive que me dar mal, desde quando eu nasci e se eu continuar vivendo eu sempre vou me dar mal por algum motivo que eu desconheço. Eu não quero que seja assim! Eu não quero mais viver assim, infeliz. Eu sou infeliz. Não adianta, eu tento ir para frente, mas não consigo, alias quando eu estou conseguindo ir para frente à vida da um jeito de me parar, ela diz: Para aí! A felicidade não é para você.

As pessoas sempre se afastam de mim, de algum modo elas sempre se afastam. Parece que eu tenho uma doença contagiosa

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do qual eu nunca vou conseguir me curar. Por quê? Esqueci, não tem ninguém para responder esta minha pergunta. Por que dói tanto viver, meu Deus? Por quê? Eu queria tanto mudar, ser outra pessoa. Porque eu não sou outra pessoa? Eu queria tanto ser outra pessoa, uma pessoa mais feliz. Eu queria tanto ser uma pessoa feliz, eu não sou feliz, e como eu disse é a infelicidade que mata, a infelicidade que nos mata aos pouquinhos. E eu vou morrer, eu sei que eu vou morrer. Eu estou chegando no meu limite, eu cheguei no meu limite. Não há mais esperança, não há mais nada, tudo se acabou dentro de mim. Eu não consigo mais viver. Eu queria viver, mas a vida não é para mim. Talvez, nunca foi.

Eu sempre pensei que eu era um erro cósmico, que Deus errou em me trazer aqui para terra. Dói tanto imaginar que a gente não nasceu para ser feliz, e, eu sempre me senti diferente das outras pessoas como se eu fosse um Extra terrestre na terra, e que por isso eu teria que ficar sozinho para todo o sempre, porque eu mesmo espantava as pessoas de mim mesmo. Eu só queria uma saída para o meu sofrimento, e não adianta tentarem me dizer que a saída é se divertir, sair porque o sofrimento é a minha vida. Mesmo saindo, me divertindo eu não serei feliz porque a minha vida é o sofrimento. Para onde quer que eu vá, eu nunca conseguirei me

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safar, me livrar deste sofrimento que é a minha vida. Por isso eu não quero que ninguém que chorei ou sinta a minha falta. Talvez, é o mais certo que ninguém irá sentir, mas não quero que ninguém fale que eu fui “fraco” por não levar esta vida ruim a diante, pois quem está vivendo e viveu a minha foi eu, eu sou a única pessoa que pode avaliar o tamanho do meu sofrimento que nunca passará. Eu só quero me libertar de sentir o que estou sentindo mesmo que seja com a morte.

Escreveu, Ricelli em seu caderno com muitas lágrimas nos olhos.


Aos poucos Ricelli estava voltando a ter os mesmos pensamentos negativos que tinha antes de conhecer Rone e Marcelo. Ricelli se isolava no quarto, não querendo mais sair e nem falar com ninguém. Mas sempre quando estava sozinho no seu quarto, Ricelli ficava chorando, triste. Ricelli estava sentado sobre olhando para o lado de fora. Maria se aproxima de Ricelli.

_Por que você não sai mais, meu filho?_ Perguntou Maria para Ricelli.

_Porque eu não sinto vontade de sair, mãe. Eu nem sinto vontade de ir mais à escola. _Disse Ricelli para sua mãe.

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_Mas na escola você tem que ir.

_Eu não sou um orgulho para o meu pai, não é mãe, e nem pra você também?_ Perguntou Ricelli novamente para sua mãe.

_O que você está dizendo? _Perguntou Maria sentando-se na janela ao lado de Ricelli.

_Não, Ricelli. Não fique com essas ideias na sua cabeça. O seu pai te ama sim, só que ele não demonstra isso. Qual é o pai que não ama o próprio filho?

_O meu. _Respondeu Ricelli. _Eu sei, eu sinto. Ele tem mais orgulho do Vinícius Luciano e da Márcia Eduarda. Para que ele teria orgulho de mim? Não sou nada, sou problemático. Eu tenho 22 anos e nem saí do ensino médio, os meus irmãos fazem faculdade e eu não._ Afirmou Ricelli.

_Não pense assim. Você é muito mais que eles. Não se menospreze! Cada um é cada um. Não é só porque você não está fazendo faculdade é que você é menos que eles. Cada um tem o seu tempo e o seu vai chegar. _ Disse Maria para Ricelli.

_Só você me entende, mãe, só você. Por quê?

_Porque sou sua mãe. Eu sempre estarei ao seu lado para o que der e vier.
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_Queria que meu pai fosse assim comigo. _Afirmou Ricelli. Maria engole seco ao ouvi-lo dizer isso se remoendo por dentro a tristeza do filho. Fica um silêncio no ar por um instante.

_Você sofre muito, não é, Filho? _Perguntou Maria para Ricelli.

_Dá para você ver pelo meu olhar. Eu não sei por quê. Talvez, eu seja um erro. Um erro que não como corrigir, nunca.

_Eu queria tanto te ajudar, eu não sei como. Quero levá-lo a um especialista.

_Não adianta, mãe. Eu não vou me curar! O meu destino já está traçado. _ Diz Ricelli para Maria. Ricelli deita põe a cabeça no colo de Maria que começa a chorar silenciosamente para Ricelli não perceber sua aflição.
Estava fazendo quase um mês que Ricelli não via mais Rone. Ricelli ficou aflito com a situação, pois queria saber o que foi que causou o distanciamento entre os dois, era o único amigo que ele fez na vida e não queria o perder assim sem mais nem menos. Ricelli vai até a casa dele, e finalmente o encontra em casa. Ricelli pergunta o porquê dele ter se afastado dele. Rone “manda a real”
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dizendo toda a verdade para ele e diz o que o pai dele lhe disse. Ricelli fica furioso ao saber da intromissão de seu pai na sua vida.

_Não vai dar, cara! É melhor que cada um siga o seu rumo. Podemos ser amigos sim, mas não do jeito que era antes de você vir sempre aqui, de sair comigo. _ Falou Rone para Ricelli.

_Você acha que isso é o melhor para mim por que o meu lhe impôs que você pensasse desta forma? _ Diz Ricelli com lágrimas nos olhos.

_Não cara. Mas eu acho melhor não andarmos mais juntos. Você é doente! O seu pai mesmo me disse isso. Eu não quero confusão para o meu lado não.

_Eu não sou doente. Afirmou, Ricelli em voz alta para Rone. _Eu não sou doente. O meu pai está mentindo. Eu não queria que nossa amizade terminasse, Rone, porque ela é a coisa mais boa que eu tinha no momento, ela me fazia bem, me fez bem. Você é o único amigo que eu tenho durante anos de minha existência. Eu gostei de você! No duro, eu gostei.

_Eu sei. O seu pai disse que isto poderia acontecer porque você é gay. _ Disse Rone para Ricelli.

_Quê!? Meu pai disse que eu sou gay. É mentira dele. Eu não sou não. _ Disse Ricelli surpreso, chocado com o que seu pai disse

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para Rone. _Eu gostava de você, sim, mas por amizade. Mas a culpa é minha que me apego às pessoas que me tratam bem. A culpa é minha.

Ricelli acaba de falar com Rone e sai vai embora. Ricelli não vai para casa, ficar perambulando pela rua, pois queria ficar sozinho consigo mesmo, estava chorando. Depois de tanto andar, Ricelli vai para uma rua isolada onde passa a maior parte do tempo chorando e se lamentando por sua existência.

_Desgraçado! Maldito! Ele não é um pai, é uma cobra. Por quê? Por que eu não consigo ser feliz, por quê? Eu desejo tanto ser feliz e não consigo. As pessoas sempre se afastam de mim, parece que eu tenho uma doença contagiosa da qual eu nunca conseguirei me curar. Por quê? A culpa é minha. A culpa é minha. Eu é que me apego às pessoas que me tratam bem, ele é tão legal, foi tão legal comigo. Era tão bom ser amigo dele, andar com ele. Mas eu não posso ser feliz, não é Deus? Não é Deus? Eu tenho que ser infeliz para o resto da minha vida. Por isso todos se afastam de mim, pois eu sou uma porcaria como pessoa. Por que eu vim para este mundo, hein? Para eu sofrer, para eu me foder a vida toda? Para eu não ser feliz? Para eu ser infeliz para o resto da minha vida. Por que Deus? Por quê? Eu já não agüento mais esta vida. Será que

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eu nunca vou ter paz? Será que eu nunca vou viver em paz, ter uma vida melhor sem sentir o que eu estou sentindo agora, meu Deus? Não é possível que eu mereça tudo de ruim desta vida? Ah não, Deus! Eu tento mudar, ir para frente mas, há algo que me impede, há algo sempre me impedindo de ir para frente e não sou eu. Por isso não adianta eu tentar ir sempre para frente sendo que eu nunca serei feliz. É melhor acabar com isso logo de uma vez por todas. E quando isto acontecer, Deus, não me mande para o inferno! Não me mande porque eu estou sofrendo muito, Deus, e eu não quero sofrer mais depois que eu morrer. Eu não quero! É angustiante demais para mim, viver esta vida que nunca terá fim, que eu nunca me libertarei. Algumas pessoas dizem para ter fé. E o que adianta ter fé se nada acontecerá, se nada mudará. Ter fé não significa que mudará algo em sua vida. Ter fé é só ilusão e nada mais, é se ferrar hoje e amanhã, é se ferrar para todo o sempre.

Hoje você se ferra e continua tendo fé, diz: Ah, mas amanhã as coisas melhorarão é só ter fé, assim vai por diante, mas as coisas nunca que acontecem na sua vida é você cansa de ter fé. Eu cansei de ter fé, meu Deus! Eu cansei, e a culpa não é minha. Eu cansei de esperar por algo que nunca será alcançado, que mesmo eu vivendo a minha vida inteira tendo fé este algo nunca será alcançado nem

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através da fé. Eu cansei, e a culpa não é minha. Me entenda, Deus! Você vê tudo que acontece nesta terra, vê tudo que eu sofro nesta vida. Eu me desanimei de viver, de esperar por uma solução que não há. Eu estou cansado, saturado, ferido na alma. As feridas da alma não têm cura. _Disse Ricelli em desabafo.
Ricelli não apagou da sua cabeça o que Rone lhe disse, ficou muito atordoado. Era noite, a família composta por Otávio, Maria, Márcia Eduarda e Vinícius Luciano estavam à mesa jantando quando Ricelli chegou em casa. Ricelli estava furioso com o seu pai que foi tirar satisfações com ele ocasionando mais uma briga em família.

_Eu sabia, eu sabia. Você me odeia, você quer me ver mal. Eu te odeio, eu te odeio. _ Disse Ricelli em voz alta para o seu pai.

_De novo. Ah não, meu filho, dá um tempo!

_Azar! Eu não quero nem saber. Você me odeia, você quer me ver mal. Você não gosta de mim, nunca gostou, por isso quer me ver mal. Você não gosta de mim. Por quê? Por quê? O que eu te fiz para você me odiar tanto.

_Acalme-se, Ricelli, por favor! _Pediu Maria.

_Desgraçado! Desgraçado! Você estragou tudo, estragou tudo. Você me afastou do meu amigo, Rone, você. Você só quer me ver mal. Só

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por que as coisas estavam indo tão bem comigo, você deu um jeito de estragar tudo. Você não presta, pai. _ Disse Ricelli muito alterado.

_Olha aqui, moleque! Não me encha não que eu te dou uma surra, é isso que você tá merecendo. _Falou Otávio.

_Você mentiu para o Rone. Disse que eu sou doente, que eu sou gay e iria me apaixonar por ele. Por isso ele se afastou de mim! _ Disse Ricelli, com muita raiva para Otávio.

_Você fez isto, Otávio? Você fez?

_Eu só conversei com ele. E foi para o seu bem.

_Meu bem, meu bem porra nenhuma. Você só quer me ver mal, é por isso que você disse para ele essas coisas. Você é um canalha, não presta. Eu te odeio, eu te odeio. _Diz Ricelli com muita raiva começa a bater em seu pai. Otávio se levanta rapidamente da cadeira e dá um soco em Ricelli e bate muito em Ricelli.

_Não faça isso, Otávio! Não! Não bate no menino! Para!

_ Diz Maria se levantando da cadeira. Otávio continua batendo em Ricelli.

_Pai, para! Pai! _Exclamou Márcia Eduarda.

_Isso! Bate! Bate! Descarrega a sua raiva em mim Vai! _Disse Ricelli.

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_Você não encoste sua mão em mim! Eu sou seu pai. Me respeita!_ Otávio continua batendo em Ricelli até que Maria entra no meio e interfere separando-os.

_Mais uma que você me deve! Mais uma! Eu nunca vou esquecer, nunca vou esquecer. _Disse Ricelli.

_Azar o seu! O problema é o seu.

_Vai para lá, Ricelli. Vai para o quarto.

_Que droga!_ Diz Ricelli, que sai gritando.

_Eu odeio você, eu odeio esta vida, eu odeio todo mundo. Eu odeio todo mundo, eu devia morrer. Eu odeio todo mundo. Esta vida é uma droga! _Ricelli sai de casa.

_Por que você fez isso, Otávio? Você não poderia ter feito isso. _ Disse Maria.

_Fiz sim. Para ele aprender a respeitar um pai. Ele não pode me bater da maneira como ele me bateu. _ Falou Otávio.

_Ele estava nervoso. Você só piora as coisas. Ah, que saco! Tá vendo que o menino é nervoso, em vez de acalmá-lo só piora as coisas. E a culpa foi sua que não deveria ter falado nada para o amigo dele. Você foi covarde! _Disse Maria para ele.

Otávio não gosta de ouvir e a confusão está formada. Mais uma briga acontece na família.

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_Meu pai tá certo. O Ricelli que não passa de uma bichinha sensível, não pode falar nada com ele que já fica todo histérico.

_Disse Vinícius Luciano.

_Eu já falei par você não falar assim do seu irmão. Será possível que vocês não tem coração não! O seu pai está totalmente errado, ele não deveria nada ter falado com o amigo dele que ele é doente, e ainda por cima dizer que ele e gay. Isto é mentira, e ainda não quer que ele se sinta péssimo. _Diz Maria para todos eles.

_Todo dia agora é este inferno nesta casa. Todo dia agora tem uma briga nesta casa e tudo começa por causa do Ricelli. Eu já não agüento mais isso! _ Disse Otávio.

_Interna ele que é melhor. Ele é doido._ Falou Vinícius Luciano.

_Chega! Chega! Eu não quero ouvir mais nada. Mais nada! É isso que vocês desejam para ele, não é? Mas vocês não conseguirão realizar este desejo, não conseguirão. Eu não vou deixar! Eu não vou deixar! Enquanto eu viver, eu não vou deixar vocês realizarem os seus desejos. Não vou. Eu sou a mãe dele, e não vou desistir dele mesmo que vocês desistam. _ Disse D. Maria chorando. Maria sobe para o quarto chorando.


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_Vocês também viram. Às vezes eu tenho vergonha de ser parente de vocês, dois insensíveis que só pensam em vocês mesmos. _ Falou Márcia Eduarda que sobe atrás de sua mãe.

Maria está no quarto, deitada na cama chorando muito, Márcia Eduarda entra o quarto se aproximando dela.

_Mãe, não fica assim! _ Diz Márcia Eduarda que senta-se ao lado de Maria.

_Você viu só como o seu pai trata o Ricelli, não é? Por isso que ele é daquele jeito, é revoltado. Esta revolta vem do passado, ele tem culpa. Eu sinto que se eu não mudar isso, se eu não fizer alguma coisa para mudar isto, eu vou perder o Ricelli, nós vamos perdê-lo. _Falou Maria.

_Tô ligado, mãe!

_Ele sofre muito, sofre muito e eu não sei como ajudá-lo. Eu não sei o que fazer.

_Vem cá! _Márcia Eduarda abraça a sua mãe, Maria.

_Onde será que está seu irmão? _ Perguntou Maria para Márcia Eduarda.

_Eu não sei, mãe. Ele precisa ficar sozinho. Ele precisa.

_Falou Márcia Eduarda.


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Depois que Maria dormiu, Márcia Eduarda saiu do quarto de sua mãe. Seu pai ficou na sala assistindo o jornal na TV. Márcia encontra com Vinícius Luciano no corredor.

_Eu não gosto nada de como você fala do meu irmão, do nosso irmão. Você parece que coloca mais fogo na lenha._ Disse Márcia Eduarda para Vinícius Luciano.

_Eu não? Eu só achei que meu pai estava certo de bater no Ricelli. Ele é muito histérico. _ Disse Vinícius Luciano.

_Ele tem problemas, só isso.

_Ah! Todo mundo vem com esse papinho. Ele não tem problema nenhum. Só precisa de umas porrada para virar homem. _Falou Vinícius Luciano.

_Não dá pra conversar com você e nem meu pai. Vocês são insensíveis. Não vê que ele sofre muito por ser assim!

_Esse negócio de sensibilidade é viadagem. Talvez, por isso ele seja assim, porque ele é veado.

_Cala boca, Vinícius Luciano! _Exclamou Márcia Eduarda.

Ricelli saiu desnorteado pela rua, estava com muita raiva do seu pai, o seu peito estava cheio de ódio. Ricelli estava andando pela rua muito perturbado, com a mão na cabeça e falando alto.

_Desgraçado! Desgraçado! Maldito. Você me paga! Você me paga! Que ódio!_ Dizia Ricelli transtornado pela rua. As pessoas

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que passam perto dele olhavam para ele com estranheza, como se ele fosse doido. Ricelli vai para um lugar isolado onde passa à noite chorando e se lamentando por tudo.

_A culpa não é minha, não é. Não é minha. Eu não faço tudo errado, eu não faço tudo errado. Meu pai é que não gosta de mim, eu sei. Eu sei. Por que ele quer me ver ferrado? Ele não presta.

Era de madrugada quando Ricelli voltou para casa e encontrou seu pai dormindo no sofá da sala. Ricelli passou perante ele e subiu para o seu quarto onde dormiu, estava super relaxado. Sempre, depois da exaustão que sente após a briga Ricelli se sente muito, muito relaxado mesmo. No dia seguinte, a primeira coisa que Ricelli fez foi ir ao quarto de sua mãe para ver como ela estava. Ricelli e Maria tinham uma ligação muito forte, os dois se adoravam muito, se amavam muito. Maria sente-se muito aliviada ao ver que o filho está bem. Os dois se abraçam muito.

_Um dia tudo isso vai acabar, meu filho! Pode ter fé. Vai acabar!

_Eu quero ir embora daqui, mãe, eu quero. Ir para um lugar bem distante onde ninguém possa me encontrar. Onde eu possa viver sozinho, bem quietinho no meu canto até morrer. Viver sem dor, sem tristeza, onde eu possa viver tranqüilo! _Afirmou Ricelli.

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O tempo estava se passando, Ricelli continuava triste e sozinho pelos cantos. Era de dia quando Ricelli andando na rua encontrou com Rone e Marcelo. Rone e Marcelo nem o cumprimentaram, passaram diante dele como se não o conhecesse, Ricelli naturalmente ficou muito triste, doeu profundamente em seu peito a rejeição. Ricelli vai para um lugar mais afastado, isolado e começa a chorar profundamente sentido pela rejeição dos seus “ex-amigos”.

Era noite quando Ricelli chegou em casa, estava muito triste e magoado. Seu pai, Otávio lhe perguntou o que ele estava fazendo na rua até àquela hora da noite dizendo que se ele não tem amigos, onde é que ele poderia estar. Ricelli se revoltou e começou a dar más respostas para Otávio iniciando assim mais uma discussão.

_Você quer o quê? Todos os amigos que eu faço você dá um jeito de atrapalhar, de me afastar. Que tipo de pai é você que só quer ferrar com a vida do próprio filho? _ Perguntou Ricelli.

_Não venha com essa história de novo não, Ricelli. Eu só queria levar um papo com você, saber como você está. Depois você e sua mãe dizem que eu não ligo para você. _ Respondeu Otávio.


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_Não. Você não quer saber se eu estou bem, você quer saber, certificar que eu estou mal. O meu único amigo que eu fiz você deu um jeito de me afastar dele. Você me detonou para ele, mentiu sobre mim. Até falou que eu era gay só pra nos afastar. Eu nunca vou te perdoar, pai! Nunca! _ Disse Ricelli com lágrimas nos olhos.

_Eu não quero saber do seu perdão. Eu não fiz nada de errado, eu só queria te ajudar. Eu sei que mais cedo ou mais tarde você iria se machucar nesta amizade. Você não é igual a todos os meninos. _ Fala Otávio.

_Eu sabia, tinha certeza. Para você eu sou diferente, você acha que sou diferente também. Eu sabia! Então, o que eu sou? O que eu sou? Anda! Me diga o que eu sou para você? Uma mulher então? Se eu não sou igual aos outros meninos da minha idade o que eu sou então, um extraterrestre? _Pergunta Ricelli muito nervoso para Otávio.

_Ah! Desde quando você era pequeno você se mostrou ser diferente das outras crianças, do seu irmão. Você não joga bola, nunca foi um menino esperto como os outros, arteiro que brincava. Você sempre ficava quieto no seu canto como morto, não tinha animo para nada. _Falou Otávio.

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_Azar! Eu não tô nem aí. Se eu era assim, sou assim é porque Deus quis. Não é ele que manda em tudo, que manda em nossas vidas, que nos criou? Se eu sou assim é porque ele quer, não vou me sentir culpado por ser assim, por não ser o filho que você desejou. Aliás, você já tem um filho que sempre desejou. Você sempre preferiu o Vinícius Luciano, sempre o amou mais do que até a Márcia Eduarda. _Disse Ricelli.

_Não comece, Ricelli! Não comece me infernizar com essa história que eu prefiro mais o Vinícius Luciano e a Márcia Eduarda que você. Esta história já virou clichê. Você é que é diferente deles, pronto.

_Diferente como?_ Perguntou Ricelli para Otávio.

_Responde! Diferente como? _ Perguntou Ricelli gritando com Otávio.

_Você sabe. Você é homossexual.

_O quê? _ Espantou-se ao ouvi-lo.

_Eu sinto muito em dizer isso, mas você é gay. Afirmou mais uma vez, Otávio.

_Não, eu não sou. _ Gritou Ricelli.

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_Admita, Ricelli! O seu comportamento não é de homem. Você não é homem. É duro para um pai dizer isto do filho, mas você não é homem igual a mim e ao seu irmão.

_Cala boca! Cala boca! Eu não sou não. Eu não sou não.

_Disse Ricelli muito revoltado. De tanta revolta e explosão dentro do seu peito, Ricelli tem uma nova crise de nervosismo e começa a jogar alguns objetos no chão, a dar socos nas paredes, pontapés nas paredes. _Eu não sou. Eu não sou. Eu não sou. _Disse Ricelli gritando.

_Para seu doido! Não é você que compra nada para casa. Para de dar histeria, menino! _Falou Otávio tentando segurá-lo.

_Me solta! Me solta! Você não gosta de mim. Me odeia! Me solta! _ Ordenou Ricelli.

Nesta hora se aproximam Márcia Eduarda, Maria e Vinícius Luciano perguntando o que tá acontecendo. Maria acalma Ricelli e Márcia Eduarda sobe com ele para o quarto. Uma nova briga acontece na família, Maria acusa Otávio de ser responsável pelas crises de Ricelli, acaba sobrando até para Vinícius Luciano. Márcia Eduarda e Ricelli conversam no quarto.

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_A culpa é toda minha. É sempre minha! Eu não agüento mais isso. Ele é um saco, desonesto comigo e a culpa ainda é minha._ Disse Ricelli transtornado.

_Não, a culpa não é sua. Mas você tem que manter a calma sempre quando essas coisas acontecem. Ultimamente você e o papai estão em pé de guerra. _ Disse Márcia Eduarda.

_Porque ele me odeia. Ele deixou isto bem claro hoje.

_Falou Ricelli.

_Talvez seja a sua imaginação. O papai gosta de você sim, ele só não sabe como lidar com você.

_Ele me disse que eu sou diferente, que ele me acha diferente. Você também acha que eu sou diferente? _Perguntou Ricelli para Márcia Eduarda.

_Não, você não é diferente. Só tem personalidade diferente, o que é normal. _Responde Márcia Eduarda.

_Então, por que ele disse que eu sou diferente. Ainda disse que eu sou gay, ele disse para o Rone que sou gay. Eu não sou gay, eu não sou gay.

_Eu sei que você não é gay. Você não é.

_Então, por que ele disse que sou gay? Ele quer acabar comigo aos poucos.

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_Não. Não entre nessa paranóia! O meu pai é assim mesmo, ele é agressivo. Eu não sei por que ele disse isso para o seu amigo, mas esquece o que ele disse senão você nunca vai conseguir superar esta fase ruim. _Falou Márcia Eduarda.

_Eu não consigo ficar calmo. É tanta raiva, ódio que sinto no meu peito. Meu peito está cheio, está lotado, carregado de ódio. Se eu não puser tudo para fora eu vou morrer. Eu preciso extravasar o que estou sentindo neste momento. Eu preciso. _Disse Ricelli para Márcia Eduarda.

Após uma longa conversa entre irmãos, Márcia Eduarda sai do quarto. Ricelli disse que precisava ficar sozinho. É quando Márcia Eduarda sai do quarto que ele começa a extravasar tudo que está sentindo. Ricelli dá um enorme grito, e começa a jogar algumas coisas que estão em cima dos móveis no chão, se aproxima da cama e revira o colchão. Só depois disso que Ricelli se acalma. Vinícius Luciano chega ao quarto e inicia mais uma briga com o irmão, já que aquele também é seu quarto. Maria interfere na briga mais uma vez. Ricelli sai do quarto e de casa transtornado. Ricelli vai até a beira de uma lagoa onde fica por horas chorando e se lamentando por tudo.
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_Eu quero morrer, Deus! Eu quero morrer! Por favor, me leva deste mundo, por favor! _Disse Ricelli chorando.

_Eu queria ser outra pessoa, outra pessoa. Eu queria ser outra pessoa... Outra pessoa mais feliz, mais feliz. Eles não entendem, nunca me entenderão. Eu não quero ser assim porque eu quero ser assim. Eu sou assim porque eu sou assim. Eu não quero brigar, discutir! Mas me revolta tanto viver esta vida que eu perco a cabeça. _ Diz Ricelli que deita no chão e adormece.

Ricelli acorda na beirada lagoa. Maria passou a noite em claro pensando em Ricelli, aonde ele poderia estar e no que poderia estar fazendo naquele exato momento. Ricelli sai da beirada da lagoa e decidiu ir à casa de Rone conversar com ele. Ricelli chega á casa de Rone e o encontra junto de Marcelo. Ricelli pede para falar com Rone. Rone não está nenhum pouco a fim de conversar com ele, mas por educação foi conversar com ele. Ricelli estava na porta onde Rone se aproximou dele.

_O que você quer, Ricelli? _Perguntou Rone assim que o viu.

_Conversar com você. _ Respondeu Ricelli.

_ Sobre?_ Perguntou Rone novamente a ele.


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_Aquilo que meu pai disse não é verdade. Eu não sou gay. Eu não sou gay.

_E pra que você tem precisão de afirmar isso para mim, de querer provar isso para mim? _ Perguntou Rone.

_Porque foi por isso que você se afastou de mim. Como se eu fosse uma doença contagiosa.

_Não tem nada a ver.

_Eu quero ser seu amigo.

_Ah, Ricelli!

_Por favor, vamos voltar a ser amigos. Por favor! _

Pediu Ricelli.

_Você veio aqui atrás de mim para pedir para voltarmos a ser amigos. Eu acho que nunca fomos amigos, e sim, colegas. Colegas que saem juntos, se divertem juntos. _Diz Rone irritado para Ricelli.

_Me dói ouvir você dizer assim!

_Para com isso, cara!

_A nossa amizade era a única coisa boa que eu tinha, e meu pai fez questão de estragar tudo só para me ver infeliz, triste. Eu gostava de você, na real.


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_Aí, tá vendo? Depois você diz que não é gay._Falou Rone.

_O que uma coisa tem a ver com a outra? Eu não sou gay mesmo. Eu gostava de você como amigo porque a nossa amizade me fazia bem, me fazia sentir uma pessoa de verdade, não um excluído do mundo. Eu não queria que acabasse nunca porque você me deu força no momento que mais precisei. Porque você é legal, bacana; porque você me tratou como há muito tempo ninguém me tratava, como uma pessoa de verdade. _Disse Ricelli para seu amigo Rone.

_Para! Não se humilhe!

_Eu não estou nem aí para humilhação só estou dizendo o que eu sinto de verdade aqui dentro. Eu só não queria ser menosprezado por você, eu não queria, cara! Eu não quero porque vai doer muito, porque eu vou sofrer muito. Eu sei, não posso culpá-lo! Eu é que me apego as pessoas que me tratam bem, eu é que levo as coisas a sério demais e quando as coisas não é do jeito que eu pensei, quero que elas fossem eu fico assim, arrasado e muito mal. _ Afirmou Ricelli com lágrimas nos olhos para Rone.

_Eu não posso fazer nada. Vai caçar uma mulher para você meter. Acho que é isso que você tá precisando.

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_Eu não preciso só disso, mas da sua amizade também.

_Ih cara, larga do meu pé! Eu gosto de mulher não é de homem não.

_Não me julgue por esta minha atitude. Eu só quero ser sincero, pois eu sou sincero. Eu só queria retomar de onde paramos, mas já vi que não tem jeito. Desculpe! Eu não deveria ter vindo aqui. _ Falou Ricelli que sai para rua chorando.

Ricelli chorando caminha pela rua.

_A culpa é minha, eu faço tudo errado. Eu sou todo errado mesmo, eu sou todo errado mesmo. Eu não deveria ter ido à casa do Rone, eu me humilhei, passei atestado de idiota. Como eu pude, meu Deus? Como eu pude? Eu sou um idiota mesmo, eu sou um idiota. _ Disse Ricelli chorando ao se lembrar de tudo que conversou na casa de Rone.

Ao chegar em casa Ricelli se depara com sua irmã Márcia Eduarda deitada no colo do seu pai em cima do sofá fazendo planos para o natal de 2010, faltava poucos dias para o natal. Ricelli observa-os fazendo planos e sorrindo, Ricelli fica muito triste ao ver a cena e sobe para o seu quarto onde se tranca e chora.

_eu odeio natal mesmo.


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Ricelli foi ao colégio para pegar as suas notas finais no colégio e saber se tinha, finalmente passado de ano e poderia cursar uma faculdade também igual aos seus irmãos. Ricelli não passou do terceiro ano. Ricelli se sentiu decepcionado porque era a terceira vez que repetiria o terceiro ano do segundo grau. Leo, o menino que sempre mexeu com ele começa a zoá-lo, a debochar dele dizendo que novamente os dois seriam da mesma classe de aula, pois ele também não passou de ano. Leo, também nem queria saber de estudar, ficava mais zoando na escola esquecendo-se dos estudos. Otávio entrou no quarto de Ricelli onde ele estava deitado e perguntou a ele se ele tinha passado no colégio ou não. Otávio disse para ele que não iria mais ficar pagando os estudos dele para ele tomar bomba no colégio, que se ele não passasse mais que não iria mais pagar o estudo dele, pois não queria mais desperdiçar o seu dinheiro à toa.

_Eu não quero o seu dinheiro. Eu não quero nada que venha de você, papai! Eu só quero que você me deixa em paz!

Falou Ricelli para seu pai, meio que irritado.

_Não me responde não, Ricelli! Eu estou certo. Já é a terceira vez que você repete de ano. Você não vai fazer faculdade não? Já tá na hora. Você fará 23 anos e ainda está no ensino médio. Daqui a

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pouco o seu irmão se forma na faculdade e você ainda está no terceiro ano do segundo grau. _ Disse Otávio para ele.

_Você sempre me comparando ao Vinícius Luciano, não é? Sempre me mostrando que ele é melhor do que eu.

_Não comece, Ricelli! Você adora se fazer de coitadinho.

_Não enche o saco, Otávio! Estudar para quê? Estudar para quê? Para quê serve passar a vida toda estudando se quando morrermos não vamos levar nada para o outro lado do mundo? Eu não preciso estudar, eu não faço questão mesmo porque não vai servi nada para mim, estudar, pois eu não vou precisar desses estudos quando eu morrer. _Falou Ricelli para Otávio.

_Eu não quero discutir, então sai daqui. Me deixe sozinho, por favor! Eu quero paz. Será que é difícil você me deixar em paz?

_Agora eu não posso te perguntar, questionar mais nada que você já vira bicho. Não é? Depois você reclama que eu não te dou carinho, atenção como dou para os outros.

_Porque você adora me encher o saco. Eu estou revoltado, eu sou revoltado com você.

_Comigo? _ Perguntou Otávio.


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_Não só com você, mas com a vida também. Com tudo. Eu só quero ficar sozinho.

_Você está assim por sua culpa mesmo. Você não sai, não se diverti. Fica aí sozinho curtindo solidão. Você vai acabar doente.

_Não. Eu já era assim desde pequeno. Não adianta! Quando somos uma coisa não adianta tentarmos mudar. Quando eu tentei mudar, você se incomodou. Se incomodou tanto que chegou a ser cruel comigo me difamando para meu colega. _ Disse Ricelli para Otávio. Otávio ouve calado e sai do quarto não querendo estender mais o assunto com ele para que não vire mais uma discussão.

A semana estava se passando, a paz naquela casa parece que estava chegando, reinando, também todos estavam em clima de natal. Ricelli ficou o tempo todo, o dia todo cabisbaixo e triste só no seu canto e não falando com o seu pai e nem com seu irmão Vinícius Luciano. Era dia 24 de dezembro, véspera de natal Ricelli e Márcia Eduarda passou o dia todo ajudando a sua mãe nos preparativo da ceia natalina. Mesmo triste com a data, Ricelli ajudou a sua mãe para ceia. Anoiteceu e a casa foi enchendo de pessoas para passar à noite de natal juntas, chegou Daniel, namorado de Márcia Eduarda e Michelle namorada de Vinícius


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Luciano. Ricelli se arrumou todo de branco, mas ficou no seu quarto à maioria do tempo.

_Eu odeio o natal. Eu odeio o natal! Todo mundo feliz e eu infeliz. Que saco! Esta data nem poderia existir. Eu odeio! Não sei pra quê existe esta data que não tem nada de especial? É para comemorar o nascimento de Jesus cristo. Que ódio! O que eu tenho a ver se ele nasceu no dia 25? Todo mundo se reúne nesta data só para encher o saco. _ Falou Ricelli desabafando consigo mesmo.

As horas estavam passando, D. Maria notou a falta de Ricelli junto deles e pediu para Vinícius Luciano chamá-lo para a ceia de natal. Vinícius entrou no quarto onde Ricelli estava quase dormindo.

_Ou, a mãe está te chamando para descer? Vai ficar aí que nem bobo em pleno dia de natal. _Falou Vinicius Luciano.

_Eu não quero descer. Eu odeio natal. Eu não gosto de natal. Tudo é besteira. É um dia normal que as pessoas preguiçosas adoram fazer uma festinha para fugirem das suas rotinas infelizes. _ Afirmou Ricelli.

_E você também não quer fugir da sua? _Perguntou Vinícius Luciano.

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_Não. A minha é real e eu encaro. _Afirmou Ricelli para Vinícius Luciano.

_Tá bom. Então fica aí na sua que nem bobo! Que dia você vai deixar de ser bicho do mato?_ Falou Vinícius Luciano que sai do quarto.

_Se é para curtir o natal. Então, eu vou curtir a droga do natal. _ Disse Ricelli depois que Vinícius Luciano sai do quarto.

Ricelli desce para a sala e fica no meio dos outros. Cumprimenta a namorada de Vinícius Luciano e diz para ela tomar cuidado com o irmão porque ele é chato pra caramba e ela iria sofrer na mão dele. Ela não entende nada e comenta com Vinícius Luciano o que seu irmão lhe disse. Vinícius Luciano vai tirar satisfações com Ricelli.

_Calma, maninho! Eu só estava brincando. Sabe aquela brincadeira que é verdade? Então! Mas não vamos brigar pela milésima vez, maninho. Hoje é natal! No natal tudo se perdoa, até uma provocação disfarçada de brincadeira. _ Disse Ricelli para Vinícius Luciano. Ricelli sai deixando-o com ar de dúvida.

Ricelli começa a beber vinho, bebe muito vinho mesmo. Nem come nada, apenas bebe vinho, muito vinho. Márcia Eduarda o questiona por estar tomando muito vinho, mas ele nem liga, apenas

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diz que só quer curtir o natal. Deu meia noite, todos, menos Ricelli, se reuniram e festejaram o dia desejando Feliz Natal uma para o outro, mas Ricelli continuou sozinho na sala bebendo vinho. Era hora da ceia, todos se reuniram à mesa, D. Maria chamou Ricelli que estava sozinho sentado no sofá ainda bebendo vinho. Bêbado, Ricelli com a garrafa de vinho nas mãos chega à mesa.

_Esqueci! Eu ainda não desejei Feliz Natal para todo mundo. Para todos eu desejo a Merda do Natal. Não sei para quê a gente tem que desejar feliz natal para todo mundo, como se isso fosse uma obrigação a seguir! Este dia é uma data tão insignificante que não muda na vida da gente. _ Diz Ricelli que bebe mais vinho.

_Ricelli, por favor! Exclamou Maria.

_É uma data tão insignificante que não muda em nada o dia da gente, não nos torna mais felizes, mas somos obrigados a viver este dia desejando felicidades para todo mundo como se desejarmos alguma bosta de felicidade para alguém fosse fazer a pessoa ser feliz. Eu odeio a merda do natal! Eu odeio! É só uma data que não tem nada demais. Isso tudo que se cria com a data do natal é muito surreal, é hipócrita. Até parece que só por que é natal, pessoas não sofrerão, pessoas não morrerão! Qual é o significado

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do natal? É ser hipócrita, falso na realidade? É onde as famílias mais desunidas do mundo desejam feliz natal uns aos outros mesmo se odiando no fundo da alma. Onde o pai que não gosta do filho lhe dá feliz natal, mesmo sabendo que esse desejo é hipócrita, que não vem de dentro desse pai mesmo. É o dia em que todo mundo se torna falso e hipócrita! E ainda dizem que natal é o dia em que tudo se perdoa. Será que Deus quis que fosse assim? Que comemorássemos o dia do seu nascimento cheio de falsidades e mentiras? Acho que não. Então, o que estamos fazendo aqui se a nossa família não se encaixa na família perfeita, unida que se ama acima de tudo. Eu não gosto desta falsidade que é o natal, que impuseram o natal. Por isso eu estou fora desta falsidade que é o natal. Ou melhor, dizendo, estou fora deste natal que as pessoas idealizaram. _ Diz Ricelli. Ricelli vai saindo, andando, tentando se equilibrar para não cair de tão bêbado que está. Mas não tem jeito, Ricelli cai no chão onde permanece desmaiado.

Vinícius Luciano começa a reclamar dizendo que Ricelli estraga tudo de bom naquela casa, que ele devia ser internado logo para vê se cura. D. Maria não gosta nada de ouvir o que Vinícius Luciano diz e mais uma briga na família acontece. Depois de tudo mais calmo, Vinícius Luciano e Michelle, Daniel e Márcia Eduarda

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foram para fora da casa namorar um pouco e conversar. O dia amanheceu e Ricelli se sentiu muito culpado por ter estragado a festa de natal da sua família. D. Maria diz que ele não estragou nada que só disse a verdade. Mais tarde Ricelli vai à Igreja que tem no bairro. Ele entra na Igreja e se aproxima do altar onde se mantém de joelhos.

_Deus, me perdoe! Me perdoe pelo que fiz. Eu não queria. Alias, eu estou muito angustiado e isso me atormenta. Este tormento não sai da minha cabeça.Eu quero mudar, Deus! Se eu não conseguir mudar eu vou morrer. Eu sei que vou morrer se eu não mudar. Eu já estou no estágio que não há mais saída se eu não mudar. Por favor, meu Deus! Eu te peço hoje no dia de natal que mude a minha vida, que mude a minha maneira de ser. Por que não tem que ter jeito? Eu só quero encontrar uma saída que não seja a morte. _ Disse Ricelli.

Ricelli estava decido a mudar, por isso achou melhor se isolar. Todos eles foram passar o ano novo fora na casa de parentes e amigos, mas Ricelli decidiu ficar sozinho em casa, não estava animado. Quando deu meia-noite, Ricelli sai para rua onde caminhou e pensou em sua vida. Mais uma vez se lamentou por ser ele mesmo. Ricelli estava caminhando de cabeça baixa pela rua e

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foi onde que encontrou com Rone, Marcelo e uma galera juntos. Ricelli cumprimentou Rone que também o cumprimentou. Eles passaram por ele zoando e se divertindo. Ricelli parou e ficou admirando-os, pensando como seria bom se estivesse no meio daquela turma, que seria feliz se fosse igual a eles. Ricelli senta-se no banco da praça onde fica por mais alguns minutos.

Quando Rone está voltando com a sua turma, Rone vê Ricelli sentado no banco da praça sozinho e triste, Rone sente dó de Ricelli e fala para a galera ir na frente. Rone se aproxima de Ricelli.

_Feliz Ano novo, Ricelli! _ Disse Rone para Ricelli que solta um sorriso.

_Obrigado! Feliz Ano novo para você também. _Respondeu Ricelli.

_O que você tá fazendo aí, sozinho?

_Nada.

_Nada? Sei! É ano novo, cara. Não pode ficar sozinho não, tem que animar e se divertir. Comemorar! _Falou Rone para Ricelli.



_Eu não tenho motivos para comemorar nada.

_Você também é muito desanimado, hein.

_Eu sou assim mesmo. Não tenha pena de mim! Pode ir ficar com seus amigos.

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_Não fique com raiva de mim, Ricelli. Talvez, eu tenha agido mal com você. Mas eu também gosto de você, porque você é legal, gente fina.

_Tudo bem. Eles são melhores do que eu, eu sei.

_Não é nada disso.

_Claro que é. Eu sou essa porcaria que você está vendo! Eu sou tímido, fechado, triste, morto, desanimado.

_Também não precisa se detonar. Você tem qualidades iguais a todo mundo.

Disse Rone para ele tentando animá-lo.

Depois de tanta conversa Rone o convida para ir passar o ano novo com ele e a galera. Mesmo não querendo ir, mais por orgulho mesmo, Ricelli vai com ele. Estava rolando uma festinha básica na casa de uma colega de Marcelo, Rone e revele chegam em casa. Nesta festa onde se diverti para caramba, bebe cerveja, vinho e outras bebidas doidas que eles fizeram.

Ricelli não queria saber de nada, apenas sentir-se feliz, sentir-se que era igual aos outros. Foi bom para ele extravasar-se daquela maneira ficando bêbado e vomitando de tão bêbado que ficou.

Depois das festas de final de ano e ter passado um Ano novo diferente do qual estava acostumado a passar onde ficava

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muito isolado de todo mundo. Ricelli ficou mais ameno, levando sua vida normal. Ele e Rone não estavam se vendo, mas não tinham brigado apenas o afastamento entre eles que continuou o mesmo de antes. Mesmo triste Ricelli continuou levando a sua vida e tentando não se deprimir mais, mas não conseguia e tinha crises nervosas, explosões consigo mesmo. Ricelli sabia que não teria mais jeito, que o fim estava próximo. Quando Ricelli dizia isso para todos, as pessoas ficavam chocadas com o que ele dizia.

Era fevereiro, primeiro dia de aula. Ricelli se arrumou todo e foi para escola, ou melhor, colégio. Ricelli não estava muito a fim de estudar naquele dia, por isso, estava cabisbaixo e triste. Ricelli estava andando na rua de cabeça baixa e na esquina estava Leo e seu colega, quando Ricelli passou perto deles, eles começaram a mexer com Ricelli.

_ Olha, o esquisito aí gente! O esquisito indo para aula novamente. _Diz Leo para o amigo. Eles começam a ri.

_Bota esquisito nisso! Esse menino parece mais uma menina. _ Disse o amigo de Leo.

_Boiola. Não sei como o Vinícius Luciano tem um irmão dele.
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_É. se eu tivesse um irmão desses eu afogaria na banheira. _ Falou o amigo de Leo.

Eles ficam rindo de Ricelli. Ricelli ao ouvir tudo que eles disseram fica muito triste, mas continua andando firme não demonstrando que ficou chateado com o que eles disseram sobre ele. Ricelli chega ao colégio, ainda triste e vai direto para o banheiro. Ao chegar no banheiro Ricelli se certifica que não tem ninguém e tranca a porta do banheiro. Na pia em frente ao espelho, Ricelli começa a chorar de tanta tristeza que há em seu coração. Ricelli cai no chão encostado na parede chorando muito e desejando não estar ali naquele momento e lugar.

Era hora do intervalo, Ricelli estava na mesa do pátio lanchando quando Leo e seu colega dele se aproximam à mesa para provocar Ricelli, para mexer com ele. Leo e o colega dele ficam zombando-o, provocando-o. Ricelli tenta se manter firme engolindo tudo que eles lhe dizem mesmo sabendo que é só provocação.

_Esquisitinho é você. Sai fora! Me deixa em paz. _ Falou Ricelli para Leo. Ricelli já estava se irritando.

_Olha só o esquisitinho reagindo. Nem pensei que ele fosse homem. Nem homem ele é. Parece mais uma baitola! Olha só a carinha da boneca! _Falou Leo.

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_Cala a boca! _Pediu Ricelli.

_ Tá a fim de brigar? Você não se parece em nada com o seu irmão, o Vinícius. Quer apanhar esquisito?

_ Vai te catar, vai! _Disse Ricelli nervoso para Leo.

_Qual é esquisitinho? Já tá ficando nervosinha, tá? Vê se não vai roer as unhas de tanto ficar nervosinha. _Provocou Leo mais uma vez. Ricelli se levanta ficando-se de pé de frente para ele.

_Se você não sair agora eu...

_Vai fazer o que, hein? Você não é nada, é uma bicha. _ Disse Leo provocando-o mais uma vez. Ricelli se enche de raiva e joga o prato de comida em cima de Leo.

Leo e Ricelli começam a brigar, a trocar socos. Infelizmente, Ricelli apanha muito de Leo recebendo socos e pontapés. O diretor do colégio interfere na briga apartando-a. o diretor pergunta para eles quem é que começou a briga, naturalmente Leo inverte o jogo dizendo que Ricelli é quem começou a briga jogando o prato de comida em cima dele. O diretor leva-o para a diretoria dando suspensão para Ricelli. Ricelli estava sentado no banco na porta da diretoria, sua mãe sai de dentro da diretoria sentando-se perto dele.


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_Mal começou às aulas e você já arrumou confusão. _Disse Maria.

_Não foi eu que arrumei. Mas tudo bem! Não adianta eu dizer que não. Sempre a culpa é minha mesmo, mesmo quando eu não tenho culpa. A culpa vai ser sempre minha, não tem jeito._ Exclamou Ricelli.

_O que aconteceu, Ricelli? _Perguntou Maria.

_Eu quero ir embora desta bosta de colégio.

_Mas se você sair não terá para onde ir, estudar.

_Eu não quero estudar. Já tenho 22 anos e ainda nem saí do terceiro ano. Eu não vou estudar nunca mais. Não sei por que eu tenho que estudar se os estudos não me servirão pra mais nada quando eu morrer. _ Afirmou Ricelli.

_Eu não quero gosto quando você fala assim. _Disse Maria.

_Quero ir embora daqui!

_Então vamos! _Disse Maria para Ricelli. Ricelli e Maria se levantam.

_Por que os meninos têm sempre que mexer comigo? Eu não faço nada para eles. Eu fico na minha, mas eles sempre têm que mexer comigo.


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Era tarde, Ricelli estava deitado no sofá assistindo televisão, gostava muito de seriados americanos, é fã da série Dawson’s Creek tinha vários DVDs da série. Ele estava pela milésima vez vendo o episódio da série. Ricelli estava com lágrimas nos olhos vendo a cena do último episódio da segunda temporada em que a personagem Jen diz paro amigo Jack que estava pensando em suicidar.

_Eu te entendo, Jen. Sei como é difícil a dor de odiar a si mesmo.

Disse Ricelli com muitas lágrimas nos olhos. Seu pai Otávio chegou, ele limpou as lágrimas dos olhos e desligou o DVD. Otávio começa a dar bronca em Ricelli por que o diretor do colégio ligou para ele falando o que tinha acontecido no colégio naquele dia.

_Você não tem mais jeito mesmo, hein, menino! No primeiro dia de aula já arrumando confusão. Se você não se formar este ano, eu te ponho pra fora de casa. _ Falou Otávio para ele. Ricelli tenta explicar que não teve culpa do que aconteceu, que Leo estava mexendo com ele e que só quis se defender. Ricelli se irrita e sai gritando para fora da rua.

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_ Eu quero sumir daqui, eu vou embora da bosta dessa casa, ninguém gosta de mim. Quero sumir daqui! Que droga! Eu vou sumir!

Falou Ricelli abrindo a porta e saindo da casa. Ricelli começa a andar pela rua sem rumo a seguir.

_ Por favor, Deus, me leva! Me leva desse mundo, por favor! Não me deixe mais sofrer, por favor! Deixe eu morrer!... Eu não sou igual a ninguém, eu não sou desse mundo. Me leva embora, por favor, Deus! Eu não agüento mais esta vida que é um enorme castigo para mim. Olha por mim, Deus! Olha! Não é possível que eu tenha que viver sempre assim, viver sempre esta vida. Eu vou ficar maluco, louco. Eu não agüento mais. Por que você não olha por mim, Deu? Por quê? Tem tanta gente neste mundo que merece sofrer, se ferrar, se dar mal, aprender a viver e não sofre nada, vivem aí fazendo maldades e cometendo coisas ilegais e são mais felizes do que eu. Eu so tão infeliz e não sei por quê. Talvez, seja a minha vida que é uma desgraça mesmo._ Falou Ricelli se lamentando mais uma vez.

Era um dia de sábado quando, estavam todos animados. Como sempre Ricelli estava muito triste no seu quarto. Otávio e Vinícius Luciano estavam jogando bola e se divertindo enquanto

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jogavam. Ricelli se aproxima da janela e vê-os jogando bola sorridentes e felizes. Ricelli senta-se na beirada da janela e fica observando-os jogar bola, Ricelli fica triste. Vinícius Luciano marca um gol, eles comemoram. Otavio se alegra e diz para o filho.

_ Eu sei, não tiro o seu mérito. Por isso eu que eu te adoro, filho. Você é igual a mim! Quando eu da sua idade jogava bem pra caralho.

_Seja modesto, velho! Não se gabe. _ Disse Vinícius Luciano.

_Mas é sério. Você é meu garoto! Não há mais nada de bom na vida do que vê seu próprio filho seguindo seus passos, eu te amo, filho. _ Falou Otávio para Vinicius Luciano e lhe deu um beijo na testa. Ricelli começou a chorar ao ver.


Após algum tempo, Ricelli estava deitado na sua cama pensando. Estava se remoendo por dentro, se martirizando por dentro pelos pensamentos que tinham e não podia controlar quando via seu pai com Vinícius Luciano.

_Será que eu estou com inveja? Eu não quero ter inveja. Eu não quero, eu não posso ter inveja. Este é o pior sentimento que podemos ter. Por que eu fico daquele jeito quando eu vejo meu pai

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dando carinho para o Vinícius Luciano? Eu sei que eu não poderia, mas talvez eu sinta mesmo, porque eu queria que o meu pai me tratasse assim também, que ele fosse meu amigo acima de tudo. Eu sei que não devo pensar, sentir o que sinto, mas eu não consigo me controlar. É normal sentir isto. E quem pode me julgar? Nem Deus pode me julgar. Se ele não quisesse que eu sentisse isso, ele teria me feito outra pessoa melhor, não esta porcaria de pessoa que eu sou. Esta pessoa chata, desagradável que não tem nada e nem ninguém. Essa pessoa infeliz que não tem nem amigos. Eu não posso controlar o que eu sinto, se eu tivesse um botão onde eu pudesse apertar quando sentisse o que eu sinto e fizesse desaparecer, eu apertaria. Eu sei que eu não posso sentir, mas também não tô nem aí. Por que eu não posso sentir? Por que eu não posso sentir? Claro, é pecado e me fará ir para o inferno. Então, por que não manda logo, assim acaba de vez com esta vida chata e monótona.

Disse Ricelli falando consigo mesmo.

Após algum tempo Ricelli se levantou e foi para a área de serviço onde permaneceu pensando. Márcia Eduarda se aproximou-se dele.

_O que está fazendo aí?_ Perguntou Márcia Eduarda.

_Olhando, pensando. Eu queria um cigarro. _Disse Ricelli.

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_Você quer cigarro normal ou bagulho? _Perguntou Márcia Eduarda.

_Baseado. Você já fumou? _ Respondeu e perguntou Ricelli.

_Não. Claro que não, quer dizer, experimentei uma vez. Não me diga que você já fumou droga! Você já fumou droga, Ricelli?

Perguntou Márcia Eduarda a ele. Ricelli fica em silêncio.

_Já fumou? Acho que já, né!

_Algumas vezes. Foi tão bom. _Disse Ricelli

_O quê!? Você já fumou? Não acredito. Logo você!

_Disse Márcia Eduarda chocada com ao ouvi-lo.

_Por que diz: logo você? Por que eu não posso fumar? Por que eu sou bobo demais para isso? Por que sou certinho demais para isso? Eu já estou de saco cheio de ser essa pessoa que eu sou. _ Afirmou Ricelli.

_ Não, Ricelli. Droga não é bom, só causa a destruição das pessoas. No início pode ser bom sim, mas aí você fica viciado nessas paradas que não quer parar mais até ferrar a sua vida toda.

_Eu sei. Mas não tem como eu me ferrar mais ainda. Eu gostava da sensação, a sensação era tão boa. Era como viver neste mundo sem nenhuma dor, sem nenhum desespero de querer senti-

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se bem. Eu não me sentia infeliz, era legal. Era esta sensação que eu queria sentir todos os dias. _Falou Ricelli.

_Mas não com drogas, Ricelli. Não vale a pena fumar baseado só por isso. Talvez valha, mas é passageiro. Você terá que depender disso para sentir-se bem toda às vezes. _Falou Márcia Eduarda.

_Eu sei.

_Por que você está tão triste? _Perguntou Márcia Eduarda.

_Não sei. Eu sou assim mesmo. _ Respondeu Ricelli para ela.

_Ricelli, você tem que sair, se divertir, namorar.

_ Eu sou assim mesmo, desanimado. Nunca ninguém irá gostar de mim.

_ Você não sabe. Também você tem que sair, se você não sair você nunca encontrará ninguém e nunca saberá.

_ Eu sei, eu sinto. Nunca ninguém vai me amar. Nunca! Também não ligo. Essa vida é uma porcaria mesmo. Eu não sei por que temos que viver, não levaremos nada que vivemos aqui. Tudo ficará pra trás e será como se não tivéssemos existido neste mundo. _ Afirma Ricelli.
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_ Não fala isso, Ricelli! Por que alguém como você irá querer parar de viver? Viver é bom demais. Você é meu irmão querido, se você morresse, eu ficaria desolada._ Disse Márcia Eduarda para Ricelli.

_Eu também, se você morresse. Mas, por que temos que ser obrigados a viver? Se eu não quero e não gosto de viver por que tenho que ser obrigado? _ Perguntou Ricelli.

_Vamos esquecer este papo sinistro. O Dan e eu vamos sair hoje à noite. Você está a fim de ir conosco? _ Perguntou Márcia Eduarda.

_Vou ver! _ Disse Ricelli ainda com uma expressão de desanimo.

Mais tarde Ricelli estava andando de bicicleta no meio da rua, ainda estava triste e muito desanimado, queria um tempo para si mesmo, um tempo longe de tudo e todos, às vezes Ricelli precisava ficar longe de tudo e de todos. Às vezes, ele precisava de um momento só pra ele mesmo onde não visse ninguém e nem tivesse que conversar com ninguém e nem fosse obrigado a sentir e estar alegre. Ricelli estava anda de bicicleta em uma parte mais afastada do bairro onde tinha pouquíssimo movimento de pessoas, é neste lugar que ele encontra com Rone e Marcelo fumando

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baseado. Ricelli se aproxima deles puxando conversa, eles estão noiados e nem dão ideia para Ricelli. Ricelli fica um pouco triste ao ver que mais uma vez está sendo rejeitado por eles. Ricelli ao invés de ir embora, pede para dar uma “tragada” no baseado que eles estão fumando. Rone e Marcelo começam a zoá-lo, a debochar dele falando que aquele baseado não é para “bichinha” não, que ele era muito delicado para ficar no meio deles fumando o bagulho. Ricelli se sente muito mal ao ouvir tudo que eles disseram e mais uma vez se deprime indo embora quase chorando, alias chorando muito por dentro. Apesar de segurar e mostra-se forte, Ricelli estava chorando muito por dentro.

Ricelli vai à beira da lagoa que tem por aquelas redondezas e chora muito, desabafa consigo mesmo sozinho ali.

_Quando isso tudo vai passar, quando? Eu queria tanto que esta dor passasse, porque eu não agüento mais isso. É tanta dor que eu sinto, que eu senti quando ouvir eles dizendo aquilo para mim. Por que eu não sou igual a todo mundo? Por que eu tenho que ser diferente deles, das outras pessoas? Eu estou tão saturado de viver esta vida que nunca melhorará, nunca. Mas, a culpa é minha, né? Claro que a culpa é minha. A culpa é sempre minha mesmo quando eu não tenho culpa nenhuma. Até parece que eu pedi para

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ser assim, esse trouxa, essa porcaria de pessoa, esse molóide, esse retardado. (Grita) Ai, como eu me odeio! Como eu me odeio. Eu não queria existir. Eu não queria existir! É por isso que eu sempre me afasto das pessoas, para elas não me magoarem, é por isso. Eu faço isso, me afasto, mas, eu não quero me afastar delas, das pessoas. Por que eu tenho que me sentir assim, por quê? Eu não agüento mais. Eu não agüento mais! Deus, me dê uma saída, por favor! Por favor, me dê uma saída senão eu vou caçá-la com minhas próprias mãos e quando isto acontecer não me mande para o inferno por não ter vivido a porcaria desta vida como você desejou para mim. Esta vida não é boa para mim, esta vida me faz mal, muito mal. Eu não agüento mais sentir essas aflições, essa agonia de viver a cada dia. Eu nunca fui feliz, desde quando eu era pequeno eu nunca fui feliz na minha vida, por quê? Eu só queria saber o que eu te fiz, Deus, para eu merecer esse eterno castigo do qual eu nunca conseguirei me safar, sair. O que eu fiz, Deus, para viver, ter esta vida. Era melhor se você me matasse logo de uma vez, assim acabaria logo com tudo de uma vez. Eu não pecaria por estar falando essas coisas e consecutivamente eu não iria para o inferno quando eu morresse. Porque sim, eu sei que quando morremos vamos para o inferno por não termos levado essa vida

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do jeito que o senhor determinou para nós como se houvesse graça viver da igreja para casa, sem sair, sem se divertir, sem fazer sexo, sem xingar, sem zoar, sem brigar.Eu odeio viver a vida, e não me culpe por odiar a vida. Eu tentei, eu tento viver, mas não dá. Eu nunca terei paz na minha vida! Eu preciso de paz, viver feliz. Por que eu não posso viver a vida de uma maneira tranquila sem dor, sem chateação, sem ser infeliz. Eu queria tanto ter orgulho de viver a vida intensamente como os outros. Eu invejo todo mundo. Na real, eu invejo! Eu sei que não podemos invejar os outros, mas eu invejo. Eu invejo sim, e não me culpe, pois tudo seria diferente se eu fosse igual aos outros, se eu fosse feliz como os outros, se eu não fosse esta porcaria que eu sou, se eu não fosse esse ser humano que eu sou e me tornei. Não me ferre mais, Deus, não me ferre, por favor! Não me ferre mais. _Desabafou Ricelli chorando na beirada da lagoa.

Era de tarde, seis horas da tarde, Ricelli chegou em casa. Otávio e D. Maria estavam na sala assistindo a novela das seis horas da tarde pela rede globo de televisão, Márcia Eduarda e Daniel também estavam na sala sentados em outro sofá, Ricelli passa sobre eles, ainda está muito mal com tudo e sobe para o quarto.Ricelli chegou no quarto e pegou a caneta e um caderno

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dentro de sua mochila, ligou o aparelho de Dvd onde colocou uma música bem lenta do cantor Michael Jackson chamada One day in your life. Ele sentou na cama e começou a escrever:

Inveja. Eu sinto inveja de todo mundo. Eu não queria sentir, mas eu sinto. Não me culpe! Não me julguem por sentir culpa. Eu não quero sentir, mas eu sinto e não sei por quê. Talvez, porque Deus quer que eu sinta.

Eu sei que estamos todos errados, não devemos culpar Deus por tudo que acontece em nossas vidas. Deus não tem culpa de nada, apenas governa esse mundo de olhos abertos para que o mal não prevaleça sobre nós. Mas como Deus não tem culpa? Não é ele que nos criou, que nós deu a vida? Então, como ele não tem culpa de eu ser essa pessoa que eu sou hoje? Foi ele que me fez, que me deu esta personalidade, que me fez um nada e morrerei um nada. Eu sei que eu sou um nada e que vou morrer um nada. A vida é assim mesmo. Não adianta, eu sei que sou um nada e que sempre serei um nada, todas as pessoas deste mundo são melhores que eu. Eu sei que Deus me mandou neste mundo só para sofrer, talvez para pagar por todos os erros que a minha alma cometeu em outra vida, em outra vida que meu corpo nem saberia que viveria nesta vida. Sei lá, eu só sei que estou mal, mal comigo mesmo e eu

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preciso sair desta, eu preciso sair desta senão eu vou morrer, eu vou morrer. Eu sei que vou morrer, de algum modo ou de outro eu vou morrer. Eu estou morrendo aos poucos, talvez deste ano eu não passo. Eu estou fazendo de tudo para levar esta vida a diante como o senhor desejou que eu fosse, ma não tá dando não. Eu já estou cansado. Cansado de lutar por algo melhor que talvez, com certeza, precisamente eu não alcançarei, e, não é por falha minha que eu não alcançarei este algo em minha vida. É a própria vida mesmo que não me deixará alcançar, impedirá de alguma forma que eu consiga, que eu alcance este bem para minha vida, porque eu sei com precisão que eu nasci para me dar mal, para me ferrar, para ser ferrado sempre. Eu só não quero que quando chegar a hora de eu partir, ninguém me julgue, nem Deus me julgue! Porque eu tentei, estou tentando levar esta vida no máximo possível, mas eu estou chegando no meu limite. Meu limite está se esgotando e ninguém parece me salvar. Eu quero que alguém me salve, mas se for para viver esta vida para sempre eu prefiro morrer. _ Desabafou Ricelli em seu caderno.

Depois de alguns minutos Ricelli está deitado na cama pensativo, Daniel entra no quarto e tenta animá-lo, pergunta se ele vai à festa junto dele e de sua irmã. Ricelli lhe disse que iria sim,

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tudo porque queria se divertir. Anoiteceu, Ricelli se arrumou todo e foi para à festa junto de sua irmã e seu cunhado Daniel. Eles estão na rodovia indo à caminho da festa. Ricelli não está nenhum pouco animado.

_Nada como uma festinha para animar os ânimos. _ Disse Márcia Eduarda.

_Podemos ficar mais à vontade. Na sua casa não tem jeito de ficar à vontade. Claro, o seu pai é muito bravo, fica o tempo todo com a cara fechada. Eu só falo o essencial com ele. _ Falou Daniel.

_Ah, deixe meu para um lado! Ele é chato mesmo._ Disse Márcia Eduarda.

_É. O meu pai é muito chato não é só com você não. Comigo também ele é maior mala sem alça. _Disse Ricelli com a expressão superséria e desanimada.

_ A nossa noite está a penas começando. Vai ser dá hora! Você também vai curtir, não é, Ricelli? _Perguntou Daniel para Ricelli.

_Lógico. Só se for com muita bebida. _ Falou Ricelli.

_Você não vai beber, não é, Ricelli?


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_Vou. Eu quero beber. Festa sem bebida não é festa, não dá nem para curtir nada. Beber para me animar. Esse é o meu lema. _Afirmou Ricelli.

_Mas vê se não vai ficar bêbado.

_Eu não tô nem aí se eu ficar bêbado ou não. O que eu quero é que este dia passe logo. _Afirmou Ricelli. Márcia Eduarda e Daniel olharam pelo retrovisor do carro e perceberam o desanimo de Ricelli.

Neste dia D. Maria estava superanimado, estava preparando uma surpresa para Otávio. D. Maria estava cansada da rotina do dia a dia do seu casamento onde não acontecia mais nada. Depois de muito tempo o casamento sempre cai na rotina, e os deles não só caíram na rotina, mas como também tinha vários problemas a começar pelo filho Ricelli. Enquanto ela amava demais, Otávio amava de menos Ricelli. Márcia Eduarda tinha saído com Daniel e seu irmão Ricelli, Vinícius Luciano tinha saído com sua namorada Michelle. A casa estava livre para os dois. D. Maria preparou um jantarzinho especial para quando ele chegasse do trabalho. Mas, D. Maria teve uma grande surpresa, Otávio chegou bêbado em casa e foi direto para o quarto dormir. D. Maria não gostou nada da


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situação constrangedora que se formou e jogou o jantar que tinha preparado com tanto carinho fora.

Em uma casa de bairro de classe média está acontecendo uma festa. O som está ligado no volume máximo. Todos estão curtindo a festa. Daniel, Márcia Adriana e Ricelli entram na casa.

_ Demorou rolar uma festa dessas! É hoje que eu zoo pra caralho. _Disse Daniel todo animado.

_E as bebidas? Onde estão?_Ricelli, desanimado pergunta.

_Uai, Ricelli, nunca te vi assim tão animado. O que te deu? _Perguntou Daniel.

_Vontade de me divertir. Vou dar um rolê por aí. _ Falou Ricelli que saiu para dentro da casa.

_Eu não quero deixar o meu irmão sozinho. _Disse Márcia Eduarda.

_Qual é Márcia Eduarda? Deixe o seu irmão se divertir em paz. Ele não é mais nenhuma criança. Deixe ele se sentir bem.

_Eu me preocupo com ele. Ele não é muito de sair, tenho medo que ele cometa alguma besteira. _ Afirmou Márcia Eduarda.
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Na casa de Ricelli, Otávio estava deitado na cama, tinha tomado um banho para curar o porre que tomou, já estava melhor. Otávio estava com as costas encostada no travesseiro lendo um jornal. D. Maria colocou uma camisola vermelha bem curta e sensual, se aproximou de Otávio.

_Otávio! _Falou Maria para Otávio.

_O que foi? _Perguntou Otávio sem olhar para ela.

_O que achou da minha camisola nova, Otávio? _Perguntou Maria.

_Bonita._ Otávio olha rapidamente e continua lendo o jornal.

_Dá para prestar atenção, Otávio!

_O que foi, Maria? _Falou Otávio continuando a ler o jornal.

_Chega! Para mim chega! Chega! Cansei. _Gritou Maria. Otávio olha para ela com olhar assustado.

_O que está acontecendo? Por que dessa gritaria toda, Maria? _Perguntou Otávio.

_Eu é que pergunto o que tá acontecendo. Que droga! Sempre é a mesma coisa. Cansei! Cansei disto! _Disse Maria.

_Não estou entendendo tanta exaltação.

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_Não está entendendo ou não quer entender? É só isso que você faz o tempo todo, fingir._ Disse Maria para ele.

_Olha, Maria!

_Já faz tempo que você não entende nada. Não entende nada que está acontecendo ao seu redor. Já faz anos que você não entende mais nada sobre o seu filho, Ricelli. Já faz muito tempo que você não sabe e nem faz mais parte desta família. _ Falou Maria com muita raiva.

_ Deixe de doidura, mulher. Eu sou o mais presente nesta casa. Faço de tudo, tudo pra não faltar nada nessa casa. Não seja injusta! _Falou Otávio. Maria sai andando em direção a janela.

_Sinto que o nosso casamento está acabando, está acabando aos poucos e você não tá nem aí. Sinto que as coisas estão piorando e você não quer nem saber de nada. É cômodo para você viver desta maneira, sem ligar para os problemas da sua família, assim você não precisa se preocupar com nada. _Afirmou D. Maria.

_Que problemas têm a nossa família?_Perguntou Otávio para Maria.

_ Se você parar pra prestar atenção, verá que são muitos, começando pelo nosso filho. _Afirmou D. Maria.

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_É melhor dormirmos.

_Odeio quando você faz isso. Sempre fugindo quando é encostado na parede, quando é imprensado na parede, quando lhe é tacado na cara os problemas. Não fuja mais! Não me faça te odiar mais do que estou querendo odiá-lo. _Disse Maria.

Otávio e Maria começam a brigar.

_Você tem alguma amante, Otávio? _Perguntou Maria.

_Que ideia é essa agora, Maria? Claro que não.

_Se um dia eu descobrir que você tem um caso com alguma mulher, eu nunca vou te perdoar, Otávio. Ouviu? Nunca! Eu não estou aqui para ser traída, enganada por você. _Diz Maria para ele.

_Você agora está inventando isso. Eu não tenho amante nenhuma. Me deixe dormir, por gentileza! _Fala Otávio que coloca o jornal em cima da cômoda e vira-se para o lado para dormir.

_Você não me deseja mais, não me toca mais. Só faz amor comigo de vez em quando, isso só nos finais de semanas, não conversamos mais. Não nos dialogamos mais. Não fazemos mais nada! Eu não sei o que está acontecendo conosco. Eu não sei. Adoraria ter a resposta para solucionar o problema, mas não tenho


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e você não me ajuda! _Afirmou Maria. Otávio continuou virado para o lado dormindo, fingindo dormir.

Daniel e Márcia Adriana se beijando na sala da casa de onde está acontecendo a festa. Daniel está com um copo de cerveja em sua mão.

_ Às vezes me dá vontade de vazar lá de casa. Não estou mais aguentando o clima péssimo que se abateu por lá._ Disse Daniel para Márcia Eduarda.

_Na sua casa também há esse drama familiar? _ Perguntou Márcia Eduarda.

_Se eu ficar mais um tempo na minha casa, acho que eu vou pirar o cabeção. _Disse Daniel.

_Pirar o cabeção na pode. Faça como eu, não ligue! Relaxe! Se formos nos preocuparmos com os problemas que rolam nas nossas famílias, vamos morrer de tédio. Na minha casa também está um clima péssimo, nem parece que somos uma família, ninguém liga pra ninguém.

_Desde quando?

_Desde quando o quê?

_Você percebeu a diferença.
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_Desde quando eu cresci. Sei lá! Tudo mudou, não é a mesma coisa de quando éramos pequenos.
A casa está cheia de adolescentes, jovens. Música alta e agitada tocando. Ricelli está andando sozinho com um copo de cervejas nas mãos passando entre as pessoas. Ricelli está triste, Leo com uma garrafa de cerveja nas mãos e bêbado se encontra com ele.

_Aí, o esquisitinho. O esquisitinho veio na festa. Eu nem pensei que esse esquisitinho saísse de casa._ Falou Leo provocando-o.

_Até aqui você me enche o saco, hein. Por quê? _Disse Ricelli já irritado.

_Porque eu adoro encher o seu saco, te pilhar. _Respondeu Leo.

_Eu sei. Por isso eu não tô nem aí para você! Eu não quero brigar com você. _ Disse Ricelli.

_Eu é que não quero brigar com você, esquisitinho! Se eu brigar com você, você apanha. _ Falou Leo que sai rindo, debochando de Ricelli. Ricelli sai andando em direção a um balcão


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que contém várias garrafas de bebidas. Ricelli chega ao balcão e pega uma garrafa de cachaça e sai com a garrafa em suas mãos.

Maria está na sala chorando, Vinícius Luciano abre a porta da sala para entrar em casa, Maria limpa os olhos de lágrimas. Vinícius Luciano se aproxima dela e pergunta o que tá acontecendo. Os dois conversam, dialogam.

_Eu sei que a gente não se fala muito, não somos unidos. Mas eu te amo, mãe! _Disse Vinícius Luciano para Maria. Maria dá um enorme sorriso.

_Obrigado, meu filho! Eu também te amo. _Disse Maria. Maria dá um beijo na testa de Vinícius Luciano.

_Eu não quero a ver triste. _Disse Vinícius Luciano.

_Eu não estou triste, mas às vezes quero e gosto de ficar sozinha. Às vezes a solidão é boa, nos faz pensar, refletir. _Falou Maria para Vinícius Luciano.

Passaram mais alguns minutos e horas e na casa de onde está acontecendo à festa, Ricelli está muito bêbado. Ele está andando no jardim casa com o litro de vinho nas mãos e falando sozinho, se lamentando por estar ali sem nenhum amigo ou conhecido sequer. Daniel e Márcia Eduarda estão que estão procurando por ele abrem a porta da casa e o veem no jardim

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perambulando. Daniel e Márcia Eduarda se aproximam de Ricelli no jardim da casa.

_Ricelli! _Exclamou Márcia Eduarda!

_ O que foi, maninha? À festa tá dá hora. Eu nunca curti como eu curti hoje. Vai dar um gole aí? _Diz Ricelli rindo.

_Você bebeu mais da metade da garrafa. Você é doido!

_Falou Márcia Eduarda.

_Doido nada. Que isso, mana? Estou te estranhando. Eu pensei que você topasse todas, enxugava todas. Eu estou apenas me divertindo. Cansei de ser o mesmo Ricelli o certinho, o retardado. Agora quero chapar é todas, curtir vida. Não é isso que todo acha de mim? Não é?_ Disse Ricelli.

_ E o que a gente faz, agora? _Perguntou Daniel.

_Vamos levá-lo para casa.

_Vamos nessa, cunhadinho._ Disse Ricelli com ar de brincadeira. Ricelli joga a garrafa de vinho no chão.

_Onde estamos indo, hein?_ Perguntou Ricelli.

_Em nenhum lugar, apenas nos acompanhe!_ Falou Daniel para Ricelli.

_Vocês estão armando contra mim, não é? Para tudo!
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_Disse Ricelli exclamando. Ricelli, Daniel e Márcia Adriana param de andar.

_O que foi, Ricelli? _Perguntou Márcia Eduarda.

_Acho que vou vomitar. _ Ricelli vomita no gramado verde do jardim.

_Acho que agora podemos ir. _ Disse Márcia Eduarda.

Ricelli, Daniel e Márcia Eduarda saem andando devagar. Daniel e Márcia Eduarda carregando Ricelli entram na casa, todos já estavam dormindo, era de madrugada também. Quando o dia amanheceu, Ricelli ficou super mal, abatido não queria falar com ninguém e nem fazer nada, só queria ficar na sua. Márcia Eduarda conversou com ele sobre o que rolou na festa, e mais uma vez Ricelli expôs toda a sua revolta para fora.

_As pessoas me acham chato. Mas na real, eu sou sincero. Eu sou sincero e ninguém nunca percebeu isto. Eu sou realista, falo a verdade, não amenizo a situação. Eu queria ficar bêbado e conseguir atingir o meu objetivo. _ Falou Ricelli.

Era noite, Ricelli queria sair daquela situação na qual se encontrava. Ricelli foi para casa de Rone, mas não o encontrou. Rone foi para em um bar em outro bairro bem próximo ao de onde ele mora. Ricelli começou a beber cerveja, depois passou para

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coisas mais pesadas como caipirinha, conhaque. O objetivo de Ricelli não era só se divertir, queria ficar bêbado também. Aos poucos Ricelli ficou bêbado. Quando Ricelli ficou bêbado começou a se soltar e conversar para caramba, ficou o oposto porque ele é tímido e calado. O objetivo de Ricelli era esse mesmo, se soltar. Se ele se soltasse perderia a timidez e com certeza e precisamente faria amigos. Numa mesa havia dois meninos chamados Edu e Leandro. Ricelli começou a puxar papo com eles, Edu o chamou para sentar-se na mesa. Ricelli, Edu e Leandro conversaram muito nesse dia e beberam muito também. No fundo Ricelli estava sorrindo de felicidade, finalmente tinha conseguido fazer amigos.

Depois de tanto tempo naquele bar Edu e Leandro chamaram Ricelli para ir embora, mas Leandro e Edu na verdade o chamaram para os acompanhar na favela, pois eles iam comprar baseados. Ricelli topou na hora ir até à favela comprar bagulho para cheira e curtir, Ricelli estava a fim mesmo de curtir, passar o tempo curtindo como nunca curtiu antes na sua vida. Ricelli queria passar o tempo, não ligar para mais nada, achava que se fosse o “errado” seria mais feliz. Eles foram à favela onde compraram muitos baseados, ecstasy principalmente. Eles ficaram muitos doidos, muitos noiados.

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Eles passaram à noite toda viajando, curtindo o efeito do bagulho. Amanheceu e Ricelli, Edu e Leandro estavam dormindo numa valeta de esgoto. Ricelli disse que nunca pensou que um dia fosse acordar numa valeta de esgoto de rua. Ricelli ficou muito deprimido por algo que nem ele mesmo sabia, ficou muito deprimido e calado. Chegou em casa quase meio-dia, sua mãe perguntou o que estava acontecendo com ele, onde ele passou à noite, mas ele não responde nada, apenas passa direto e vai para o quarto onde adormece muito. Mais tarde, Ricelli está dormindo na casa e acorda quando Vinícius Luciano entra ao quarto, liga o som em um volume alto. Ricelli acorda com mal humor

_Dá pra desligar a merda desse som? _Disse Ricelli em um tom alterado.

_Ah! Não vem encher o saco não, Ricelli!

_ Que droga! Eu quero ficar na minha, sem que ninguém me encha o saco. Desliga esse som! _Ordenou Ricelli.

_Eu não vou desligar porra nenhuma, não. Qual é? Eu quero ouvir música agora e vou ouvir. Sai do quarto você!_ Falou Vinícius Luciano.

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_Eu não vou sair não. Eu já estava aqui, sai você do quarto. Seu folgado! _Ricelli falou para Vinícius Luciano. Ricelli se levanta da cama aproximando-se do som e desliga o som.

_O que você tá fazendo esquisitinho? Liga a merda deste som agora!_ Ordenou Vinícius Luciano com muita raiva.

_Não. Eu não ligo não!_ Disse Ricelli.

_Liga a porra desse som agora, Ricelli!_ Ordenou Vinícius Luciano em voz alterada.

_Você merece é apanhar muito para você aprender a virar homem. Eu vou sentar um soco nessa tua cara, agora! _ Disse Vinícius Luciano. Vinícius Luciano pega o chinelo no chão e joga em Ricelli. Ricelli revida a chinelada. Vinícius Luciano parte pra cima de Ricelli. Ricelli e Vinícius Luciano trocam chutes e pontapés. Vinícius Luciano empurra Ricelli que cai no chão. Vinícius Luciano parte pra cima de Ricelli tentando socá-lo, mas Ricelli fica se protegendo. D. Maria chega ao quarto apartando a briga.

_Pare, Vinícius Luciano! Para! _Ordenou Maria a Vinícius Luciano. Maria puxa Vinícius Luciano que solta Ricelli.

_Desgraçado! Eu juro que te mato. Eu vou te matar, mais cedo ou mais tarde eu vou te matar. _Falou Ricelli com muita raiva.
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_Cala boca senão eu estouro a sua cara. _Falou Vinícius Luciano.

_ Eu já tô cansado de você mandar nessa casa. Eu tenho que fazer tudo que você quer, tudo. Eu já tô de saco cheio. Meu Deus, quando eu vou sair desse inferno de vida?_ Disse Ricelli superalterado para Vinícius Luciano.

_Ricelli! _ Exclamou Maria.

_Eu já estou de saco cheio do inferno desta casa. Eu já estou de saco cheio de tudo e todo mundo. Eu odeio você! _Falou Ricelli.

_Cala boca seu esquisito! Você fica enchendo o saco aí, e depois que leva umas porradas fica todo histérico. _Disse Vinicius Luciano.

_Eu odeio esta casa, eu odeio esta vida! Eu odeio todo mundo! Eu odeio. Eu odeio. Eu almejo profundamente ir embora desta casa, deste mundo. Tomara que eu morra, tomara! Eu quero ir embora daqui.Ninguém me entende, ninguém.Essa vida desgraçada! _Ricelli saiu do quarto falando alto e gritando.

_Vinícius Luciano, para de tratar o seu irmão deste jeito! Ele não merece isso. Pô, você só agride, agride o menino. Que droga! Não o incomode mais. Você sabe que ele é nervoso demais,

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sensível demais. Não enche mais o saco do dele!_ Disse Maria para Vinícius Luciano.

_Ah, mãe! Ele que é um fresco, uma bichinha mal amada.

_Cala a sua boca quando falar do seu irmão desse jeito. Eu juro, Vinícius Luciano, eu juro! Eu juro que se eu ouvir você dizer isto mais uma vez, eu lhe bato. Você pode ter 25 anos, ser um homem barbado, mas eu lhe bato. E, ai se você revidar os tapas que eu te der. Você será prejudicado não por mim, mas receberá o castigo de Deus, e a mão de Deus pesa mais que a minha. _Disse Maria para Vinícius Luciano. Maria sai do quarto.

Ricelli está no banheiro na beirada da pia, a torneira está aberta. Ricelli está sob a pia com as mãos na água lavando o rosto.

_Que droga! Aquele desgraçado sempre vence! Que ódio! Vontade de matá-lo. Se eu pudesse matá-lo, eu mataria. Que droga, que merda! Deus, por favor, me ajuda a sair dessa casa, me ajuda! Eu preciso sair dessa casa. Eu não agüento mais morar aqui. Me ajuda Deus! _Falou Ricelli supertriste.

Vinícius Luciano sai de casa, disse que iria para casa da namorada Michelle e que só voltaria no dia seguinte, ele estava com muita raiva por causa da briga com Ricelli. Ricelli saiu para esfriar
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a cabeça, depois de tanto andar, Ricelli se aproximou de uma árvore e sentou-se debaixo dela.

_Me leve daqui Deus, me leve! Deixe eu morrer. Eu não sou feliz. Pra quê eu tenho que viver se eu não suporto essa vida? Por quê? Eu não tenho amigos,não tenho ninguém nem namorada.

_Falou Ricelli. Ricelli começa a bater na árvore._Que droga, droga, droga de vida! Que droga de vida! Eu quero morrer,

me deixe morrer Deus, me leve! Eu odeio viver. Eu não sou feliz. Por que você me mandou pra esta vida? Você só me deixou viver pra que eu sofresse, para que eu sofresse. _Extravasou, Ricelli batendo na árvore.

Era meia-noite quando Ricelli saiu debaixo da árvore e começou a caminhar na rua voltando para casa. Numa rua, Ricelli encontrou com Leandro. Leandro estava por ali cheirando pedra de crack na rua. Ele e Ricelli começaram a trocar ideia, Ricelli disse que estava deprimido, Leandro disse que não tinha nada melhor para curar, sair da deprê do que um bom baseado. Ricelli começa a cheirar crack também, aos poucos Ricelli vai ficando “doido” e “noiado”. Os dois ficaram na rua trocando ideia e curtindo o efeito da droga por um enorme tempo. Eram oito horas da manhã quando Ricelli voltou para casa; silenciosamente entrou no quarto, estava

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deprimido, muito deprimido. Depois que fumava ou cheirava esses tais “bagulhos” Ricelli ficava muito deprimido, voltava à realidade e à sua realidade não era muito boa, Ricelli queria a todo custo fugir dessa sua realidade, mas não conseguia. Ricelli não estava agüentando a pressão, sentia-se como se tivesse numa panela de pressão que fosse explodir a qualquer momento, Ricelli pegou um frasco de antidepressivos no fundo falso da gaveta do qual não tomava há muito tempo e tomou vários comprimidos. Ricelli aos poucos começou a passar mal e desmaiou no chão. Eram oito e meia da manhã quando Vinícius Luciano entrou no quarto e se chocou ao encontrar Ricelli caído no chão.

_Ricelli! Falou Vinícius Luciano._ Mãe, pai! Mãe! _ Chamou Vinícius Luciano bem alto.

_Mãe, mãe! Mãe venha ao quarto!

_O que foi, Vinícius Luciano? _Disse Otávio entrando no quarto. Otávio e Maria entram no quarto.

_O Ricelli morreu! _ Falou Vinícius Luciano.

_Não, meu Deus! _Disse Maria desesperada. _Não! Meu filho.

Maria e Otávio se aproximaram de Ricelli. Otávio notou, percebeu que Ricelli estava respirando ainda. Com muito

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desespero, Otávio saiu do quarto carregando Ricelli. Otávio levou Ricelli até o carro onde, ele, Maria, Vinícius, Márcia Eduarda e Daniel foram para o hospital.

A família composta por D. Maria, Otávio, Márcia Eduarda e Daniel estavam no corredor aguardando notícias de Ricelli. Maria estava chorando muito por falta de notícias de Ricelli e com muito medo que o pior viesse a acontecer. Até Otávio e Vinícius Luciano que não são muitos ligados a ele estavam superabalados com o que aconteceu.

_Se eu perder o meu filho, eu não sei o que faço.

_Calma mãe, Deus há de querer que tudo se saia bem. Vai dar tudo certo. _Falou Márcia Eduarda.

_Eu tô tentando me acalmar, mas eu tenho medo. Medo que ele possa morrer. Ele sempre desejou morrer, mas eu não quero que ela morra. Eu o amo. _Disse Maria.

_Ele não vai morrer, D. Maria. Pode ter certeza! Ele ainda é novo e tem muito que viver a vida. Ele é uma pessoa boa e generosa. Ele merece viver. _Disse Daniel.

_Eu não sei por que ele é assim. Eu queria tanto saber. Eu juro que se o Ricelli sair dessa eu vou tentar ser para ele o que eu nunca fui em toda a minha vida. _ Falou Otávio.

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_A culpa é sua Otávio. _ Afirmou Maria.

_Aliás, a culpa não é só sua, mas também do Vinícius Luciano.

_Eu não tenho nada a ver com isso, mãe. Me deixa fora desta história! Eu não tenho culpa se ele é deste jeito. _ Disse Vinícius Luciano.

_Eu sei que você está péssima, Maria, mas não venha dizer que a culpa é minha. As coisas saem dos nossos controles. Eu tentei, eu tentei, mas não consegui. Não só eu, mas ele também não conseguiu se aproximar de mim. Eu sei que eu sou o pai dele, mas desde ele era pequeno não temos muitas afinidades o que é normal. Mas isso não quer dizer que eu não o ame. Mas não adianta ficarmos agora nos culpando, tentar achar quem é o culpado ou não. Temos que nos unir agora e ficarmos firmes para o que der e vier.

O médico chega até eles e dão a notícia que Ricelli ingeriu vários compridos antidepressivos e que se ele não tivesse chegado ao hospital a tempo, ele teria morrido. Ao ouvir isto, Maria começa a chorar intensamente. O médico disse ainda, que agora estava tudo bem, que agora ele estava dormindo profundamente depois de uma lavagem estomacal.

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Depois de horas, à tarde mais precisamente todos entraram no quarto, Ricelli já estava acordado. A família toda conversaram, estavam vivendo em paz como nunca tinha vivido antes há um bom tempo.

_Por que você ingeriu, tomou vários comprimidos, meu filho? Você nos deixou desesperados. _ Perguntou Otávio para Ricelli.

_Porque eu queria morrer. Eu sinto muito, eu sinto! Mas eu queria morrer. Eu precisava morrer. Sei lá! Eu me sinto um nada. Desculpem! Mas eu queria me livrar desta vida. Não me julguem! Não me julguem!_ Falou Ricelli para eles.

Ricelli recebeu alta e voltou logo para casa, é o que ele mais desejava na vida; voltar para casa e ficar bem quietinho. Otávio disse para Maria que iria tentar ser para Ricelli outro tipo de pai, um pai mais presente, amigo com quem ele pudesse contar. Vinícius Luciano saiu de casa dizendo que iria à casa de sua namorada, pois não estava com saco para àquela ‘babação de ovo “ que estavam tendo com Ricelli, Vinícius Luciano ficou com ciúmes, pois não era mais o centro das atenções na sua casa. Para falar a verdade, Vinícius Luciano odiava o irmão. Ele não queria sentir o que sentia por seu irmão, mas sentia muita raiva dele e pela razão

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do qual desconhece. Vinícius Luciano pegou o carro de seu pai e saiu com muita pressa.

O tempo estava se passando, os dias também. Na casa da família “Dias Costa” estava tudo bem, um clima perfeito, uma intensa harmonia. Parecia que tudo agora estava se encaixando. Otávio estava tentando uma aproximação com Ricelli, mas quando Otávio tentava uma aproximação, Ricelli se afastava dele. Ricelli estava deitado em cima de sua cama no seu quarto, Otávio entra no quarto e senta-se ao seu lado. O aparelho de DVD estava ligado, Ricelli estava ouvindo uma de suas músicas preferida chamada: Please for Give me do Brian Adams.

_Por quê? _Perguntou Otávio para Ricelli.

_Por que o quê, pai? _Respondeu Ricelli com outra pergunta.

_Por que você está se afastando de mim?

Perguntou Ricelli. Ricelli se levantou da cama quando Otávio sentou-se ao seu lado.

_Eu não sei do que você está falando.

_Sabe sim. Eu estou tentando me aproximar de você, ficar mais próximo de você, mas parece que não tem jeito, não é? Não me afaste de você, por favor! _Disse Otávio.

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_Você quer o que também? Que eu caía de abraços para você sendo que o que você mais fez foi se afastar de mim.

_Não!


_Não tente mentir para mim, pai, eu percebo, eu percebi desde o primeiro momento anos atrás que eu não sou o filho que você desejou que eu fosse. Você sempre me afastou de você. Por quê? _Perguntou Ricelli.

_Talvez, seja por afinidades. Eu não me afastei de você! As coisas é que foram saindo desta maneira. Não me culpe mais do que eu já me sinto culpado! Quero começar do zero. Me ajude nessa! Sozinho eu não vou conseguir. Eu não vou conseguir sozinho. Me ajude a te ajudar, a ser seu amigo. Eu quero! _ Falou Otávio para Ricelli.

_Eu preciso de um tempo. Só um tempo e nada mais.

_Disse Ricelli para Otávio.

Maria marcou uma sessão de psicologia para Ricelli. O dia estava ensolarado e radiante, Ricelli foi à sessão de psicologia. Ricelli entrou na sala e começou a conversar com a psicóloga.

_Esta vontade de morrer é forte? _ Perguntou a Psicóloga.

_Sim, é. _Respondeu Ricelli.

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_Porque esta vontade imensa de morrer, Ricelli? _ Perguntou a Psicóloga para Ricelli.

_Porque eu não sou feliz, porque a minha vida é uma droga, porque eu não deveria ter nascido, porque eu sou assim; esta pessoa chata, ruim. _ Disse Ricelli.

_Não, Ricelli. Você não é uma pessoa ruim, chata. É você que se põe assim, é você mesmo que se põe assim. Você também não é chato, só é sério e tímido. Mas isso não o faz pior dos outros.

_Falou a Psicóloga para Ricelli.

_Eu não tenho amigos. _Falou Ricelli.

_Mas você não tem amigos por que você não quer. Você tem que se soltar mais, conversar mais, sair mais. Se você não for uma pessoa introspectiva, mais sociável você não irá fazer amigos nunca. Isto não depende de ninguém, mas só de você mesmo. Só você mesmo._ Falou a Psicóloga.

_Mas eu não sou igual a ninguém. _Disse Ricelli.

_Quem disse que você não é igual a ninguém? Claro que você é igual a todo mundo. Você só tem personalidade diferente, o que é normal. Você mesmo é que se exclui. Talvez, por medo de sofrer você se exclui dos outros, da sociedade. Você se excluindo de tudo e de todos sofrerá muito, pois a solidão traz o sofrimento

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mesmo você se resguardando para não sofrer! Você não percebe que se resguardando para não sofrer, é o que te faz mais sofrer._ Disse a Psicóloga para Ricelli.

Depois que houve a sessão, D. Maria entrou no consultório e conversou com a Psicóloga.

_O meu filho. O que ele tem? _Perguntou Maria.

_Depressão. Ele está em um estágio muito avançado da depressão. Se não tiver cuidado com ele, o pior pode vir a acontecer. Ele fala o tempo todo em morte, é depressivo. Nós Psicólogos não trabalhamos com medicamentos, não receitamos nada, se o caso for de passar algum medicamento, algum antidepressivo nós encaminhamos para o Psiquiatra. Mas, primeiro vamos trabalhar o interior dele, a mente dele para assim, darmos um medicamento mais preciso para ele. _Disse a Psicóloga para Maria.

Na volta para casa Maria conversou muito com o Ricelli. Ricelli mais uma vez deixou transparecer os seus pensamentos depressivos. Enquanto Maria foi à feira comprar alguns legumes, Ricelli voltou para casa sozinho, mas no caminho encontrou com Edu. Edu e Ricelli conversaram muito, Edu o chamou para sua casa, Ricelli topou na hora ir à casa dele.

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Edu e Ricelli chegaram a casa dele, os dois fizeram a maior algazarra. Começaram bebendo cervejas, depois para bebidas mais quentes do tipo cachaça e vodca. Após algum tempo, eles já estavam chapados, o volume do rádio estava alto, música de rock pesado tocando. Edu retira do bolso um cigarro normal e começa a fumá-lo.

_Vai um trago aí? _Perguntou Edu para Ricelli.

_Não. Eu nunca fumei. _ Respondeu Ricelli virando o gargalo da garrafa em sua boca.

_Para, Zé! Você é maior caozeiro!

_Não, é sério. Eu nunca fumei cigarro.

_Só bagulho, não é, não?_ Falou Edu, ironizando.

_Às vezes. Mas eu nunca fumei.

_Então relaxa e goze! Dá um trago aí. Não é ruim não. Te faz acelerar e amar. _Falou Edu retirando do maço um palito de cigarro e passando para ele.

_Pega aí!

_Obrigado!

_Você também parece lezado! Não curti nada do que é bom da vida. Mas comigo você vai aprender a curtir o que é o bom da vida, porque amigo meu não é mané, não. _Falou Edu.

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Oito horas da noite foi quando Ricelli chegou a casa, estava bêbado. Otávio, Maria e Márcia Eduarda estavam a mesa jantando quando o viu chegar em casa. Maria o questionou perguntando onde ele estava, pois desde a hora que ele saiu da clinica ele tinha sumido.

_Eu não fui a lugar nenhum. Me deixe em paz! _Falou Ricelli esbravejando.

_Será que ele está bêbado? _Perguntou Márcia Eduarda.

_Parece que sim. _ Disse Maria.

_Mas é agora que eu vou ter uma conversa séria com ele! _Falou Otávio. Otávio subiu para o quarto de Ricelli.

Ricelli estava no banho quando Otávio entrou no seu quarto. Depois de dez minutos, Ricelli saiu do banheiro arrumado para sair. Otávio ainda estava o esperando no seu quarto.

_Você aqui! _Falou Ricelli que pegou os seus sapatos para calcá-los.

_Precisamos conversar, Ricelli!

_Sobre o que, papaizinho querido? _Falou Ricelli meio bêbado ainda. Ricelli sentou-se na beirada da cama e começou a calçar os sapatos.


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_Você está bêbado, Ricelli? Como? Você tá bebendo com quem? _ Perguntou Otávio.

_Você deve estar surpreso, não é? Claro, eu não tenho amigos. Com quem eu poderia beber se eu não tenho amigos, não é mesmo, Otávio?_ Falou Ricelli.

_Não é nada disso, Ricelli. Eu só quero conversar com você numa boa, pois eu sou o seu pai e tenho que alertá-lo. _ Disse Otávio.

_Você não acha que está tarde demais para você vir me dizer isso não, Otávio?

_Colabora, filho! _Disse Otávio pondo a mão em Ricelli. Ricelli se irrita e se levanta da cama quando ele põe a mão nele.

_Me dá licença, pai! Eu tenho que sair.

_Você vai sair de novo? _Perguntou Otávio.

_Vou. Por quê? Eu não posso? Não venha me dizer que você se preocupa comigo que não é verdade. Eu não sou o seu filho predileto, eu não me chamo Vinícius Luciano. Eu sei que você não tá nem aí, nunca esteve nem aí para mim, então não venha com esse papo de “bom pai” para cima de mim que não vai colar. _ Disse Ricelli. Para não criar mais confusão, Otávio sai do quarto sem dizer nada. Ricelli continua se arrumando.

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Depois, a família Dias Costa está reunida no sofá da sala, Ricelli desce as escada que dá acesso ao primeiro andar da casa, Maria se surpreende por ele sair novamente.

_Você vai sair de novo, Ricelli? _ Perguntou Maria.

_Vou. Respondeu Ricelli, em um tom sério.

_Você não acha que está muito tarde para você sair de novo, Ricelli? _ Perguntou Otávio.

_Não. Até mais para vocês!

_Não, Ricelli. Você não vai sair agora, meu filho. Tá muito tarde para você sair. Você vai para onde, com quem?

_Não me tratem como se eu ainda tivesse cinco anos de idade. Eu não sou criança. Odeio quando vocês me tratam como uma criança pequena que precisa de permissão para sair? Por que eu não posso sair sozinho, por quê? Por que eu sou um retardado, lerdo que vai se perder na imensidão da escuridão? Não precisam responder. Eu já sei da resposta! Vocês já se acostumaram de eu ficar em casa sempre, de eu não sair todas às noites. Vocês já se acostumaram, por isso querem que eu morra nessa casa para se sentirem felizes. Eu sei! Eu sei! Já acostumaram comigo na pior ficando em casa que quando eu resolvo sair se chocam. Mas eu
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não tô nem aí! Adeus! _ Falou Ricelli meio agressivo com todo mundo. Ricelli sai da casa.

_Ricelli! Ricelli! Ricelli! _ Continuou Maria chamando-o.

_Volte Ricelli, Volte! _Falou D. Maria.

_Deixe ele, Maria! Deixe ele! Talvez, ele precise mesmo se divertir, sair. É só assim que ele vai se curar dessa doença que você disse que ele, essa tal de depressão. _ Falou Otávio.

Ricelli estava muito animado, estava muito feliz. Estava muito ansioso para chegar à festa. Ricelli chegou à casa de onde tá rolando a festa básica. A casa está muito cheia, vários jovens dançando, curtindo a festa. Logo que entra Ricelli encontra com Edu.

_E aí, cara! _Falou Edu.

_Qual é, Zé! _Disse Ricelli.

_Quero ver o que vai rolar hoje. Quero ver se esta festa vai ser tudo mesmo que você disse que iria ser.

_Claro que vai, pô! Tá duvidando de mim? Não duvide de mim não, hein! Tudo que eu falo se realiza, tudo que eu falo se concretiza! Vem, vamos pegar um copo de bebida para você! _Falou Edu.
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Ricelli e Edu saem para a cozinha onde bebem. Durante à festa, eles bebem muito, se drogam muito. Ricelli conheceu uma bela menina apresentado por Leandro, os dois “ficaram” durante algum tempo, foram para o quarto onde Ricelli teve pela segunda vez relação sexual. Ricelli estava tão feliz, não só por ter ficado com essa menina e por finalmente ter encontrado “amigos”, mas estava feliz por se sentir igual aos outros. Ricelli, a menina com qual ficou, Leandro e Edu ficaram nesta festa até o amanhecer, ficaram muitos bêbados e drogados. Ricelli chegou em casa meio grogue por causa do efeito da droga, e aconteceu mais uma briga envolvendo ele, mas dessa vez foi entre ele e sua mãe. D. Maria não estava aceitando o fato do filho querido estar andando em más companhias e voltar para casa bêbado.

_Eu só quero me divertir, sentir o prazer de viver! Eu nunca tive o prazer de viver a vida. Eu não quero saber se bebida, se drogar faz mal para saúde! Eu não quero saber. Eu só quero sentir o prazer que isso me proporciona. Se eu morrer amanhã de uma overdose, eu morrerei feliz porque eu odeio esta vida. _Disse Ricelli para a mãe.

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_Você não pode estar falando sério, meu filho. Você anda se drogando? Nunca imaginei que você pudesse fazer isso. _Falou Maria, indignada.

_Por que eu sou bobo demais, ingênuo demais para isso? Eu é que não aguento mais isso. _Disse Ricelli meio irritado.

_Não tente inverter as coisas para o seu lado não, meu filho. Eu não quero que nada de mal te aconteça. E, é isso que vai acontecer se você se envolver, ter algum tipo de amizades com essas pessoas. Você não é assim, não é. O que tá acontecendo com você. _ Falou Maria para Ricelli.

_Se eu não viver, eu vou morrer. Eu preciso me encontrar mesmo que seja me destruindo, bebendo ou cheirando heroína. Eu não quero mais falar disso! Eu não quero que me encham o saco por eu ser o que eu quero ser na verdade! Por que eu tenho que ser o mesmo otário, o mesmo retardado de sempre? Eu não quero ser mais. Eu não quero ser mais eu. Eu não quero. _ Falou Ricelli para sua mãe.


Anoiteceu e mais uma vez Ricelli saiu para ir à casa de Edu. Edu levou-o para casa de Leandro. Na casa de Leandro eles trocaram ideia e cheiraram crack, eles ficaram “doidos”. Como

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estavam sob o efeito da droga, Edu convidou-os para fazer uma “limpa”, um roubo na casa da vizinha que tinha saído mais cedo. Ricelli, Edu e Leandro entraram sorrateiramente na casa da vizinha, primeiramente eles pularam o muro. Entraram, pelos fundos da casa arrombando a janela da cozinha, na casa. Eles pegaram dinheiros e alguns objetos que dariam para vender. Quando eles iam pular a janela para saírem para fora, os dono da casas chegaram. Edu e Leandro pularam rapidamente deixando Ricelli para trás. Ricelli pulara a janela quando foi pego pelos donos da casa. O dono da casa mantém Ricelli preso na casa até a polícia chegar. A polícia chega e leva Ricelli para cadeira. Era mais de meia noite quando Ricelli ligou para sua mãe pedindo para lhe tirar da cadeia. D. Maria e Otávio ficaram espantados por saber que Ricelli estava preso, pois esta não era de sua personalidade, eles não esperavam que aquele filho tímido, sensível e calado fosse parar na cadeia.

Maria e Otávio foram para delegacia onde estava Ricelli preso. Ricelli não quis contar para o delegado quem é que estava com ele. Ricelli sempre dizia e mantinha a mesma opinião, que estava sozinho naquela casa. Ricelli assumiu a culpa toda do roubo
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na casa da vizinha de Leandro. Depois de muita conversa e de Otávio pagar uma fiança absurda, Ricelli foi liberado.

Em casa Maria e Otávio brigaram muito com Ricelli.

_Nós estamos decepcionadíssimos com você. Não esperávamos isto de você! onde é que você está com a cabeça de entrar numa casa para roubar? Nunca mais faça isso, porque não vamos livrá-lo de mais uma. _Disse Otávio.

_Ah, com você eu não posso contar mesmo. Eu não espero nada de você, Otávio. _ Falou Ricelli para Otávio. Ricelli vira as costas para eles.

_Não me chame de Otávio, eu sou o seu pai. E me respeite! Você tá errado nesta história. Você entrou numa casa para roubar e ainda quer que fiquemos felizes com esta tua atitude. Você não era assim, o que tá acontecendo com você, Ricelli? _Ordenou Otávio.

_Cansei de ser eu mesmo. Eu quero mudar. _Falou Ricelli virando-se de frente para ele.

_Que não seja para pior, meu filho. Cadê aquele menino doce, meigo, inteligente, sincero, tímido que sempre conhecemos? Você não precisa mudar para pior, Ricelli, ouça-nos! Estamos falando para o seu bem. Você não está indo para um bom caminho

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se envolvendo, andando com essas pessoas. Essa ideia desse roubo naquela casa não partiu de você! Eu sei. O conhecemos, e você não é assim. Você foi influenciado por esses amigos que você está andando._ Disse Maria para Ricelli.

_Pra vocês eu fui influenciado, claro, pra vocês eu sou um bobo, um trouxa. Eu sei que vocês pensam isso de mim. Acham que eu sou tão otário que eu não posso cometer nenhum erro nesta porra de vida. Eu já tô cansando de ser eu mesmo; o bonzinho, o idiota, o otário! Eu cansei de ser bonzinho! Nesta vida só os bons se fodem. Os bons se fodem, por isso eu sempre me fudi nesta vida, e vou sofrer. Azar eu estou fazendo as coisas erradas, talvez valha a pena fazer as coisas erradas. Eu só fiz as coisas certas nesta vida e só me fodi. E, não me encham o saco mais, não me encham, pois eu odeio esta vida. Se eu não for esta pessoa que eu sou agora, eu prefiro morrer, morrer! _ Disse Ricelli.

_Deixe de ser bobo, Ricelli! _ Falou Otávio.

_Eu não estou sendo bobo, não. Eu estou sendo realista, eu estou dizendo a verdade para você! Mas esqueci que não pode nem dizer a verdade, pois a verdade nunca pode ser dita porque ela machuca, ofende. Mas eu não tô nem aí, pois se vocês soubessem, me conhecessem de verdade veriam que eu sou revoltado. Eu sou

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revoltado e a culpa não é minha, não sou eu que quis, desejei ficar revoltado. Eu sou revoltado porque a vida quer que eu seja assim, porque Deus quer que eu seja assim! _ Disse Ricelli para todos. Ricelli sobe as escadas da casa correndo indo para o quarto.

_Otávio, ele está se drogando. _ Falou Maria.

_Eu sei. Nos o subestimamos. Achamos que por ele ser quieto, parado averso a badalação, a diversão que ele não se envolveria com essas drogas. _ Disse Otávio para Maria.

_Quando pensamos que os problemas acabaram eles só começam. Que raiva! Que raiva!

Ricelli foi para o quarto onde adormeceu. Ricelli acordou e o dia já estava muito claro, eram meio-dia e meia do dia. Márcia Eduarda entrou no quarto dele, Ricelli ainda estava deitado na cama.

_O que aconteceu ontem, irmão para você ter parado na cadeia?

_Nada. Minha cabeça está doendo.

_Também você queria o que depois de beber muito. Não posso acreditar nisso, Ricelli! Você tá bebendo, se drogando. Está fazendo as coisas erradas. Isto não é legal! _Disse Márcia Eduarda.
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_Não venha me encher o saco você também, Márcia Eduarda! _ Falou Ricelli agressivamente.

_Que isso, Ricelli? Você agora está agressivo comigo e com a minha mãe. Essa turma que você tá andando tá mexendo com você._ Falou Márcia Eduarda.

_Desculpe! Mas eu não quero que ninguém me importuna. Eu só quero viver, se eu for eu mesmo vou acabar morrendo. _ Falou Ricelli.

Mais tarde Ricelli foi a casa de Leandro. Ricelli questionou por ter deixado-o para trás e disse que não os deletou para a polícia. Leandro e Ricelli saíram, compraram cervejas e maconha. Eles beberam e fumaram maconha no beco de uma favela do lado do bairro de onde eles moram. Ricelli ficou bêbado, ele ainda era fraco para bebidas e quando bebia ficava bêbado rápido. Ricelli foi para casa ainda bêbado onde rolou mais uma discussão naquela família. Vinícius Luciano e Ricelli brigaram, saíram na pancada. Mesmo percebendo que ele estava bêbado, Otávio e Maria ficaram do lado de Ricelli, Vinícius Luciano ficou morto de ciúme e raiva que resolveu passar alguns dias na casa de um amigo.

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No outro dia Ricelli voltou ao Psicólogo para mais uma sessão. Ricelli estava sentado na cadeira conversando com o Psicólogo.

_Você acha bom não ser você? Enquanto você está sob o efeito do álcool, da bebida você se solta, mas esse não é você! O efeito passa e aí você tem que dar com a realidade de ser você mesmo. _Disse a Psicóloga.

_Eu sei, mas pelo menos eu me divirto, eu me distraio, saio da minha vida que eu não quero viver. _ Disse Ricelli.

_Mas por alguns momentos. Você não acha melhor ser divertido, se distrair quando você é você mesmo? Você tem que ser solto, mais leve e distraído sendo você mesmo. Ninguém é feliz vivendo assim!

_Mas eu sou feliz assim.

_Não é. Você acha que é, mas não é. Porque mais tarde você percebe que isto não vale à pena, você se cansa dessa farsa. Isso é uma farsa montada. _Falou a Psicóloga para ele.

_Mas eu prefiro essa farsa montada a realidade.

_Não. Ninguém pode querer viver numa farsa para sempre.

_Por que não? _ Perguntou Ricelli.

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_Porque não é algo real, porque ninguém é feliz desse jeito. Pode até ser por um tempo, mas não adianta nada. Mais cedo ou mais tarde a vida encarregará de mostrar a sua realidade pra você mesmo.

_Que saber? Isso não vai adiantar. Para mim não tem jeito. Eu não sei o que estou fazendo aqui. Vou vazar!

_Espere, Ricelli! A sessão ainda não acabou.

_Mas para mim já acabou. Não adianta, pra mim não tem mais jeito a não ser a morte! Psicologia não adiantará em nada, não entrará no meu interior e fará que eu mude pra valer. Não vai valer a pena eu gastar tempo aqui!

_E valerá à pena gastar tempo não sendo você mesmo?

_Isto é problema meu. Tá! Fala Ricelli, grosseiramente.

_Não precisa ser arrogante, Ricelli. Você está querendo se mostrar forte, parecer forte através da sua arrogância, mas no fundo no fundo você sabe que precisa de ajuda, não é mesmo? _ Perguntou a Psicóloga para Ricelli. Ricelli não responde nada. _

_Não é mesmo? Estou mentindo, Ricelli?

_Talvez não. Desculpe! Eu não quis parecer grosseiro. Mas tenho certeza que não há mais jeito para mim, o problema não é a psicologia em si, sou eu mesmo. O problema sou eu mesmo que não

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tem mais jeito. Se eu não for outra pessoa, se eu não mudar mesmo que seja na marra eu vou morrer. Eu sei que vou morrer porque é torturante ser eu mesmo. _ Disse Ricelli a Psicóloga.

_Claro que há jeito, Ricelli. Para tudo há jeito, só não há para morte. Você já ouviu este ditado mais certo? Então.

_E o que você fará para mudar isso? Entrará dentro da minha mente e mudará os meus pensamentos.

_Não se preocupe com isso, Ricelli! Para tudo há o seu tempo. Não vai ser de uma hora para outra que tudo vai mudar, mas aos poucos. _ Falou a Psicóloga para Ricelli.

Ricelli chega em casa e se tranca no quarto, ele não quis falar com ninguém nem com sua mãe que sempre esteve ao seu lado. Ricelli passou o restante do dia trancado no quarto, Ricelli estava muito deprimido, ele chorou muito durante o dia em que esteve trancado no quarto.

_Eu quero ser outra pessoa, eu tenho que ser outra pessoa. Eu quero mudar, deixar de ser esse idiota, esse imbecil que eu sempre fui. Por que eu não posso? Por que eu não posso mudar? Já tô cansado de ser eu mesmo, eu preciso mudar radicalmente. _Falou Ricelli super triste e chorando.


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Dia seguinte, Ricelli ainda estava supertriste e desanimado. Não queria falar com ninguém, nem falou direito com sua mãe Maria. Maria estava muito triste com Ricelli, alias mais do que isso, estava decepcionada com Ricelli porque ela sempre esteve ao seu lado e ele agora, parecia estar se rebelando contra ela. D. Maria entrou no quarto de Ricelli e tentou conversar com ele.

_Eu não mudei, eu continuou o mesmo. Eu só quero amadurecer, crescer. Eu só quero sentir que sou igual a todo mundo.

_Mas você é igual a todo mundo.

_Não, você não entende o que eu quero dizer. Ninguém entende! É algo que vem do interior da minha alma, do meu peito. Eu nem sei o que dizer, como explicar esta diferença que eu sinto. Mas eu sei que não sou igual a ninguém. _Falou Ricelli para Maria.

Era tarde, umas duas horas da tarde quando Ricelli saiu do quarto, conversou com Márcia Eduarda. Ricelli, após conversar com sua irmã vai para o bar de dona Isaura, uma mulher de 55 anos obesa que é sua parenta.

_Oi Isaura!

_Olá Ricelli. Como vai?

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_Tudo bem. E você?

_Bem. E sua mãe? Faz tempo que não a vejo. Quero falar com ela depois.

_Ela está muito bem. Tem notícias da Flávia?

_Tá lá com o marido dela cuidando do filho. Tá ótima. Você é que desapareceu. Está estudando muito?

_Um pouco. Quero beber alguma coisa.

_Um suco de mamão com hortelã. Essa é uma boa pedida.

_Não. Eu quero uma dose de conhaque. Mas depois me Dê um litro de vodca, beleza!

_Você anda bebendo, Ricelli? Tá doido. _Disse Isaura surpresa.

_Ah, eu só quero curtir a vida. E, nada melhor que uma bebida para curtir a vida. Não é mesmo?_Falou Ricelli para Maria.

_Eu não posso pegar essas coisas não, Ricelli, sem antes de falar com sua mãe.

_Ah, Isaura, não embaça! Eu já tenho mais de 20 anos. Eu não preciso da permissão dos meus pais para fazer o que eu quero. Não sei por que às pessoas sempre têm a mania de achar que eu preciso da permissão dos meus pais para fazer qualquer merda nesta vida! Eu não preciso da permissão dos meus pais não, eu não

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sou mais criança. Então, traga-me essa porra logo, e não enche o saco, Isaura! Não é só porque você é a minha prima é que tem que me encher o saco. _ Falou Ricelli para Isaura. Isaura fica chocada com o comportamento de Ricelli.

Isaura pega um litro de vodca e a dose de conhaque e o serve. Ricelli bebe a dose de conhaque rapidamente, pega o litro de vodca e saindo diz:

_Põe na conta do meu pai, falô! _ Disse Ricelli para Isaura.

Ricelli chega em casa e vai para o quarto, Ricelli se tranca no quarto onde começa a beber o litro de vodca. Ricelli fica bêbado e adormece. Horas depois, Maria entra no quarto de Ricelli e vê o litro de vodca vazio jogado no chão. Maria o acorda, Ricelli acorda, Maria diz que tem uns meninos na sala esperando por ele. Ricelli desce para sala e encontra com Edu e Leandro que estão esperando. Ricelli os chama para subir para o quarto. Edu, Leandro e Ricelli sobem para o quarto. Ricelli aumenta o som do volume do aparelho do som, eles curtem no quarto, conversam bastante, trocam idéia. D. Maria comenta com Márcia Eduarda que não tá gostando da amizade que Ricelli arrumou. Mais uma vez, Ricelli fumou cigarro. Depois de algum tempo, eles saem da casa de Ricelli e vão para rua. Ricelli também está no meio. Eles ficam no meio da

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rua zoando, conversando e fumando maconha. Eles encontram com uns caras barra pesadas que convida-os para uma rave em uma casa do outro lado do bairro.

_Eu adoro rave. _Falou Ricelli para eles.

Ricelli chegou em casa meio noiado, Ricelli adorava ficar noiado; ele achava que estava abafando por estar noiado. Ricelli brigou com Vinícius Luciano assim que entrou no quarto. Vinícius Luciano não estava entendendo a atitude, a mudança do irmão, a nova personalidade do irmão. Ricelli, para Vinícius Luciano sempre pareceu fraco e frágil agora, ele estava mais forte e decido. Vinícius Luciano não gostou nada desta mudança. Ricelli se vestiu para sair, mas antes arrumou briga com Maria e Otávio. Maria começou a chorar muito por perceber que o filho estava muito mudado, por perceber que o filho estava se drogando. Otávio e Maria estavam sentados no sofá da sala assistindo TV quando ele desceu as escadas todo arrumado para sair.

_Eu não sei se voltarei hoje. _Falou Ricelli descendo as escadas.

_Onde você vai, Ricelli? _Perguntou Maria.

_Ah, dá um tempo! Toda mão que eu vou sair vocês vêm me encher o saco! Eu vou para uma rave num sítio. Por quê? O que

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vocês me dirão para tentar me impedir? Que eu sou bobo demais, idiota demais para ir a Rave? Que eu sou ingênuo, diferente demais para ir em Rave com os meus colegas? _ Disse Ricelli.

_Ricelli, eu não tô mais agüentando o jeito que você tá me tratando. O que mudou, meu filho? Por que você está agindo dessa forma? _Disse Maria.

_Ah, me deixe em paz! _Disse Ricelli, abrindo a porta e saindo.

_Ele não é mais o Ricelli que eu sempre conheci. Ele mudou, Otávio. Ele mudou para pior.

Disse Maria.

_Temos que ter paciência. Não dá para eu me aproximar dele! Eu tentei, tentei, mas ele tá mudado. Ele me odeia!

_Você também não pode se queixar. Você sempre o afastou de você mesmo.

As sessões de psicologia não estão adiantando.

Disse Maria para ele.

Ricelli, Edu e Leandro foram para à Rave no sítio do outro bairro. Nesta rave rolou de tudo, estava rolando música eletrônica, tinha um DJ agitando a galera, muitos jovens, muita bebida, muita gente bonita se entrosando. Foi nesta rave que Ricelli bebeu para

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caramba e vomitou várias vezes. Apesar de Ricelli estar tentando se agrupar, se enturmar no meio da turma ele é fraco para beber e ficava rapidamente bêbado, o que gerava entre ele e a galera uma zoação, pois os meninos o zoava por ele sempre ser o primeiro a ficar bêbadaço. Ricelli ficou acordado à noite toda bebendo e fumando maconha junto de Edu e Leandro. A galera barra pesada que ele conheceu apresentou –lhe algumas meninas, como Ricelli estava livre, leve e solto jogou muita ideia nas meninas até beijar duas, cada um ficou com duas. Edu ficou com duas meninas e Leandro também. Como estavam sob o efeito do ecstasy Ricelli, Edu e Leandro levaram as meninas para o mesmo quarto e transaram com elas todos juntos rolando assim uma orgia entre eles.

Maria ficou muito preocupa pensando aonde o seu filho poderia estar, pois Ricelli não chegava em casa nunca. As horas foram passando, o dia acabando e Maria cada vez mais preocupada. Maria e Otávio foram à caça de Ricelli. Maria ligou para alguns conhecidos de Ricelli perguntando sobre o paradeiro dele, depois ela e Otávio saíram para rua procurando saber onde estava acontecendo uma rave em um sítio no bairro, eles perguntaram a todos os jovens que viam pela frente. A rave estava muito boa, tinha se passado um dia que a rave estava acontecendo e ainda àqueles

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jovens e adolescentes estavam superanimado. Ricelli também estava muito animado e divertido tinha gerido muito álcool e consumido muita droga naquele dia estava muito noiado, doido; mesmo sabendo que aquilo não era legal estava tão feliz. Mas essa felicidade não durou por muito tempo, pois como a Psicóloga lhe falou, a vida daria um jeito de lhe trazer a realidade que era a sua vida. Numa conversa com os meninos, incluindo, os meninos barras pesadas ele começou a sentir excluído da turma quando os meninos começaram a zoá-lo, a debochar dele dizendo que ele nem sabia transar, nem sabia beijar. Os meninos o zoaram muito, Ricelli por sua vez, tentou se segurar, mas não deu; acabou brigando com os meninos, e saiu na porrada com um dos meninos barra pesadas. Edu, Leandro nem ficaram do lado dele, Ricelli apanhou dos caras, vomitou no chão depois de levar socos na barriga. Depois que este episódio passou, e ele se recuperou melhorando-se, Ricelli brigou com Edu e Leandro porque eles o deixaram na mão quando brigou com um dos meninos barras pesadas que eles conheceram dia atrás e Ricelli também disse que não os deletou para polícia porque pensou que eles fossem seus amigos de verdade. Depois de tanto papo Edu, Leandro e Ricelli ficam de boa e voltam a beber e se a drogar muito. Eles bebem muito, se drogam muito mesmo. Ricelli

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até tem a primeira experiência de cheirar farinha. Na primeira “tragada” na farinha o seu nariz começou a sair sangue, os meninos disseram que era assim mesmo no início.

Depois de tanto tempo perguntando a várias pessoas Maria e Otávio conseguem localizar o sítio onde Ricelli está. Otávio e Maria de carro chegam ao portão do sítio.

_Eu vou lá!_ Disse Maria.

_Você é doida, mulher? Eu é que vou. Eu sou homem, eu é que tenho que ir lá pegar ele.

_Não. Você vai espantar ele! Ele é mais chegado a mim. Eu sei conversar com ele, eu sei. Eu vou lá, Otávio. Fique aí e me espere!_ Afirmou Maria.

_Eu vou com você. Disse Otávio.

_Não, eu tenho que ir sozinha. Eu tenho que ir sozinha.

_Falou Maria, que desce do carro.

Maria entra no sítio e se aproxima da casa de onde está rolando a festa. Tinha algumas pessoas na piscina tomando banho. Maria fica observando, olhando para todos os lados para ver se encontra Ricelli. Maria entra na casa onde está cheia de jovens dançando, zoando e curtindo. O som da música eletrônica está estrondando a casa. Um cara se aproxima de Maria oferecendo-lhe

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baseado, Maria rapidamente sai fora dele. Maria começa a andar devargamente pela casa, observando tudo e todos. De repente, ela começa subir as escadas que dá acesso ao segundo andar da casa do sítio. Maria chega ao andar de cima da casa e andando lentamente vai olhando os quartos. Em um dos quartos ela vê Edu, Leandro e Ricelli quase transando com uma menina. Maria entra no quarto chamando por Ricelli. Ricelli está bêbado e noiado.

_O que você tá fazendo aqui, porra!? _Perguntou Ricelli.

_Você vai vir agora, Ricelli!_ Falou Maria com ar de autoridade. Maria pega no braço de Ricelli.

_Me solta, porra!_ Disse Ricelli agressivamente.

_Me respeite! _Maria mete um tapa na cara de Ricelli.

_Quem é esta velhota? _ Pergunta Edu, que empurra Maria.

_Ei, não empurre a minha mãe. _Falou Ricelli que dá um soco na cara de Edu. Edu cai no chão.

_Vem Ricelli, vem!_ Disse Maria que pega no braço de Ricelli e sai correndo com ele.

Ricelli e Maria saem da casa correndo, ela ainda segurando na mão dele. Quando estão correndo no jardim do sítio, Ricelli para e se solta dela.

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_Me solte! Me solte!_ Falou Ricelli se soltando da mão dela.

_Que isso, Ricelli? _Perguntou Maria.

_Que droga! Por que você tinha que vir aqui? Por quê? Você me fez pagar maior mico na frente dos meus amigos. Que droga! Você não tinha nada que ter aparecido aqui. Você fica me tratando com criança!

_Eu só quero te proteger, Ricelli!

_De? De me divertir com os meus amigos? De me ver feliz; é?_ Perguntou Ricelli para Maria.

_Não. Mas que você se perca. Eles não são seus amigos de verdade, amigos de verdade não dizem sim para tudo, verdadeiros amigos não te levam mesmo que inconscientemente a fazer coisas que eles fazem só para você se sentir no meio da turma.

_Cala boca!

_Olha para você! Olha como você tá!

_Ah, eu tô bem, muito melhor que você. Eu só estava me divertindo.

_Você acha que estava se divertindo, mas estava se perdendo tentando ser igual a esses meninos. Você não é assim.
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_Mas eu quero ser assim, eu tenho que ser assim. Eu desejo ser assim! Se eu não for assim eu vou morrer, eu vou morrer.

_Não, não vai. Isto é loucura sua! Eu te ajudo meu filho, eu estou aqui para isso! _Disse Maria para Ricelli.

_Eu não preciso de ajuda. Eu só quero e preciso que me entendam! Você nem é feliz, vive aí num casamento fracassado há anos e mesmo assim não tenta sair dele por puro comodismo. Não é nem por causa dos seus filhos adultos que você tá presa a um casamento chato, insosso, mas é porque você não tem coragem de mudar. Você é infeliz!

_Pelo menos a minha infelicidade é algo real, não uso da bebida e da droga para fugir dele.

_Mas você sofre não fugindo dele.

_Não há como fugir, meu filho. Mais cedo ou mais tarde vamos ter que encarar o sofrimento. _ Disse Maria para Ricelli

_Estou aqui para ajudá-lo, Ricelli. Sou sua mãe, eu te amo. _Disse Maria para Ricelli. Ricelli fica sem falar nada só pensando no que ela disse.

_Ai!_ Exclamou Ricelli.

_O que foi, Ricelli?

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_Vou vomitar. _Ricelli abaixa a cabeça e vomita no jardim do sítio.

_Eu não queria vomitar. Odeio vomitar! Beber também traz consequências. _ Ricelli começa a andar, Maria põe o braço dele em volta do pescoço dela, e começam andar devagarzinho.

_Eu não quero ser bom, mãe! Eu não quero. Bonzinho só se fode. Bonzinho só se fode. _ Ricelli falou para a mãe Maria.

Após algum tempo, Ricelli chegou com Maria e Otávio em casa. Otávio levou Ricelli direto para o quarto. Ricelli adormeceu lentamente quando foi colocado na cama.

_Bonzinho só se fode! Eu não quero ser bom, pois os bons só se fodem. É a vida! Não há como mudar. _ Ricelli falou com os olhos entreabertos. Otávio sai do quarto.

Maria e Otávio conversam sobre o que fazer com Ricelli. Maria e Otávio reúnem Márcia Eduarda e Vinícius Luciano para conversar sobre Ricelli. Maria pede para a família ajudá-la a cuidar de Ricelli, porque ele poderia partir a qualquer momento. Vinícius Luciano disse que tentaria mudar o seu jeito de tratá-lo. No dia seguinte, Ricelli acordou, tomou o seu café da manhã e ficou no quarto o dia inteiro; estava sem ânimo para nada, estava triste, deprimido querendo sair daquele mundo. Ricelli começa a

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perguntar-se se a sua amizade com o Edu e Leandro é verdadeira. Maria e Otávio entram no quarto de Ricelli para conversar com ele, mas Ricelli se mostra agressivo com eles, Maria diz que Ricelli está a magoando muito a tratando daquele jeito.

_Desculpe se eu estou te tratando do jeito que você não gosta. Mas, eu não agüento mais ser eu. Eu não agüento mais. _Falou Ricelli para eles.

_Por que, Ricelli? Por que você fala de uma maneira sinistra como se você soubesse que... Eu não quero nem pensar.

_Eu só quero ficar sozinho. _Falou Ricelli.
Depois desse episódio inédito em sua vida, Ricelli decidiu dar um tempo na amizade, quer dizer, não ficar procurando muito Edu e Leandro, pois sabia que poderia estragar sua amizade com eles quando eles dissessem alguma coisa que ele não gostasse como ele não gostou das brincadeiras que eles fizeram com ele na festa. Ricelli passou alguns dias em casa, ia alegremente para as sessões de Psicologia, ele adorava ir para as sessões de Psicologia porque saía de lá muito leve, muito melhor e descontraído. Ricelli adora conversar e dialogar e nada melhor que uma profissional
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para ele fazer isso. Mas sabíamos que isto não duraria por muito tempo até quando ele encontrasse Edu e Leandro.

Em um belo dia quando Ricelli estava voltando das sessões de Psicologia, ele encontrou com Edu e Leandro.

_E aí, Zé, por que você sumiu? Nos abandonou, por quê?

_Perguntou Edu.

_Ah, tô dando um tempo._ Disse Ricelli para ele.

_Nossa, Zé! Desde quando rolou aquela mega rave que a gente não se fala. O que te deu, cara? Pensei que você gostasse de nós, gostasse de andar conosco. Qual é, Zé? Você sabe que andando com a gente você se dá bem. O que te deu para nos abandonar?

Perguntou Leandro para ela.

Ricelli, Edu e Leandro continuam conversando e trocando idéia. Os meninos o chamam para ir ao bar beber. Ricelli topa ir com eles para o bar. Ricelli, Edu e Leandro passam à tarde no bar bebendo, chapando todas e conversando. Novamente, Ricelli estava se sentindo muito feliz com a vida, por viver intensamente a vida. Era noite quando Maria, Otávio, Márcia Eduarda e Vinícius Luciano estavam à sala quando, bêbado Ricelli chegou em casa e foi logo para o quarto dormir, nem falou nada com eles. Maria foi a mais que ficou sentida com a atitude dele.

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_Eu estou decepcionada com ele. Eu nunca pensei que ele pudesse me decepcionar tanto.

_Mãe, ele não quer te magoar, mas nem se sentir magoado. Ele tá tentando achar um lugar ao mundo. _Disse Márcia Eduarda.

_Ele tá bebendo e se drogando.

_Aí, eu nunca o Ricelli tá mais na frente do que eu. Nunca pensei que ele fosse passar a perna em mim e mostrar mais atitude. _Falou Vinícius Luciano.

_Ele não quer ser mais o que ele era antes. Temos que deixá-lo viver a vida da maneira que ele quer, se sentir feliz. _Falou Otávio.

_Mas esta não é a melhor maneira dele ser feliz. Ele tá autodestruindo-se, é sempre assim._ Falou Maria.

_Ele tem que arranjar um jeito de se curar. Ele tem que se divertir. _ Disse Otávio.

Ricelli não estava mais aceitando que sua mãe lhe desse conselhos, para ele toda vez que ela iria conversar com ele sobre qualquer coisa era porque ela queria encher o seu saco, e consecutivamente mais uma briga entre ele e Maria se iniciava. Ricelli começou a passar mais nenhum minuto dentro de casa, só

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na casa de Edu e Leandro, ia em festas, à bares. Fumava maconha o dia inteiro juntos dos outros colegas, ele sabia no fundo que aquilo estava errado, mas não queria se preocupar se era certo ou errado, apenas queria se divertir. Ricelli estava imensamente feliz.

Tudo continuaria bem se a vida não desse um jeito de sempre trazê-lo a verdadeira realidade. Ricelli ficou seriamente brigado com os meninos quando os meninos começou a zoá-lo, a brincar com ele o chamando de viadinho, bichinha. Ricelli não suportou tamanha zoação e partiu para cima dos meninos tentando batê-los, mas foi Ricelli quem saiu apanhando na história, pois todos os meninos na maior covardia bateram muito nele. Nesse dia,Ricelli chegou em casa com olho roxo e machucado, com muita vergonha não disse nada a ninguém sobre o que tinha acontecido com ele quando Maria lhe perguntou o que tinha acontecido. Ricelli se trancou no quarto onde chorou muito.

_É, você tem razão. Não é isso o que você quer de mim? Que eu sofra, que eu me dê mal? Não é isso? Pois bem, você venceu! Tenho que lhe dar os parabéns, você venceu. Finalmente você venceu, alias, sempre vai vencer. O que eu fiz para merecer isso. Eu estava tão feliz, me sentindo tão bem, tão igual aos outros, Mas você sempre dá um jeito de me mostrar à realidade dura e cruel,

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não é, que é a minha vida? Não dá para entender que eu não quero esta minha vida, que eu não quero viver a bosta da minha vida infeliz. Eu não quero esta vida, Deus! Eu não quero. Por favor, não me deixe viver esta vida. Eu quero mudar, eu tenho que mudar para não sofrer, para não sofrer. _Falou Ricelli chorando muito. Ricelli começa a bater no colchão.

_Por quê? Por quê? Por que eu tenho que viver esta droga dessa vida. Por quê? Me dê um sinal, Deus, me dê uma luz no fim do túnel, por favor! Será que você é tão mal que só quer que eu me ferre. Não é possível! Se eu faço tudo certo eu me ferro, se eu mudo ou tento me ferrar, eu me ferro. Eu vou sempre me ferrar. De uma maneira ou de outra eu vou me ferrar. Eu sempre vou me ferrar e eu nunca vou conseguir me livrar disso. Eu nunca vou conseguir me livrar disso! Eu nunca vou conseguir me livrar desta vida desgraçada que Deus me deu! Eu nunca vou conseguir ser feliz, por isso eu não posso ter amigos, eu não posso ter namorada, eu não posso ter ninguém. Tá feliz, Deus, tá? Você deve estar mesmo. O seu plano de me fazer me sentir um nada deu certo, sempre dará certo. Por quê? _Perguntou Ricelli, chorando e batendo no colchão. Ricelli deita na cama e fica pensativo.
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_Por que Deus, Por quê? Por que eu não posso ser normal como todas as outras pessoas. Por quê? Eu queria tanto ser igual às outras pessoas, tanto. Mas tanto mesmo eu queria ser igual às outras pessoas que são felizes, que se divertem, que tem tudo. Tudo! Eu não vou agüentar a pressão de ser eu mesmo, eu não vou agüentar. Eu não vou agüentar Deus! Por favor, me tire desta vida, por favor! Por que você quer que eu sofra tanto, por quê? Eu não entendo nada. Nada do que tanto sofrimento servirá para a minha vida. Eu não entendo. O que eu preciso aprender através do sofrimento. Talvez, ser uma pessoa melhor do que sou. Talvez, porque eu tenha que ser mais humilde, talvez porque eu tenha que ser essa pessoa que sou mesmo. Ah, cansei de querer encontrar respostas. Respostas que eu nunca obterei. Só você, meu Senhor, é quem sabe das coisas. Eu só não queria sofrer mais do que eu sofri na vida. Desde pequeno eu sofro, tenho esta vida. Esta vida me faz mal. Me dê outra vida senhor, para que eu possa viver em paz, sem ser atormentando por algo que eu não sei resolver. _ Disse Ricelli com muita lágrima escorrendo pelos olhos.

Horas depois Ricelli pega a caneta e o caderno na gaveta da cômoda, senta-se na beirada da cama e começa a escrever.


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_Eu já cansei de não encontrar respostas para minhas perguntas. São tantas perguntas que não têm respostas, não sei por quê. não sei por que eu não tenho respostas para as minhas perguntas. Eu não sei por que eu não tenho as soluções para os problemas de minhas vidas. Eu apenas queria, gostaria de desistir de viver. Eu apenas gostaria de ficar bem quietinho no meu canto e que ninguém me perturbasse, que quando chegasse a hora de morrer, eu morresse em paz. Na eterna paz!

Escreveu Ricelli em seu caderno.

Os dias se passaram Ricelli estava tentando aceitar, se conformar com sua vida, ele não procurou mais Edu e nem Leandro. Ricelli estava na sessão de psicologia dialogando com a Psicóloga.

_Você tem razão. A vida sempre dará um jeito de mostrar para mim que a minha realidade, a realidade de que eu não nasci para ser feliz. _ Falou Ricelli para a Psicóloga.

_Você nasceu para ser feliz, sim. Todo mundo nasceu. Busque a sua felicidade. _ Falou a Psicóloga.

_Eu estava tentando, mas não consegui. _Disse Ricelli.

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_Não. Você estava tentando ser o que você não é para agradar os outros. Ninguém pode ser feliz assim, Ricelli. _Disse a Psicóloga.

Passaram os dias, Ricelli estava definitivamente afastado de seus “colegas” não os via e nem os procurava, Márcia Eduarda perguntou a ele o que tinha acontecido para ele não estar mais saindo com os meninos, mais uma vez Ricelli punha, expunha suas idéias depressivas. Ricelli voltou a ser aquele mesmo menino de antes tímido, calado e solitário, por ser assim Ricelli sofria muito. Ricelli por ser assim, arrumava muitas confusões na escola e, estava arrumando ultimamente muitas confusões principalmente com Leo, o menino que sempre o atormentou, zoou e ficava enchendo a paciência dele. Ricelli se revoltava ainda mais com tudo que estava acontecendo em sua vida, não queria voltar a ser como era antes por nada deste mundo. Até comentou isso com a Psicóloga que lhe perguntou por que a necessidade de ser outra pessoa era tão grande.

Era dia de sábado a família Dias Costa composta por Maria, Otávio, Vinícius Luciano e Márcia Eduarda foram passar o dia inteiro na casa dos pais de Michelle, namorada de Vinícius Luciano, Ricelli não foi. Ricelli tentou não deixar a solidão dominá-lo, foi ao

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bar e comprou muita cerveja e um litro de conhaque. Ricelli volta em casa e passa o dia todo bebendo cerveja e tomando conhaque e caipirinha. Noite, a família Dia Costa chegam em casa e encontram Ricelli caído no sofá muito bêbado.

_Ricelli! Exclamou Maria, espantadíssima.

Otávio e Vinícius Luciano se aproximam de Ricelli, veem várias garrafas de cervejas e o litro de conhaque vazio jogado no chão. Otávio bate no rosto de leve no rosto de Ricelli para ele acorda, ele acorda ainda grogue.

_O que tá acontecendo aqui?

Ricelli perguntou acordando.

_Eu é que pergunto. O que tá acontecendo aqui? _Disse Otávio muito bravo com ele.

_Que draminha de novela mexicana estilo “Maria do Bairro”. O que que foi? Ai, não venha me encher o saco só por que tomei um porrezinho, pois minha cabeça está estourando. Eu vou subir para o meu quarto! Disse Ricelli. Márcia, Otávio, Márcia Eduarda ficam espantos com a atitude de Ricelli.

_Não vai não, Ricelli! _Disse Otávio puxando-o pelo braço.

_Agora nós vamos ter uma conversa séria e definitiva.

_Complementou Otávio.

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_Me solte, porra! _ Ordena Ricelli.

_Me respeite, Ricelli senão eu te desço o braço.

_Finalmente você tá deixando transparecer o que você realmente sente por mim, não é, papaizinho? Quer dizer que as suas compreensões relacionadas a mim não passam de uma farsa, não é, querido papai? _ Disse Ricelli, revoltado.

_Não venha com esta, Ricelli. Você tá querendo inverter esta situação. É você que tá errado, não sou eu. Olha só esta bagunça!

_O que tem? Eu só tomei um litro de conhaque e muita cerveja. Estava tão bom, pena que não tinha ninguém para me acompanhar nesta.

_Por que você faz assim, Ricelli? Por quê? _ Perguntou Márcia Eduarda ao irmão.

_Nós queremos ajudá-lo, meu filho, mas se você não nos ajudar. Você não era assim, Ricelli. Você não é assim. _ Disse Maria.

_Quem disse que eu não sou?

_Que droga! Nós estamos querendo ajudá-lo, mas você também não nos ajuda. O que tá acontecendo contigo, por favor, nos diga agora! Nos diga agora para que possamos ajudá-lo. _ Disse Maria.

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_Não tá acontecendo nada, porra! Me deixem em paz. Ninguém nunca se preocupou comigo. Por que agora vão se preocupar?

_Isto é mentira, Ricelli. Sempre nos preocupamos contigo. Não seja injusto! _Falou Márcia Eduarda ao irmão.

_Quanto drama! Deixem o menino beber o quanto quiser. Ele tá certo. Tem que enfiar a cara mesmo na bebida para passar o tempo. Não te julgo mano. _Disse Vinícius Luciano ao irmão.

_Olha! Até que agora você me falou uma coisa que preste, irmãozinho! Eu só quero viver, não é isso que temos que pensar e fazer? Claro, somos obrigados a viver a vida do jeito que ela é, querendo ou não somos obrigados a vivê-la. Então, estou vivendo a minha vida. _ Disse Ricelli a eles.

Eles vão discutindo o clima da conversa, da discussão só aumenta. Até que chega no ponto em que todos ficam nervosos, Ricelli se mostra sarcástico nas discussões até ter suas explosões com o pai.

_Finalmente a sua máscara caiu, pai! Finalmente confirmamos o que eu já sabia desde o início que aquela aproximação que você queria ou dizia que queria ter comigo era tudo mentira.

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_Cala boca, moleque!_ Exclamou Otávio.

_Por que eu tenho que me calar se tudo que eu digo é verdade? É por isso mesmo, não é? É por isso que eu tenho que me calar porque tudo que eu digo não passam de verdades e verdades doem. _ Confronta Ricelli.

_Cala boca que eu já mandei. Eu vou te descer o braço.

_Isto, desce que eu quero ver!

_Não Otávio, isso não!

_Pai, não! Exclama Márcia Eduarda.

_Desce! Desce! Pode descer porque eu já tô acostumado mesmo. Eu já sabia que a sua compreensão a mim, a sua tentativa de ser meu amigo era pura mentira. Eu sabia desde o início, papai, por isso eu não te dei espaço para você entrar. _Gritou Ricelli para seu pai.

O clima da discussão só vai aumentando, Otávio e Ricelli perdem a cabeça e começam a ofender um ao outro. Otávio mete um soco na cara de Ricelli, ele cai no chão e se revolta ainda mais com o pai e o xinga muito. Ricelli com muita raiva sobe para o quarto, pega na carteira de seu pai, pega dinheiro e sai novamente. Ricelli vai em direção a uma favela onde compra pedras de cracks e cachaça. Ricelli fica muito doido, noiado e volta para casa. Ricelli

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entra em casa, na sala mesmo começa a destruir todos os móveis, os objetos e a casa inteira. Maria e Otávio ficam perplexos com a atitude do filho. Vinícius e Otávio tentam conter a fúria de Ricelli que está totalmente transtornado, mas não conseguem, a força de Ricelli naquele exato momento era bastante e ninguém conseguia detê-lo. Ricelli foi para a cozinha onde também começou a destruir as coisas, fogão, geladeira. Teve uma hora que Ricelli pegou o botijão cheio de gás e jogou na janela quebrando os vidros. Maria, Márcia Eduarda só gritavam e choravam de desespero. Otávio disse que iria chamar a policia, mas Maria não deixou. A confusão só terminou quando Ricelli pegou a faca e cortou os seus pulsos na frente de todos. Ricelli cai no chão desfalecido. Maria, Márcia Eduarda e Vinícius se apavoram com a situação, Otávio nem tanto e ainda diz que se não seria melhor se ele morresse mesmo, ao ouvi-lo dizer isso, Maria mete um tapa no rosto de Otávio. Enquanto Vinícius Luciano e Márcia Eduarda carregam o irmão para o carro, Otávio e Maria iniciam uma discussão sobre Ricelli.

_Eu não quero saber se ele é ou não é doente, se ele está ou não está errado nesta história. Eu só quero salvar o meu filho. Se você não quer, isso só mostra o quanto o Ricelli tá certo em relação a você!

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Disse Maria que saiu correndo atrás de Márcia Eduarda e de Vinícius Luciano para levar Ricelli para o hospital. Otávio ficou em casa se lamentando por tudo. Otavio se ajoelhou no chão em frente à imagem de nossa senhora da aparecida e começou a desabafar com ela.

_Me perdoe! Perdoe-me! Perdoe-me por não amá-lo como eu deveria amá-lo. Eu tentei, eu tentei, mas não consegui amá-lo. Eu sei que ele é meu filho, mas eu não consegui. Eu não consegui, não foi por falha só minha. Ele e eu não temos afinidades e fomos cada vez nos distanciando. Me perdoe nossa Sra. de aparecida. Me perdoe! _ Disse Otávio. Otávio ficou horas pensativo, pensando se deveria ir ou não ao hospital. Otávio sai de casa depois de tanto pensar.

Maria está no corredor do hospital muito abalada. Vinícius Luciano e Márcia Eduarda estão ao seu lado.

_Mãe, não fica assim. Tudo vai ocorrer bem! _Disse Márcia Eduarda para ela.

_Eu não sei se tudo ficará bem. Ele perdeu muito sangue._ Respondeu Maria.

_Eu não sei o que se passa pela cabeça dele para cometer essas coisas. Um menino tão novo que tem tanta vida pela frente

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fazendo isto. Como é que pode alguém não querer viver. _ Perguntou Vinícius Luciano.

_O sofrimento faz com que a gente desista de viver. _Respondeu Maria.

Depois de algum tempo o médico dá a notícia para eles de que Ricelli está bem melhor agora, que ele só ficará em observação. Maria diz que vai passar à noite inteira no hospital para não desgrudar um só instante dele. Márcia Eduarda e Vinícius Luciano vão embora deixando Maria dormindo, sentada na cadeira no quarto em que Ricelli está. Em casa, Márcia Eduarda e Vinícius Luciano pegam o pai dormindo em cima do sofá. Márcia Eduarda se aproxima do pai.

_Pai! Pai! Vamos para o quarto.

_Já chegaram. E o Ricelli com está?

_Bem melhor, pai.

_Por que você não foi ao hospital, pai? _Perguntou Vinícius Luciano.

_Porque sua mãe não me queria lá. Ela acha que eu quero que o Ricelli morra. Não é isso, mas temos que dá bronca nele quando ele faz algo errado. Olha só como ele deixou esta casa!_Disse Otávio a eles.

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_Ele quebrou quase tudo. Não pensei que ele chegaria a tanto. Mas temos que entender ele, ele não fez isso por mal. Ele estava fora dele mesmo, a cabeça dele está cheia de revolta. Revolta por tudo, pela vida._ Disse Márcia Eduarda.

_Eu já cansei de tentar entendê-lo. Acho melhor internar ele logo em uma clinica de malucos se não as coisas só vão piorar. _Falou Vinícius Luciano.

O dia amanheceu, Ricelli abriu os olhos e viu sua mãe sentada na cadeira dormindo. De repente sua mãe abre os olhos.

_Já acordou, Ricelli?

_Já. Por que você passou à noite aqui?

_Eu não poderia deixá-lo sozinho, meu filho.

Maria se aproximou da cama dele. Ricelli começou a chorar compulsivamente.

_Por que está chorando, meu filho? _Perguntou Maria.

_Porque eu tô com vergonha. Eu não queria ter feito aquilo, eu estava fora de mim. Eu não queria, eu nem sei como pude fazer aquilo lá em casa. Me perdoa, mãe! Exclama Ricelli.

_Eu sempre te perdoarei, meu filho. _ Falou Maria.

Depois de horas Otávio apareceu no hospital, Maria é fria com ele.

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_Tá vendo só o que o Ricelli tá causando? Até nós estamos nos afastando. _Falou Otávio.

_Nós estamos afastados há muito tempo. _Respondeu Maria.

_Como ele está? _Perguntou Otávio.

_Bem. Daqui há pouco ele volta para casa.

_Temos que achar uma maneira de tratá-lo, de ajudá-lo mesmo que ele não queira.

_Do que você tá falando?

_De interná-lo numa clínica psiquiátrica.

_Não. Você tá maluco? Ele não suportaria. Ele não é maluco.

_Ele não é, mas pode ficar se não darmos para ele o tratamento adequado para não deixá-lo ficar maluco. As sessões de psicologia não estão adiantando. _ Disse Otávio.

Depois de retrucar tanto, Maria acha que aquela é a melhor solução. E aceita que ele vá ser internado na clínica psiquiátrica. Ricelli vai para casa onde seus pais têm uma longa conversa com ele. Otávio e Maria dizem que vão interná-lo numa clinica psiquiátrica, no primeiro momento Ricelli se revolta com eles. Os
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enfermeiros da clinicas psiquiátrica levam Ricelli para ser internado. Maria chora ao ver a situação que o filho chegou.

_Não, eu não quero ir. Eu não sou maluco. Eu não quero ir, eu não posso ir. Eu não sou maluco. Eu não sou maluco, por favor! Por favor, não me levem. Eu não sou maluco. Eu não sou maluco. Eu não sou maluco. Por favor, me deixem ficar! Mãe, pai não deixem eles me levarem. Não deixem, por favor! Não deixem eles me levar. Eu não sou maluco. Eu não sou maluco. Por que vocês estão fazendo isto comigo. Por quê? Eu não sou maluco. Eu não sou maluco. Eu não sou maluco. Eu não sou... Por favor, me salvem! Me salvem seus desgraçados! Seus filhos da puta! _Falou Ricelli gritando e chorando ao ser encaminhado para ambulância.

Maria começa a se questionar se o que fez era o certo. No dia seguinte Maria foi visitá-lo e estranhou estar naquele lugar cheio de pessoas com problemas mentais.

_Meu filho não tem esses problemas. Não tem. _ Disse Maria entrando no sanatório.

Maria conversou com o médico psiquiátrico que estava cuidando do caso de seu filho. Ele lhe tranqüilizou dizendo que o estado de Ricelli não é muito grave, mas que poderia se agravar ainda mais tornando-se um caso de Esquizofrenia se ele não

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recebesse os tratamentos adequados. O médico também disse que ele só estava sofrendo de depressão e que para se recuperar tinha que ter o apoio da família. Maria ficou aliviada, mas ao ver o filho ficou ela ficou tão triste. Ricelli estava sentado no jardim do sanatório, estava todo branco com uma camisa de força, o seu braço estava com picadas de agulhas. Maria sentou-se ao seu lado.

_Ricelli. Como você tá meu filho?_ Perguntou Maria.

_Quem é você? Fala Ricelli sem reconhecê-la. Ele estava grogue por causa dos medicamentos.

_Como quem sou eu. Eu sou sua mãe. Não tá me reconhecendo por que, Ricelli? O que eles estão fazendo com você? _Disse Maria espantada.

Ao ver que Ricelli estava grogue e débil, Maria vai até o médico que tá tratando do seu filho para tirar satisfações de como estão tratando Ricelli e que medicamentos estão sendo usados. Os médicos disseram que ele estava daquele jeito por causa dos remédios fortes que ele havia tomado. Maria não aceita que o filho esteja passando por aquele tipo de situação, e pede para suspenderem o tratamento porque o levaria com ela para casa, mas o médico disse a ela que ela não poderia levá-lo se o


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responsável pela internação não autorizasse a sua saída, e quem poderia autorizar a sua saída era o pai dele.

Maria chegou em casa pedindo e implorando que tirasse Ricelli daquele “hospício”. Maria disse que o pessoal da clinica o deixaria com retardo mental, doido se ele continuasse lá. Mas Otávio achou melhor deixá-lo na clinica com o argumento que seria melhor para ele. Maria se põe a chorar intensamente.

_O meu filho não merece isso que estão fazendo com ele. Ele é um menino bom, ótimo e perfeito. Não merece que façam isso com ele. Ele não é nenhum doido, mas se ele continuar lá, ele vai sair de lá pior do que entrou, doido. Você entende? _Disse Maria.

_Não, Maria. Você tá equivocada. Os médicos são para melhorar os pacientes não para piorá-los. Ele tá no início do tratamento, é normal que ele tenha alguma reação contrária. Mas vai ficar tudo bem.

_Você não quer ajudar o nosso filho, não é? Por que você não quer ajudá-lo?_ Gritou Maria.

_Não comece com suas histerias por causa do Ricelli não, Maria.

_Não é histeria, é a verdade. Você parece desejar que ele se ferre, talvez por isso o mandou, o internou naquela clinica e não

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quer tirar. Você quer que ele saia de lá muito pior, ou melhor, você não quer que ele saía de lá. Você é um monstro. Que tipo de pai faz isso com o próprio filho? _ Disse Maria para Otávio.

_Não enche, Maria. Se estou fazendo isso é para o bem dele. Se eu não ajudo você reclama, se eu ajudo você reclama. Realmente não dá para te entender, mulher! Não dá. Que saco!

_Sai, Otávio muito bravo com Maria.

Após algum tempo Otávio está na calçada sentado no meio fio de uma praça, Vinícius Luciano se aproxima dele.

_O que foi, pai? Por que está aí na sua? _Perguntou Vinícius Luciano.

_Por nada. Só pensando.

_Na briga que teve com minha mãe? _ Perguntou Vinícius Luciano.

_Mais ou menos. Parece que nosso casamento não tem mais jeito. Estamos brigando quase todos os dias e pelos os mesmos motivos. O Ricelli vai nos separar. _ Disse Otávio.

_Por isso eu odeio o Ricelli. Ele é o causador de tudo, tudo. De todas as nossas desgraças! _ Falou Vinícius Luciano.

_Agora que você disse que odeia o Ricelli, não que eu fique feliz com isso, eu me sinto aliviado.

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_Por quê?

_Porque eu também não gosto dele. Apesar dele ser meu filho, eu não gosto dele. Eu me sentia culpado por isso, por sentir isso dele. Eu não queria sentir, mas eu sinto isso por ele. E agora que você falou que odeia ele, me sinto aliviado por saber que é normal sentir ódio por alguém do nosso sangue. _ Falou Otávio para Vinícius Luciano.

_Só a mamãe que é trouxa de ficar passando a mão na cabecinha dele, para tudo que ele faz, para todas as histeria que ele faz. Ele merece um soco na cara para ver se vira homem de verdade. ­ Disse Vinícius Luciano.

_Você me acha um monstro, um ser abominável por não gostar do Ricelli? _Perguntou Otávio para Vinícius Luciano.

_Não. Te acho humano. _Respondeu Vinícius Luciano.

_Obrigado filho, só você que me entende! _ Disse Otávio para Vinícius. Otávio o abraça.

_Mas eu sou um monstro. Eu mandei-o, internei-o naquela clinica psiquiátrica para me ver livre dele, eu quero que ele fique por lá um bom tempo. Mandei darem remédios fortíssimos para ele para que ele ficasse pior que antes, só para ele não ter


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motivos de sair de lá. Achei que se ele ficasse longe os problemas se acabariam. _ Afirmou Otávio para Vinícius Luciano.
Noite. Mais de meia noite, Otávio estava revirando-se na cama por pensar no mal que estava fazendo ao filho. De repente ele se levanta sem que Maria perceba e se arruma todo, desce para o primeiro andar da casa e sai de casa. Otávio pega o carro e sai em direção a clinica. Chegando à clinica Otávio pede para falar com o diretor. Mas o diretor já tinha ido para casa, os enfermeiros dizem que não podiam liberar Ricelli sem a permissão do diretor do hospital.

_Eu não posso esperar até amanhã, porra! Eu quero o meu filho agora. É por falta de dinheiro, é? Então eu te dou esse dinheiro para você liberar o meu filho agora! _ Falou Otávio revoltado e colocando o dinheiro em cima da mesa. A enfermeira pega o dinheiro e leva Otávio para o quarto onde o filho está dormindo. Otávio carrega o filho para o carro levando-o embora. Otávio está na rodovia dirigindo o carro, Ricelli está ao seu lado dormindo ainda.

_Me perdoe, Ricelli por ter feito isso com você! _Disse Otávio.

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Maria ao perceber que Otávio não está na cama se levanta e começa a procurá-lo. Foi ao primeiro andar da casa e foi à cozinha, não o viu e voltou para sala. Maria ao chegar à sala senta-se ao sofá onde permanece por algum tempo até quando entrou Otávio anunciando que tinha uma surpresa para ela.

_Uma hora dessas e você fazendo surpresas. O que é? _Perguntou Maria.

_Nosso filho. _Disse Otávio. Ricelli entrou em casa.

_Ricelli! _ Diz Maria, muito feliz.

_Mãe! Exclama Ricelli que vai logo abraçar Maria. Ricelli e Maria se abraçaram felizes.

_Que bom, meu filho, que bom te ver! Que bom!

_Mãe! Mãe! _ Falou Ricelli.

_Senti tanta a sua falta. Deixe eu ver como você está?

_Maria começa a olhá-lo completamente.

_Só precisa tirar essa roupa feia que você está agora. Como é que você veio parar aqui, meu filho?

_Eu não sei. Eu não sei.

_Eu o peguei. Eu trouxe para você. Pensei muito sobre o que você me disse, você tinha razão. Lá não é lugar para o Ricelli.

_Falou Otávio.

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_ Obrigada, Otávio! Muito obrigada por trazer nossos filhos. Obrigada! _ Disse Maria que abraça Otávio também.

_Vem cá, filho! _ Otávio chamou Ricelli. Ricelli se aproxima dele e os três ficam abraçados. Depois aparece Márcia Eduarda e Vinícius Luciano.

_Também queremos fazer parte dessas comemoraçãozinha! _ Falou Vinícius Luciano descendo as escadas.

_Ricelli! Que legal você está de volta. _Disse Márcia Eduarda.

A família toda se reúne e se abraçam, eles parecem uma família perfeita e feliz. Pelo menos foi o que pareceu ser naquele exato momento. Eram duas horas da manhã quando isto aconteceu, um momento único entre eles.

Tudo parecia mágico entre eles, Ricelli e Otávio estavam se dando bem, conversando mais. O casamento de Otávio e Maria estava indo as mil maravilhas, estava tudo perfeito entre eles. Mas tudo esfria entre eles, tudo volta a ser como estava antes daquele episódio inédito que fez com que a família se reunisse. Vinícius Luciano até questionou o pai se ele realmente gostava de Ricelli, mas seu pai não disse nada só disse que o tirou do sanatório porque era o certo a fazer e disse que não queria ser culpado se alguma coisa acontecesse com Ricelli.

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Aos poucos todos foram se afastando um do outro, Ricelli se deprimindo ainda mais se isolando no seu canto, D. Maria cuidando da casa e fazendo com que tudo ficasse perfeito para que quando Otávio chegasse não lhe questionasse nada. Sábado, Otávio está na varanda de sua casa deitado na rede fumando um cigarro. Ricelli todo animado e sorridente se aproxima dele.

_Oi pai! _ Falou Ricelli.

_Oi! _Disse Otávio sem olhar para ele.

_A mamãe tá fazendo uma vitamina de abacate. Você quer que eu pegue para você? _Perguntou Ricelli para Otávio.

_Não. Se eu quiser eu mesmo pego. _ Falou Otávio fazendo descaso do que ele disse.

_ Pai, por que você não para de fumar? Você sabe que cigarro faz mal a saúde. Você e a mamãe não deveriam fumar.

_ Só faltava essa. Você querendo me dar lição de moral. Vê se te enxerga moleque! _Falou Otávio em um tom hostil.

_Eu só tô dando um toque, pai! _Disse Ricelli.

_Eu não preciso de nenhum toque seu, Ricelli. Eu não te pedi nada. Vai, me deixe aqui sossegado! Não me atente não! _ Disse Otávio sendo muito grosso com Ricelli.
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Ricelli sai triste, vai para o quarto onde se tranca e começa a chorar.

_Parece que tudo está voltando a ser como era antes tudo de novo. Por quê? Eu não vou aguentar essa pressão!_ Falou Ricelli.

Ainda na varanda, Vinícius Luciano falou com o pai que iria sair com os amigos.

_E não vai levar a namorada? _Perguntou Otávio.

_Hoje não. Hoje eu quero ficar muito livre. Livre para curtir o que há de melhor na vida. _ Disse Vinícius Luciano.

Vinícius Luciano sai e foi encontrar com os amigos. Vinícius e os amigos foram à uma boate no centro da cidade. Vinícius Luciano e os amigos se divertiram muito nesta boate.

_É hoje que eu vou ficar com uma mina bem dá hora, viu! Aqui só tem gatinha. _Disse André para eles.

_Não dá nem para escolher com que vai ficar. As opções são muitas. Mas, é só cair matando em cima de ideia que ela caem fácil, fácil. _ Disse Marcos para eles.

_Caem que nem patinho. É assim que eu gosto! Hoje eu tô solteiro, livre, leve e solto. Eu gosto de mulheres fáceis que caem
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na lábia logo de cara. Vamos zoar muito esta noite. _ Disse Vinícius Luciano.

_Então, pega uma cuba livre para gente esquentar mais ainda a boca do balão! _ Falou Marcos. Vinícius Luciano e André saíram em direção ao balcão. Márcia Eduarda está pondo as roupas que estão em cima da cama no guarda roupa. Ricelli entra no quarto.

_Márcia Eduarda! _Falou Ricelli entrando no quarto.

_Senta aí! Eu estou dando uma geral no meu quarto.

_Falou Márcia Eduarda. Ricelli senta-se na beirada da cama.

_Porque você não saiu com o Vinícius Luciano?

_E desde quando foi que eu e o Vinícius Luciano saímos juntos. Isso seria um milagre se isso acontecesse. Também o Vinícius saiu com aqueles amigos chatos dele. Eu não gosto deles.

_Você tem que ser mais social, Ricelli.

_Eu sei. Mas eu não gosto de sair, eu não gosto de balada, eu não gosto de nenhum esporte. Sou esquisito mesmo. Eu assumo que eu sou esquisito de carteirinha. _ Falou Ricelli para Márcia Eduarda.

_Ih, não comece com essa história. Você não é esquisito só por não ser igual aos outros em algumas questões.

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_São essas questões que me diferenciam das outras pessoas. _ Disse Ricelli para ela.

_Ai, vamos mudar de assunto. _Disse Ricelli.

André, Vinícius Luciano e Marcos estão dentro do carro. Estão bêbados. Vinícius Luciano está dirigindo o carro. Marcos está no banco de trás. O volume do carro está no último volume. Estão agitados.

_O Velho, você tem carteira? Se os homens nos parar aqui, estamos fodido. Eu perderei o carro do meu pai, eu não posso perder o carro do meu velho. Ele nem sabe que eu peguei o carro dele... nem sabe. _ Falou André.

_Você roubou o carro dele, né? _Perguntou Vinícius Luciano.

_Filho não rouba de pai, apenas pega empresto sem dizer nada para ele. _ Falou André.

_Cala boca, Zé! Você fala demais. Ordenou Marcos.

Marcos dá um chute no banco da frente onde está André sentado. André não gosta nada da atitude de Marcos.

_Para porra!

_Qual é, André? Sabe que eu tô zoando. Não tira onda comigo não, pô! _Falou Marcos.

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_As duas maricas vão parar de rasgar as calcinhas ou não? _ Perguntou Vinícius Luciano.

_Que isso, agora você me ofendeu profundamente. Marica não!

Falou Marcos para ele. Marcos se levanta do banco de trás e põe a mão nos ombros de Vinícius Luciano.

_Para porra! Sai, sai! Sai! Para, cara! Não tá vendo que estou dirigindo. _ Falou irritadamente.

_Deixe eu dirigir! Eu quero dirigir esta bagaça. _ Falou Marcos todo agitado em pé no banco de trás.

_Para Marcos! Para! _ Disse André.

André, Marcos e Vinícius Luciano começam a discutir. Marcos toma o volante da mão de Vinícius Luciano querendo dirigir o carro.

_Solta cara! solta! Solta, pô!

Falou desesperadamente Vinícius Luciano. O carro desgoverna e cai ribanceira abaixo capotando, rolando até que se destrói ao chegar lá embaixo na terra plana. Madrugada, Otávio e Maria estão no quarto dormindo quando recebem um telefonema, o telefonema é de um policial avisando do acidente que aconteceu
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com Vinícius Luciano. O policial diz que Vinícius Luciano morreu; ao receber a notícia da morte do filho Maria grita de desespero.

_Não! _ Gritou Maria. Otavio acorda.

_O que foi, Maria?_ Perguntou Otávio para Maria. Maria começa a chorar muito.

_Não, meu filho. Meu filho! Meu filho! O Vinícius. _ Fala Maria, totalmente chocada com o que aconteceu.

_O que foi, Maria?

_Ele sofreu um acidente.

_Onde?

_Na estrada. Ele morreu.



_O Vinícius Luciano? Meu Deus! _ Falou Otávio em choque quando soube da notícia.

Maria e Otávio se levantaram se arrumaram para sair. Maria foi ao quarto de Ricelli lhe contar o que aconteceu com o irmão, Otávio foi ao quarto de Márcia Eduarda dizer que o irmão havia sofrido um acidente. Márcia Eduarda fica muito chocada ao ouvir, saber que o irmão morreu. Ricelli não mostra tanta comoção como deveria mostrar, apenas fica calado só na sua. Maria e Otávio vão para o instituto médico legal realizar a retirada do corpo de Vinícius Luciano e providenciar o enterro. Eles estão muito

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abalados com a morte de Vinícius Luciano, principalmente, Otávio que perdeu o filho mais amado e adorado.

Era tarde do dia seguinte quando todos estão no cemitério realizando o enterro de Vinícius Luciano se despedindo dele. Há muito choro, tristeza principalmente de Otávio que estava em estado de choque por perder seu filho.

_Por que você fez isso comigo, Deus? Me tirou o filho que eu mais adoro, que mais amo. Você não poderia ter feito isso comigo, Deus! Eu não posso suportar essa ideia de que nunca mais terei meu filho perto de mim. _ Disse Otávio chorando muito.

O cemitério estava cheio de gente. Ricelli aproveitou para conversar com sua prima que não a via há muito tempo, pois ela se casou e mudou do bairro. Esta prima foi sua primeira paixão, ele era muito apaixonado por ela, mas os dois não ficaram juntos, porque ele tinha medo de ser revelar para ela e acabou perdendo-a definitivamente.

Todos retornam para suas casas depois do enterro de Vinícius Luciano. Abalado ainda Otávio está sentado no sofá com a expressão séria e triste. Ricelli se aproxima dele.

_ Pai, você tá bem? Me diga o que você tá sentindo!_ Falou Ricelli.

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_Me deixa, menino! _ Disse Otávio com mal humor.

_Eu sei que não posso fazer muita coisa. Mas, deixe eu ficar ao seu lado. Só isto basta! _Disse Ricelli.

_Eu perdi o filho que eu mais amava, que eu sempre amei. Não tenho vontade mais razão pra viver. Não há nada que você possa fazer pra amortecer essa dor. _ Disse Otávio para Ricelli. Ricelli abaixa a cabeça.

_Eu estou aqui, pai. Me dá um abraço! Me dá um abraço, pai! Me dá um abraço, pai! _ Pede Ricelli. Otávio continua sério e sem olhar para Ricelli fingindo nem ouvi-lo.

_Me dá um abraço pai! _ Pediu mais uma vez Ricelli. Otávio se levanta do sofá e sai. Ricelli se entristece.

Ainda abalada com a morte do filho Maria está sentada a mesa, triste e desolada. Isaura, mulher negra 55 anos está encostada na pia. Elas estão conversando.

_Você não quer mesmo descansar? Tudo que rolou deve ter te deixado exausta. É tão horrível sentir isso que você tá sentindo hoje. _Falou Isaura.

_Lógico que estou exausta, estou um caco. Estou acabada! _ Afirmou Maria para ela.

_Vá dormir!

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_Eu não vou conseguir dormir. Minha cabeça irá ficar martelando. Eu não vou conseguir dormir. Só vou pensar no meu filho. _ Falou Maria.

Ricelli está sentado na escada pensando. Sua prima Flávia desce as escadas e senta ao lado dele.

_Ricelli.

_Senta aí!

_ Pra relembrarmos os velhos tempos de quando batíamos papo nessa escada? Cadê a minha mãe? _ Perguntou Flávia.

_Está na cozinha com minha mãe. _ Respondeu Ricelli.

_Como você está?

_Normal. Sempre achei que quando alguém da minha família morresse primeiro do que eu, eu ficaria mal. Mas eu não estou mal! Até me sinto mal com isso por não me sentir mal em relação a morte do Vinícius Luciano. _Disse Ricelli.

_Eu quase não acreditei quando eu soube. Ele era tão jovem, tão bonito, ainda tinha muita vida pela frente. Eu lembro de quando namoramos na adolescência, tudo parecia tão perfeito. É uma pena que ele tenha partido tão jovem. _Falou Flávia. Ricelli fecha a cara ao ouvi-la dizer isso.


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_Eu lembro. Vocês não se desgrudam, e eu ficava servindo de vela. Eu sempre vou ser vela mesmo._ Falou Ricelli meio irritado com que ela disse.

_As pessoas sempre gostavam dele mesmo ele sendo um chato. _Continuou Ricelli.

_O clima tá pesadíssimo, não está?

_E como você acha que deveria estar?

_Péssimo mesmo.

_Se fosse eu que tivesse morrido ninguém ligaria.

_Falou Ricelli.

_Ricelli, você ainda continua com essas ideias malucas. Não posso acreditar nisso! Claro que ligaria. A sua mãe e seu pai, a sua irmã também. Eu também ligaria muito. _Falou Flávia para ele.

_Desculpe! Saiu espontaneamente. E aí? Como tá a vida de casada?

_Melhor impossível. O Hélio é um homem maravilhoso, bom, honesto. Me trata bem, não deixa faltar nada para minha filha e nem para mim. Ele me ama. _ Falou Flávia. Ao ouvir o que Flávia acabou de dizer Ricelli se levanta.

_Eu não quero mais ouvir! _ Ricelli sai correndo.

_Ricelli! Ricelli! Flávia, o chama.

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Depois que toda a visita foi embora, Otávio e Maria foram para o quarto descansar muito. Ainda estavam muitos tristes pela morte inesperada de Vinícius Luciano.

_Agora podemos descansar! _ Disse Maria. Otávio se joga em cima da cama e fecha os olhos.

_Otávio!

_O que foi, Maria? _ Perguntou ele sem abrir os olhos.

_Eu ainda não te perguntei, nem tive tempo de te perguntar. Minha cabeça estava cheia. Mas, você tá legal? _ Falou Maria.

_Só olhar para minha cara que já dá pra você notar que eu não estou legal. _ Respondeu Otávio.

_Nós temos que superar isso se quisermos viver. É doloroso demais, eu sei. Mas temos que superar.

_Eu nunca vou superar a perda do meu filho. O filho que eu mais amo. - Respondeu Otávio.

_Ele não era o seu único filho. Ainda você tem o Ricelli que precisa muito de nós, a Márcia Eduarda também. _ Disse Maria para ele.

_É diferente. _ Afirma Otávio.

_Diferente por quê? Nenhum filho substitui o outro, mas não podemos desistir deles só por que um se foi.

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_Não me encha o saco, Maria! Só quero apagar este dia da minha memória. _ Otávio vira-se para o lado e dorme.

Ricelli está sentado debaixo de uma árvore. Está chorando e está muito triste. Flávia está andando, o vê e se aproxima dele.

_Ricelli, o que você tá fazendo aí?_ Perguntou Flávia.

_Nada. Falou Ricelli, limpando os olhos.

_Você tá chorando, Ricelli?

_Não, eu não estou chorando não.

_ Mentira. Eu te conheço, Ricelli. Você está chorando sim. Por que você está chorando? Me conte, desabafe comigo.

_Eu estou triste.

_Por que você está triste? Por causa do seu irmão?

_Não sei, não sei. Eu só sei que tô sentindo uma enorme tristeza dentro de mim, é algo incontrolável. Não dá pra segurar.

_Você tem este direito, de ficar triste. Mas, não gosto de vê-lo triste, gosto tanto de você.

_Você gosta de mim? _ Perguntou Ricelli.

_Gosto. Você sabe, éramos como irmãos. Nos dávamos tão bem, lembra?

_Era tão bom. Acho que essa é a única coisa boa que eu tinha na vida.

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_Por que você fica triste à toa?

_Porque Deus quer que eu fique triste. Ele só me mandou neste mundo sofrer.

_ Credo Vitor! Acho que você não devia falar dessa maneira como se você fosse revoltado.

_Ninguém gosta de mim. Eu não sou feliz. Eu não sou feliz.

_Não fala isso, Ricelli, pelo amor de Deus!

_Mesmo quando eu estava do seu lado, o que era uma coisa boa, ótima pra mim, quando eu ficava do seu lado eu me sentia feliz. Mas era só um momento, porque mesmo quando eu era feliz do seu lado eu me sentia infeliz, na maioria das vezes.

_Por quê? Eu não sabia disso.

_Eu te amava... _Afirmou Ricelli.

_ Ricelli! _ Exclamou, Flávia, sem saber o que dizer. Constrangida tenta disfarçar seu olhar.

_ No duro, eu te amava tanto. Eu realmente te amava, mas você se apaixonou pelo meu irmão,namoraram, foram felizes por algum tempo! Depois de algum tempo você engravidou e casou. Não, eu não tô reclamando ou questionando nada! Não tenho este direito. Só estou dizendo que realmente eu te amava. _Disse Ricelli para Flávia.

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_Depois dessa revelação inesperada, eu nem sei o que dizer para você. _ Disse Flávia, sem jeito.

_Não diga nada. Eu não quero que sinta pena de mim, só quero que me abrace por um instante. _Ricelli e Flávia se abraçam.

Eram três horas da manhã quando Maria acordou, o quarto ainda estava escuro e presenciou Otávio sentado na beirada da cama chorando muito. Isto se repetiu por diversas vezes. Os dias foram passando e o clima entre a família foi cada vez mais piorando, Otávio foi afastando cada vez mais da família se isolando, Maria e Otávio mal conversavam. Se Otávio e Maria mal se conversam, imagina ele e os filhos. Agora então é que Otávio nem falava mais com Ricelli, com Márcia Eduarda ele se fechou um pouco. Otávio passara a sair mais, muito mais do que antes. Otávio ia para bares onde começara a tomar muita cachaça e cerveja. Em uma bela noite Otávio saiu de casa e foi para o bar de sua prima Isaura. O bar estava cheio de fregueses.

_O prima, me vê uma dose de cachaça aí, por favor!

_Primo, você não acha que tá bebendo muito? _Perguntou Isaura.

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_Não, eu não acho. E também acho que eu já estou bem grandinho para ninguém vir se meter na minha vida. _ Disse Otávio para Isaura, que depois dessa tirada foi servi-lo.

Otávio ficou por ali por umas longas horas, foi o último a sair do bar e estava ruim de tão bêbado. Otávio passou a sair incansavelmente, não queria ficar em casa porque ficar em casa lhe trazia recordações de Vinícius Luciano das quais queria esquecer, não esquecer e apagar de sua memória, mas as lembranças lhe faziam mal. Era outro dia quando Ricelli estava deitado no sofá da sala, Márcia Eduarda e Daniel estavam também sentados em outro sofá assistindo televisão. Otávio chega bêbadaço da rua.

_Vocês estão aí. Cadê o Vinícius Luciano? Cadê o meu filho querido? Ele também deveria estar aqui. _Disse Otávio, entrando em casa.

_Pai, você bebeu? _ Perguntou Ricelli.

_Só uma bebidinha que não faz mal a ninguém. Não esquente a cabeça! Vou para o meu quarto dormir. Até mais! _Otávio subiu as escadas que dá acesso ao segundo andar da casa indo para o seu quarto.

_Nunca o vi desse jeito. _ Disse Daniel.

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_É a morte do Vinícius Luciano que está causando isso.

_Falou Márcia Eduarda.

Mais um dia se passou e Otávio saiu para beber com os amigos, chegou mais de duas horas da manhã.

_ Você está bêbado de novo? _Perguntou Maria quando ele se aproximou da cama.

_Não enche, Maria! _Diz Otávio, que deita na cama.

_Vai tomar um banho primeiro, porco. Não quero dormir ao lado de um homem sujo e fedido. Otávio! _Falou Maria. Otávio não responde permanecendo de olhos fechados e dormindo.

_Será que todo dia agora vai ser este inferno? _ Maria pega o travesseiro e sai do quarto.

Maria foi dormir na sala. Era de manhã Maria estava na cozinha acabando de preparar o café. Ricelli e Márcia Eduarda chegaram à cozinha.

_As suas coisas estão ali. Por que você dormiu no sofá, mãe? _ Perguntou Ricelli,

_Eu não ia dormir com o seu pai bêbado. Todo dia agora ele está chegando bêbado do serviço. _Falou Maria.

_Meu pai tá estranho. Antes ele não era assim.
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_Depois que o seu irmão se foi ele ficou assim, e não vai parar por aí não, hein! Ainda tem muito mais pela frente. Ele não quer aceitar a morte do Vinícius Luciano e desconta na bebida.

Otávio esta no quarto deitado em sua cama. Maria entra no quarto se aproximando dele.

_Ora, não vai trabalhar não? _ Perguntou Maria para Otávio. Otávio não responde.

_Por que você faz isso? _ Perguntou Maria.

_Me deixe, Maria! Não me infernize mais. Não tô com saco para te agüentar. _ Resmungou Otávio.

_Credo! Não seja grosso comigo. Eu só quero ajudar. Também não vai trabalhar mais não? _ Perguntou Maria.

_Hoje não. _ Respondeu Otávio.

_Essa é a terceira vez que você falta do trabalho nesta semana. Eles vão acabar te mandando embora.

_Não esquenta!

_Como não esquenta? Temos contas para pagar.

_Se eles me mandarem embora eu procuro outro.

_Procurar outro? Você acha que é mais jovem?

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_ Pra que viver se preocupando com trabalho isso não vai valer pra nada? A gente morre e o trabalho fica sempre aí. _ Disse Otávio para Maria. Maria sai do quarto.

Em outro dia, Ricelli estava andando na rua para ir ao colégio, na esquina estava Leo e seus amigos. Leo começa a provocá-lo, a mexer com Ricelli. Ricelli se irrita com a tamanha provocação e parte para cima de Leo. Os amigos de Leo seguram Ricelli.

_Me solta! Eu vou regaçar a cara dele. Me solta! Me solta! _ Falou Ricelli, alterado. Os meninos riem dele. _Me solta! Deixe eu regaçá-lo!

_Quem vai te regaçar aqui sou eu, seu esquisitinho!

_Leo dá um soco na barriga de Ricelli._Isso é para você aprender a agir como homem, boneca! _ Disse Leo. Os amigos dele jogam Ricelli no chão e saem. Ricelli fica caído no chão com a mão no estômago dele.

_Desgraçado! Um dia você me paga. Um dia você me paga. _ Falou Ricelli.

Bar vazio. Otávio está sentado numa mesa do bar. A mesa está cheia de cascos de cervejas vazias e também há uma
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garrafa de cerveja pela metade. Maria entra no bar indo até a mesa de Otávio.

_Então é aí que você está né, Otávio?

Falou Maria zangada com ele.

O que você quer, Maria? Nem aqui você me deixa em paz. _ Disse Otávio.

_Quero que você vá para casa agora! _ Ordenou Maria.

_Você não manda em mim! Eu vou ficar aqui até a hora que eu quiser e me der na telha.

_O que tá acontecendo com você? Não é possível que agora as coisas vão piorar, mais do que já estavam piores. Você tem mais dois filhos. _ Disse Maria.

_Mas nenhum é igual ao Vinícius Luciano. _ Disse Otávio.

_Que absurdo você dizer isso! Preferir, preterir filhos. Filhos a gente ama tudo igual, não elimina um de sua vida.

_Só o Vinícius Luciano me interessa.

_E a Márcia Eduarda, o Ricelli?

_Eles não precisam de mim. Nunca precisaram. Não sentirão minha falta! _ Afirmou Otávio para Maria.

_O que você tá fazendo é maldade. _ Maria sai do bar.
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Ricelli entra no colégio muito enfezado com Leo. Leo está conversando com uma menina, Ricelli com muita raiva se aproxima dele.

_Maldito! É agora que eu acabo com você. _ Ricelli dá um soco na cara de Leo. Leo revida o soco, os dois começam a brigar no pátio do colégio.

Ricelli como sempre acaba apanhando mais do que devia, ele fica com muita raiva e tem uma enorme explosão, começa a gritar, a falar alto, a falar palavrão. O diretor do colégio chega e leva Ricelli para a diretoria, liga para casa de Ricelli pedindo que alguém vá até o colégio. Márcia Eduarda vai até o colégio buscá-lo.

_ O que aconteceu para você ter brigado com ele? Você nunca fez o tipo de pessoa que briga na escola. _Falou Márcia Eduarda.

_Pois é, pois agora vou ser. Mesmo que eu apanhe, eu não vou dar mole não. Já tô de saco cheio de ser o besta, o otário, o retardado, o débil mental que todos pisam, maltratam. É por isso que não gosto de estudar, odeio estudar, não gosto de ir no colégio! Por que todos me tratam mal. Eu odeio essa vida! _Ricelli desabafa e sai correndo.

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_Quando eu penso que as coisas vão melhorar, elas só pioram. _ Disse Márcia Eduarda.

Depois de algum tempo Ricelli entra em casa correndo, sobe as escadas correndo e se tranca em seu quarto. Ricelli começa a chorar muito.

_Que droga de vida! Quando eu vou viver longe desse inferno de vida? Nunca, não é? Nunca! Que porra! Tudo que eu mais quero é sumir dessa vida, mas eu nunca vou sumir porque Deus quer que eu fique nesta vida só pra sofrer, só pra me dar mal.

_Falou Ricelli que começa a dar socos e chutes na porta. _ Eu já tô de saco cheio de tudo, tudo. Eu sou nada, nada, um bosta, um fraco. Não consigo nem ir além, além. Quando ficarei livre daqui, quando? Eu vou acabar enlouquecendo, vou ficar maluco, maluco. _Continuou Ricelli chorando dando socos na porta.

Era tarde de outro dia, sala vazia e silenciosa. Otávio abre a porta e entra na sala. Ricelli desce as escadas chegando à sala. Otávio está muito bêbado.

_Pai! _Falou Ricelli indo em direção de seu pai.

_Me ajude aqui, Vinícius Luciano! _Disse Otávio tentando se equilibrar. Ricelli fecha a porta, põe o braço de Otávio em volta do seu pescoço.

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_Vem pai, vem! Eu vou ajudá-lo a chegar até ao quarto.

_Não, eu não quero ir para o quarto. Deixe-me aqui, Vinícius Luciano. _ Falou Otávio super bêbado. Ricelli o carrega até o sofá, e o deita.

_Tomara que amanhã você esteja bem melhor, pai. _ Disse Ricelli que começa a tirar os sapatos do pai. Otávio permanece de olhos fechados.

_Por que você bebeu tanto, hein, pai? _ Disse Ricelli. Otávio continua de olhos fechados.

_Sai daqui! Me deixa! Eu só quero dormir. _ Otávio adormece. Ricelli senta-se no chão encostando-se no sofá onde seu pai tá deitado.

_Você não gosta de mim, não é pai? Por quê? O que eu te fiz? Só tentei ser seu filho. Eu sei que não chego aos pés do Vinícius, mas eu sou seu filho, também. Eu tento, tento! Tento de

toda maneira te agradar, às vezes é tão difícil, pois mesmo eu tentando, fazendo de tudo pra que você me enxergue você nunca me enxergará. Será que eu mereço isso? O que eu te fiz? Me diga pra que juntos a gente possa resolver o problema! Mas, mesmo que você não me enxergue, eu vou estar sempre esperando o seu olhar,
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o teu carinho. Eu gosto de você e você nem se toca, Por quê? _Disse Ricelli em lágrimas.

Maria chega ai ao bar de Isaura que tem muitos fregueses. As duas conversam sobre Otávio e Ricelli.

_ Dá um tempo pra ele. Essa situação é difícil pra ele, no início é uma barra, mas depois vai passar. Eu sei que passará, o tempo cura tudo.

_Disse Isaura para Maria.

_Nem tudo. Só nós faz esquecer por um tempo, até a lembrança vir à tona na nossa memória. Eu queria ter a minha família de antes, éramos felizes.

_Não dá. Você sabe!

_Eu não queria que o Ricelli fosse depressivo, nervoso! Eu não queria que a Márcia Eduarda fosse desligada da vida e pensasse mais na vida, no futuro; eu queria que o meu marido fosse gentil, amoroso comigo novamente, eu queria que o Vinícius estivesse vivo; que fôssemos felizes de novo como antes. Antes era tão simples. _ Falou Maria para ela.

_No início tudo é simples, singelo. Depois de alguns anos é que tudo se complica e fica ruim. _ Falou Isaura para Maria.


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Mais uma noite Otávio chegou bêbado em casa. Maria já estava deitada na cama quando Otávio quase caindo abriu a porta.

_ Chega! Ou você toma uma atitude ou o nos so casamento acabou. _Disse Maria exaltando-se, se levanta da cama.

_Do que você tá falando, mulher? _ Perguntou Otávio, lançando um olhar para ela.

_Não me chame de Mulher! Odeio quando você me trata assim como se eu fosse uma qualquer. Estou tentando, mas está difícil. O nosso casamento está naufragando e você nem vê, nem quer saber. _ Falou Maria.

_Vai te catar!

_Sai do quarto! Você não vai dormir comigo. Eu não quero dormir mais com você. Vá para sala agora! _Ordenou Maria a ele. Maria começa a chorar. Ricelli entra no quarto e se aproxima dela.

_Mãe, você tá chorando? _ Perguntou Ricelli.

_Não, só caiu um cisco no meu olho. Mas, já saiu. O que foi? Ainda não dormiu? _ Disse Maria limpando os olhos.

_Não consegui, ainda mais que ouvi o papai chegar da rua. Ele mudou pra caramba desde a morte do Vinícius, não parece ser o mesmo. _ Disse Ricelli para a mãe.

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_Pois é. Também acho.

_Se fosse eu que tivesse morrido, ele nem ligaria.

_Que isso, filho? Não diga uma coisa dessas! Eu ligaria e muito. Agora você é meu único filho homem.

_Eu te amo, mãe. Se você morrer eu juro que te mato

_Disse Ricelli brincando com ela. Maria rir.

_Você é bobo, Ricelli. Se eu morrer não vai ter jeito de você me matar. _ Disse Maria rindo.

_Estou brincando. Essa é só uma maneira de dizer que se você morrer, eu piro o cabeção porque você é a única pessoa que me ama de verdade nesta vida. _ Falou Ricelli.

_Eu faria de tudo para deixá-lo feliz. Deita aqui! _Falou Maria. Ricelli deita no colo de Maria.

_Se você pudesse me fazer feliz, já é um bom começo.

_Você fala de uma maneira tão depressiva. _Falou Maria.

_Eu não sou feliz, mãe. Eu sou infeliz.

_Então, me diga o que fazer pra deixá-lo feliz que eu faço. Só o que não posso ver e aceitar é a sua infelicidade. Me diga o que fazer!

_Não sei, só me deixe feliz. Eu preciso ser feliz pra viver. _ Disse Ricelli.

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Ricelli estava faltando muito às aulas, Maria perguntou a Márcia Eduarda o porquê que ele estava faltando muito às aulas. Márcia Eduarda responde que é porque ele estava apanhando muito no colégio com um tal de Leo. Ao ouvir isso, Maria se enfurece e pede para Márcia Eduarda acompanhá-la até a escola onde Ricelli estuda. O colégio está cheio de pessoas e alunos no pátio, Maria e Márcia Eduarda entram no colégio, Maria está muito aborrecida com o aluno que anda batendo em Ricelli. Márcia Eduarda mostra Leo para sua mãe. Leo está no meio de seus amigos, Maria se aproxima dele.

_Você que é o tal de Leo? Perguntou Maria, muito nervosa.

_Sou eu, sim. E você, tia? _Disse ele meio que sarcástico.

_Em primeiro lugar, tia é a mamãezinha. Em segundo lugar, eu sou mãe do Ricelli. _ Diz Maria. Começa a juntar alunos em volta deles.

_Ah, ele mandou a mamãe para defendê-lo. Nossa, eu sabia que seu filho era uma bibona.

_Cala essa sua boca suja antes de falar do meu filho! Eu só vim te dar um toque: deixe meu filho em paz! Eu não sei quem é você nem quem são os infelizes que o puseram no mundo, mas eu

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sei que você não passa de um moleque metido a machão mas, que no fundo não passa de uma bosta rala. Deixe o Ricelli estudar em paz! _ Disse Maria.

_Qual é tia? Vai ficar tirando aí?

_Eu já disse que tia é a mamãezinha. Vou ficar tirando sim, porque não quero que mexem com o meu filho. Tudo bem que ele tenha 23 anos, já é um adulto que sabe se defender, mas ele é uma pessoa diferente de todos vocês, e se por ele ser diferente tenha que sofrer piadinhas, zoações, gozações

nesta espelunca de escolas vindo de lixos como de alunos como vocês; eu vou defendê-lo sim, e de toda maneira! Quando mexe com o meu filho eu viro uma leoa, uma fera. Se eu souber que você ainda anda mexendo com o meu filho,

eu juro que eu te bato até você falar que chega, eu te esfolo

menino! Isto é pra você aprender. _ Maria sai. As pessoas em volta batem palma. Leo abaixa a cabeça, envergonhado.


Pensativo e triste, Ricelli está deitado na cama olhando para o teto. Maria abre a porta do quarto, dá alguns passos para frente, fecha a porta. E caminha até a cama de Vitor Hugo.

_ O que você tem? _Perguntou Maria.

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_Vontade de sumir, desaparecer no mundo. _ Falou Ricelli.

_Não diga isso, por favor! Me dói saber disto. _Fala Maria.

_ Se eu não posso dizer o que sinto, então, eu vou morrer angustiado.

_Ele não vai mais te bater.

_ Quem? O que você tá falando? _Perguntou Ricelli.

_Eu sei de tudo, a Márcia Eduarda me contou tudo. Aquele filha da puta do tal de Leo, ele não vai mais te bater.

_O que você fez, mãe?

_Eu fui ao colégio e disse poucas e boas pra ele. Eu o enfrentei.

_Agora eles vão me zoar, gozar da minha cara. Que mico!

_Que mico nada! Você é meu filho. Não vou permitir que ninguém te maltrate, te bata! Você não merece isso.

_Obrigado por me amar, mãe! _ Disse Ricelli.

_Não há de quê! _ Respondeu Maria para ele.

Márcia Eduarda e Daniel estão sentados no meio fio da rua. Os dois estão se beijando, Leo se aproxima deles.

_Ei, Márcia Eduarda! _ Disse Leo se aproximando.

_O que foi, Leo? _ Perguntou Márcia Eduarda.
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_Fala para o seu irmão parar de se esconder debaixo da saia da mamãe, que é para ele virar homem. _ Disse Leo.

_Deixe de ser chato, Leo! Não gostou de ser rebaixado pela mãe dele não? Ela te botou moral, né? _ Disse Daniel. Leo fecha a cara.

_Ele me paga! _Disse Leo saindo.

Em cima da mesa há algumas garrafas de cervejas vazias, e um copo cheio de cachaça. Otávio está sentado a essa mesa, está bêbado. Otávio pega o copo e o bebe. A mulher loira se aproxima de Otávio.

_Otávio, você sumiu. O que aconteceu para você ter sumido deste jeito? _ Perguntou a mulher loira.

_Oi! Quanto tempo não nos vemos. Tudo bem? Senta aí para gente trocar idéia. _ Falou Otávio para mulher loira.

_Eu estava e estou no lugar de sempre. Eu soube o que aconteceu com o seu filho. Eu sinto muito pela morte dele! _Disse a mulher loira para ele.

_Não sinta! É a fatalidade da vida. Vamos para um lugar mais reservado, pra conversarmos mais a vontade longe desse tumulto, dessa pessoas. _ Disse Otávio a ela.


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_Já vi que você quer recuperar o tempo perdido. Eu não sei se vou não. _ Afirmou a mulher loira.

_Você não fará esta desfeita comigo, não é mesmo? Qual é? É só um papo descontraído para colocarmos o papo em dia.

_Vou pensar.

_Pensar demora!_ Exclamou Otávio.

_ Hoje você tá engraçadinho, não?_ Disse a mulher loira.

Depois de muito tempo conversando e bebendo os dois saem. Otávio e a mulher vão para o motel onde passam à noite juntos. Enquanto Otávio e a mulher loira estão rendendo aos prazeres carnais, Maria não dorme só de preocupação com Otávio que não chega em casa. Mas Otávio chega em casa por volta das seis horas da manhã e não vai trabalhar. Maria acorda quando ele entra no quarto, e começa a brigar com ele.

_Que falta de responsabilidade é essa? Você quer o que? Virar vagabundo? É isso que você quer? Não é possível que a morte do nosso filho trouxe isso, lhe transformou nisso, nessa pessoa pequeno que você se mostra ser agora! _Falou Maria para Otávio.

A briga entre os dois continuam e Otávio vai dormir no sofá da sala mais uma vez. Eram onze horas da manhã e Otávio ainda estava dormindo no sofá da sala, Maria com o cigarro na mão

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passa sobre ele e vai para a varanda onde se senta na cadeira de balanço e fuma o seu cigarro. Otávio continua roncando. Márcia Eduarda aproxima-se de sua mãe.

_Mãe!


_Oi!

_O meu pai está dormindo na sala?

_Está.

_Então, vocês não transam mais? _ Perguntou Márcia eduarda, ironizando.



_Toma jeito menina! Eu não vou falar disso com você.

_Disse Maria envergonhada, para Márcia Eduarda.

_O que tem, mãe? Podemos falar de tudo abertamente sem pudor.

_ Ah, você quer saber da minhas intimidades com o seu pai. _Disse Maria tentando fugir da conversa.

_Deixe de ser antiquada. Hoje em dia não existe mais essa de separar conversas entre mães e filhas, podemos falar de sexo.

_Não me sinto bem falando disso com você.

_Destrave mãe! Há três meses, desde quando o meu irmão morreu e meu pai começou a beber, vocês nem dormem mais juntos, ele dorme na sala.

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_ Seu pai e eu não fazemos mais sexo, se é isso que você quer saber.

_E você não sente falta? _ Perguntou Márcia Eduarda.

_Não. Quer dizer, mais ou menos. _ Afirmou Maria.

_E, agora vamos parar com esse assunto, por favor!

Ricelli está em pé na beirada da lagoa pensando. Leo, de bicicleta passa a estrada e vê Ricelli. Leo para a bicicleta, desce da bicicleta deixando-a na beirada da estrada. Leo anda em direção de Ricelli chegando perto dele.

_Deus, muda a minha vida. Muda a minha vida, pelo amor de Deus! _Pediu Ricelli a Deus.

_E aí esquisito! _Disse Leo ao se aproximar de Ricelli.

_O que você quer, Leonardo? _ Disse Ricelli se afastando dele.

_Calma, ei! Ei! Eu não vou te espancar não, apesar de que você merece levar uns socos nessa sua cara de moçoila. Você contou tudo para mamãezinha. Olha, a criancinha! Precisa da mamãezinha defendê-lo. _ Debochou Leo.

_ Qual é cara? Me deixa em paz! Eu não pedi pra ela me defender não.
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_Tenho que confessar, sua mãe é valente. Ninguém falou comigo daquele jeito, Nunca.

_ Você mereceu. _ Disse Ricelli para ele. Ricelli começa a andar para frente. Leo o chama. Ricelli de andar e olha para Leo.

_Espera aí! _ Chamou Leo.

_O que foi? _ Perguntou ao virar de frente para ele.

_Tenho dó de você!

_Não precisa ter pena de mim! Eu não preciso dela.

_ Disse Ricelli que continua a andar.

Márcia Eduarda está em seu quarto deitada na cama lendo um livro, está muito concentrada no livro. Ricelli entra no quarto dando-lhe uma notícia inesperada.

_Você tá grávida! _Afirmou Ricelli para Márcia Eduarda.

_Fala sério, Ricelli! Eu grávida? Só na sua cabeça.

_Eu falou sério. Eu sinto, eu pressinto essas coisas.

_Ah, não vem com essa não! Há muito tempo que você não faz mais isso. Por que voltou com essas palhaçadas? Eu não estou grávida não. Deus me livre de estar grávida! _Falou Márcia Eduarda para Ricelli.

Márcia Eduarda não gostou da possível previsão do irmão. Ricelli sai do quarto triste, porque Márcia Eduarda não acreditou no

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que ele disse e ainda brigou com ele. Ricelli vai para o seu quarto onde começa a chorar intensamente.

_Por que Deus? Por que eu sou assim? Eu não queria ser assim, diferente dos outros. Me ajuda a mudar Deus, me ajude senão eu não vou agüentar. Por favor, meu Deus! Por favor, me ajude! Não me deixe morrer, por favor! Me salve de alguma maneira. _Falou Ricelli que deita na cama.

Quarto escuro, Maria está na cama dormindo. Otávio abre a porta do quarto, acende a luz, fecha a porta do quarto. Maria acorda.

_Você chegou agora, Otávio? _ Perguntou Maria para ele.

_Cheguei! _ Respondeu Otávio.

_Eu fico me perguntando o que você fica fazendo até de madrugada na rua. O que você fica fazendo além de encher a cara?

_Não enche Maria! Eu quero é deitar e dormir logo, amanhã eu ainda tenho que trabalhar.

_Aleluia irmão! Há tempos não ouço você dizer em trabalho. O que te deu? Já sei, não tá mais bêbado. _ Falou Maria sarcasticamente para Otávio.

Otávio tira a roupa ficando só de cueca, apaga a luz e deita na cama. Otávio começa a beijar Maria.

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_Você quer? _Perguntou Maria.

_Quero. _ Respondeu Otávio.

_Tem tempo que a gente não transa mais. O que tá acontecendo conosco?

_Eu não sei, e não quero saber. _Disse Otávio que beija intensamente Maria. Otávio suspende a camisola de Maria, continua beijando-a e começa a transar com ela.

Era de dia quando Daniel estava na locadora onde trabalha, estava na seção de comédia colocando alguns filmes na prateleira quando Márcia Eduarda chegou anunciando que pode estar grávida.

_Não pode ser! Eu sempre uso camisinha. _ Falou Daniel.

_Mas tem vezes que não usamos também. _ Afirmou Márcia Eduarda.

_Já fez o teste de famarcia?

_Não. Esses testes não são muito confiáveis. Mas o Ricelli me deu ideia, ele pressentiu.

_E você vai pela cabeça do Ricelli. Sabemos que ele não bate bem da cabeça.

_Não fala assim do meu irmão! Ele sempre pressentiu as coisas, de uns tempos para cá é que ele parou com isso, ou pelo menos não dizia nada. Eu fiquei em dúvidas também. Mas é só com o

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enxame para ter certeza se realmente estou grávida. _ Afirmou Márcia Eduarda.

Otávio e a mulher loira entram num supermercado. Após algum tempo, em um corredor Otávio está junto com a mulher loira conversando. Maria entra no supermercado, pega o carrinho. Maria entra em outro corredor e pega algumas latas de salsichas e põe dentro do carrinho. Maria empurra o carrinho dando alguns passos. Maria pega uma lata de sardinha deixando um buraco na prateleira. Pelo buraco, Maria vê Otávio parado no meio do corredor, sozinho.

_O que o Otávio tá fazendo aqui? _ Perguntou Maria. De repente a mulher loira aparece no corredor em que Otávio está e o beija. Maria surpreende-se ao vê-los.

_ Otávio! _Disse Maria surpreendida no outro corredor.

_Vamos vazar daqui! _Falou Otávio com a mulher loira do outro corredor.

_Vamos! _Respondeu a mulher loira.

Otávio e a mulher saem. Maria vai atrás deles. Otávio e a mulher saem do lado de fora do supermercado e vão entrar no carro, Maria rapidamente se aproxima dele.

_Otávio! Exclamou Maria. Otávio olha para trás. Maria dá um tapa no rosto dele.

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_Desgraçado!

_Que isso? Quem é essa doida?

_Maria... _ Gagueja Otávio.

_Essa doida é a esposa dele. Então, você tá me traindo com essa piranha loira?

_Olha o escândalo, Maria! As pessoas estão olhando. _Disse Otavio.

_Estou pouco me lixando para os escândalos. Eu não quero saber de porra nenhuma. Eu quero que vocês morram!

_Disse Maria superirritada e sai.

_Essa que é a sua mulher. _Perguntou a mulher loira.

_Eu tenho que ir atrás dela! _ Falou Otávio que entra no carro e sai disparado atrás de Maria.

Após algum tempo Maria entra em casa, em seguida Otávio entra em casa. Os dois começam a discutir feio.

Maria abre a porta da sala e entra, ela fecha a porta. Otávio abre a porta e entra em casa.

_ Precisamos conversar! _ Falou Otávio para Maria.

_Conversar o que? Sobre a sua traição? Há quanto tempo você está tendo um caso com aquela piranha loira? Há quanto tempo você está me fazendo de palhaça? Eu ficando aqui nesta

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casa sozinha, cuidando da casa para agradá-lo, e você por aí se divertindo com essas mulheres da rua. _ Disse Maria.

_Você tá enganada. Eu não estou traindo-a. aquela era uma amiga que eu não via há muito tempo.

_Amiga? Amiga porra nenhuma. Ninguém beija amiga daquele jeito. Eu vi tudo! Não adianta tentar mentir para mim. Eu não vou acreditar em você, Otávio!

_Espera aí, Maria! Não reaja dessa forma tão agressiva.

_Disse Otávio.

_E como eu tenho que reagir? Eu tenho que reagir numa boa depois de você ter me traído? Depois de eu ter flagrado você beijando a sua amante no supermercado? É assim que eu tenho que reagir? Que droga! Que merda! É por isso que, às vezes você sempre sumia, chegava altas horas da madrugada em casa, era porque você estava andando com essas mulheres da rua. _Falou Maria.

_Nem toda às vezes, Maria. _Disse Otávio para ela.

_Miserável. Eu tentei entender, ajudá-lo. Fui compreensiva com você porque você estava passando por um momento difícil, pois o filho que você mais amava e dedicou boa parte do seu tempo tinha morrido. Achei que se eu não entendesse eu estaria sendo

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cruel, eu seria cruel, pois estava passando pela mesma situação só que sou mais forte do que você. Eu amenizei a situação de ver você chegar bêbado em casa, de não querer levar uma vida mais a sério. Mas, você estava me traindo com outra mulher. Quero que você vá embora agora desta casa! _Ordenou Maria.

_Não me peça para ir embora, Maria! Eu não quero ficar longe de você. _ Disse Otávio.

_Não quer ficar longe de mim e nem das outras, né? Se você acha que sou trouxa, pode tirar o seu cavalinho da chuva. Eu não sou trouxa! Vá embora porque eu nunca mais quero te ver na minha frente.

_Não me julgue, porque você também já errou comigo.

_Não venha com erros do passado para justificar o seu erro de agora. _Disse Maria para ele.
Maria está deitada na cama, chorando muito. Ricelli entra no quarto, anda em direção da cama. Ricelli deita-se ao lado.

_Não chora, mãe! _ Disse Ricelli para Maria.

_Sai Ricelli! Me deixa um pouco sozinha! _Falou Maria. Ricelli senta-se na cama de frente para sua mãe.
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_Eu só quero te fazer companhia. Tem tempo que você tá aqui no seu quarto.

_Eu não quero falar com ninguém.

_Só vou olhá-la. Eu sabia.

_O quê? _Perguntou Maria.

_Eu já sabia que meu pai tinha um caso com outra mulher.

_Afirmou Ricelli. Maria mete um tapa no rosto de Ricelli.

_Você sabia e não me disse nada. Que tipo de filho é você? Me deixou ser enganada.

_Desculpe! Eu só não queria que você sofresse. Mãe, eu te amo.

_Sai daqui! Sai daqui agora! Sai! _Falou Maria grosseiramente.

_Mãe!


_Sai! Sai daqui! Me deixe sozinha! Sai! _Falou Maria exaltando-se. Ricelli sai correndo do quarto. _Chorando, Ricelli abre a porta e entra no quarto.

_Droga, droga de vida! Droga de vida! Droga, droga! Mesmo quando eu faço a coisa certa, eu erro. Eu erro! Que merda! Eu sempre vou errar mesmo tentando acertar.

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Ricelli bate a porta. Chorando, Ricelli se encosta atrás da porta. Ricelli continua chorando. Ainda encostado na porta, ele vai descendo para baixo até sentar no chão.

_Deus me leva dessa vida, por favor! Eu não consigo mais levar essa vida chocha, eu não consigo mais ser assim! Por que eu tenho que ser assim? Por que eu tive que ser assim? Eu não sou igual a ninguém, nunca fui e nunca serei. Será que sou um Extraterrestre que veio parar nesse mundo por acaso? Por que Deus? _ Disse Ricelli.

Otávio entra no quarto e se aproxima de Maria pedindo para conversar. Maria está irredutível e pede para Otávio deixar a casa e diz que não quer mais morar com ele. Otávio insiste e diz que não quer deixá-la, pede perdão e tudo mais.

_Mesmo que você tente me afastar, eu vou persistir! Vou persistir até romper a crosta que você criou dentro de você.

-Falou Otavio, que sai.

Ricelli sai de casa e vai para uma favela que tem por aquela região onde ele mora. Ricelli vai até um traficante, e compra muita maconha para fumar. Ricelli queria esquecer por alguns instantes a sua vida. Ricelli fuma o baseado, e passa à noite toda fora de casa, Maria e Márcia Eduarda se preocupam com o sumiço

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de Ricelli, Otávio nem tanto. Márcia Eduarda e Maria Saem para procurá-lo, não o encontram e acham que o pior aconteceu com ele. Era de manhã, Maria, Otávio, Márcia Eduarda e Daniel estavam à sala sentados no sofá quando Ricelli entra pela porta, ele está bêbado e drogado.

_Olá família! _Disse Ricelli.

_Você está bêbado, Ricelli? _ Perguntou Maria.

_Não só estou bêbado como também estou drogado. Passei à noite inteira fumando e curtindo adoidado. _Afirmou Ricelli.

_ Ricelli, toma vergonha nessa cara! Ficamos à noite inteira preocupados com você, e você na rua mexendo com essas porcarias. Dá próxima vez eu nem vou ligar. _ Disse Otávio.

_E quando foi que você ligou, papaizinho? _Perguntou Ricelli com um tom sarcástico.

_Ricelli!

_Mas você continua o mesmo mimado de sempre. Eu devia te bater agora para você aprender a crescer, seu moleque!

_Disse Otávio.

_Azar se você quer me bater. Hoje pela primeira vez, talvez, eu me sinto feliz. Eu estou feliz, mesmo que seja por um

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tempo indeterminado. Eu estou feliz. E, eu não quero falar com este homem. _ Falou Ricelli.

_Ricelli, o que tá te dando? _ Falou Márcia Eduarda.

_Esse homem é o seu pai, Ricelli. É ele que põe comida dentro dessa casa. Você deve respeitá-lo. _ Falou Maria.

_E daí? Ele também não me respeita. Os pais têm que exigir respeito dos filhos quando eles dão respeito a eles. _Respondeu Ricelli.

_Você está drogado. Eu não quero vagabundo na minha casa não. Se você continuar assim pode ir pegando suas malas e dá o fora daqui. _Disse Otávio, em tom de autoridade.

_Ah, agora você tá se rebelando, colocando tudo que você desejou, acha sobre mim para fora. É isso que você queria desde o início, desde quando eu nasci, desde quando eu piorei. _Exauta Ricelli.

_Não ponha palavras na minha boca, moleque!

_Fodas! Fodas se você me mantém vivo nesta casa. Se você realmente soubesse veria que os filhos não só precisam ser alimentados com comidas, mas também precisam ser alimentados de amor e carinho, e eu nunca tive isso de você. Comida não é o suficiente! Fodas! Fodas se você mantém essa casa. Até parece

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que você se importa comigo, se importa onde eu estive. Você é uma desgraça. É você que causa todos os problemas dessa família. Eu te odeio, não quero ser seu filho, eu não quero que você seja o meu pai. Eu já estou de saco cheio de agir, falar e pensar como se eu fosse um ser frágil, das pessoas me tratarem como se eu fosse uma boneca. _Desabafou Ricelli.

_Acalme-se Ricelli! Sem brigas, por favor! _Falou Maria.

_Ricelli, cala a boca agora senão eu a estouro! _Falou Otávio grosseiramente para ele.

_Não, eu não vou me calar. Pois, eu já estou farto! Farto de tudo. Esse homem que eu tenho como pai é um desgraçado, ele não presta.

_Olha lá como você me trata, Ricelli! Eu já tô perdendo a minha paciência com você. Eu estouro a sua cara. _ Falou Otávio muito bravo com Ricelli.

_Estoura então, estoura, porra! Você é o culpado de tudo, de todas as desgraças dessa família. De todas as desgraças que andam acontecendo nessa família. Eu aceitei tudo, tudo calado, mas agora eu não agüento mais.

_Para com isso, meu filho! Já não estamos agüentando mais as suas explosões, as suas crises. _ Disse Maria.

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_Você sempre amou mais o Vinícius Luciano, sempre o preferiu mais do que eu. Por causa dele sempre me deixava de lado, era só ele que te importava. Só ele que tinha o seu verdadeiro e infinito amor. Pois bem! Deus fez que você perdesse seu filho amado, para que você me notasse, para que você me amasse, porque é no sofrimento que a gente cresce, aprende. E você vai ter que me amar nem que seja na marra, por isso Deus fez com que você o perdesse, pois perdendo-o e sofrendo você me amaria. Através do sofrimento você aprenderia me amar. _Explodiu Ricelli.

_Cala boca! Você não sabe o que está dizendo. Você precisa é levar umas porradas nessa cara para aprender a virar homem e parar com essas palhaçadas!

_Então bate! Pode bater, eu agüento. Eu sei que já virei seu saco de pancada mesmo. Bate que eu quero ver! _ Disse Ricelli revoltado. Ricelli se aproxima mais de seu pai ficando de frente a frente com ele.

_Não desafie, Ricelli! _Falou Márcia Eduarda.

_Não me desafie, Ricelli! Não me desafie porque você vai sair perdendo. Não me obrigue a machucá-lo.

_Não Otávio! _ Exclamou Maria.

_Você é um doido, um doente. _ Completou Otávio.

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_Doido é você, desgraçado! Eu já cansei de ser um nada nessa casa, o retardado, o idiota, o imbecil, o coitadinho que todos têm pena.

_Você é um coitadinho. Eu tenho pena de você! _Disse Otávio.

_Eu não preciso que você tenha pena de mim. Eu sei que não sou normal, que eu não sou igual a todo mundo deste mundo. Mas querem saber? Eu não tô nem aí! Na real, eu sei que vou morrer, e quando este dia chegar eu não quero que você nem chore! Eu não quero que ninguém chore porque eu estarei livre desta vida maldita! Quando eu morrer eu direi: Graças a Deus, Deus me libertou! Mas enquanto este dia não chega, tentarei arranjar um jeito de amenizar a minha dor! _Disse Ricelli para eles. Ricelli sai da sala.

Ricelli chega em seu quarto muito nervoso. Ele bate a porta ao fechá-la. Ricelli deita na cama e começa a pensar.

_ Ninguém escapará das três últimas fases da vida que é: morrer, apodrecer e virar uma vaga lembrança na mente vazia de quem nos ama, por um tempo indeterminado até sermos extintos de vez da memória dessa pessoa e assim acabar de vez com a nossa existência aqui na terra. E isso será como se nunca

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tivéssemos existido ao longe de vários nem tivéssemos vividos dentro desses longos anos trilhões de coisas que amamos ou odiamos ou nos fizeram rir ou chorar. É difícil imaginar que daqui a 150 anos ninguém lembrará muito menos saberá que existimos, isso só me faz ter a idéia que não somos nada nesse mundo e nunca seremos. E é isso que nos une fazendo com que todo mundo seja igual, sem distinção de cor ou raça.

Depois de algum tempo, Maria está na varanda da casa sentado na cadeira olhando para o lado de fora, com o cigarro nas mãos. Otávio se aproxima dela.

_O que podemos fazer pra ajudá-lo? _ Perguntou Otávio.

_Não sei. Agora é que você quer ajudá-lo? Sabe, tem coisas que o Ricelli diz que é a mais pura verdade. Você nunca ligou para ele, sempre deixou claro a sua preferência pelo Vinícius Luciano. Você nunca ligou para os

problemas dele, sempre debochou dos problemas dele por não conhecê-lo, tentar conhecê-lo. Pode ser tarde demais para você querer ajudá-lo. _ Disse Maria.

_Falando assim até parece que sou um monstro, que não gosto dele.

_Você pode até gostar dele, mas nunca demonstrou isso.

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_Também não é assim.

_Eu tenho medo que ela faça alguma bobagem. Ele é depressivo, tem ideias de morte. Eu não quero que ele morra!

Ricelli está deitado na sua cama virado de costas para a porta. Ricelli está chorando.

_Por favor, Deus, me leva daqui! Você não vê que esta vida é um tormento para mim! Se você não quer me levar, então não me mande para o inferno quando eu achar a saída com minhas próprias mãos, porque eu já não tenho mais forças para continuar!

_Disse Ricelli.

Era tarde quando Ricelli foi ao bar de prima de seu pai. O bar estava cheio, ele foi ao balcão.

_Isaura!

_Oi!


_Eu quero um litro de cachaça! _Disse Ricelli.

_É para seu pai?

_É. _ Respondeu Ricelli.

Ricelli sai com o litro de cachaça nas mãos. Ricelli foi para uma rua um pouco afastada, sentou-se no meio fio e começou a beber a garrafa. Após meia hora, Leo está passando nesta rua e o vê. Leo se aproxima dele.

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_Esquisitinho! Com esse sol rachando você tá bebendo? Não pensei que você fosse maior boca de gole. _Disse Leo.

_Tô aprendendo. Vai um gole aí? _Falou Ricelli.

_Claro. _ Respondeu Leo que sentou ao lado de Ricelli no meio-fio. Leo começa a beber.

_Essa é forte, hein. _Falou Leo.

_As fortes são as melhores. Eu preciso de algo forte hoje e sempre. _ Disse Ricelli.

_O que tá pegando?

_Problemas. Tirando isso tá tudo certo. A vida é bela, não é isso que todos dizem? A vida é bela, bela porcaria.

_É verdade. Até que isso é verdade. O que te deu, cara? Nunca te vi assim, tão para cima.

_Não estou para cima. Eu estava para baixo bebendo essa marvada, sozinho. Mas você apareceu e fiquei mais animado.

_Falou Ricelli.

_Você não é tão otário quanto eu pensei que fosse. _Disse Leo.

_Você não é tão mané quanto eu pensei que fosse. _Falou Ricelli.


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Às horas passaram e, Ricelli e Leo ainda estavam sentados no meio-fio, era noite. Eles estavam conversando muito, rindo muito, se dando bem.

_Você é gente boa! _Disse Leo para Ricelli.

_Não, você que é gente boa. Eu queria ser como você. Zoa pra caramba, se diverti, tem amigos, namoradas. Você é tudo que eu queria ser. _ Afirmou Ricelli.

_E por que você não seja assim?

_Não dá mais. Não consigo mais. Há um tipo de bloqueio dentro de mim que não me deixa ir além.

_ Você me achava gente boa até quando eu te batia?

_Perguntou Leo.

_Nesta parte não. Por que você me batia, mexia comigo?

_Sei lá! Para zoar o plantão, brincar.

_E quando isso começou a mudar.

_Não sei. Quando a sua mãe me desafiou no colégio. Você tem uma mãe incrível, cara. Uma mãe que eu queria ter.

_Você tá tentando dizer que diante dessas coisas que expus a você, eu pelo menos tenho uma mãe?

_É. a minha não presta, é uma safada. Não presta!

_Por que você acha isso de sua mãe?

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_Porque ela é.

_Você não deveria estar aqui comigo. _Falou Ricelli.

_Por quê?

_Você tem outros rapazes como amigos melhores que eu. Você deve andar no meio deles, não ao meu lado. Eles são iguais a você! _ Afirmou Ricelli.

_Que isso, Ricelli? Nada a ver. Ninguém é melhor do que ninguém. Apenas existem pessoas mais evoluídas do que as outras. Você também tem seu valor. E pra falar a verdade, todos os meninos com quem tenho amizade, não são amigos de verdades, são amizades vazias. São amigos de zoação! Amizade verdadeira não encontramos facilmente. _Disse Leo para ele.

Daniel chega ao quarto de Márcia Eduarda e tem uma pela surpresa. Ela conta para ele que está grávida. Daniel fica apreensivo com a novidade, mas ele incentiva Márcia Eduarda a falar com sua mãe. Márcia Eduarda tem uma conversa séria com sua mãe lhe contando sobre a gravidez. Maria não reage bem à notícia, mas aos poucos vai aceitando a ideia.

Daniel está passando de carro pela rua e vê Ricelli dormindo no meio-fio. Daniel para o carro e leva Ricelli para casa.
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Quando Ricelli chega em casa vai diretor para o quarto dormir, Maria vai atrás dele.

_Ricelli, o que deu em você agora? Você tá dando para beber agora? Ficar dormindo na calçada como um mendigo. Isso não pode! _Disse Maria ao entrar no quarto.

_Eu só quero encontrar uma maneira de me divertir.

_Falou Ricelli.

_ Mas existem várias maneiras de se divertir.

_Não há, mãe. Eu só não tenho esse tipo de esperança, esperança de que tudo irá mudar, que eu serei feliz. Quero ser normal. _ Disse Ricelli. Maria senta-se na beirada da cama ao lado dele.

_Você sofre muito, não é, filho?

_Eu acredito que a vida não é para mim, que eu sou um erro cósmico. Onde quer que eu vá, eu não conseguirei fugir. _Disse Ricelli.

_Fugir do quê?

_De mim mesmo. Eu sei, não adianta! A gente pode fugir de tudo nesta vida, só não podemos fugir de nós mesmos. Por isso, onde quer que eu vá eu nunca conseguirei encontrar um modo de viver que me deixe feliz, com ânimo para viver. _Disse Ricelli.

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_Deixe eu te salvar! _Falou Maria.

_Não há mais tempo.

_Para! Para Ricelli! Eu não gosto quando você fala assim!

_Disse Maria. Maria começa a chorar.

_Eu não gosto de quando você fala essas bobagens. Dói em mim! Eu te amo, filho, e não posso perdê-lo.

_Desculpa por existir!

_Não me peça desculpas por existir! _Maria abraça Ricelli.

Era tarde do dia seguinte, Otávio está sentado no sofá e Márcia Eduarda está deitada no sofá com a cabeça no seu colo, ele está fazendo cafuné na cabeça dela. Eles estão conversando sobre a gravidez dela. Ricelli desce as escadas e os vê no sofá, Ricelli para de andar e fica ouvindo o que eles conversam.

_ Não importa se eu sou fechado se eu sou carrasco. Você sempre será a minha filha amada e adorada. Não importa se eu não digo isso várias vezes ao dia. _ Falou Otávio.

_Eu sei, pai. Eu sei.

_Você e o Vinícius Luciano são tudo que eu queria ter na vida. Meus filhos amados e adorados. Um eu perdi, não tenho com substituir. O meu outro filho não o substituirá nunca! Mas eu tenho
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você minha única filha. Mesmo que eu não diga que te amo, isso não significa que eu não te ame. _Falou Otávio para ela.

Ricelli ao ouvir tudo sai correndo para fora de casa, eles nem percebem. Ricelli vai para favela onde compra maconha. Ricelli está numa rua isolada enrolando o baseado, Daniel que está de carro para próximo a ele, e o convence de não fumar aquele baseado dizendo-lhe o mal que aquilo faz a saúde.

_Não me venha tentar me dar lição de moral! desculpe, cara! Mas eu já estou cheio. Até parece que se eu não fumar esse baseado a minha vida mudará como num passe de mágica, que eu serei feliz, que a minha vida se tornará leve. Minhas esperanças acabaram. Não há mais jeito, elas se acabaram, e não haverá nada que me faça a acreditar, a engolir que a esperança é pra mim.

_Falou Ricelli.

_Tudo bem, cara! Talvez você esteja certo. Mas você fumando maconha, bebendo só está se autodestruindo.

_Eu não ligo, melhor me destruir do que viver com a ilusão que um dia eu serei normal.

_Você é normal, cara! Que isso? Não pense dessa maneira.

Falou Daniel para Ricelli.


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_Não, eu não sou. E sei lá por quê. Só sei que não quero viver na ilusão de algum dia eu alcançarei a felicidade, a normalidade. _Falou Ricelli.

_Não cara, não se deprecie dessa maneira. Você é legal, bacana.Não merece sofrer dessa maneira! Vamos para casa!

_Eu posso ir para casa hoje, mas amanhã eu retorno. Não adiantará! Eu só queria achar o meu lugar nesse mundo, mas eu não achei.

_Deixa eu te levar para casa!

_Não precisa ter pena de mim! Que droga! Eu não sei por que as pessoas têm pena de mim, quando tudo que eu quero é que elas não sintam pena de mim, que me olhe como sou, como uma pessoa normal. Me leve pra casa! _Disse Ricelli.

Noite, Otávio está no jardim da casa. Maria cansada de como a vida está e aproxima de Otávio para conversar com ele.

_Otávio! _Falou Maria.

_Eu quero ajudar o meu filho. Eu não agüento mais esta situação! Eu só quero encontrar uma maneira de salvar o meu filho antes que eu o perca, não me importa mais o casamento. Eu só quero salvar o Ricelli, e para salvá-lo vamos ter que começar desde o começo. _Disse Maria para Otávio.

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Maria começa a conversar com Otávio sobre um tal primo branco dela com quem ela teve um caso durante estava casada com ele no início do casamento quando o casamento deles estava em crise. Maria revela que Vinícius Luciano não é filho biológico dele.

_Eu já sabia. _Falou Otávio.

_O quê?

_Eu já sabia que o Vinícius Luciano não era o meu filho biológico, que ele era filho desse seu primo que você teve um caso há anos atrás.

_Você já sabia? _ Perguntou Maria chocada.

_Eu sempre soube. Eu sou negro, o Vinícius Luciano era branco. Eu é que aceitei a idéia que ele saiu puxando você que é branca! Isto poderia muito

bem acontecer.

_Você não demonstrava nada, que não sabia de nada.

_Pra quê e por quê? Isto não ia mudar em nada pelo que eu sinto, sentia pelo Vinícius Luciano. Desde sempre fomos ligados, não é por causa do sangue que eu deixaria de amá-lo. Ele é meu filho, sim! Pai é quem cria, não quem faz! Esse ditado se aplica agora. _Falou Otávio.

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_Como soube?

_Depois do acidente que houve com o Ricelli, fiquei desconfiado. Eu fiz um enxame de DNA escondido, peguei um fio de cabelo do Vinícius e o meu sangue e levei para analise.

_Por isso que você de repente mudou. Pra me punir você mudou, ficou frio, disperso com tudo que acontecia aqui e com seus verdadeiros filhos. Estava intacto a todos os problemas que acontecia aqui. Deixou de lado o Ricelli que precisava tanto de seu amor,de sua ajuda, da sua compreensão. Você deu todo amor, todo carinho para um filho que nem era seu de verdade e renegou isso a seu próprio filho. _Disse Maria.

_ Você não pode reclamar de ter sido enganada, pois eu fui enganado a vida inteira por você. Com o Ricelli acontece outra coisa.

_Que outra coisa? _Perguntou Maria.

_ Não sei, não sei. Eu só sei que tinha cansado de tudo. Pra quê lutar por uma falsa família feliz, para uma falsa esposa.

_Disse Otávio para Maria.

Depois de tanta conversa Otávio e Maria se entendem, um pede perdão ao outro pelas burradas que cometeram na vida. Maria diz que se arrependeu muito por ter traído ele, e que a única coisa

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boa daquela traição foi o Vinícius Luciano, e diz também que o admira por mesmo saber que Vinícius Luciano não era o filho dele biológico, ele o amou incondicionalmente. Ricelli observa os dois da janela do seu quarto, e se revolta quando os dois se abraçam. Ricelli fica muito nervoso e acaba destruindo o quarto quase todo, jogando algumas coisas no chão, gritando, batendo nas paredes, dando chutes na porta. Ricelli revira o quarto todo. Ricelli vai ao quarto de seus pais e pega uma arma na gaveta.

Maria e Otávio se reconciliam, e para comemorar Otávio coloca uma música bem lenta e começa a dançar com Maria. Maria e Otávio continuam dançando até chegar Ricelli que desliga o som fazendo tudo ficar em silêncio.

_Ricelli, por que fez isso? _Perguntou Otávio.

_Estávamos dançando. Ligue o som! _Falou Maria.

_Ligue!


_Eu sempre me perguntei por quê. Por que eu era assim, por que eu era diferente. Por que eu não parecia normal como todas as outras pessoas da minha idade.

_Por favor, Ricelli, hoje não! _Disse Maria. Márcia Eduarda e Daniel chegam a sala.


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_ Parece que a paz reinou novamente nesta família, que agora todos serão eternamente felizes como deveriam ser desde o início, mas esta felicidade vai durar por pouco tempo, até quando acontecer outra desgraça nessa família e abalar de novo a estrutura dessa casa.

_O que tá acontecendo aqui?

_ Sempre desejei saber de todos os porquês que rondava por minha cabeça. Eu também ficava me perguntando por que você amava o Vinícius Luciano e a mim não, saber disso me doía profundamente! Ficava me perguntando o que eu te fiz pra você não gostar de mim, eu era o mais que parecia com você, pra mim vocês eram tão diferentes, eu era o mais que parecia com você e você nem ligava pra mim. _Falou Ricelli.

_Ricelli, não faça isso com a gente!

_Essas idéias ficavam martirizando na minha cabeça. Eu ficava me perguntando: como meu pai pode ser tão ligado ao meu irmão e a mim não? Tentei deixar de lado; até que um dia nesta sala anos atrás, minha irmã e eu estávamos brincando de esconde- esconde. Eu escondi atrás daquele sofá, você e o Vinícius Luciano estavam sentados no sofá, ele estava com a cabeça deitada sobre seu peito, você estava fazendo carinho nele, eu ouvi você dizendo a

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ele que ele era o seu único filho, que você o amava, que a Márcia Eduarda e ele eram tudo que você desejou a ter. O Vinícius perguntou sobre mim, você foi indiferente; disse que não gostava de mim. Por quê? Por que você não gostava de mim? O Vinícius nem era da sua cor. _Continuou desabafando Ricelli.

_Ricelli, para! Não voltar a esse tormento.

_Depois daquilo começou desenrolar o drama da minha vida. Saí transtornado pela rua, foi aí que eu fui atropelado, fiquei dois meses em coma, saí diferente, nem conseguia falar direito. Tudo mudou na minha vida, tudo!

_Não me culpe pelo que aconteceu. Não me culpe! _Falou Otávio.

_Não, eu não vou culpá-lo. Você já se sente culpado, por isso você não gosta de mim! _Disse Ricelli.

_Me perdoe, Ricelli! Eu tentei gostar de você da maneira que eu gostava do Vinícius e da Márcia. Eu não consegui, não deu! Eu tentei amá-lo mas, não consegui! Eu me senti culpado pelo seu acidente sim, eu te vi saindo daqui triste, naquele dia. Eu olhava pra você e me culpava. Você tá certo. Por isso, eu não gostei de você. Mas, eu não tinha afeição por você desde sempre. _Pediu Otávio.

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_Eu era o seu filho, pô! Você tinha o direito de me amar, você era obrigado a me amar. Os pais têm que amar seus filhos incondicionalmente.

_Mas podemos recomeçar, Vitor! Lentamente. Podemos ser pai e filho como nunca fomos antes. _Falou Otávio.

Otávio o abraça. Ricelli agressivamente tenta tirar os braços de Otávio do corpo dele.

_Não. Não! _Disse Ricelli, que afasta de Otávio

_Podemos sim, vamos ser!

_ Podemos sim, vamos ser! Vamos recomeçar... Precisamos recomeçar!

_Não há mais tempo. _ Disse Ricelli que põe a mão na cintura e retira a arma.

_Não Ricelli!

_Abaixe essa arma!

_O que você fará, filho? _Disse Otávio.

_ Abaixe esta arma, Ricelli! Não faça nenhuma bobagem, Vitor Hugo!

_Disse Márcia Eduarda.

_Não faça nenhuma besteira, Ricelli!

_Ricelli, pensa no que você vai fazer, cara! _Daniel disse a ele.

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_Ainda há tempo de recomeçarmos, Ricelli! _Disse Otávio. Ricelli põe a arma no peito.

_Não há mais tempo, não podemos recomeçar, não podemos! Vocês é que serão felizes, eu não me encaixo nesta felicidade. Daqui a 5 ou 10 anos ninguém se lembrará de mim, estarão seguindo suas vidas normalmente e eu virarei uma pequena vaga lembrança. Por que eu tenho que ser obrigado a viver se me dói viver? Por que eu tenho que viver só porque vocês querem? Ninguém sente o que sinto. Eu odeio viver, mãe! Eu sempre odiei viver, pai! Não há mais jeito porque eu não quero viver sofrendo, e não adianta me levar à médicos porque a única realidade que existe é a dor e o sofrimento. Não há mais tempo!

Ricelli acaba de falar e aperta o gatilho da arma em seu peito. Todos gritam e se desesperam ao ver a cena.

Daniel, Márcia Eduarda e Maria estão no corredor do hospital aguardando notícias. Otávio com a expressão triste se aproxima.

_O que foi que os médicos disseram?

_Ele tá em coma, a bala perfurou o pulmão. Se ele sobreviver vai ser um milagre. _Disse Otávio. Maria e Márcia Eduarda caem no choro.

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Era manhã do dia, no quarto do hospital Ricelli, ligado totalmente aos aparelhos para de respirar e seu coração vai parando de bater lentamente. Ricelli falece; um espírito todo branco, alma de Ricelli sai do seu corpo e fica observando os médicos se aproximarem de seu corpo e tentando reanimá-lo.

Ricelli, em alma está sem entender muita coisa. O espírito de Vinícius Luciano se aproxima de Ricelli lhe dando a mão.

_Venha, irmão! _ Disse o espírito de Vinícius Luciano, esticando sua mão.

_O quê? Para onde? _ Perguntou o espírito de Ricelli.

_Para o outro plano. Para esse plano espiritual que você está agora. _ Afirmou Vinícius Luciano.

Mesmo sem entender nada, Ricelli lhe dá a mão e desaparece com ele do quarto do hospital. Os médicos desistem de reanimar o corpo de Ricelli e dão a notícia para a família. É um tremendo choque para todos quando recebem a notícia do falecimento de Ricelli.
Quarto bagunçado, tudo revirado. Em cima da escrivaninha ao lado do computador uma foto de Ricelli, em cima da cama um

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caderno aberto. Cabisbaixo, Otávio abre a porta do quarto. Otávio entra dá alguns passos pra frente. Otávio caminha até a escrivaninha de Ricelli. Otávio pega uma foto de Ricelli que está em cima da escrivaninha. Música triste começa a tocar. Otávio põe a foto em cima de escrivaninha, senta-se na beirada da cama pega o caderno Ricelli e começa a folhear. Numa página Otávio lê o que está escrito.

_Ninguém escapará das três últimas fases da vida que é morrer, apodrecer e virar uma vaga lembrança na mente vazia de quem nos ama,

por um tempo indeterminado até sermos extintos de vez da memória dessa pessoa e assim de vez acabar com a nossa existência aqui na terra. E isso será como se nunca tivéssemos existido ao longo de vários anos e nem tivéssemos vividos dentro desses longos anos trilhões de coisa que amamos ou que nos fizeram rir ou chorar. É difícil imaginar que daqui a 150 anos ninguém saberá muito menos lembrará que existimos, isso só me faz ter a idéia que não somos e nunca seremos nada nesse mundo.

_ Ao acabar de ler, Otávio começa a chorar.

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Ricelli e Vinícius Luciano de mãos dadas chegam ao plano espiritual, um lugar bem bonito com matos e gramas por toda a parte, uma paisagem belíssima com árvores cheia de folhas verdes.

_Que lugar é esse? _ Perguntou Ricelli.

_É aqui que estou irmão. _ Afirmou Vinícius Luciano.

_É aqui que vou ficar? _ Perguntou Ricelli. Vinícius Luciano balança a cabeça dizendo que não.

_Você ainda tem muito que evoluir ainda, meu irmão. A sua morte foi prematura demais. Você já tinha feito essa escolha antes mesmo de nascer._ Afirma Vinícius Luciano, que desaparece deixando só naquele mundo, novo mundo.

Ricelli, desnorteado e perdido começa a vagar pela mata sozinho e perdido, completamente só. Ricelli anda por horas e mais horas perdido e sozinho por aquele novo mundo sem ninguém para acolhê-lo e lhe dar paz. Anda por horas e horas até chegar no umbral, um lugar muito feio, escuro e com muito fogo onde há muita dor e sofrimento para os espíritos em processo de evolução, que cometeram suicídio, assassinatos e etc. Nesse umbral ouve-se muitos gritos, rangidos, gemidos e muita dor e sofrimento desses espíritos, e é lá que Ricelli ficará.
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Maria sentada no banco da Igreja está olhando para o altar. Otávio entra na Igreja.

_Por que meu senhor? Por que o senhor teve que tirá-lo de mim? Ele era um menino tão bom, tão adorável. Em menos de 6 meses você tirou de mim os meus dois filhos. Só te peço, agora que proteja a alma dele, o perdoe por ele ter feito mal a ele mesmo! Ele só queria uma saída para todos os seus problemas.

Otávio senta ao lado de Maria.

_Vim para ficar do seu lado.

_Obrigada. É tudo que eu preciso. Tá doendo, Otávio! _ Disse Maria.

_Eu sei_ Falou Maria, que coloca a cabeça no ombro de Otávio e começa a chorar.

Era tarde quando Maria estava na rua sentada em frente sua casa, Leo se aproxima dela.

_Oi!_ Disse Leo.

_O que você que? Veio constatar se é verdade o que aconteceu com o meu filho? Não vai ter mais ninguém para você encher de pancada._ Disse Maria, em um tom agressivo.

_Não, eu sinto muito pelo que aconteceu. Meus pêsames! Eu só vim dar o meu apoio a família. O Ricelli e eu estávamos

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ficando amigos. Pena que foi tarde demais para eu conhecer ele de verdade e ver a melhor pessoa que ele era.

_ Você batia nele, você e o bando daqueles moleques do colégio judiavam, mexiam com ele. Esse foi mais um fator para que ele quisesse deixar de viver, ele não era feliz.

_Eu sinto muitíssimo, dona Maria. Eu sinto muito!

_Não sinta! Nada do que dissermos vai trazê-lo de volta. Eu não fiz nada pra salvá-lo.

_Ninguém pôde fazer nada. Não se culpe! Posso lhe dar um abraço? _ Pediu Leo para ela. Maria se levanta e o abraça.

_Ele era uma estrela. As estrelas mudam de lugar, e ele mudou. _ Falou Maria.

No plano espiritual Ricelli, ainda está muito revoltado consigo mesmo, ele não consegue aceitar a ideia que tem que passar por tanto sofrimento ainda, que nunca achará a paz. Ricelli está começando a sofrer muito onde está não encontra a paz. Está no meio do fogo, do sofrimento, da tristeza.

_Eu tenho que sair daqui. Eu tenho que sair daqui! _ Disse Ricelli, tapando os ouvidos para não ouvir gritos, gemidos dos outros espíritos. O espírito de Ricelli começa a gritar e a gemer de dor.


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Está chovendo forte, eles estão dentro de uma capela no território de um cemitério. Há algumas pessoas em volta do caixão aberto com Vitor Hugo dentro. Maria, Otávio. Márcia Eduarda está com a cabeça encostada no peito de Daniel. Isaura e Flávia estão velando-o. Márcia Eduarda com o papel na mão vai para trás do caixão ficando de frente às pessoas.

_Antes de morrer, ele deixou uma carta de despedida que eu vou ler agora.

Disse Márcia Eduarda que começa a ler.

_ Quando vocês souberem dessa carta eu não estarei mais aqui, não sei se isso é bom, mas só sei que é um grande alívio. Não sentirei mais dor! Eu tentei, eu tentei viver mesmo na minha infinita solidão, eu tentei viver! Tentei mudar para viver. Mas, o que eu descobri é que não adianta você lutar por algo que nunca alcançará, o que você conseguirá é apenas exaustão, cansaço e perda de energia, porque têm pessoas que não nasceram para serem felizes, e nem encontrar o seu lugar no mundo. Eu não achei o meu lugar no mundo e é tão ruim não ter um lugar no mundo, você não sabe qual é a sua real identidade, eu queria tanto encontrar o meu lugar no mundo e ser feliz. Mas, talvez Deus não

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quis! Nunca senti algo que me motivasse a viver de qualquer forma que eu pudesse lutar, mesmo tendo no fundo do fundo do meu coração uma mínima esperança que eu nunca alcançaria. Eu não desisti de lutar, apenas parei de sonhar um sonho que jamais teria fim e se tornaria realidade. Mas daqui a alguns anos ninguém se lembrará que eu existi, o que me torna um ser real nesse mundo de ilusão que eu vivi, porque de um modo ou de outro a vida não tem final feliz. _ Acabou de ler Márcia Eduarda.

A família ficou muito abalada ainda, por vários dias. Otávio ficou mais sério do já era, apesar de tentar reconstruir o casamento, Otávio e Maria não estavam mais se falando frequentemente. Márcia Eduarda e Daniel estavam começando a planejar o casamento. Era noite, eles estavam à mesa de jantar jantando, estavam supersérios, um silêncio enorme estava sobre aquela mesa. Ricelli, em espírito, todo de branco e descalço está encostado na parede observando-os. Ricelli tá chorando muito.

_Eu não quero comer esta porcaria de comida. _Falou Maria, jogando o prato de lado.

_Que isso, Maria? _ Perguntou Otávio lançando um olhar para ela.

_Eu não quero comer nada.

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_Mãe, coma! Há dias você não come nada._ Disse Márcia Eduarda.

_Eu não quero comer nada. Eu só quero o Ricelli de volta, o Vinícius Luciano de volta. Eu só quero os meus filhos de volta para perto de mim. _ Afirmou Maria que começa a chorar.

_Mãe, se acalme, por favor! _ Disse Márcia Eduarda. Maria se levanta da mesa.

_Eu só quero os meus filhos de volta! Será que vocês podem entende? Será que alguém pode entender? Se você tivesse parado e olhado para sua família isso não teria acontecido, Otávio, ainda seríamos uma família. _Disse Maria para Otávio.

_Maria!_ Otávio se levanta da mesa e se aproxima dela.

_Seria tudo diferente se você tivesse amado o Ricelli como amou o Vinícius Luciano, como ama a Márcia Eduarda. A culpa é sua, sua!_ Gritou, Maria.

_Não me culpe, Maria! Ninguém tem culpa pelo que aconteceu.Nem eu e nem você. Não podemos controlar ou mudar a escolha que cada um faz em sua vida. Me escute! _ Disse Otávio que põe a mão no ombro dela. Maria retira o braço de Otávio.

_Eu seria feliz. Nós erramos._ Falou Maria. Otávio a abraça.

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_Não se culpe! Não me culpe! Foi uma fatalidade. Ele sofria muito. Ele só queria uma saída. Ele sofria muito.

_Nós o deixamos partir. O deixamos ir embora! A nossa família acabou._ Chorando disse, Maria.

_Mãe! _ Márcia Eduarda se levanta da mesa e se aproxima deles.

_Não se culpe, mãe! Ele sofria muito, ele só arranjou uma saída para se livrar de todo o seu sofrimento._ Disse, Márcia Eduarda, que a abraça.

Quarto escuro, luzes apagada. Otávio e Maria estão deitados na cama dormindo profundamente. De repente começa a ventar no quarto, as cortinas da janela balançam. Ricelli todo de branco e descalço está encostado na parede de frente para a cama onde estão seus pais dormindo olhando-os. Maria abre os olhos e se impressiona ao ver Ricelli.

_Ricelli! _ Exclamou, Maria, chocada com a presença do filho morto. Maria olhando-o fixamente se levanta da cama e se aproxima da imagem, na hora em que ela estica a mão para tocá-lo, ele desaparece.

Maria começa a chorar desesperadamente, Otávio acorda e pergunta o que aconteceu.

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_Eu vi, Otávio. Eu vi o nosso filho. _Afirmou Maria.

Maria e Otávio conversam sobre a visão que Maria teve, Otávio, claramente diz que não acredita no que Maria disse, e diz que ela deve ter sonhado, pois mortos não voltam, que tudo acaba com a morte.

_ Eu sabia, eu sabia que você me acharia uma maluca, doida varrida. Mas não to nem aí! O meu filho apareceu para mim e é isso que importa, Otávio.

Otávio e Maria foram dormir. Maria mal conseguiu pregar os olhos naquela noite esperando que o filho retornasse para vê-la.

Ricelli volta a vagar pela o infinito, pelo universo sozinho e solitário, mas ainda com muita revolta em si; ele sempre achou que quando morresse se libertaria, viveria em paz, mas não era isso que estava acontecendo com ele.

Ricelli estava sofrendo muito no plano espiritual também, e isso, estava provocando uma enorme revolta em sim fazendo com que, esta revolta atrapalhasse sua evolução espiritual.

A partir desse dia em que Maria, viu o seu filho preferido de novo ficou tão feliz que seus dias começaram a ficar alegres e contentes. Márcia Eduarda e Otávio não acreditaram que isso era

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possível de acontecer, eles não acreditam que existam vidas além da terra.

Tinha se passado alguns dias desde a visita que Ricelli tinha feito a sua mãe, Maria. Maria não dormia as noites só pra poder ter a possibilidade de ver Ricelli novamente, mas como não agüentava ficar acordada à noite toda, naturalmente, caía no sono e dormia profundamente só de cansaço e, quando acordava sentia um enorme remorso em si, por ter perdido a chance de ver Ricelli.

Noite, Maria e Otávio estão deitados à cama, Otávio acorda e pega Maria chorando.

_Eu estou esperando o meu filho, Otávio. _ Disse Maria, para ele.

_Você já tá ficando paranóica com esta história, Maria.

_ Você deve estar achando que estou louca, doida, não é? Mas não me importo! Eu sei que o meu filho virá me visitar. Ele vem todas as noites. Você acha que a gente morre e tudo acaba? Que não existe mais nada, que tudo se apaga?

_ O normal é isso, Maria. Eu não quero falar nesse assunto._ Afirmou Otávio.

_Por quê? É tão bom saber que tudo não acaba tão fácil assim depois da morte. Eu quero vê-lo novamente. Eu preciso vê-lo

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novamente para me realizar, para me satisfazer. Para ter a certeza que tá tudo bem. _ Falou Maria. Otávio vira-se para o lado e adormece.

Maria ficou horas acordada tentando resistir ao sono, mas não aguentou e dormiu profundamente.

Quarto escuro e sombrio, o relógio em cima da mesinha marcando quatro horas e vinte seis minutos, Otávio e Maria dormem profundamente. Otávio começa a sonhar um sonho que lhe marcaria para o resto de sua vida. No exato momento em que Otávio está sonhado ele está andando, em um lugar sombrio, escuro e muito assustador procurando por Ricelli. Neste sonho, Otávio caminha, caminha muito nesse vale de escuridão e sombrio até encontrar, Ricelli acorrentado, com corrente de fogo, em um pau. Ricelli está de cabeça baixa gritando e chorando muito.

_Ricelli! Exclamou Otávio.

_Ahhhhhhhh! _Exclamou Ricelli, gritando de dor. Ricelli levanta a cabeça.

_Salve-me, por favor! Salve-me! _Implorou Ricelli, acorrentado ao fogo.

_Eu não posso. Eu não sei como. _ Disse Otávio desnorteado.

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_Não me deixe aqui! Eu estou sofrendo muito. Não aguento mais essa tamanha dor, pai. Pai, me ajude, por favor!

_Ricelli! Ricelli!

_Você é meu pai... é meu pai. Tem que me salvar. Você precisa me salvar! Você precisa me salvar! _ Diz Ricelli, chorando.

_Eu vou te ajudar, meu filho. Eu vou te ajudar! _ Otávio se aproxima de Ricelli para desacorrentá-lo, mas na hora que, Otávio vai pegar nele, ele desaparece em suas mãos.

_Ricelli! Exclamou Otávio.

Otávio, assustado, acorda em cima de sua cama no quarto totalmente escuro. Otávio olha fixamente para imensidão do escuro, lentamente uma imagem branca aparece em sua frente, na beira da cama, é o espírito de Ricelli. Otávio se assusta mais ainda.

_Ricelli! _ Disse Otávio chocado com a imagem que vê.

_Por que você não me salvou? Por quê?_ chorando, perguntou Ricelli.

_Ricelli... Eu... Eu... É... _ Falou Otávio, confuso ainda com a situação na qual se encontra.

_Você tinha que ter me salvado. Você tinha que ter me salvado. _ Afirmou Ricelli para Otávio.
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_Meu filho! _ Otávio se levanta rapidamente para tocar em Ricelli que desaparece entre sua mão. Otávio grita. Maria acorda.

_ O que aconteceu, Otávio? _ Perguntou Maria que se levanta e ascende a luz.

_ Otávio, você está bem?

_Eu vi ele. Ele apareceu para mim.

_Que bom! Ele veio nos visitar. _ Diz Maria, abrindo um sorriso de felicidade.

_Por quê? Por que ele tá fazendo isso comigo? Ele quer o que? Me enlouquecer? Ele já se foi. O que ele quer? _ Perguntou Otávio.

_Como?


_Ele quer me infernizar. Eu sei. Ele disse que eu deveria ter salvado-o. Se isso não bastasse, ele teve que aparecer no meu sonho._ Falou Otávio, ainda impressionado.

_O que você tá falando, Otávio?

_Eu tive um sonho, um pesadelo com ele. Ele estava em um lugar sombrio e escuro, chorando. Ele estava acorrentado em
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uma corrente de fogo pedindo para que eu o salvasse. _ Disse Otávio para Maria.

Depois de aparecer em espírito para seu pai, Ricelli volta a vagar na terra em um mundo subsistente. Ricelli não conseguia sair dali, de dois lugares que para sempre retornava; o Umbral e ficar vagando pela terra onde não encontrava a paz que necessitava.

Isto que, Otávio estava vivenciando em sua vida era algo tão extraordinário em sua vida que, ele não dormiu a noite toda. Apesar de não acreditar que existe vida após a morte, Otávio estava começando a aceitar o fato. Maria estava tão feliz por ter certeza que existe, sim, vida após a morte.

Márcia Eduarda estava levando a sua vida adiante. Agora era só ela para ajudar a manter a família unida, pois com a morte dos irmãos a sua vida mudou completamente. Estava fazendo planos para se casar com Daniel.

Cada vez mais Daniel estava apaixonado por Márcia Eduarda, a recíproca era a mesma. Os dois teriam um filho que dariam o nome de Ricelli.

Quando Márcia Eduarda dizia para Daniel sobre o que estava acontecendo em sua casa, sobre as aparições de seu irmão

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em sua casa, Daniel não acreditava nenhum pouquinho nas histórias contadas por Márcia Eduarda, pois não acreditava em vida pós a morte. Era de dia quando os dois estavam no quarto de Márcia Eduarda, deitados estão conversando sobre o assunto.

_Isto é muito cabuloso. Eu não sei se acredito nisso. Aliás, eu não posso acreditar nisso. É tão surreal pra mim. _ Falou Daniel a Márcia Eduarda.

_Você acha que estou mentindo quando digo que meu irmão não se libertou, que ainda está preso nesta casa? _ Perguntou Márcia Eduarda.

_Não é que eu não acredite em você. Talvez, você esteja certa em suas convicções, mas eu não acredito nisto. Eu não acredito que alguém que morra volte de novo para este mundo.

_Eu não acreditava nisto também, mas ele apareceu para o meu pai. Acho que ele tá sofrendo muito onde está.

_Realmente não dá para acreditar no que você tá me falando. É muito surreal. Então, quer dizer, que quando morremos podemos voltar a essa terra como se ainda existíssemos? É tão surreal.

_Você fala em um tom de deboche, Daniel! _ Exclamou Márcia Eduarda.

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_Não é em um tom de deboche. Mas eu não acredito nessas coisas! É mais fácil eu acreditar em Deus do que em vida pós a morte.

_Você também não acredita em Deus, não é? Esqueci que você é ateu._ Disse Márcia Eduarda, brava com ele.

_Não vamos discutir sobre religião. Eu tenho as minhas convicções, os meus pensamentos. Você tem as suas.

_Nós vamos ter um filho, vamos nos casar. Não sei se vamos dar certo.

_Claro que vamos. Não é só por que temos opiniões diferentes é que não vamos dar certo. _ Afirmou Daniel.

_Você deve estar me achando uma maluca.

Mato por toda a parte, árvores com folhas super verdes. Há um córrego entre meio as árvores. Um lugar boníssimo, porém escuro. Ricelli está andando entre meio a essa paisagem. Ricelli está muito triste, oprimido. Vinícius Luciano está encostado em uma das árvores esperando por Ricelli. Ricelli caminha em sua direção.

_Por que Vinícius Luciano? Por quê? _ Perguntou Ricelli ao seu irmão. Vinícius Luciano só observa-o sem dizer nada.
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_Por que eu ainda sinto esse peso em mim? Por que eu não consigo me libertar? Me sinto tão preso, tão acorrentado.

_Há muito rancor, ódio em você. _ Afirmou Vinícius Luciano.

_Eu não sinto mais isso.

_Você precisa se desligar do mundo material para se libertar.

_Eu quero me libertar. Eu estou liberto.

_Não e tão fácil assim, irmão. Você não consegue, por isso tem aparecido para as pessoas da terra, pois ainda tá ligado a elas.

_Como eu faço para me desligar? _ Perguntou Ricelli.

_Só o tempo dirá. _ Diz Vinícius Luciano, que desaparece deixando Ricelli completamente só. Ricelli começa a ouvir gritos fortes, e bem alto, tapa os ouvidos.

Ricelli desaparece aparecendo em outro plano. Ricelli reaparece no Umbral onde começa a sofrer muito, a chorar. Seus ouvidos não aguenta ouvir tanta gritaria de sofrimento e seu espírito não agüenta mais tamanha dor.

Depois de tanta felicidade ao perceber, constatar que o filho morto ainda está presente em sua vida, Maria decide ir a uma médium. Esta médium é a sua vizinha. Maria sai de casa, anda alguns metros e chama por Zoraide. Zoraide a atende, Maria entra a

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casa. Esta casa é bem pequena, tem vários incensos espalhados pela casa, velas de sete dias acesas, cortinas bem vermelhas nas janelas. O aspecto do lugar é bem sombrio e frio. Maria adentra a casa observando tudo, e com um pouco de medo também. Apesar de serem vizinhas, elas nunca conversaram mal se cumprimentavam. Zoraide a leva para uma mesa de centro. Esta mesa contém um forro de pano bem branco, água e velas. Maria diz à Zoraide que quer saber sobre o filho morto dela, Ricelli, pois ele tem aparecido muito.

_Ele não tá bem._ Afirmou Zoraide.

_Como não? _ Perguntou Maria, para Zoraide.

_Ele ainda tá em um plano de evolução. Ele ainda tá preso a essa vida. Ele tá sofrendo muito, seu espírito não tem paz, sossego.

_Por que o meu filho tá nesse lugar? Por quê? Mesmo depois de morto ele não vai encontrar a paz. Por quê?

_Ele desencarnou de uma forma brutal, ele matou a si mesmo. Quando os suicidam se matam, eles vão para um lugar de evolução, para evoluir. É como se ele estivesse em tratamento para se melhor. E quem sabe algum dia reencarnar. _ Explicou Zoraide, para Maria.


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_É por isso que ele tem aparecido, até em sonhos, para nós?

_Sim. Ele ainda tá perturbado, ligado a essa vida. Não ligado em forma física que eu falo, mas ligado como se não tivesse se libertado, tivesse preso aqui. A melhor forma de libertá-lo é esquecê-lo.

_Esquecê-lo? Como assim? Como você quer que eu esqueça o meu filho querido? _ Disse Maria, indignada.

_Os mortos precisam de paz, sossego. Você chamando-o, pensando nele com sofrimento só o faz ficar cada vez mais ligado a essa vida, a não se libertar. O prejudica vocês ficarem pensando, chamando-o. desfaça das coisas dele! Dê as roupas, objetos dele. Não fique com mais nenhuma lembrança dele em sua casa, isso não o libertará só o prejudicará.

Depois de tanto ouvir os conselhos de Zoraide, que pede a ela que reze muito para a alma de seu filho, Maria sai de lá totalmente transtornada e com medo dessa revelação. Maria não sente bem ao saber que o filho não está bem mesmo depois de ter morrido.

Maria chegou à casa muito triste indo para o seu quarto. Ao chegar no quarto, Maria deita-se como se tivesse com dor de

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cabeça. Márcia Eduarda abre a porta do quarto se aproxima da cama de onde ela está deitada. Maria começa a conversar com a filha sobre o que Zoraide lhe disse.

_Eu acredito, mãe! Eu acredito que o Ricelli ainda não esteja em paz. Por isso, ele tem aparecido muito para você e o papai. _Disse Márcia Eduarda, para sua mãe.

_Você não acha loucura da minha cabeça. Você disse que não acredita em vida pós a morte, que não acredita que o seu irmão apareceu para nós.

_Eu aprendi que eu estava errada. Depois que você me falou algumas coisas eu fiquei pensando, pesquisei na internet sobre isso. Eu li, e tem cada coisa surpreendente.

_Sério, filha? O que você leu? _ Perguntou Maria, curiosa em saber da novidade.

_Eu li que pessoas perturbadas, que pessoas suicidas vão para um lugar chamado Umbral, um lugar de puro sofrimento e sem paz. Eles permanecem lá para evoluir, para se tornar uma pessoa melhor e aprender mais e muito mais até se reencarnar. _ Disse Márcia Eduarda para sua mãe.

_Ela me falou sobre isso. _ Disse Maria, que começa a chorar.

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_Mãe! _ Exclamou Márcia Eduarda.

_Eu sinto tanta falta dele. Eu sinto tanta falta deles.

_Não fique assim, mãe! _ Márcia Eduarda a abraça.

Os dias foram passando, a família de Maria estava totalmente despedaçada. Maria e Otávio não estavam mais bem, já não estavam bem antes, agora havia um abismo maior entre eles. As visões que Otávio teve de Ricelli, mexeram muito com ele. Otávio não estava conseguindo nem trabalhar direito. Otávio estava super triste e sério a cada dia, a cada vez mais. O que ele sentia na verdade era puro remorso. Remorso de não ter sido um bom pai para Ricelli.

Otávio tinha decidido que não queria mais tocar no assunto, nem saber do assunto sobre Ricelli. Não quis e nem queria saber o que Zoraide disse à Maria. Era domingo de manhã, estão a mesa do café da manhã Maria, Otávio, Daniel e Márcia Eduarda. Maria tenta puxa papo com Otávio sobre a conversa que teve com Zoraide dias atrás, mas Otávio se recusa a escutar isso acaba resultando numa briga. Otávio se levanta da mesa com muita raiva e sai disparado à garagem onde pega o carro e sai sem caminho a seguir. Essa briga deixou Daniel até constrangido que foi até


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embora, pois ele não acredita nessas coisas e para não deixar transparece sua opinião, ele acha melhor ir embora.

Rodovia, Otávio está dirigindo seu automóvel em alta velocidade. Otávio está pensando em uma de suas brigas com Ricelli. Lágrimas escorrem em seu rosto.

_Me perdoe! _ Disse Otávio, chorando em silêncio.

Daniel e Márcia Eduarda passeiam pelas ruas.

_Eu não entendi por que você saiu da minha casa tão rapidamente. Quase nem se despediu de mim. Por quê? _ Perguntou Márcia Eduarda.

_Ah! Eu não queria que sobrasse para mim àquela discussão que sua mãe e seu pai estavam tendo. Eu não quero que ela penso o que eu acho a respeito sobre isso. _Falou Daniel.

_Que você não acredita nenhum pouco no que ela diz? _ Perguntou Márcia Eduarda em um tom irônico.

_ Isso mesmo. Eu não quero que ela saiba.

_Você a acha maluca, não é? Que depois que ela perdeu seus dois filhos ela ficou paranóica?

_Eu não quero que briguemos por causa disso. Mas é tão irreal alguém que já morreu aparecer assim do nada. Eu não sou ligado a essas coisas de espírito. Talvez seja ignorância minha, mas

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eu não acredito que o Ricelli esteja nesse tal mundo que ela falou, muito menos sofrendo. Depois que a pessoa morre, ela merece é paz não mais sofrimento, ainda mais o seu irmão que sofreu bastante na vida.

_É isso que me dói saber. As pessoas sofrem tanto em vida e depois que morre continua sofrendo. Será que merecemos isso? _ Perguntou Márcia Eduarda em um tom melancólico.

_Eu não sei. Só sei que a vida está aí para ser vivida a cada segundo, a cada dia. Temos que aproveitá-la ao máximo, pois a vida é uma só. _ Disse Daniel para Márcia Eduarda.

Otávio para o carro na beira da rodovia, a pista não está muito movimenta. É um lugar lindo de puro verde, cachoeira a vista. Otávio desce do carro e caminha lentamente à cachoeira. Otávio aproxima-se da beira da água, e olhando fixamente a água da cachoeira cair começa a pensar no sonho que teve com Ricelli.

_ Me perdoa! Me perdoa! Eu queria muito, mas eu não consegui. Eu não consegui salvá-lo. _ Disse Otávio, chorando muito.

Lentamente, Ricelli, aparece atrás de seu pai. Lógico que Otávio não percebe e nem sente a presença de Ricelli. Ricelli apenas o observa chorar.


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_Eu te amava, meu filho. Eu percebi isso tarde demais. Tarde demais! É tanta dor que eu estou sentindo nesse momento. É uma dor intensa que eu vou carregar para o resto da minha vida. _ Diz Otávio, chorando muito.

Ricelli sente-se tocado com aquilo, mas não pode fazer nada, apenas sente-se atormentado. Vinícius Luciano se aproxima de Ricelli.

_Liberte-o! – Disse Vinícius Luciano, ao se aproximar de Ricelli. Ricelli não fala nada.

_Liberte-o. Liberte-o para que ele possa viver em paz. Não faça-o sofrer mais. Liberte-o!

_ Eu não posso. _ Afirma Ricelli.

_Pode sim. Liberte-o. É isso que você quer, não é? Quer que ele sofra só pra você se sentir melhor.

_Ele tem que sofrer. Sofrer igual a mim. É através da dor, do sofrimento que ele passará a me amar, já que não me amou quando ainda era tempo.

_Pra quê tudo isso? Isso também está te prejudicando, fazendo-o sofrer. Dessa maneira você nunca se libertará, nunca evoluirá. Nunca sairá de onde está. _ Falou Vinícius Luciano.


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_Eu não quero voltar para lá. Tire-me de lá! Tire-me de lá! Eu não tô suportando mais. É tão doloroso! Tire-me, por favor! _ Implora Ricelli.

_Eu não posso. Só você pode tirá-lo de lá mesmo. _ Falou Vinícius Luciano que desaparece.

Otávio agacha-se perante a água. Lentamente, Ricelli se aproxima de Otávio. Ricelli põe a mão no ombro de Ricelli. Otávio sente alguma coisa lhe tocar, olha para trás, mas não vê nada. Não vê nada, apenas sente algo lhe tocar carinhosamente. Otávio levanta-se, olha em sua volta para ver se encontra algo, mas não vê e nem encontra nada, apenas fica uma incógnita em sua cabeça. Otávio volta para o carro onde prossegue viagem.

Em casa, Maria recebe a visita de Isaura e de sua filha Flávia. É a primeira vez que Flávia vai nesta casa depois da morte do primo Ricelli. Enquanto isso, Otávio foi para um bar onde começou a beber muito. Parece que a paz que reinava na casa iria se perder novamente. Maria desabafou com Isaura que as coisas entre ela e Otávio estavam muito difíceis. Como Márcia Eduarda não estava em casa, Flávia foi até ao quarto de Ricelli e de Vinícius Luciano. Flávia abre a porta do quarto, em passos lentos adentra o quarto deixando a porta aberta, observando tudo calmamente, e

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lembrando-se dos momentos que passou naquele quarto quando era criança junto de Ricelli, Vinícius Luciano e de Márcia Eduarda. Flávia pega, em cima da cômoda, o portarretrato com a foto de Ricelli, olha esta foto fixamente. De repente Ricelli aparece por de trás dela, óbvio que, ela não vê e nem sente sua presença. Ricelli fecha a porta batendo-a bem forte, Flávia grita assustada. Cismada, Flávia sai do quarto imediatamente. Flávia chega à sala muito apavorada.

_O que foi, Flávia? _ Perguntou Maria.

_Sei lá. Eu fui ao quarto do Ricelli e do Vinícius. Eu senti alguma coisa estranha. A porta fechou sozinha. _ Afirmou Flávia. Maria sorri.

_Que coisa estranha, filha. Aconteceu isso mesmo?_ Perguntou Isaura, meio que duvidando.

_Foi sinistro.

_Quem sabe é o Ricelli manifestando a sua presença.

_Quê? _ Perguntou Flávia, lançando um olhar de arrepio para Maria. _ Como? Não. Fala sério, tia. O Ricelli? Ele tá morto.

_Isso não quer dizer nada. _ Afirmou Maria.

_Ai, agora fiquei com medo. _ Afirma Flávia.
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Maria conta para Isaura e Flávia que tem visto Ricelli pela casa, quase que diariamente. Flávia e Isaura, naturalmente ficam apavoradas, assustadas com a revelação de Maria.

_Você não fica com medo, tia? _ Perguntou Flávia para Maria.

_Eu não. Medo de quê? De meu filho me visita?

_Ele tá morto, tia.

_Eu não quero saber. O que me importa é saber que ele ainda tá ligado na gente, que tudo não se acabou. Que nada acaba com a morte. _ Disse Maria para Flávia.

Noite caiu, Otávio não tinha chegado em casa ainda. Maria estava super preocupa com a sua demora, pois ele saiu muito cedo e estava até àquela hora fora de casa. Márcia Eduarda, como namorada, estava na casa de Daniel. Então, Maria ficou sozinha em casa; não conseguia nem por um segundo parar de pensar em Ricelli, no que Zoraide lhe disse. Maria, também precisava se libertar, não conseguia mais levar a sua vida adiante depois das aparições de Ricelli. Maria subiu para o quarto, estava muito cansada, precisava urgentemente descansar o seu corpo. Ao chegar ao quarto, Maria começa a arrumar a cama para deitar-se,

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a trocar de roupa também, a se preparar para dormir um sono bem profundo. Ricelli imediatamente aparece e a observa. Maria não o vê.

_Eu queria tanto, tanto que você me sentisse! Eu tenho tanta saudade. Tanta saudade! Tanta saudade, mãe! _ Disse Ricelli.

Imediatamente, Maria, pensativa levanta a cabeça como se sentisse algo por dentro, algo inexplicável do qual não pudesse explicar a si mesma a sensação gostosa que estava sentindo por dentro. Maria abre um enorme sorriso de felicidade ao perceber ou até imaginar que pudesse sentir Ricelli.

O espírito de Ricelli voltou a vagar por um mundo sombrio e a continuar sofrendo pelo umbral. Ricelli estava no meio do fogo e de muito sofrimento, estava perdido sem rumo. Ricelli estava sofrendo muito. É quando recebe a presença de seu irmão.

_Me tire, me tire daqui, por favor! _ Disse Ricelli implorando ao irmão.

_Por que você foi lá? Por que tem que ir lá? Assim você nunca se libertará. _ Disse Vinícius Luciano ao irmão.

_Eu preciso. Você sabe. _ Afirmou Ricelli, a Vinicius Luciano.

_Não!


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_Eu preciso. Eu preciso, irmão. Eu preciso.

_Desse jeito você nunca se libertará, irmão. Nunca! Vai continuar sofrendo por achar que ainda tem alguma missão na terra. Você tem que se libertar deles.

_Eu não posso. Sinto-me preso. Sinto-me preso. _Diz Ricelli ao irmão. Vinícius Luciano desaparece. Ricelli se contorce de dor ao ouvir gritos pavorosos, dores imensas e intensas.

Era meia-noite e meia quando Otávio, bêbado entrou ao quarto. De tão bêbado que estava no momento, Otávio caiu no chão. Maria assustada acorda com o barulho, liga a luz. Obviamente e naturalmente que Maria discutiu com Otávio.

Amanheceu, e Otávio nem se levantou para ir ao trabalho. Maria ainda chateada com Otávio levantou-se cedo, mas nem preparou o café- da- manhã, ela foi à varanda onde ficou por várias horas pensando em como está a sua vida e de como pode resolver os problemas de sua vida. Depois de algum tempo, Otávio, de ressaca, chegou à varanda. Maria que estava neste momento fumando seu cigarro nem olhou para ele.

_Mulher, já fez um café bem forte? Eu tô precisando. _ Perguntou Otávio.


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_Não, eu não fiz café-da-manhã hoje. Não tem pão, café e nem leite. Eu não tô com cabeça para fazer nada._ Disse Maria, sentada na cadeira e fumando seu cigarro sem olhar para ele.

_Por que você não fez o café-da-manhã? Você sabe que eu não gosto de ficar sem tomar café na parte da manhã. E eu tô precisando de um café bem forte agora.

_Para curar a tua ressaca, meu caro, marido? _ Disse Maria em tom de ironia.

_Vai passar um café par mim, vai! _Disse Otávio, que se sentou em uma cadeira perto de Maria.

_Eu não vou não, Otávio. Eu não sou sua empregada. _Afirmou Maria a ele.

_O que tá te dando, mulher?

_Para de me chamar de mulher! _ Diz Maria em um tom bravo. _ Eu não gosto de quando você me trata assim! Eu não sou uma mulher qualquer, sou sua esposa. Mas se você quer saber o que tá me dando, eu lhe digo agora! Não estou mais aguentando esta vida.

_Qual é o drama agora, Maria? _Perguntou Otávio para ela.

_Drama? Você vai voltar a ser o mesmo de antes, a beber todos os dias. Você nem foi trabalhar hoje. O que tá te dando,

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Otávio? O quê? Tínhamos que ser mais unidos agora, mas a cada dia que se passa nós estamos nos separando.

_Isto é mentira. Não estamos nos separando.

_Pra você não, mas para mim sim. Estamos nos separando aos poucos. _ Afirmou Maria. _ Eu não quero mais continuar levando esta vida chata ao seu lado, de você embebedar à noite inteira e chegar em casa como um mendigo. Que mulher resiste a isso? _ Perguntou Maria.

_Ai, Maria, não enche! Eu só preciso de um tempo._ Disse Otávio, bravamente.

_Tempo pra quê? Para encher a cara na cachaça? _ Perguntou Maria.

_Sei lá.

_Quando perdemos os nossos filhos tudo mudou. O que já era ruim ficou pior ainda. Tínhamos que ser mais unidos. Daqui a pouco a Márcia Eduarda se casará e seremos só você e eu. Não era para ser assim.

_E você acha que eu quero que seja assim? _ Perguntou Otávio à ela.

_Então, por que você não para?_ Perguntou Maria.

_Porque eu não consigo.

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_Você está sendo fraco. Fraco! Não estou mais aguentando isso, não, Otávio. _Exclamou Maria para Otávio, que sai deixando-o sozinho.

_Maria! Maria! _Exclamou Otávio.

As horas, lentamente estavam passando e como era segunda-feira, Otávio e Maria ficaram em casa sozinhos já que, Márcia Eduarda foi da casa de Daniel para a faculdade. Maria passou o dia toda calada sem falar com Otávio, apesar de ele estar emburrado com Maria, queria muito falar com ela, mas não sabia como iniciar uma conversa. Apesar de aparentar-se durão, Otávio amava e ama muito Maria.

Noite, Flávia está em casa sozinha, põe a filhinha recém-nascida para dormir em seu quartinho todo rosa e foi à cozinha lavar as louças sujas. Flávia começa a lavar as louças sujas em cima da pia, distraidamente. Flávia começa a cantar sem pensar em mais nada. De repente, Ricelli surge por de trás dela encostado na porta observando-a. os olhos de Ricelli começa a lacrimejar, Flavia não percebe a presença do espírito de Ricelli atrás dela. Flávia acaba de lavar os pratos e secá-los, pega-os para pôr dentro do armário. Flávia deixa os pratos cair no chão ao gritar de susto ao

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ver o espírito de Ricelli observando. Ao ouvir os gritos dela, Ricelli desaparece. Flávia sai da cozinha correndo, vai para o quarto da filha onde a pega dormindo, e sai com ela no colo. Flávia correndo, chega à sala e ao abrir a porta da sala para sair, dá de cara com o marido, Flávia grita.

_ Sou eu, Flávia. O que foi? _ Perguntou o marido estranhando sua atitude.

_Que bom que é você. Tô com tanto medo. Você não sabe o que aconteceu. _ Disse Flávia super nervosa e assustada.

O marido de Flávia ao ver sua expressão, de perceber como ela estava muito nervosa, busca um copo de água com açúcar para acalmá-la. Flávia lhe conta tudo que aconteceu e o que viu. Seu marido não acredita muito no que ela lhe diz, mas não deixa transparecer sua dúvida em relação ao que ela lhe contou. Passado o susto e algumas horas depois, Flávia e seu marido foram dormir. Flávia não conseguia pregar o olho só de pensar na imagem que viu de Ricelli, ainda está com medo, mas Flávia não resiste ao sono e acaba dormindo. É de madrugada quando Flávia começa a sonhar com Ricelli. Na verdade Ricelli entra no sonho dela para comunicar-se com ela. O sonho que ela está tendo é muito triste; Flávia está andando em um lugar muito bonito cheio de árvores verdes por

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toda à parte, um céu azul imenso com um sol radiante, de repente o lugar muda se tornando um lugar feio, escuro e sombrio, Ricelli está no meio de um fogo chamando por ela.

_Flávia! Flávia! Me salve... me salve! _ Disse Ricelli para ela. Assustada, Flávia cominha até onde ele está.

_ Onde estou? Ricelli! Ricelli! _ Falou Flávia, totalmente assustada.

_Me tire daqui! Tire-me daqui!

_Ricelli! Eu não tô entendendo nada. Nada!

_Por que você não me amou? Por quê? Iríamos ser tão felizes.

Por que você não me amou quando eu te amei? _ Perguntou Ricelli para ela. Flávia fica cada vez mais apavorada.

_Ricelli! Ricelli eu... _ Confusa, Flávia nem sabe o que dizer.

_Iríamos ser tão felizes. Por que você não me amou? Por quê? Eu te amava tanto, e você sabia disso. Eu te amava tanto! Meu coração chegava até doer quando você chegava perto de mim e me tratava com carinho. Por que você não me amou? Por quê? Por que não me amou enquanto era tempo? Por que me deixou sofrer? Por que me deixou sofrer? Por quê? _ Diz Ricelli a ela.

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Em sua casa, no quarto, Flávia acorda aos gritos. Flávia começa a chorar, seu marido pergunta a ela o que está acontecendo, mas Flávia não responde. Flávia demorou, custou a dormir um sono profundo, o medo era tanto. Amanheceu e Flávia foi direto à casa de seu primo Otávio. Flávia contou para Maria a aparição de Ricelli e de seu sonho com ele. Maria fica espantada por ele ter visitado-a, e lhe diz para ela não ter medo que, ele apenas está visitando-a.

Cada vez que Ricelli voltava para o plano espiritual voltava mais fraco e mais sofrido, o arrependimento que estava sentindo por ter acabado com sua vida estava começando a brotar dentro de seu interior, o sofrimento era tanto. Parecia que era uma punição por sempre ir ao plano terrestre para afrontar o que deixou pendente na terra. Mais uma vez o espírito de Vinícius Luciano apareceu para convencer Ricelli de deixá-los em paz na terra, que não era para mais atormentar ninguém da terra.

_Eu só queria que eles sofressem. Eu só queria que eles sentissem na pele o que eu sofri, irmão. Eu queria me vingar de alguma maneira, queria que eles sentissem, de alguma forma, o mal que me causaram! Eu queria, mas não tô suportando mais. É tanta dor! Pensei que quando eu viesse para este mundo eu encontraria a

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paz, a felicidade, mas eu não encontrei. Eu estou sofrendo tanto, é tanto castigo. Por quê? _ Disse Ricelli a Vinicius Luciano.

_Deus sabe das coisas. Se hoje você tá assim é por que escolheu. Você tirou sua própria vida. _ Afirmou Vinícius Luciano.

_ Eu sei, mas eu precisava me libertar daquilo. Parece que temos que viver sofrendo, vivermos infelizes só por que Deus determinou. Eu só queria saber por quê.

_Ricelli, a vida não tem um por que. A vida tem que ser vivida sem sabermos de nada. Lembre-se! A vida é um mistério do qual nunca conseguiremos decifrar. Liberte-se, irmão!

_Eu quero me libertar.

_Então, se desligue lá da terra, só assim encontrará a luz e a paz que necessita a sua alma. _

Disse Vinícius Luciano a Ricelli, que desparece. Ricelli começa a chorar intensamente.

Os gritos de outras almas sofridas perturbam seus ouvidos e sua mente, Ricelli começa a sofrer novamente.

Os dias foram passando lentamente, Maria estava preocupada com o sumiço de Ricelli, pois ele não estava mais a visitando. Desde que brigaram, Maria e Otávio não estavam mais se falando, mas nesse dia eles voltaram a se falar novamente. Neste

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dia Otávio estava tão angustiado que desabafou com Maria sobre o que estava sentindo em relação a morte de Ricelli. Otávio confessou à Maria que amava Ricelli, mas nunca soube demonstrar esse amor para ele, e que hoje se sente mortalmente mortificado por não ter demonstrado isso a ele a tempo.

_Pode crer! Esteja ele onde estiver tenho certeza que ele te perdoou. _ Disse Maria para Otávio.

Maria e Otávio se reconciliaram, e como de praxe, transaram mais uma vez, passaram uma noite maravilhosa. Após esta reconciliação nada mais justa para a família do que uma surpresa, era a festa de casamento de Márcia Eduarda e Daniel. Os dois deram uma festa enorme para celebrarem a união. Na festa, por um momento, Maria manteve-se triste por não ter os seus dois filhos por perto dela, mas ela estava enganada, Ricelli estava pairando por ali os abençoando. Mas a noite prometia com a novidade que Maria deu a família, estava esperando um filho. no início, Otávio e Márcia Eduarda ficaram surpresos com a notícia, depois Otávio foi o que ficou mais feliz com a notícia, pois não imaginava ser pai novamente muito menos ao 51 anos de idade.

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Maria sabia desde o início que esse filho que estava gerando em seu ventre era um presente de Deus, que ele seria uma criança muito especial.

Seis meses depois nasce a filha de Márcia Eduarda e Daniel, mais uma benção na família. No plano espiritual, Ricelli já estava se regenerando aos poucos, encontrava-se no Umbral ainda, mas com menos intensidade.

Quatro meses depois, Ricelli está totalmente recuperado pronto para terminar sua missão na terra, para isso seria reencarnado. Maria dá a luz a um menino, Ricelli é enviado, é encarnado no corpo desse menino. Ricelli, reencarnado, renasce através desse menino. Maria e Otávio ficam muito felizes com a chegada de mais um filho na família, esse menino tem as mesmas características que Ricelli tinha na sua outra vida passada, tinha uma marca no peito esquerdo como se fosse uma pinta. Então, Maria dá a ele o nome de Vitor Ricelli. Vitor por ser uma vitória em sua vida, Ricelli porque ele a faz lembrar-se do seu filho amado. Mal sabia elas que Ricelli retornou à família, retornou à família como seu irmão para cumprir sua missão aqui na terra que ele mesmo interrompeu.


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Com a chegada desse menino na vida de Maria e Otávio, era como se todos os problemas tivessem acabado. Era a chance que Otávio tinha de corrigir todos os seus problemas, erros que cometeu no passado. Maria e Otávio estavam formando uma nova família, e assim viveriam felizes para sempre.

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